Impressões da Semana

outubro 30th, 2011 § 3 Comentários

Por motivos de agenda, só este ano pude comparecer com alguma regularidade à Semana dos Realizadores, o evento criado por Eduardo Valente e Lis Kogan para cumprir, em relação ao Festival do Rio, função semelhante à da Quinzena dos Realizadores com o Festival de Cannes. Com a diferença de que a Quinzena sempre foi uma sessão paralela e simultânea a Cannes, enquanto a Semana brasileira é evento completamente à parte.

Este ano pude assistir a vários filmes e até mediar um dos debates programados pela Semana. Não vou falar aqui dos filmes, sobre os quais postei pequenos comentários nas redes sociais e ainda pretendo escrever no futuro. Quero apenas deixar algumas impressões gerais, na forma de pontos que me agradam e outros que me desagradam na Semana.

Gosto:

  • A chance de ver esses filmes mais comprometidos com uma proposta de invenção em condições ideais, num bom cinema, com imagem e som da melhor qualidade possível.
  • A plateia respeitosa, silenciosa, interessada de verdade no que vê. Sem pipocas, saquinhos de bala e quase sem a praga da manipulação de celulares. A sensação é de paraíso cinéfilo.
  • A fluência, capacidade de memorização e simpatia de Lis Kogan na apresentação das sessões.
  • As menções e agradecimentos ao projecionista, elo normalmente esquecido na cadeia de uma boa exibição.
  • A evidência de um caráter comunitário nesse novo cinema de invenção, o que se evidencia não só nas relações interpessoais ao vivo, como nos créditos dos filmes. Este ano, por exemplo, destacaram-se os nomes de Pedro Urano (envolvido em 5 filmes), Ricardo Pretti (4 filmes), Luiz Pretti e Bernardo Uzeda (3) e vários outros em mais de um filme.

Não gosto:

  • As autorreferências elogiosas de vários cineastas e a empáfia no discurso de alguns ao afirmar que só um tipo de cinema (o que eles fazem) importa, e o resto é lixo.
  • O lado mais discutível do “comunitário”, que é a sensação de patota. Daí a troca de elogios, abraços e uma visão pouco crítica dos filmes. Ou seja, estamos numa espécie de gueto.
  • O ciclo de debates relegado às tardes no Forum de Ciência e Cultura da UFRJ. Os encontros foram ótimos, mas o público não foi. O gueto, de novo.

>>> Por fim, lembro que os seis filmes da competição e mais os de abertura e encerramento serão reprisados no Instituto Moreira Salles, no sábado e domingo próximos.

A dor em palavras

outubro 28th, 2011 § 1 Comentário

O Instituto Moreira Salles exibe hoje (sexta) às 16h e amanhã (sábado) às 18h o documentário S21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho, do cambojano Rithy Panh. Resgato a seguir o texto que publiquei sobre o filme em 2003 e consta também do folheto deste mês do IMS: 

Juntos num mesmo espaço carregado de recordações comuns e contraditórias, torturados e torturadores se lançam a um diálogo no limite do impossível, mas que resulta numa forma compartilhada de memória.

O que fez de Shoah, de Claude Lanzman, um clássico do documentário não foi o tema do Holocausto, sobejamente esquadrinhado pelo cinema e as atualidades, mas a atitude do cineasta de evitar toda imagem de arquivo, qualquer ilustração. O horror era descrito somente pelas memórias de vítimas, algozes e testemunhas, muitas vezes nos locais onde tudo acontecera. As palavras ecoavam nos cenários agora vazios ou transformados, mas impregnados das emoções da História. A lembrança de Shoah chega inevitavelmente diante de S21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho, o impactante documentário que relata horrores da perseguição política no Camboja durante o regime liderado por Pol Pot.

Entre 1975 e 1979, um genocídio ceifou a vida de aproximadamente 1,7 milhão de cambojanos, numa corrente de denúncias e acusações em nome da pureza de uma revolução. Hoje cada cidadão com mais de 30 anos tem uma história dilacerante para contar envolvendo seus familiares. O cineasta Rithy Panh é um deles. Aos 11 anos de idade, viu seus pais e irmãs serem mortos pela polícia política e foi enviado a um campo de reeducação no interior. Findo o regime, ele transferiu-se para a França, onde estudou cinema. S21 é mais um capítulo no seu acerto de contas com um tempo de morte.

Rithy Panh usa poucas imagens de arquivo, e somente na abertura do filme. No mais, limita-se a ouvir alguns protagonistas da tragédia. Seu dispositivo amplia o alcance de Shoah por não confrontar vítimas e algozes apenas através da montagem. Em vez disso, ele os reúne fisicamente no prédio onde cerca de 17 mil pessoas foram torturadas e pereceram, num subúrbio de Phnom Penh. Dois ex-prisioneiros conversam com carcereiros, torturadores, interrogadores, um médico e auxiliares da sinistra unidade S21, enquanto revisitam celas, antigas câmaras de tortura e comentam documentos e fotografias da época. As telas do pintor Vann Nath, um dos ex-prisioneiros, ajudam a detalhar os suplícios e as condições de vida na prisão. Juntos num mesmo espaço carregado de recordações comuns e contraditórias, torturados e torturadores se lançam a um diálogo no limite do impossível, mas que resulta numa forma compartilhada de memória.

Chama atenção a presença ou ausência de emoções explícitas nos relatos. Enquanto um velho camponês, diante da simples visão dos pavilhões do S21, chora convulsivamente a perda de toda a família, os antigos carrascos relatam sem qualquer dramaticidade aparente os cruéis rituais de tortura, as mortes sumárias que perpetravam – e a forma como se acostumavam até com o odor dos cadáveres. Alguns dispõem-se mesmo a reencenar a vigilância das celas, as palavras de ordem etc. Com isso, o filme consegue somar a evocação gestual à verbal, ao mesmo tempo em que informa sobre o processo de desumanização por que passavam os soldados de Pol Pot.

Um dos momentos mais fortes do filme vem logo no início, quando a família de um ex-torturador o instiga a contar “toda a verdade” para afastar o carma negativo. Depois de muitos anos de silêncio e medo, acrescidos da natural humildade do povo cambojano, a oportunidade de falar surge como um exorcismo contra os demônios da História. Desde 1989, Rithy Panh já fez oito filmes sobre o assunto. Com S21, colocou um marco no documentário político contemporâneo.

I ♥ Festival do Rio

outubro 27th, 2011 § 8 Comentários

Hoje termina a repescagem do Festival do Rio. É hora de refletir um pouco sobre a importância desse evento para a cinefilia no Rio de Janeiro. Faço isso inspirado sobretudo pelo artigo de Luiz Zanin Oricchio no seu blog a respeito da Mostra de São Paulo, onde as reclamações do público e dos cineastas têm chegado a um nível recorde.

Aqui no Rio também foi assim. Presenciei alguns micos muito sérios e soube de outros tantos pelas conversas ao vivo e nas redes sociais. A projeção digital trouxe uma imponderabilidade muito grande, mesmo quando os testes parecem indicar que tudo vai bem. Configurações não batem, cabos desaparecem, legendas não correspondem à versão do filme que está sendo exibida. Perdeu-se o padrão mais ou menos uniforme da exibição em película. Em compensação, é bom lembrar que no digital não temos mais aqueles terríveis gritos de “olha o foco!!!” nem o tráfego carga-pesada de latas, com o pesadelo da alfândega no meio do caminho.

É claro que muito precisa ser melhorado e repensado nesse capítulo técnico, assim como os monitores do festival devem estar presentes e aptos a “apagar incêndios” na relação com a plateia, quando necessário. Mas, como diz o Zanin, precisamos ser menos consumidores e mais cidadãos. Não é fácil montar uma efeméride como o Festival do Rio, oferecendo quase 500 filmes em 34 salas espalhadas pela cidade e atendendo a um público que não está disposto a perdoar a menor falha. Entendo as queixas pontuais, mas não algumas críticas indiscriminadas ao festival, como se ele fosse o maior inimigo dos espectadores cariocas.

De minha parte, só tenho a agradecer a Ilda Santiago e sua equipe pelos dias de júbilo cinéfilo de que desfrutei. Desde o início das cabines de imprensa, a 1º de outubro, vi 42 filmes, contando só os longas-metragens. Alguns me deram momentos de imensa satisfação, como O Cavalo de Turim, A Separação, O Moinho e a Cruz, Tablóide e o George Harrison do Scorsese. Onde mais eu teria a chance de vê-los em tela grande e bom som, a não ser numa eventual mostra no CCBB (onde a tela não é tão grande assim)? Citaria também Sudoeste, A Longa Viagem e Os Últimos Cangaceiros, mas os brasileiros não são minha prioridade no festival. Prefiro ver aqueles que têm menos chance de reaparecer por aqui. Como costumo brincar, no festival só vejo filmes de países que comecem com U a Z.

Gostei do ambiente no Pavilhão do Festival, apesar de admitir que a região do cais do porto (ainda) é de acesso e estacionamento complicados. Mas ocupar aquela área é parte do processo da Prefeitura no sentido de reconquistá-la para a cultura da cidade. Não dá pra ser contra. O debate de que participei foi bem organizado e bem prestigiado pelo público. A visão bem próxima do mar era um refresco para a correria das exibições.

Precisamos ser maiores que nossas insatisfações e reconhecer o empenho dessa gente em nos brindar com um festival de peso e variado. Para o ano que vem, sugiro confeccionar camisetas “I ♥ Festival do Rio”. Eu entraria na fila para comprar.

Personagens-autores

outubro 25th, 2011 § 4 Comentários

Em quase todo documentário, os personagens são também um pouco autores. O que varia são as medidas e as formas como isso se dá. Se o diretor os escolhe e, em última instância, determina quanto deles fica e onde fica dentro do filme, são eles que fornecem, digamos, o argumento. Além disso, de alguma maneira influenciam o ritmo, o tom e a estética visual do filme mediante suas falas e sua presença física dentro do quadro.

O debate de amanhã (quarta, 15h) na Semana dos Realizadores vai enfocar esse tema. No Forum de Ciência e Cultura da UFRJ (Av. Pasteur, 250, sala Moniz Aragão), vou mediar uma mesa com os diretores dos docs Estradeiros, O Corte do Alfaiate e Romance de Formação. Ana Rieper, de Vou Rifar Meu Coração, não vai participar como programado, em função da exibição do seu filme na Mostra de São Paulo.

Embora nenhum desses trabalhos enverede pelo rumo da transferência de autoria, como foi muito praticado em docs recentes (vide O Prisioneiro da Grade de Ferro e alguns de Evaldo Mocarzel), há ali material para uma boa discussão em torno do assunto.

Imagem de webcam em "Romance de Formação"

Romance de Formação até chega a usar imagens de celular e webcam feitas por um dos personagens, mas isso não chega a ser um procedimento determinante no filme. A diretora Julia De Simone reuniu fragmentos do cotidiano e das reflexões de quatro jovens brasileiros que estudam longe da terra natal. Um pianista na Alemanha, uma estudante de literatura em Stanford, um rapaz no curso de Direito Internacional em Harvard e um mineiro estudando Medicina no Rio. É um filme voltado para o empreendedorismo pessoal, a disposição para estudar arduamente e manter com os seus uma relação quase sempre apenas virtual. Esse mote do crescimento individual e da busca do conseguimento se reflete na linguagem muito limpa do filme, no privilégio das simetrias e dos personagens ocupando o centro do quadro, ou seja, no controle de suas vidas.

Estradeiros, de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, enfoca pessoas – jovens e maduros – no oposto desse espectro. São outsiders sul-americanos ocupados com venda de artesanato, malabares de rua, gente que sobrevive de lixo, bichos-grilo de variada espécie. Esse estilo de vida alternativo e nômade parece inspirar o próprio estilo do filme, que não se fixa em nada por muito tempo, desloca-se no tempo e no espaço de modo aleatório e descontínuo. Peru, Buenos Aires, São Tomé das Letras, Recife, São Paulo – Estradeiros é um road movie sem destino definido, que anda de carona nos seus personagens.

O Corte do Alfaiate, por sua vez, trata de uma profissão possivelmente em vias de extinção. A partir de uma pesquisa etnográfica, ouve considerações de alfaiates de Curitiba sobre seu ofício, sua visão a respeito do mercado de confecções prontas, suas dificuldades em passar adiante os segredos do métier, etc. Num misto de observação da rotina e tomada de depoimentos diretos, João Castelo Branco retira algum efeito da estagnação dos planos nos espaços exíguos das alfaiatarias. Estagnação e ordem para retratar um trabalho que parece ter chegado a seu ocaso.

Se essas especulações sobre a relação entre estética e personagens fazem algum sentido, e como essa dinâmica se realizou na criação de cada filme, isso é um pouco do que vamos discutir amanhã com os realizadores. Pena que Ana Rieper não estará presente, pois os personagens de Vou Rifar Meu Coração são em boa parte autores do colorido humano e da simpatia que emanam do filme.

O crachá do cara

outubro 24th, 2011 § Deixe um comentário

Para encerrar o atual “ciclo Vladimir Carvalho” aqui no blog, restam três coisas:

1. Recomendar que vejam Rock Brasília – Era de Ouro nos cinemas. Uma boa frequência na primeira semana ajuda o filme a resistir mais tempo em cartaz.

2. Convidá-los a ver a performance fotográfica que eu e alguns amigos fizemos no último Cineport, quando foi inaugurada a Sala Vladimir Carvalho na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa. Cineastas, jornalistas,  amigos e performers (como Netto Ribeiro, na foto) posamos com o crachá de Vladimir. Veja aqui. Passe o mouse sobre o rosto de cada um para ver sua “identidade secreta”.

3. Indicar a leitura do ensaio de autobiografia que fiz com ele para a Coleção Aplauso, Pedras na Lua e Pelejas no Planalto. Seja comprando o livro nas livrarias ou lendo/baixando neste link do site da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Vladimir no shopping

outubro 22nd, 2011 § Deixe um comentário

Rock Brasília – Era de Ouro estreou ontem nacionalmente com pinta de se tornar o maior sucesso comercial da carreira de Vladimir Carvalho. São 40 cópias, o que é raríssimo para documentários brasileiros. Só em João Pessoa, capital do seu estado natal, o filme entrou em três shopping centers. Segundo Renato Félix, jornalista do Correio da Paraíba, isso é “coisa absolutamente inédita para um cineasta paraibano que teve carreira aqui (e acho, até, para qualquer paraibano)”.

O filme chega precedido pelo prêmio de melhor doc do Festival de Paulínia e exibições calorosas nos festivais de Brasília e do Rio. Mais que tudo, vem aditivado pelo carisma de Renato Russo e da garotada que contestou o estilo de vida meio burocrático da Brasília dos anos 1970 e, para espanto de seus pais diplomatas e professores, criou uma usina de rock-br que depois iria espalhar seus fluidos por outros estados da federação. Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso estão no foco de Vladimir, ele que sempre gostou de pingar umas gotas de rock nos seus filmes.

Já escrevi aqui sobre a diferença entre Rock Brasília e o que se convenciona chamar de “filme de rock”. Não vou me repetir. Leiam ou releiam o artigo. Só quero acrescentar o palpite de que Rock Brasília tem verve, informação e charme para agradar tanto no cineclube da esquina quanto no multiplex do shopping.

O ritmo nas veias

outubro 21st, 2011 § Deixe um comentário

À direita, a montadora-ritmista de "Coração do Samba"

A bateria é onde pulsa a escola de samba. Se ela falha, o corpo inteiro sente. Se ela vibra, tudo o mais vibra também. O novo documentário de Thereza Jessouroun, seu primeiro de longa metragem, vai em busca dos segredos e da história desse órgão vital no corpo da Estação Primeira de Mangueira. Esnobado pela comissão de seleção do Festival do Rio, Coração do Samba estreia hoje (sexta) na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A primeira exibição será no Unibanco Arteplex, às 19h.

Coração do Samba é filme marcado pelo símbolo da familiaridade. De Thereza com a Mangueira, onde há dez anos fez o belo doc Samba. Da comontadora Marcela Amarante com o ritmo, já que ela própria é integrante da bateria da escola. Familiaridade, enfim, do principal narrador, o carismático, apaixonado e articulado Elmo dos Santos, ex-presidente da Mangueira e filho do fundador da ala da bateria.

Thereza acompanhou os ensaios e desfiles da escola em 2004 (com fotografia de Mauro Pinheiro Jr.) e 2011 (câmera a cargo de Alberto Bellezia). Entre um e outro bloco temporal, alguns fatos mudam o panorama: o diretor de bateria Robson Roque é morto pelo tráfico, a bateria quebra um velho tabu e passa a incorporar mulheres, a rejeição à “paradinha” cai em benefício de uma agora famosa “paradona”. No entanto, a velha luta pelos pontos cruciais na apuração do Sambódromo continua. A bateria da Mangueira é como bicho teimoso que não para de fustigar.

Há no filme um bonito movimento pendular entre passado, presente e futuro. Elmo dos Santos e outros falam das raízes da bateria, de figuras míticas não tão conhecidas como Cartola e Sargento. Contam histórias de abnegação e amor pelos instrumentos. As câmeras vasculham oficinas e ensaios em busca dos detalhes técnicos e das táticas de regência que fazem aquela massa rítmica soar tão homogênea e ao mesmo tempo tão sutilmente diferenciada. Na bateria mirim, flagra as sementes da Mangueira de amanhã.

A informação relevante vem embalada num ritmo quase sempre arrebatador. Assim experimentamos a euforia ao mesmo tempo em que testemunhamos de onde ela vem e como se produz.

Festival do Rio 2011

outubro 20th, 2011 § Deixe um comentário

Veja abaixo minhas mini-resenhas de filmes do Festival do Rio. E volte para conferir os novos textos que vou postando diariamente.

A Separação

outubro 19th, 2011 § 1 Comentário

Talvez só uma sociedade islâmica possa gerar filmes como A Separação. O moderno cinema iraniano, aliás, reflete muito as questões subjacentes à cultura islâmica. A noção de “guerra santa”, por exemplo, era dramatizada metaforicamente no cotidiano nos primeiros filmes de Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf  e Abbas Kiarostami. Já o magistral Asghar Farhadi trabalha em profundidade os limites entre ética e oportunidade, virtude e pecado, que fazem o lastro moral do cidadão iraniano.

Como no anterior Procurando Elly, Farhadi arma um tabuleiro de xadrez em que cada movimento de uma peça se reflete no conjunto. Em ambos os filmes, uma mentira é que detona os acontecimentos. É como se uma mentira fosse sempre capaz de alterar o mundo a partir daqueles que estão próximos. Para recompor o arranjo rompido, será necessário levar ao extremo o jogo das aparências e das conveniências. E o espectador à beira da poltrona de tanto suspense psicológico.

A primeira cena – o casal em plano fixo discute a separação com o juiz – nos mostra a excelência do trabalho de Farhadi com os atores e o texto (o conjunto do elenco ganhou os prêmios de melhor ator e atriz no Festival de Berlim). A sequência seguinte – a família em casa começa a se desorganizar com a saída da mulher – expõe a eficácia do diretor no trato com atores, espaços e sentido. Os múltiplos pontos de vista da cena e os movimentos um tanto confusos exprimem a desorientação geral. Dali em diante, os vários dilemas vão se cruzar e interagir num fluxo irresistível. Enquanto dois casais se acusam reciprocamente, oscila a balança entre os interesses ecnômicos, as regras religiosas, as normas judiciárias, a solidariedade familiar, o compromisso ético e a compaixão humana. Tudo isso repercute, em graus diferentes, sobre o olhar mais inocente de duas meninas e um avô com Alzheimer.

Talvez haja apenas uma “facilidade” na escrita de Farhadi: os lances definidores da trama são adiados para o espectador mediante a interrupção deliberada de certas cenas. Isso pode parecer um truque primário de roteiro, mas seus efeitos são tão satisfatórios que tendemos a perdoar.

Jack Cardiff – Vida e Obra de um Cameraman

outubro 18th, 2011 § Deixe um comentário

Dizem que os maquiadores são os que têm as melhores histórias de bastidores para contar. Mas Jack Cardiff (1914-2009) demonstra que essa prerrogativa também pode tocar aos cinegrafistas. Afinal, ninguém passa mais tempo no set do que eles. Nesse doc bastante convencional de Craig McCall, o magistral cameraman do Technicolor conta algumas boas histórias. Por exemplo:

- Marlene Dietrich exigia aquela famosa luz do alto não apenas para destacar as maçãs do rosto, mas para produzir uma sombra triangular abaixo do seu nariz, que ajudava a afilá-lo.

- Quando Michael Powell pediu-lhe um fade-in menos mecânico, ele simplesmente bafejou na lente e iniciou a tomada.

- Orson Welles exigiu um casaco de mink para seu papel no épico A Rosa Negra porque pretendia sair de fininho com ele para vestir no seu Otelo.

Enfim, esse é o tipo de doc que vive mais dessas informações de cinefilia que de observações técnicas sobre o métier. É curioso, por exemplo, saber que Scorsese reconhece influências diretas da fotografia de Cardiff nos filmes de Michael Powell e tem como sua fiel montadora a viúva de Powell, Thelma Schoonmaker. Aliás, foi Scorsese quem apresentou um ao outro.

Antes que esse texto fique parecido demais com os de Rubens Ewald Filho, deixe-me dizer que Jack Cardiff também comenta sua admiração pela pintura de Vermeer e Turner; que o filme coleta cenas deslumbrantes que fizeram de Cardiff talvez o maior fotógrafo de filmes coloridos dos anos 1940 (Narciso Negro) aos 80 (Conan, Rambo II), passando por muitos Hitchcocks, épicos e aventuras. Ele era um misto de artista, técnico e mago que o cinema começou a dispensar com a era digital. Quando seus “milagres” começaram a ser feitos pelos computadores, Cardiff admitiu que seu tempo havia passado. Mas, revendo aqui sua carreira, como passou bem!

Abdias Nascimento

outubro 17th, 2011 § Deixe um comentário

A fim de traçar um perfil e dimensionar a importância de Abdias Nascimento (1914-2011) para a cultura negra no Brasil, Aída Marques optou por uma abordagem próxima do filme doméstico. O político, escritor e ativista é visto em cenas cotidianas e em encontros, almoços e debates com uma série de admiradores, discípulos etc. Não há, portanto, como evitar um clima de tributo, complementado por uma entrevista memorialística que fornece o eixo básico da narrativa. Questões potencialmente polêmicas como o casamento de Abdias com uma mulher branca e sua participação no movimento integralista são apenas rapidamente mecionados. Da mesma forma, ficam sem aprofundamento afirmações retumbantes como a de que “os modernistas excluíram os negros da composição do povo brasileiro”.

O fator doméstico se manifesta também numa estética antiquada de telas divididas, um uso muito duro dos arquivos fotográficos e encenações excessivamente impostadas. Parece-me que o material se prestaria a um melhor resultado caso passasse por um trabalho de edição mais sofisticado.

A melhor situação, entre as criadas especialmente pelo documentário, é uma reunião de Abdias com representantes de várias gerações da causa negra, de Ruth de Souza e Léa Garcia a Lázaro Ramos e Marcelo Yuka. Nessa sequência, vêm à tona tensões e contradições que, de resto, o modelo de filme-homenagem deixa de considerar. Abdias foi alguém que procurou superar a inferiorização racial  a partir da sua própria experiência pessoal, o que já gerou muito debate no movimento negro. Aída Marques lança uma primeira pedra nessa reconstrução que ainda fica por desenvolver.

Até a Chuva

outubro 17th, 2011 § Deixe um comentário

Que a História se repete, não precisamos mais de filmes para dizer. Mas Até a Chuva cria uma ilustração dramática bem interessante para esse aforismo. Mais ainda, por envolver o próprio cinema.

Uma produção espanhola se instala em Cochabamba, na Bolívia, para reconstituir criticamente a chegada de Colombo às Américas. A equipe encontra, porém, um imprevisto: a população está às turras com a polícia para impedir que o provimento de água da cidade seja privatizado por uma multinacional. O fato é verídico, e gerou a chamada “Guerra da Água”, no ano 2000, um dos grandes temas do doc The Corporation. O conflito fornece os músculos e as melhores cenas de Até a Chuva (También la Lluvia), um dos destaques do cinema espanhol no ano passado.

O roteiro de Paul Laverty, habitual colaborador de Ken Loach, é engenhoso na forma como faz espelhamentos entre os fatos históricos e os da realidade atual. A equipe chega disposta a usufruir da barata mão-de-obra local e evitar que os acontecimentos políticos perturbem os planos de filmagem. Assim, ao ouro da colonização vai corresponder a exploração da água. E a repressão dos índios pelos espanhóis do século XVI vai ter um paralelo nos interesses, no oportunismo e na ação corruptora dos produtores do filme de 2000. Numa das passagens mais eloquentes, uma rebelião popular ocorre durante a rodagem de uma cena de massacre dos índios.

A oposição ética que desde cedo separa o diretor (Gael Garcia Bernal) e o produtor (Luis Tosar) do filme-dentro-do-filme soa um tanto esquemática até ser problematizada perto do final. É quando se estabelece o tema da redenção, senão para o cinema, ao menos para um dos personagens. Isso faz com que o filme da diretora Icíar Bollaín se assemelhe bastante a um bom conto moral de Walter Salles. Tanto etica quanto esteticamente, por sinal.

Marighella

outubro 16th, 2011 § Deixe um comentário

Depois de ter sido objeto de filmes de Chris Marker e Silvio Tendler, o herói comunista e líder guerrilheiro Carlos Marighella ganha a sua cinebiografia mais pessoal e provavelmente a mais rica em preciosidades documentais. Isa Grinspun Ferraz, sobrinha do retratado, parte de suas lembranças de menina, o que pode soar mais como alinhamento a um modelo narrativo em voga do que uma necessidade orgânica do filme. Mas felizmente esse “gancho” é usado de maneira discreta, deixando o foco principal para os depoimentos de velhos comunistas, parentes e figuras emblemáticas da resistência à ditadura militar, como o crítico e escritor Antonio Candido. Textos e poemas de Marighella surgem na voz de Lázaro Ramos. Tudo isso forma um tecido extremamente coeso, num roteiro praticamente exemplar.

A pesquisa iconográfica de Remier Lion é primorosa, com dezenas de filmes de ficção e documentários que se combinam, em perfeito ajuste dramático e atmosférico, para construir o itinerário do personagem e das esquerdas ao longo de quase 50 anos. Entre as muitas qualidades do filme, ressalta um equilíbrio cuidadoso entre o detalhe pessoal e a análise macro, a dimensão humana e o significado histórico daquele mulato revolucionário. Vale destacar também a expressividade e espontaneidade dos depoimentos, especialmente da parte de Clara Charf, ex-companheira de Marighella, cujos charme e vivacidade continuam apaixonantes.

Entre o “inimigo público n° 1”do regime militar, o “santo do socialismo” no dizer de Antonio Candido e o misterioso Tio Carlos que Isa via chegar em sua casa com uma enigmática capanga que ninguém podia tocar, Marighella desenha um perfil tão profundo quanto sóbrio. Junta-se a Hércules 56, Cidadão Boilesen e Diário de uma Busca como as melhores revisitas que o documentário tem feito a nosso passado ainda recente.   

Decorando o Alcorão

outubro 16th, 2011 § Deixe um comentário

Greg Barker, autor de um ótimo doc sobre Sérgio Vieira de Melo, volta ao front das relações internacionais numa escala micro, enfocando um concurso anual de recitação do Corão por crianças muçulmanas representantes de diversos países. Recitar o livro sagrado do Islã é quase um pleonasmo, já que o termo Corão significa justamente Recitação. Ele foi escrito para ser dito em voz alta. Os meninos e meninas instruídos a decorar o conteúdo de suas 600 páginas ganham a promessa de destreza intelectual e sucesso nesta e na outra vida.

O filme acompanha três candidatos do Tajiquistão, das Ilhas Maldivas e do Senegal em sua viagem ao Cairo para o concurso. Todos têm dez anos de idade e, mesmo sem nenhum conhecimento do idioma árabe, trazem o Corão inteiro na ponta da língua. Crianças submetidas a provas sempre rendem narrativas cheias de suspense e afetividade. Aqui não é diferente. O carisma de Nabiollah, Rifdha e Djamil envolve completamente o espectador enquanto Greg Barker passa seu recado político.

Sim, porque Decorando o Alcorão (Koran By Heart) é um alerta civilizado, embora nada sutil, contra o recrudescimento do fundamentalismo islâmico através da educação em países tradicionalmente moderados. O menino tajique, por exemplo, conhece todo o Corão mas é semianalfabeto, já que sua educação tem sido basicamente religiosa. A menina maldívia teme ser levada pelo pai ortodoxo a sair do país para se dedicar a estudos eminentemente religiosos. A visita ao Cairo é uma pausa diferente na vida dessas crianças, mas também um possível divisor de águas em suas vidas de ídolos mirins.

De Mãos Livres

outubro 16th, 2011 § Deixe um comentário

Taí um filme que podia ter sido feito no Brasil. Aliás, já foi, e era bem superior. O documentário Entre a Luz e a Sombra, de Luciana Burlamaqui, acompanhava a complexa história de amor entre a atriz Sofia Bisilliat e um presidiário com quem ela trabalhava no Carandiru. A francesa Brigitte Sy, aqui estreando no longa-metragem, viveu ela própria experiência semelhante à de Sofia enquanto escrevia um roteiro a partir da vida de um grupo de detentos. De Mãos Livres (Les Mains Libres) é a versão dramatizada desses fatos.

A natureza pouco comum do relacionamento entre a cineasta e o presidiário, restrito a rápidos cochichos e toques clandestinos, é um desafio para qualquer roteirista. Brigitte se sai relativamente bem, destacando primeiro as oscilações entre representação e sentimentos reais, depois as peripécias de um amor aparentemente condenado ao fracasso. Se não há grandes lances a esperar, há pelo menos uma direção de atores bastante interessante a observar. Sobretudo no que diz respeito ao trabalho das mãos, dos gestos que tentam desesperadamente ampliar o pouco que as palavras podem exprimir no ambiente carcerário. A direção é tão boa que chega a ser inconveniente quando os presidiários têm que atuar para o filme-dentro-do-filme e o fazem com precisão implausível.

A sequência final, perfeita representação da espera e da ansiedade, é outro discreto atrativo que justifica ver De Mãos Livres.

Finisterrae

outubro 15th, 2011 § Deixe um comentário

Não creio que haja concorrente ao título de filme mais esquisito do Festival do Rio. O catalão Finisterrae (atenção, não confunda com o italiano Terraferma) é uma espécie de road movie interpretado por dois fantasmas de lençol que, como o anjo de Asas do Desejo, estão cansados daquele limbo e querem tornar-se seres vivos. Para isso, saem de um palco de teatro para as estradas e montanhas em direção (geograficamente “livre”) a Santiago de Compostela e dali ao Cabo Finisterra (“Fim do Mundo”), na Galícia. Ao contrário de Quixote e Sancho Pança, eles falam russo. Por onde passam, as árvores têm ouvidos e eventualmente exibem vídeos de arte escatológica catalã dos anos 1980.

Para quem não está familiarizado com o surrealismo catalão, a lentíssima viagem pode ser bem enfadonha. A menos que se possa encontrar socorro em alguma relação com as fábulas de Alejandro Jodorowski ou nas lembranças dos truques ingênuos de Méliès, como aparições e desaparições com fumaça, movimentos revertidos e imagens de ponta-cabeça. O diretor Sergio Caballero faz chistes com a metafísica, os romances de cavalaria e o repertório das fábulas envolvendo homens, animais e seres sobrenaturais. A beleza das imagens, sempre teatralizadas, de bosques, estúdios e castelos indica estar aí o foco do interesse de Caballero. Ele é curador visual do festival de música Sonar, que acontece anualmente em Barcelona. Para este seu primeiro longa-metragem, o bravo começou por selecionar as músicas antigas, obras atonais e hits alternativos da trilha sonora. Depois filmou sua aventura fantasmal sem som direto. Por fim, acrescentou os sons e criou os esparsos diálogos em russo.

Eis uma experimentação que respira melhor no contexto de eventos de arte contemporânea. O Festival de Roterdã, porém, deu-lhe um de seus principais prêmios este ano. Ou seja, tudo é possível. Se aquilo é um fino comentário cultural ou uma rematada e incongruente tolice, só o humor e o background de cada espectador podem decidir. No meu caso, fecho completamente com a segunda opção.

Rânia

outubro 15th, 2011 § Deixe um comentário

A personagem-título desse filme cearense é uma bailarina de 16 anos dividida entre dois apelos, cada um representado por uma amiga. Zizi (Nataly Rocha, ótima), a companheira local, é dançarina numa boate frequentada por estrangeiros em Fortaleza. Estela (Mariana Lima), a forasteira, é diretora de uma companhia de dança. Rânia, interpretada com proverbial espontaneidade pela novata Graziela Félix, vive a idade das decisões difíceis. Seu impasse é expresso numa das melhores cenas do filme, quando ela improvisa movimentos de balé clássico no palquinho de pole dancing.

A diretora Roberta Marques, uma cearense radicada na Holanda, imprime uma sensibilidade diferenciada ao cenário e ao dia-a-dia das personagens. Privilegia o prosaico e o casual em detrimento da descrição e do conflito. Lembra um pouco o acento de Karim Aïnouz em O Céu de Suely ou de Marília Rocha em A Falta que me Faz. Para essa atmosfera mais rarefeita contribui a fotografia de Heloisa Passos, uma curitibana que vai colher os tons mais pastéis da orla nordestina e criar composições de intensa plasticidade. Foi ela a autora das imagens de Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo.

Rânia se inscreve numa linha recente de filmes brasileiros sobre a subjetividade feminina em situações de transição. Enfoca Fortaleza, onde o comércio de meninas é particularmente forte. Não o faz com uma visão sociológica nem moralizadora, mas em regime de compreensão dos dilemas e das afetividades em jogo. Pode ser um tanto pálido na dramaturgia e um pouco difícil em matéria de dicção dos diálogos. Mariana Lima pode não convencer como professora de dança (ela parece estar aprendendo com Graziela, e não o contrário). Mas prevalecem ali uma poética e uma mirada particular sobre o assunto que não devem ser desprezados.

Memórias de Minhas Putas Tristes

outubro 14th, 2011 § Deixe um comentário

Reunir Garcia Márquez e Jean-Claude Carrière na escrita de um filme é sair com alguns corpos de vantagem. Teoricamente, apenas, já que o resultado visto em Memórias de Minhas Putas Tristes só confirma a maldição de Gabo nas telas. Em tantas transposições de seus romances para o cinema, o essencial teima em se perder. A acidez poética, a fluência de coisa mais contada que vivida, isso fica nos livros, enquanto para os filmes passam somente o esqueleto das situações e, quando muito, tentativas canhestras de reproduzir uma atmosfera meio mágica e romântica.

Este filme dirigido pelo dinamarquês Henning Carlsen, mas felizmente com atores e diálogos hispânicos, não é desastroso como O Amor nos Tempos do Cólera, de Mike Newell. Pelo menos não enfileira estereótipos de latinidade ou de suposto realismo mágico. Mas tem um indisfarçável sabor de naftalina ao contar a história do velho lobo de bordéis que chega aos 90 anos disposto a ter, enfim, uma noite de amor verdadeiro. A visão um tanto defasada e “masculina” de temas como virgindade e prostituição se sustenta no livro enquanto produto de um deslocamento nostálgico, assim como o de Leite Derramado, de Chico Buarque. Mas no filme, sem a enunciação típica de Garcia Márquez, tudo assume um aspecto anódino, traduzido na fotografia pálida e na cenografia que mais sugere um especial de televisão de três décadas atrás.

A veneranda Geraldine Chaplin injeta alguma garra em suas intervenções como a dona do prostíbulo, falando em espanhol, herança de seu casamento com Carlos Saura. Angela Molina tem uma ponta, assumindo na maturidade o personagem interpretado na juventude por sua filha Olivia. Emilio Echevarría, que vive o protagonista El Sabio, impõe-se mais pela presença física do que pela capacidade de dotar seu personagem de alguma espiritualidade.             

Se faço menções aqui ao livro é somente porque seu autor é o principal chamariz e a razão de existir do filme. Não fosse essa origem nobre, Memórias, o filme, não passaria de um exercício frio e ultrapassado que não interessaria a muita gente.

As Canções

outubro 14th, 2011 § 1 Comentário

As canções sempre tiveram um papel importante nos filmes de Eduardo Coutinho. Quando os personagens de Santo Forte, Babilônia 2000 ou Edifício Master, por exemplo, eram instados a cantar diante da câmera, aquilo fazia parte da proposta de autofabulação embutida nos filmes. Ao cantar, as pessoas se reinventavam, assumiam mais plenamente o “teatro de si mesmas” que Coutinho buscava estimular com suas entrevistas. Esse recurso, subsidiário em vários trabalhos, ganha o proscênio agora em As Canções.

Invertendo o enquadramento de Jogo de Cena, as personagens de As Canções aparecem saindo do palco para a plateia de um teatro, e falam com a cortina ao fundo. Mais uma vez, parecem estar a sós com o diretor e suas lembranças. Cantam e explicam por que aquelas se transformaram nas músicas de suas vidas. A maioria dessas histórias se prende a amores perdidos no passado mas cuja memória ainda trava a voz e arranca lágrimas. Daí o filme ter um caráter algo repetitivo, como variações de uma mesma melodia. As canções, por seu turno, nem sempre parecem justificar plenamente o desenrolar das conversas, que Coutinho tenta sustentar às vezes penosamente, como que tirando leite de pedra.

Mas o que talvez roube mesmo de As Canções a força e a originalidade de outros filmes do diretor é o déficit de carisma de diversos personagens. Coutinho infringe uma regra básica do seu cinema, que é a particularidade graciosa de seus entrevistados. São poucos os momentos em que se dá aquele milagre de comunicação a que ele nos acostumou. Esse é, a meu ver, um momento de relativa estagnação no conjunto de uma obra desbravadora.

Coutinho Repórter e Uma Visita para Elizabeth Teixeira

outubro 14th, 2011 § 1 Comentário

Dois curtas exibidos ontem na Première Brasil são costelas nascidas da obra de Eduardo Coutinho. Ambos são filmes muito simples, que se valem de um mito já pronto para passar seu recado sinteticamente.

Uma Visita para Elizabeth Teixeira vai reencontrar a personagem central de Cabra Marcado para Morrer em sua casa do interior da Paraíba (comprada por Coutinho) e testemunhar sua persistência na defesa da reforma agrária. Acompanha Dona Elizabeth também na primeira visita que faz a uma capelinha erguida, não se sabe por quem, à memória de seu marido, o líder camponês João Pedro Teixeira, no local em que ele foi assassinado.

A ideia é apenas confirmar que Dona Elizabeth continua a mesma, para o que contribui um rápido depoimento de outro João Pedro, o Stédile do MST. De novidade, que eu saiba, a informação de que ela declinou de um convite de Fidel para viver em Cuba nos anos 1960. O curta de Susanna Lira tem o efeito de atualizar o status de uma história que virou História.

Já em Coutinho Repórter, é o próprio cineasta quem, de sua mesa no CECIP, rememora para Rená Tardin os tempos de Globo Repórter. Conta como “caiu na real” e entrou para a Vênus Platinada, como descobriu seus processos em programas clássicos como Seis Dias em Ouricuri Teodorico, o Imperador do Sertão. Em tudo, a disposição para contestar ou driblar as imposições do padrão Globo. Planos longos, subversão da função do narrador, etc.

Mas a subversão principal vem nos minutos finais, quando Coutinho “confessa”, talvez pela primeira vez, a extensão dos seus “furtos” na Globo para realizar Cabra Marcado para Morrer. É algo de que a emissora do Jardim Botânico deveria se orgulhar. Àquela altura, Coutinho já não admitia mais a encomenda de fazer um programa sobre os 50 anos do Pato Donald. Era tempo de mudar de vida novamente. Eficiente em sua simplicidade, Coutinho Repórter sublinha momentos cruciais na carreira do mestre e ainda capta seu entusiasmo (no off dos créditos finais) com as condições atuais do ofício documental.

Eu Sou Carolyn Parker, a Boa, a Louca e a Bonita

outubro 13th, 2011 § 4 Comentários

Como ele mesmo conta aí embaixo, este é o primeiro texto de um possível novo resenhista de filmes. Só o tempo e os ventos dirão se Daniel F. Sroulevich, hoje trabalhando com produção, vai tomar gosto pela coisa.

Amigo da família de longa data e agora meu amigo, o crítico Carlos Alberto Mattos me chamou, como quem não quer nada, para fazer uma crítica. Explico: Estávamos na exposição de Fernando Pimenta – mago dos cartazes –, eu queria ver um filme, dei uma rápida olhada na programação e me deparei com a sinopse desse (era o de horário mais próximo). Comentário de Carmattos: “Meio déja vu, mas se quiser fazer uma crítica eu publico”. Aceitei, negando e titubeando… Afinal, crítico dos críticos como sou e com mãe escritora, pai jornalista e irmã com um blog sobre cinema, tava arrumando sarna pra me coçar.

Nos filmes documentários, o conteúdo me interessa mais que a forma. Ponto positivo para este sobre Carolyn. Fala de uma mulher que perdeu tudo, assim como milhares, com a enchente do Katrina, em 2005. O diretor, Jonathan Demme, estava atrás de um(a) personagem em uma área pobre da cidade e conseguiu. A única que não quis ir para um abrigo: “Só saio da minha casa de baixo do meu cadáver”. O Governo empresta um trailer e com a filha (que estudava em outro estado e volta para ficar com a mãe) e o filho (que larga o emprego pelo mesmo motivo da irmã) moram no quintal da casa por 4 anos!

No decorrer do filme, Carolyn, participante do movimento da igualdade civil dos negros na década de 1960, discute com o prefeito – ao vivo, na CNN! –, com os padres da cidade – a igreja do bairro pobre fica em segundo plano, enquanto a do bairro rico é reerguida rapidamente – e assim, meio que aos trancos e barrancos, ela vai conseguindo tudo – lentamente, pois tanto lá, quanto cá, as instituições não são tão eficientes – com uma boa dose de coragem e excelente lábia.

O filme tecnicamente não tem grandes pretensões (edição linear, fotografia comum e música OK) e não é nada demais (sim é déja vu, Carlinhos), mas tem o mérito de acompanhar essa mulher por 5 anos! E ela é, de fato, um exemplo de ativismo político, correção, coragem e humor. No mais, ela só queria voltar pra casa. E quem não quer?

Daniel F. Sroulevich

Mentiras Sinceras

outubro 13th, 2011 § 1 Comentário

Diferentemente de Moscou, seu parente próximo, Mentiras Sinceras não filma a preparação de um espetáculo exclusivamente para o filme. Ao contrário, documenta de fato as leituras, ensaios e apresentações regulares da peça Mente Mentira (A Lie of the Mind, no original), de Sam Shepard, sob a direção de Paulo de Moraes. Mesmo assim, não se trata de um making of, mas sim de um (vá lá o termo) thinking of da montagem. A partir do material filmado e dos depoimentos gravados, Pedro Asbeg nos oferece uma outra “coisa” eminentemente cinematográfica, em que a linguagem fílmica se presta a aprofundar a reflexão dos atores sobre seu trabalho.

A senha é dada logo no início, quando as lembranças de uma das atrizes começam a se fundir com o que seriam as memórias de sua personagem. Desde aí, temos um tecido misto de reflexões pessoais e conjecturas profissionais, ancoradas às vezes em cenas de velhos filmes domésticos e registros documentais que se conjugam tenuemente, poeticamente, com os elementos da peça: laços familiares, ciúme, violência conjugal e uma peça-dentro-da-peça.

O texto de Sam Shepard soa algo pirandelliano, embora eu não o conheça e não possa afiançar. Por sinal, existe esse preço a pagar quando se faz uma apropriação do gênero: o texto original tende a se diluir em benefício das entranhas do processo de criação. Temos que nos conformar com a renúncia a uma compreensão mais clara da peça para melhor penetrarmos no espírito do filme. Mas algo fica lá, irredutível. A iluminação extraordinária de Maneco Quinderé, por exemplo, é belamente aproveitada. E os ecos temáticos ressoam como num jogo de espelhos na interface entre o cinema e o teatro. 

Vale dos Esquecidos

outubro 12th, 2011 § 4 Comentários

Sem-terras, posseiros, grileiros, fazendeiros e índios se ameaçam reciprocamente numa região de Mato Grosso. Suiá-Missú era terra xavante antes de ser comprada por um grande latifundiário. Depois foi vendida a distintos fazendeiros e ocupada por posseiros. Os índios, transferidos para uma Missão com a conivência de padres, voltaram na marra anos mais tarde (aqueles que sobreviveram às doenças) e hoje reivindicam o direito de nação. O clima é de guerra iminente.

Vale dos Esquecidos faz um mapeamento das razões e das armas de cada um. O fazendeiro americano John Carter, por exemplo, vê a região como uma fronteira de faroeste, e não hesita, mesmo diante da câmera, em atear fogo nas choças de posseiros que localiza em suas terras. O cacique xavante agita sua borduna e explica que sua cultura não reconhece esse negócio de diálogo. Políticos e posseiros admitem que seus títulos de posse são ilegais, mas duvidam que alguém os tire dali. Passadas de mão em mão há mais de 50 anos, essas terras da desordem são um microcosmo de várias outras pelo Brasil afora.

Maria Raduan conta com dois profissionais de peso em sua equipe: o tarimbado fotógrafo-aventureiro Sylvestre Campe, responsável pelas magníficas imagens, e a montadora Jordana Berg, que articula da melhor maneira possível os vários temas e focos em questão. Algumas pontas ficam soltas, como o problema das queimadas e a responsabilidade da igreja na história. Mas como painel horizontal de um conflito complexo, o doc cumpre seu papel com muita propriedade.

Hitchcock italiano

outubro 12th, 2011 § Deixe um comentário

Meu colega Mario Abbade, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, é o curador da mostra Dario Argento e seu Mundo de Horror, em cartaz no CCBB, dentro do Festival do Rio. A seguir, um texto dele sobre o “Hitchcock italiano”:

Apesar do contato com os filmes do cineasta Dario Argento anos atrás, por intermédio das nostálgicas fitas importadas de VHS, a primeira vez que assisti a uma produção do diretor italiano em um cinema foi em 1987. Essa experiência aconteceu com Terror na Ópera, na finada sala Condor Copacabana no Rio de Janeiro. A trama nonsense, com motivações e personagens pouco convincentes, representava um ensaio alegórico e voyeurístico sobre o processo sombrio criativo da mente, que surge por meio das personagens (as vítimas ou os algozes) criadas por ele. Além dessa característica, as influências freudianas da literatura de Edgar Allan Poe e o livro O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux, estão presentes em Opera (título original).

Mais de duas décadas se passaram e a reflexão sobre a obra gótico-barroca de Argento vai além do giallo, estilo que lhe foi concedido o título de “dono”, devido a uma série de filmes icônicos concebidos por ele nos anos 70: compostos por psicopatas, assassinatos, trilha sonora inquietante, muito sangue e um posicionamento da câmera de forma a criar pontos de vista absolutamente impensáveis. Se “noir” é a definição em língua francesa para um estilo que vale tanto para o cinema como para a literatura, o mesmo ocorre em italiano com o “giallo”. O primeiro, que significa “preto” em francês e faz referência à cor da capa dos livros pulps do século passado, possui a mesma ideia do “giallo”, ou “amarelo” em italiano, em alusão à cor das capas dos livros de mistério mais populares. Se Mario Bava foi o responsável pelo surgimento de algo que um dia poderia ser um subgênero no cinema, com o seu La Ragazza che sappere troppo, de 1961, Dario Argento veio para transformar esse rascunho em obra completa. Da mesma forma que o Western Spaghetti de Sergio Leone brincava com os tradicionais faroestes americanos de John Ford, o giallo de Argento flerta com os filmes de suspense do mestre Alfred Hitchcock. Após assistir a Prelúdio para Matar, o cineasta britânico declarou: “Esse jovem italiano está começando a me preocupar”.

De fato, Argento é merecedor dos muitos apelidos carinhosos que recebe. Os mais conhecidos, “Hitchcock gore” e “Walt Disney às avessas”, soam humorados, mas estão longe de definir o poder de se fazer arte com os temas extremamente desconfortáveis de seus projetos. Seus filmes se distinguem pelas várias sequências elaboradas com diversos planos inusitados, objetivando abordar os mistérios da mente humana e os transtornos propiciados pelo medo e a angústia. Esse conceito é desenvolvido através de histórias policiais, políticas e até sobrenaturais, em que o sexo, o mistério e a violência são os responsáveis em conduzir a narrativa caracterizada pelo improvável. O tom propositalmente farsesco é corroborado pela pouca preocupação com a encenação dos atores, com o adendo de uma dublagem questionável.

Apesar de todas essas particularidades e relevância, a difusão da filmografia de Dario Argento não é expressiva no Brasil, resumindo-se a alguns parcos títulos lançados em DVD por aqui. Essa retrospectiva é uma oportunidade única de apresentar todas as produções dirigidas por Argento para o cinema e TV em seu formato original. E levar a sua arte ao público é aproximá-lo e oferecê-lo a uma plateia que ainda não se viu diante da magnitude de seu trabalho.

Mario Abbade

Tablóide

outubro 12th, 2011 § 1 Comentário

Os fatos da vida de Joyce McKinney parecem uma sucessão de manchetes sensacionalistas: eleição de Miss Wyoming, sequestro de um namorado mórmon, sexo com correntes, prisão, bilhetes traficados na vagina, disfarces, anúncios sexuais falsificados, roubo dos originais de um livro, estraçalhamento por um cão, clonagem de outro cão… Uma história, enfim, de muitos escândalos e, paradoxalmente, uma irremediável solidão.

Em Tablóide, a própria Joyce nos oferece sua versão, num misto de ingenuidade e malícia, olhos cravados na lente do Interrotron, o equipamento criado por Errol Morris que permite ao entrevistado conversar com a imagem do diretor através de uma espécie de teleprompter. O Interrotron fornece essa mirada muito direta que tanto caracteriza as entrevistas de Morris. No caso aqui, o olhar sem intermediação é fundamental para a abordagem “bisbilhoteira”. Tablóide, afinal, é a fofoca elevada a obra de arte.

Morris explora a estética dos jornais tablóides: recortes, palavras gigantes na tela, imagens icônias/irônicas de filmes e anúncios antigos para ilustrar os relatos. O efeito de hilaridade é irresistível, à medida que as histórias se sucedem num crescendo de absurdo e de patético. A verdade é algo sem nenhuma importância na névoa dos boatos. Errol Morris não se interessa por investigar a veracidade disso ou daquilo, mas sim pelas repercussões que flutuam no espaço midiático – incluindo aí a consciência da protagonista, também ela convertida em mídia de si mesma.

Tablóide é também um filme inspirador para documentaristas. Com uma boa personagem, poucas entrevistas, um material praticamente sem custo e uma escolha firme e certa de tom, Morris dá (mais) uma aula de economia e inteligência.

Vaquero

outubro 11th, 2011 § Deixe um comentário

O sonho dos atores latinos de integrarem uma grande produção de Hollywood, mesmo que seja encarnando um estereótipo do “latino”, ganha um comentário razoavelmente interessante em Vaquero. Nesse seu longa de estreia como diretor, o experimentado ator Juan Minujín, ele próprio no papel central, traça o retrato de um looser, um ator terciário, frustrado profissional e sexualmente, que vê numa ponta em filme hollywoodiano sua chance de ouro para dar o grande salto.

Os fluxos de consciência de Julian Lamaz dividem a cena com a realidade objetiva. Minujín contorce a narrativa para exprimir sempre o ponto de vista ou frisar a participação truncada do personagem tanto nos sets como na vida. Isso gera uma particularidade às vezes incômoda na forma como as cenas se desenrolam diante de nós. Presenciamos tudo através do desconforto e do complexo de inferioridade de Julian, o que é ousado como proposta, até porque pode frustrar as expectativas do espectador nos quesitos superação ou denúncia. Ao contrário de Riscado, por exemplo, o fracasso do ator não é fruto de uma simples bandalheira da produção internacional, mas da alienação e da falta de perspectiva dele próprio. Julian é um perdedor, e ponto final.

Nesse sentido, Vaquero é tragicamente realista. Uma visão desencantada da indústria cinematográfica, sem oferecer hipótese de remissão. De resto, tem aquela precisão de tom, de tempo e de interpretações que tanto apreciamos no cinema argentino.

Marcelo Yuka no Caminho das Setas

outubro 11th, 2011 § 1 Comentário

Documentários a respeito de sobreviventes costumam se pautar pelo elogio à superação, numa ótica edificante, principalmente quando se trata de artistas. Assim eram Herbert de Perto e Favela Rising, para citar dois exemplos recentes. Marcelo Yuka no Caminho das Setas toma um caminho relativamente distinto a partir do encontro de um personagem e uma documentarista não dispostos a apresentar um discurso pronto para o conforto do espectador.

Yuka, ex-baterista da banda O Rappa e ativista contra a violência nos dois lados da trincheira urbana, foi vítima irônica de um incidente de rua em 2000, quando levou nove tiros e se tornou cadeirante. Daniela Broitman começou a filmá-lo quatro anos depois, embora tenha “reconstituído” o período anterior com ajuda de materiais alheios. Com sua câmera, registrou momentos cruciais da fisioterapia, acompanhou a preparação do primeiro disco solo, documentou as palestras de Yuka –inclusive para presidiários culpados de crimes como o que o vitimou. Testemunhou, enfim, as sutis transformações que encaminharam o compositor para uma certa espiritualidade, mas principalmente a resiliência que faz seu discurso permanecer o mesmo depois de tanta dor.

A dor é uma constante na vida de Marcelo há 11 anos, mas ele rejeita os olhares de piedade e a posição de vítima ou herói. O filme o atende dignamente, mostrando o processo de reabilitação e o pensamento de Yuka em toda a sua complexidade. Suas conversas com Daniela e suas relações com os pais diante da câmera são extremamente reveladoras, às vezes difíceis mesmo. Dão a justa medida de quanto um documentário pode ser penetrante sem trair os princípios de quem está na mira das lentes. Trabalhos excelentes de câmera no improviso e a montagem sempre criativa de Jordana Berg completam a qualidade de enfoque da direção. Daniela fez a proeza de “reabrir” o filme para incluir cenas de Yuka no Rock in Rio. Elas somam à dialética de metamorfose/permanência do artista ao longo desses últimos anos.

Daniela Broitman vem de um doc mais singelo sobre lideranças comunitárias, Meu Brasil. Este tour de force na fronteira entre o entretenimento, a consciência social e o drama individual prova sua capacidade de encarar desafios maiores.

>>> Amanhã (terça), após a sessão de 13h no Pavilhão do Festival (Armazém da Utopia), eu mediarei um debate com a diretora do filme e a provável participação de Marcelo Yuka.

O Cavalo de Turim

outubro 10th, 2011 § 4 Comentários

A produtora de Béla Tarr, Juliette Lepoutre, avisou à plateia do Moreira Salles no domingo: “O que vocês vão ver não é um filme, mas uma experiência de vida”. Ela não estava exagerando. Vivenciar os 145 minutos de O Cavalo de Turim é algo de quase físico, que extasia e exaure. Saí dizendo que minha roupa estava cheirando à fumaça daquela casa perdida num ermo qualquer, onde pai e filha passam seis dias à espera de que seu cavalo doente possa retomar as atividades que sustentam a família. Tudo é repetição e dolorosa rotina naquelas manhãs e noites que testemunhamos sob a luz fraca dos candeeiros ou sob o açoite dos ventos que não cessam do lado de fora. As imagens, a música igualmente cíclica, os sons rudes penetram em nossos poros como coisa vivida.

Apesar da insistência do meu amigo e cinéfilo-mor Julio Miranda, ainda conheço pouco da obra do húngaro Béla Tarr. Mas sei que nela a ideia de maldição está muito presente (Maldição, aliás, é o título do outro filme seu que vi domingo). Aqui, a história faz referência metafórica a um fato real. Nietzsche tentou proteger um cavalo das chicotadas de seu dono e, a partir daquele incidente, perdeu a voz e a razão pelos últimos 11 anos de sua vida. A chegada do velho com o cavalo à casa, na primeira cena, seria então subsequente àquele momento. O que passa a acontecer seria, quem sabe, o efeito de uma maldição. A vingança de Nietzsche, talvez.

O fato é que pai e filha, tal como aconteceu com o filósofo, começam a ser abandonados pela vida. Progressivamente, o cavalo se recusa a comer e a puxar a carroça, a água do poço seca, o fogo se recusa a manter-se aceso. Em dois momentos, eles são visitados por estranhos, a quem reajem com indiferença ou repulsa. Formam uma célula isolada e indivisível, como seres desde sempre expelidos (ou auto-expelidos) do mundo social.

Há muito o que observar e pensar enquanto se vê/vive o filme. Uma das coisas que me vieram à mente, a partir de uma sugestão do Júlio, foi a filiação bastante clara deste filme a clássicos do cinema mudo, especialmente escandinavos. O Dreyer de Dias de Ira, o Sjöstrom de O Vento e A Carroça Fantasma, e mesmo um Bergman a eles filiado como Noites de Circo. Nessa mesma linha evolutiva, vejo os filmes de Eduardo Nunes, tanto os curtas Terral e Tropel como o igualmente arrebatador Sudoeste.

Olhe para Mim de Novo

outubro 9th, 2011 § Deixe um comentário

Syllvio Luccio não é um homem qualquer. Na verdade, é uma mulher que vive como homem. De feminino, só tem a voz e a anatomia genital (ainda). De resto, é alguém que adora “falar de mulher” e entrar nos bares botando banca de macho cearense. Uma pessoa culta e articulada, que já foi ativista do MR-8, mas não recalca seu lado “brega e caipira”. Uma figura, sem dúvida, interessante. Kiko Goifman e Claudia Priscila deixam que ele narre a si mesmo em Olhe para Mim de Novo. Se isso confere personalidade ao filme, também gera certa limitação, já que pouco se agrega ou contrasta com a autoimagem do personagem.

Syllvio se dá a ver durante uma viagem por diversas cidades nordestinas, a caminho de um aguardado encontro familiar que vai ocupar a última (e ótima) cena. A ideia, ao que parece, era usar esse percurso para documentar outros casos de transgressão ou problematização de gênero na paisagem humana do Nordeste. Assim, Syllvio conversa com gays na rua, paquera na Feira de Caruaru e visita portadores de deficiência física e ambivalência sexual. O recurso, porém, não resulta dos mais produtivos para além da exposição do exótico, muito embora o tratamento seja sempre respeitoso e solidário.

Como trabalho da dupla (e casal) Kiko-Claudia, é menos inventivo que outros anteriores, mas alinha-se a suas investigações estéticas na área da identidade genética (como 33) e de personalidades menos convencionais (como a série de TV HiperReal).

Cuba Libre

outubro 8th, 2011 § Deixe um comentário

Evaldo Mocarzel tomou duas boas iniciativas em Cuba Libre: registrar a volta da atriz transformista Phedra de Córdoba a Havana depois de 53 anos; e usar a viagem para documentar o embrião de uma nova consciência sobre a diversidade sexual na ilha de Fidel. Só faltou fazer com que esses dois assuntos conversassem de verdade dentro do filme.

Um dos problemas do roteiro é não fazer com que a presença assumida e performática de Phedra em solo cubano possa ser percebida como sinal ou termômetro de qualquer avanço psicossocial. Ela está por demais ocupada com suas memórias e embevecida com seu estrelato no documentário para servir de agente de uma investigação da cena artística cubana. Evaldo, por seu lado, obtém flashes um tanto soltos, dos quais o melhor sem dúvida é uma entrevista com um casal de lésbicas que se refere uma à outra com poemas. Há também uma curiosa noitada num clube LGBT de Havana, mantido em regime de semiclandestinidade.

O grupo teatral paulista Satyros, ao qual pertence a atriz, está em Havana ensaiando um espetáculo de autor cubano, texto que também permanece em relativa obscuridade depois de terminado o filme. De maneira geral, Cuba Libre sugere o aproveitamento limitado de uma rara oportunidade. Dessa vez, o proverbial senso de urgência e improvisação de Mocarzel não foi suficiente para juntar as pontas da aventura.

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