Facebook contra Bonequinho
abril 11th, 2012 § 12 Comentários
Um novo capítulo nas relações entre crítica, exibição cinematográfica e redes sociais pode estar sendo escrito agora mesmo aqui no Rio. Estreou na última sexta-feira o filme chileno A Vida dos Peixes, de Matías Bize. A crítica Susana Schild atribuiu-lhe um Bonequinho dormindo em O Globo e um texto inspirado em que tirava sarro com as deficiências do longa. Inconformado com o que considerava uma apreciação injusta, Marcelo França Mendes, diretor do Grupo Estação, que distribui e exibe o filme, lançou uma “promoção” no Facebook, convidando seus 705 amigos a verem o filme de graça. Só pedia aos que gostassem que recomendassem a seus amigos. No dia seguinte, mesmo dizendo correr o risco de ser “internado” pelos seus sócios, ampliou a oferta, a pedidos. Os amigos dos amigos poderiam pagar meia entrada.
A tentativa de “salvar” um lançamento através da rede social parece cabível numa cidade dominada por um único jornal. É claro que existem filmes impermeáveis à opinião crítica, seja ela qual for. Mas a grande maioria, como A Vida dos Peixes, depende muito dessa valoração para ter uma carreira razoável. Em casos como esse, o Bonequinho de O Globo pode ser um ícone cruel. Mais do que estrelinhas, carinhas sorrindo ou chorando, dedos para cima ou para baixo (ou mesmo “ourinhos”, como neste blog), o boneco induz o leitor a supor uma determinada atitude diante do filme. Sair do cinema, dormir ou aplaudir são gestos peremptórios, que não admitem gradação. Em épocas como agora, quando estão em cartaz vários filmes com boneco aplaudindo de pé, o público acaba concentrando nesses sua preferência, e quase nada sobra para os demais.
Minha amiga Susana Schild cumpriu seu papel dignamente. Do que ela escreveu, nada pode ser frontalmente contestado. Mesmo assim, é preciso admitir que se pode estabelecer outra relação com o filme. Se o início parece de fato aborrecido e desinteressante, quem se dispuser a entrar no jogo de Matías Bize pode até se emocionar com a meia-hora final. Um dos aspectos em que discordo ligeiramente de Susana é quanto à inexpressividade do ator Santiago Cabrera. O rapaz não é mesmo nenhum Ryan Gosling, mas acho que sua apatia tem uma função: além de expressar um traço coerente do personagem, reforça o fato de ele ser um mero dispositivo de narrativa. O que Andrés mais (e melhor) faz é ouvir. Assim, atua como avatar do espectador para receber os dados da trama. Nesta, nem tudo faz muito sentido, como o tal trauma no seu passado. Mas os ecos da relação com Beatriz e o suspense em torno do encontro alimentaram meu interesse em boa parte do tempo.
A direção de Bize é eficaz, com excelente aproveitamento de espaços exíguos (como em Na Cama) e um ótimo trabalho com o elenco. Branca Lewin, em seu monólogo central, é capaz de siderar o espectador que a ele (a ela) se entregar.
Enfim, não saí aplaudindo nem tive sono enquanto via A Vida dos Peixes. A diversidade de opiniões é um bem precioso. Uma crítica assinada é a opinião de uma pessoa (credenciada, às vezes, mas ainda assim um indivíduo). Sei, por exemplo, que esse filme escapou por pouco de receber uma cotação ainda pior de outro crítico de O Globo. O que importa discutir não é esta ou aquela opinião, mas a hegemonia do Bonequinho, no nível em que se dá hoje. Isso, sim, é uma distorção do papel da crítica.
Quanto ao Facebook do Marcelo, foi um recurso elegante e inventivo. Gerou comentários engraçados, como o de Zé José (Eduardo Souza Lima): “Maravilha! De graça, até filme chileno”. Se der certo e a coisa pegar, quem sabe as próximas promoções vão incluir o pão de queijo.
O pré-Hemingway de Curitiba
dezembro 28th, 2011 § Deixe um comentário
Essa cara de moleque paranaense aí em cima não engana. Bem antes de pular para trás das câmeras, Sylvio Back era um jovem crítico de cinema e teatro, jornalista “entrão” que sonhava em ser copidesque, posição cobiçada nas redações em fins dos anos 1950. O Diário do Paraná confiou-lhe em1959 a edição de sua página literária dominical. Influenciados pelo Suplemento Dominical do JB carioca, Back e o programador visual de nome não menos literário, Emilio Zola Florenzano, criaram uma página dinâmica, arejada, contemporânea. Durante 85 domingos, o letras e/& artes (assim mesmo, com minúsculas) fustigou a cena cultural de Curitiba. Parou de circular quando Back, aos 23 anos, foi demitido por liderar uma greve salarial.
Agora, 50 anos depois, o letras e/& artes ressurge em edição facsimilar, patrocinada pela Itaipu Binacional e distribuída à margem do comércio. Dá gosto folhear as páginas enormes e ver como o debate cultural de uma fase de transição na cultura brasileira repercutia num ambiente relativamente provinciano.
A pauta aprovada pelo editor Sylvio C. Back contemplava contos, poemas, traduções (de Genet, Camus, Lorca etc), críticas de filmes e montagens teatrais, ensaios sobre existencialismo (então na moda entre os jovens curitibanos) e muitos textos editorializantes contra os pseudointelectuais, os escritores “barrocos”, os críticos “viteloni” (boas-vidas) e os canastrões de toda ordem. A página era feita por e para os “jovens da terra”, como afirmava o editor.
Back jogava em diferentes posições. Como crítico de cinema, saudava Tati, Jules Dassin e Tchukrai, incensava O Grande Momento de Roberto Santos e duvidava de Glauber na afirmação de que a ida das câmeras para o Nordeste renovaria o cinema brasileiro. Voltando-se para os palcos, lastimava “o ambiente descultural do teatro paranaense” e celebrava a novidade do Teatro de Arena. Rebatia Wilson Martins em defesa de um escritor-filósofo local. Defendia a Lolita de Nabokov (“nada tem de imoral”), Os Amantes de Louis Malle e a revolução cubana (“Não foi em vão que Sartre disse ter Castro feito o que é preciso fazer”). Outros pequenos textos, de teor “angustial” (então sinônimo para existencial), prenunciavam a veia ficcional do futuro cineasta-poeta.
Do garoto que aspirava a ser um “pré-Hemingway” ao diretor de filmes como Aleluia Gretchen e Lost Zweig, Sylvio Back mudou muito e ao mesmo tempo não mudou tanto. Os seus filmes e – principalmente – os textos que ele produz em paralelo conservam bastante daquela verve conflagradora, da rejeição a alinhamentos e do gosto pela palavra mordaz.
Os anos loucos da Cahiers
dezembro 1st, 2011 § Deixe um comentário
Numa especialíssima sessão na quarta-feira, o Fórum Doc BH apresentou – provavelmente pela primeira vez fora da França – o filme À Voir Absolument (Si Possible) – Dix Années aux Cahiers du Cinéma, 1963-1973. Cheirando ainda à mesa de edição, ele aparece na internet como lançamento de 2012. O privilégio dos mineiros veio por conta da relação que o Fórum mantém com Jean-Louis Comolli, um dos autores do filme junto com Jean Narboni e Ginette Lavigne. O próprio Comolli ofereceu a pré-estreia.
Como cinema, não há qualquer pretensão. Comolli e Narboni, redatores-chefes da Cahiers no período citado, limitam-se a conversar (mais ouvir, na verdade) com ex-colegas da redação sobre as decisões que levaram a essa ou aquela escolha editorial. A efervescência daqueles anos fazia com que cinema e ideologia se cruzassem constantemente. Foi o tempo da eclosão dos cinemas novos, da revalorização do cinema hollywoodiano pelos franceses, de Maio de 68, da fase de alinhamento da revista ao Partido Comunista e da adesão ao maoismo, que chegou a expelir as fotos das páginas da Cahiers.
Eles conversam desconfortavelmente numa sala de cinema, reproduzindo um filme de arquivo que flagrava os redatores jovens em situação semelhante. Às vezes, os venerandos atuais contemplam diretamente as imagens de outrora (como Narboni e Comolli na foto acima), mas não há grandes alusões à contemporaneidade. Trata-se de um projeto memorialístico de grupo, onde chega-se a lavar alguma roupa suja, como Jacques Aumont confrontando os que o demitiram no passado.
Curiosamente, quem tem uma das participações mais marcantes é Sylvie Pierre, a namorada francesa do cinema brasileiro. Quando entrou na Cahiers, ainda não mordida pela mosca da cinefilia, Sylvie era responsável pela fototeca. Depois passou a redatora e entrou para a “família”. No filme, porém, ela alterna louvores e questionamentos. Recorda sem rodeios a sensação de “terror” que dominava as reuniões da redação nos períodos mais politizados. O terror de parecer alienado ou ignorante. “Só me senti à vontade para apreciar Lelouch depois de ir para o Brasil”, exemplifica. Sylvie cita diversas vezes sua experiência brasileira, usando inclusive a expressão “fazer a cabeça” e dando o crédito da procedência. Não sei até que ponto a convivência de Sylvie com Glauber Rocha e com as propostas de um cinema revolucionário teriam criado um diferencial no seu olhar em relação ao dos colegas que se mantiveram ligados ao núcleo parisiense. Perguntei isso a Jean-Claude Bernardet após a sessão, mas ele limitou-se a estranhar que Sylvie tenha no filme um papel bem mais destacado que o que sempre teve na história da Cahiers.
Entre os episódios relembrados por críticos como Pascal Kané, Pascal Bonitzer, Jacques Bontemps e Bernard Eisenschitz, estão a mobilização da revista contra a censura a A Religiosa (filme assinado por Jacques Rivette, diretor da revista), a campanha em defesa de Henri Langlois e a mostra de filmes independentes de que participou A Falecida, de Leon Hirszman. As fronteiras entre crítica e teoria também são debatidas, contando com exemplos de trechos de textos lidos em off e imagens de capas e páginas da revista.
O título do filme provém da recomendação dos críticos para que determinado filme fora de cartaz fosse visto de qualquer maneira, mas com a ressalva “se possível”, em função da dificuldade de se obter cópia. Era a expressão de uma época em que a Cahiers realmente ditava os caminhos da cinefilia mundial. O doc se encerra com um letreiro informando que em 1973 a revista passou a ser editada por Serge Daney e Serge Toubiana, e sucessivamente por outros nomes até pertencer atualmente a um grande grupo editorial, Phaidon. Nas entrelinhas, lemos que a Cahiers nunca mais foi a mesma daqueles anos loucos. Oui, absolument.
A revista do Gustavo
novembro 26th, 2011 § 2 Comentários
Saiu finalmente do forno a edição 55 da revista Filme Cultura. Na capa, como se vê abaixo, a fina estampa de Gustavo Dahl. Não podia ser diferente. A Filme Cultura foi um dos últimos projetos por que Gustavo se apaixonou. Dirigir a revista juntava nele o apetite de gestor com a gana de criador. Seu desaparecimento, em junho último, deixou claro para a equipe de redação que ele próprio deveria ser o tema do número seguinte.
Embora a Petrobras ainda não tenha se definido quanto à renovação do projeto que viabilizou as edições 50 a54 (veja update abaixo), equipe e CTAv se mobilizaram para fazer essa edição com menos recursos, mas com o mesmo nível de qualidade que Gustavo impôs aos números anteriores. Como a tiragem é menor, de apenas 1.000 exemplares, não haverá venda massiva da FC55. Adistribuição será dirigida pelo CTAv e apenas alguns pontos de venda serão oportunamente divulgados.
Aqui vai, em primeira mão, a lista de matérias da revista. O site já está atualizado com a edição completa e mais alguns materiais exclusivos.
Editorial – Equipe Filme Cultura
Ensaio de uma Autobiografia – Sheila Schvarzman
Depoimentos sobre Gustavo Dahl
Gustavo: Ação, reflexão e a busca da linguagem – José Carlos Avellar
Dobrar, cortar, costurar – Ricardo Miranda
Gustavo Dahl: um avatar no cinema brasileiro – André Gatti
Cinemateca de textos 1 – Gustavo Dahl
Carta a Paulo Emilio
Frases e fotos
Cinemateca de textos 2 – Gustavo Dahl
Um Filme / O bravo guerreiro – Daniel Caetano
Um Filme / Uirá, um Índio em Busca de Deus – Carlos Alberto Mattos
Um Filme / Tensão no Rio – João Carlos Rodrigues
Curtas de Gustavo Dahl – Joana Nin
Outro olhar / A promessa, de Gustavo Dahl – João Carlos Rodrigues
A consciencia do olho, da disposição e da cena – Daniel Caetano
Cultura, mercado, dias atuais – Alfredo Manevy
Livros / O Brasil imaginado na America Latina – Carlos Alberto Mattos
E agora, Ana Luiza Azevedo?
E agora, Karim Aïnouz?
Busca avançada / A gente quer saúde e arte – Carlos Alberto Mattos
Peneira digital – Carlos Alberto Mattos
Cinemabilia
Update: Liana Correa, Gerente do CTAv, esclarece que a Petrobras já assegurou o apoio necessário à continuidade da revista no ano que vem.
Tablóide
outubro 12th, 2011 § 1 Comentário
Os fatos da vida de Joyce McKinney parecem uma sucessão de manchetes sensacionalistas: eleição de Miss Wyoming, sequestro de um namorado mórmon, sexo com correntes, prisão, bilhetes traficados na vagina, disfarces, anúncios sexuais falsificados, roubo dos originais de um livro, estraçalhamento por um cão, clonagem de outro cão… Uma história, enfim, de muitos escândalos e, paradoxalmente, uma irremediável solidão.
Em Tablóide, a própria Joyce nos oferece sua versão, num misto de ingenuidade e malícia, olhos cravados na lente do Interrotron, o equipamento criado por Errol Morris que permite ao entrevistado conversar com a imagem do diretor através de uma espécie de teleprompter. O Interrotron fornece essa mirada muito direta que tanto caracteriza as entrevistas de Morris. No caso aqui, o olhar sem intermediação é fundamental para a abordagem “bisbilhoteira”. Tablóide, afinal, é a fofoca elevada a obra de arte.
Morris explora a estética dos jornais tablóides: recortes, palavras gigantes na tela, imagens icônias/irônicas de filmes e anúncios antigos para ilustrar os relatos. O efeito de hilaridade é irresistível, à medida que as histórias se sucedem num crescendo de absurdo e de patético. A verdade é algo sem nenhuma importância na névoa dos boatos. Errol Morris não se interessa por investigar a veracidade disso ou daquilo, mas sim pelas repercussões que flutuam no espaço midiático – incluindo aí a consciência da protagonista, também ela convertida em mídia de si mesma.
Tablóide é também um filme inspirador para documentaristas. Com uma boa personagem, poucas entrevistas, um material praticamente sem custo e uma escolha firme e certa de tom, Morris dá (mais) uma aula de economia e inteligência.
Cinearte e Scena Muda na Peneira digital
agosto 10th, 2011 § Deixe um comentário
www.bjksdigital.museusegall.org.br
As revistas Cinearte e A Scena Muda tiveram um papel fundamental na formação de cinefilia e de reflexão sobre o cinema brasileiro nas décadas de1920 a1950. Até há pouco tempo, contudo, sua recuperação ficava restrita a pesquisadores que se dispunham a procurar os poucos acervos disponíveis em bibliotecas. Mas agora é diferente.
Num site especial da Biblioteca Jenny Klabin Segall, qualquer um pode consultar os textos de Adhemar Gonzaga, Pedro Lima e das primeiras gerações de críticos e repórteres cinematográficos no Brasil, bem como uma vasta iconografia da época. Para a digitalização das 110 mil páginas de 1.820 edições das duas revistas, foram reunidos os acervos do Museu Lasar Segall e da Cinemateca Brasileira, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural.
O site tem navegação um pouco lenta e não permite “folhear” as publicações. O acesso é feito página a página, no formato de PDF. Mas o internauta pode salvar cada página em seu computador para leitura offline ou mesmo impressão. Aí está um extraordinário passeio pela visão dos fãs e dos críticos que acompanharam o mercado brasileiro de cinema na primeira metade do século XX.
Duas perguntas à Deneuve
junho 10th, 2011 § Deixe um comentário
A entrevista coletiva com Catherine Deneuve ontem (quinta) no Hotel Sofitel, no Rio, começou bem atrasada, correu rápida e sequinha, como parece ser o jeito da “Madame”. Ela falou um pouco de Potiche – Mulher-Troféu, o filme de François Ozon que a trouxe ao Brasil por ocasião do Festival Varilux de Cinema Francês. Falou também sobre a era digital, envelhecimento, divismo e, claro, A Bela da Tarde.
Gravei a entrevista inteira com minha MiniDV. Abaixo, dois trechos em que fiz perguntas à atriz:
Outras declarações de La Deneuve que tenho de memória:
” Diva é coisa de ópera italiana. Acho o termo até um pouco pejorativo”
“Envelhece-se melhor na Europa e provavelmente no Brasil que nos EUA” (falando a respeito de papéis para atores maduros)
“Minha filha Chiara é mais parecida com o pai, Marcello (Mastroianni). Ela é muito italiana. Eu sou bem menos…”
“Você é que tem que me dizer o que acha das mulheres na política. Vocês têm uma presidenta. Diga o que você acha!” (devolvendo a pergunta a um jornalista)
“”Faço essa longa viagem ao Brasil para falar de Potiche e o maior destaque na internet é que eu fumei na coletiva (de São Paulo). Parece pequeno…”
Minha resposta a Filipe Furtado
março 26th, 2011 § 5 Comentários
A discussão sobre o jovem cinema brasileiro, deflagada pelos artigos de Felipe Bragança e meu em O Globo, foi retomada no blog Anotações de um Cinéfilo, do crítico Filipe Furtado. Para quem não andou por lá, segue abaixo minha resposta ao post do Filipe:
Parabéns, Filipe, pela pachorra em esmiuçar os subtextos dos dois textos. Não me importo de ser visto como crítico careta se isso significa de fato assumir uma atitude crítica perante filmes e textos correlatos. Apenas não gostaria de me ver reduzido a porta-voz deste ou daquele cinema que passa por “oficial”. Meu gosto e meus critérios são nutridos por cinefilia, honestidade comigo mesmo e amor pelas muitas acepções da beleza. Por isso é que, ao lado de alguns filmes do Salles e do Meirelles, também exalto “Serras da Desordem”, “Jogo de Cena”, “Santiago”, “Lavoura Arcaica”, “Sudoeste”, “Morro do Céu”, “Recife Frio”, “Os Famosos e os Duendes da Morte” (desculpe), “A Alma do Osso”, “Acidente”, “Nome Próprio”, “Árido Movie” e “Amarelo Manga” como alguns dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos, apenas para citar os que me lembro agora. São obras muito distintas entre si, de procedências as mais diversas, mas que têm em comum uma potência, uma integração de meios e propostas de diálogo com o espectador que me tocam e me interessam de maneira especial.
De resto, não tenho nenhum interesse em projetar uma imagem de mim mesmo através das minhas escolhas. Não pertenço a nenhum grupo, embora não tenha nada contra grupos, ao menos enquanto eles não se tornam “corpos” para comunhão de gostos e interesses.
Esse debate tem trazido à tona uma série de saudáveis revelações, além de necessárias afinações de discurso, de parte a parte. Bacana que o seu blog venha repercutir, prolongar e aprofundar essa conversa.
P.S. Muito curioso ver, entre os comentários ao post do Filipe, um de Felipe Bragança afirmando, seis dias depois, que não leu meu artigo em resposta ao dele. Que coisa, hein?!
Fábio Andrade: “Não há silêncio”
março 21st, 2011 § Deixe um comentário
Entre os muitos comentários ao meu texto Menos silêncio, por favor, aqui está mais um que justifica um realce especial no blog. É do crítico Fábrio Andrade, da Revista Cinética:
“Carlinhos, antes de mais nada acho bacana te ver entrar nessa discussão. Compartilho essa impressão de que há um certo desespero por afirmação em parte dessa geração, algo até certo ponto natural, bastante rapidamente comprado pela imprensa (a necessidade de gerar pautas é prato cheio pros manifestos, pra exaltação dos coletivos, etc, etc), mas que muitas vezes atrapalha no contato com os filmes, que é o que realmente me interessa.
Só acho complicado quando você diz que há silêncio sobre esses filmes, porque cria a impressão de um consenso que eu nunca vi existir. Porque pra isso é preciso desconsiderar (e digo não como algo inválido, mas como algo que em tese não existe) as coberturas feitas pela Cinética, pela Filmes Polvo e por um cara como o Sérgio Alpendre, por exemplo, de vários festivais onde esses filmes são exibidos. Porque se você for olhar os textos que respondem e questionam esses filmes, verá que há enfrentamentos frontais e diretos, sem que a crítica se furte de aquiescer quando percebe que um caminho interessante surge nos filmes.
A Cinética, que eu conheço melhor por razões óbvias, têm críticas bastante duras aos dois últimos filmes do Felipe Bragança e da Marina Meliande, embora o Felipe já tenha participado da revista. E não é caso isolado: os dois filmes do Gabriel Mascaro, o “Casa de Sandro” do Gustavo Beck, “Estrada para Ythaca” e diversos curtas brasileiros já suscitaram posições bem firmes na revista, basicamente porque acredito que a firmeza é necessária em todo trabalho crítico, com filmes brasileiros ou não. E digo isso com bastante tranquilidade, porque fui eu mesmo quem escreveu essas críticas e não só sei que elas existem e estão disponíveis para serem lidas, como elas geraram respostas e debates entre as partes envolvidas. São críticas, inclusive, que usam abertamente palavras como “arte” e “autoria”, conceitos que estão muito longe de serem abandonados pela crítica em nome de outros conceitos, como você indica.
Acho que textos como o seu dependem mesmo de algumas generalizações pra que a pulsão inicial deles seja transmitida, mas para que a coisa não se perca nos manifestos – dos cineastas e dos críticos – e na simples tomada de posição (algo necessário, mas que eu julgo bastante infrutífero quando não sai de si), é preciso que algumas correções de foco e de argumentação sejam feitas para que a conversa não se esvazie na convivência de monólogos. É preciso, no fim das contas, pensar que o tal “novíssimo cinema” é composto de filmes específicos e que a tal “jovem crítica” traz um conjunto de textos e pensamentos. Sugiro alguns textos pra você ver que o silêncio, se é que já existiu (tenho minhas dúvidas), já foi quebrado há muito tempo:
http://www.revistacinetica.com.br/aberturasemana.htm
http://www.revistacinetica.com.br/aalegria.htm
http://www.revistacinetica.com.br/lugaraosol.htm
http://www.revistacinetica.com.br/brasiliaformosa.htm
http://revistacinetica.com.br/tiradentes11dia9.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes10dia5.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes09curtas.htm
Fábio Andrade
Minha resposta:
Obrigado, Fábio, por fazer essa importante ressalva no âmbito de atuação da Cinética. Tenho acompanhado com grande interesse os seus textos, sempre preocupados em encontrar a medida certa para lidar com as oscilações da produção contemporânea. Mas a minha denúncia do “silêncio” diz respeito não especificamente a este ou àquele veículo de crítica, mas a algo que está além dessa trincheira e se evidencia na imposição de um certo mito do filme barato/coletivo/não-narrativo que precisa ser tratado como instrumento de uma afirmação política em lugar de obra exposta aos riscos de algum nicho de mercado. Falo de uma visão crítica que esteja além dos textos críticos, operando seja no dia-a-dia das relações interpessoais, seja no espectro maior de uma atuação política. Falo de um “silêncio” talvez para aguçar os ouvidos para as vozes dissonantes que já existem.
Menos silêncio, por favor
março 19th, 2011 § 34 Comentários
(Artigo publicado hoje no caderno Prosa e Verso de O Globo)
Tentei calar-me, mas fui vencido pela necessidade de dizer duas ou três coisas a propósito e a partir do artigo de Felipe Bragança no Prosa e Verso (O Globo) de sábado passado (leia aqui). É um texto articulado e vibrante, que faz um histórico do surgimento de um novo cinema e uma nova crítica no Brasil nos últimos dez anos, concluindo com a proposta de uma agenda de realização que contemple o “erro” e o “prazer do vazio”. Filmes como “monstros maravilhosos”, para resumir.
O artigo pede para ser lido como peça política de um movimento que se auto-intitula de “reinvenção do cinema brasileiro”. Outras peças do gênero têm se posicionado em mostras, revistas eletrônicas e sessões cineclubísticas. Isso configura um movimento de fato, embora nem todos os citados se sintam como parte de um.
Que há muitas novidades por aí, não resta a menor dúvida, mas é necessário não confundir manifestos com panegíricos. Nem toda busca leva a um encontro. Existem buscas que são belas em si, outras que apenas se acomodam no pretexto da busca para não dizer nada. O texto de Felipe, como de praxe nesse microuniverso, é recheado de afirmações mais ou menos peremptórias sobre o cinema supostamente mais adequado a este ou àquele momento. Para elevar os chamados (não por Felipe) novíssimos, é necessário rebaixar os que os antecedem. Assim é que os filmes de Walter Salles aparecem reduzidos a “um cinema-de-arte bem composto” e os de Fernando Meirelles, a “explotation (sic) do imaginário urbano”.
Quando cita O Céu de Suely (do qual foi corroteirista) como um dos marcos de influência dessa nova onda, Felipe parece desconsiderar o caminho aberto por Terra Estrangeira, de Walter Salles, para o florescimento de coisas como o maravilhoso filme de Karim Aïnouz. Prefere citar nomes mais afeitos a um perfume “de invenção” para constituir uma genealogia do seu próprio êxtase.
Esse tipo de ação política tem que ser visto com desconfiança. Que mais não seja, pela distância gigantesca entre a qualidade dos textos e a qualidade de grande parte dos filmes em que eles almejam se concretizar. É preciso desmontar o pacto de silêncio e levantar a redoma das meias-palavras a respeito do que se tem visto nas telas. Este é um texto bem pessoal, mas estou levando em conta também uma percepção do que ouço ao redor, muitas vezes em tom de cochicho para não ferir os amigos e admiradores.
Reconheço uma potência de enunciação e um desejo real de comunicação em certos realizadores e filmes pernambucanos. Os recentes longas da turma da Alumbramento (Ceará) trazem uma simpatia e uma busca estética a suprir parte do enorme vazio que ocupa o seu centro. Alguns mineiros têm seu charme e propõem radicalidades embasadas em talento plástico e escolhas bem definidas. Mas, afora isso, são poucos os filmes aptos a ultrapassar o filó de uma certa patota e a curiosidade prospectiva de alguns festivais internacionais.
Na Mostra de Tiradentes, frequentemente citada como “prova” de sucesso, afora os convidados, ver filmes na tenda é um programa gratuito e atraente para o público que aflui à cidade, sobretudo nos fins de semana. Mas, sem contar as comuns debandadas em meio à projeção, muita gente sai rindo dos filmes e fazendo comentários bem distantes do que os seus diretores gostariam de ouvir. Em muitos casos, eu dou razão a quem abandona a tenda muito antes do filme terminar, avassalados pelo tédio ou a perplexidade.
Por mais que me interesse pelo que vem sendo feito pela geração “novíssima”, não posso compactuar com a rede de proteção estendida sobre ela e por ela mesma. Em boa medida, há uma síndrome de autocontentamento com o filme barato e sem rumo. Uma espécie de masturbação recíproca coletiva acompanha os intercâmbios de talentos entre grupos e estados da federação. Uma permuta de legitimações ocupa o lugar de uma real aproximação crítica dos filmes.
Os rebentos cariocas que conheço são particularmente ineptos – e não é à toa que os filmes mais interessantes a chegarem brevemente aos cinemas sejam de dois cineastas um pouco mais velhos e à margem dessa celebração: Eduardo Nunes com Sudoeste e Eryk Rocha com Transeunte – além de um ligado à órbita da produtora Cavídeo, frequentemente “esquecida” nesse tipo de balanço, que é Gustavo Pizzi com Riscado.
Por sua vez, as realizações dos críticos-cineastas, praticamente sem exceção, têm naufragado num misto de pretensão, infantilismo intelectual, umbiguismo cool e referencialismo blasé. Elas somam a um panorama de cinefilia e filosofia mal digeridas, transformadas em filmes abúlicos.
Há marcas insistentes de um ressentimento com relação a um cinema narrativo e humanista, assim como à crítica que o valoriza ou tolera. Um patrulhamento semântico bombardeia conceitos como “arte”, “qualidade” e “autoria”, trocando-o por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. No entanto, os filmes em si demonstram que uma real inovação não se faz apenas com mudança de vocabulário e elogios em circuito fechado.
Minha experiência pessoal e minhas observações ao redor, entre jovens cinéfilos e cultuados mavericks da invenção, é de que, resguardadas as exceções, as manifestações verbais têm soado mais vistosas e articuladas que as imagens e sons atirados, a custo baixo e em mão única, no retângulo da tela.
Este texto não pretende ser um contramanifesto, muito menos um ataque indiscriminado a certo jovem cinema brasileiro. Quer ser antes uma tentativa de jogar alguma dúvida e relativização num tipo de discurso que aspira à hegemonia.
Febre de cinema
janeiro 12th, 2011 § 3 Comentários
Em primeira mão, a capa e a lista de matérias da Filme Cultura nº 53, que será lançada no dia 28, às 17 horas, na Mostra de Cinema de Tiradentes. O dossiê temático dessa edição, “Febre de cinema”, esquadrinha o sentido, a história e as modalidades de cinefilia no Brasil.
A FC 53 estará em breve no site da Filme Cultura . Ali você pode também consultar os pontos de venda da revista impressa.
Lista de matérias
EDITORIAL Gustavo Dahl
CEC, O FRAGMENTO DE UM TEMPO DO CINEMA Geraldo Veloso
PERIÓDICOS DE CINEMA NO BRASIL Hernani Heffner
SALAS DE CINEMA COMO TEMPLOS DE CINEFILIA Rodrigo Fonseca
PORQUE CINEMA É A CACHAÇA DE MUITA GENTE Débora Butruce
PEQUENO ABECEDÁRIO DE UM CINÉFILO DA PERIFERIA Marcus Vinícius Faustini
UM BREVE PASSEIO PELAS BORDAS DO CINEMA BRASILEIRO Bernadette Lyra e Gelson Santana
SGANZERLA, O CINEASTA CINÉFILO Raquel Wandelli
A CINEFILIA CANIBAL DOS FILMES DE CARLOS REICHENBACH Daniel Caetano
FILMAR COMO RETRIBUIÇÃO / WALTER LIMA JR. Fábio de Andrade
A CINEFILIA ONLINE Carlos Alberto Mattos
FILME CULTURA ENTREVISTA ADHEMAR DE OLIVEIRA
ENSAIO FOTOGRÁFICO Walter Carvalho
CINÉFILOS DE CARTEIRINHA RESPONDEM
LISTA: OS FILMES MAIS QUERIDOS DO CINEMA BRASILEIRO
CINEMATECA DE TEXTOS / ESBOÇO DE UMA ANATOMIA DO FÃ Ronald F. Monteiro
LIVROS / JAIRO FERREIRA NO SÃO PAULO SHIMBUN João Carlos Rodrigues
UM FILME / 500 ALMAS Daniel Caetano e Marcelo Ikeda
PERFIL / RUBEM BIÁFORA Gustavo Dahl
OUTRO OLHAR / O CAÇULA DO BARULHO João Carlos Rodrigues
E AGORA, LÍRIO FERREIRA?
E AGORA, ANNA MUYLAERT?
ATUALIZANDO / UMA CÂMERA, FOTOGRÁFICA, NA MÃO Marcelo Cajueiro
LÁ E CÁ / O VÍRUS BOM DO DOCTV Carlos Alberto Mattos
CURTAS / CINEMA SOBRE CINEMA Joana Nin
PENEIRA DIGITAL Carlos Alberto Mattos
CINEMABILIA
Peneira Digital: EscreVer Cinema
dezembro 7th, 2010 § 2 Comentários
O crítico José Carlos Avellar não escreve regularmente para a imprensa há um bocado de tempo, mas isso não significa que sua produção esteja inacessível. Pelo contrário, no site EscreVer Cinema, que criou há quatro anos, ele vem publicando não só textos recentes (alguns escritos originalmente para publicações estrangeiras e catálogos), como também trabalhos mais antigos, repescados em seus arquivos quando se tornam novamente oportunos.
O site permite uma navegação variada, com linhas que se cruzam para determinado texto ser acessado ou pela região de origem do filme, ou por suas vinculações com a literatura, a pintura, o documentário. Há numerosos ensaios que estabelecem relações entre filmes diversos ou exploram procedimentos cinematográficos como o plano-sequência. Além de reflexões sobre filmes exibidos em festivais internacionais (muito frequentados pelo autor), o site compreende uma sessão dedicada à análise visual de trechos de filmes e à recuperação de fotos de grandes cineastas feitas por Avellar.
EscreVer Cinema é não só uma janela para o pensamento de um dos maiores críticos de cinema do país, como também uma inspiração simples e eficaz para outros críticos organizarem e disponibilizarem seus acervos.
As asas de Angeli
novembro 25th, 2010 § 3 Comentários
Caos, crise, obsessão, poluição, velocidade. É o apocalipse ou um dia na vida de São Paulo? Nada disso, ou talvez um pouco de tudo isso. Estamos falando do mundo do cartunista Angeli. Estamos no coração de um fantástico curta que estreia esta noite no Festival de Brasília. Beth Formaggini vinha me segurando as mãos quase literalmente para que nada quebrasse o ineditismo exigido pelo festival. Pronto, acabou. Já posso escrever sobre Angeli 24 Horas.
Beth não poderia ter sido mais feliz nesta apresentação do personagem Angeli em meio a seus escrotinhos, bananas, rê bordosas, bob cuspes, freaks, políticos xexelentos, cônjuges monstruosos et caterva. O cronista que criou essa épica do vil é ele mesmo um compulsivo, cara de mal dormido, fala e gestos nervosos, como se fosse explodir dentro de 10 segundos e deixar a parede do estúdio coberta de gosma verde.
O filme potencializa essa identificação entre criador e criaturas colhendo a autoanálise de Angeli num estúdio decorado com motivos gráficos, trabalhando muito com a relação entre figura e sombra, e projetando as tiras sobre seu corpo numa espécie de instalação. Além disso, filma pontos-chave de São Paulo em ritmo acelerado e “encontra” nas ruas figuras reais que poderiam ter inspirado personagens de Angeli. Assim é que artista e cidade se fundem pela lógica dos fluxos incessantes. Embora saia pouco da prancheta, Angeli flutua com sua imaginação mórbida, radical e divertidíssima pelos espaços da metrópole, tal como o anjo de Asas do Desejo. Entre seguir em frente e mudar de rumo, Angeli opta pelas duas coisas.
Eixo quebrado entre as várias câmeras que o filmavam, ele fala de suas grandes inspirações; conta como se livrou de seus personagens mais célebres e das propostas de massificação; como encontrou na tragédia familiar do amigo (e muso) Laerte a deixa para uma guinada em sua carreira; por que prefere os diabos aos deuses na hora de riscar o papel. Para cada afirmação ou dúvida, Beth vai localizar a tirinha adequada para fazer a passagem entre pensamento e obra, movimento e resultado. Como eixo central e justificativa do título, Angeli vai preparando a charge que sairá no dia seguinte num jornal paulista.
Outro elemento fundamental para a incrível coesão artística do filme é a trilha sonora heavy e aliciante de JR Tostoi (do grupo Vulgue Tostoi). Num de seus melhores momentos, a música sampleia a voz de Angeli numa batida persistente e sublinha a evidência de que tudo nesse filme emana da pulsação de seu personagem. Não são muitos os perfis de artista com esse grau de coerência.
Onde comprar a Filme Cultura
outubro 26th, 2010 § 2 Comentários
Os pontos de venda da Filme Cultura são divulgados regularmente no site da revista. Atualmente, ela pode ser encontrada nas seguintes livrarias:
BELO HORIZONTE
Livraria Usina das Letras (Palácio das Artes)
Av. Afonso Pena 1537, Centro
(31) 3222-1317
http://www.livrariausinadasletras.blogspot.com
BRASÍLIA
Livraria Cultura
Casa Park Shopping Center
Shopping Center Iguatemi
http://www.livrariacultura.com.br (venda online)
CAMPINAS
Livraria Cultura
Shopping Center Iguatemi
http://www.livrariacultura.com.br (venda online)
CURITIBA
Livraria do Chaim Editora
Rua General Carneiro, 441
(41) 3264-3484
PORTO ALEGRE
Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country
http://www.livrariacultura.com.br (venda online)
Palavraria Editora, Livraria e Café
Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim
(51) 3268 4260
http://palavraria.wordpress.com/
RECIFE
Praça Alfândega
http://www.livrariacultura.com.br (venda online)
RIO DE JANEIRO
Livraria Leonardo Da Vinci:
http://www.leonardodavinci.com.br/ (inclusive venda online)
ou através do e-mail: clientes@leonardodavinci.com.br
Blooks Livraria
Unibanco Arteplex (Botafogo)
http://blooks.com.br/
Livraria da Travessa no seguintes pontos:
BarraShopping
Av. das Américas, 4.666 – nível Américas loja 220
(21) 2430-8100
Shopping Leblon
Afrânio de Melo Franco, 290 – loja 205 A
(21) 3138-9600
Ipanema
Rua Visconde de Pirajá, 572
(21) 3205-9002
Centro – 7 de Setembro
Rua 7 de Setembro, n. 54
(21) 3231-8015
Centro – Rio Branco
Av. Rio Branco, 44
(21)2519-9000
Centro – Ouvidor
Travessa do Ouvidor, 17
(21) 2505-0400
Centro – CCBB
Rua Primeiro de Março, 66 térreo
(21) 3808-2066
www.travessa.com.br (venda online)
SÃO PAULO
Livraria Cultura dos seguintes pontos:
- Conjunto Nacional
- Shopping Villa Lobos
- Market Place Shopping Center
- Bourbon Shopping São Paulo
- Villa Daslu
http://www.livrariacultura.com.br (venda online)
Livraria B_Arco
Rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, 426
(11) 30816986
VITÓRIA DA CONQUISTA (BA)
Literal Livraria e Papelaria
Av. Olívia Flores, 423, A
(77) 3424 5118
www.literallivraria.blogspot.com
A imprensa em seus piores dias
outubro 11th, 2010 § 12 Comentários
Quem me segue no Twitter tem testemunhado minha recente vergonha com o diploma de jornalista. Não pela profissão em si, uma das mais nobres que existem, mas pelo sentido que ela tem adquirido na grande imprensa brasileira. Estou impressionado com a quantidade de jornalistas-carneirinhos que se prestam ao jogo sujo praticado pelos grandes jornais e revistas nessa campanha eleitoral.
A grande mídia tem sido o braço auxiliar das forças conservadoras, ecoando acriticamente o denuncismo eleitoreiro, as baixarias difamatórias e, mais recentemente, o fundamentalismo religioso que infelizmente virou protagonista da campanha. Essa mídia não só ecoa, como fornece combustível para a caça às bruxas e as insinuações perversas, numa parceria sinistra para a transparência de uma sociedade democrática.
O Globo, único jornal que (ainda) assino por causa do Segundo Caderno e de alguns suplementos, abre espaços mínimos para o pensamento progressista, mas prontamente o ofusca mediante uma “seleção” de assuntos e espaços destinada exclusivamente a torpedear a candidatura de Dilma Roussef. Nenhuma realização do Governo Lula merece mais que algumas linhas em cantos de página ou perdidas dentro de alguma matéria “questionadora”, ao passo que os elogios ao governo Cabral (justos, não discuto) são uma cantilena praticamente diária. Cito isso apenas para desmentir a tese de que “jornais não são para elogiar, mas para investigar”. No caso da campanha à presidência, até a paginação do jornal reflete a escolha eleitoral dissimulada: artigos sobre Dilma na página par; textos sobre Serra na página ímpar (zona áurea da leitura). Nem caberia enumerar aqui as estratégias de edição que a cada dia procuram reforçar uma imagem negativa para a candidata oficial.
A Folha de S. Paulo, de passado épico na campanha pelas Diretas Já, hoje é, com raras exceções, um ninho de pós-yuppies tucanos dispostos a tudo para trazer as aves bicudas de volta ao poder. O Estadão, que pelo menos teve a dignidade de explicitar seu apoio a Serra num editorial, mostra-se truculento no combate ao dissenso, como ocorreu no episódio da demissão da colunista Maria Rita Kehl por conta de um artigo em que defendia o Governo Lula. A Veja… bem, há muito não a considero uma revista, mas um panfleto das elites conservadoras. Há outros grandes jornais e revistas no mercado, mas seu papel político é bem menos decisivo que o desses.
Em tal panorama repulsivo, uma coisa tem me causado um mal-estar quase físico: é a falácia de alguns jornais em se arvorarem porta-vozes da sociedade e canal obrigatório de comunicação entre governantes e governados. Artigos e editoriais revoltados condenam sites, blogs e twitters de políticos e estatais – de Cristina Kirchner e Hugo Chávez à Petrobras – por estabelecerem um contato direto entre governos e sociedade. Qualquer iniciativa nesse sentido é tomada como um ataque ao papel mediador da imprensa.
Ora, que mediação é essa? A imprensa é espaço e instrumento de poder, além de empreendimento comercial. E isso não é de hoje. Todos sabemos como os grandes jornais pediram e apoiaram o golpe de 1964, sendo que alguns se arrependeram pouco depois ao ver o monstro que tinham ajudado a criar. O sistema Globo, aliás, seguiu apoiando a ditadura até o fim. Com a mais recente “empresificação” dos meios de comunicação, estes se tornaram, ainda mais, veículos de defesa e cabos eleitorais de interesses econômicos. Um desses interesses, senão o principal, é o deles próprios. Jornais precisam conservar seu poder de influência para se manterem comercialmente fortes. Daí as reações inflamadas contra qualquer tentativa de regulação ou de bypass pelas instituições políticas que, através da internet, lhes roubam o papel de “mediador”.
No mundo inteiro, essa função da imprensa vem sendo relativizada. A cada semana recebo, por exemplo, e-mails assinados por Barack Obama (através do projeto democrata Organizing for America) discutindo suas principais inquietações. Já se foi o tempo em que o cidadão dependia da mídia para ter acesso ao que pensa o seu prefeito ou seu presidente. A internet pulverizou essa mediação, e isso nada tem a ver com autoritarismo, muito pelo contrário.
É preciso denunciar esse bordão da imprensa como instituição “neutra”, vestal intocável a serviço do bem comum. Não é. Talvez nunca tenha sido. Essa grande imprensa brasileira de hoje não me representa, assim como certamente não representa a grande maioria do povo brasileiro. Mediadores entre governantes e cidadãos são os instrumentos da sociedade civil, a livre veiculação de ideias e opiniões não tuteladas por editores comprometidos. Jornais e TVs são balcões de compra e venda, aí entendido também o comércio político.
À grande mídia brasileira não basta mais retratar o país pior do que é na verdade. Ela agora contribui para torná-lo de fato pior. É por isso que mantenho meu diploma na gaveta, à espera de que o jornalismo deixe de ser uma vitrine para a hipocrisia e o obscurantismo.
‘Filme Cultura’ discute o blockbuster brazuca
outubro 1st, 2010 § 1 Comentário
Existe uma fórmula para se fazer um blockbuster no Brasil? Como aconteceram os grandes sucessos de público desde a época do cinema mudo e dos estúdios, passando pela era Embrafilme e chegando à Globofilmes? Eis algumas perguntas que nortearam a pauta da edição 52 da revista Filme Cultura, que chega ao público agora, durante o Festival do Rio.
O lançamento será neste domingo, 3 de outubro, às 18h, na sede do festival, Espaço Ação e Cidadania (Rua Barão de Tefé, 75, Centro). Uma mesa vai reunir os produtores Diler Trindade e Pedro Carlos Rovai, o distribuidor Marco Aurélio Marcondes e o diretor da revista Gustavo Dahl, em torno do tema “A Fórmula do Blockbuster – Como Conquistar o Público”. Com entrada franca, os presentes vão receber a revista gratuitamente e poderão comprar a coleção facsimilar 1966-1988 ao preço (bastante) promocional de 50 reais.
A seguir, a lista de matérias da Filme Cultura 52:
Editorial Gustavo Dahl
Uma história de exceções Luciana Corrêa de Araújo
Em busca do sucesso (a qualquer preço): a era dos estúdios João Luiz Vieira e Rafael de Luna Freire
Anos 1960 e 70: as contas do nacional-popular Carlos Alberto Mattos
Como era erótico nosso cinema Alfredo Sternheim
Discutindo a relação: casamento Globo Filmes-cinema Susana Schild
Filme Cultura Entrevista Daniel Filho da redação
Questionário aos produtores da redação
A dama do lotação – o produto e seu lançamento no mercado João Carlos Rodrigues
A sala de cinema e a sala de estar Bernardo Oliveira
Cidade de Deus Marcelo Cajueiro
Filmes regionalistas industriais brasileiros André Piero Gatti
Arrasando quarteirões João Carlos Rodrigues
Cinemateca de Textos / Mercado é cultura Gustavo Dahl
Difusão é cultura Daniel Caetano
Curtas Joana Nin
Um filme / A erva do rato por Ruy Gardnier e Jorge Vasconcellos
Perfil / Roberto Farias Luís Alberto Rocha Melo
Busca avançada Daniel Caetano
E agora, Paulo Sacramento?
E agora, Vladimir Carvalho?
Atualizando Caio Cesaro
Peneira digital Carlos Alberto Mattos
Cinemabilia
Lula, o filme, 2º round
setembro 23rd, 2010 § 5 Comentários
Não vou discutir aqui os méritos da escolha de Lula, o Filho do Brasil para disputar uma indicação ao Oscar. Participei no ano passado dessa comissão e sei que os critérios finais não dizem respeito somente à qualidade artística do filme, mas levam em conta, com peso alto, todas as variantes que podem influir na avaliação do filme por espectadores estrangeiros.
Vejo que o anúncio redespertou a fúria dos detratores do filme, especialmente num momento em que as hordas anti-Lula estão alvoroçadas para impedir uma vitória de Dilma Roussef no primeiro turno. Em seu blog, por exemplo, Artur Xexeo achou por bem destacar as restrições de uma resenha publicada hoje no jornal La Nación. O texto dele se refere a uma única resenha, mas o título pode sugerir que toda a crítica argentina “detonou” o filme. A nota diz assim:
Crítica argentina detona ‘Lula, o filho do Brasil’
“A incrível história de vida de Lula da Silva merecia um filme melhor, mais interessante e mais profundo que ‘Lula, el hijo del Brasil’”. Esta é a avaliação da crítica Natalia Trzenko, publicada nesta quinta-feira no jornal argentino “La Nacion”, sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto, que está estreando em Buenos Aires. “Cada episódio da vida do presidente do Brasil é mostrado como se fosse um manual de História escrito por seu biógrafo oficial”, continua a crítica, que deu ao filme a cotação “regular”. O roteiro é considerado “limitado e superficial” pela crítica, que só livrou a cara de Gloria Pires, que, na avaliação do jornal, interpreta “com maestria” o papel de dona Lindu.
Como se vê, os adjetivos e trechos destacados por Xexeo não chegam a justificar o verbo “detonar”. No texto de Natalia Trzenko há elogios também para a performance de Rui Ricardo Díaz e para a cena do comício sem microfone em São Bernardo. Mas os comentários da resenha, no site do La Nación, já incluem o de um brasileiro cheio de vergonha pelo filme e pelo povo que elegeu Lula. O filme de Fábio Barreto virou um catalisador de paixões em torno do seu personagem. Mais de ódio, talvez, que de amor.
“Filme Cultura”, obra completa
junho 26th, 2010 § 3 Comentários
Transcrevo a seguir o release de lançamento da Coleção Filme Cultura e do número 51 da revista.
Coleção histórica da revista Filme Cultura será lançada dia 1º de julho junto com a edição nº 51
Todos os números históricos da revista Filme Cultura que circularam entre 1966 e 1988 estão finalmente preservados. O Centro Técnico Audiovisual – CTAv/SAV/MinC acaba de editar uma coleção com cinco livros de capa dura contendo as 48 edições do período, além de duas revistas especiais, feitas para os festivais de Cannes e Berlim. O projeto é uma iniciativa do Instituto Herbert Levy e tem patrocínio da Petrobras. Além da coleção histórica impressa na edição fac-similar, as quase 4.000 páginas publicadas naquele período já estão disponíveis no setor de periódicos da Biblioteca Nacional em microfilmes e a partir de 1º de julho estarão também no site www.filmecultura.org.br.
A revista Filme Cultura voltou a circular em 2010 e tem cinco novas edições garantidas neste mesmo projeto. O nº 51 será lançado no mesmo dia da coleção histórica. Em seu período histórico, a Filme Cultura foi editada sucessivamente pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo – INCE, o Instituto Nacional de Cinema – INC, a Empresa Brasileira de Filmes – Embrafilme e a Fundação do Cinema Brasileiro – FCB. Depois de 19 anos fora de circulação, o Centro Técnico Audiovisual – CTAv/SAv/MinC lançou em 2007 a edição especial nº 49, comemorativa dos 70 anos do INCE. Em abril de 2010 foi lançado o nº 50 e a revista voltou a circular regularmente com periodicidade trimestral.
A Coleção
Os cinco volumes da coleção fac-similar reproduzem fielmente as edições de 1966 a 1988 de Filme Cultura. Ali foi feita a crônica do cinema brasileiro e de aspectos importantes do cinema internacional no período. Em suas páginas, encontram-se textos hoje clássicos de Jean-Claude Bernardet, Sérgio Augusto, Antonio Moniz Vianna, Ismail Xavier, Inácio Araújo, João Luiz Vieira, Rogério Sganzerla e Jairo Ferreira, entre muitos outros. A revista contou, entre seus editores, com Ely Azeredo, Flávio Tambellini, David Neves, José Carlos Avellar, Cláudio Bojunga e João Carlos Rodrigues.
O conteúdo da revista abrangia críticas de filmes, ensaios, pesquisas, entrevistas, perfis, catalogação de diretores brasileiros e internacionais, bem como artigos sobre técnica, produção, mercado, festivais e premiações. Há também um precioso material iconográfico sobre a história do cinema brasileiro, fundamental para cinéfilos, pesquisadores e estudantes.
A Coleção pode ser adquirida ao preço de R$ 100,00 nas principais livrarias do país. Os pontos de venda, válidos também para os números recentes da revista, são divulgados no site www.filmecultura.org.br.
O número 51
A edição nº 51 de Filme Cultura é centrada nos personagens do cinema brasileiro. Como destaca no editorial o diretor da revista, Gustavo Dahl, “a proposta deste número de Filme Cultura é recontextualizar a questão dentro do cinema brasileiro histórico, moderno ou contemporâneo.” Assim, personagens populares, marginais e intelectuais, personagens de documentários e de tramas multiplot receberam a atenção de articulistas tanto pertencentes ao corpo de redatores da revista, como convidados de diversas regiões do país e distintas inserções no estudo do cinema brasileiro. Fernanda Montenegro e Selton Mello ganharam matérias especiais pela riqueza de suas galerias de personagens.
A revista traz também as mesmas seções do nº 50, que lançam um olhar às margens do mercado, à história do cinema brasileiro e a disciplinas correlatas à do cinema. A seguir, a lista das matérias de Filme Cultura nº 51:
Editorial – Gustavo Dahl
O filho desviante e a morte do pai – João Silvério Trevisan
Quando a narrativa perde o centro – Cléber Eduardo
A vida depois do doc – Carlos Alberto Mattos
Coutinho, o cinema e a gente – Daniel Caetano
Heróis do real – Carlos Alberto Mattos
Carapiru e Orson Welles: a melhor defesa é o ataque – Daniel Caetano
Entrevista com Silvio de Abreu – Daniel Caetano
Personagens e tipos do cinema popular – João Carlos Rodrigues
Intelectuais na linha de frente – Luís Alberto Rocha Melo
Margem sem limites – Cássio Starling Carlos
Zulmira, Romana, Dora… Fernanda – Ivonete Pinto
Entrevista com Selton Mello
Um filme: Estômago – Fábio Andrade e Rodrigo de Oliveira
Perfil: Walter da Silveira, advogado do cinema – Orlando Senna
Cinemateca de textos: Jean-Claude Bernardet
Outro olhar: Grande sertão: veredas, Avancini em grande estilo – João Carlos Rodrigues
E agora, Laís (Bodanzky)?
E agora, Ivan (Cardoso)?
Lá e cá: O desconhecido cinema de nossos vizinhos argentinos – Daniel Caetano
Busca avançada: Cinema passageiro – Carlos Alberto Mattos
Curtas: De/com/sobre/para Helena Ignez – Joana Nin
Atualizando: A morte do transfer? – Marcelo Cajueiro
Livros: História e economia do cinema e do audiovisual no Brasil: passado, presente e futuro – André Gatti
Peneira digital – Carlos Alberto Mattos
Cinemabilia: Simão, o caolho
SERVIÇO
Lançamento da Coleção fac-similar e do nº 51 da revista Filme Cultura
Data: 01/07/2010 no site www.filmecultura.org.br
Evento no Rio de Janeiro e São Paulo para imprensa e convidados.
Assessoria de imprensa: Bárbara Skaba (21) 9766-1598 / barbara.skaba@gmail.com
Simpatia política não garante bons filmes
junho 16th, 2010 § 6 Comentários
Quem me conhece e lê meus textos, sabe que estou acima de suspeitas para falar mal de um filme de esquerda. Por isso me sinto à vontade para rebater algumas opiniões sobre a recepção crítica ao doc Ao Sul da Fronteira, de Oliver Stone. Já li vários textos citando a má vontade da mídia para com o filme. Não nego que a má vontade exista, mas não acho que seja a única responsável pelas resenhas frias ou negativas. Mesmo porque, na maioria dos casos, os críticos de cinema não costumam se pautar exatamente pela linha editorial dos veículos.
Falando honestamente, o filme decepciona mesmo quem concorda que a mídia conservadora demoniza Fidel, Chávez e Morales. Stone fez, sem dúvida, um filme teoricamente necessário para se contrapor às mentiras da imprensa, mas a debilidade do resultado depõe contra suas ótimas intenções. A pesquisa é incipiente, a narração dos eventos do governo Chávez é confusa, e a improvisação dá o tom onde deveria haver reflexão e aprofundamento.
Stone, definitivamente, não é Michael Moore – embora o cite logo no início do filme. Sua turnê às Américas do Sul e Central parece uma sucessiva adulação de líderes, sem maior atenção à realidade de cada país. A falta de nuances compromete a argumentação. Chávez, por exemplo, jamais é questionado sobre sua sede de permanência no poder, que tanto prejudica a reputação de sua revolução bolivariana. Coube a Nestor Kirchner a única referência a esse aspecto. Kirchner, aliás, é responsável pela mais alarmante revelação: George W. Bush teria dito a ele, em tom raivoso, que a guerra contra o Iraque iria fomentar a economia americana.
Lula, cá entre nós, também dá um show de carisma e segurança em seu encontro com “Oliver”.
Mas nada disso confere ao doc a importância que Stone almejava. E para isso contribui não só a indisposição da mídia ofendida, mas também a carência de valor retórico, histórico e cinematográfico. O filme vive somente da simpatia política, razão da minha cotação mediana na coluna à direita.
Como radiografias do novo panorama político “ao sul da fronteira”, são muito mais consequentes, matizados e interessantes o brasileiro Pachamama, de Eryk Rocha, e o uruguaio Con los Ojos Bien Abiertos, de Gonzalo Arijón, exibido no É Tudo Verdade do ano passado.
Pernambuco, pernambucos
maio 11th, 2010 § Deixe um comentário
Lançado no Cine-PE e trazido por Joana Nin, recebi um exemplar de O Novo Ciclo de Cinema em Pernambuco – A Questão do Estilo, de Amanda Mansur Custódio Nogueira (Editora Universitária UFPE). O livro, resultado de uma dissertação de mestrado, procura investigar se existe, de fato, esse tal “cinema pernambucano” de que tanto se fala desde a erupção de Baile Perfumado (1997).
A resposta de Amanda é sim, mas para caracterizar o “novo ciclo” ela concentra o estudo em oito longas-metragens de um grupo mais ou menos coeso: Baile Perfumado, O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, Amarelo Manga, Cinema, Aspirinas e Urubus, Árido Movie, Baixio das Bestas, Cartola e Deserto Feliz. Marca de estudo acadêmico é concentrar para aprofundar. Assim Amanda encontra sinais de identificação estilística como a auto-referencialidade, a brodagem, o “privilégio à música” e as problematizações identitárias. A análise converge para reforçar a imagem de grupo e, a partir dela, a ideia de ciclo.
É interessante confrontar a argumentação de Amanda com a matéria de Luiz Joaquim para a revista Filme Cultura 50. A certa altura de Os Frutos da Audácia Pernambucana, depois de citar quatro dos longas acima, o jornalista sustenta que “tentar enxergar Pernambuco por apenas qualquer um dos quatro filmes ou por eles reunidos seria redutor”. Daí seu artigo abarcar também manifestações decisivas na área do curta-metragem e do documentário. A revitalizadora produção da Símio, os curtas primorosos de Kléber Mendonça Filho e os docs de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso não podem ser deixados de lado quando se pensa no cinema pernambucano atual.
Amanda e Luiz Joaquim se complementam na medida em que a matéria dele atualiza e amplifica o livro dela, enquanto o livro embrenha-se com boa disposição no manguezal estético dos longas e nas origens do ciclo.
Lançamento da ‘Filme Cultura’
abril 29th, 2010 § 4 Comentários
A ‘Filme Cultura’ está de volta
abril 21st, 2010 § 9 Comentários
Como integrante do grupo de redatores da nova revista Filme Cultura, coube a mim escrever o release do lançamento, que vai acontecer na próxima terça-feira. Aí vai, portanto, o que interessa saber enquanto a revista não chega a suas mãos:
A revista Filme Cultura, uma referência de leitura sobre cinema no Brasil entre 1966 e 1988, volta a ser publicada a partir deste mês. O lançamento da edição número 50 será na terça-feira próxima, dia 27 de abril, das 18h30 às 21h30, na Casa de Rui Barbosa, no Rio.
O novo projeto Filme Cultura consiste, além da revista, no lançamento do website www.filmecultura.org.br e da coleção histórica em versões fac-símile e microfilmes, esta em convênio com a Biblioteca Nacional. Para viabilizar o projeto, foi feita uma parceria entre o Centro Técnico Audiovisual – CTAv/SAv/Minc e o Instituto Herbert Levy, com patrocínio da Petrobras através dos incentivos da Lei 8.313/91 (Lei Rouanet).
2009 – revisão crítica
abril 19th, 2010 § 2 Comentários
Começa amanhã (terça), no Instituto Moreira Salles, a mostra 2009 Segundo a Crítica. Ela reúne os filmes eleitos pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro como os melhores do ano passado e mais alguns títulos latino-americanos premiados pela Fipresci – Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica e pelo júri de críticos do Festival Iberoamericano de Guadalajara (México).
Os escolhidos pela ACCRJ foram Entre os Muros da Escola / Laurent Cantet (o número 1 da turma), Amantes / James Gray, Beijo na Boca Não / Alain Resnais, Bastardos Inglórios / Quentin Tarantino, Cidadão Boilesen / Chaim Litewski, Deixa Ela Entrar / Tomas Alfredson, A Troca e Gran Torino / Clint Eastwood e Foi Apenas um Sonho / Sam Mendes. Ficou fora da mostra Abraços Partidos / Pedro Almodóvar, por falta de cópia disponível.
Esse ano, por motivo de força maior, não participei do processo de escolha na ACCRJ. Não sei até que ponto meu voto teria influído para incluir filmes que admirei muito, como Três Macacos / Nuri Bilge Ceylan, Desejo e Perigo / Ang Lee, É Proibido Fumar / Ana Muylaert e O Equilibrista / James Marsh, em detrimento de outros que valorizo bem pouco. Mas a associação é um conjunto eclético de colegas com preferências bem diferentes, e a lista final reflete essa diversidade.
Haverá três debates reunindo críticos da ACCRJ, amanhã, quinta e na terça seguinte, dia 27.
O apêndice da mostra, programado por José Carlos Avellar para os dias 28 e 29, vai permitir a revisão de um simpático filme uruguaio, Gigante / Adrian Biniéz, um excelente doc brasileiro, Entre a Luz e a Sombra / Luciana Burlamaqui e o docexploitation Garapa, de José Padilha.
Para a programação completa dos dias 20 a 27, consulte o site da ACCRJ.
A capa!
abril 9th, 2010 § 6 Comentários
Notas sobre o partido da imprensa
fevereiro 8th, 2010 § 3 Comentários
1.
Há quase oito anos acompanho nos jornalões o que chamo de “colunismo do mas”. Desde o início do governo Lula, articulistas como Merval Pereira e Miriam Leitão, de O Globo, militam na inglória tarefa de semear dúvidas sobre a política econômica. A cada iniciativa ou sucesso do governo, eles admitem o óbvio para logo em seguida contrapor um “mas…”. Ora é a crise internacional que vai mostrar suas garras; ora é a insuficiência das medidas para um futuro próximo; ora são indicadores menores que não acompanham o êxito dos maiores.
Os meses passam, a economia se mantém firme, mas o “colunismo do mas” renova sua retórica pateticamente. Novos sucessos têm que ser admitidos, mas…
Nesse domingo, Merval Pereira comentou a indiscutível ascensão da renda da classe média, mas foi pesquisar autores que colocam em dúvida a sustentabilidade desse quadro baseado no aumento do consumo. É sempre assim: o governo Lula é um sucesso, mas o preço do carretel de linha continua subindo e não dá pra garantir que em 2050 o país esteja bem.
OK, ninguém está pedindo um coro de contentes, mas até quando teremos que aguentar o coro dos descontentes batendo latinha enquanto passa a caravana de um Brasil melhor?
2.
Se tenho cá as minhas dúvidas sobre os métodos e a fanfarronice de Hugo Chávez, as dúvidas são maiores ainda sobre a maneira como a grande mídia conservadora brasileira o pinta dia após dia. As reações contra a recente cassação da concessão de uma rede de TV serviram para desenhar o perfil de um país “dividido” – como se a democracia não fosse justamente a arte de administrar divisões.
O Globo de domingo também trouxe uma matéria com depoimentos de admiradores e desafetos do governo Chávez. Basta comparar os argumentos de cada lado para perceber que há uma cisão entre camadas populares e as classes média e alta. A opção do presidente pela redução de desigualdades está levando a luta de classes à esfera das políticas públicas. Mais uma prova da genialidade política de Lula foi seguir esse caminho sem botar o país na rota da polarização.
O que mais me espanta nessas notícias de Caracas são as imagens dos estudantes que assumiram a defesa de uma empresa de televisão e protestam contra o governo. Eles podem até ter razão, mas precisavam parecer uma milícia de pitboys parrudos? Ou, pior ainda, como nessa foto de Fernando Vergara/AP, uma coluna perfilada com saudação fascista e máscaras brancas que remetem à Ku Klux Klan?
3.
A mídia conservadora abraça acriticamente todos os signos e falsos questionamentos que contam a favor de suas escolhas. Sim, porque é ingenuidade ou canalhice achar que os grandes jornais e redes de TV são meros instrumentos da liberdade e da democracia. Eles o são apenas na parte cosmética. No fundo, são empresas que fazem escolhas políticas e se aproximam da condição de um partido informal. Orientações explícitas correm em surdina pelas redações. São todos contra Lula e contra Chávez, embora poucos assumam isso frontalmente como a revista Veja.
O resto é demagogia e manipulação.
Quem tinha medo de Paulo Francis?
janeiro 23rd, 2010 § 2 Comentários
Não é preciso ser um admirador de Paulo Francis para gostar de Caro Francis, o documentário de Nelson Hoineff sobre um de seus maiores amigos durante 19 anos. Eu mesmo rejeitava o elitismo que parecia atravessar a personalidade inteira do jornalista – da política à cultura, do humor à baixa estima que destilava pelas coisas brasileiras. Francis era republicano, antipopular, racista, sexista, talvez um tanto misantropo – ou seja, tudo o que pessoalmente abomino. No entanto, apreciei este perfil traçado com honestidade pelos seus próprios amigos e ex-colegas de trabalho. Continue lendo
Críticos –> cineastas –> críticos
novembro 16th, 2009 § 4 Comentários
No Meu Lugar é um filme que se define melhor pelo que não quer ser. Não quer ser filme de gênero, nem filme de arte. Não quer ser sociológico, nem político. Não quer ser um filme “representado”, nem experimental, nem linear. Não quer ser óbvio, mas também não quer ser obscuro. É um filme empenhado em fugir de fórmulas e definições. Para isso, cada inflexão dos atores e cada movimento de câmera parece obedecer a uma rigorosa consciência sobre construção do plano e efeito da montagem.
O resultado é a hegemonia do cálculo em detrimento do pathos. Um filme anódino no seu esforço para escapar a qualquer armadilha. Um filme onde até as qualidades parecem conspirar contra: o rigor vira rigidez, a contenção vira frieza, a desdramatização vira esvaziamento.
O fato de seu diretor, Eduardo Valente, ser um dos fundadores das revistas eletrônicas Contracampo e Cinética não transforma necessariamente o filme num manifesto audiovisual da chamada “nova crítica”, da qual ele é um dos expoentes. Mas, inevitavelmente, suscita uma indagação: será esse cinema autopoliciado o que almejam os críticos dessa geração? Continue lendo
Caro Francis
outubro 5th, 2009 § Deixe um comentário
Doc bio. A veia polemista e meio clownesca de Paulo Francis aflora mesmo nas lembranças dos que o admiravam e com ele conviveram ativamente. Isso faz do doc de Nelson Hoineff um passeio delicioso pelo reino da opinião desabrida, muitas vezes irresponsável, do autor do Diário da Corte. O filme é quase um rap de frases feitas e citações jocosas do próprio Francis, mais as tentativas dos amigos de definir o seu caráter ciclotímico e o brilho grosso de sua retórica. A maior ironia, porém, é ver Paulo Maluf elogiar sua sinceridade. O melhor de tudo é que Hoineff dispôs de um material de arquivo preciso para ilustrar cada momento da carreira do amigo, mostrando muitas vezes a frase ou a palavra exata que detonou cada episódio. Uma série de take-outs complementam a construção de um personagem realmente singular na televisão brasileira. ♦♦♦
Conta outra
setembro 9th, 2009 § Deixe um comentário
Mentiras sinceras interessam, cantava Cazuza. Mentiras essenciais são o que importa, poetava Waly Salomão.
Mas há mentiras que não são sinceras nem essenciais. São puras, deslavadas enganações. Elas surgem a todo momento, especialmente na mídia e na internet. Quantas vezes você não tem vontade de abrir a janela e gritar “Não! Isso é mentira!”.
Compreendi que, de alguma forma, o Twitter pode fazer as vezes dessa janela. Você vai ali e, em essenciais 140 toques, diz que não acredita em determinada lorota. Pelo menos seus amigos seguidores saberão o que você pensa.
Para isso, criei no meu Twitter a hashtag (palavra-tema) ”#contaoutra“. Sempre que não acreditar numa história corrente, vou contar ali no microblog. Convido os amigos a compartilharem a hashtag, gritando na sua própria janela o que achar que é mera conversa fiada.
Desde sexta-feira, já postei as seguintes patranhas no #contaoutra:
- “O governo” está fraudando a mega-sena. Só ganham “laranjas”. A mídia só não denuncia porque “o governo” não deixa.
- O Estação abandonou as salas do novo prédio porque a UPA desvalorizou o lugar como entretenimento.
- A Argentina tem futebol.
- Os Normais 2 merece algum tipo de aplauso.
- O Globo tem revisores e copidesques.
- Trabalho escravo é flagrado em obra do PAC (Folha SP). Conheça a verdade: http://is.gd/329RF
- O “socialista” Obama vai comer as criancinhas estudantes dos EUA.
Ao final de todas essas frases, ouçam o meu mais sincero “então, tá”.
Títulos
julho 27th, 2009 § Deixe um comentário
Sou apaixonado por títulos. Mais do que resumir uma obra, um veículo ou uma instituição qualquer, eles agregam sentidos, apontam direções, funcionam como despistes. Para Arthur Omar, por exemplo, intitular um filme ou uma fotografia é atribuir-lhe uma máscara, um disfarce. Certos títulos são obras em si, como O Inútil de Cada Um (livro de Mário Peixoto) ou Cinema Transcendental (disco de Caetano). Outros são piadas que se consagram, como Oito e Meio de Fellini.
Quando surgiu a revista piauí, a princípio gostei do nome. Era súbito e sonoro, imprevisível. Depois desgostei quando o associei à postura esnobe da revista para com o mundo aquém da alta cultura. Agora tomei conhecimento da existência de uma revista de cinema chamada Juliette, já em sua nona edição. De cara, achei interessante. Logo pensei nas Juliettes Binoche, Gréco, Lewis. Mas aí topei com a explicação do título pelos editores da revista:
“Juliette ou a Condessa de Lorsange representa, na obra do Marquês de Sade, o espírito transgressor necessário para a crítica que ele constrói à sociedade do período Iluminista e dos atos que presencia durante a Revolução Francesa - muitos na guilhotina. Este período de crimes em nome de ideais, Sade transforma em personagens cruéis, como a filósofa Juliette, em busca “dos descaminhos do coração humano”.
Fiquei pasmo. De onde saiu essa ideia estrambótica? Continuo achando o título gostoso, com esse tempero francês que tanto associamos ao cinema. Mas preferia não ter conhecido a justificativa.























