Fantasmas de Tsai Ming-Liang

novembro 30th, 2010 § 3 Comentários

O CCBB-Rio reprisa nesta quarta (1/12) o inédito Face/Visage, na Mostra Tsai Ming-Liang. Os fãs do diretor taiwanês vão encontrar muitos traços do seu cinema, mas também a evidência de que tudo aquilo já foi feito bem melhor em outros trabalhos. Não faltam imagens belas e à primeira vista intrigantes a essa diluição afetada do universo e do estilo de TM-L. Aqui, sua estética pessoal convive ora com a instalação de museu, ora com o editorial de moda ou com a simples impostação de uma iconografia homoerótica.   

Como aparente contrapartida ao copatrocínio do Museu do Louvre – este é o Opus I da série “O Louvre se oferece aos cineastas” –, TM-L faz uma homenagem ao cinema francês, especialmente à Nouvelle Vague e mais especialmente ainda a François Truffaut. Estranha homenagem, em que Jean-Pierre Léaud deambula patético como um fantasma de Antoine Doinel (no que o ator de fato se tornou), Jeanne Moreau e Nathalie Baye aparecem rapidamente num sequência sem nexo, e Mathieu Amalric é convocado para uma cena muda de pegação gay. Fanny Ardant e a topmodel Laetitia Casta, pelo menos, têm participações mais consistentes – a primeira como produtora e a segunda como estrela (nua) de uma filmagem do mito de Salomé.      

O truffautiano A Noite Americana é a referência óbvia para o filme-dentro-do-filme, dirigido por Lee Kan-Cheng, muso e eterno ator principal do cineasta. A produção é atribulada pela morte da mãe do diretor, a demência de Antoine (Léaud), ator encarregado de interpretar o Rei Herodes, e o desaparecimento de um veado (sim, um animal) que teria papel importante. Mas não espere continuidade ou uma autêntica metalinguagem. A história do filme, assim como a de Salomé e João Batista, é contada nos intervalos entre o que vemos, como ecos de um outro mundo ao qual não temos alcance. Na verdade, é mais um pano de fundo para os estilemas de TM-L que uma adaptação levada a termo.

Lá estão, por exemplo, os intermezzi musicais que rompem a solenidade da narrativa com músicas e coreografias kitsch. Lá estão as relações incestuosas e as rupturas físicas catastróficas que podem inundar um apartamento (como em O Rio). Os contatos reprimidos, a solidão irremediável, a fuga para os subterrâneos (em vários sentidos), as lágrimas silenciosas (Vive l’Amour), a reaparição dos mortos, a exploração de cenários rugosos e decadentes (bastidores e esgotos do Louvre), as longas tomadas imóveis que “esperam” a circulação de muitos sentidos – tudo isso está presente como fantasmas do cinema de Tsai Ming-Liang. É como se ele quisesse apresentar sua própria desconstrução.

Como em toda a obra de TM-L, Visage se equilibra entre a ruptura e a interdição. E nesse segundo aspecto vale ressaltar a cena em que Fanny Ardant, depois de folhear um livro sobre Truffaut, conversa com Jean-Pierre Léaud sobre um amor impossível entre eles. Considerando que Truffaut era um tanto “pai” de Léaud, temos aí um pequeno psicodrama do incesto em paralelo à relação entre o personagem de Lee Kan-Cheng e sua mãe. Ou, quem sabe, um segredo do espólio da Nouvelle Vague que o taiwanês insinua em seu intrincado jogo de espelhos.

Fanny Ardant e Jean-Pierre Léaud

É tudo memória

novembro 28th, 2010 § Deixe um comentário

À primeira vista, o livro que Amir Labaki acaba de lançar pela Imprensa Oficial de São Paulo parece ser um catálogo-de-catálogos dos primeiros 15 anos do Festival É Tudo Verdade. Lá estão as listas de todos os filmes participantes e os premiados de cada ano, assim como muitas fotos do festival, dos convidados e das obras exibidas. Mas, à medida que avançamos na leitura dos textos de Amir a respeito de cada edição, vamos constatando que o livro é bem mais que isso.

É Tudo Cinema – 15 Anos de É Tudo Verdade pode ser lido como uma síntese da cultura do documentário no Brasil no período 1996-2010, narrada por quem mais conhece o assunto. Labaki usa um enfoque bem pessoal (nos limites de sua persona discreta) para relembrar como foi preparado cada festival e como cada um repercutiu no mercado e nas reflexões sobre essa modalidade de cinema entre nós. De fato, a memória do ÉTV se confunde com a memória do doc no Brasil nesses 15 anos.

O relato começa na inesquecível conversa que tivemos os dois no CCBB-Rio, em 1994, quando o estimulei a criar o projeto de um festival internacional de documentários. Dali em diante, Amir não mais parou de pensar e ter ótimas ideias sobre o assunto, já a partir do nome do evento que se concretizaria dois anos depois. O resto está contado nas páginas do livro com riqueza de detalhes: suas viagens a festivais internacionais, os contatos e conhecimentos que carreou para o festival brasileiro, a história das grandes retrospectivas, o crescimento em tamanho e importância do certame.

Não faltam episódios memoráveis como a vinda de Johann Van der Keuken ao Brasil durante a preparação de Férias Prolongadas, seu filme-testamento; a visita de Marcel Ophuls a uma favela carioca; ou o encontro de Robert Drew com Marina Silva. Entre a crônica e o balanço cultural, É Tudo Cinema nos coloca, ao mesmo tempo, nos bastidores e na consciência do maior festival de documentários da América Latina.    

Vozes da Guiné-Bissau

novembro 27th, 2010 § 3 Comentários

A Guiné-Bissau não tem propriamente uma estrutura de cinema, mas isso não quer dizer que não tenha talentos cinematográficos. Um deles certamente é Domingos Sanca, diretor de Rio da Verdade, projeto ganhador do DOCTV CPLP em seu país. O documentário de média-metragem, produzido por Carlos Vaz, está sendo exibido em emissoras de nove países, além de festivais e mostras como a Brasilidade, em cartaz no Rio de Janeiro.

Domingos Sanca trabalha na televisão nacional da Guiné-Bissau e se responsabilizou também pela bela fotografia de Rio da Verdade. As imagens revelam uma área paradisíaca do noroeste do país, o Parque Natural do Rio Cachéu. Esse paraíso encontra-se ameaçado pela desertificação com o avanço progressivo do Saara a partir do Senegal, ao norte. A direção do parque implantou uma política de proteção que coíbe a derrubada de grandes árvores e a caça e a pesca indiscriminadas. Embora sejam acompanhadas de orientações para práticas menos agressivas ao meio-ambiente, essas normas colidem com certas rotinas de subsistência tradicionais dos moradores da região.

O conflito se assemelha ao dos caboclos da Amazônia com as regras do Ibama, como já foi mostrado em diversos documentários brasileiros. Mas nenhum que eu conheça logrou apresentar esse dilema com o grau de dramaticidade de uma cena de Rio da Verdade. A propósito da derrubada ilegal de uma árvore, dois funcionários do parque discutem com um lavrador os direitos e obrigações dos moradores. Cada lado expõe suas razões diante da câmera, deixando claro o choque entre os interesses individuais – amparados na tradição, na noção de posse e na necessidade imediata – e as exigências da sustentabilidade, voltadas para o futuro e o bem coletivo. É uma cena rara e forte, que mobiliza a consciência do espectador.

A importância do Rio Cachéu é mais que ecológica. É mítica e política. Para além dos limites do parque, nas duas margens do rio, localizam-se duas etnias rivais. O rio, cantado em versos por poetas guineenses como Mussá Baldé, é fonte de vida e lugar sagrado para a população. As ambiguidades da relação entre espiritualidade e sobrevivência são ilustradas pela questão dos hipopótamos. Considerados parentes dos homens, eles não devem ser mortos. Mas com frequência devastam as plantações de arroz, causando enormes prejuízos. Quando alguém abate um deles, a comunidade faz um ritual de expiação e prontamente se farta com sua carne generosa.

Rio da Verdade tem a qualidade, relativamente rara em filmes etnográficos, de abordar seu tema através de muitas vozes, onde não faltam contradições e controvérsias. Além disso, assume um caráter não didático, mas baseado na observação da natureza e dos homens. O ritmo é distendido e evocativo, privilegiando o tempo largo do rio e a cadência natural dos trabalhos no campo e das cerimônias religiosas.

Domingos Sanca merece toda atenção com seu novo projeto sobre o Arquipélago dos Bijagós, reserva natural colocada em risco pela ação de pescadores clandestinos e a recente descoberta de petróleo. Nesse filme, o diretor pretende trabalhar nos limites entre ficção e documentário, para isso incorporando a história de um casal conflagrado pelas obrigações ritualísticas da etnia Bijagó. 

As asas de Angeli

novembro 25th, 2010 § 3 Comentários

Caos, crise, obsessão, poluição, velocidade. É o apocalipse ou um dia na vida de São Paulo? Nada disso, ou talvez um pouco de tudo isso. Estamos falando do mundo do cartunista Angeli. Estamos no coração de um fantástico curta que estreia esta noite no Festival de Brasília. Beth Formaggini vinha me segurando as mãos quase literalmente para que nada quebrasse o ineditismo exigido pelo festival. Pronto, acabou. Já posso escrever sobre Angeli 24 Horas.

Beth não poderia ter sido mais feliz nesta apresentação do personagem Angeli em meio a seus escrotinhos, bananas, rê bordosas, bob cuspes, freaks, políticos xexelentos, cônjuges monstruosos et caterva. O cronista que criou essa épica do vil é ele mesmo um compulsivo, cara de mal dormido, fala e gestos nervosos, como se fosse explodir dentro de 10 segundos e deixar a parede do estúdio coberta de gosma verde.  

O filme potencializa essa identificação entre criador e criaturas colhendo a autoanálise de Angeli num estúdio decorado com motivos gráficos, trabalhando muito com a relação entre figura e sombra, e projetando as tiras sobre seu corpo numa espécie de instalação. Além disso, filma pontos-chave de São Paulo em ritmo acelerado e “encontra” nas ruas figuras reais que poderiam ter inspirado personagens de Angeli. Assim é que artista e cidade se fundem pela lógica dos fluxos incessantes. Embora saia pouco da prancheta, Angeli flutua com sua imaginação mórbida, radical e divertidíssima pelos espaços da metrópole, tal como o anjo de Asas do Desejo. Entre seguir em frente e mudar de rumo, Angeli opta pelas duas coisas.

Eixo quebrado entre as várias câmeras que o filmavam, ele fala de suas grandes inspirações; conta como se livrou de seus personagens mais célebres e das propostas de massificação; como encontrou na tragédia familiar do amigo (e muso) Laerte a deixa para uma guinada em sua carreira; por que prefere os diabos aos deuses na hora de riscar o papel. Para cada afirmação ou dúvida, Beth vai localizar a tirinha adequada para fazer a passagem entre pensamento e obra, movimento e resultado. Como eixo central e justificativa do título, Angeli vai preparando a charge que sairá no dia seguinte num jornal paulista.

Outro elemento fundamental para a incrível coesão artística do filme é a trilha sonora heavy e aliciante de JR Tostoi (do grupo Vulgue Tostoi). Num de seus melhores momentos, a música sampleia a voz de Angeli numa batida persistente e sublinha a evidência de que tudo nesse filme emana da pulsação de seu personagem. Não são muitos os perfis de artista com esse grau de coerência. 

 

Teclado moçambicano

novembro 25th, 2010 § 1 Comentário

Um documentário moçambicano está correndo o mundo lusófono com roupa de gala. Junto a outros realizados no âmbito do programa DOCTV CPLP, Timbila & Marimba Chope participou da competição do Festival Internacional de Cinema de Luanda e vem sendo exibido por emissoras de TV em nove países. Esta semana, foi uma das estrelas do megaevento Brasilidade no Rio de Janeiro, onde o seu diretor, Aldino Languana, participou de uma série de debates sobre o cinema de expressão portuguesa. 

Curiosamente, porém, são dois outros idiomas que se destacam no filme de Languana: o chope, falado em certas áreas de Moçambique, e o idioma mais universal da música. Timbila & Marimba Chope narra com detalhismo didático o processo de fabricação da mbila, uma espécie de xilofone, instrumento um tanto mítico do país de Samora Machel e declarado pela Unesco como patrimônio imaterial da Humanidade. Ou melhor, quem narra mesmo é o mestre Estêvão, um célebre artesão e tocador de mbila da região de Zavala. 

O filme consegue a rara proeza de fazer confluírem simultaneamente duas anotações etnográficas de grande importância: de um lado, os “segredos” da construção da mbila; de outro, a maneira muito particular de Estêvão contar suas histórias, que vale por uma imersão na fabulação do povo da Zavala. Sua prosódia saborosa e o estilo com que apresenta as informações ditam o ritmo “musical” do documentário.

Estêvão é ao mesmo tempo personagem, narrador, entrevistador, mestre de cerimônias e entertainer. Enquanto cede esses papéis ao mestre da timbila, Aldino Languana mantém as rédeas da direção mediante uma exposição progressiva do fabrico de uma mbila, com todas as suas injunções materiais, técnicas e mesmo espirituais. A localização de uma colmeia subterrânea e a coleta da cera especialíssima para colar partes do instrumento (as cabaças de massala) abrem caminho para uma reflexão que transcende o mero artesanato. Uma senhora participa desse processo com sua sabedoria quase mágica, embora não saiba precisar quantos anos tem. “Saber a idade é coisa de gente moderna”, diz ela.

A origem da mbila também se perde em tempos imemoriais – o que, afinal, importa menos do que sua preservação no presente e a transmissão de seus “segredos” para as futuras gerações. É isso o que o filme de Aldino Languana garante através da memória audiovisual.

O som da mbila marca o documentário com seu ritmo alegre e polifônico, às vezes competindo com outras informações sonoras pela atenção do espectador. Nem sempre isso é produtivo para a economia expressiva do filme. Em compensação, quando na sequência final a orquestra timbila e a dança chope inundam a tela numa noite ao ar livre, já estamos íntimos de tudo e o efeito é arrebatador.          

Mercado também é cultura – e livros

novembro 23rd, 2010 § Deixe um comentário

Por muito tempo desdenhado como fator de interesse menor, o mercado começa a frequentar os estudos sobre cinema brasileiro. Uma maior profissionalização dos setores de produção, distribuição e exibição, com a fixação de uma proto-indústria após a Retomada, pode responder por isso. Até os profissionais do ramo se mobilizam, como é o caso da produtora Iafa Britz, do distribuidor Rodrigo Saturnino Braga e do exibidor Luiz Gonzaga Assis de Luca, que lançaram há poucas semanas o livro Film Busine$$, O Negócio do Cinema (Elsevier Editora).       

Mas o crescimento do interesse geral pela economia da cultura no âmbito da academia ajuda, e muito, a explicar essa nova onda de pesquisas, dissertações e publicações. Nessa área, o nome de Alessandra Meleiro e da editora Escrituras têm sido incontornáveis. Autora de O Novo Cinema Iraniano – Arte e Intervenção Social (2006), ela organizou em 2007 a coleção Cinema no Mundo, cinco pequenos livros sobre as relações entre indústria, política e mercado nos cinco continentes. Mais recentemente, assumiu a organização da coleção Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira, cujos três primeiros volumes enfocaram Cinema e Políticas de Estado, Cinema e Economia Política e Cinema e Mercado.

Três novos títulos foram agora incorporados à coleção pela Editora Terceiro Nome, como resultado de um concurso promovido pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. O I Prêmio SAV para Publicação de Pesquisa em Cinema e Audiovisual elegeu seus vencedores entre teses de doutorado, dissertações de mestrado e pesquisas independentes.

Os três livros terão um lançamento nesta sexta-feira no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, dentro do festival Arariboia Cine.

Dos três o mais abrangente é O Filme nas Telas, de Hadija Chalupe da Silva, uma análise penetrante das formas como o filme brasileiro chega até o público. A autora examina em profundidade a distribuição, lançamento, promoção e exibição de cinco filmes lançados em 2005, com perfis diferentes de aproximação do mercado: Dois Filhos de Francisco, Cidade Baixa, Casa de Areia, Cabra-Cega e Cinema, Aspirinas e Urubus. A partir desses cases, Hadija analisa não só os métodos de circulação específicos, como também as transformações institucionais que afetaram a performance do cinema brasileiro entre o período da Embrafilme e a era da Ancine, das leis de incentivo e da Globofilmes. Entre suas conclusões, ela cita a necessidade de uma política governamental que promova a integração público/filme, como também a urgência com que os profissionais de cinema precisam considerar produção, distribuição e exibição como atividades fundamentalmente dependentes entre si, em vez de “blocos” distintos.   

Em Economia da Cultura e Cinema – Notas empíricas sobre o Rio Grande do Sul, Leandro Valiati estuda o mercado cinematográfico gaúcho em paralelo com o mercado nacional. Trata-se do quarto maior mercado estadual e o maior fora da região Sudeste. Porto Alegre é a capital brasileira com melhor relação de salas de cinema per capita, uma para cada 21 mil habitantes. Isso justificaria a escolha regional para chegar a conclusões que valeriam para outros estados. Leandro abre seu caminho entre gráficos e tabelas, levando em conta as ópticas da oferta, da demanda e do mercado de trabalho. O exaustivo levantamento de informações é assim elogiado por Gustavo Dahl no prefácio do livro: “Dados não são uma preferência nacional, daí o grande mérito de se correr atrás deles”.

Pode soar exagerado para um concurso como este da SAV, mas o mercado gaúcho também está no foco do terceiro estudo, Entre Lanternas Mágicas e Cinematógrafos, de Alice Dubina Trusz. A historiadora foi às fontes primárias (imprensa da época, basicamente) para levantar as origens do espetáculo cinematográfico em Porto Alegre. O livro faz um misto de historiografia e crônica do período 1861-1908, quando as exibições de lanternas mágicas, panoramas e parafernálias óticas precederam e depois conviveram com a chegada do cinema. A passagem da “tradição lanternista” para a exibição itinerante e depois o cinema sedentarizado em salas permanentes permite à autora traçar uma evolução das maneiras como as atrações do movimento foram exploradas comercialmente e percebidas socialmente numa localidade e num intervalo de tempo específicos.  

A língua do documentário

novembro 22nd, 2010 § Deixe um comentário

A partir de amanhã (terça) esquenta a programação de cinema do megaevento Brasilidade, que está sendo promovido pelo Ministério da Cultura no Rio de Janeiro. Os realizadores dos DOCTV da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa vão exibir e debater seus filmes no Centro Cultural da Justiça Federal. Eu serei o mediador.

A oportunidade é ótima para nos entrosarmos minimamente com o cinema praticado na África lusófona. Até porque os poucos filmes e mesmo os textos que nos chegam se ligam em sua quase totalidade à parte francófona do continente. 

Segue abaixo a programação da semana. Os títulos dos DOCTV CPLP estão em vermelho. No post anterior você encontra pequenos comentários meus sobre alguns deles.  

Terça feira, 23 de novembro
14h – O Judeu (Brasil)
16h – Rio da Verdade (Guiné-Bissau) + Timbila Marimba Chope (Moçambique)
17h40 – Debate com Domingos Sanca (“Rio da Verdade”) e Aldino Languana (“Timbila Marimba Chope”). Mediação: Carlos Alberto Mattos
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Eugênio Tavares, Coração Crioulo (Cabo Verde)

Quarta feira, 24 de novembro
14h – Língua – Vidas em português (Brasil)
16h – Li Ké Terra (Portugal)
O Restaurante (Macau)
17h40 – Debate com Victor Lopes (“Língua – Vidas em Português”), Filipa Reis e João Miller Guerra (“Li Ké Terra”) e Fernando Eloy (“O Restaurante”). Mediação: Carlos Alberto Mattos
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope ((Moçambique)

Quinta feira, 25 de novembro
14h – Exterior (Brasil) + Tchiloli – Identidade de um Povo (São Tomé e Príncipe)
15h40 - Debate com Maíra Bühler (“Exterior”) e Felisberto Branco (“Tchiloli”). Mediação: Carlos Alberto Mattos
18 hs – Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola) + Uma Lulik  (Timor Leste)
20h – Morro do Céu (Brasil)
21h – O Rei do Carimã (Brasil)

Sexta feira, 26 de novembro
14h – Estado de Seca (Brasil)
Mais que a Terra (Brasil)
16h – Segunda Feira (Brasil)
A Grande Feira (Brasil)
18h – O Crime da Imagem (Brasil)
Cinema, Aspirina e Urubus (Brasil)
20h – Avenida Brasília Formosa (Brasil)
21h – HU (Brasil)

Sábado, 27 de novembro
14h – Macunaíma (Brasil)
16h – Almoço Executivo (Brasil)
A Marvada Carne(Brasil)
18h – Um dia na Rampa (Brasil)
Bahia de Todos os Santos (Brasil)
20h – Negros (Brasil)
21h – Álbum de Família (Brasil)

Domingo, 28 de Novembro
14h – Iracema (Brasil)
16h – Especial Vídeo nas Aldeias (Brasil)
Cineastas Indígenas
Mokoi Tekoá Petei Jeguatá – Duas Aldeias, Uma Caminhada
18h – Debate com realizadores do Vídeo Nas Aldeias: Vincent Carelli, Ariel Ortega e Patrícia Ferreira. Mediação: Carlos Alberto Mattos
20h – Carta Sonora (Brasil)

DOCTV CPLP em drágeas

novembro 22nd, 2010 § Deixe um comentário

Li Ké Terra (Portugal)
Num subúrbio de Lisboa predominantemente habitado por imigrantes, dois rapazes de ascendência cabo-verdiana tentam regularizar sua situação e firmar uma identidade. Vencedor do DocLisboa, o filme faz uma observação cuidadosa do cotidiano e dos pensamentos dos gajos, usando uma câmera “invisível” e uma edição afinada com a estética contemporânea. Divertido e perspicaz. 

Rio da Verdade

Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
Belíssimo doc sobre a luta de um parque ecológico no noroeste da Guiné-Bissau para evitar a desertificação com o avanço do Saara rumo ao Sul. Etnografia sem didatismo, abrindo espaço para opiniões contrárias na discussão do preservacionismo. A linguagem poética privilegia os tempos do trabalho e do ambiente, a sonoridade particular da região do Rio Cachéu e a beleza dos enquadramentos.

Eugênio Tavares – Coração Crioulo (Cabo Verde)
Uma simpática evocação do poeta, músico e herói nacional de Cabo Verde. Apesar do tom elegíaco, transparecem algumas contradições do personagem e as condições em que se formou o seu mito. A fotografia é sugestiva da atmosfera da pequena Ilha Brava, prisão e ao mesmo tempo signo de liberdade para “Nhô Tavares”. Na faixa sonora, as célebres e nostálgicas “mornas” caboverdianas. 

Timbila Marimba Chope

Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Relato didático da fabricação da timbila, espécie de xilofone moçambicano declarado patrimônio da Humanidade pela Unesco. Um mestre timbileiro, com sua verve especial, mostra todo o processo, valorizando os “segredos” e a ressonância espiritual do instrumento. Quando a orquestra de timbilas se apresenta no final, é arrebatador. 

Exterior (Brasil)
Perfil de um grupo de presidiários estrangeiros recolhidos em um presídio brasileiro. Ainda que as imagens sejam cuidadas e alguns personagens tenham carisma, faltou foco ao doc para valorizar a condição singular daquelas pessoas duplamente isoladas por se encontrarem privadas da liberdade e num país que não é o delas.

Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea

 Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
Passado, presente e futuro de um ferrovia que atravessava toda a latitude de Angola integrando o país e fazendo nascer cidades. O roteiro um tanto desestruturado prejudica a fluidez, mas restam informações importantes sobre a história recente do país e o interesse em conhecer relances de uma forma de vida remota e colorida.

O Restaurante (Macau)
O multiculturalismo de Macau é representado pelos convidados para a festa de 20 anos de um restaurante português. Com uma estrutura dispersiva, que tenta captar essa dinâmica de idiomas, heranças culturais e modos de vida, o doc passa em velocidade por questões importantes. Por exemplo, qual a relação dessa minoria com a realidade macauense de hoje?  

Tchiloli - Identidade de um Povo

Tchiloli – Identidade de um Povo (São Tomé e Príncipe)
Registro de uma encenação teatral que faz o julgamento da colonização e se tornou patrimônio cultural das ilhas de São Tomé e Príncipe. Mediante esparsos depoimentos e textos de narração, o filme comenta o espetáculo, enquanto abre espaço para os personagens da peça evoluírem através de uma curiosa mescla de teatro, dança, pantomima e simulações de luta.  

Casais impossíveis

novembro 21st, 2010 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Uma imagem vale mil palavras. O velho provérbio ganhou uma acepção divertida na comunidade online Worth1000, que desde 2002 mobiliza internautas para brincar com imagens. Eles promovem competições diárias que resultam em entretenimento visual e até alguns escândalos, quando suas fotos inventadas são confundidas com o real. O site conta com orgulho que até o Pentágono já soltou uma declaração desassociando-se das imagens do Worth1000.

Uma das competições mais populares por lá é de “Casais de Celebridades Impossíveis”, reunindo numa mesma foto artistas vivos e mortos. Abaixo destaquei três que me agradaram especialmente, mas vale a pena visitar o Worth1000 e navegar pelas várias páginas e diversas edições do tal concurso.    

Di Caprio e Miranda

Heath Ledger e Katy Perry

Clooney e Kelly

Dias de Marília

novembro 19th, 2010 § 1 Comentário

Marília Rocha conversa amanhã (sábado), após a sessão das 14 horas, com o público do Instituto Moreira Salles. A salinha da Gávea está exibindo desde ontem e até o dia 2 um programa duplo com os dois últimos docs da mineira Marília, Acácio e A Falta que me Faz.

Marília é uma das mais interessantes expressões do novo documentarismo brasileiro. Seu primeiro longa, Aboio, de 2005, ganhou a competição nacional do É Tudo Verdade e ficou na memória de quem o viu pela densa e bela fusão da imagem e dos sons nordestinos com uma estética contemporânea provinda da videoarte.

Acácio (2007) pega uma carona nas memórias e nos filmes domésticos de um casal de imigrantes portugueses para tecer uma teia caprichosa de etnografia amadora e reminiscências familiares. Leia minha resenha do filme no velho DocBlog

Já o mais recente A Falta que me Faz (2009) me satisfez um pouco menos que os trabalhos anteriores. O filme registra as inquietações de quatro meninas da localidade de Curralinho, distrito de Diamantina (MG). Alessandra, Valdênia, Priscila e Shirlene estão no limiar da mocidade. Suas preocupações envolvem gravidez, casamento, rivalidades afetivas, suicídio por amor. Há uma certa gravidade, embora sempre sorridente, nos diálogos que elas estabelecem entre si e eventualmente com a própria diretora. Marília Rocha não se contenta com a pura observação, mas também questiona e provoca conversas, quebrando o seu próprio código inicial. Na melhor sequência do filme, Alessandra reverte o foco interrogando a equipe. Em outro momento, Valdênia convida a diretora para a lista de potenciais madrinhas do seu futuro bebê.

Marília preserva a descontinuidade e a abordagem casual, tanto na câmera manual como na montagem. Não há intenção de criar uma ordem sequencial, mas um conjunto de situações mais ou menos independentes. Ela investe na capacidade de expressão oral e corporal das meninas. Nem sempre, porém, esse desempenho sustenta a arquitetura do filme, que vacila aqui e ali na mera conversa vadia.

Iván que veio de longe

novembro 18th, 2010 § 3 Comentários

Entre o Paraná e a Ucrânia não existe apenas o sentimento dos imigrantes que aqui se enraizaram desde a metade do século passado. Existe também um cineasta que transforma esse sentimento em filmes. Guto Pasko é o seu nome. Há três anos ele fez o documentário de longa metragem Made in Ucrânia, muito apreciado no sul do país. Em meio a um painel de descendentes, historiadores e cenas do cotidiano da colônia paranaense, Guto levava uma personagem à Ucrânia para conhecer parentes que nunca haviam saído da terra natal. (Leia matéria no DocBlog e veja o trailer do filme).

Em agosto último, ele repetiu a aventura, levando dessa vez outro personagem de Made in Ucrânia para rever uma irmã que não via há quase 70 anos. O emocionado reencontro se deu na cidade sulina de Mikolaiev, perto de Odessa.

O reencontro

Iván Boiko, hoje com 91 anos, foi expatriado para a Alemanha nazista em 1942 depois de se oferecer para ir no lugar da irmã mais velha, conforme as ordens do exército ocupante. Ele passou por trabalhos forçados e, em 1948, chegou ao Brasil com a mulher e a filha recém-nascida. Trabalhou por 27 anos como costureiro da Polícia Militar do Paraná e atuou na preservação da cultura ucraniana no Brasil. Fabricou a primeira bandura em terras brasileiras, instrumento musical típico da Ucrânia, e tornou-se referência nesse mister. Depois de ver Made in Ucrânia, o velho Iván resolveu confiar a Guto Pasko os seus diários, lavrados em letra miúda em pequenos cadernos de espiral.

O novo longa Iván – De Volta para o Passado vai contar tudo isso a partir de quatro eixos narrativos: a memória/história de Iván Boiko; a viagem à Ucrânia; o instrumento bandura; e uma apresentação especial da Capela de Banduristas Fialka, de Curitiba. Atualmente, Guto está às voltas com mais de 200 horas de material na ilha de edição. Para maiores detalhes sobre a trajetória de Iván Boiko e o projeto do filme, leia esta matéria da Gazeta do Povo.

Guto Pasko (canto direito) filma em Ternópil, Ucrânia

Apaixonado pelo tema da imigração, Guto Pasko tem produzido episódios de ficção para a RPCTV (a Globo do Paraná). Dois deles, já exibidos, podem ser vistos no Youtube: O Herói de Cruz Machado, sobre a saga da imigração polonesa; e O Casamento de Dalila, que aborda conflitos étnicos entre ucranianos e poloneses em Prudentópolis (PR), cidade natal do diretor.

 

Cartas contra a dor

novembro 16th, 2010 § 2 Comentários

Englobado na onda de filmes espiritistas, o documentário As Cartas Psicografadas por Chico Xavier não tem o caráter espetacular de títulos como Chico Xavier, Nosso Lar ou mesmo o mais modesto Bezerra de Menezes. Ao contrário, é um filme franciscano em sua simplicidade de “cinema de conversa”. Uma câmera frontal “ouve” mães e pais que perderam seus filhos jovens e recorreram ao famoso médium para se comunicar com eles.

O doc de Cristiana Grumbach não tem tampouco o caráter de peça promocional da doutrina, como Bezerra de Menezes e Nosso Lar. Apesar do respeito com que a diretora interroga seus personagens, há nessa justaposição de cartas (a maioria lida pela voz de Cristiana) um efeito inquietante para quem não está inteiramente envolvido pela fé espírita. Por mais diversos que sejam os supostos remetentes, as cartas exibem um estilo semelhante, rebuscado, fazendo uso de um vocabulário mais ou menos regular. Dado ainda mais intrigante é a leitura de duas cartas praticamente idênticas de filhos artistas, uma no início, outra no final do filme, por duas mães diferentes. Depois de evocar Eduardo Coutinho (com quem trabalha regularmente) nos planos vazios – habitados por espíritos – de Santo Forte, subitamente Cristina parece citar Jogo de Cena.

Mas não se trata aqui de nenhuma travessura com verdade e representação. A semelhança das duas cartas – e, de certa forma, das cartas em geral – nos alerta para um certo caráter “industrial” da psicografia. Nada que perturbe a convicção dos crentes, já que a comunicação com os seres perdidos significa um paliativo para a dor da perda. Essa função de consolo, ainda que precário, fica clara na sucessão reiterativa de depoimentos. O simulacro de comunicação soa como grande upgrade perante o catolicismo, com seus “santos mudos” e as “conversas bobas” dos padres, como menciona uma das mães entrevistadas.

Não cabe aqui discutir a maior ou menor tendência à mitificação que está por trás do discurso dos convertidos. Isso é assunto para textos especializados. Mas é interessante notar as provas (documentais) frequentemente citadas como fatores de credibilidade. São principalmente as informações citadas nas cartas sem que Chico Xavier delas tivesse conhecimento. Essas evidências mobilizam a crença, tal como as “provas” comumente exibidas pelos documentários levam o público a crer no que vê.

As Cartas Psicografadas por Chico Xavier não promove nem investiga o fenômeno. Limita-se a recolher relatos e exibir manuscritos como se meramente expusesse sua pesquisa. Sem personagens carismáticos nem revelações mais contundentes, pode ser um bálsamo para alguns espectadores e uma experiência maçante para outros.   

Update: Comentário de Cristiana Grumbach, que destaco aqui para dar maior visibilidade:

“Caro Carlos Alberto,
escrevo para esclarecer que a carta lida no início do filme é a mesma do final, na voz de Maura, mãe de José Roberto. Não há nenhuma citação a Jogo de Cena, como você supôs. E, em Santo Forte, os vazios têm representação bem diversa da dos vazios de As cartas, justamente porque lá estes estavam preenchidos pelos seres invisíveis que habitavam as narrativas, em “As cartas…” não há ocupação, é vazio mesmo, ausência, perda.
Agradeço sua atenção.
com um grande abraço,
Cristiana”

Assim foi no Amazonas

novembro 15th, 2010 § 5 Comentários

Tive que sair de Manaus antes do dia do encerramento do 7º Amazonas Film Festival, tendo já cumprido minhas tarefas nos júris dos curtas amazonenses e no debate de documentários brasileiros. Trouxe ótima impressão de um evento realizado com grande profissionalismo e alcance social (há exibições até em presídios, comunidades, escolas e asilos de idosos). As sessões no mítico Teatro Amazonas não deixam ninguém indiferente, mesmo que o filme não seja lá essas coisas. O hotel Caesar Business, onde se hospedam todos os convidados, está tinindo de novo e funciona à perfeição.

Foto: Andreas Valentin

Foto: Andreas Valentin

Falta um maior estímulo à discussão dos filmes, já que o público local não parece ter muita disposição para isso. Das três sessões paralelas que me cabia comentar, no simpático Teatro de Instalação, somente os espectadores de Dzi Croquettes, em boa parte ligados a teatro, permaneceram na sala após os créditos.

Na premiação, poucas surpresas, a julgar pela opinião de quem acompanhou melhor do que eu as sessões competitivas. O papa-prêmios Recife Frio foi o melhor curta da competição nacional, enquanto o elogiado thriller americano Winter’s Bone, de Debra Granik (quatro estrelas de Roger Ebert), ganhava o troféu de melhor longa. Lixo Extraordinário ficou com o prêmio especial do júri. Elvis e Madona valeu a Igor Cotrim o destaque de melhor ator.

No âmbito dos curtas amazonenses, o júri formado por mim, o fotógrafo Andreas Valentin e o cineasta gaúcho Jaime Lerner elegeu Perdido, de Zeudi Souza, como o melhor. Trata-se de um exercício temporal sofisticado em torno de um seringalista falido que sai de casa e se perde na floresta. Quando ele reencontra o caminho de casa e da mulher, percebemos que sua desorientação na verdade é a experiência da morte. A cenografia do grande Oscar Ramos é um dos trunfos do curta. Demos também um prêmio especial a Contra-fluxo, de Valdemir de Oliveira, experiência interessante na videodança, ramo que parece ter caído nas graças dos jovens artistas de Manaus.

É preciso dizer que esses dois filmes foram exceções num panorama marcado por muitas ingenuidades, técnica precária e grandes dificuldades na articulação de narrativas, direção de atores e criação de diálogos. Esses aspectos precisam ser urgentemente “atacados” nas oficinas e cursos de cinema da região. 

Avaliamos ainda 12 roteiros para novos curtas, dos quais pelo menos quatro se destacaram pela modernidade da linguagem e a adequação entre tema e tratamento. Como só podíamos premiar um deles, optamos pelo documentário Ser ou Não Ser. O diretor Leonardo Costa vai investigar o cotidiano de quatro jovens indígenas que vivem na periferia de Manaus em constante interação com a cultura branca e encarnam o dilema entre ser e não ser índios. O projeto nos pareceu sólido, com personagens bem escolhidos e procedimentos calcados em visões bem contemporâneas do documentário. No ano que vem, Ser ou Não Ser vai integrar a sessão de abertura do festival concorrendo a melhor curta nacional. Espero estar lá para ver.

Confira a seguir a lista completa dos premiados:     

Roteiro curta-metragem 35 milímetros Amazonas
Vencedor:
“Ser ou Não Ser”, Leonardo Costa

Curta-metragem Digital Amazonas
Vencedor:
“Perdido”, Zeudi Souza
Júri popular: “Rock que o Brasil Não viu”, Bosco Leão, Caio de Biasi
Prêmio especial do júri: “Contra-fluxo”, Valdemir de Oliveira

Curta-metragem digital Brasil
Vencedor:
“Recife Frio”, Kleber Mendonça Filho
Júri popular: “Uayná – Lágrimas de veneno”, Júnior Rodrigues

Longa metragem
Vencedor:
“Winter’s Bone”, Debra Granik
Júri popular: “Habana Eva”, Fina Torres
Prêmio especial de melhor filme: “Lixo Extraordinário”, Lucy Walker
Menção honrosa: “Luz nas Trevas, a volta Bandida da Luz Vermelha”, Ícaro C. Martins e Helena Ignez
Melhor roteiro: “Las Buenas Hierbas”, Maria Novaro
Melhor atriz: Úrsula Prumeda, em “Las Buenas Hierbas”
Melhor ator: Igor Cotrim, em “Elvis e Madonna”
Melhor diretor: Feng Xiaogang, em “Aftershock”

Quisiera morir

novembro 14th, 2010 § 4 Comentários

Diversão de domingo:

Soledad Villamil dando uma canja para os convidados do 7º Amazonas Film Festival no domingo passado, nos jardins do Palácio Rio Negro (Manaus). Gravei com meu Motorola Milestone e não soube resolver a perda de synch nos últimos instantes do clipe. Perdoem, mas vale pela raridade.

Quem dá bola para a paz?

novembro 13th, 2010 § 3 Comentários

O Odeon exibe hoje (sábado), na programação do IV Encontro de Cinema Negro Brasil África & Caribe, uma das novas produções da Cavídeo. É o longa Copa Vidigal, programado para as 18 horas. Luciano Vidigal dirigiu, Cavi Borges produziu junto com o Nós do Morro. Na tela, temperada com muito sambinha e pitadas de funk, transcorre uma temporada do campeonato de futebol criado no Morro do Vidigal pelo líder comunitário Cypa depois que uma guerra entre traficantes abalou a favela em 2006.

O mote da Copa Vidigal é “jogando pela paz”. O futebol seria um antídoto à violência, como costumam ser as atividades artísticas em tantas áreas de risco social. No entanto, o filme acaba denunciando uma contradição, na medida em que as rivalidades do torneio criam áreas de agressividade que por pouco não se mostram trágicas. A certa altura, o próprio Cypa é ameaçado de morte e tem de passar seis meses isolado com sua família dentro de casa.

Esse é apenas o clímax de uma atmosfera que oscila entre a euforia e uma tensão quase permanente nas imediações da quadra. O juiz é pivô frequente de querelas aguerridas. Os embates no campo geram discussões e porradas. Os jogadores xingam os adversários e suas torcidas com as piores ferramentas verbais. Cypa, pregador da paz e mestre da escolinha de futebol, é o primeiro a admitir que a “lei da favela” é diferente da lei do asfalto. “Aqui se respeita a lei porque se paga com a vida”, explica num misto ambíguo de crítica e elogio.

Além de Cypa, o filme tenta desenvolver outros personagens, entre os quais o bonachão Nélio, comerciante num ponto gay da praia de Ipanema. Mas o forte de Copa Vidigal, mais que os indivíduos e que a dramaturgia rala dos jogos, é a abordagem da favela nessa dialética difícil da guerra e da paz. A violência da competição será um simulacro pacificador ou uma perpetuação do clima de conflito?

Salve o direto! por Paulo Maia

novembro 11th, 2010 § 5 Comentários

Texto de apresentação da mostra Direto.doc, publicado no catálogo do  Forumdoc.bh.2010 – 14° Festival do Filme Documentário e Etnográfico, que começa hoje em Belo Horizonte e vai até o dia 28. Seu autor e curador da mostra, Paulo Maia, é etnólogo e professor do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação – Faculdade de Educação / UFMG.

A perspectiva dominante nas mais diferentes vertentes do documentário é aquela que admite que o cinema se difere de antemão do real e que postula função do documentário capturar a realidade. O efeito de filmar, segundo essa vertente, é o de capturar o real na forma de sons e imagens, a mediação da câmera e do gravador (e do operador), sincrônicos ou não, tende a ser mascarada, em favor de um estilo-técnico-utópico que, como sugere João Moreira Salles de modo arguto, deseja representar um mundo sem consciência de estar sendo filmado.

Essa é, aliás, a impressão, sob suspeita, que temos a respeito de uma filmografia, convencionalmente chamada de cinema-direto norte-americano. O forumdoc.bh.2010 tem a ousadia de arranjar sob a alcunha de direto.doc uma mostra inteiramente dedicada a apresentar e discutir parte da filmografia de uma dezena de realizadores dos Estados Unidos e do Quebéc, que de formas diversas, associadas ou dissociadas, durante os anos 1960, souberam levar a cabo o sonho de através de uma nova técnica, nova possibilidade, potencializar o cinema em direção ao projeto naif, diriam os críticos mais severos, de filmar na duração, som e imagem sincrônicos, os mundos e as pessoas reais.

Um dos desejos da curadoria dessa mostra é o de superar visões totalizantes sobre essa filmografia, vez que os mais de 50 filmes apresentados, nem todos normalmente dependurados sob o guardachuva do cinema-direto, denotam modos criativos e heterogêneos, mantendo a hipótese de um espectador ativo e um cinema que, mais que representa, cria um mundo consciente de que está sendo filmado.  Continue lendo

A África chic de Denis

novembro 10th, 2010 § Deixe um comentário

Não revi Minha Terra, África depois do Festival do Rio de 2009. Mas acho que dificilmente mudaria minha opinião sobre o filme e o estilo da diretora Claire Denis. Mesmo que isso me custe a pecha de crítico careta. Aí vai meu breve comentário de setembro de 2009:

Mais um filme de Claire Denis, e aqui estou eu incapaz de apreender as virtudes tão decantadas por parte considerável da crítica nacional e internacional. Senti-me como a personagem de Isabelle Huppert, perdido numa nuvem de indeterminação, entre os fogos de uma guerra que não compreendo. A África de Denis é um lugar sem tempo nem espaço definidos. A família da francesa Maria é um emaranhado de relações obscuras e irrupções emocionais estapafúrdias. Sua obstinação em concluir uma colheita de café a coloca no centro de um conflito íntimo e político, do qual obtemos apenas indícios desordenados que bloqueiam qualquer identificação ou análise. Restam o estilo rebuscado, a recusa esnobe da linearidade, a deliberada artificalidade de sempre, o mutismo solene, as poses afetadas. White Material ainda sofre de uma estranha alternância entre os piores maneirismos do filme-de-arte e momentos quase grotescos na caracterização dos africanos em luta. Tive vontade de, ao contrário de Maria, fugir no primeiro helicóptero. 

Peneira Digital: Filmes Polvo

novembro 9th, 2010 § Deixe um comentário

www.filmespolvo.com.br

Eles são oito redatores, como os tentáculos de um polvo. De Belo Horizonte, desde 2007, editam a revista eletrônica Filmes Polvo, dedicada à análise do cinema em suas várias modalidades. No farto menu da revista, o leitor pode encontrar críticas de filmes, ensaios, cobertura de eventos e reflexões sobre a atualidade do audiovisual.

Não há preconceito nas páginas de Filmes Polvo. Ali têm lugar tanto a teoria de Jean-Louis Comolli como as comédias produzidas e/ou dirigidas por Judd Apatow, só para citar dois exemplos aparentemente extremos. São comuns também os textos de aproximação entre filmes diversos, na tentativa de iluminar constâncias e tendências do cinema contemporâneo. Outra característica editorial interessante é a remissão a textos de outros veículos, como no caso da polêmica em torno de Moscou, de Eduardo Coutinho.

A revista inscreve-se em um novo movimento da crítica brasileira, iniciado por Contracampo e prosseguido por Cinética, que vê o cinema no contexto mais amplo da cultura audiovisual, onde a televisão e a internet também merecem destaque. Da mesma forma, considerações sobre a própria crítica são incorporadas a grande parte dos textos de Filmes Polvo.

As viagens do elefante

novembro 7th, 2010 § 1 Comentário

Trago de volta o texto que escrevi após a exibição de José & Pilar no último Festival do Rio:

Apreciará mais José & Pilar quem não entrar no cinema esperando um documentário sobre José Saramago. Disso terá pouco mais do que já se sabe: a convicção ateísta e comunista, o humor ferino por trás da carranca, as ideias profundas expressas de maneira corriqueira. Melhor abrir-se a um filme sobre a dinâmica de um casal. Nesse aspecto, há observações de sobra para colocá-los numa linha onde já se encontram Borges e Maria Kodama, Lennon e Yoko, Sartre e Beauvoir.

Os portugueses acusam Pilar de “levar Saramago para a Espanha”. Pilar e outros parentes se queixam de que os portugueses não o valorizavam. José dedicou todos os seus últimos livros a Pilar. Pilar dedicou a ele sua vida nos últimos 20 anos. Formavam um casal amoroso e cúmplice. A câmera de Miguel Gonçalves Mendes não capta muitos momentos de intimidade, mas bastam as duas tomadas das mãos entrelaçadas, em momentos cruciais, para dimensionar a importância de Pilar no metabolismo emocional de José.

De resto, há no filme um apego talvez excessivo à cronologia dos fatos – viagens, conferências, noites de autógrafo. As efemérides por vezes obscurecem a abordagem intimista. Mas é justamente isso o que deixa no ar uma questão: até que ponto essa agenda incessante, visivelmente estimulada por Pilar, levou José a descuidar da saúde? Ou estaria nisso o alimento da criação e da sobrevivência do escritor em seus derradeiros anos?

A sombra da morte atravessa José & Pilar como um vaticínio. O assunto é recorrente nas falas dele, nos trechos destacados de A Viagem do Elefante, na morte da mãe de Pilar, em notícias fúnebres que chegam ao casal. À vista do materialismo pétreo de Saramago, como devemos receber a frase dele diante de uma câmera: “Pilar, nos reencontraremos em outro sítio”. Será pura literatura o paraíso de José?

Em Manaus, com Soledad

novembro 5th, 2010 § 1 Comentário

Manaus vai ter uma chance de descobrir o segredo dos olhos de Soledad Villamil. Em tempo de mulheres presidentes, a atriz e cantora de tangos será a presidente de honra do 7º Amazonas Film Festival, que começa hoje (sexta). Para disputar os holofotes com ela estarei eu, presidindo o júri de curtas amazonenses e do concurso de roteiros idem.

O AFF tem fama de bons orçamentos e elenco forte de convidados internacionais. Em anos anteriores lá estiveram Claude Lelouch, Alan Parker, John Boorman, John McTiernan, Hugh Hudson, Leonor Silveira, Parker Posey, Bill Pullman, Irving Kershner e até o equilibrista Philippe Petit. Eles viram e julgaram filmes, assim como foram levados para conhecer igapós, igarapés e tucunarés. A realização do festival é do governo do estado, com patrocínio master da Coca-Cola.

A programação deste ano abre com gala no Teatro Amazonas exibindo Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley. Finalmente vou poder conhecer as reinações de Vik Diniz no Jardim Gramacho. Ao mesmo tempo, na praça em frente ao teatro, La Villamil vai apresentar aos manauaras o romântico O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1999), primeira reunião dela com Ricardo Darín sob a direção de Juan José Campanella.

Tapete vermelho no Teatro Amazonas

O festival promove sessões em vários pontos da cidade, inclusive num centro de convivência para idosos. Há competições de curtas nacionais, curtas amazonenses e longas brasileiros e internacionais. Entre esses últimos, fica engraçado ver disputando os mesmos prêmios o überblockbuster chinês Aftershock, o sganzerliano Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro Martins, e o turbinado Elvis e Madona, de Marcelo Laffitte.       

À margem das minhas atribuições de jurado, vou comentar uma pequena mostra composta pelos docs Uma Noite em 67, Dzi Croquetes e Programa Casé. Como não ficarei até o final do evento, espero ter algum tempo livre para revisitar as cores, os cheiros e os ruídos do mercado municipal. Se for em companhia de Soledad, melhor ainda.

O que as imagens falam por si?

novembro 3rd, 2010 § Deixe um comentário

A badalada sessão única de Um Dia na Vida, o novo não-filme de Eduardo Coutinho, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo levantou questões sobre consumo de televisão, deslocamento de imagens para espaços inusitados, limites de autoria etc. Mas não sei se alguém discutiu a capacidade de as imagens falarem por si.

Coutinho filmou 19 horas de programação televisiva num dia comum, selecionou trechos e editou em 90 minutos de filme, sem nenhuma outra intervenção. Como tudo o que vem de Coutinho, Um Dia Na Vida despertou imensa curiosidade e alimentou especulações teóricas – algumas, nesse caso, bem desgastadinhas. Não vi o filme, mas, ao que parece, as cenas da TV estão lá falando por si mesmas, sem efeitos de montagem que provoquem contrastes retóricos ou revelações. O mero acúmulo de didatismos, banalidades e informações apressadas seria suficiente para “dizer” alguma coisa sobre a TV e quem a vê, além de uma eventual distância dela em relação ao cinema.

A ausência de interferências mais evidentes (acréscimos, interpretações, reordenações) responde pela controvérsia principal: aquilo é ou não um filme? De certa forma, o doc Pacific, de Marcelo Pedroso, composto inteiramente de filmagens de turistas em cruzeiros para Fernando de Noronha, já tinha levantado essa dúvida. O realizador seleciona e organiza um material alheio, e se abstém de qualquer outra participação. As cenas, retiradas de seu contexto e suporte originais, “dizem” as mesmas coisas e ao mesmo tempo ganham outros significados.

Retomo essas questões depois de assistir ao média-metragem Ninguém Segura o Brasil, realizado no ano passado por Alfeu França. Depois de uma pesquisa no Arquivo Nacional e no seu acervo pessoal, Alfeu preparou uma compilação de 30 minutos com institucionais, comerciais, jingles e trechos de filmes que reproduziam a ideologia do regime militar para consumo na TV e no cinema. São inúmeros desfiles, mensagens ufanistas, clipes caretas, musiquinhas de sintetizador, narrações de Cid Moreira, conclamações contra “os trapos vermelhos do comunismo”. Uma parafernália de comunicação destinada a produzir a imagem do “Brasil grande”: um país em ritmo acelerado de desenvolvimento, nacionalmente integrado, estrategicamente seguro, com harmonia de raças, classes e faixas etárias. A negação de todo conflito e a anulação das forças sociais pelo discurso homogêneo de que “o Brasil é feito por nós”.

Duas ou três cartelas situando essa produção no tempo e no contexto da ditadura são toda a intervenção do diretor, além, claro, da seleção e montagem. Relutei em compreender a eficácia de um trabalho que simplesmente justapõe os materiais, sem avançar na sua interpretação, demolição ou recriação. Conversei com Alfeu, que se manifestou convicto de sua escolha: “Cada vez mais acredito no potencial presente nas imagens de arquivo e fico convencido de sua capacidade de falar por si, de transmitir mensagens sem a necessidade de maiores contextualizações. Poderíamos, sim, ter entremeado o documentário com entrevistas, narrações didáticas e explicativas, mas depois de refletirmos nos pareceu óbvio e apropriado deixar a própria propaganda da época falar sobre a propaganda da época (…) Sou bastante satisfeito com a nossa decisão de experimentar e permitir que um material que arrancamos de quatro décadas de repouso seja apresentado e digerido e processado por cada espectador a partir de seu próprio corpo de conhecimentos”.

No meu entender, a capacidade dessas imagens de falarem por si é que está em questão. Passados mais de 30 anos desde a volta da democracia, elas já se banalizaram a tal ponto em documentários recentes que se tornaram uma espécie de Judas cansado de apanhar. Até nas sucessivas oficinas que o Recine vem fazendo ano após ano, esses materiais têm sido usados de maneira irônica e subversiva. Voltar a eles requer agora um desejo de ver o seu reverso. Ou pelo menos um olhar mais incisivo do que simplesmente recolocá-los na tela em sua integralidade.

Mas Alfeu tem um trunfo para jogar na mesa de debate. Em seu roteiro de edição, ele diz ter adotado, a grosso modo, uma estrutura de narrativa mitológica: “Cenário e personagens são apresentados, surge o conflito, surge o herói, o plano do herói, a batalha do herói, o triunfo e a paz consequente”. Das incertezas de 1964 até a plena implantação da ordem e da “paz social”, passando pela evocação de D. Pedro II em Independência ou Morte, teríamos, portanto, esse esboço de épico nacional fardado. O depoimento do diretor fica assim condicionado à eventualidade de o espectador perceber esse subtexto metafórico que teria orientado a ordenação das cenas.

Se perceber, terá uma leitura (superestimada, talvez) do aparato cultural-ideológico do governo militar. Se não perceber, como aconteceu comigo, estará diante de uma compilação que certamente fala por si, mas diz aquilo que todos já sabíamos.  

A próxima obra-prima

novembro 1st, 2010 § 13 Comentários

Costumo ser comedido nas minhas opiniões sobre o cinema brasileiro. Há entre os críticos aquele dilema permanente entre ser complacente, exaltar o bom além da conta, e ser rigoroso demais, cobrando de cada filme todas as insuficiências de uma cinematografia. Mas às vezes é preciso reconhecer quando se está diante de uma obra-prima. Não pestanejei em dar esse qualificativo a Lavoura Arcaica quando vi o filme pela primeira vez, num DVD que Luiz Fernando Carvalho me confiou. Nem a Santiago ou Jogo de Cena, quando seus diretores fizeram o mesmo. Nem a Cidade de Deus e Serras da Desordem, quando os vi em sessões para a imprensa.

Estou agora diante de outra sensação semelhante. Assisti nesse fim de semana ao primeiro longa de Eduardo Nunes, Sudoeste. Foi numa cópia em DVD offline, em baixa resolução, sem edição de som e sem a trilha sonora original. Ainda assim, fiquei com a nítida impressão de estar diante de um filme extraordinário. Um filme de exceção no cinema brasileiro, seja pela atmosfera quase extraterrena (Paulo Halm brinca que este é “o mais belo filme eslavo já feito no Brasil”), seja pelo rigor das composições e a sublime plasticidade da fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro Jr.

Não quero antecipar muito para não estragar a justa expectativa em torno do filme. Mas posso dizer que se trata de uma história mágica, que esculpe o tempo como um quase-círculo, cujas pontas, em vez de se encontrarem, se tangenciam e se prolongam misteriosamente. Uma menina fica órfã ao nascer e tem toda a sua existência, da infância à velhice, sintetizada num único dia, o da Folia de Reis. No seu papel, sucedem-se a pequena Raquel Bonfante, Simone Spoladore e Regina Bastos. O caminho de sua curta-longa vida parece repetir o da mãe. Ambos são irmanados por um segredo de família que ninguém consegue articular, mas fica claro para o espectador.

Eduardo Nunes é o premiado autor de curtas compassados e reflexivos como Terral, Tropel, Reminiscência e Duas da Manhã. Sua admiração por cineastas como Tarkovski, Dreyer, Terence Davies e Mário Peixoto podia ser ocasionalmente visível naqueles trabalhos, mas nunca pensei que pudesse inspirar tamanho controle de mise-en-scène, espaços, ritmos e tonalidades. Sudoeste foi filmado numa janela pouco comum (3.66), que sublinha a horizontalidade das locações em Arraial do Cabo e gera enquadramentos de estonteante beleza.

Por enquanto, vá curtindo os frames (em baixa definição) que botei aqui. Nos cinemas, só em 2011.

Ufa!

novembro 1st, 2010 § 1 Comentário

Onde estou?

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