Recife em transe

setembro 30th, 2011 § 1 Comentário

A Sessão Vitrine lança esta semana Avenida Brasília Formosa, do pernambucano Gabriel Mascaro. No Rio, o filme passa no Cine Joia, sempre às 18h30, até quinta-feira. Sobre ele, republico abaixo um texto de fevereiro do ano passado. E também um trecho do release de lançamento, que, de maneira pouco comum, pretende oferecer uma leitura pronta do filme. 

O meu texto

Autor do polêmico Um Lugar ao Sol, mais uma vez Gabriel Mascaro enfoca a relação de pessoas com sua moradia e a cidade. Mas Avenida Brasília Formosa se ocupa de uma faixa social bem diferente dos habitantes de coberturas do outro filme. A atitude do diretor também se altera diametralmente.

Estamos num bairro periférico de Recife, a favela Brasília Teimosa, cenário de uma célebre visita de Lula recém-eleito e seus ministros em janeiro de 2003. Já antes disso, em2001, aorla do bairro tivera removidas suas palafitas para dar lugar à abertura da Avenida Brasília Formosa, rapidamente transformada em foco de especulação imobiliária. Esse tipo de informação, embora importante para se compreender as motivações dos personagens, nos chega de maneira oblíqua, como se encaixadas num roteiro de ficção.

Nas primeiras exibições, Mascaro apresentava o filme como ficção, o que – desconfio - servia apenas para explorar a ambiguidade do seu registro observacional dos moradores reais de Brasília Teimosa. A não ser que aquelas pessoas não sejam o que estão representando na tela, trata-se de um documentário. As coisas giram em torno principalmente de Fábio, garçom que nas horas vagas trabalha como cinegrafista amador e tem outros pendores mais surpreendentes. O caminho de Fábio se cruza com o de Débora, manicure que o contrata para gravar seu book com vistas a uma vaga no Big Brother. Cruza-se também com o do menino Cauan, cuja festa de cinco anos é animada e gravada por ele. Temos, ainda, um tanto deslocado dessa rede central, o pescador Pirambu, que teve sua economia doméstica afetada pela remoção das palafitas.

Em vez de ficção, estamos diante de um documentário que procura escapar de cânones expositivos mais clássicos. Os fragmentos de informação sobre o cotidiano dos personagens e, por extensão, do ambiente do bairro fluem casualmente de conversas entre parentes e amigos, não sem algumas situações criadas artificialmente. A trilha sonora (proveniente das cenas) embebe as imagens no caldo brega de Recife.

Nada disso contradiz o espírito do doc moderno a ponto de ser visto como ficção. O que caracteriza, de fato, Avenida Brasília Formosa é a decisão de não buscar um eixo dramático definido. O filme tenta bastar-se nos fragmentos, na ausência de um “grande sentido”, seja ele sociológico ou antropológico. Para uns, isso pode soar como incompletude. Para outros, pode ser frescor.

O que ninguém vai discutir é o capricho formal de Mascaro, que se reflete tanto no planejamento de tomadas expressivas sobre a relação das pessoas com a arquitetura e o urbanismo, quanto na qualidade das imagens captadas pelo cearense Ivo Lopes Araújo. Quem conhece Sábado à Noite, dirigido por Ivo, sabe o que pode esperar da fotografia noturna de Avenida… É algo próximo do virtuosismo. Por isso mesmo, às vezes sentimos a impressão de que a pesquisa formal é tão ou mais importante que a investigação temática do choque entre as Brasílias Teimosa e Formosa.

Do release

“O filme Avenida Brasília Formosa é antes de tudo um ponto de partida para gerir encontros entre sujeitos singulares e subjetividades a partir de personagens eleitos para tecer uma rede, arquitetando uma leitura poética e sensorial da comunidade de Brasília Teimosa.

Fábio é garçom e cinegrafista, um homem que registra importantes eventos no bairro de Brasília Teimosa (Recife). No seu acervo, raras imagens da visita do presidente Lula às palafitas. Fábio é contratado pela manicure Débora para fazer um videobook e tentar uma vaga no Big Brother. Também filma o aniversário de 5 anos de Cauan, fã do Homem Aranha. Já o pescador Pirambu mora num conjunto residencial construído pelo governo para abrigar a população que morava nas antigas palafitas do bairro, que deu lugar à construção da Avenida Brasília Formosa. O filme constrói um rico painel sensorial sobre a arquitetura e faz da Avenida uma via de encontros e desejos.

Estes laços comunitários se estabelecem não a partir de uma romantização (muito comum ao cinema brasileiro) do conceito de “identidade cultural”, mas a partir de relações cotidianas. São relações que congregam tensão e conflito com as mais puras necessidades humanas. Uma verdadeira teia complexa e intrincada de pessoas que se interconectam. A comunidade de Brasília Teimosa percebida enquanto dicotomia de fluxos, micropolíticas, dialéticas de representação, identidades repartidas, fissuras, grafias. O filme fala sobre desejo, mas o desejo enquanto potência de vida e sonho real. O filme sugere uma dança, quase um ballet, que suspende esse real e o sustenta na ponta dos dedos do pé.”

Observação truncada

setembro 28th, 2011 § Deixe um comentário

Um traço comum salta aos olhos nos dois longas de Gustavo Beck. Em Chantal Akerman, de Cá, codirigido com Leonardo Luiz Ferreira, a cineasta-personagem era vista exclusivamente por uma câmera subsidiária, lateral, postada fora do ambiente da entrevista. Em A Casa de Sandro, o artista plástico visitado em sua casa de campo é apenas entrevisto em fragmentos de ações e conversas, como se não fosse possível retratá-lo por inteiro, de frente.

O traço comum é uma certa sabotagem do modelo de cinema observacional. Nesse tipo de documentário, usualmente o cineasta negocia um acesso ao cotidiano do personagem e tenta reproduzir, para o espectador, a plenitude desse acesso, os ângulos mais expressivos, a espreita mais próxima possível. Numa palavra, repassar para o público o alcance do seu privilégio. Gustavo Beck, ao contrário, trabalha no sentido de truncar essa relação.

Dá-se uma espécie de gato-e-rato entre Sandro Donatello e o equipamento de filmagem. Quanto um está dentro de casa, o outro está do lado de fora. A espreita se faz entre vidros e portas que ora turvam a imagem, ora dificultam a captação do som. Às vezes a câmera vê as coisas de muito longe, outras está bem perto, mas o que mostra é por demais casual e insuficiente para formar um sentido a respeito do que se vê. É um pouco como o quadro que vemos Sandro pintar em dois breves momentos – um conjunto de formas vagas, que ele depois recobre completamente com pinceladas aleatórias, num gesto quase destrutivo.

Se a câmera lateral de Chantal Akerman tinha uma função reveladora e desestabilizadora do ritual do encontro/entrevista, o perfil truncado de A Casa de Sandro não leva a nenhuma conclusão essencial sobre o artista ou sobre o próprio filme. Aqui somos apenas voyeurs sabotados de cenas banais, embora virtuosamente enquadradas. A bela imagem, no fundo, é uma moldura que resta incomodamente vazia.

Quanto mais romântico melhor

setembro 27th, 2011 § Deixe um comentário

Embora lide com humor, sexo improvável e uma frontal disposição para o apelo popular, Elvis & Madona não pode ser confundido com as neochanchadas em voga no cinema brasileiro. Não há no filme de Marcelo Laffitte aquela pressa de chegar, aquela sofreguidão de resultados, nem a vulgaridade que caracterizam alguns desses filmes recentes. Ao contrário, vê-se o intuito de entrar nas franjas da comédia de gêneros invertidos e atravessar para o lado da legítima comédia romântica.

Pode-se acusar esse tratamento romântico de minimizar o teor de transgressão do estranho casal formado por Elvis/Elvira e Madona/Adailton. Desde as primeiras cenas de aproximação entre a entregadora de pizza lésbica e o cabeleireiro travesti em apuros, temos uma perspectiva de “naturalização” do que seria potencialmente escandaloso. Tudo é incorporado como “coisas de Copacabana”, conceito um tanto gasto do absurdo urbano carioca. Mas é justamente essa anulação do escândalo que vai aos poucos construir a “verdade” de Elvis & Madona. Uma legitimidade que se realiza na química entre Igor Cotrim e Simone Spoladore, assim como nos cuidados do roteiro para não trair o projeto romântico em troca de uma diversão mais escrachada.

A evolução dos personagens soa bastante plausível, especialmente depois que a ideia de família se instala e eles têm que lidar com todas as ambivalências de sua condição. No fundo, nem Madona é tão mulher assim, nem Elvis é tão homem a ponto de não acreditarmos naquela união a princípio estapafúrdia. Como dizia o personagem de Billy Wilder na última cena de Quanto Mais Quente Melhor, “ninguém é perfeito”. Nem Elvis & Madona, com suas tiradas ineficientes em meio a tantos bons diálogos, ou suas fragilidades de caricatura – sobretudo no salão de beleza – contrastando com a boa construção de uma dinâmica dramatúrgica. Mesmo com arestas e limitações, o filme se impõe pela veracidade humana de seus personagens. E isso, no terreno minado da comédia transexual, acaba sendo uma autêntica transgressão.
Veja o site do filme

Cineport: um balanço preocupante

setembro 26th, 2011 § 12 Comentários

O 5º Cineport terminou ontem em João Pessoa com um balanço um tanto preocupante. De um lado, são evidentes as virtudes desse único festival a reunir filmes e gentes do mundo lusófono. De outro, não há como escamotear os problemas de organização e infraestrutura que ameaçam sua reputação. A caótica cerimônia de premiação, na noite de sábado, pareceu a todos um reflexo do que foi o festival.

A edição deste ano contou com um orçamento menor que a anterior, em 2009, e teve que enfrentar uma greve dos correios que tumultuou a chegada de materiais para exibição. Como resultado, a primeira metade do evento transcorreu com programação fechada em cima da hora e a desorientação reinando entre público, imprensa, realizadores e a própria equipe do festival. Na hora das exibições, apesar da qualidade do equipamento instalado e da boa vontade dos técnicos, as condições acústicas frequentemente deixaram a desejar e as projeções muitas vezes foram prejudicadas por DVDs claudicantes e incompatibilidades entre sistemas digitais, quando não simplesmente canceladas.

Para o futuro, o Cineport precisa fazer um arrazoado técnico para orientar a remessa de filmes nos suportes adequados e estabelecer prazos mais folgados para recebê-los e testá-los. Se bem que nada é fácil quando se trata de lidar com a produção vacilante e as carências de circulação dos filmes africanos. É sempre preciso dar esse desconto.

A presença de diretores, produtores, técnicos e críticos do Brasil, Portugal e África também merece ser melhor aproveitada mediante não apenas passeios e simpáticos contatos informais. É inconcebível não constar na programação nenhum tipo de encontro para troca de experiências e informações, conhecimento de projetos, investigação de complementaridades, etc. Mesmo os encontros casuais poderiam ser potencializados caso houvesse um circuito de comunicação minimamente eficiente entre os convidados, assim como entre o festival e o público. O que se viu neste ano foi uma grande desconexão entre tudo e todos, uma ausência de foco e uma curadoria que não conseguiu transmitir suas intenções. Nem mesmo os filmes exibidos contaram com qualquer espaço para debate e reflexão.

A Paraíba pede assistência

Se corre o risco de perder parte de sua importância a nível nacional e internacional, para a cultura paraibana o Cineport é um acontecimento nada desprezível, dada a grande privação por que passa o estado em matéria de circuitos para exibição de filmes menos bafejados pelos ventos da indústria. Em João Pessoa inexiste qualquer sala voltada para trabalhos alternativos. A combativa ABD local esteve no Cineport fazendo suas reivindicações por mais apoio à produção e à exibição independentes. A Paraíba é hoje o terceiro maior produtor de curtas do Nordeste, perdendo apenas para Pernambuco e Bahia. Sua produção não se concentra na capital, mas espalha-se pelos municípios do interior, onde também há muitos cineclubes. Apesar disso, o estado não oferece nenhum edital específico para o audiovisual além de um Prêmio Linduarte Noronha limitado a 300 mil reais. A verba dotada para a cultura na Paraíba não chega a 1 milhão de reais, oito  30 vezes menos que em Pernambuco.

Conversei sobre o assunto com João Carlos Beltrão e Ely Marques, respectivamente presidente e diretor da ABD. Segundo eles, a ação do governo nessa área é pífia. As dotações anuais mal dão para cobrir as captações do exercício anterior, deixando os realizadores à mercê dos seus próprios recursos ou de coletivos formados para matar a fome de cinema. O chamado Movimento Pelo Cinema Paraibano reivindica editais regulares e espaços para exibir a produção local (veja aqui).

E o Cineport não está fora desse campo de interesse. “A Sala Vladimir Carvalho, recém-inaugurada, tinha que ser um Cinema Vladimir Carvalho para exibir regularmente a produção independente”, propõe Beltrão, que já fotografou filmes de Vladimir. “Queremos cinemas, não salas multiuso”, complementa Ely, rejeitando um modelo que, na maioria das vezes, acaba não servindo para uso nenhum. Parece unânime em João Pessoa que o grande e agradável espaço ocupado pelo Cineport na Usina Cultural Energisa deveria ter um uso mais intensivo fora do período do festival. Parcerias com o governo e a UFPb poderiam ser o caminho para que os benefícios sazonais do evento se estendessem pelo resto do ano.

Vagalumes na floresta encantada

setembro 24th, 2011 § 1 Comentário

O público do Cineport teve a rara oportunidade de ver ontem o vencedor do Troféu Andorinha de melhor filme, o português Morrer como um Homem. Injustamente remetido ao gueto dos filmes gays, o terceiro longa de João Pedro Rodrigues (O Fantasma, Odete) dificilmente chegará ao circuito comercial brasileiro. Mas está longe de ser mera curiosidade segmentada. É um filme surpreendente, comovente e requintadamente concebido, situando-se numa linha imaginária entre as velhas comédias irreverentes de Almodóvar, a tragicidade do Fassbinder de Num Ano de Treze Luas e os musicais de Jacques Demy.

Para nós brasileiros é fácil perceber por que o protagonista se chama Tonia e usa aquelas perucas de algodão doce loiro. Tonia é um artista transformista que já deixou para trás a juventude e se vê confrontado com uma decisão difícil: o namorado Rosário, um jovem junkie, exige que ele faça a operação para mudar de sexo. Mas Tonia, como católico fervoroso, entende que deverá morrer como nasceu. Para agravar a situação, a doença chega nesse momento de impasse, junto com um filho há muito abandonado, que deserta do exército depois de matar um amante e volta para a casa do pai.

Os subtemas – e os enigmas – se entrelaçam em compasso cadenciado, interrompido aqui e ali por interlúdios em que os personagens cantarolam, balbuciam ou simplesmente ouvem canções. A expressão do título tanto pode se referir ao episódio do prólogo envolvendo os dois soldados homossexuais na mata (não resisto a usar o termo “forças amadas”), como ao destino que Tonia almeja em sua complicada equação mental. O namorado de Tonia pode personificar um reflexo edipiano, assim como os dois cachorros (um fofinho caseiro e um vira-latas) fazem um paralelo claro com as dicotomias em jogo. Um terceiro vértice dessa formação será o estranho casal queer que Tonia e Rosário vão visitar numa espécie de floresta encantada, com direito a uma excursão para caçar “gambozinos” (vagalumes) e ouvir a solene canção Calvary, do cantor transformista Baby Dee.

Você que não viu o filme pode estar achando tudo isso uma loucura. E é mesmo. Mas é uma loucura administrada com tal senso de propriedade e uma estética tão refinada que tudo parece conversar harmoniosamente. A construção dos planos e os movimentos de câmera obedecem a um rigoroso planejamento envolvendo espaços, atores e mesmo animais. Algumas escolhas refletem o pendor de João Pedro Rodrigues para o não-previsível e o não-classificável. Dos shows de drag de Tonia, por exemplo, só vemos os bastidores, principalmente suas disputas com um jovem travesti negro que pretende eclipsá-lo (o termo não é gratuito). Já as relações de Tonia com o mundo médico são objeto de cenas memoráveis – como a explicação da cirurgia transexual com origami e as abluções hospitalares encenadas em estilo “sacro”.

Exibido na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2009, Morrer como um Homem faz a mais fascinante, ousada e complexa radiografia que se possa imaginar para a condição transexual num país católico como Portugal. Além disso, e por isso mesmo, é um estudo de contrastes que remete à condição humana em geral, sempre escrava do desejo e da consicência, sedenta tanto de lógica como de transgressão.

Uma história de amor e ódio

setembro 23rd, 2011 § Deixe um comentário

Republico abaixo o comentário que escrevi sobre o doc Crítico por ocasião do Festival do Rio de 2008.

O longa de estreia de Kleber Mendonça Filho tem uma virtude indiscutível: torna no mínimo palatável uma discussão geralmente aborrecida, que é a relação entre críticos de cinema, cineastas e indústria cultural. Kleber está no centro dessa arena. É cineasta talentoso (A Menina do Algodão, Vinil Verde, Eletrodoméstica, Noite de Sexta Manhã de Sábado, Recife Frio) e crítico conceituado, presença frequente em festivais como os do Rio, Cannes e Berlim. Desde 1998, em meio às entrevistas que costuma fazer para o Jornal do Commercio de Recife e o seu blog Cinemascópio, ele vinha contrabandeando uma ou duas perguntas sobre a crítica e filmando as respostas com uma câmera digital. O material ia sendo acumulado até que sua mulher, a montadora Emilie Lesclaux, o instigou a formatar o filme pretendido.

Em 75 minutos muito bem articulados e dinâmicos, diretores e críticos brasileiros e estrangeiros falam sobre um arco de aspectos que vai do efeito das críticas sobre o ego criador à conveniência de relações pessoais entre cineastas e críticos, passando por elogios, ressentimentos e, é claro, muitas meias-palavras. Afinal, os cineastas estavam sendo convidados por um crítico a falar do ofício dele (crítico). Muitos citam os benefícios da resenha (principalmente a negativa). Eduardo Coutinho, por exemplo, conta como uma observação da jornalista Silvana Arantes gerou uma mudança importante na versão final de Edifício Master. Alguns, como Gus Van Sant e Richard Linklater, minimizam sua reação diante de um texto desfavorável. Mas há também os que desdenham frontalmente a importância do texto crítico (Daniel Filho, por exemplo) ou mesmo a existência de vida inteligente no jornalismo brasileiro (Hector Babenco).

Essa é uma conversa repleta de mágoas e dissimulações. Tudo isso forma um subtexto às vezes enfatizado pelas vinhetas com imagens icônicas/irônicas que Kleber e Emilie pescaram no site Internet Archive. Solução barata e eficaz, semelhante à que Marcelo Masagão recorreu maciçamente no seu Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos.

Os critérios editoriais do diretor levaram a um curioso recorte de gerações. Se a crítica internacional é representada basicamente por veteranos da Positif, Télerama, Le Nouvel Observateur e Variety, a crítica brasileira, com uma solitária exceção, fala pelas vozes de críticos bem mais jovens. Seja na captação, seja na edição, para mim ficou implícito que Kleber escolheu os estrangeiros por critérios de reverência e os conterrâneos por afinidades etárias. Não vai aqui nenhum juízo de valor quanto a essa opção, mas apenas a constatação de um parti-pris, digamos, crítico.

>>> Crítico está sendo exibido dentro do marco da Sessão Vitrine diariamente até quinta-feira próxima, sempre às 20h30, no Cine Joia (Rio) e em seis outras capitais.

Memórias de cinema de uma cidade sem cinemas

setembro 22nd, 2011 § 1 Comentário

Dentro da homenagem a Cabo Verde no Cineport, assistimos anteontem ao documentário Éden, sobre o cinema e a cinefilia de Mindelo. Esta cidade da Ilha de São Vicente já foi a capital da cinefilia do país e hoje simplesmente não tem salas de cinema comerciais. O meio cultural mindelense vem lutando pela reativação do cine Éden-Park, o último a permanecer em funcionamento e hoje em ruínas.

Quem nos apresenta e comenta Éden é o cineasta Joel Zito Araújo, em texto especial para o blog:

O filme Éden, do realizador português Daniel Blaufuks, resgata as memórias dos cinéfilos da cidade de Mindelo em torno da sala de cinema Éden-Park, que tem uma historia extraordinária. Ela funcionou ininterruptamente  por quase um século, desde os anos 10, início do século XX,  até 2004. É confirmadamente a mais longa vida de um cinema nos países de língua portuguesa.

Além das lembranças e saudades dos mindelenses, o filme, que tem um cinema como foco, se abre naturalmente para a história de uma cidade e de uma das mais importantes ilhas de um país que é um arquipélago de origem vulcânica formado por 10 ilhas, Cabo Verde. O seu isolamento insular teve como janela fundamental, para entrada do que acontecia no mundo, o cinema e os navios que passavam por um porto estratégico durante vários séculos na rota marítima entre a América do Sul e a Europa. Pelo porto e pela cidade passou, ao longo do século XX, a vanguarda artística brasileira, desde os grandes da Semana de Arte Moderna, a Gilberto Freyre e Jorge Amado, que dialogaram e influenciaram os artistas e intelectuais do país, especialmente um dos seus maiores nomes, Baltazar Lopes.

Pelo escurinho do cinema Éden-Park passaram as produções de Hollywood e também as chanchadas da Atlântida. Um dos cinéfilos entrevistados afirma ter visto Aviso aos Navegantes nada menos que 31 vezes, tal foi o encanto com os atores Grande Otelo e Oscarito, e com essas comédias ingênuas populares tanto aqui no Brasil quanto em Cabo Verde.

O documentário Éden, apesar de um roteiro que se perde algumas vezes e de um emprego pouco usual do Super-8 para refazer sem cuidados a cidade de Mindelo nos anos 50, encanta por sua capacidade de trazer relatos fundamentais para a história do cinema do país. Resgata inclusive fotos, cartazes e a repercussão das primeiras películas produzidas em Cabo Verde, A Força da Cobiça, O Guarda Vingador e o mítico O Segredo dum Coração Culpado“, além das peripécias desses pioneiros do cinema cabo-verdiano que ousaram realizar dois filmes de faroeste em uma ilha que somente possuía um cavalo. Não serei aqui um estraga-prazeres revelando a criatividade dos cabo-verdianos para solucionar um problema tão difícil como esse.

Joel Zito Araújo

Cineport: as escolhas de montagem

setembro 21st, 2011 § 3 Comentários

Na competição pelos Troféus Andorinha de montagem, aqui no Cineport, tínhamos quatro opções bem marcantes e distintas de uso do conceito de edição. No campo da ficção, disputavam o brasileiro Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e o português Filme do Desassossego (não confunda com o nosso Desassossego – Filme das Maravilhas). O candidato português leva à tela o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, assinado pelo seu heterônimo Bernardo Soares, um suposto guarda-livros que gosta de inventar sonhos e criar teorias sobre eles. O filme do veterano e ousado João Botelho embarca nas  entrelinhas da ficção e de uma suposta realidade lisboeta, projeto de pura invenção.

O ator principal é coxo. Concorria a melhor ator, mas perdeu de longe para Wagner Moura. Catarina Wallenstein, a melhor atriz coadjuvante por Um Amor de Perdição (veja post anterior), sidera o espectador na performance da “Educadora Sentimental”, um plano único com a lente se aproximando vagarosamente de sua boca indescritível. A montagem de João Braz procura articular os vários níveis narrativos, que incluem declamação, instalações visuais, delírios dos personagens. Mas o júri compreendeu que essas virtudes se devem mais ao roteiro que propriamente à edição, ao passo que a montagem de Karen Harley no filme de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes tem uma função mais constitutiva. Karen é praticamente uma co-autora de Viajo…, filme que se realiza como puro objeto de montagem poética a partir de um material não destinado originalmente a ele. Por isso ganhou o Andorinha.

Entre os documentários, nosso candidato para montagem era o trabalho de Raphael Alvarez em Dzi Croquettes. Eis um exemplo esfuziante de engendramento de materiais de arquivo e depoimentos para criar um organismo vivo, não museológico. Mas não resistimos ao impacto, num sentido bem contrário, do português 48, dirigido e montado por Susana Sousa Dias. Temos aqui uma espécie de Shoah do salazarismo, 48 anos em que Portugal esteve imerso em trevas totalitárias. Homens e mulheres recordam perseguições, prisões e torturas sofridas na própria carne, mas deles se ouvem apenas as vozes e se veem somente seus retratos tirados na época pelos agentes da repressão. Essa opção radical amplifica a dramaticidade dos relatos, deixando que o áudio maduro de hoje ecoe nos rostos assustados de ontem, traumatizados pelo sofrimento, nas expressões progressivamente destituídas de esperança e brilho. O efeito emocional é poderoso.

A duração de exposicão das fotos, assim como o tempo de entrada e saída dos fragmentos de relatos sonoros fazem de 48 uma obra-prima da montagem minimalista de som e imagem. Resultam numa sobriedade completamente adequada a mostrar o indizível. Diante do filme, tem-se a impressão de uma obra perfeita e emocionante, à qual o menor acréscimo levaria tudo à ruína. E foi assim que o Andorinha voou para os lados da Susana.

Cinema em bom português

setembro 19th, 2011 § Deixe um comentário

Começa hoje em João Pessoa a 5ª edição do Cineport, Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa. Vladimir Carvalho, um dos meus biografados, vai comparecer à inauguração de uma sala de cinema com seu nome na Usina Cultural Energisa, centro de agitação do evento. Logo em seguida, na grande Tenda Andorinha, terá início a programação em torno de Cabo Verde, a cinematografia homenageada este ano. O cineasta mais conhecido do arquipélago, Leão Lopes, e seu companheiro brasileiro Joel Zito Araújo, serão homenageados. Juntos, eles recentemente organizaram um curso de cinema em Cabo Verde, do qual participei ministrando o módulo de crítica de cinema.

Será exibido, em primeira mão em terras continentais, o documentário em episódios realizado pelos alunos do curso. Já escrevi por aqui sobre Fragmentos de Mindelo, a simpática reunião de aspectos etnográficos, históricos e culturais da bela cidade caboverdiana. O filme teve finalização há pouco no CTAV, no Rio.

Ainda hoje serão exibidos, além de dois programas de curtas concorrentes ao Prêmio Energisa, o longa português que deu à jovem Catarina Wallenstein (foto) o Troféu Andorinha de melhor atriz coadjuvante. Um Amor de Perdição, de Mário Barroso, é mais uma versão do romance de Camilo Castelo Branco, esta encravada na atualidade e cheia de insinuações de incesto. O objeto do amor é Teresa, interpretada pela experiente Ana Moreira, mas quem conquista corações é Catarina Wallenstein no papel de Mariana da Cruz, a amiga de classe inferior que serve de intermediária entre os jovens apaixonados, ao preço de reprimir sua própria paixão por Simão. Nem a roupa e os modos de mecânica de Mariana conseguem disfarçar a beleza e a sensualidade de Catarina, que também é a Rapariga Loura de Manoel de Oliveira e está iluminando um em cada três filmes portugueses nos últimos anos.

Dias atrás publiquei aqui os candidatos ao Troféu Andorinha, entre longas brasileiros e portugueses. Agora, aí vai a lista dos premiados. A escolha final foi de um júri composto por mim, Carla Henriques, José Geraldo Couto, Luísa Sequeira, Marcelo Miranda, Renato Félix e Rui Tendinha. Na medida do possível, pretendo escrever sobre alguns deles ainda durante o Cineport, que vai até sábado.

FICÇÃO

Melhor filme – Morrer como um Homem, de João Pedro Rodrigues (Portugal)
Melhor direção – João Nuno Pinto, por América (Portugal)
Melhor produção – José Padilha e Marcos Prado, por Tropa de Elite 2 (Brasil)
Melhor roteiro – Bráulio Mantovani e José Padilha, por Tropa de Elite 2 (Brasil)
Melhor fotografia – Lula Carvalho, por Tropa de Elite 2 (Brasil)
Melhor montagem – Karen Harley, por Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (Brasil)
Melhor direção de arte – Adrian Cooper, por Quincas Berro d’Água (Brasil)
Melhor figurino – Isabel Branco, por Mistérios de Lisboa (Portugal)
Melhor música – Bernardo Sassetti, por Como Desenhar um Círculo Perfeito (Portugal)
Melhor ator – Wagner Moura, por Tropa de Elite 2 (Brasil)
Melhor atriz – Glória Pires, por Lula, o Filho do Brasil (Brasil)
Melhor ator coadjuvante – Raul Solnado, por América (Portugal)
Melhor atriz coadjuvante – Catarina Wallenstein, por Um Amor de Perdição (Portugal)

DOCUMENTÁRIO

Melhor filme – José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes (Portugal/Brasil/Espanha)
Melhor direção – Cao Guimarães, por A Alma do Osso (Brasil)
Melhor fotografia – Walter Carvalho, por O Homem que Engarrafava Nuvens (Brasil)
Melhor montagem – Susana Souza Dias, por 48 (Portugal)

A política está na mesa

setembro 18th, 2011 § 2 Comentários

O interior do Cine Pireneus

Ficou com fome quem veio ao Slow Filme, em Pirenópolis, à cata de regabofes como A Festa de Babette ou delicatessen como Ratatouille. Este é um festival de cinema político, aliás como poucos outros no Brasil. A alimentação aqui é uma via de acesso ao funcionamento da sociedade, uma vitrine para a divulgação de práticas revolucionárias no uso da terra e dos recursos alimentares. Uma tribuna dos pequenos contra os grandes. O festival está terminando hoje (domingo).

Acho que foi neste delicioso Cine Pireneus, na sexta passada, que se deu a primeira exibição brasileira do longa francês Soluções Locais para a Desordem Global, um filme que praticamente resume o espírito do festival. É um libelo contra a agroindústria e a exploração dos agricultores pelas multinacionais das sementes compulsórias e dos fertilizantes químicos. Durante três anos, Coline Serreau viajou por quatro continentes coletando depoimentos e histórias de quem reage contra a mercantilização desmesurada da alimentação. Da Ucrânia à Índia, da França ao Brasil, ela entrevistou ativistas, filósofos, economistas e agricultores. O MST brasileiro tem papel de protagonismo, não como a brigada ideológica que a direita brasileira teima em pintá-lo, mas como um exército de gente comum em busca de soluções locais e independentes. A policultura em espiral praticada no Sul, por exemplo, e chamada de “agricultura companheira”. É claro que sobram farpas contra o projeto de etanol do governo Lula numa conversa entre João Pedro Stédile e a veneranda agrônoma Ana Primavesi.

Coline Serreau não perde a oportunidade de dar seu habitual viés feminista ao assunto. O tratamento exaustivo da terra, a corrida pela produtividade em troca da sustentabilidade, a industrialização desenfreada são apontados por vários participantes como uma masculinização da agricultura, que tanto podem reverter quanto mais esse métier seja devolvido às mulheres. Nesse raciocínio de gênero, até o contumaz genocídio de fetos femininos na Índia pode estar ligado a essa supressão das mulheres do cenário do suprimento alimentar no mundo.

O curador do Slow Filme, Sergio Moriconi, fez escolhas corajosas, algumas até radicais. O curta O Jantar, por exemplo, faz um comentário mordaz sobre a atualidade húngara através do som do rádio enquanto um homem sofre um acidente fatal no seu chiqueiro, e o cadáver fica dias por lá, ante a indiferença da família, até ser devorado pelos porcos. No doc iraniano Gato e Rato, acompanhamos a saga dos meninos catadores de restos de pão para a indústria de reciclagem, um trabalho de Sísifo que parece fazer uma ponte entre a era industrial e os tempos medievais. No Senegal, meninos mendigam pão nas ruas para vender no mercado negro de pão dormido (O Pão Nosso de Cada Dia). Na Índia, Comida, Sempre Comida faz um corte transversal da sociedade através dos hábitos alimentares, destacando a luta dos vendedores de rua para fazer face à polícia corrupta que os reprime para dar lugar às cadeias de fast food. Na Polônia, Milkbar enfoca a decadência das cantinas populares ex-comunistas, assoladas pela atual miséria financeira da população. Do Uzbequistão veio um impressionante doc sobre o progressivo encolhimento do Mar de Aral, que transformou um vilarejo de pescadores numa cidade-fantasma em meio à desolação de um deserto salgado.

Ou seja, o Slow Filme não veio pra bolinho. Isso não quer dizer que não haja diversão. O curta de animação francês O Santo Banquete, por exemplo, narra com bandejas de humor negro a história de um ogro que não consegue atingir sua meta de comer criancinhas no dia festivo dedicado a isso. Os curtas catarinenses Histórias da Cerveja em Santa Catarina e Cerveja Falada são fermentados em humor etnográfico colhido na expressão regional e no carisma de alguns personagens.

Esse humor etnográfico, carinhoso e cativante, temperou muitos filmes da programação e transbordou no longa O Mineiro e o Queijo, de Helvécio Ratton, outro que soou como síntese dos conceitos do Slow Filme. Ainda vou me estender mais sobre esse doc quando do lançamento dia 23 em BH e dia 30 no Rio e São Paulo. Esse mergulho profundo numa Minas secular, a dos produtores do queijo artesanal, isolados nas montanhas do Serro e da Canastra, tem tudo para agradar quem gosta de docs e de gastronomia. Ele nos leva aos currais, às pequenas quejeiras e a um processo de fabricação em que as mãos têm importância fundamental. Mas a dimensão política do filme é enfatizada, denunciando as normas sanitárias (alegadamente obsoletas e alienadas da realidade brasileira) que impedem o autêntico queijo Minas de ser vendido fora do estado.

Carmem Moretzsohn e Gioconda Caputo, organizadoras do Slow Filme

Festival pequeno, mas com identidade forte e organizado com simpatia e eficiência pela equipe da Objeto Sim, o Slow Filme fez circular sua mensagem num ambiente propício. Na graciosa Pirenópolis, vivemos uma grande proximidade com os frutos diretos da natureza. Em cada prato ou guloseima, sentimos mais a mão do homem do que as esteiras da indústria. Isso é comida para o pensamento.

Os três da semana

setembro 17th, 2011 § Deixe um comentário

Numa sucessão vertiginosa, os filmes brasileiros estão chegando e rapidamente saindo de cartaz para voltarem ao circuito da relativa obscuridade. Poucos chegam a vencer o marco das duas semanas em alguma sala, em horários nem sempre convidativos. Isso faz com que sua passagem pelas salas de cinema se torne apenas uma etapa necessária a cumprir, como para legitimar sua existência, em vez de ser o momento culminante de sua trajetória.

 Esta semana, mais três títulos chegam aos tijolinhos dos jornais cariocas. Até quando resistirão? São todos filmes problemáticos, que dependem mais da forma como o espectador se predispõe a eles do que da maneira como eles se dirigem ao espectador.

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 180°, de Eduardo Vaisman, é o mais palatável ao gosto de uma plateia interessada em se divertir e acompanhar uma história intrigante, nos moldes do filme policial. Articula um triângulo amoroso com uma trama de roubo literário num roteiro ambicioso do ponto de vista da construção. Somos levados por uma intrincada alternância de blocos temporais, recolhendo pistas sobre uma certa caderneta de anotações encontrada por um jovem escritor.

 Vi e revi o filme na tentativa de compreender o que me pareciam furos de uma narrativa artificialmente complicada em excesso. As razões da separação entre as personagens de Malu Galli e Eduardo Moscovis, as notícas na TV dois anos depois do lançamento do livro, a localização cronológica do jogo de cartas e o acontecimento do desfecho repentino são alguns pontos que me pareceram bastante confusos para um filme que se quer desenhar geometricamente na nossa percepção. Há também problemas de som que me impediram de entender algumas falas aparentemente cruciais.

 Por sua vez, a sofisticação estética da fotografia e da decupagem nem sempre conta a favor da atmosfera de naturalismo pretendida nas interpretações. Fica mais uma impressão de requinte impostado, como nos filmes de Walter Hugo Khouri, onde até os caseiros podiam parecer modelos de moda masculina. A estrutura de romance policial acaba esvaziada pelo draminha burguês e pelo dispositivo um tanto arbitrário de embaralhar a ordem dos fatos.

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 Desassossego (Filme das Maravilhas) está longe de correr esse tipo de risco, já que escapa de qualquer ordenação prosaica. A conclusão da trilogia Coração no Fogo, de Felipe Bragança e Marina Meliande (iniciada com A Fuga da Mulher Gorila e A Alegria), é um trabalho coletivo, montado a partir de pequenos curtas solicitados por carta a 14 diretores. Felipe e Marina atuaram como curadores-criadores, fornecendo o mote poético (utopia e sonho) e engendrando o produto final.

 A proposta de não segmentar nem identificar as distintas contribuições responde a um desejo de dissolver autorias e chamar atenção para o material cinematográfico puro e simples. Não há tampouco a intenção de criar uma unidade dramatúrgica ou estética, para o bem e para o mal. Isso nos leva a assimilar o filme como sucessão de fragmentos, onde as diferenças saltam à vista e aos ouvidos. Muitas imagens banais são estufadas por uma edição sonora hiperbólica. Outros momentos alcançam uma certa força de poesia, como as cenas do casal na praia ou a fusão das imagens de uma Berlim nevada com um forró brasileirinho (essas, por acaso, sei que são de Karim Aïnouz).

 Em meio ao tom monocórdico habitual e um certo ar depressivo, irrompem sinais apocalípticos que pretendem aludir ao cinema de ação: fogo, explosões, meteorito. O sentido geral, no entanto, me escapa completamente. No tocante à dramaturgia, chama atenção a frequência com que os cineastas recorreram à performance, seja para dar conta da natureza da “encomenda”, seja para atender aos requisitos de brevidade. De qualquer maneira, vale a pena observar como tantos filmes brasileiros, principalmente filmes de invenção,  têm substituído a interpretação linear por situações performáticas, com cenas que se esgotam em si mesmas e um comportamento não interativo do elenco.

 Desassossego foi realizado inicialmente como um projeto de 55 minutos do programa Rumos, do Itaúcultural, e distribuído junto com a carta de Felipe a 2010 pessoas no ano passado. A ideia era gerar outras respostas, quem sabe em filme. O que se vê esta semana na Sessão Vitrine (Cine Joia) é mais uma obra em processo do que um filme acabado. E também mais um exemplo do que venho chamando de criadoria.              

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 Além da Estrada, co-produção com o Uruguai, é mais um caso de uso da fórmula do road movie para compensar a ausência quase total de um projeto. Um jovem argentino e uma moça belga se conhecem no caminho e viajam juntos pelo interior do Uruguai em busca de parentes, amigos e uma possível mudança de vida. Passam por fazendas, pelo jet set de Punta del Leste e por uma comunidade de neo-hippies, colhendo o que podem em termos de prazer e ensinamentos, enquanto também se estudam romanticamente.

 O filme de Charly Braun me bateu como a improvisação no seu pior sentido. Ora a câmera tonta captura clichês de estrada, ora o quadro é preparado minuciosamente para fazer imagens bonitas na hora mágica do sol alaranjado. A montagem é menos que amadora. Tudo é desconexão, laconismo, poses e uma exploração canhestra, mal disfarçada dos dotes físicos da atriz Jill Mulleady. O roteiro (ou o que quer que tenha norteado as filmagens) baseia-se supostamente em memórias do diretor, a crer nas imagens dos créditos finais. O GPS aponta para um mix de cenas improvisadas e outras criadas a partir de conhecimentos estratégicos, como a oca participação de Guilhermina Guinle (irmã do diretor) e Naomi Campbell. Pelos meus padrões, chega a ser absurdo o prêmio de direção que o filme ganhou no Festival do Rio. Critérios, enfim, são mistérios.           

 

Comer, assistir, passear

setembro 15th, 2011 § 3 Comentários

Odeio comilança nas salas de cinema. Mas como me garantiram que cada coisa vai ter seu lugar, não resisti ao convite para conhecer o Slow Filme – Festival Internacional de Cinema e Alimentação. Durante quatro dias a partir de hoje (quinta), ele movimenta a cidade de Pirenópolis, joia paisagística e histórica de Goiás. Embarco amanhã para um fim de semana de degustações antes de arribar para o Cineport, em João Pessoa.

Chego a tempo de assistir à apresentação dos curtas História da Cerveja em Santa Catarina, de Andreas Peter, e Cerveja Falada, de Guto Lima, Demétrio Panarotto e Luiz Henrique Cudo. Se o avião atrasar demais, mesmo assim devo pegar a degustação de cervejas artesanais com o mestre cervejeiro Marco Falcone, prevista para depois da sessão. Para a noite de sábado, Helvécio Ratton já me prometeu uns quitutes especiais em seguida à pré-estreia do seu doc O Mineiro e o Queijo, que pretende harmonizar artesanato, tradição, culinária e política em torno do queijo minas. Veja o trailer aí embaixo.

Todos os filmes do festival, é claro, se relacionam com as delícias da mesa, como você pode conferir na programação. A curadoria do professor, crítico e cineasta Sérgio Moriconi, de Brasília, reuniu filmes do Brasil, Chile, Itália, França, Suécia, Hungria, Índia, Líbia, Irã, Senegal, Uzbequistão e EUA. O Slow Filme, patrocinado pela Petrobras, inspira-se no Slow Food on Film, festival realizado anualmente em Bologna, na Itália. O conceito central é ver bons filmes e comer bem num sentido mais amplo. Ou seja, promover uma gastronomia com sustentabilidade, respeito ao meio-ambiente, à saúde e aos animais.

Em parceria com a produtora Objeto Sim, a Prefeitura de Pirenópolis realiza o evento como parte de sua estratégia para difundir as belezas da cidade, preservadas no estilo colonial. Uma das principais atrações turísticas, junto com as Cavalhadas e as demais construções do Centro Histórico, é o Cine Pireneus, com sua fachada em estilo art-déco. O nome da cidade deriva da Serra dos Pireneus, que por sua vez chama-se assim devido a uma suposta semelhança com os Pireneus da Europa.

Bem, o resto vou aprender a partir de amanhã, entre a poltrona do cinema e as mesas de degustação. Acompanhem-me pelo Twitter.

Em cartaz no TendlerTube

setembro 13th, 2011 § 5 Comentários

Silvio Tendler e o General Giap

Silvio Tendler é um dos poucos documentaristas brasileiros acostumados com o sucesso de público. Juntos, Os Anos JK, Jango e O Mundo Mágico dos Trapalhões somaram mais de 3 milhões de espectadores nos anos 1980. Nas últimas semanas ele voltou a sentir o gostinho da multidão com um de seus novos filmes. Não nos cinemas, mas na internet. O Veneno Está na Mesa, realizado para a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, já foi visto por mais de 65.000 pessoas, contando os cliques da versão integral e da versão em quatro partes.

Silvio descobriu as potencialidades do Youtube no ano passado, quando postou o curta Fragmentos do Exílio, feito para a Jornada de Cinema da Bahia de 2003. Desde então, realizou especificamente para esse canal uma versão in progress de Há Muitas Noites na Noite (a partir do Poema Sujo de Ferreira Gullar) e os filmes-homenagem Matzeiva Juliano Mer-Khamis (sobre o entertainer-ativista israelense recentemente assassinado) e Giap, Memórias Centenárias da Resistência (para comemorar o centenário de nascimento do general vietnamita Vo Nguyen Giap, que derrotou três impérios).

A grande sacada de Silvio é que os filmes do Youtube não param no Youtube. Ao contrário, decolam para uma intensa vida paralela. “A exibição gratuita na web não mata as possibilidades de outros circuitos. Não param de me convidar para lançar O Veneno Está na Mesa em eventos e festivais. Não paro mais de dar entrevista. Mesmo usando bengala, virei um arauto da saúde”, conta, divertido.

O Veneno abre e fecha com a palavra mágica de Eduardo Galleano. Entre uma e outra, uma série de depoimentos, gráficos e reportagens de TV dão conta dos riscos dos agrotóxicos e das injunções políticas e econômicas que levam a seu uso praticamente compulsório no Brasil, em benefício de multinacionais. Galleano estranha como governos progressistas da América Latina cedem ao envenenamento das lavouras em nome da produtividade e do “deus mercado”. O filme, de 49 minutos, apresenta também uma espécie de “herói orgânico”, um agricultor sintomaticamente chamado Adonai (“Ele, Deus”, em hebraico), que reinventou o milho crioulo no Rio Grande do Sul. Como bom filme de campanha, O Veneno tem sido utilizado até como peça de acusação contra a empresa Monsanto em batalhas judiciais.

Outro filme de impacto no TendlerTube é o do venerando general Giap, o Invencível. Parte da entrevista que Silvio fez com ele em 2003 aparecia em Utopia e Barbárie. Mas aqui há trechos inéditos, como a referência ao “Hanói Hilton”, o campo de prisioneiros usados pelos norte-vietnamitas. Os materiais de arquivo dos estúdios de Hanói incluem cenas (inéditas por aqui) de prisioneiros capturados e armamentos americanos destroçados. Uma trilha sonora original de tons épicos acrescenta ao aspecto elegíaco do curta.

Silvio quer que Giap viaje pelo mundo através de mostras e festivais. Mas admite que este é sempre um público pequeno. No Youtube a plateia se multiplica rapidamente e as chances de circulação dos filmes se ampliam. Para breve, aguardem o próximo lançamento do TendlerTube: um filme construído a partir de fotos do gaúcho Luiz Achutti de um circo mambembe onde a atração principal era um porco. “Vai ser uma metáfora sobre a pobreza”, promete.

Veja os filmes:
O Veneno Está na Mesa
Giap, Memórias Centenárias da Resistência
Fragmentos do Exílio
Matzeiva Juliano Mer-Khamis
Há Muitas Noites na Noite      

Os faróis de Victor Lopes

setembro 12th, 2011 § Deixe um comentário

O conceito dos contos originais de Raymond Carver já seria por si só uma boa definição do documentário, ou de uma de suas muitas formas: levantar os telhados das casas, entrar e atravessar a vida de algumas pessoas. Nas mãos de Robert Altman, mestre em narrativas com muitos personagens, tornou-se uma obra-prima que instiga a construção de dramaturgias mais amplas.

Isto é Victor Lopes falando de Short Cuts, um dos seus filmes-faróis. Confira a lista do Victor e seus agudos comentários no blog Faróis do Cinema.

O que querem os artistas contemporâneos?

setembro 10th, 2011 § 4 Comentários

Riscado e Os Monstros são filmes que, através das atitudes de seus personagens, ajudam a pensar certas atitudes do jovem cinema brasileiro. Ajudam, antes de mais nada, por serem bons filmes. Neles, o prazer da fruição vem junto com a funcionalidade do diagnóstico.

Ambos têm em comum tratar da condição do artista contemporâneo a partir de uma dramaturgia fortemente baseada em vivências pessoais. Riscado trata de uma jovem atriz que ganha a vida com imitações de grandes estrelas, divulgação e animação de eventos, festas etc. Está à espera da oportunidade de um salto, que pode vir sob a forma de um contrato para uma grande produção internacional. O argumento inspira-se diretamente na carreira da atriz Karine Teles, mulher do diretor Gustavo Pizzi, que passou por algo semelhante no elenco de Rio Sex Comedy, de Jonathan Nossiter.

RiscadoBianca, a atriz esplendidamente interpretada por Karine (melhor atriz na Première Brasil do Festival do Rio de 2010), representa uma aspiração comum a muita gente, que é participar ativamente do sistema da indústria cultural, embora sem abrir mão de sua personalidade. “Quero fazer um filme honesto”, diz ela num dos muitos momentos em que fala ao mesmo tempo do filme e do filme-dentro-do-filme. Nesse espelhamento construído poeticamente, cena após cena, Riscado encontra sua profunda autenticidade como depoimento não só de Bianca, mas de toda uma geração de artistas que podem ali se ver refletidos. Gente que quer viver do seu trabalho e encontrar seu lugar na ribalta.

Ao mesmo tempo, Riscado é um filme que se quer, ele também, participante. É a produção mais caprichada e mais bem-sucedida até agora do grupo reunido em torno de Cavi Borges na Cavídeo. Não contou com patrocinadores, mas com investidores, parceiros e contribuições de amigos. Feito com carinho e cuidado, assim como Bianca, o filme quer entrar no sistema sem perder a alma. Modesto na proporção, mas criativo ao tratar de si mesmo, tem rodado por festivais internacionais e chega aos cinemas com um trabalho de comunicação dos mais dignos (veja o site oficial). Pena que meu amigo Daniel Schenker exagerou no rigor com seu bonequinho de O Globo. Riscado merece aplausos.

A mesma atenção deve ser dirigida a Os Monstros, que está na Sessão Vitrine do Cine Joia até quinta próxima, sempre às 15 horas. O esquema de produção no coletivo cearense Alumbramento guarda semelhanças com o de Riscado. Os quatro diretores/autores/atores – Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti – o viabilizaram nos mesmos moldes do anterior Estrada para Ythaca, ou seja, com dinheiro do próprio bolso e de amigos. Mas nesse caso temos um movimento bem diverso com relação ao tal sistema da indústria cultural. O quarteto costuma negar qualquer intenção de entrar no mercado, seja o dos editais, seja o do consumo puro e simples. Seus filmes não têm o desejo de agradar a não ser a eles próprios e a alguns próximos, muito embora pelo talento acabem agradando a bem mais gente. A história contada em Os Monstros parece comentar essa rejeição ao sistema.

Os MonstrosSe em Ythaca os quatro companheiros inseparáveis partiam em viagem por causa da morte de um amigo comum, o mote que os reune em Os Monstros é a separação conjugal de um deles. Dois são técnicos de som, que resolvem largar o emprego na televisão, outros dois são músicos de vanguarda. Numa cena de auto-ironia emblemática, um deles toca flauta num bar enquanto os frequentadores vão saindo e restam apenas os amigos fiéis. Na cena final, muito discutida no Festival de Tiradentes, os quatro se reunem para dois longos duetos de guitarra e flauta, símbolo sonoro de uma opção radical pela liberdade.

Aqui os artistas estão saindo do sistema (casamento e emprego) e optando pela arte como evento pessoal. De certa maneira, fazem o percurso inverso de Bianca em Riscado. Esses “monstros” da margem personificam também um contingente de criadores que desejam – ao menos teoricamente – permanecer numa faixa alternativa. Não propriamente marginais, mas cultores de uma arte mais íntima, mais insular, em que a experiência de vida não precisa ser convertida a algo próximo do espetáculo. Conheça o site seminu do Alumbramento.

Cada qual a sua maneira, Riscado e Os Monstros trazem um imenso frescor em sua forma de tratar personagens e imagens. O conto carioca de Pizzi experimenta com mídias e tratamentos de textura diferentes para expressar as várias instâncias de Bianca, das mais objetivas às mais subjetivas. Já o devaneio dos meninos do Ceará se faz com ação minimalista, vadiagens divertidas, belos silêncios e interlúdios musicais tão deliciosos quanto despretensiosos. E finalmente o que os une, para além de todas as sutis mas importantes diferenças, é a busca de uma dicção e um gestual não formatados, mas nascidos de uma observação da vida que se confunde com a própria vida.

Delícias do inferno

setembro 9th, 2011 § Deixe um comentário

Só até quinta-feira, sempre às 18h30, no Unibanco Arteplex (Rio), está sendo exibido, com entrada franca, o documentário Assim é se lhe Parece, sobre o artista plástico Nelson Leirner. Por ocasião do último É Tudo Verdade, publiquei o seguinte comentário sobre o filme: 

Enquanto montava sua Ocupação no Itaúcultural, Nelson Leirner deixava-se “perfilar” por Carla Gallo (O Aborto dos Outros) para a série Iconoclássicos. Nelson é um show para esse tipo de abordagem leve e sem grandes compromissos biográficos. Sua relação muito íntima com o pop e o burlesco, seu passado de performer, sua visão dessacralizada da arte, tudo conflui para a imagem de um artista ao mesmo tempo irreverente e bonachão, carismático e irônico.

O filme aproveita bem os momentos passados com Nelson. Lá está ele comprando bugigangas para seus ready-mades (o “impulso de camelô”), cumprindo seus rituais de homem de várias religiões (“o que equivale a nenhuma”) ou passando seus princípios sobre arte em conversas informais com jovens artistas plásticos. São aulas de apropriação transcultural cujo poder de divertir repassa para o espectador.

Alguns materiais de arquivo ilustram as atividades de Nelson nos anos 1960 e 70, como os happenings do Grupo Rex e seus flertes com o Super 8 e o cinema marginal. Mas o que prevalece é a simpática visita ao artista no presente, deliciando-se com seu “inferno” dito da boca pra fora.

Dizer é fazer

setembro 8th, 2011 § 1 Comentário

Depois de flertar com as imagens em movimento em suas peças e no Moscou de Eduardo Coutinho, Enrique Diaz finalmente assinou seu primeiro trabalho para a tela. Ele foi apresentado ontem, na abertura do evento Atos de Fala, no Oi Futuro Ipanema. O Deus no Arroz Doce é um vídeo-ensaio de memória familiar, tecido com retalhos de filmes domésticos, muitos deles projetados nas paredes da casa ou mesmo sobre pessoas da família do diretor. O resultado é muito bonito e singelo.

O título vem de uma conversa de Enrique com sua mãe sobre a onipresença de Deus. O mote dos múltiplos lugares serve a uma rememoração da história da família Diaz. Como os índios guaranis que se deslocam sempre em busca da “terra sem males”, os Diaz viveram em diversos países antes de se fixarem no Brasil. O acervo Super 8 da família é mobilizado assim para uma espécie de balanço do que ficou nas imagens. Algumas fotos não são vistas, mas apenas descritas em palavras, o que completa bem o sentido buscado pelo evento: fala, corpo, cinema e performance em busca de novas interações.

Não que isso tenha a ver diretamente com a mostra, mas existe uma Teoria dos Atos de Fala, voltada para as ações humanas que se realizam através da linguagem. Para seu criador, o inglês John Langshaw Austin (1911-1960), dizer alguma coisa é não somente transmitir informações, mas também agir sobre a consciência de quem ouve. Em poucas palavras, “todo dizer é um fazer”.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Na tarde de abertura, os curadores Cristina Becker e Felipe Ribeiro (foto acima) simpaticamente se desdobraram para explicar as ideias por trás de conceitos como “palestras-intervenções” e “esculturas-arquivos”, que estão propondo até domingo no Oi Futuro. Não é tarefa fácil, já que se trata de recombinar gestos artísticos e formação de memória numa só ação. Por exemplo: os palestrantes-interventores de cada noite trabalham os “rastros” de sua performance, com ajuda do público ou não, como um arquivo de memória para o dia seguinte. Os três vídeos-ensaios comissionados, por sua vez, ficam em exibição permanente na galeria, nos quatro dias restantes. Inclusive o “amarcord” de Enrique Diaz.

Visite o site do evento e anime-se para encarar novos formatos.

Ruiz e Alá

setembro 6th, 2011 § 2 Comentários

Há 17 anos, em agosto de 1994, Raul Ruiz (1941-2011) esteve no Rio. Mais precisamente, esteve pilotando uma restrospectiva de seus filmes e ministrando um workshop no CCBB. Na ocasião, eu trabalhava na coordenação do centro cultural e aproximei Arthur Omar do mestre chileno, a quem muito admirava. AO fez com ele um vídeo bonito e intrigante, chamado O Castelo Resiste.

Entre as várias conversas que tivemos ou que presenciei, Ruiz falou de sua paixão por línguas semimortas como o ladino, próxima do castelhano, falada durante vários séculos por judeus espanhóis. Ele gostava de dizer frases em ladino, e quando pedi seu autógrafo na capa do catálogo da mostra, ele o escreveu nesse idioma: (clique na imagem para ver maior)

A tradução poderia perfeitamente ser o epitáfio de Raul Ruiz:
“A Karlos
Do contador que narra histórias fantásticas apieda-se Alá”

Tão jovens

setembro 3rd, 2011 § 4 Comentários

Três filmes que acabam de entrar em cartaz no Rio lidam com questões da juventude ou procuram algum tipo de diálogo com uma plateia juvenil: O Homem do Futuro, A Fuga da Mulher Gorila e Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual. São três caminhos inteiramente distintos e três modelos de cinema bastante diferenciados. Eu gostaria de sair dos meus 57 anos e estar na pele de um jovem de hoje para saber qual dos três conversaria melhor comigo. Não sendo isso possível fora da ficção, mando lá minhas impressões de velho crítico ranzinza.

O Homem do Futuro é o mais convencional como cinema de consumo, baseado em fantasias como De Volta para o Futuro e O Feitiço do Tempo. Baseado, principalmente, num formato de comédia americana em que caretas, trapalhadas e trama rocambolesca buscam um contato imediato e frenético com o público. Um cientista volta no tempo para tentar preservar a namorada da juventude, mas acaba chegando à conclusão de que é melhor não mexer na agenda do acaso – ou pelo menos não mexer muito. O filme de Claudio Torres é uma façanha técnica razoável para os padrões médios da produção cabocla, com muitos efeitos especiais e muito capricho na direção de arte e figurinos.

Mas não se pode negar também a eficiência do ritmo e da direção em geral. Após um início muito caricato, a história ganha razoável densidade para um filme do gênero, além de algumas referências cômicas interessantes. O chiste com Eike Batista, por exemplo. Wagner Moura, como sempre, faz barba, cabelo e bigode. Para o cinema brasileiro, um Wagner Moura não é mais suficiente. Então O Homem do Futuro tem três – e a contracena entre eles garante certa graça. Nada mais que chavões da ficção científica romântica, mas ainda assim um divertimento bem passável.

O outro lançamento brasileiro da semana é A Fuga da Mulher Gorila, primeira parte da trilogia Coração de Fogo, de Felipe Bragança e Marina Meliande, secundada por A Alegria (também em cartaz) e o inédito Desassossego. A Fuga talvez seja o mais redondo dos três, embora também se ressinta da apatia colorida que assola os filmes da dupla. Num road movie meio paradão, temos duas irmãs que viajam pelo interior do Rio fazendo o espetáculo da mulher-gorila e curtindo os dilemas de ser tão jovens. A mais velha é angustiada e sensual, a mais nova é lírica e infantil. Elas quase nunca conversam. Em vez disso, expressam-se por canções e frases aparentemente alheias.

O filme tangencia questões de representação (as roupas de gorila), de gênero (elas eventualmente dão carona a um ator desgarrado), de poder (nas relações do trio) e de cultura (o flerte supostamente poético com a música brega e a estética interiorana). Mas a rarefação das ações e dos vínculos entre os personagens não me permitiu um contato minimamente sólido com os sentimentos e os sintomas em jogo. Tudo o que se arma como esboço de situação é logo diluído numa evasiva, numa desconversa, como se a articulação plena de qualquer ideia fosse algo a ser evitado por banal. Os jovens estão na tela, mas não parece haver uma intenção de tê-los também na plateia. Se não é assim, não sei exatamente a quem se dirige A Fuga da Mulher Gorila.

Com o argentino Medianeras ocorre algo que tem a ver com O Homem do Futuro: a viagem no tempo. Sim, porque Medianeras parece filme do início da década passada, quando se falava muito de Onde Está Waly?, solidão ao computador, o caos arquitetônico e o isolamento do indivíduo nas grandes cidades. Quando casais predestinados demoravam um filme inteiro para se encontrar, passando por chats na internet e se cruzando diversas vezes sem se conhecer. Lembra disso? Pois é, não vejo ali material para mais do que um curta da ECA-USP dos anos 2000, mas Gustavo Taretto achou que bastava desenvolver o argumento do seu curta homônimo de 2005 para fazer novamente um filme contemporâneo. Tenho a impressão de que os jovens de hoje devem vê-lo como filme de época. Se Gramado se encantou tanto com ele, imagino como terá sido o resto da programação.

Eles estão com a mão no Andorinha

setembro 1st, 2011 § 1 Comentário

O Cineport – Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (veja o site) vai ter sua 5ª edição de19 a25 de setembro, em João Pessoa. A diretora do festival, Monica Botelho, resolveu mudar este ano a metodologia de escolha dos premiados com o Troféu Andorinha, uma espécie de “Oscar” dos filmes de expressão lusófona. Até a quarta edição, os agraciados eram escolhidos por uma confraria de gente de cinema reunida pelo Cineport. Desta vez, porém, foi montado um júri  de críticos e jornalistas de cinema para apontar os vencedores.

Do júri brasileiro de longas-metragens participamos eu e os críticos José Geraldo Couto (Carta Capital, Bravo!, Blogdozegeraldo), Marcelo Miranda (O Tempo/BH, site Filmes Polvo, blog No Extracampo) e Renato Félix (Jornal da Paraíba, blog Boulevard do Crepúsculo). O júri luso-africano foi integrado por Antonio Loja Neves (jornal Expresso/Portugal), Carla Henriques (RTP/Portugal/Moçambique), Luisa Sequeira (Shortcutz, programa Fotograma/Portugal) e Rui Tendinha (Shortcutz, NS’, Vogue/Portugal/Angola).

Foram considerados todos os longas lançados comercialmente no Brasil, Portugal e África entre janeiro de 2010 e junho de2011. Aparticipação africana nesta edição ficou prejudicada pela virtual ausência de estreias comerciais de longas na temporada considerada. Os poucos exemplares lançados não chegaram a conquistar indicações do júri luso-africano.

Abaixo, a lista de indicados de Brasil e Portugal para cada categoria. Os vencedores serão anunciados nos próximos dias. A entrega dos Troféus será em João Pessoa durante o festival, numa mostra que reunirá todos os finalistas.

FICÇÃO

MELHOR FILME
Cabeça a Prêmio, de  Marco Ricca -  BRASIL
Morrer Como Um Homem,  de João Pedro Rodrigues – PORTUGAL

MELHOR DIRETOR
José Padilha, Tropa de Elite 2 – BRASIL
João Nuno Pinto, América – PORTUGAL

MELHOR FOTOGRAFIA
Lula Carvalho,Tropa de Elite 2– BRASIL
Carlos Lopes, A.I.P., Como Desenhar um Círculo Perfeito – PORTUGAL

MELHOR PRODUTOR
Marcos Prado e José Padilha, Tropa de Elite 2 – BRASIL
Pandora da Cunha Telles,  América – PORTUGAL

MELHOR ROTEIRO
Braúlio Mantovani, Tropa de Elite 2 – BRASIL
João Pedro Rodrigues,  Morrer Como Um Homem – PORTUGAL

MELHOR MONTAGEM
Karen Harley, Viajo Porque Preciso Volto Porque te Amo – BRASIL
João Braz, Filme do Desassossego – PORTUGAL

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
Adrian Cooper, Quincas Berro D’Água – BRASIL
Wayne dos Santos, América – PORTUGAL

MELHOR FIGURINO
Rita Murtinho e Valéria Stefani, A Suprema Felicidade – BRASIL
Isabel Branco, Mistérios de Lisboa – PORTUGAL

MELHOR ATOR
Wagner Moura, Tropa de Elite 2 – BRASIL
Claudio da Silva, Filme do Desassossego – PORTUGAL

MELHOR ATRIZ
Glória Pires, Lula, o Filho do Brasil – BRASIL
Joana de Verona, Como Desenhar um Círculo Perfeito – PORTUGAL

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Caio Blat, As Melhores Coisas do Mundo – BRASIL
Raul Solnado, América – PORTUGAL

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Fabíula Nascimento, Bruna Surfistinha – BRASIL
Catarina Wallenstein, Um Amor de Perdição – PORTUGAL

MELHOR MÚSICA
BID, As Melhores Coisas do Mundo – BRASIL
Bernardo Sassetti, Como Desenhar um Círculo Perfeito – PORTUGAL

DOCUMENTÁRIO

MELHOR FILME
O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira – BRASIL
José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes – PORTUGAL

MELHOR DIRETOR
Cao Guimarães, A Alma do Osso – BRASIL
Miguel Gonçalves Mendes, José e Pilar – PORTUGAL

MELHOR FOTOGRAFIA
Walter Carvalho, O Homem Que Engarrafava Nuvens – BRASIL
Luis Miguel Correia, Sandro Aguillar e João Nicolau, Ruínas – PORTUGAL

MELHOR MONTAGEM
Raphael Alvarez, Dzi Croquettes – BRASIL
Susana Sousa Dias, 48 – PORTUGAL

Onde estou?

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