“Hello, sir!”
fevereiro 28th, 2012 § 6 Comentários
Inquietações de um foreigner no sul da Índia
Venho de passar 22 dias na Índia. Os primeiros oito dias como jurado da crítica no Mumbai International Film Festival, os demais como turista solitário por várias cidades do sul do país. A experiência de estrangeiro na Índia é sempre um mix de sensações muito diversas, às vezes opostas. Fascinação e constrangimento, identificação e repulsa se alternam e se confundem. E isso de ambas as partes, tanto entre os locais como entre os visitantes.
O sul é ainda mais particular na relação com os foreigners, uma vez que lá há muito menos turistas ocidentais que no Norte, a parte mais “épica” e pitoresca do país. O sul é mais resguardado, mais conservador e menos chamativo. À exceção do estado de Kerala – aliás, excepcional em muitas coisas –, no sul o visitante estrangeiro se vê na companhia principalmente de turistas internos, ou mesmo peregrinos no rumo de lugares sagrados.
Muitas das minhas observações aqui dizem respeito à Índia em geral, mas algumas podem se referir especificamente a particularidades do sul.
Not allowed
Em Bombaim, Cidade Máxima, o autor Suketu Mehta escreveu que a Índia é o país do não. Já em Suíte Elefanta, Paul Theroux afirma o contrário: é o país do sim. De alguma maneira, os dois têm razão. Mehta descreve o seu próprio país do ponto de vista de um indiano que viveu fora e voltou para vivenciá-lo de novo. Theroux de alguma forma projeta-se nos seus personagens, traduzindo a experiência do estrangeiro. Em uma palavra, a vida é dura para os indianos pobres, mas pode ser muito privilegiada para os foreigners com cor de pele diferente e moeda forte no bolso.
A expressão “not allowed” talvez seja a mais popular no caminho do turista na Índia. Não é permitido tirar fotos ou entrar de sapatos na maioria dos museus e em todos os templos; não se pode tomar bebidas alcoólicas na maioria dos restaurantes; as placas de proibição se multiplicam como moscas no mercado de peixe. Há um respeito religioso pelas regras formais, em contraste com a ausência total de regras, por exemplo, no trânsito e no corpo-a-corpo das cidades. Filas são para ser furadas, faixas de tráfico são para ser atravessadas, um corpo à sua frente é para ser suavemente empurrado para o lado por quem abre caminho. Mas se você tenta pedir autorização para o que seja, a resposta é invariavelmente “not allowed, sir”.
Notei uma tendência a elogiar os empreendimentos e companhias do governo como se fosse um padrão esperado de comportamento. No entanto, um pouquinho mais de conversa vai mostrar que o cidadão, no fundo, confia mais na eficiência das empresas privadas.
100 rúpias
Aos poucos, a gente vai descobrindo que há caminhos alternativos para aquilo que se quer fazer. E eles geralmente custam 100 rúpias (o correspondente a 4 reais). Um guarda de museu pode autorizar sua entrada com uma câmera no Palácio de Mysore por 50 ou 100 rúpias, muito embora se outro policial o flagrar utilizando-a, vai chamá-lo no canto para cobrar uma “multa”: provavelmente mais 100 rúpias, entregues sem nenhuma discrição. Ou seja, a pequena corrupção é tão clara e oficial como um ticket alternativo.
O turista estrangeiro é visto como potencial complementação de salário. Em Fort Cochin, simpaticíssimo recanto de Kerala com traços de colonização portuguesa e muitas igrejas católicas, os pescadores que utilizam as famosas redes chinesas tiram seu sustento mais da “pesca” de turistas que de peixes. Seja no início da manhã, quando manejam os contrapesos para mergulhar e recolher as imensas redes, seja no por do sol, quando o melhor ângulo fotográfico é no pier de madeira daquelas traquitanas, eles tentam atrair os turistas para o perímetro de seus domínios privados: “Hello, sir, come, come!” À saída, o papo é sempre o mesmo: “Você sabe, a pesca hoje foi ruim, a família está em casa esperando que eu leve alguma coisa…” Resumo: 100 rúpias.
Até em alguns templos prevalece esse “jeitinho indiano”. Em Kanyakumari, extremo sul da Índia, onde hordas de hindus acorrem para venerar a deusa Kanya Devi no local onde três mares se encontram, o foreigner é rapidamente abordado à entrada do templo por um “sacerdote” que oferece, por 100 rúpias, a oportunidade de furar a longuíssima fila de fiéis. Em vez de aguardar por até duas horas, você pode usar a “special entrance” e ir direto ao coração do templo, onde brilha o anel dourado no nariz da deusa.
Cem rúpias é quanto custa em média o ingresso de estrangeiros em monumentos que dos indianos cobram apenas 5 rúpias. Muito natural e louvável, não fossem as diferenças de tratamento que isso acarreta. Quando entrei num pequeno museu histórico de Madurai, notei que o coletor de tickets apontou para mim e fez um gesto imperioso na direção de outro empregado, que correu a acender mais luzes e ligar os ventiladores de teto. Aparentemente, os pobres locais de 5 rúpias que lá se encontravam não faziam jus a tais confortos.
Cada um no seu lugar
Um misto de dogma religioso hinduista, conservadorismo político e talvez um pouco de herança colonialista cria um determinismo social característico. Para o indiano comum, os homens nasceram para ser diferentes, e pronto. As coisas podem ser melhoradas numa futura encarnação, mas na atual cada um deve aceitar o seu lugar, o seu dharma. Isso se reflete numa segmentação social estrita e cruel. Certo dia, num restaurante de classe média, vi uma criança deixar cair no chão um guardanapo de tecido. A menina olhou rapidamente e voltou a comer. O pai olhou e não se moveu. O maitre e os garçons passavam e se desviavam do guardanapo. O pedaço de pano ficou um longo tempo no chão à espera de um auxiliar, possivelmente de casta inferior, que o recolhesse. Funções de limpeza não se confudem com atribuições mais “nobres” de serviço.
Da mesma forma, um motorista, por exemplo, não deve dividir a mesa de refeição com as pessoas a quem está servindo. Contra essa lei eu me rebelei desde cedo. Viajando sozinho, tive três motoristas me conduzindo em diferentes partes da viagem. Era uma convivência de vários dias que não podia ficar refém de normas tão segregadoras. Com todos insisti para que fizessem algumas refeições comigo, como meus convidados. Devo dizer que não relutaram muito em aceitar. E se sentiam melhor ainda quando eu os “autorizava” a comer com a mão, como fazem 90% dos indianos de todas as classes, mesmo nos melhores endereços gastronômicos do sul.
Nos primeiros contatos, a coisa parece resquício da era dos marajás. A função de um desses motoristas compreende desde abrir a porta do carro para você até limpar sua roupa caso você se encoste num muro sujo. Mas, curiosamente, não inclui retirar sua bagagem do carro na entrada do hotel. Ele abre o porta-malas e fica esperando aparecer o bellboy para cumprir o seu dharma.
Olhos e óculos
No sul como no norte, a presença do foreigner entre populares é motivo de curiosidade, atração e desconfiança. Sem qualquer dissimulação. Um rapaz pode simplesmente parar diante de você na rua e ficar lhe olhando sem nenhuma expressão predominante, como se estivesse examinando uma peça rara num museu. De repente, os papéis parecem se inverter: você é o visitado e ele o visitante. Mas há também muitos sorrisos, muitas cabecinhas balançando para os lados de satisfação com uma troca de olhares, muitas crianças pedindo para ser fotografadas ou filmadas – e agradecendo, felizes da vida por terem sua imagem levada para não sabem onde – e também adultos mandando a gente fotografar o amigo ao lado. Nunca entendi essa forma de gozação entre eles.
Em mais de uma ocasião pessoas apontaram para os meus olhos. Na verdade, estavam curtindo os meus óculos (adoro o uso que eles fazem do termo “spectacles” em vez de “glasses”). Poucos indianos usam óculos. Nos velhos filmes que conheço, os óculos eram sempre distintivos de certo poder aquisitivo combinado com prestígio intelectual. Eram geralmente acessório de professores, escritores e filósofos. Lembro que em A Grande Cidade, de Satyajit Ray, uma família de classe média de Calcutá vive atribulações na tentativa de prover um par de óculos para as leituras do avô. Pelo jeito, este ainda é um objeto de consumo pouco acessível à massa indiana.
Encantos de Kerala
Não cabe aqui listar as melhores coisas que passaram pelos meus óculos nem os melhores sabores e odores que senti nessa viagem. Foram muitos. Meus álbuns de fotos no Picasa (Mumbai, Sul da Índia – Lugares, Cenas e Gente) podem dar uma pequena ideia. Mas cabe mencionar a grande exceção do meu passeio pelo sul. Apesar de tão tradicional e estrito quanto Maharastra, Karnataka e Tamil Nadu, o estado de Kerala tem particularidades que me encantaram. Lá a natureza tropical é farta em coqueiros, bananeiras, canais tranquilos que lembram braços de rios da Amazônia, praias e recantos que convidam a relaxar. Trivandrum, a capital, e Fort Cochin, um oásis de tranquilidade ao lado da industrial e feia Cochin, são dos poucos lugares da Índia onde eu toparia viver. E curtir muito teatro Kathakali, um parente da ópera chinesa. Em matéria de cultura e arquitetura, Kerala é um caldeirão de influências de China, Portugal, Holanda e Inglaterra. Tem mais igrejas católicas que em Goa, o que relativiza um pouco o fanatismo hinduista de outros locais. Este, por sinal, é o único estado sem maioria absoluta de hinduistas.
Mas Kerala me agradou sobretudo por seu diferencial social. Mesmo ocupando uma faixa territorial estreita, a concentração demográfica ali é menor. Menos multidões, menos estresse, menos olhares escaneando os foreigners. Mais cortesia, mais sorrisos, um jeito meio baiano de ser. A ênfase de sucessivos governos na educação gerou o maior índice de alfabetização do país e um preparo e eficiência que talvez só se comparem às médias de Bombaim e Bangalore. Nos dias em que estive lá, cartazes e bandeiras do Partido Comunista da Índia coalhavam as ruas de várias cidades anunciando seu congresso anual. Os comunistas já estiveram no poder em Kerala e continuam por perto. Os sindicatos são fortes e várias medidas de equalização social fazem hoje o estado com menos desigualdade em todo o país. A gente sente isso quando vê menos sinais de miséria, uma maior convivência entre as classes e menos convites à corrupção. Não chega a ser o paraíso, mas é o que mais se aproxima do que a Índia um dia poderá ser.
Nosso primeiro Oscar?
fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário
João Luiz Vieira me apresentou a pesquisa de seu ex-aluno Felipe Haurelhuk, cuja monografia de conclusão de curso (TCC) foi sobre a presença do Brasil no Oscar desde 1929. Segundo o professor, Felipe “descobriu dados bastante interessantes, tudo muito bem documentado, incluindo pesquisas na biblioteca da Academy of Motion Pictures, em Los Angeles”. A meu pedido, Felipe escreveu esse artigo sobre as chances de nossa música faturar o primeiro Oscar para o Brasil.
O primeiro Oscar para o nosso cinema
Felipe Haurelhuk
A proximidade do Carnaval e as altas temperaturas do verão abafaram um pouco a repercussão em nosso país da lista de indicados à 84ª cerimônia do Oscar, anunciada no último dia 24 de janeiro. Uma pena, já que a cinematografia brasileira finalmente está prestes a conquistar, depois de mais de oito décadas, seu primeiro “prêmio de mérito da Academia” (nome de batismo dos troféus). Ou melhor dizendo: nossa música popular, em uma irônica indicação que reescreve uma longa história de flerte brasileiro com o prêmio.
Desde o início das cerimônias, em 1929, 13 brasileiros natos ou radicados já tiveram a honra de terem seus nomes indicados pela Academia. E o que muito pouca gente sabe é que o nosso pioneiro não era diretor, roteirista, fotógrafo ou ator. Era músico. Em 1944 o mineiro Ary Barroso, responsável por partituras clássicas da MPB como “Aquarela do Brasil”, foi o primeiro brasileiro a ser reconhecido pela organização. Ele foi o responsável pela melodia da canção “Rio de Janeiro”, composta ao lado do norte-americano Ned Washington para o musical “Brasil – Encontro No Rio” (Brazil. Estados Unidos, 1944). Infelizmente trata-se de um filme de difícil localização, nunca lançado em DVD nem no mercado norte-americano e muito menos em território nacional. Mesmo assim, neste link http://www.youtube.com/watch?v=to4mXckO6d0 é possível conferir a canção, interpretada pelo ator mexicano protagonista, Tito Guizar. De qualquer maneira, Barroso entrou para a história do nosso “cinema” por essa marca. E hoje, 67 anos depois, estamos prestes a conquistar nossa primeira estatueta dourada, mais uma vez, pelo trabalho dos profissionais da música. Carlinhos Brown e Sergio Mendes foram indicados mais uma vez na categoria Melhor Canção, pela melodia de “Rise In Rio”, do longa-metragem animado “Rio” (Rio. Estados Unidos, 2011).
Sem escarcéu midiático ou otimismo infundado, e ao contrário de diversas outras oportunidades relativamente recentes, desta vez as possibilidades de êxito são realmente muito grandes. A junta de músicos da Academia (responsável pelas indicações da categoria) reúne-se na sede da entidade em Los Angeles entre os meses de Dezembro e Janeiro para ouvir as canções e assistir aos filmes elegíveis nessa categoria. Para este ano foram 39 composições que, durante o processo de avaliação, recebem uma nota que varia entre 6 e 10. Apenas trabalhos com conceito igual ou superior a 8,25 são considerados finalistas na categoria, que neste ano resultaram em “Rise In Rio” e “Man Or Muppet”, de “Os Muppets” (The Muppets. Estados Unidos, 2011), cuja melodia e letras são de Bret McKenzie. Ou seja, das quase quatro dezenas de canções elegíveis, apenas essas duas despertaram a atenção dos votantes, que nesta segunda rodada terão apenas tais escolhas para decidirem sobre a vencedora. Uma possibilidade de no mínimo 50%.
Para além da matemática, o histórico de canções premiadas na categoria sempre privilegiou trabalhos derivados de grandes musicais ou longas de animação: “Over The Rainbow” de “O Mágico De Oz” (1939), “Talk To the Animals” de “O Fantástico Doutor Dolittle” (1967), “Fame” de “Fama” (1980), “Circle of Life” de “O Rei Leão” (1994) e “You’ll Be In My Heart” de “Tarzan” (1999) são alguns exemplos disso. Se até aí a corrida parece empatada pelo fato de Os Muppets ser um musical de grande sucesso da Disney, o histórico recente da categoria mostra que o perfil dos vencedores vem se distanciando de composições melosas e piegas, como já foi o mote da categoria em alguns períodos do passado. Entre as vencedoras nos últimos dez anos estão duas canções de hip hop: “Lose Yourself”, de “8 Mile – Rua Das Ilusões” (2002) e “It’s Hard Out Here For A Pimp”, de “Ritmo De Um Sonho” (2005), uma canção “indiana” (“Jai Ho”, de “Quem Quer Ser Um Milionário”, em 2008) e até mesmo uma canção em espanhol: “Al Otro Lado Del Rio”, de “Diários de Motocicleta” (2004). Há uma mudança gradual no perfil das canções, sejam elas premiadas ou somente indicadas. E cá entre nós, a música de “Rio” é tecnicamente superior à dos Muppets. Portanto, o Brasil deverá finalmente colocar as mãos em um Oscar na noite do próximo dia 26 de fevereiro. E ironicamente, assim como há 67 anos, não pelo mérito de nossos cineastas, mas de nossos músicos.
Não posso deixar de citar, por fim, o quanto a figura de Carlinhos Brown é alegórica nessa provável conquista. Ao contrário de nossos representantes cinematográficos outrora indicados (Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno e Fábio Barreto, Fernanda Montenegro, Carlos Saldanha e o próprio Ary Barroso), Brown não tem suas origens fundadas em uma família de posses do Sudeste. Não faz parte da elite branca intelectual brasileira, que elege seus cânones culturais e possui os meios econômicos e políticos para entrar pesado no jogo comercial que também é o cinema. Negro, nascido nas periferias de Salvador, Brown é aquele que levou a influência do som afro baseado na forte percussão aos blocos de Carnaval da Bahia, ainda na década de 1980. É aquele que levou garrafadas por ter tido a ousadia de reproduzir sua música “de baixa qualidade” durante a programação do Rock in Rio 3. E que, ao lado de Sergio Mendes e da compositora norte-americana Siedah Garrett, provavelmente fará o Brasil finalmente receber seu primeiro Oscar pela excelência do trabalho.
Felipe Haurelhuk
Luz tropical brasileira
fevereiro 18th, 2012 § 2 Comentários
Waldemar Lima, o fotógrafo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, e Linduarte Noronha, diretor de Aruanda, morreram recentemente no espaço de pouco mais de uma semana. Ambos tinham a ver com a descoberta de uma luz especificamente brasileira para o cinema, ali na primeira metade dos anos 1960. Hoje publico aqui um texto que Waldemar escreveu especialmente para a dissertação de mestrado de Iara Magalhães, de Uberlândia (MG). Essa preciosidade me chegou às mãos através de Joel Pizzini, a quem agradeço.
LUZ TROPICAL BRASILEIRA
Waldemar Lima
A qualidade da luz do sol, originalmente branca, que chega à terra, pode ser dura ou suave dependendo da incidência e da largura da camada atmosférica que ela atravessa. Nas regiões tropicais, a largura da atmosfera é estreita, a luz do sol a atravessa perpendicularmente e chega à superfície da terra como uma luz dura e branca com sombras negras e cores fortes.
Se não houvesse absolutamente nada no espaço terrestre, nem poeira nem gases (como acontece no espaço sideral), o céu seria negro. A luz do sol, ao atravessar a atmosfera terrestre, encontra moléculas de gases de várias densidades, poeira e minúsculas gotas de água em suspensão, que refletem, refratam, difundem e dispersam a luz. O céu tem, dependendo da hora do dia e da região, luz de diferentes intensidades. As minúsculas gotas de água em suspensão são os principais dispersadores das ondas luminosas curtas (a extremidade azul de espectro) e responsáveis pela tonalidade azulada do céu. Continue lendo
As ricas, as pobres, as heroicas
fevereiro 14th, 2012 § 2 Comentários
Um único festival não é suficiente para propiciar grandes conclusões, mas pode fornecer algumas pistas sobre como um tema ou personagem está sendo tratado no cinema atual. Durante o 12º Mumbai International Film Festival eu focalizei minha atenção nas imagens de mulher indiana que emergiam dos documentários exibidos em várias seções do festival.
Uma variedade de personagens e approachs cobria desde uma princesa do Rajastão filmada por uma cineasta belga até meninas lutadoras de boxe de Uttar Pradesh documentadas por uma jovem diretora recém-saída de uma escola de cinema de Calcutá, passando por mães de aluguel numa “babies farm” do Gujarat. E incluía heroínas contemporâneas envolvidas com a assistência a moças vilipendiadas e com protestos políticos anti-castas. Um vasto espectro da sociedade indiana e seus problemas passava pelos sáris e jeans dessas mulheres.
Memórias de uma Princesa Hindu põe em contraste imagens do fausto da era dos marajás com a ruína atual de seu patrimônio através das reminiscências e cenas de arquivo de Gayatri Devi, a última Maharani (esposa de marajá) da Índia. Ainda uma mulher bonita e elegante quando filmada por Françoise Levi em 1996, Gayatri em seus dias de maior glória foi amiga de reis e presidentes, chegou a ser comparada com Jacqueline Onassis, fundou o primeiro colégio para moças do Rajastão e liderou um partido de oposição a Indira Gandhi. Morreu em 2010, como sempre reverenciada por todas as castas – sobretudo pelas humildes mulheres “intocáveis” que então habitavam seu antigo e imenso palácio em Jaipur. As imagens de Gayatri revisitando seus palácios em ruínas estão entre as mais potentes do filme. Boa parte da história da Índia moderna está representada por sua história particular: a perda de poder e privilégios pelos marajás e, ainda assim, a manutenção de certo grandeur, quase ficcional, nas atitudes e nos ideais. “Nada me influencia”, é como ela responde a uma pergunta da cineasta sobre sua formação.
Se Gayatri Devi, em seus últimos anos, praticava a caridade como elo com seu passado de opulência, a protagonista de Pink Saris, Sampat Devi, é uma mulher do povo que devota sua vida a ajudar outras mulheres. Ela lidera uma certa Gangue Cor-de-Rosa, teoricamente dedicada a defender e acolher mulheres vítimas de violência e abandono numa paupérrima região do norte da Índia. Digo teoricamente por que não vemos a ação da gangue – o que pode ser uma deficiência do filme ou a insinuação de um artifício político da líder. Testemunhamos apenas o empenho individual de Sampat ao afrontar maridos irresponsáveis e sogros violentos, proteger meninas em fuga de casamentos arranjados e advogar por namorados de castas diferentes que desejam concretizar seu romance.
A relação maternal de Sampat com uma dessas meninas forma o núcleo emocional do filme, onde repercute a própria história pregressa daquela mulher forte e aparentemente invulnerável. Mas o conjunto de situações, envolvendo também familiares de Sampat, mostra a complexidade dessa personagem megalomaníaca, contraditória e, no fundo, uma grande farsante do bem. Os “processos” informais abraçados por Sampat desnudam na prática as convenções mais retrógradas da sociedade indiana. Nesse bojo há lugar para o espanto, o humor e instantes de tamanha comoção que poderiam ter saído da criação de Ingmar Bergman. Pink Saris foi exibido no É Tudo Verdade de 2011.
Atuando em esfera diferente de Sampat Devi, mas em front ainda mais arriscado, está Sheetal Sathe, a jovem cantora de protesto que domina os momentos finais de Jai Bhim Comrade, do veterano Anand Patwardhan, um dos mestres do doc político na Índia. Um grande painel da luta contra a discriminação dos “intocáveis”, esse longo e detalhado libelo revela nas entrelinhas a crescente participação das mulheres nos Ambedkarite Dalits. Esse movimento inspira-se no legado antissegregacionista de B.R. Ambedkar, um raro dalit bem-sucedido a quem Gandhi chamou para redigir a Constituição da Índia independente. A cantora, vivendo atualmente na clandestinidade depois que companheiros do seu grupo musical foram presos sob acusação de “maoísmo”, pode rapidamente vir a ser uma heroína na luta dos dalits contra os tabus religiosos e sociais que mantêm em vigor o hediondo sistema de castas. Mais interessante que ela, porém, é a tomada de consciência de sua mãe, flagrada em processo no próprio filme. Uma mulher a princípio devota e temerosa pelas atividades da filha, converte-se numa das cenas finais em mãe gorkiana, pregando abertamente pela mesma causa.
Um dos aspectos mais dramáticos das relações globais Norte-Sul é o fornecimento de recursos corporais das mulheres indianas para o mercado de aquisições europeu e norte-americano. Outros documentários já enfocaram o comércio internacional de transplante de órgãos e de cabelos. Womb of the World, de Rajendra Srivathsa Kondapalli, aborda a contratação de mães de aluguel (surrogates) para atender à demanda de casais de países mais ricos. O filme se concentra numa clínica de Anand, cidade do estado do Gujarat, onde as surrogates se internam pelos nove meses em que carregam no ventre o ovário e o sêmen alheios. Para essas indianas, o contrato representa a possibilidade de saldar dívidas, comprar uma casa e pagar a educação dos seus próprios filhos. Para os pais contratantes, é a chance de realizar um sonho impossível.
Womb of the World sublinha seu tema com ênfases de um estilo por demais televisivo e às vezes pode soar como um institucional da clínica, na medida em que rapidamente descarta os argumentos contrários a essa prática bastante discutida. Mas não se pode negar a eficácia com que acompanha o processo de um casal canadense em sua relação emocionada com a gravidez vendida por uma humilde surrogate indiana. Um estudo de caso como esse, mesmo se conduzido de maneira um tanto parcial e excessivamente dramatizada, pode ser mais elucidativo que um painel genérico cheio de estatísticas e depoimentos “especializados”.
No outro extremo da submissão representada pelos ventres de aluguel estão o fairplay e a autoconfiança das três irmãs retratadas em The Boxing Ladies. Recém-saídas da adolescência numa favela de Calcutá, as irmãs Fatma desafiam convenções de gênero e do comportamento muçulmano ao abraçarem o boxe como diversão e posteriormente profissão. O curta da também jovem Anusha Nandakumar consegue, a par de um grande poder de síntese, evidenciar o que há de semelhante e de diferente entre Zainab, Bushra e Sughra. Cada uma tem suas particularidades no que julga ser feminino, mas todas se igualam na forma lúdica e resoluta com que enfrentam socos e preconceitos.
Nesses cinco filmes muito distintos, alguns dirigidos por cineastas estrangeiras, pulsam retratos capazes de pontuar as dinâmicas do feminino num país onde essa ainda é uma questão crucial. O cruzamento de tradições religiosas, culturais, sociais e econômicas faz hoje da mulher indiana um laboratório onde se passa de tudo: da nobreza à vilipendiação; da precariedade ao heroísmo.
Imagens urgentes
fevereiro 10th, 2012 § 1 Comentário
O Prêmio do Júri da Crítica (Fipresci) do 12º Mumbai International Film Festival, encerrado ontem, foi para o documentário Nargis – When Time Stopped Breathing, realizado por dois cineastas sob pseudônimo. Uma semana depois do ciclone que arrasou uma região de Myanmar (ex-Burma) em 2008, eles foram para o local desafiando a censura do governo militar contra qualquer mídia que não fosse oficial. O que colheram são imagens eloquentes e dolorosas da catástrofe ainda úmida. Imagens capazes de conectar a tragédia humana com a devastação material ao redor. O filme não tem uma cena sequer de arquivo nem qualquer retórica narrativa. Apenas um comentário eventual e meditativo dos realizadores, além das memórias ainda latejantes dos sobreviventes. De alguma maneira, lembrou-me a pureza documental de Shoah. Só assim teríamos a dimensão humana de um desastre em região extremamente fechada para o mundo.
Veja o trailer aqui:
Outros filmes que impressionam nosso júri:
Dreaming Taj Mahal, de Nirmal Chander. Um motorista de táxi paquistanês e sua família sonham com visitar a Índia, especialmente o Taj Mahal, mas seu pedido de visa é constantemente negado. O contencioso entre os dois países desde a Partição em 1947 é referido aqui pela visão de cidadãos comuns do Paquistão, que sofrem os efeitos da política e do terrorismo. Esse enfoque íntimo de uma família particularmente simpática toca a sensibilidade das pessoas nos dois lados da fronteira. O média-metragem foi nosso segundo candidato ao prêmio.
Shape of Shapeless, de Jayan Cherian. Esse diretor malaio radicado em Nova York é familiarizado com documentários experimentais. Shape of Shapeless é um perfil bastante ousado de um personagem idem: um travesti judeu que é artista burlesco, iogue e artesão. O filme exibe sem rodeios diversos processos corporais de uma criatura que desafia praticamente todas as noções de gênero, sexualidade, religião e comportamento. Foi talvez o filme mais agudo da competição internacional.
Flamenco de Raiz, de Vicente Perez Herrero. Exibido em Bombaim com um título em inglês, é talvez o melhor filme sobre flamenco que já vi. Enquanto os maravilhosos filmes de Carlos Saura, por exemplo, concentram-se no espetáculo e em grandes estrelas, esse doc vai ao encontro de figuras menos conhecidas, sobretudo o visceral cantor “El Álvaro”, que prefere ganhar a vida como varredor de rua em Málaga. Herrero quis falar das raízes populares do flamenco, da emoção legítima que turva os olhos dos ouvintes identificados com a emoção do canto, histórias de um gênero musical que nasceu como grito dos despossuídos. A montagem de falas intercaladas com passos de dança deixa clara a interação entre arte e modo de vida dos praticantes do flamenco.
Dancing With Dictators, de Hugh Piper. Perfil de um pequeno magnata da imprensa australiano que investe em jornais de países “tranquilos” como Vietnã, Camboja e Myanmar. Ross Dunkley é visto gerindo o Myanmar Times em meio ao processo das primeiras eleições no país em 20 anos. A equipe do filme trabalha clandestinamente, o tempo todo ameaçada por agentes da inteligência e próceres do governo militar que não estava nem um pouco disposto a entregar o poder a civis em 2010. Num tour de force documental de primeira ordem, Hugh Piper e seus colaboradores não perdem uma oportunidade de flagrar o que é fazer jornalismo numa ditadura implacável. Cobre as relações com a censura, o medo e os riscos da profissão, e o episódio que levou Ross Dunkley a passar 47 dias na prisão.
Prince, de Kurnal Rawat e Anand Tharaney. Uma pequena joia no cruzamento entre animação, ficção e documentário. Em seis minutos, a jornada de um táxi comum de Bombaim do nascimento à morte num mercado de carros desmontados. O curta explora a estética da “taxi-art” da cidade, remanescente dos filmes de Bollywood e da iconografia religiosa hindu. Seria meu candidato, não fosse o prêmio Fipresci um pouco sério demais para um curta-curtição.
Sobre outros filmes vou escrever num próximo artigo, dedicado a imagens da mulher indiana.
Premiados em Mumbai
fevereiro 9th, 2012 § Deixe um comentário
Uma lista rápida dos principais prêmios do 12º Mumbai International Film Festival. Nos próximos dias vou postar textos sobre alguns desses filmes e outros mais.
Competição internacional:
Melhor longa doc: Pink Saris (Inglaterra/Índia) resenha aqui
Melhor curta/média doc: I am Your Poet (India)
Melhor curta fi: Music in the Blood (Romênia)
Melhor curta animação: Prince (Índia)
Prêmio Fipresci (o júri de que participei): Nargis - When Time Stopped Breathing (Birmânia)
Competição indiana:
Melhor doc: At the Stairs
Melhor curta fic: Midnight Bioscope
Melhor animação: Journey to Nagaland
Prêmio Fipresci: Good Morning Mumbai! (animação)
Anotações do festival em Mumbai
fevereiro 7th, 2012 § Deixe um comentário
- As projeções (todas digitais) do Mumbai International Film Festival são excelentes. Mesmo assim, o chato aqui precisou algumas vezes pedir ao operador que corrigisse a proporção da tela. Por sorte, a cabine de projeção é apenas uma mesa no fundo da plateia do Tata Theatre, facilmente acessível. O som fica no limite entre a clareza absoluta e o excesso de decibéis, como é praxe nos cinemas indianos. A pontualidade parece ser uma herança fixa dos colonizadores britânicos.
- Mais difícil do que decifrar o Livro dos Vedas em sânscrito é compreender os critérios de quem programou as sessões da competição internacional. Curtas passam depois de longas e filmes completamente díspares foram reunidos numa mesma sessão. Quando há alguma relação, é desastrosa, como a que exibiu um longa extremamente dramático com sobreviventes do ciclone que devastou uma região da Birmânia em 2008 e, em seguida, uma alegre animação de Hong Kong sobre um casal que é separado por uma enchente, os dois sobrevivem miraculosamente e se reencontram tempos depois por um capricho do destino. A combinação foi, no mínimo, de mau gosto.
- No primeiro dia do festival, um guarda fazia revista de bolsas na entrada do National Center for the Performing Arts. Ao ver minha câmera de vídeo, enfatizou que era estritamente proibido o seu uso naquelas dependências. Estranhei a interdição de câmeras de filmar num festival de cinema, mesmo fora da sala de exibição. Mas acho que logo alguém se tocou e suspendeu qualquer restrição. Eu e o documentarista David Bradbury, membro do júri oficial, não largamos nossas Dvcams.
O Open Forum, onde se dão os seminários e debates matinais (foto à esquerda), leva seu nome a sério demais: é realizado num anfiteatro ao ar livre. O sol da manhã essa época do ano não chega a ser escaldante, mas garantiria um belo bronze caso os participantes não estivessem cobertos de roupas do tornozelo ao pescoço. Não há sequer uma bermuda à vista, nem em convidados estrangeiros.
Documentário brasileiro: a subjetividade liberada e a vida como performance
fevereiro 5th, 2012 § Deixe um comentário
Para deixar registrado aqui no blog, o texto que fiz especialmente para o livro Cinema sem Fronteiras – 15 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes. Reflexões do Cinema Brasileiro – 1998-2012. Organizadoras: Raquel Hallak e Fernanda Hallak
Os 15 anos de existência da Mostra Tiradentes coincidem com um período de franca proliferação e renovação do documentário no Brasil. Em 1998, pelos meus registros, apenas um longa-metragem documental teve lançamento em cinemas: Atlântico Negro –Na Rota dos Orixás, de Renato Barbieri. Em 2011, estrearam em salas do Rio de Janeiro 22 documentários. Isso é apenas a ponta mais visível de um iceberg que se alarga no espaço cada vez maior ocupado pelos docs em mostras, festivais, editais, bem como na expansão da chamada cultura do documentário: publicações impressas e eletrônicas, cursos, seminários, estudos de cinema, etc.
A consolidação do modelo digital e mesmo as mudanças no estado de espírito do país nos últimos 10 anos favoreceram um certo retorno ao real como matéria-prima de criação audiovisual. Mas esse retorno ao real se deu sob uma nova perspectiva, guiado sobretudo pela ideia de subjetividade – essa palavrinha tão reprimida na história do cinema documental. Continue lendo






