Transformações na tela

outubro 22nd, 2010 Comentários desativados

Há poucos dias, fiz um grande passeio pelo Brasil através de 20 curtas do projeto Nós na Tela. De Lábrea, na selva Amazônica, a Londrina, no Paraná, passando por Tocantins, Piaçabuçu (AL), Ilhéus (BA), Recife e outros tantos municípios, conheci projetos bacanas de inserção social e cultural, topei com alguns vídeos bem críticos, outros com cara mais “institucional”.

Os curtas, todos com duração de 15 minutos, foram realizados por jovens egressos de oficinas audiovisuais e tiveram seus projetos selecionados no Concurso de Apoio à Produção de Obras Audiovisuais Digitais Inéditas de Curta Metragem, nos Gêneros Documentário ou Telerreportagem, sobre o tema “Cultura e Transformação Social” – Nós na Tela. Uma oficina específica ajudou a preparar as produções. Todos os curtas foram exibidos quarta e quinta na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Quinta à noite aconteceu a cerimônia de premiação, conforme escolha de um júri composto pelos críticos Daniel Caetano, Rodrigo Fonseca e este que vos fala.

Vila das Torres

O primeiro lugar, aquinhoado com um prêmio de 15 mil reais, foi do paranaense Vila das Torres 2014, de Willian Coutinho Duarte, Lúcia Pego dos Santos, Marta Pego dos Santos e Bruno Mancuso. Destacado pelos três jurados, o doc tem um roteiro muito bem articulado em torno do passado, presente e futuro de um bairro carente que destoa da paisagem organizada e asséptica de Curitiba (“uma cicatriz no rosto da Cidade-Sorriso”, como diz alguém). Moradores de Vila das Torres narram as origens da comunidade e o desenvolvimento espontâneo de uma cultura do futebol no local. Especulam também sobre o destino do bairro nos preparativos para a Copa de 2014, que terá jogos em Curitiba. É um trabalho crítico, que não se furta a ironias sobre a elite e a administração pública da cidade, mas o faz de maneira orgânica, sem panfletarismo. Tem tudo para percorrer o país em festivais.

Outro curta com poder de fogo é Arquitetura da Exclusão, de Adelvan de Lima, que ficou com o segundo lugar e um prêmio de 10 mil reais. O projeto é paulista, mas se refere ao muro construído em torno da favela Dona Marta e às UPPs cariocas. A pergunta “O Haiti é aqui?” serve de mote performático para um questionamento dos objetivos do tal muro (proteção ecológica ou encarceramento da comunidade?) e de uma certa visão idealista das UPPs. A própria equipe passa por uma batida policial antes de retirar dos guardas bons depoimentos sobre seu treinamento e porte de armas. Pode ser visto como um hors d’oeuvre para o doc que está sendo produzido por Cacá Diegues sobre esse tema.

O terceiro lugar (5 mil reais) foi para Quenda, de Warlem Machado, um esperto perfil de três meninos gays que frequentam a noite do Rio. Eles contam como vivem e veem a si próprios, além das circunstâncias em que saíram do armário perante suas famílias. Embora o tema do outing seja gasto, as particularidades e a franqueza dos personagens garantem a personalidade do filme, que busca uma linguagem afinada com o comportamento e o ambiente retratados.

Havia outros curtas dignos de menção, como o breve apanhado da nova geração do hip hop paulista, exoticamente intitulado Disseminando Ideias e Influenciando Pessoas. Este curta de Felipe Rodrigues era um dos meus preferidos, tanto pelo charme e a graça da confecção, quanto pela forma como se aproxima dos métodos caseiros de trabalho do rapper e produtor musical Emicida. Também apreciei especialmente os santistas BNH 001, de Aline Assis (discussão dos efeitos da construção de um shopping no primeiro projeto de conjunto residencial do antigo BNH) e Aloha, de Paula Luana Maia dos Santos e Nildo Ferreira (sobre surfistas portadores de deficiências físicas). E ainda o amazonense Paumari na Cidade, de Eugênio Paumari e Sérgio Lobato, que mostra jovens índios escapando do tráfico pelo caminho do aprofundamento étnico; e Cinema de Bolso, de Alan Russel (Tocantins), abordagem em alto astral de um projeto de formação audiovisual com celulares e câmeras fotográficas.

O Nós na Tela é mais uma iniciativa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura que vem semeando a expressão autóctone pelos quatro cantos do país durante o governo Lula. Em breve, os 20 curtas integrarão a série televisiva Nós na Tela, dirigida por Francisco César Filho, que organiza todo o projeto. Cada programa de meia-hora incluirá um curta, cenas de making of, entrevista com o(s) diretor(es) e uma breve reportagem sobre a comunidade onde foi produzido. A série será veiculada pelas emissoras ligadas à Associação Brasileira de Canais Comunitários – ABCCom e em outros canais do sistemas público e estatal.        

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