Tags

, ,

Fernando Solanas é figura fácil de encontrar no Brasil. Seu amor pelo país consubstanciou-se numa esposa brasileira e num relacionamento muito próximo com diversos realizadores daqui. Mas não é toda hora que ele vem  trazendo seus principais documentários para uma mostra como Solanas: Seis Imagens da Argentina, que começa sexta-feira no Instituto Moreira Salles (Rio). Veja release e programação aqui.

Solanas estará lá no dia da abertura para apresentar seu filme mais recente, Terra Revoltada: 1. Ouro Impuro, e no domingo para fazer o mesmo com o clássico A Hora dos Fornos: 1. Neocolonialismo e Violência. Entre um e outro, fará um debate no sábado com José Carlos Avellar.

Como se vê, Solanas gosta de documentários em série. Memórias do Saque (2004), A Dignidade dos Ninguéns (2005) e Argentina Latente (2006) formavam uma trilogia sobre as crises políticas e econômicas que atingiram o país na década. Seus docs não se querem fechados em si mesmos. Desdobram-se em análises sucessivas, cobrindo aspectos variados de um mesmo fenômeno. Além disso, almejam ser algo mais que filmes. Pretendem mobilizar o público e despertar consciências para o que Solanas considera expropriação das camadas populares e descaminhos na condução do seu país. Talvez hoje não tanto quanto em 1968, quando A Hora dos Fornos chegava a ter cartelas inquirindo diretamente o espectador ou sugerindo interromper a projeção para um debate.

Esse filme de 260 minutos de duração (do qual será exibida apenas a primeira parte, de 85 minutos) fez a cabeça do documentarismo latino-americano dos anos 1970 e exerceu forte influência também no Brasil. Maurice Capovilla, em seus Faróis para o antigo DocBlog, o citou como “o começo e o fim de uma visão crítica da América Latina e por isso mesmo o testamento premonitório de uma geração criadora e revolucionária que perdeu o seu destino”.

O trabalho de Solanas continua sendo referência de doc político sem meias-tintas, baseado com franqueza nas convicções de seu realizador. Solanas é um raro exemplo de homem que faz cinema e política profissional ao mesmo tempo. De ascendência peronista, foi candidato à presidência argentina em 2007 e hoje é deputado pelo Partido Socialista Autêntico, integrante do Movimento Proyecto Sur. A identificação entre cinema e projeto político fica clara no seu penúltimo filme, A Última Estação, em que discute o sucateamento das ferrovias argentinas. O lema “Trem para Todos” é destaque na página oficial do PSA na internet.

A mostra do IMS se concentra nos docs, mas é bom não esquecer que “Pino” Solanas pode ser um ficcionista inspirado, como em Tangos – O Exílio de Gardel, ou pesadão e alegórico, como em Sur, A Viagem e A Nuvem. Se fosse o caso de escolher, eu também ficaria com a não-ficção.              

About these ads