Tempo de ‘criadoria’
junho 30th, 2011 § 2 Comentários
Um dos aspectos que pretendo abordar no bate-papo da Mostra Fotocine – hoje (quinta) às 18h30 no Centro Cultural Correios, Rio – é o que venho chamando de Criadoria. Trata-se de um processo em que a criação se confunde com a curadoria, pois se projeta sobre obras alheias já existentes ou ainda por nascer.
Esse processo tem sido muito comum nas artes visuais que se fundam na reprodutibilidade técnica, característica que facilita a criadoria. Cinema e fotografia, temas da mostra curada por Andreas Valentin, são justamente os campos em que isso mais parece florescer.
No cinema, a criadoria se manifesta desde a velha forma do filme em episódios, em que um produtor-curador repassa a diretores diversos a responsabilidade de criar um filme curto a partir de um determinado tema ou dispositivo – as séries “Cidades, eu te Amo”, Destricted (filmes eróticos por diretores de cinema de arte) etc – até modelos mais sintonizados com a arte colaborativa em voga.
Tomemos, por exemplo, Desassossego, um longa formado por fragmentos filmados por diversos realizadores a partir de sugestões contidas numa carta dos diretores-curadores Felipe Bragança e Marina Meliande, que montaram o filme final. Ou Pacific, em que Marcelo Pedroso editou cenas filmadas por turistas em cruzeiros. Eduardo Coutinho fez Um Dia na Vida com trechos de programas de TV de um único dia, enquanto Kevin MacDonald construiu A Vida em um Dia com cenas filmadas por pessoas de várias partes do mundo num mesmo dia e postadas no Youtube especialmente para esse projeto. Em The Clock, Christian Marclay examinou uma miríade de filmes para reunir referências visuais e sonoras às 24 horas do dia, minuto a minuto, num filme de 24 horas de duração.
Os fotógrafos não estão imunes a essa febre de criadorias. Dois projetos chamaram minha atenção recentemente. Um é do artista canadense Jon Rafman, que surfou mundo afora pelo Google Street View e encontrou “fotos” chocantes, curiosas, engraçadas ou intrigantes. Seu projeto 9 Eyes of Google Street View já rendeu exposições, um livro e muita badalação. O outro projeto, já tratado aqui no blog, é o da fotógrafa suíça Corinne Vionnet, que sobrepôs centenas de fotos encontradas na internet, criando imagens coletivas de pontos turísticos incontornáveis.
Esses trabalhos lidam com a abundância e o quase-anonimato da produção fotográfica contemporânea. Procuram no excesso e no indiscriminado aquilo capaz de criar novos sentidos. Novos, mas que, em última análise, se referem à própria condição atual da imagem: solta pelo mundo.
Esses criadores-curadores se destacam pela eventual originalidade de suas propostas e pelo acesso que conseguem aos meios de repercussão. Mas não têm outros privilégios especiais, já que todos somos curadores em potencial. O acervo do mundo está ao alcance de qualquer um para escolher, recombinar, repaginar e exercer a criadoria.
Fotografia e cinema
junho 28th, 2011 § 1 Comentário
Começa hoje no Centro Cultural Correios, no Rio, a Mostra Fotocine, que pretende vasculhar as muitas relações entre cinema e fotografia fixa. Lá estão na programação, entre documentários e ficções, filmes em que o fotógrafo é o personagem principal, outros em que a fotografia fixa em si é o destaque, e outros ainda compostos basicamente de imagens paradas, como o francês La Jetée e o brasileiro Vinil Verde.
Com curadoria do fotógrafo Andreas Valentin, a mostra vai até o dia 3 de julho, com entrada franca. Uma apresentação geral do evento e a programação dia a dia podem ser vistas aqui. Conheça também o blog da mostra.
Haverá dois debates. O primeiro, hoje às 18h, reunirá Walter Carvalho, Pedro Vasquez e Marcos Bonisson. Do outro, quinta-feira às 18h30, participaremos eu e o cineasta Aurelio Michiles (O Cineasta da Selva).
O parentesco, as interações e as oposições entre fotografia e cinema formam um campo fértil para teóricos, ensaístas e curtidores de cinema. São muitas as veredas convidativas para se tomar. Instado a produzir um texto para o catálogo da Fotocine, eu escolhi o uso da imagem congelada dentro do movimento fílmico e suas implicações no tratamento do tempo e da memória.
A seguir, a íntegra do texto:
Quando o cinema para
Pode ser um truísmo lembrar que o cinema é uma sucessão de fotografias apresentadas em velocidade tal que perdem a qualidade de fotografias para sugerirem movimento. Mas não tanto no contexto desta mostra, que, entre outras coisas, vem chamar atenção para a presença (sobrevivência?) da fotografia na voragem do cinema, seja como tema, seja como elemento constitutivo.
Se pensarmos bem, a foto será um átimo intermediário entre os fluxos da vida e do cinema. A foto (e tomemos aqui o frame de vídeo como um análogo) é tanto a unidade indivisível da matéria cinematográfica como a figuração de um momento congelado no fluir das coisas reais. O cinema recria as condições para que a imagem da foto retorne à sua cadeia de relações como um sucedâneo do mundo de onde foi retirada. Daí o poder de sugestão da imagem fixa, por contraste, dentro da situação-cinema.
Adeus, bravo guerreiro
junho 27th, 2011 § 2 Comentários
Gustavo Dahl começou a morrer enquanto assistia a um filme em sua casa de Trancoso (BA) na noite de domingo. Terminou no hospital, horas depois, vítima de um infarto fulminante. O cinema brasileiro está em luto profundo. Gustavo foi o ideólogo de algumas das transformações mais importantes sofridas pelo cinema brasileiro desde a década de 1960.
Como crítico, foi um dos teóricos do Cinema Novo. Como cineasta, procurou combinar o cinema político com formatos mais abertos nos longas O Bravo Guerreiro, Uirá um Índio em Busca de Deus e Tensão no Rio. Como gestor, foi o primeiro a reivindicar um lugar para o cinema junto às mais altas esferas da República. Na Embrafilme, ajudou a promover um dos momentos de glória do cinema brasileiro e tornou famoso o lema “Mercado é cultura”, que alguns teimam em ler ao contrário. Foi o primeiro diretor-presidente da Ancine e ultimamente dirigia o CTAV – Centro Técnico Audiovisual, órgão ligado ao Ministério da Cultura.
Só há pouco menos de dois anos comecei a conviver em alguma proximidade com o Gustavo, por conta da revista Filme Cultura. Rapidamente compreendi por que tanto o admiravam como líder de grupos. Ele tinha uma enorme perícia em ouvir a todos, mas sutilmente selecionar o que de melhor entrava na discussão. E não titubeava na hora em que a palavra decisiva se fazia necessária. Tudo isso com as vantagens incomparáveis do humor fino, da digressão ilustrativa, das frases lapidares que eu me acostumei a colocar de pronto no Twitter durante as reuniões de pauta da revista. O trabalho lhe fazia aflorar uma paixão e um sentido de liberdade inebriantes.
A última vez que o vi foi no dia 31 de maio, numa exibição especial do documentário Passe Livre, de Oswaldo Caldeira, um dos vários filmes alheios que ele montou. Andava ansioso pela renovação do projeto da Filme Cultura junto à Petrobras, o que não aconteceu até agora. Acredito que a Filme Cultura foi a sua última grande alegria profissional. Vê-lo vibrar com o lançamento de cada edição era algo que rejuvenescia não só a ele, mas a todos que o cercavam.
Como eu, muita gente no cinema brasileiro está se sentindo agora um pouco órfão. Um guerreiro a menos numa planície cada vez mais desolada.
P.S. O velório será amanhã (28), das 15 às 18h, no Salão Portinari do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.
Cogumelos podem salvar o planeta
junho 25th, 2011 § Deixe um comentário
Micologista, escritor maia, designer de permacultura, etnofarmacologista, futurista, cientista noético… Talvez você nunca tenha visto tantas designações profissionais incomuns nos créditos de um documentário. Estes e muitos outros são ouvidos em 2012 – Tempo de Mudança como arautos de uma nova consciência em termos de comportamento social, ecologia e sustentabilidade.
O âncora do projeto é o jornalista americano Daniel Pinchbeck, autor do best-seller 2012: O Ano da Profecia Maia. O filme não é uma adaptação do livro, mas uma nova investigação de Pinchbeck junto à comunidade que busca atalhos de sobrevivência para o planeta. A tese de Pinchbeck é que a crise ensina, basta querer aprender. A badalada profecia maia sobre o apocalipse em 2012 seria na verdade a antevisão do fim de um ciclo e o começo de outro. Daí a mescla de catastrofismo e hesitante otimismo que ele recolhe em suas conversas. Pinchbeck quer anunciar o possível advento de uma forma avançada de inteligência que incluiria o alternativo, o colaborativo e… o aditivo.
Sim, porque a sua tomada de consciência começou com um desbunde aos 30 anos e uma imersão no xamanismo e no psicodelismo. A saída para os problemas globais passaria, segundo o filme, por mudanças de paradigma pessoais, como se o estado do mundo fosse resultado da mera soma de resultados individuais. Para isso coletam-se testemunhos particulares de artistas-ativistas. Sting narra em detalhes sua experiência com ayauhasca no Brasil; Gilberto Gil conta como a ioga o transformou física e espiritualmente; David Lynch faz mais uma defesa de sua meditação transcendental; Ellen Page (Juno) confessa que se sentiu “muuuuito bem” mexendo em cocô de cabras numa fazenda do Oregon.
Toda a retórica do filme se equilibra entre os bons propósitos e a ingenuidade, uma vez que se mantém afastada da política. A estética é a da conversa entremeada por clipes de variadas procedências e formatos, como se consagrou nesse tipo de doc-grandes-questões. Quem dirige 2012 – Tempo de Mudança (conheça o site do filme) é João Amorim, o outro filho cineasta do ex-ministro Celso Amorim. Ele vem da animação e é também responsável pelas abundantes vinhetas animadas do filme, todas aliás bastante “animadas” por um visual psicodélico. A convergência de toda argumentação, no fim das contas, para uma espécie de utopia neo-hippie dá um caráter peculiar – a meu ver, limitativo e comprometedor – a esse ensaio desejoso sobre a renovação do mundo.
De Recife a Cotiporã
junho 24th, 2011 § 1 Comentário
O que pode haver em comum entre o curta Recife Frio e o longa Morro do Céu, reunidos no lançamento da Sessão Vitrine esta semana, além de serem dois dos melhores filmes realizados no Brasil nos últimos anos?
Não muita coisa, certamente. O fenômeno atmosférico que congela a Recife imaginada por Kleber Mendonça Filho nem chega a aproximá-la do sul ensolarado que Gustavo Spolidoro capturou. Recife Frio (foto à esquerda) é um falso documentário supostamente rodado por uma equipe da TV argentina, e usa o código da sátira para falar de coisas graves como a desumanização das cidades e o jequismo do consumo cultural de massa. Morro do Céu, por sua vez, faz do cinema de observação radical uma ferramenta para plasmar um modo de vida interiorano e bucólico.
O que esses dois filmes têm mesmo em comum é o fato de consagrarem dois diretores companheiros de geração e cujas carreiras, iniciadas nos anos 1990, exprimem um desejo contínuo de aprimoramento, experimentação e comunicabilidade. Kleber, dublê de crítico e realizador, fez curtas originais como Vinil Verde e Eletrodoméstica, além do longa Crítico. Gustavo tem curtas premiadíssimos como Velinhas e De Volta ao Quarto 666, mais o virtuosístico longa em plano-sequência Ainda Orangotangos. Recife Frio e Morro do Céu são suas respectivas obras-primas até o momento. Neles, o domínio de modelos narrativos é excepcional.
Morro do Céu (foto à esquerda) observa o cotidiano do “guri” Bruno Storti na pequena Cotiporã, colônia de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. Bruno passeia com os amigos pelos arredores, tenta capturar a atenção de uma menina com mensagens pelo rádio e o celular, trabalha na lavoura da família, restaura uma moto, conversa com os pais sobre o futuro e a Itália. As ações são fragmentadas, mas a edição vai formando linhas de continuidade que sugerem um fluxo dramático ficcional. Tudo respira singeleza, calma e intimidade, numa paisagem montanhosa e verdejante que ajuda a contextualizar as sensações experimentadas por Bruno. A introspecção do menino é um dado que o diretor utiliza a seu favor. Ele monta o filme no diapasão do personagem, em vez de forçar uma “expressividade” artificial que fosse mais propícia a uma suposta economia narrativa.
Durante quatro meses de filmagem, Gustavo Spolidoro trabalhou praticamente sozinho, fazendo imagem e som. A câmera, quase sempre fixa no tripé, colhe cenas espontâneas no figurino ideal do cinema direto americano, como uma mosca na parede. Mas esta é uma mosca caprichosa, atenta à beleza das composições e à eloquência da luz.
Nada mais distante desse naturalismo minuciosamente burilado do que o jorro de ideias mordazes presente em Recife Frio. Como em A Menina do Algodão e Vinil Verde, Kleber trabalha entre o carinho e a ironia para com os gêneros cinematográficos. Neste caso, a ficção científica e o mockumentary, ou pseudo-documentário, tirando sarro com a linguagem da televisão e provocando um riso crítico e fecundo. Mesmo para quem não conhece as vicissitudes da capital pernambucana, ou não percebe em toda sua extensão a bela homenagem final a Lia de Itamaracá e ao clássico neorrealista Milagre em Milão, o filme tem apelo imediato e ressonância em qualquer um. Estou longe de ser o único a considerar Recife Frio o melhor curta feito no Brasil desde Ilha das Flores.
>>> O programa duplo fica em cartaz até quinta-feira próxima no Cine Joia (Rio), na sessão das 20h30. Clique aqui para ver a programação em outras cidades.
Abaixo, o trailer de Morro do Céu:
Poesia como questão de moral e de fé
junho 23rd, 2011 § Deixe um comentário
Se você ainda não encontrou uma definição ideal para a poesia, vai ser difícil encontrá-la neste filme sul-coreano que se intitula exatamente Poesia. Para a protagonista Mija (Yun Jeong-hie), uma mulher de 66 anos que se descobre esquecendo as palavras e se inscreve num curso de poesia, esse conceito tem uma acepção naïf – é o que vem de dentro, de ecos da infância e de uma certa propensão para “gostar de flores e dizer coisas estranhas”. Para o diretor Lee Chang Dong, poesia pode ser algo mais intenso e conflagrador, como a disposição de alguém para enfrentar seus dilemas morais.
Poesia conta duas histórias paralelas que se comunicam por vínculos, a meu ver, muito tênues. De um lado, Mija enfrenta o princípio de uma doença mental e tenta sustentar a sanidade lutando com as palavras que começam a lhe escapar. Reter as palavras e organizá-las num poema representaria uma vitória contra o tempo. De outro lado, Mija se confronta com a responsabilidade moral pelo envolvimento do seu neto adolescente (que ela cria sozinha) com um crime sexual que resultou no suicídio da vítima. Além dessas duas linhas principais, outros subplots se acotovelam entre os vários personagens secundários, levando o roteiro (premiado em Cannes) a se estender por desnecessários 139 minutos.
O trunfo para fazer essa longa duração parecer menor é o talento dos atores, especialmente da veterana Yun Jeong-hie, supostamente retirada da aposentadoria pelo diretor para esse papel. A sutil elegância e o retraimento da personagem, que Yun distribui por todo o corpo, nos engaja no labirinto emocional dessa mulher em sua decisão de “ver de verdade” o mundo no momento em que tudo parece desmoronar à sua volta. A identificação entre Mija e a menina suicida lança pontes para além do visível, cabendo ao público preencher as lacunas com a especulação – algo que pertence à mesma raiz etimológica de “espectador”.
A cena da missa na igreja católica pode ser uma chave para a ideia de poesia como uma questão não só de moral, mas de fé. A partir daquele momento, Mija vai se comportar como uma pessoa religiosa: tentando conciliar o senso de compaixão com o dever de justiça. Suas atitudes vão colocá-la em campo oposto ao de Mother, de Bong Joon-ho, grande filme sul-coreano exibido no ano passado. Onde Mother era épico e amoral, Poesia é compenetrado e moralista. A sobrecarga de metáforas envolvendo flores e frutas sugere um flerte com certa noção de “filme poético oriental” para consumo no Ocidente. Nada que o comprometa, mas que apenas soma a suas limitações.
O passado segundo Woody Allen
junho 22nd, 2011 § 1 Comentário
(Este artigo adianta informações sobre a trama)
Gostei bem menos do que esperava de Meia-Noite em Paris. Aquela sucessão de encontros com artistas dos anos 1920 e da Belle-Époque me soou bastante kitsch. Pareceu-me um exercício para alunos de dramaturgia: “crie uma cena com Picasso, uma com Hemingway e outra com Dali”. E então vêm os diálogos esperáveis, as posturas típicas, o clichê do clichê de cada um. Vi ali muito de um certo complexo de inferioridade do americano médio em relação à cultura europeia, que faz o cinema deslumbrar-se e namorar cidades do Velho Mundo a intervalos regulares, passando por Sinfonia de Paris (An American in Paris), Candelabro Italiano (Roman Adventure) e tantos outros.
É claro que uma decepção com Woody Allen é sempre uma decepção menor. Mesmo com seu ar camp, o filme consegue produzir boas ideias e algumas ótimas piadas. Para começar, em seu recuo no tempo, Woody Allen mostra a “cena” que deu origem ao culto americano de Paris, justamente essa visão da cidade criada pelos expatriados que lá viveram no início do século 20. Allen é um legítimo herdeiro da admiração por essa Paris romântica e transgressora, um pouco como o personagem de Owen Wilson.
Mas o que mais me interessou em Midnight in Paris não foi o deslocamento geográfico, e sim a pensata de Woody sobre o deslocamento no tempo. O filme não é simplesmente uma peça de paixão pelo passado, mas uma oblíqua declaração de amor ao presente. É na interrelação e nos ecos entre os dois períodos que melhor se manifesta a maestria de Allen como roteirista e frasista sensacional.
Os personagens representam diferentes formas de interesse pelos tempos idos. A mais caricata delas é a do intelectual pedante (Paul/Michael Sheen), que vê o passado como uma coleção de informações eruditas e poses afetadas. Outra, afetiva e nostálgica, é a de Adriana, que não se sente à vontade no seu próprio tempo e acredita que a “época de ouro” estava ainda mais atrás, no fim do século19. A forma talvez mais saudável e pragmática de amor pelo passado é a encarnada pela jovem vendedora do mercado de pulgas (Gabrielle/Léa Seydoux), que tem afeição pelos seus itens de antiquário mas parece viver em paz com sua época.
Gil/Owen Wilson tem um pouco de cada um desses sintomas. É como se os outros personagens aqui citados fossem projeções de suas inquietações e de seu leve desencaixe com a realidade ao redor. Ele é não só o personagem que vive as situações, mas também o texto-dentro-do-texto de Woody Allen, a chave para a compreensão do seu recado: por mais que sejamos apaixonados pelo passado, este terá sempre um passado supostamente melhor para mirar. E que o importante, afinal, é escolhermos o melhor presente.
Isto soa banal, eu sei, mas é dessa banalidade pseudo-profunda que se faz Meia-Noite em Paris.
Fotos de Cabo Verde
junho 19th, 2011 § Deixe um comentário
Diversão de domingo:
Postei três álbuns no Picasa com uma seleção das minhas fotos de Cabo Verde. Não sou um fotógrafo com estética ou técnica particulares. Tento apenas capturar da melhor maneira possível o que vejo, usando câmera simples ou smartphone. Algumas imagens são mesmo frames de vídeo. Portanto, se liguem mais no objeto do que na forma das fotos.
Quebrando Fernando
junho 18th, 2011 § 3 Comentários
Fernando Henrique Cardoso está fazendo hoje 80 anos. Parabéns, FHC. Como todo ex-estadista digno, ele merece as devidas homenagens. Mas o que está acontecendo vai muito além disso. Fernando Henrique torna-se octagenário a bordo de um lifting, se não facial, pelo menos político.
Várias circunstâncias contribuíram para que FHC restasse como única reserva de liderança nacional para o PSDB, melhor dizendo, para quase todos os que se opõem aos governos Lula-Dilma. Com o fracasso rotundo de Serra (não tanto em termos eleitorais, mas de imagem pública), as dificuldades para fazer de Alckmin ou Aécio nomes de apelo fora de suas regiões e a falta de outros candidatos a isso, ficou para os ombros do Príncipe da Sociologia a responsabilidade de sustentar um lastro de identidade para a oposição. FHC é como um jogador que não participa do jogo, mas é colocado bem à vista na beira do gramado para inspirar quem está dentro do campo.
Um certo sistema da oposição se organizou em torno dele. Participam fundações, banqueiros, colunistas de jornal e gente da área do entretenimento. Merval Pereira o situou ontem na “vanguarda dos movimentos sociais” por defender a descriminalização da maconha e a aproximação da oposição à classe média conectada na internet. O documentário Quebrando o Tabu, produzido por admiradores do “presidente” e dirigido por um jovem cineasta, tem tudo para ser visto como parte dessa empreitada.
Foi muito feliz a coincidência do lançamento do filme com a decisão do STF de resguardar o direito dos que defendem a legalização das drogas. Como um dos argumentistas e estrela principal, Fernando Henrique faz algo análogo a Al Gore com sua pauta ecológica e o sermão fílmico Uma Verdade Inconveniente (reparem que até o título Quebrando o Tabu busca um efeito semelhante). É justo e positivo que ex-presidentes cavem um lugar de afirmação na grande cena política e sigam contribuindo para o bem da Humanidade. Mas a analogia entre esses dois casos só faz evidenciar a imensa distância que os separa.
Quebrando o Tabu simplesmente não consegue fazer de Fernando Henrique um real protagonista. Na maior parte do tempo, quando não está verbalizando clichês sintéticos sobre o fracasso da guerra às drogas (a única afirmação sólida do filme), ele está apenas ouvindo e concordando com seus interlocutores, como um âncora inerte. Como personagem de doc, é canastrão até ao ouvir de cenho franzido. Ou a edição não soube aproveitar seus melhores momentos nas conversas, ou não houve mesmo melhores momentos.
Com poucas exceções, o filme não procura pessoas pelo que elas conhecem sobre o tema, mas pelo “valor” que podem somar ao filme ou associar ao personagem central. FHC é mostrado sempre em paralelo a presidentes e ex-presidentes, celebridades sem muito o que dizer sobre o assunto (como Paulo Coelho e o ator Gael García Bernal) e jovens estudantes ou militantes junto aos quais o sociólogo se contagiaria de juventude e militância. Algumas cenas provocam riso involuntário, como a de FHC subindo o morro para investigar in loco a questão do tráfico ou denunciando quem fala sobre drogas sem “vivência direta” do assunto.
O roteiro é muito ruim, dispersivo e cheio de ênfases erradas. A pauta (sim, porque esse é um filme com uma pauta) resulta confusa entre descriminalização, legalização e liberação das drogas em geral, ou só da maconha, ou não é bem isso… Uma argumentação cheia de dedos, que talvez não faça jus sequer ao que Fernando Henrique de fato esteja representando nessa discussão.
A volta de FHC ao proscênio da atividade política pode até se concretizar, mas não creio que esse filme ajude muito no projeto.
Caminhos poéticos da “purinha”
junho 17th, 2011 § 1 Comentário
O lançamento da Sessão Vitrine esta semana é o filme vencedor da competição de documentários da Première Brasil no Festival do Rio e eleito melhor doc latino-americano do Festival de Mar del Plata em 2008. Produzido pelo bravo mineiro Tarcísio Vidigal, veio se juntar a um grupo de filmes que renovaram e revigoraram a linguagem documental no Brasil nos últimos dez anos. De Estrada Real da Cachaça emana uma música doce e original.
Quase nenhuma entrevista, nenhum depoimento de historiador, nem texto explicativo. Em vez disso, uma suíte de frases, chistes, cantos, ruídos naturais e belíssimas imagens para inventariar os muitos papéis da cachaça no interior de Minas. Mais precisamente, na região do antigo Caminho do Ouro, por onde a colônia escoava a produção das minas até o porto de Paraty. No rastro dos índios, os brancos abriram a estrada. No rastro do ouro, a pinga alegrou os espíritos.
Pedro Urano poderia ter apresentado seu material, resultado evidente de boa pesquisa, em formatos bastante tradicionais de doc histórico. Mas o que chama atenção em Estrada Real da Cachaça é justamente a troca desse caminho fácil por veredas mais penetrantes e encantadoras. Todos os elementos parecem acorrer mais a um chamado poético que a uma convocação informativa. As lavadeiras cantantes de Milho Verde, os bebuns de cidadezinhas adormecidas nos vales, os fiéis de Morro Vermelho que banham o Cristo em cachaça, o garoto que tenta conduzir a equipe até um alambique e se perde no caminho – é com eles que o filme afina seu diapasão. O que poderia ser um dó-de-peito documental vira uma ciranda gostosa em tom menor, dado pela relação carinhosa dos mineiros com a “branquinha”.
O óbvio voa bem longe dali. As vozes (quase sempre fora de quadro) ganham ares de versos. As imagens de arquivo chegam calibradas pelo desejo de experimentação, fazendo com que passado e presente se encontrem nos canaviais, cidades e trechos de serra. Ava Rocha foi a responsável pela inspirada edição de som e imagem, marcada pelo impulso vertoviano (o trem, a essência do movimento no mundo, a realidade recriada no corte).
A escala em uma mina de topázio em Mariana, com digressões alegóricas em torno do turismo e do destino atual das pedras preciosas, cria uma “barriga” e um desvio temático menos interessante. O corpo oscila um tiquinho, mas nada que abale a estrutura nem o charme da viagem.
>>> Estrada Real da Cachaça está em cartaz até quinta que vem no Cine Joia, Rio, diariamente na sessão das 21h. Veja aqui a programação em outras cidades. Abaixo, o trailer:
Ely revê Ileli
junho 15th, 2011 § Deixe um comentário
A amizade pessoal e a admiração profissional moveram o crítico Ely Azeredo a preparar para a Coleção Aplauso uma espécie de dossiê sobre o cineasta, crítico, jornalista e livreiro Jorge Ileli (1925-2003). Além disso, o livro é perpassado por dois sentimentos de perda: a pouca frequência com que Ileli dirigiu filmes (ele fez apenas quatro longas, dois curtas e um número não conhecido de cinejornais); e o desaparecimento ou deterioração de quase todos os negativos de seus filmes. De alguma forma, Jorge Ileli – O Suspense de Viver tenta preencher o vácuo de informações sobre um realizador que caiu numa espécie de limbo.
Ele não foi o único obscurecido entre os que viveram a fase de transição do cinema “velho” para o Cinema Novo, ao longo das décadas de 50 e 60 do século passado. Quanto se sabe e se fala hoje de Roberto Santos e Roberto Pires, por exemplo? Junto com Paulo Vanderley, Ileli dirigiu em 1953 um clássico que unia ensinamentos do neorrealismo italiano com traços de policial americano e apontava para uma modernidade prestes a desembarcar no cinema brasileiro: Amei um Bicheiro (1953). Depois realizou a comédia o thriller Mulheres e Milhões, o documentário O Mundo em que Getúlio Viveu e o thriller noir Viver de Morrer. Em comum entre todos, como bem destaca Ely, a origem em fatos que tiveram o primeiro impacto nas páginas do jornais.
Ileli foi jornalista de O Cruzeiro e crítico da revista de esquerda Diretrizes, mas a partir de certo momento dedicou a maior parte do seu tempo a conduzir negócios em restaurantes e livrarias. Foi dono da rede Entrelivros, e numa de suas lojas Ely Azeredo montou o Estúdio A, pioneiro na oferta de cursos e oficinas de roteiros para cinema e TV. Apesar dessa proximidade, numa época em que era grande a interação entre cineastas e críticos, o livro passa com certa velocidade pelos aspectos biográficos de Jorge Ileli. A preferência de Ely recaiu sobre os dossiês críticos e de reportagens sobre o seu cinema. Assim, somos reapresentados a textos de Sérgio Augusto, José Louzeiro, Fernando Ferreira, Antonio Olinto e Octavio de Faria, entre outros. Ao repescar um texto próprio, uma crítica de Amei um Bicheiro publicada em 1958, Ely nos recorda como podia ser ácido, mesmo ao falar de um filme que admirava com restrições:
“Já no caso de Eliana, o trabalho da direção foi frustrado. Privou-a de seu padrão habitual de boneca de engonço, de sucesso de programa de calouros, sem obter o mínimo de retribuição como sucedâneo. O resultado é uma atuação zumbi, constrangida: uma colegial lançada no set em transe hipnótico”.
Entre outros bons textos, o livro tem uma cintilante análise de José Carlos Monteiro sobre o Ileli crítico. Pena que as duas resenhas escolhidas para ilustrar essa faceta não sejam representativas do que ele devia ter de melhor. Alguma informação sobre os curtas do diretor seriam bem-vindas nesse dossiê. No que diz respeito à edição, o uso emaranhado de itálicos deixa o leitor às vezes perdido entre as várias vozes presentes no livro.
Mesmo com uma certa fragmentação, O Suspense de Viver ajuda a clarear áreas ainda obscuras na história do cinema brasileiro, normalmente contada com base nos grandes medalhões do passado, nos ícones cinemanovistas e na diversidade contemporânea. Jorge Ileli foi um daqueles discretos autesãos (misto de autores e artesãos) que fizeram a passagem e correm o risco de ficarem esquecidos no caminho.
>>> O livro pode ser comprado em livrarias ou lido/baixado no site da Imprensa Oficial do Estado de SP.
Aqui e ali, no Cinesul
junho 13th, 2011 § Deixe um comentário
Abre hoje (segunda) à noite e começa amanhã para o público o Cinesul – Festival Ibero-americano de Cinema e Vídeo (veja o site do evento). Dos filmes programados este ano, já tive oportunidade de ver alguns, e passo a vocês minhas impressões e links de resenhas:
Update: Walachai, de Rejane Zilles. Depois de fazer um curta a respeito de um velho imigrante que escrevia a história de sua região gaúcha em cadernos pautados, Rejane partiu para este longa sobre o Walachai, onde se fala um dialeto já em desuso até na Alemanha e o Brasil parece num dos limites de sua identidade. A diretora, nascida lá, tem a sensibilidade e o talento suficientes para nos fazer mergulhar naquele lugar.
Babás, de Consuelo Lins. Um curta já antológico, super-premiado, que parte de uma história pessoal para levantar a cortina de sobre o hábito colonial brasileiro de famílias brancas contratarem babás negras. Quando estive recentemente no Museu do Apartheid, em Joanesburgo, vi que o tema é importante também na África do Sul. Consuelo não disfarça uma certa influência de Santiago, de João Moreira Salles, o que só beneficia seu meditativo e ao mesmo tempo incisivo doc.
A Dama do Peixoto, de Douglas Soares e Allan Ribeiro. Outra pérola de curta duração e longa ressonância. Douglas e Allan constroem pela ausência o perfil de uma mulher misteriosa que frequenta uma praça no Bairro Peixoto. É desses filmes que se impõem pelo rigor do dispositivo e criam uma relação intrigante entre personagem e espectador.
Los Minutos, las Horas, de Janaína Marques Ribeiro (Cuba/Brasil). Uma direção firme e uma linguagem sintética magnetizam o nosso olhar para a história de uma mulher comum em busca do amor na Havana de hoje. Esse curta também já colheu prêmios em diversos festivais pelo mundo.
O Gigante do Papelão, de Barbara Tavares. Perfil conciso e eficiente de Sergio Cezar, um miniaturista engenhoso que constrói favelas e paisagens urbanas em papelão. A junção de arte e bons propósitos sociais pode soar oportunista, mas aqui existe uma fagulha de sinceridade que não nos deixa indiferentes.
Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini. Um dos melhores retratos de cartunista que já vi no cinema. Leia a resenha.
Os Representantes, de Felipe Lacerda. Um bom mergulho na política à moda amazônica. Confira a resenha.
Claudia, de Marcel Gonnet Wainmayer (Argentina). Interessante revisão de uma personagem da crônica policial argentina. Veja a resenha.
Na Trilha do Bonde, de Virgínia Flores. Viagem poética aos trilhos dos bondes cariocas de outrora. Leia a resenha.
Uma família brasileira
junho 11th, 2011 § 1 Comentário
Há documentários que se equilibram numa linha tênue entre a adesão simpática a seus personagens e a exploração de seus traços mais pitorescos. Eduardo Coutinho é mestre em evitar a ultrapassagem dessa linha. O risco está bastante presente em Família Braz: Dois Tempos, filme com que Arthur Fontes e Dorrit Harazim venceram a competição nacional do último É Tudo Verdade. Conheça o site do filme
Arthur e Dorrit retornaram 10 anos depois às pessoas que documentaram em Família Braz como parte da série Seis Histórias Brasileiras, produzida pela Videofilmes. No ano de 2000, eles queriam mostrar um grupo exemplar de classe média baixa de periferia que não se encaixasse nos estereótipos de exclusão, criminalidade e tragédia. Os Braz, moradores do bairro de Brasilândia, periferia de São Paulo, eram o protótipo da família digna e humilde, mas a que não faltavam metas e ambições. Além do mais, eram simpáticos a não mais poder. O sobrenome e o nome do bairro não mentiam – eles se pareciam com uma ideia média de Brasil.
Dez anos depois vamos encontrá-los com a vida melhorada. Não na medida de suas esperanças, mas ainda assim bafejada pelo sopro da ascensão social. O progresso entre eles é medido pelo número de carros na garagem (de um para quatro), as casas próprias ou a expansão dos puxadinhos, os cruzeiros de férias por águas nacionais e os novos hábitos adquiridos, como o consumo de comida japonesa e as idas a espetáculos teatrais. O carisma de “Seu” Toninho, Dona Maria, seus quatro filhos e respectivos genros e noras encanta a plateia. Eles falam sem timidez nem censura sobre suas questões pessoais e profissionais, seus sonhos e limitações. Não há como não admirá-los.
Ainda assim, me pergunto se o filme não os expõe ao mostrá-los cultuando uma ênfase exagerada no consumo e uma relação superficial e ingênua com o mundo da cultura e do bem-viver. Em vários momentos, a plateia de uma pré-estreia culta ria de algumas falas, traindo nesse riso uma consciência de diferença. O efeito cômico de um encanador humilde descrevendo seu deslumbramento com o musical Miss Saigon é algo que me deixa em cima daquela linha tênue entre a simpatia e a docexplotiation. Uma das cenas recuperadas do filme de 2000, em preto e branco, vem reiterar a pouca solidez das concepções do jovem Anderson, apresentado como “o intelectual da família”, ao falar de Platão, Aristóteles e Freud.
Não quero com isso negar os méritos desse retrato de família. Ver gente que personifica a ambição honesta e a simplicidade sem recalques é algo reconfortante – e relativamente raro no documentarismo brasileiro. Mas tampouco quero me calar sobre os dilemas que o filme me colocou. Entre construir uma imagem simpática dos personagens e desconstruir a visão que eles têm de si mesmos, a parede é muito fina, e este doc chega muito perto de rompê-la.
Outra anotação que não resisto em fazer é sobre o contexto de ascensão social dos Braz e de tantas outras famílias como eles. Nada disso é mencionado no filme, e os diretores se apressam a negar, mas a nova realidade econômica do governo Lula é a grande protagonista oculta de oito daqueles 10 anos compreendidos entre os dois filmes e os dois tempos da Família Braz.
Duas perguntas à Deneuve
junho 10th, 2011 § Deixe um comentário
A entrevista coletiva com Catherine Deneuve ontem (quinta) no Hotel Sofitel, no Rio, começou bem atrasada, correu rápida e sequinha, como parece ser o jeito da “Madame”. Ela falou um pouco de Potiche – Mulher-Troféu, o filme de François Ozon que a trouxe ao Brasil por ocasião do Festival Varilux de Cinema Francês. Falou também sobre a era digital, envelhecimento, divismo e, claro, A Bela da Tarde.
Gravei a entrevista inteira com minha MiniDV. Abaixo, dois trechos em que fiz perguntas à atriz:
Outras declarações de La Deneuve que tenho de memória:
” Diva é coisa de ópera italiana. Acho o termo até um pouco pejorativo”
“Envelhece-se melhor na Europa e provavelmente no Brasil que nos EUA” (falando a respeito de papéis para atores maduros)
“Minha filha Chiara é mais parecida com o pai, Marcello (Mastroianni). Ela é muito italiana. Eu sou bem menos…”
“Você é que tem que me dizer o que acha das mulheres na política. Vocês têm uma presidenta. Diga o que você acha!” (devolvendo a pergunta a um jornalista)
“”Faço essa longa viagem ao Brasil para falar de Potiche e o maior destaque na internet é que eu fumei na coletiva (de São Paulo). Parece pequeno…”
A mulher de lado
junho 10th, 2011 § 1 Comentário
A sinopse oficial de Chantal Akerman, de Cá é de uma simplicidade franciscana: “Um vídeo de entrevista”. E isso é tudo. Quando esteve no CCBB-Rio para uma retrospectiva em 2009, a cineasta belga sentou-se diante do crítico Leonardo Luiz Ferreira para uma entrevista on camera. O filme se resume a essa conversa que durou cerca de uma hora, sem incluir cenas de filmes de Chantal ou qualquer outro material que fugisse à situação-entrevista.
Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, o filme de Leonardo e Gustavo Beck consegue fazer uma conexão profunda com o cinema de Chantal por conta do dispositivo cênico montado para a entrevista. Enquanto a atenção da entrevistada era naturalmente atraída pela câmera principal, colocada no eixo do entrevistador, uma segunda câmera a filmava de fora da sala, através da porta aberta. Na edição, optou-se por usar apenas essas imagens supostamente secundárias. O plano longo, fixo e único radicaliza um comportamento usual nos filmes da própria Chantal, deixando margem para um extracampo rico em interação com a imagem dela própria no centro do quadro.
Ela percebe a segunda câmera ao chegar à sala, e isso instala uma certa tensão em toda a cena. Esse plano lateral deixa à vista uma série de circunstâncias particulares, a começar pela formalidade da sala e uma certa solenidade com que tudo foi preparado. Percebemos melhor o desconforto de Chantal numa cadeira sobre a qual é improvisada um almofada para deixá-la mais alta e os pés quase não conseguem encostar no chão. Ficam mais expostas as suas reações diante das perguntas de Leonardo, a sua linguagem corporal no trato com os assuntos da entrevista, seu esforço para encher sucessivos copos de água, o ato de desobediência quando lhe pedem que não fume no recinto. Por tudo isso, o termo “um vídeo de entrevista” ganha um sentido mais, digamos, dramático do que sugeria inicialmente.
A pauta da entrevista foi composta por questões bem abertas, um tanto convencionais na cobertura dos aspectos clássicos de descoberta do cinema, roteiro, adaptação, composição de quadro, edição, relações entre documentário e ficção etc. Como resultado, temos algumas respostas genéricas que não atendem às especificidades do cinema da autora. Mas quando ela resolve aproveitar bem a deixa, surgem falas muito expressivas, especialmente sobre a relação do espectador com o tempo do filme e sobre o desejo dela de não se limitar à mera experimentação. Surpreende também a sua confissão de que vai muito pouco ao cinema (“uma vez por ano”).
Chantal Akerman, de Cá tem um considerável interesse para cinéfilos hardcore, mas não pretende apresentar nem explicar a obra da autora de Jeanne Dielman e Hotel Monterrey. É quase experimental na secura com que se propõe a ouvi-la assim desse jeito, olhando-a de lado.
Todas as cores da África do Sul
junho 8th, 2011 § 1 Comentário
Uma simples visita turística ao país de Miriam Makeba é suficiente para se perceber que, à falta de uma segregação institucional, outros modos sutis e disseminados de diferenciação continuam a separar negros e brancos. O único vestígio de discriminação formal é uma brincadeira com os visitantes do Museu do Apartheid, em Johannesburgo, que recebem tickets aleatórios de “White” ou “Black” e a sugestão de entrar pela porta correspondente. Mas se os negros assumiram o poder político na dinâmica da nova democracia multirracial, ainda estão longe de dominar o poder econômico na mesma proporção.
Leia a íntegra do meu artigo sobre os ecos do apartheid no Balaio de Notícias, para o qual escrevi especialmente, a pedido do editor Paulo Lima.
Nota dissonante em tempos de chanchada
junho 6th, 2011 § Deixe um comentário
Saiu recentemente pela Programadora Brasil o DVD de Também Somos Irmãos, filme pioneiro na abordagem da questão racial no Brasil. Escrevi esse texto para o encarte do disco:
“Preto com alma branca é fantasma”, diz a certo momento o personagem de Grande Otelo. Assim como essa, outras frases ouvidas em Também Somos Irmãos repercutem na história do cinema social brasileiro. Este foi o primeiro filme nacional a tratar frontalmente do preconceito racial, colocando-o em primeiro plano e sem meias-palavras.
Tratando conceitos controvertidos em chave de melodrama, José Carlos Burle criou uma obra “difícil” para os padrões da Atlântida numa época em que a chanchada começava a dar as cartas. Mas a importância desse filme só cresceu com o tempo. Grande Otelo venceu o prêmio da crítica de melhor ator em 1949, num elenco em que se destacavam também as estreias do menino-prodígio Agnaldo Rayol e do futuro astro Jece Valadão.
O panorama do cinema brasileiro em 1949 era marcado por comédias musicais, dramas rurais e adaptações literárias. Os temas sociais não costumavam ser encarados de frente. No máximo, perpassavam as entrelinhas de histórias de amor e de busca pelo sucesso. Daí a surpresa com que foi recebida a estreia de Também Somos Irmãos, um libelo contra o preconceito racial.
Além do ineditismo do tema na nossa filmografia, causava verdadeiro espanto o fato de ter sido produzido pela Atlântida Cinematográfica, uma fábrica de divertimentos despreocupados e das então nascentes chanchadas. Como entender o selo da Atlântida num filme passado em parte numa favela e com um personagem negro que suspirava pelo amor de uma moça branca criada na elite carioca?
O argumento de Alinor Azevedo mobilizava arquétipos poderosos em enredo acentuadamente melodramático. Os irmãos negros Renato (Aguinaldo Camargo) e Altamiro (Grande Otelo) foram criados por um viúvo milionário, que também adotara duas crianças brancas. Depois de crescidos, Renato e Miro vão compreender a diferença entre “ser filho” e “como se fosse filho”. A barreira racial se mostra mais forte que o suposto gesto humanitário, trazendo discriminação e humilhações para os rapazes “de cor”.
Um grande achado de Alinor foi abrir uma fenda entre os dois irmãos negros. Enquanto Renato é um homem de bem, advogado afeito às leituras e à música “branca”, Miro é um contraventor chegado ao samba, à cachaça e ao inconformismo. Para ele, o irmão tem “alma de escravo”. Numa das melhores sequências do filme, Renato, enfiado num impecável terno branco, sai para a formatura em Direito e é festejado na favela como doutor. O “embranquecimento” de Renato contrasta com a revolta de Miro, que se orgulha de seu “sangue negro”.
Essas visões dicotômicas dos personagens refletem, sem dúvida, certas convicções vigentes na época. Mas também antecipam uma discussão que iria nortear o advento de uma nova consciência da questão racial no Brasil algumas décadas mais tarde.
Entre o conflito de posturas e a solidariedade fraternal, Renato e Miro vivenciam uma das duas linhas dramáticas que atravessam todo o filme. Na outra vertente do roteiro, Renato corteja Marta (Vera Nunes), sua irmã adotiva e aspiração romântica, tendo que para isso rivalizar com um escroque (Jorge Dória) que pretende se casar com ela e se apoderar da fortuna do sogro.
Assunto ousado, como se vê, para a mentalidade dos anos 1940, bastante segmentada em termos sociais, morais e raciais. O atrevimento se deve sobretudo ao perfil do diretor José Carlos Burle, um dos fundadores da Atlântida, onde incentivava a produção de “filmes sérios”. O primeiro longa-metragem do estúdio, em 1943, fora uma biografia disfarçada de Grande Otelo, Moleque Tião, dirigida por Burle.
Também Somos Irmãos é uma amostra de como Burle tentava conciliar temas sociais com entretenimento típico da época. Renato e Miro são compositores, e suas canções irrompem na trama sem pedir licença. Uma delas é interpretada pelo cantor Agnaldo Rayol, então fazendo sua estreia aos 12 anos de idade no papel do quarto irmão. Outro que faz aqui sua primeira aparição no cinema é Jece Valadão, numa pequena ponta como garçom.
O Brasil visto do alto
junho 3rd, 2011 § 4 Comentários
O segundo lançamento da Sessão Vitrine traz ao Cine Joia, no Rio, um dos documentários mais polêmicos das últimas safras. Um Lugar ao Sol não é aquele velho clássico de George Stevens sobre ascensão social, mas um filme sobre assunto análogo. Retrata oito pessoas ou famílias que moram em coberturas de luxo no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. As coberturas, para o diretor Gabriel Mascaro, foram um caminho (um dispositivo) para chegar ao pensamento de um estamento social pouco visitado pelos docs brasileiros.
O filme foi muito discutido em festivais por conta do retrato pouco lisonjeiro que faz de alguns personagens e pela ética duvidosa com que Mascaro deles se aproximou. A produção contatou os entrevistados através de um folheto que apresentava Gabriel como um famoso diretor de publicidade internacional, interessado em conversar sobre a moradia em coberturas. No curso de algumas entrevistas, o tema acabava deslizando para os preconceitos e sentimentos de superioridade e segurança que alimentam o apartheid social nas grandes cidades brasileiras. Sentindo-se num contexto publicitário, as pessoas deram vazão a uma franqueza que talvez não tivessem em outra situação.
Nem tudo no filme é exaltação da diferença. Há também considerações sobre espaço, liberdade, conforto, verticalização urbana etc. Há personagens relativamente matizados. Mas dificilmente o doc não será lembrado pelas cenas explícitas de arrogância social. Um dos personagens elogia a direção por finalmente fazer um documentário sobre “uma coisa positiva”. Não intuía o quadro geral que o filme acabaria por descortinar: o de uma elite dominada pelo medo e o complexo de superioridade.
A ausência de informações sobre o processo de abordagem das pessoas e dos assuntos provoca mal-estar em parte dos espectadores, entre os quais me incluo. Embora admire a força do filme e a originalidade do tema, sinto-me presenciando o efeito de um ardil. Teria o diretor “traído” seus personagens ao estimular neles a demagogia e o preconceito? Deve-se ter com os ricos a mesma ética que se costuma ter ao filmar os pobres, ou seja, protegê-los de suas próprias palavras? São questões que vêm à cabeça depois de vermos o filme. Há mesmo um momento em que uma senhora parece cair em si a respeito do intuito da entrevista, pede para interrompê-la e sai da sala para não mais voltar.
Outros, porém, veem o resultado com naturalidade. Lembro-me de conversas que tive no Festival de Tiradentes em 2010. “Essas pessoas são cultas e informadas o suficiente para saberem o que estavam falando”, dizia Sylvie Debs, então adida cultural da França em Belo Horizonte. Para o ensaísta e professor Cezar Migliorin, havia até certa justiça poética na conduta dos realizadores: “Às vezes a gente tem mesmo que escolher o inimigo e, dependendo do inimigo, partir para a violência”.
É, pode ser.
>>> Um Lugar ao Sol passa diariamente às 19h30 no Cine Joia até a quinta-feira próxima.
O homem ao lado e o espectador em frente
junho 1st, 2011 § Deixe um comentário
A imagem inicial de O Homem ao Lado – as duas faces de uma parede sendo perfurada por golpes de marreta – nos dá a falsa impressão de que veremos os dois lados da história. Mas a proposta de Mariano Cohn e Gastón Duprat é bem mais complexa e provocativa do que uma suposta objetividade equidistante.
Atenção: este texto revela desdobramentos essenciais da trama. Não leia se você ainda pretende ver o filme.
A escolha mais importante é colocar o espectador sempre no ponto de vista do designer. A princípio, é fácil identificarmo-nos com o pai de família que de repente encontra o vizinho abrindo uma janela que dá diretamente para a intimidade da sua casa. A privacidade, tão valorizada pela classe média, parece a questão fundamental. Mas as fissuras vão logo aparecer nesse código de identificação. Leonardo e Vítor não são apenas o que sugerem ser à primeira vista.
Vítor, o vizinho, vai se mostrar surpreendentemente doce e quase carente, apesar do tipo vulgar. Só o conheceremos pelos contatos com Leonardo e pelas reações a esses contatos. Nunca veremos o interior de sua casa, a não ser pelo quadrado mal iluminado da janela em construção. Nosso interesse se abre sobre ele. Quando percebemos, somos nós os voyeurs, desejosos de mais alguma fresta para a vida daquele homem meio misterioso.
Leonardo, por sua vez, vai passando de vítima a algoz desajeitado. Revela-se um pequeno-burguês caricato, arrogante nos preconceitos culturais, incapaz de estabelecer relações saudáveis sequer com a mulher e a filha – que, aliás, são outros personagens-sintomas de uma classe fechada em si mesma. Leonardo habita uma casa de interesse histórico em Buenos Aires, construída por Le Corbusier, e mesmo assim pretende manter o controle sobre a curiosidade pública. Suas tentativas de intimidar Vítor são canhestras e ridículas. A partir de certo ponto, já não podemos mais nos identificar com Leonardo. É quando nos vemos perdidos entre os dois lados da parede, um pouco como acontecia com O Invasor, de Beto Brant.
Chega, então, a hora das cartadas finais. Ambos os personagens já se estabeleceram em nossa consciência como misturas ambíguas de vítimas e algozes. As penúltimas cenas vão lançar uma nova camada sobre o papel de cada um deles. Como bem reparou minha mulher – e a maioria dos críticos não registrou –, somente ao espectador é dada a informação de que Vítor conduzia um processo de sedução da filha de Leonardo através do teatrinho de dedos na janela. Da mesma forma, só o público fica sabendo que Leonardo deixa Vítor deliberadamente morrer na cena pós-assalto, à maneira de Bette Davis em Pérfida, de William Wyler.
O tema de O Homem ao Lado não são portanto as janelas que abrimos sobre os outros, mas as que nos permitimos ou não abrir sobre nós mesmos. E nesse jogo de encobrimentos e revelações, o espectador tem um papel dinâmico e crítico. Fico pensando que uma das características mais interessantes do cinema argentino recente, não compartilhada com o cinema brasileiro, é considerar o público como parte do jogo, em vez de meros observadores passivos.












