Conectividade ou morte
dezembro 29th, 2009 § Deixe um comentário
Consciência ecológica, crítica à ganância geoeconômica, mensagem de respeito ao diferente – todas essas ideias edificantes circulam velozes pelas veias de Avatar. A floresta, ora jardim das delícias, ora inferno dantesco, é o palco para uma atualização de dois gêneros: o filme de alienígena e o filme de índio. Obedecendo à lógica instalada nos anos 1960, os “estranhos” é que são os heróis, enquanto o papel de vilão cabe à ideologia belicista dos terráqueos e brancos.
Mas o que ancora toda a lógica politicamente correta do filme é algo bem mais contemporâneo. É o elogio da conectividade. O maior tesouro da civilização Na’vi é sua compreensão panteísta do universo, de que tudo está ou pode estar conectado. As árvores se comunicam, assim como homens e animais uns com os outros, corpos e espíritos. Conectar é “ver por dentro”, compartilhar energias e conhecimento.
Por isso os terráqueos beligerantes soam tão rudes e cínicos. Mais que tudo, eles são a retaguarda da desconexão. No seu egoísmo devastador, não têm noção da importância de compartilhar. Para eles, o mundo é pura matéria-prima para ser explodida e transformada segundo seus interesses. Para aqueles senhores da guerra, nada se conecta com nada, a não ser com um fim de conquista através dos avatares.
O filme de James Cameron coloca vários temas clássicos para convergir num grande tema que interessa à mentalidade e à indústria tecnológica de hoje: um mundo que precisa da conectividade para ver as coisas por dentro e, quem sabe, se salvar de um horizonte de autodestruição. Conecte-se, ou será desconectado para sempre.
Nelson na loja de louças
dezembro 28th, 2009 § Deixe um comentário
Desde que Nelson Pereira dos Santos tomou posse na Academia Brasileira de Letras, os imortais passaram a conviver mais intimamente com o cinema. O assunto incorporou-se ao menu dos chás, e um cineclube semanal exibe adaptações literárias no auditório. Nada mais natural que Nelson, além de levar o cinema à ABL, levasse a ABL ao cinema.
O doc Português, a Língua do Brasil é uma coletânea de depoimentos e minipalestras dos acadêmicos sobre as delícias e os dilemas do idioma. O filme passou na semana passada, em sessão única diária às 14h, no Estação Laura Alvim. Você certamente não foi lá, mas… quem foi? Na sessão a que compareci, na antevéspera do Natal, éramos cinco pessoas na sala. A bilheteira me disse que quase todos os lugares haviam sido previamente comprados (por alguma instituição, suponho), mas que ninguém haveria de aparecer.
Sendo assim, passo a contar o filme, pois, afinal, é assinado pelo mais importante cineasta brasileiro vivo. Nele, Nelson está em casa, mas só em termos. Com exceção de duas cenas, tudo foi filmado nos interiores da ABL, um cenário que impõe certa formalidade entre escritores de terno e gravata. Nelson encena encontros com os colegas em diferentes recintos dos prédios moderno (Palácio Austregésilo de Athayde) e tradicional (Petit Trianon). Vale como tour da Academia para quem não a conhece por dentro.
No tom um tanto cerimonial das conversas, Nelson parece mais ouvir do que conversar. Sua postura sugere um certo engessamento, como um velho malandro tentando não dar vexame numa loja de louças. Fala-se da necessidade de “manter a juventude” da língua, de sua natureza de “organismo vivo” e do contraste entre a grande diversidade do português e sua unidade que facilita a comunicação. Discutem-se a importância da “norma culta” e a relação da língua oficial com os regionalismos e coloquialismos.
Pode soar como um silogismo barato, mas as falas de Nélida Piñon e Ana Maria Machado soam menos compenetradas e mais coloridas que as da maioria dos homens. Isso me fez pensar em até que ponto o paletó e a gravata enrijecem o discurso. As exceções masculinas são justamente João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, entrevistados em suas casas, em mangas de camisa. Aí o cânone se quebra e imperam a descontração e a fala livre.
Há 45 anos, Nelson Pereira dos Santos dirigiu com os primeiros alunos da UnB o curta Fala, Brasília, um ensaio documental sobre os diversos falares reunidos na nova capital. Português, a Língua do Brasil, com seu oficialismo assumido acriticamente, não é um eco, mas um contraponto àquele vibrante filme brasiliense. O cineasta que trouxe a expressão popular para o cinema brasileiro recolhe agora as razões da expressão culta.
Boilesen, braço civil da ditadura
dezembro 26th, 2009 § 1 Comentário
O ótimo roteiro de Cidadão Boilesen constrói três narrativas paralelas. Uma se refere à história da Operação Bandeirante (Oban), que reuniu empresários e militares na repressão ao ativismo de esquerda nos primeiros anos da ditadura. Outra reconta as circunstâncias do atentado contra Henning Boilesen, dono do grupo Ultra e um dos principais financiadores da caça aos ativistas. Uma terceira narrativa faz o estudo do personagem Boilesen, definido em certo momento como “uma síntese das contradições humanas”, ou algo parecido.
A forma como essa três linhas convergem e se articulam responde pela eficiência do filme, premiado na competição nacional do É Tudo Verdade de 2009. Continue lendo
Garrafas festivas
dezembro 24th, 2009 § Deixe um comentário
Linduarte e as intrigas paraibanas
dezembro 22nd, 2009 § Deixe um comentário
A história do cinema na Paraíba tem lances épicos como Aruanda e O País de São Saruê, mas também pode ser contada pelo lado da intriga provinciana. E, em ambos os casos, envolve com frequência o nome de Linduarte Noronha.
É bem conhecida a polêmica em torno do roteiro de Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello para Aruanda (1960), cujos créditos não foram reconhecidos por Linduarte. Cinco anos depois, quando passou por João Pessoa para rodar Menino de Engenho, Walter Lima Jr. sentiu a ciumeira da turma de Linduarte. Este enviou uma carta a Glauber Rocha falando de “balé de intrigas” a respeito do filme na Paraíba. “Todo mundo é produtor da fita. Notícias as mais cavilosas circulam nos jornais diários”. Continue lendo
O doc vai subir a serra
dezembro 21st, 2009 § 3 Comentários
Alô, turma de Petrópolis. Em janeiro e fevereiro eu darei um curso sobre documentário brasileiro contemporâneo no SESC-Quitandinha. As sete aulas serão às quintas-feiras, das 16h às 19h. Para informações sobre inscrições, o telefone é (24) 2245 2020.
A ideia do curso é examinar como o documentário brasileiro contemporâneo, prestigiado no país e no exterior, longe de ser um rótulo, é um feixe de métodos e linguagens que fazem sua riqueza. Vamos estudar cada uma dessas alternativas, a partir da obra de cineastas fundamentais como Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Evaldo Mocarzel, Kiko Goifman e outros. Além disso, vamos situar a nova fase em relação à história do documentário brasileiro e às influências internacionais que sobre ele se exerceram desde os anos 1960.
Todas as aulas serão ilustradas com a exibição de trechos de documentários e alguns filmes na íntegra.
O temário dos encontros será o seguinte:
Dia 7/1: Discussão do conceito de documentário e das principais teorias. Rápido panorama histórico do documentário brasileiro até a década de 1980.
Dia 14/1: Cinema-verdade e cinema direto: métodos que engendraram o documentário moderno. Seus primeiros frutos no Brasil e sua herança atual. O documentário sociológico.
Dia 21/1: Eduardo Coutinho: realidade, representação e depuração na estratégia do encontro. A autoficção.
Dia 28/1: João Moreira Salles, Maria Augusta Ramos etc: a observação como postura e como dramaturgia.
Dia 4/2: Kiko Goifman, Sandra Kogut etc: o documentário pessoal. As novas releituras do filme doméstico. O caso Santiago.
Dia 11/2: Evaldo Mocarzel, Roberto Berliner, Paulo Sacramento, Andrea Tonacci etc: problematização da entrevista, metalinguagem, convivência, transferência de meios e reflexividade.
Dia 25/2: Tradição e invenção. Heranças do documentário clássico: Ônibus 174, biografias, documentários musicais. O documentário de invenção: Cao Guimarães, Joel Pizzini, Arthur Omar etc. O pseudo-documentário no Brasil.
Cinema em cartaz
dezembro 19th, 2009 § 6 Comentários
Meus amigos conhecem minha mania de colecionar cartões postais de cinema. Tenho mesmo alguns “correspondentes” que se encarregam de coletar cartões em festivais no exterior. Entre eles, Vivian Ostrowsky, José Carlos Avellar, Marcos Magalhães, Myrna e Carlos Brandão. Antigamente colecionava posters grandes, mas a falta de espaço e de condições adequadas de armazenamento me fez optar exclusivamente pelos postais. E só mesmo os que reproduzem cartazes de filmes e de eventos cinematográficos. Nunca contei, mas acredito ter em torno de 5.000 postais hoje em dia.
Aprecio os cartões não só pela referência ao cinema, mas também pela arte gráfica, os diferentes estilos, a procura de um diálogo entre a visualidade do poster e o espírito do filme. E mesmo as distintas leituras de um filme em países diferentes. Um dia ainda penso o que fazer com a coleção: um estudo? Um livro? Uma exposição? Continue lendo
Milagre em Recife
dezembro 18th, 2009 § 1 Comentário
Os recifenses costumam dizer que sua cidade só conhece duas estações: verão e inferno. Mesmo no período chuvoso, entre abril e agosto, o calor não dá tréguas. Foi nessa época do ano, quando a fornalha se cobre de nuvens e adquire tons de cinza, que Kleber Mendonça Filho filmou seu novo e maravilhoso curta, Recife Frio. Algumas cenas foram rodadas em Gramado e na África do Sul. Inserções cenográficas e de figurinos, um tratamento sutil na finalização das imagens e um roteiro sugestivo completam as condições para esse fino exercício de sátira social através da ficção científica. Continue lendo
Estado permanente de roteiro
dezembro 16th, 2009 § Deixe um comentário
Há quem queira sacar o revólver quando ouve falar em roteiro de documentário. Uma concepção ingênua ou muitas vezes hipócrita sustenta que os docs são imunes ao roteiro, já que nasceriam, magicamente, de um confronto direto com o real. A prática, porém, não confirma isso. No Brasil, sobretudo, parte considerável da produção documental depende de editais, que requerem a apresentação de um planejamento, um pré-roteiro. Mais tarde, durante as filmagens, a confecção de pautas e a previsão de linhas de ação ganham importância para um trabalho criterioso. Já na montagem, tudo responderá a um novo roteiro a partir do material filmado. Este roteiro de edição, aliás, é o mais claramente assumido pelos documentaristas. Continue lendo
Mauro por Ronaldo
dezembro 14th, 2009 § Deixe um comentário
Nesta terça-feira, às 19 horas, na livraria Blooks (Unibanco Arteplex), o poeta, escritor e jornalista Ronaldo Werneck lança Kiryrí Rendaua Toriboca Opé – Humberto Mauro Revisto por Ronaldo Werneck. Com capa dura e 450 páginas numa edição caprichada da editora artepaubrasil (SP), o tijolo é uma homenagem de mineiro para mineiro – do poeta das palavras ao poeta da imagem.
Infelizmente, por estar fora do Rio, não poderei comparecer à noite de autógrafos, quando Ronaldo vai exibir dois filmes que fez sobre Mauro, sOLdade e Mauro Move o Mundo. Mas deixo com vocês o texto que honrosamente escrevi para as orelhas do livro:
O sertão “difícil de mudar” de Rodolfo Nanni
dezembro 13th, 2009 § Deixe um comentário
O colombiano Luís Ospina fez em 1977 um filme arrasador sobre a volúpia dos documentaristas pela miséria do povo. Agarrando Pueblo era o falso making of de um doc, mostrando os critérios e as artimanhas da equipe para filmar sempre o pior, o mais deplorável.
Descontados os exageros de sátira, lembrei-me de Ospina ao ver O Retorno. Rodolfo Nanni, 84 anos, foi ao sertão pernambucano com um parti pris. Queria mostrar que pouco havia mudado desde que ele filmou, em 1958, o doc O Drama das Secas. Naturalmente, apontou sua câmera e o texto de sua narração para sinais que comprovassem a permanência da morte (o filme abre com um enterro), da fome, do acesso difícil à água e da má distribuição de oportunidades no semi-árido nordestino. Continue lendo
Memórias no coradouro
dezembro 12th, 2009 § Deixe um comentário
Da caudalosa e ruidosa produção recente em torno do espólio de Glauber Rocha, Diário de Sintra é uma exceção refrescante. Em vez de ordenar suas memórias em função de um documentário informativo ou laudatório, Paula Gaitán lhes deu asas para voar livremente. Ao contrário do que sugere o título, não temos uma cronologia, mas um fluxo de associações poéticas, um diário do inconsciente que recorda.
Paula, companheira de Glauber nos seus últimos anos, conviveu com ele e os pequenos Ava e Eryk na bucólica cidade portuguesa (“um belo lugar para morrer”, como disse Glauber a Patrick Bauchau) durante a enfermidade que o vitimaria em 1981. As filmagens domésticas em Super 8 daquele período ressurgem em meio às imagens de uma revisita à Sintra atual. Imagens sobre imagens, vozes sobre vozes – tudo no filme são ecos, vibrações da lembrança que vez por outra se condensam na forma de pequenas performances plásticas, bem de acordo com o estilo da autora.
As fotos de Glauber são expostas aos elementos da natureza, como parte de instalações panteístas que atraem as correntes de memória. São também entregues a portugueses que se lembram ou que nunca ouviram falar de Glauber Rocha. Flutuam na indefinição porque não estão ali como um fim, mas como o princípio de uma busca. “Caminhos que levam a Sintra ou talvez a lugar nenhum”, diz a certo momento a voz de Paula.
A ausência de um destino certo, apesar de Sintra, é o segredo da beleza desse doc experimental. Belos são os silêncios que se opõem à verborragia comumente associada a Glauber, a delicadeza de uma estrutura feita inteiramente de fragmentos, a edição desesperada e muda que quer traduzir a agonia do cineasta perto do final. Não sabemos como Paula lavou e esfregou suas recordações intimamente, mas dividimos com ela esse bonito momento em que as botou para corar ao sol suave de Sintra.
Janelas para a praça
dezembro 11th, 2009 § 1 Comentário
Um tipo de plano se repete em Praça Saens Peña como uma assinatura do filme: a câmera vasculha a rua pela janela de um apartamento, inicialmente simulando o olhar de alguém que não sabe bem o que procura. Apenas olha a rua. Num movimento lateral, sem corte, a câmera passa a enquadrar a pessoa que olha da janela. O que parecia ser um plano subjetivo vira objetivo, ou as duas coisas ao mesmo tempo. O foco está no bairro, a “Grande Tijuca”, na acepção orgulhosa do professor vivido por Chico Diaz; mas está também nas “pequenas expectativas” dos personagens, para usar a feliz expressão de Eduardo Escorel em seu artigo sobre o filme (que, atenção!, contém spoilers). Continue lendo
Dias de Glória
dezembro 9th, 2009 § 4 Comentários
Ontem (terça) foi meu dia de Glória Pires. Pela manhã, a vi carregar nas costas o melodrama de Lula, o Filho do Brasil. Suas aparições são breves em relação aos outros personagens, mas cada vez que Dona Lindu entra em cena, é como se ligasse a corrente elétrica do filme. Poucas palavras, muitos olhares e uma inteireza cênica que nada pode abalar.
À noite, Glória era outra mulher na pele de Baby, a paulistana solitária de É Proibido Fumar. Quase o tempo todo no quadro, ela mais uma vez me fazia esquecer a diferença entre atriz e personagem. Só Glória e Fernanda Montenegro são capazes de se despir de todo estrelismo com tal propriedade. Não há qualquer resquício de pose, “técnica” ou “composição” na maneira como Glória encarna essas duas mulheres do povo – uma mãe-coragem sertaneja e uma urbanoide compulsiva. Continue lendo
Uma caneta na mão…
dezembro 8th, 2009 § 3 Comentários
Fui ontem à noite ao lançamento do livro Contente em Ler Cineastas, na Casa de Cultura Laura Alvim. Este é o primeiro volume de uma série de cinco livros da série Contente em Ler, que reunirá pequenos textos de artistas de diferentes áreas. A iniciativa é de Renata Boldrini, Maíz de Oliveira e Fernanda Cortez, criadoras da Contente Entretenimento. Como diferencial, as meninas destinam parte da receita de venda dos livros a instituições sociais. Neste primeiro, o Instituto da Criança.
Os textos são crônicas, contos, memórias e reflexões sobre cinema, de acordo com a escolha de cada cineasta convidado. O escrete congrega veteranos como Ruy Guerra e Roberto Farias, e emergentes como Mauro Lima, Esmir Filho e Fellipe Barbosa. Sandra Werneck é a única mulher. Leituras rápidas para enquanto se espera o filme começar.
Dos 20 autores, cerca de metade estiveram presentes na noite de autógrafos.
E agora vejam o autógrafo que o Padilha colocou no meu livro. Não sei se foi apenas um clichê ou um recado para o crítico que fez francas restrições a seus dois últimos filmes, Tropa de Elite e Garapa.

Serra e FHC – os filmes
dezembro 6th, 2009 § Deixe um comentário
Semana que vem, finalmente, vou ver Lula, o Filho do Brasil, o primeiro provável blockbuster do ano que vem. Quase tudo o que tenho ouvido soa favorável ao filme, exceto pela choradeira da oposição ao associar o lançamento com o calendário eleitoral. Para equilibrar as coisas nessa área, só se fizessem um filme sobre José Serra ou Fernando Henrique Cardoso.
Mas imaginem o que seria uma cinebiografia desses dois, a não ser como documentário careta. Serra ainda poderia posar de criança pobre da Mooca, filho de um vendedor de frutas, depois ator de peça de Zé Celso, presidente da UNE e um dos fundadores da Ação Popular. O período de exílio no Chile encareceria um pouco a produção, mas depois disso viria uma monótona sucessão de cargos públicos e legislativos, interrompida apenas pela boa passagem pelo Ministério da Saúde e a conquista do governo de São Paulo. Duvido que isso desse para uma boa bilheteria. Continue lendo
Etnográficos premiados
dezembro 4th, 2009 § 1 Comentário
Joana Carelli subiu ao palco três vezes na cerimônia de premiação da 14ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Ela representava o pai, Vincent Carelli, autor de Corumbiara, para receber os prêmios Manuel Diegues Jr. pela importância do tema, o Prêmio Aquisição de longa-metragem da TV Brasil e o Prêmio OCIC (Office Catholique International du Cinéma). Com isso, Corumbiara se distancia como o doc brasileiro mais premiado do ano.
O desconcertante Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, que comentei dois posts abaixo, ganhou o Prêmio Manuel Diegues Jr. de concepção e realização, enquanto Negros, uma compilação que evidencia a passagem dos negros baianos das bordas para o centro da imagem ao longo do tempo, ficou com o prêmio relativo a desenvolvimento, pesquisa e roteiro.
O júri do Prêmio Manuel Diegues Jr., composto por Edilberto Fonseca, Julia Wagner e Patricia Rebello, concedeu menções honrosas ao contagiante Depois Rola o Mocotó, de Debora Herszenhut e Jefferson Oliveira, Homens, Máquinas e Deuses, de Eduardo Duwe, e Os Olhos d’Água de Nossa Senhora do Rosário, de Pedro de Castro Guimarães.
Além de Corumbiara, mereceram prêmios de aquisição da TV Brasil o curta Damas, de Mariana Mattos e Luísa Moraes, e o média Nas Rodas do Choro, de Milena Sá.
O júri da ABD&C (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtas-metragistas) deu seu prêmio a Batatinha, Poeta do Samba, de Marcelo Rabelo, além de uma menção honrosa a Outra Cidade, de Coraci Ruiz.
Nesses poucos dias de mostra, 50 projetos já se candidataram no edital Etnodoc. As inscrições vão até 30 de dezembro pelo site www.etnodoc.org.br.
Perguntas entre a luz e a sombra
dezembro 3rd, 2009 § Deixe um comentário
Chega finalmente ao Rio nesta sexta um dos melhores documentários do cinema brasileiro recente. Desde as primeiras exibições em festivais e pré-estreias, e na primeira semana de exibição em S. Paulo, Santos e Belo Horizonte, o filme de Luciana Burlamaqui tem levantado vários tipos de questões sobre os conflitos sociais brasileiros e a consciência das pessoas a respeito deles.
É curioso que Luciana não tenha feito muitas perguntas aos personagens de Entre a Luz e a Sombra. Preferiu o método da observação, colhendo cenas do dia-a-dia e de shows, desabafos e momentos de grande intimidade. As perguntas mais cruciais são feitas silenciosamente ao espectador que convive com Sophia, Marcos, Christian e o juiz Octávio de Barros Filho. Eu, por exemplo, me senti indagado sobre várias coisas:
O Brasil do último andar
dezembro 1st, 2009 § Deixe um comentário
Subir é verbo gordo, recheado de muitos sentidos. Pode significar ascensão física, social ou espiritual. Sobe-se para a serra, sobe-se na vida, sobe-se para sair do plano corriqueiro do mundo. Sobem as bolsas, os preços e as marés, assim como elevam-se a voz dos cantores e o espírito dos místicos. No jargão da internet, subir um texto é publicar, trazer à luz. No alto estão a claridade, a aspiração, a conquista e o privilégio.
Fui levado a pensar essas coisas a propósito de dois filmes da Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Para seus personagens, a prerrogativa de morar no alto assume um leque curioso de significados. Em Um Lugar ao Sol, oito pessoas/famílias de posses descrevem o que é viver em coberturas do Rio, São Paulo e Recife. Em Depois Rola o Mocotó, número aproximado de personagens exemplificam as muitas funções das lajes numa comunidade pobre como o Complexo do Alemão, no Rio. Continue lendo




















