Tata Amaral e a inocência do pai

“Meu pai, imagina, não é um estelionatário!”, reage, com lágrimas nos olhos, Tata Amaral numa cena de seu novo documentário. A frase define sucintamente o que move O Rei do Carimã. É um doc em primeira pessoa, feito para reabilitar um membro da família. Na verdade, o projeto de Tata nasceu da recente revelação, por…

Viagens no tempo e no espaço

Quer fazer um tour do Rio de Janeiro em 1932? Ou ver a cara dos iranianos em 1953? Que tal sobrevoar de Miami até Nassau na década de 1940? Então corra ao The Travel Film Archive. Para quem, como eu, gosta de documentários e viagens (no tempo e no espaço), aquilo ali é uma nave…

Twitteratura: muitas ideias em poucas palavras

Em entrevista a André Miranda, há poucos dias, José Saramago disse que o Twitter é um passo a mais na descida do homem até o grunhido. Na certa, o autor de Ensaio Sobre a Cegueira não estava se referindo apenas ao mar de banalidades e recadinhos espertos dessa rede social. Estava duvidando do seu potencial…

Títulos

Sou apaixonado por títulos. Mais do que resumir uma obra, um veículo ou uma instituição qualquer, eles agregam sentidos, apontam direções, funcionam como despistes. Para Arthur Omar, por exemplo, intitular um filme ou uma fotografia é atribuir-lhe uma máscara, um disfarce. Certos títulos são obras em si, como O Inútil de Cada Um (livro de…

O enigma Morel-Marienbad

Um dos grandes enigmas intelectuais do século 20 é a relação entre o filme O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, e a novela A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. O livro narra a angustiante investigação de um perseguido político acerca do que se passa na ilha onde se refugiou. Ele se…

O homem sem impacto

Super Size Me encontra Uma Verdade Inconveniente. O resultado é No Impact Man, doc a ser lançado nos EUA em 11 de setembro. Os diretores Laura Gabbert e Justin Schein seguiram o escritor Colin Beavan durante um ano, enquanto ele se propunha levar uma vida sem causar nenhum impacto negativo ao meio-ambiente. Beavan deixou de…

Insustentável leveza

Eu temia que Coração Vagabundo acabasse conhecido como apenas o filme em que  Caetano Veloso mostra uma nesga do pênis. Se dependesse do marketing de Paula Lavigne, seria isso mesmo. Mas, felizmente, o doc de Fernando Grostein Andrade chega às telas com uma definição mais adequada: é um simpático e despretensioso retrato de Caetano em…

Ver Débora

Esta semana ela entrou na minissérie Som & Fúria como Julieta no baile de Verona. Só havia olhos para Débora Falabella. Ela fazia uma Julieta cujo amor transbordava da personagem para a atriz. E a gente não se contentava em gostar somente da personagem. Esses dias ela está também no palco do Teatro Nelson Rodrigues,…

Xô, microvida e metavida

Cotidiano tecnologizado, acesso imediato à informação, explosão das redes sociais… E a gente não consegue mais sair da frente do computador (ou desligar o celular). O grande desafio que se apresenta é: como selecionar? Desde que entrei no Twitter, senti a necessidade ainda maior de não sucumbir à avalanche da hipercomunicação. Para isso, vou consolidando…

Agnès Jaoui, irresistível

Desde que os documentários viraram trendy, viraram também tema de filmes de ficção. Exemplos recentes são o francês A Quase Verdade, o Grey Gardens da HBO e os brasileiros Ouro Negro e Mulheres Sexo Verdades Mentiras.  Mas nenhum resolveu melhor essa equação do que o francês Enquanto o Sol  Não Vem, em cartaz no Rio.…

Um jornal em campanha

O oposicionismo militante de O Globo já chegou às raias do ridículo. Na edição de hoje, a capa omite completamente a manchete do caderno de Economia (“Otimismo de volta a empresários” – aliás, que redação é esta?) e dá um destaque incompreensível a denúncia miúda envolvendo a Petrobras. Não gosto de escrever sobre política, mas…

Olhar social sobre os docs

Conheço três Patricias profundamente ligadas ao documentário. Patricia Montemór criou e dirige, junto com José Inácio Parente, o Festival Internacional do Filme Etnográfico. Patricia Rebello, estudiosa de docs, é doutoranda na UFRJ e colaborava com meu DocBlog. A terceira é Patricia Aufderheide, professora universitária e diretora do Center for Social Media em Washington.  Pat Aufderheide…

Play: Murilo Salles

Os DVDs de quatro filmes de Murilo Salles estão chegando às boas casas do ramo. É coisa para se comemorar. A filmografia de Murilo é essencial no cinema brasileiro contemporâneo por algumas boas razões, a começar pela originalidade com que ele aborda os temas escolhidos. A época da ditadura militar, por exemplo, aparece pelas frestas…

carmattwitter

Entrei no Twitter a título de experiência. Quero ver se dá pra usar com parcimônia e inteligência, sem sucumbir ao mar de e-nutilidades. Por enquanto estou seguindo apenas quatro pessoas: Marília Martins, que me estimulou a experimentar, Marcello Dantas, Jennifer Merin (blogueira de docs) e Barack Obama. Pretendo usar o Twitter somente para toques rápidos…

Estranhos no continente

Em entrevista a Marilia Martins, o escritor mexicano Carlos Fuentes estranhou a distância dos brasileiros em relação ao idioma espanhol: “Existe hoje um intercâmbio intenso entre escritores dos países de língua espanhola, e não existe o mesmo com os brasileiros, que ficam isolados no continente latino-americano”. E se perguntava: “Por que os brasileiros não são incentivados a…

A volta dos rockumentários

Woodstock, Gimme Shelter, Monterey Pop. Houve um tempo, entre o final dos anos 1960 e início dos 70, em que os megafestivais de rock eram tudo com que um documentarista americano sonhava. Muita música ao ar livre, multidões de jovens à disposição da câmera, clima de sexo e drogas livres, uma sensação de que o…

Cinco minutos de silêncio

Casamento Silencioso é um filme muito esquisito, que parece se equivocar em diversas frentes. Primeiro, na metragem. Podia/devia ser apenas um curta-metragem com a sequência das bodas propriamente ditas. Quando a festa é interrompida por ordem de um soldado russo em virtude do luto pela morte de Stalin (estamos na Romênia de 1953), os convidados…

Vote no Cavi

Uma das figuras que mais admiro no meio cultural carioca é o jovem Cavi Borges, da Cavídeo. Generoso, talentoso e bem-intencionado, ele faz filmes e produz filmes alheios, transitando entre a comédia moderninha e o documentário social, entre cinefilia urbana e cidadania periférica. Sua locadora é referência para quem quer algo (muito) além dos blockbusters. Sua…

Cursos bacanas

Claudia Dottori manda dizer que seu curso-mostra sobre Cinema Argentino Contemporâneo, no Espaço Telezoom, foi adiado para 24 de julho. Em foco, as obras de cineastas como Lucrecia Martel, Pablo Trapero, Carlos Sorin e Daniel Burman. Luiz Fernando Gallego, dublê de Dr. Jekyll (psicanalista) e Mr. Hyde (crítico de cinema), manda dizer que vai dar curso…

Tardes de julho

Ontem, ao cabo de quase uma semana dentro de casa, saí pela primeira vez depois da cirurgia. Levei meu joelho para a primeira sessão de fisioterapia. Enfiei a cara na tarde como um preso posto em liberdade. As tardes no Rio nunca são tão agradáveis como entre maio e julho: luz filtrada, sol amável, ar leve, carícia de frio na…

Chico e suas construções

Acabo de ler Leite Derramado. Admito que não me interessei muito pelo que teria acontecido na saga dessa linhagem de Eulálios, estendida dos tempos dos jesuítas à era dos celulares. Mesmo assim, adorei o livro. Mas como assim? É que me deixei carregar pelo fluxo de reminiscências e ruminações do velho Eulálio Assumpção num leito de…

Jurandyr em 26 minutos

Anna Azevedo entrega semana que vem ao Canal Brasil o programa sobre Jurandyr Noronha para a série Retratos Brasileiros. Ela e sua Hy Brazil Filmes produziram este que é meu primeiro trabalho de direção, se não contar os vídeos domésticos de viagens e uns Super-oitos que fiz com Julio Bronislawski em fins dos anos 1970. Aceitei o convite…

Uma invasão canadense?

Brilhante! É o mínimo que se pode dizer da minissérie Som & Fúria, de Fernando Meirelles na Globo. A intensidade e a velocidade características da TV são usadas não para jogar areia nos olhos do espectador, mas para despejar inteligência cênica, acelerar o humor e aditivar a ironia de um texto provocante. Vá lá que…

“In On It”: olhares fora do eixo

Uma das melhores notícias da cena teatral carioca recente foi a prorrogação da temporada de In On It no Oi Futuro. Vai até o dia 19, mas a essa altura já deve estar com ingressos esgotados. Pobre de quem perdeu. A peça do canadense Daniel MacIvor, tal como dirigida por Enrique Diaz e interpretada por…

O charme das Cinqueterre

Manarola em um cálice de bianco Depois de uma elipse de Dormonide e uma breve retenção urinária pós-operação, já estou de volta à casa com joelho novo. Agora começo o período de reclusão obrigatória. Uma boa forma de compensar a imobilidade é concluir a postagem das fotos da minha recente viagem à Itália. Depois de explorar…

O joelho de Carlos

Amanhã, terça-feira, vou entrar na faca. Mais precisamente, no artroscópio. Essa história começou dois anos atrás, quando sofri uma queda na plateia do Cine-PE e contundi o joelho. Na época fiz alguma fisioterapia, tomei um anti-inflamatório e, como as dores passassem, arquivei o problema. Mas ele voltou recentemente. Os exames acusaram uma ruptura no menisco,…

Tudo sobre Rouch

Com frequência recebo pedidos de divulgação de assuntos relativos a documentários. Como este aqui não é o DocBlog (que mantive por dois anos no portal de O Globo), nem sempre me obrigo a atender. Mas desta vez o assunto merece todo destaque. A partir dessa terça-feira, o mestre Jean Rouch (1917-2004) recebe a maior atenção…

Faz-se a luz: Storaro no Brasil

A fotografia e a projeção digitais, convenhamos, estão tornando o cinema mais feio. Primeiro, porque nem todo mundo é Ceylan (3 Macacos), que usa as novas tecnologias para aperfeiçoar sua estética. Muitas vezes, o que vemos é a rotina dos filmes rodados em DV, que não raro chegam à tela como pouco mais que borrões. Ou…

Aeroporto 2 de Julho

Como baiano emigrado, apoio o movimento para que o aeroporto de Salvador volte a se chamar Aeroporto 2 de Julho. Uma coisa é mudar o Galeão para Tom Jobim, uma glória nacional acima de qualquer suspeita. Outra é chamar o 2 de Julho de “Aeroporto Deputado Luís Eduardo Magalhães”, puro golpe de nepotismo da era carlista.

O céu segundo Bach

Meu saudoso amigo Victor Giudice (1934-1997) costumava chamar alguns músicos clássicos de “celestiais”. Bach, Mozart e Mendelsohn seriam “celestiais” por fazerem uma música que elevava o espírito e pairava acima das coisas do mundo. Eu, então, ficava imaginando quais seriam os “infernais”: Liszt, Wagner, Beethoven, talvez, em cujas obras faísca o fogo dos dramas e arde o mundo tormentoso das…