Luz tropical brasileira

fevereiro 18th, 2012 § 2 Comentários

Waldemar Lima, o fotógrafo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, e Linduarte Noronha, diretor de Aruanda, morreram recentemente no espaço de pouco mais de uma semana. Ambos tinham a ver com a descoberta de uma luz especificamente brasileira para o cinema, ali na primeira metade dos anos 1960. Hoje publico aqui um texto que Waldemar escreveu especialmente para a dissertação de mestrado de Iara Magalhães, de Uberlândia (MG). Essa preciosidade me chegou às mãos através de Joel Pizzini, a quem agradeço.

Deus e o Diabo na Terra do Sol

LUZ TROPICAL BRASILEIRA

Waldemar Lima

A qualidade da luz do sol, originalmente branca, que chega à terra, pode ser dura ou suave dependendo da incidência e da largura da camada atmosférica que ela atravessa. Nas regiões tropicais, a largura da atmosfera é estreita, a luz do sol a atravessa perpendicularmente e chega à superfície da terra como uma luz dura e branca com sombras negras e cores fortes.

Se não houvesse absolutamente nada no espaço terrestre, nem poeira nem gases (como acontece no espaço sideral), o céu seria negro. A luz do sol, ao atravessar a atmosfera terrestre, encontra moléculas de gases de várias densidades, poeira e minúsculas gotas de água em suspensão, que refletem, refratam, difundem e dispersam a luz. O céu tem, dependendo da hora do dia e da região, luz de diferentes intensidades. As minúsculas gotas de água em suspensão são os principais dispersadores das ondas luminosas curtas (a extremidade azul de espectro) e responsáveis pela tonalidade azulada do céu.  Continue lendo

O crachá do cara

outubro 24th, 2011 § Deixe um comentário

Para encerrar o atual “ciclo Vladimir Carvalho” aqui no blog, restam três coisas:

1. Recomendar que vejam Rock Brasília – Era de Ouro nos cinemas. Uma boa frequência na primeira semana ajuda o filme a resistir mais tempo em cartaz.

2. Convidá-los a ver a performance fotográfica que eu e alguns amigos fizemos no último Cineport, quando foi inaugurada a Sala Vladimir Carvalho na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa. Cineastas, jornalistas,  amigos e performers (como Netto Ribeiro, na foto) posamos com o crachá de Vladimir. Veja aqui. Passe o mouse sobre o rosto de cada um para ver sua “identidade secreta”.

3. Indicar a leitura do ensaio de autobiografia que fiz com ele para a Coleção Aplauso, Pedras na Lua e Pelejas no Planalto. Seja comprando o livro nas livrarias ou lendo/baixando neste link do site da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

African portraits

julho 24th, 2011 § Deixe um comentário

Diversão de domingo:

Juro que este é meu último post sobre minha recente viagem à África. Não encho mais o saco de vocês com esse assunto. Mas ainda quero compartilhar duas coisas:

1. Esta brincadeira com portraits que eu e Rosane fizemos de gente nas ruas. Dura pouco mais de 2 minutos e tem música do grande Dollar Brand, Ibrahim Abdullah, um dos meus músicos africanos preferidos:

2. Nossos álbuns com seleções de fotos da África do Sul, Suazilândia, Moçambique e Cabo Verde. Em cada um você pode acionar a “apresentação de slides” para curtir melhor. Estão aqui no Picasa.

Fotoclipes sul-africanos

julho 3rd, 2011 § Deixe um comentário

Diversão de domingo:

Duas brincadeirinhas com fotos que eu e Rosane tiramos na África do Sul. Algumas imagens são frames de vídeo. Tudo vale mais pelos lugares… e pela música.

Então veja em tela inteira e aumente o som.

Tempo de ‘criadoria’

junho 30th, 2011 § 2 Comentários

Imagem do Google Street View encontrada por Jon Rafman

Um dos aspectos que pretendo abordar no bate-papo da Mostra Fotocine – hoje (quinta) às 18h30 no Centro Cultural Correios, Rio – é o que venho chamando de Criadoria. Trata-se de um processo em que a criação se confunde com a curadoria, pois se projeta sobre obras alheias já existentes ou ainda por nascer.

Esse processo tem sido muito comum nas artes visuais que se fundam na reprodutibilidade técnica, característica que facilita a criadoria. Cinema e fotografia, temas da mostra curada por Andreas Valentin, são justamente os campos em que isso mais parece florescer.

No cinema, a criadoria se manifesta desde a velha forma do filme em episódios, em que um produtor-curador repassa a diretores diversos a responsabilidade de criar um filme curto a partir de um determinado tema ou dispositivo – as séries “Cidades, eu te Amo”,  Destricted  (filmes eróticos por diretores de cinema de arte) etc – até modelos mais sintonizados com a arte colaborativa em voga.

Tomemos, por exemplo, Desassossego, um longa formado por fragmentos filmados por diversos realizadores a partir de sugestões contidas numa carta dos diretores-curadores Felipe Bragança e Marina Meliande, que montaram o filme final. Ou Pacific, em que Marcelo Pedroso editou cenas filmadas por turistas em cruzeiros. Eduardo Coutinho fez Um Dia na Vida com trechos de programas de TV de um único dia, enquanto Kevin MacDonald construiu A Vida em um Dia com cenas filmadas por pessoas de várias partes do mundo num mesmo dia e postadas no Youtube especialmente para esse projeto. Em The Clock, Christian Marclay examinou uma miríade de filmes para reunir referências visuais e sonoras às 24 horas do dia, minuto a minuto, num filme de 24 horas de duração.

Os fotógrafos não estão imunes a essa febre de criadorias. Dois projetos chamaram minha atenção recentemente. Um é do artista canadense Jon Rafman, que surfou mundo afora pelo Google Street View e encontrou “fotos” chocantes, curiosas, engraçadas ou intrigantes. Seu projeto 9 Eyes of Google Street View já rendeu exposições, um livro e muita badalação. O outro projeto, já tratado aqui no blog, é o da fotógrafa suíça Corinne Vionnet, que sobrepôs centenas de fotos encontradas na internet, criando imagens coletivas de pontos turísticos incontornáveis.

Esses trabalhos lidam com a abundância e o quase-anonimato da produção fotográfica contemporânea. Procuram no excesso e no indiscriminado aquilo capaz de criar novos sentidos. Novos, mas que, em última análise, se referem à própria condição atual da imagem: solta pelo mundo.

Esses criadores-curadores se destacam pela eventual originalidade de suas propostas e pelo acesso que conseguem aos meios de repercussão. Mas não têm outros privilégios especiais, já que todos somos curadores em potencial. O acervo do mundo está ao alcance de qualquer um para escolher, recombinar, repaginar e exercer a criadoria.

Fotografia e cinema

junho 28th, 2011 § 1 Comentário

Blow UpComeça hoje no Centro Cultural Correios, no Rio, a Mostra Fotocine, que pretende vasculhar as muitas relações entre cinema e fotografia fixa. Lá estão na programação, entre documentários e ficções, filmes em que o fotógrafo é o personagem principal, outros em que a fotografia fixa em si é o destaque, e outros ainda compostos basicamente de imagens paradas, como o francês La Jetée e o brasileiro Vinil Verde.

Com curadoria do fotógrafo Andreas Valentin, a mostra vai até o dia 3 de julho, com entrada franca. Uma apresentação geral do evento e a programação dia a dia podem ser vistas aqui. Conheça também o blog da mostra.

Haverá dois debates. O primeiro, hoje às 18h, reunirá Walter Carvalho, Pedro Vasquez e Marcos Bonisson. Do outro, quinta-feira às 18h30, participaremos eu e o cineasta Aurelio Michiles (O Cineasta da Selva).

O parentesco, as interações e as oposições entre fotografia e cinema formam um campo fértil para teóricos, ensaístas e curtidores de cinema. São muitas as veredas convidativas para se tomar. Instado a produzir um texto para o catálogo da Fotocine, eu escolhi o uso da imagem congelada dentro do movimento fílmico e suas implicações no tratamento do tempo e da memória.

A seguir, a íntegra do texto:

Quando o cinema para

Pode ser um truísmo lembrar que o cinema é uma sucessão de fotografias apresentadas em velocidade tal que perdem a qualidade de fotografias para sugerirem movimento. Mas não tanto no contexto desta mostra, que, entre outras coisas, vem chamar atenção para a presença (sobrevivência?) da fotografia na voragem do  cinema, seja como tema, seja como elemento constitutivo.

Se pensarmos bem, a foto será um átimo intermediário entre os fluxos da vida e do cinema. A foto (e tomemos aqui o frame de vídeo como um análogo) é tanto a unidade indivisível da matéria cinematográfica como a figuração de um momento congelado no fluir das coisas reais. O cinema recria as condições para que a imagem da foto retorne à sua cadeia de relações como um sucedâneo do mundo de onde foi retirada. Daí o poder de sugestão da imagem fixa, por contraste, dentro da situação-cinema.

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Fotos de Cabo Verde

junho 19th, 2011 § Deixe um comentário

Diversão de domingo:

Postei três álbuns no Picasa com uma seleção das minhas fotos de Cabo Verde. Não sou um fotógrafo com estética ou técnica particulares. Tento apenas capturar da melhor maneira possível o que vejo,  usando câmera simples ou smartphone. Algumas imagens são mesmo frames de vídeo. Portanto, se liguem mais no objeto do que na forma das fotos.

Clique aqui para visitar.

Souvenir coletivo

maio 29th, 2011 § 4 Comentários

Diversão de domingo:

Aproveitando a onda de turismo aqui no blog, compartilho com vocês um achado interessante (via Twitter @fernandabruno). A fotógrafa suíça Corinne Vionnet realizou uma série de montagens com fotos alheias de pontos turísticos incontornáveis pelo mundo. Pesquisando na internet, ela reuniu e sobrepôs entre 200 e 300 fotos de cada lugar, gerando uma espécie de souvenir coletivo.

O trabalho sugere considerações sobre o olhar uniformizante do turista, o poder que certas composições espaciais exerce sobre quem registra, o congestionamento dos lugares turísticos, o aspecto fantasmal dessas multidões espalhadas no tempo e o desvanecimento progressivo da memória.

Veja aqui uma mostra de 18 fotos em tamanho grande e a série Photo Opportunities completa no site da artista.

Bodanzky e a fotografia

abril 4th, 2011 § Deixe um comentário

A identidade visual do É Tudo Verdade 2011 coloca em destaque a obra fotográfica de Jorge Bodanzky. Mais conhecido por seus documentários de ponta nos anos 1970 e 80, e pelo envolvimento mais recente com o binômio cultura/meio-ambiente, Bodanzky tem, no entanto, uma carreira paralela como fotógrafo que antecedeu e se ombreia com a do cineasta. Quando preparava com ele o livro Jorge Bodanzky – O Homem com a Câmera para a Coleção Aplauso, pude ter uma ideia do volume e da importância de sua produção fotográfica.

A foto de Brasília que deu origem à identidade visual do festival

Jorge entrou no cinema vindo da fotografia, daí sua relação sempre visceral com a câmera. Foi aluno de Luís Humberto, Amélia Toledo e David Drew Zingg. Participou de coletivas e teve uma foto sua na parede da 8ª Bienal de São Paulo (1965), a primeira a integrar uma seção de fotografia. Carregou o crachá de fotógrafo do Jornal da Tarde (SP) e da revista Manchete. Em 1971, ganhou o concurso internacional Asahi-Pentax com uma série de fotos de pescadoras do Rio Grande do Norte.

Uma caixa de fotografias foi o currículo que ele apresentou a Alexander Kluge para estudar na escola de cinema de Ulm, na Alemanha. Já na Amazônia, como fotógrafo da revista Realidade, percebeu na movimentação de prostitutas e camioneiros a semente para Iracema, uma Transa Amazônica. O cinema, então, já o absorvia quase completamente, ficando as fotos fixas como atividade paralela.

Jorge Bodanzky participa do ÉTV este ano numa mesa sobre o mercado brasileiro de docs na terça-feira, dia 5/4, às 16h, no Auditório do BNDES. Integram a mesa também Maurício Andrade Ramos (Videofilmes) e Paulo Mendonça (Canal Brasil), mediados pelo crítico Pedro Butcher. Às 18h, no mesmo local, será exibido o mais recente filme de Bodanzky, Pandemonium, que abordo a seguir:

A capital do inferno      

Na primeira imagem, uma ameaçadora mancha preta escorre pela tela até cobri-la completamente, remetendo a um vazamento de óleo. Daí em diante, uma sucessão de imagens e sons inquietantes colocam o espectador em estado de tensão. É como se a ameaça ambiental se materializasse no cenário de uma grande cidade brasileira. Imagens-síntese de desperdício, proliferação, corrosão. Um apocalipse iminente.

Não estou falando de um filme de ficção científica, mas do último trabalho do documentarista Jorge Bodanzky. Pandemonium é um alerta sobre o dispêndio indiscriminado de energia não renovável no mundo e suas consequências para as condições de vida no planeta. A argumentação verbal parte dos cientistas Rogério Cezar de Cerqueira Leite e Carlos Nobre. Otimismo pontual e pessimismo generalizado se revezam em suas falas, a partir de uma constatação de Rogério: “O homem é uma espécie de parasita que mata seu hospedeiro”.     

Rogério e Carlos discorrem sobre a forma superficial como nos preocupamos com o meio-ambiente e a necessidade de partirmos para grandes soluções que garantam um modelo sustentável para médio e longo prazo. Seguir apostando em veículos movidos a combustíveis fósseis e no desmatamento pode ser o caminho mais curto para a Terra se converter na capital do inferno (sentido mítico da palavra pandemônio conforme o poema Paraíso Perdido, de John Milton).

Bodanzky apresenta aqui um estilo diferente para escapar ao modelo de doc-palestra. Ele trabalhou falas, música (Thiago Cury e Marcus Siqueira), fotos e imagens em movimento (Matheus Rocha assina a fotografia) em regime de simultaneidade, perfazendo uma suíte audiovisual impactante. As imagens colhidas em São Paulo e na Amazônia são ressignificadas mediante uma montagem experimental (de Lucas Justiniano) e um tratamento cromático de grande efeito (por Alex Yoshinaga). As tonalidades ácidas predominam, reforçando nas palavras o sentido de urgência que carregam.

No fim das contas, Pandemonium mostra como um realizador supera as limitações de um projeto relativamente convencional através da criatividade potencial de sua linguagem.        

Travessuras de Laurie

março 29th, 2011 § 1 Comentário

Com seu ar de garoto travesso, Laurie Anderson abriu ontem pessoalmente a sua exposição I in You / Eu em Tu no CCBB-RJ. A moça trouxe seus violinos performáticos, vídeos e duas instalações de encher os olhos (e ouvidos). Numa delas, poemas audiovisuais são projetados em quatro telas de formatos e tamanhos diferentes. Na outra, a mais bela de todas, a “tela” é uma paisagem construída com picotes de papel sugerindo campos e aldeias, sobre a qual são projetadas imagens e grafismos de diversas naturezas.

Vi tudo sem muita calma, em meio à pequena multidão que acorreu à abertura. Quero voltar. Na verdade, gostaria de me mudar para aquela sala da paisagem. Ficar ali uns três meses ouvindo as experimentações musicais de Laurie e apreciando a brisa das imagens passar sobre os vales de papel.

A exposição tem fotos da Laurie performer em distintas fases de sua vida. Quando jovem ela gostava de dormir em lugares públicos inusitados para ver se o local influenciava seus sonhos. As fotos dessas performances me lembram uma série de fotografias que faço de gente dormindo em lugares públicos (veja aqui). À esquerda, uma das fotos de Laurie.

Abaixo, um trecho da performance Duet on Ice, que gravei com meu celular na noite de ontem. Ela repete hoje às 18 horas no saguão do CCBB. E às 18h30 faz palestra. Na performance original, Laurie calçava os blocos de gelo para determinar o tempo de duração do ato. Quando o gelo derretia e ela começava a perder o equilíbrio, era hora de terminar.    

 

A pintura morreu. Viva o vídeo

dezembro 13th, 2010 § 3 Comentários

Enquanto visitava a 29ª Bienal, na semana passada, por vezes me sentia num festival de vídeo, daqueles que proliferavam nos anos 1980 e 90. A cada dez passos no labirinto proposto pelos curadores, topava com um monitor (a maioria configurada na janela errada, achatando as imagens originais), uma videoinstalação ou uma sala para vídeo single channel (a exibição convencional em tela única). A crer nessa curadoria, a arte contemporânea é o reino quase absoluto da imagem em movimento.

“Tem vídeo demais”, era um bordão que se ouvia tanto entre frequentadores comuns quanto entre especialistas. Rubens Machado Jr. e Ismail Xavier, ambos professores da USP e inequívocos amantes do audiovisual, tinham a mesma impressão. Soube que até videoartistas famosos acusaram a overdose.

Em decorência, era raro ver uma tela pintada ou uma escultura. As instalações físicas e as imersivas dividiam com o vídeo a primazia absoluta. Algo me diz que esta Bienal resolveu cortejar a atração do público pelo movimento, seja dele próprio, seja daquilo que vê. A arte estática e o hábito de parar diante dela pareciam subliminarmente condenados. Mesmo as obras fotográficas, em seu caráter serial, traziam implícita a ideia de movimento e demandavam a mobilidade do espectador entre elas.

No entanto, essa proposta envolvia uma contradição. Grande parte dos vídeos tinha duração superior a 10 minutos. Para um fruição adequada, exigia que o visitante se detivesse às vezes por 30 ou 40 minutos diante da tela, muitas vezes sem lugar para se sentar. Na verdade, a Bienal convidava o público a dezenas de sessões de cinema sem oferecer o conforto e o contexto adequados. Um dos “terreiros” criados como áreas de repouso e performances era um oca de papelão dedicada à exibição regular de filmes relacionados à arte. 

Por mais admiração que se tenha pela obra de Harun Farocki, como assistir, de pé no meio de um “corredor”, à soma de quase 40 minutos do seu tríptico Serious Games, gravado em centros de treinamento para militares americanos? Ou como parar durante mais de 30 minutos diante das imagens belíssimas e intrigantes de Factory, filme do taiwanês Chen Chieh-jen, tendo do lado de fora da sala “um oceano inteiro para nadar”? (Faço aqui uma relação entre o verso de Leonilson e o de Jorge de Lima que serviu de slogan para esta Bienal: “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”).   

Um vídeo como Phantoms of Nabua, de Apichatpong Weerasethakul, com seus concisos 10 minutos dedicados ao registro poético de uma performance - garotos chutam bolas de fogo e acabam ateando fogo à tela onde um filme era projetado ao ar livre (assista aqui) – parece perfeitamente integrado ao espírito de uma exposição de arte. Idem sobre o chocante filme de Miguel Rio Branco, Nada Levarei Quando Morrer Aqueles que mim Deve Cobrarei no Inferno, rodado no submundo de Salvador, com sua mescla de fotos e imagens em movimento. Afinal, é um típico filme de artista, que se furta a uma estratégia puramente jornalística ou voyeurística. Os videodiários de Jonas Mekas, fonte de seu 365-Day Project, também podiam ser degustados em pequenas porções, dado o seu caráter por natureza fragmentário.

Mas o que dizer, por exemplo, de Catastrophy, de Artur Zmijewsci, meia-hora de um documentário absolutamente convencional sobre as reações dos poloneses à morte do presidente Lech Kaczynski em abril? Ou do sobrevoo filmado de Steve McQueen em torno da Estátua da Liberdade? Ou ainda da conhecidíssima entrevista de Clarice Lispector à TV Cultura? Obras como essas não são potencializadas pelo fato de serem exibidas numa Bienal, nem acho que a Bienal se potencializa por exibi-las. Resta o fetiche das coisas que se movem. E a justificativa retórica de relacionar Arte e Política.

Outra constante na megaexposição eram os longos slideshows, em que o movimento se dava entre uma foto e outra. Nan Goldin tinha sempre sala cheia para The Ballad of Sexual Dependency, coletânea de suas personagens enfiadas no limbo das noites doentias. Pouca gente, porém, se dava ao luxo de ver a íntegra do show com mais de uma hora.

Desse tipo de trabalho, o que mais me impressionou foi um do belga David Claerbout, um explorador de “momentos decisivos” captados por centenas de câmeras simultaneamente. Em The Algiers’ Sections of a Happy Moment, vemos, congelado no tempo, um instante em que um grupo de rapazes e adolescentes se diverte com uma revoada de pombos no terraço de uma casa em Argel. A cena é única, mas os pontos de vista se sucedem no slideshow, fazendo o espectador flutuar entre, sobre e sob os personagens e o local. O efeito é aliciante. Lentamente, somos levados a experimentar a multiplicidade quase infinita de ângulos de um momento único. O tempo se esgarça, a imobilidade se relativiza. A sensação de felicidade que emana da tela contrasta com as memórias de conflitos evocadas pela Argélia. De repente, nessa obra serena mas provocadora, era como se todas as sugestões da 29ª Bienal se concretizassem.              

 

     

Casais impossíveis

novembro 21st, 2010 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Uma imagem vale mil palavras. O velho provérbio ganhou uma acepção divertida na comunidade online Worth1000, que desde 2002 mobiliza internautas para brincar com imagens. Eles promovem competições diárias que resultam em entretenimento visual e até alguns escândalos, quando suas fotos inventadas são confundidas com o real. O site conta com orgulho que até o Pentágono já soltou uma declaração desassociando-se das imagens do Worth1000.

Uma das competições mais populares por lá é de “Casais de Celebridades Impossíveis”, reunindo numa mesma foto artistas vivos e mortos. Abaixo destaquei três que me agradaram especialmente, mas vale a pena visitar o Worth1000 e navegar pelas várias páginas e diversas edições do tal concurso.    

Di Caprio e Miranda

Heath Ledger e Katy Perry

Clooney e Kelly

O estivador do Haiti

julho 15th, 2010 § 2 Comentários

Não duvido da seriedade de Sean Penn no Haiti. Desde fins de janeiro, depois de se separar da mulher, Robin, ele está administrando com as próprias mãos uma grande iniciativa de ajuda aos desabrigados de Porto Príncipe. Uma matéria do The Independent descreve a chamada Penn Tent como um exemplo de compromisso, organização, limpeza e eficiência. Bem diferente da maioria das ações humanitárias de ONGs e Nações Unidas, que recebem muito mais dinheiro e dão menores resultados. Penn estaria vivendo ali quase ininterruptamente desde janeiro, dormindo numa tenda e botando a mão na massa como qualquer outro voluntário ou morador local.

Foto: Getty Images

Mas alguma coisa na foto do artigo (acima) me desconcerta. Penn é de esquerda e não faz o jogo das celebridades. Acredito mesmo que ele esteja lá carregando sacos e resolvendo problemas em instância pessoal. Mas a foto é infeliz. Penn sobe a ladeira como um burro de carga, enquanto haitianos ao seu redor levam coisas leves ou não levam nada. Tem até um auxiliar caminhando ao seu lado com um smartphone, possivelmente o celular do próprio Penn. Então é assim: o astro carrega o fardo pesado enquanto um assistente fortão leva seu celular. Pode não ser, mas parece uma cena arrumada para a foto da Getty Images. Sean Penn como o mais empenhado de todos, o herói do real.

A história da Penn Tent é linda, mas a foto quase sabota o artigo.

Cartier-Bresson x lei da gravidade

julho 4th, 2010 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Em quatro exemplos clássicos, uma amostra de que os famosos “momentos decisivos” de Henri-Cartier Bresson muitas vezes estavam naquela fração mínima de tempo em que o modelo da foto encontrava-se suspenso no ar. A fotografia como negação da lei da gravidade, eternização do efêmero absoluto, poesia do invisível a olho nu.

Crítico de arte

junho 20th, 2010 § 2 Comentários

O título é meu, mas a foto é de Jean-Baptiste Mondino

Foto: Jean-Baptiste Mondino

Uma família em risco

junho 12th, 2010 § Deixe um comentário

O título é meu, mas a foto é de Matt Stuart

Foto: Matt Stuart

Pontes

abril 2nd, 2010 § 8 Comentários

Foto: Rosane Nicolau

É fácil me agradar. Basta me levar para conhecer mais uma ponte. Ou me presentear com qualquer coisa relativa a pontes. Nas minhas viagens, não deixo de explorar as pontes dos lugares que visito. Gosto de vê-las do alto, atravessá-las a pé, passar de barco sob seu arco, fotografá-las de todos os ângulos. Se tivesse que apontar minha preferida, não saberia escolher entre a majestosa do Brooklyn, a buliçosa Howrah de Calcutá, a lírica Pont Neuf de Paris ou a “galeria” variada do rio Sumida, em Tóquio.  Continue lendo

Amigos fotógrafos

março 31st, 2010 § 6 Comentários

Meu programa noturno de hoje (quarta), a partir de 20h, é comparecer à abertura da coletiva de fotografia da Casa Benet Domingo (Av. São Sebastião, 135, Urca, Rio). Meu novo amigo Rob Curvello expõe fotos da série COMeSTRUiÇÃO, composições de imagens que fragmentam o real para reconstruí-lo sob nova perspectiva.

Foto: Rob Curvello

Uma das composições de Rob Curvello

Rob Curvello frequentou meu curso recente sobre documentários no SESC-Quitandinha. Em subidas e descidas semanais da serra de Petrópolis, ficamos amigos. Mais que isso, Rob me arrastou para mais perto da área da realização. Resultado: estamos fazendo juntos o roteiro de um doc cujo título de trabalho é Revelando Milan.

O homem do título é o fotógrafo Milan Alram, de 83 anos, francês radicado no Brasil desde 1939. Pioneiro na utilização do filme colorido na publicidade brasileira (fez as primeiras fotos em cores da Coca-Cola entre nós), Milan viveu seu auge profissional a partir da década de 1950. Fotografou grandes mudanças urbanas no Rio de Janeiro e a construção de Brasília, ao mesmo tempo em que prestava serviços para as principais agências de publicidade.

Foto: Milan Alram
A Rua Uruguaiana em 1957 por Milan Alram

Em 1967 iniciou uma carreira internacional que o levou para o circuito Paris–Milão, onde trabalhou para empresas como Air France e Philips. Voltou ao Brasil em 1974 e seguiu a carreira de fotógrafo até 1982, quando um câncer na garganta o fez perder o estímulo profissional e boa parte da potência da voz. Como já cuidava ele mesmo da revelação dos seus filmes – por  não haver no Rio de Janeiro laboratório que atendesse a suas exigências –, resolveu  criar o laboratório Kronokroma, que logo passou a ser referência de qualidade para os profissionais da cidade.

Hoje, após décadas de sucesso, ele vive a nova realidade da introdução das técnicas digitais na produção e pós-produção de fotografias profissionais e amadoras. O pequeno laboratório da Praça do Russel virou um ícone de resistência pessoal e um verdadeiro oásis artesanal para artistas e amantes do celulóide.

Se tudo der certo e algum edital nos abençoar, Revelando Milan vai ser um curta e um longa, ambos enfocando o dia-a-dia do Kronokroma e as visitas ilustres que recebe. Já gravamos participações de Miguel Rio Branco, um dos tradicionais clientes de Milan, e do pesquisador Joaquim Marçal, que prepara um livro sobre ele. Para as próximas semanas, estão previstas gravações com Rosângela Rennó e outros luminares da fotografia que confiam seus negativos à cuidadosa revelação do Kronokroma.

Foto: Hélio Melo

Rob Curvello e Milan Alram no Kronokroma

Para mim, tudo isso está valendo por um pequeno curso de fotografia. Já aprendi, por exemplo, que revelar e ampliar também são uma arte.   

O melhor amigo do cão

janeiro 10th, 2010 § Deixe um comentário

Diversão de domingo:

Green Beret (Boina Verde), 2005

Se o cão é o melhor amigo do homem, William Wegman provou que essa amizade pode render muito diante de uma câmera. Na década de 1970, quando o vídeo chegou às mãos de artistas como ele, Wegman fez furor com as performances de seus weimaraners, uma raça inteligente conhecida como “cachorros com cérebro de gente”. Um deles, chamado Man Ray, entrou para a história da arte contemporânea em séries clássicas de fotos e vídeos.

Nos vídeos dos anos 70, os cães são manipulados pelo olhar, pelo apetite ou mesmo pelo toque físico do artista. O efeito é hilariante, embora role ao mesmo uma ternura no olhar triste dos weimaraners. Na seleção abaixo, de 9 minutos, estão alguns momentos antológicos dessa parceria. Chama atenção o trecho em que Wegman pratica uma manipulação sexual em Man Ray.

 

William Wegman, 67 anos, é também pintor e desenhista (conheça seu site). Seus trabalhos de artes plásticas conheceram uma grande evolução nas três últimas décadas, partindo do desenho tosco para telas rebuscadas e colagens divertidas. Em matéria de fotos, ele sempre foi genial – o Richard Avedon da expressão canina. Mas nos vídeos, Wegman trocou o preto-e-branco dos 70 pela cor e ficou um tanto aborrecido e presunçoso. Nada do que ele gravou recentemente parece ter o humor e a simplicidade de Stomach Song. Não deixe de ver essa pérola de pouco mais de 1 minuto. No site de Wegman, entre em Galeria, Vídeos 1970-77. É o primeiro.  

    

O mais longo caminho

setembro 22nd, 2009 § 1 Comentário

The Longest Way

Você já viu o cabelo de uma pessoa crescendo? Pois então conheça o vídeo The Longest Way. Não consegui incorporá-lo diretamente no blog, mas vale a pena ir até lá. É uma das coisas mais bacanas que vi ultimamente na rede. Dura 5 minutos.

Em novembro de 2007, o alemão Christoph Rehage começou a fazer uma caminhada de Pequim a sua Bad Nenndorf, Alemanha. Seriam mais de dois anos a pé. Ao final de um ano e 4.646 km, ele interrompeu a andança, ainda em território chinês. Durante esse período, se fotografou numa mesma posição, ante diferentes cenários. O vídeo resultante mostra a evolução de uma careca a uma vasta juba, com uma batida musical esfuziante.

No site do projeto, Christoph postou mais informações sobre seu plano, um diário da viagem e notícias mais recentes (ele mora na China).

NY, 16.04

setembro 11th, 2009 § Deixe um comentário

No último 16 de abril, foi assim que vi as obras do Ground Zero:

WTC 2

WTC 1

WTC 3

O Magritte do Photoshop

agosto 30th, 2009 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Meu amigo Paulo Lima chamou minha atenção para esse fotógrafo sueco que busca inspiração em Magritte, Dali e Escher. Seu nome é Erik Johansson. Seu site está aqui.

O título acima foi expressão do próprio Paulo.

Foto: Erik Johansson

Dormindo fora

agosto 23rd, 2009 § 1 Comentário

Soneca num parque de Calcutá

Soneca num parque de Calcutá

Diversão de domingo:

Sou um fotógrafo amadoríssimo que só clica em viagens ou eventos ligados a cinema, família e amigos.  Mas nos últimos tempos tenho dirigido a lente para um tema em especial: gente dormindo em lugares públicos.

Não se trata apenas do povo sem teto. Nos países asiáticos, é costume tirar uma soneca nas portas de templos e pagodes.  Na Índia, muitos condutores de riquixás e mototáxis dormem na rua simplesmente porque têm casa muito distante dos bairros onde circula sua clientela. Há também os dorminhocos ocasionais dos meios de transporte e os contumazes do metrô de Tóquio. E ainda o banzo do Norte e Nordeste brasileiro, o dolce far niente italiano.   

Postei no Webshots uma pequena coleção dessas imagens sob o título “Dormindo Fora”. Algumas são frames de MiniDV, daí a definição mais pobre. Não se liguem na qualidade do fotógrafo, mas somente na direção do olhar.  

Gente no museu

agosto 2nd, 2009 § 4 Comentários

Diversão de domingo:

O fotógrafo Alécio de Andrade descobriu um eixo maravilhoso para seu olhar durante os 40 anos em que viveu em Paris: a relação dos visitantes do Louvre com as obras do museu. Seu material eram as intervenções do corpo no espaço dos quadros, os diálogos supreendentes entre gente e obra. Antes de conhecer esse trabalho, tive ideia parecida quando estive em Nova York este ano. Aqui estão algumas das minhas fotos, modestas e amadoras, mas com espírito semelhante:         

New York abr 2009 073

New York abr 2009 081

New York abr 2009 028

New York abr 2009 040

New York abr 2009 087New York abr 2009 086

 

 

 

 

 

 

 

New York abr 2009 143

New York abr 2009 188

O charme das Cinqueterre

julho 8th, 2009 § 2 Comentários

Manarola em um cálice de Chianti
Manarola em um cálice de bianco

Depois de uma elipse de Dormonide e uma breve retenção urinária pós-operação, já estou de volta à casa com joelho novo. Agora começo o período de reclusão obrigatória. Uma boa forma de compensar a imobilidade é concluir a postagem das fotos da minha recente viagem à Itália.

Depois de explorar a Toscana, eu e Rosane esticamos até uma parte muito pitoresca da Liguria, chamada Cinqueterre (veja as fotos no Webshots). São cinco pequenas aldeias encravadas em rochas, cercadas de vinhedos, olivais e o azul sem fim do Mediterrâneo. Pode-se caminhar de uma cidadezinha à outra, como também ir de trem ou barco. 

Os nomes são os mais sonoros que se possa imaginar: Riomaggiore, Manarola, Corniglia, Vernazza e Monterosso al Mare. O caminho que leva de Riomaggiore a Manarola é chamado de Via dell’Amore, onde os apaixonados rabiscam seus nomes nas pedras ou nas folhas duras da vegetação. Algumas são bem rústicas, como Corniglia e Manarola. Já Monterosso é um balneário chique, guardado por um gigante esculpido em pedra.     

Tudo ali é tranquilidade, gente bonita, comida cheirosa e vinhos inesquecíveis. Ainda não invadidas pelo turismo de massa, as Cinqueterre preservam um certo charme exclusivo e fazem a gente sentir a experiência de uma descoberta.

As fotos do Webshots são melhor degustadas acionando-se o slideshow e ouvindo-se alguma música de Ennio Morricone.

Bela Toscana (2)

junho 28th, 2009 § Deixe um comentário

Piazza Amphiteatro, Lucca
Piazza Amphiteatro, Lucca

Novos álbuns de fotos da minha viagem à Toscana, em maio último, estão disponíveis no Webshots.

Arezzo é uma cidade sóbria e tranquila, onde Roberto Benigni filmou A Vida é Bela (eles até fazem tours pelas locações). As pequenas Colle di Val d’Elsa e Montepulciano são joias medievais cavalgando o topo de montanhas, cercadas por algumas das mais belas paisagens toscanas.

Lucca é talvez a cidade mais elegante e hospitaleira dessa parte da Itália. Um de seus destaques é a Piazza Amphiteatro (foto acima), construída na arena de um antigo teatro romano, um lugar que literalmente abraça e apaixona o visitante. Em Lucca tive a sorte de presenciar uma competição de “sbandieratori”, os atiradores de bandeiras, vistosa atração medieval que se preserva na Toscana.

Por fim, o álbum de Pisa mostra que esta bela e serena cidade não se resume à Torre Inclinada.     

Clique na foto para entrar no Webshots. Minha identidade lá é “versaooriginal”. Vale a pena acionar o slideshow e reclinar-se na cadeira.   

Bela Toscana

junho 22nd, 2009 § Deixe um comentário

Para os amigos que curtem minhas fotos de viagem, já tem álbuns de Florença, Siena, San Gimignano e Volterra no Webshots. Depois virão outras cidades que também visitei em maio. Clique na foto abaixo para entrar (minha identidade lá é versaooriginal):

Palazzo Publico, Piazza del Campo, Siena

Palazzo Publico, Piazza del Campo, Siena

E por falar em arte renascentista, aí vai um cartum do Laerte, do seu livro autobiográfico Laertevisão:
Laerte 001

 Não deixa de fazer certo sentido, né?

Onde estou?

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