O ontem e o hoje nos docs musicais

abril 6th, 2012 § 7 Comentários

Ano que vem, mês que foi / É a mesma dança, meu boi

Os documentários sobre música são o maior filão do cinema brasileiro contemporâneo. Se não em matéria de bilheteria, pelo menos no que diz respeito ao interesse dos cineastas. Quando vemos veteranos como Nelson Pereira dos Santos e Vladimir Carvalho, realizadores de sucesso como Walter Carvalho e Pedro Bial, um diretor experiente como Marcelo Machado e relativos principiantes como Renato Terra e Ana Rieper se lançarem nessa seara em quase simultaneidade, é porque alguma coisa de importante e sedutor está acontecendo.

Fico especulando sobre o que tanto atrai nos documentários sobre música. Bem, para começo de conversa, este é o campo mais romântico da cultura brasileira. Romântico não no sentido de gênero, mas como fornecedor de histórias exemplares e personalidades exuberantes que atendem a um certo desejo de consumo das plateias. Com raras exceções, não há nada que se compare na literatura, no cinema, nas artes plásticas ou mesmo no teatro brasileiro. Docs sobre música têm uma dramaturgia que parte da vida mais ou menos exposta de seus personagens. Contam com flashbacks garantidos por conta dos registros de shows, entrevistas, filmes etc. E, ainda por cima, encontram a trilha sonora praticamente pronta.

A maioria desses filmes faz ainda dois nexos nada desprezíveis: da música com a História e com o cinema. Uma Noite em 67, Tropicália e Rock Brasília explicitam a relação com a História na medida em que se assumem como evocações de momentos definidores da moderna cultura brasileira. Jorge Mautner – O Filho do Holocausto, Raul – O Início, o Fim e o Meio e A Música Segundo Tom Jobim, embora se refiram a um determinado artista, têm a capacidade de plasmar, de diferentes formas, um certo espírito de época. Ao assisti-los, o espectador tem a sensação de experimentar um tipo de retorno, que é ao mesmo tempo vivência virtual e ensaio de compreensão.

As relações da música com o cinema são não apenas incorporadas no uso de materiais de arquivo, como também nos filmes em que se aventuravam diversos ícones da música, especialmente nos anos 1960 e 70. Em Mautner, conhecemos cenas impagáveis de O Demiurgo, filmado pelos tropicalistas no exílio londrino. Em Raul, somos apresentados ao ainda mais maldito Contatos Imediatos do 4º Graal, ensaio satanista da tal Sociedade Alternativa, de que Raul Seixas foi o principal divulgador. Tropicália, em sua grande colagem (procedimento tropicalista por excelência), inclui trechos de diversos filmes diretamente relacionados com o movimento. A biografia dos tropicalistas e adjacentes, por sinal, está cheia de cineastas bissextos ou abortados.

Vários desses filmes estão formando uma espécie de único grande filme sobre a música dos anos 1960 e 70, tal é a quantidade de sobreposições de personagens, entrevistados (Nelson Motta e Caetano Veloso à frente) e materiais de arquivo. Mas é justamente a proporção dos “filmes de ontem” dentro do “filme de hoje” que acaba por definir algumas variações nesse modelo mais ou menos cristalizado de doc musical brasileiro.

Um extremo desse espectro é ocupado pelo filme de Nelson sobre Tom, onde o “filme de hoje” resume-se à mera organização dos “filmes de ontem”, e assim mesmo só clipes de música. Não há entrevistas, nem revisitas, nem rememorações. O “hoje” é completamente apagado em benefício das performances já gravadas. Uma Noite em 67  também privilegiava os registros do festival pela TV, usando os depoimentos atuais como um making of  oral retroativo. Ou seja, o “hoje” estava completamente a serviço do “ontem”.

Da mesma forma, Tropicália reduz o “hoje” a uma ilustração do “ontem”, na medida em que desloca quase todas as falas para o áudio, subjugadas à pletora de arquivos. Numa espécie de clipão dos pontos mais luminosos do movimento, o filme de Marcelo Machado emula até mesmo a estética tropicalista: remete as imagens do passado a uma estética do passado quando aplica videografismos baseados nos traços e cores da época.

Nessa dialética entre ontem e hoje, Mautner e Raul parecem os mais equilibrados. Jorge Mautner – o Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, conta com a presença vivíssima do protagonista e atualiza sua veia performática em cenas e show gravados especialmente para o filme.

A História, para Mautner, é uma velha dama com quem ele não se cansa de dançar. O doc faz, portanto, o confronto permanente do que foi e do que ainda é.

O caso de Raul – O Início, o Fim e o Meio é ainda mais curioso, já que Raul Seixas não está mais aqui para criar um presente. Este emerge nas figuras de seus sucessivos parceiros e companheiras. Tentar encontrar no Paulo Coelho de hoje, por exemplo, o que teria ficado do Paulo Coelho de ontem é um dos exercícios mais desafiadores para quem vê o filme. As lembranças das mulheres, por sua vez, pontuam com clareza a montanha-russa do que foi a breve vida do Maluco Beleza. A perseverança com que Walter Carvalho, nas entrevistas, tenta fazer as pessoas cantarem as músicas de Raul é outro dispositivo de atualização poética da obra.

Embora contenha razoáveis porções de “filmes de ontem” para mostrar o protagonista, Raul tem seus (ótimos) momentos em que o “filme de hoje” se impõe com autonomia e graça. Basta citar o episódio da mosca na conversa com Paulo Coelho – reparem que ele “mata” Raul simbolicamente –, o ex-cunhado que dá entrevista armado de revólver e as reações de Kika Seixas aos comentários da filha Vivi. Em casos assim, o fortuito de hoje não só representa um plus de entretenimento, mas também joga novas camadas de sentido ao que já virou História.

Um cabaré filosófico para Mautner

março 24th, 2012 § 2 Comentários

É Tudo Verdade – A abertura carioca do festival ontem (sexta) foi em total clima de festa. Amir Labaki, Jorge Mautner, o produtor Paulo Mendonça (Canal Brasil) e Heitor D’Alincourt, um dos diretores do filme, receberam uma plateia lotada (duas salas) para ver Jorge Mautner – O Filho do Holocausto. Ao final da sessão, não havia lugar para tantos sorrisos.

O filme de Pedro Bial e D’Alincourt (que passa hoje, sábado, em sessão aberta às 17h no Espaço Itaú de Cinema, ex-Arteplex) é de uma grande felicidade em captar o espírito performático de Mautner e abrir veredas para melhor compreendê-lo. Mautner é um tesouro semi-escondido na cultura brasileira: poeta, músico, pintor, filósofo, performer. Quem o conhece de fato além dos iniciados? Sem didatismo nem camisa-de-força biográfica, o doc faz esse serviço com graça e competência.

É um doc-show assumido. Nos muitos números musicais em que Mautner se apresenta com uma banda afiadíssima e participações de Caetano e Gil, assim como nas conversas gravadas numa estranha sala cheia de poltronas e móbiles – onde as pessoas falam frequentemente para “ninguém” –, rola um certo clima de estúdio de televisão, algo que tende a apequenar esteticamente as cenas. No entanto, esse handicap é sobejamente suplantado por uma indisciplina interna, uma impressão de caos (ou “kaos”) organizado que preenche tudo com a inteligência e a solenidade irônica do personagem.

Mautner ora aparece lendo trechos de suas memórias, O Filho do Holocausto, ora cantando ou declamando em clima de cabaré filosófico, ora trocando ideias com gente querida. A conversa com a filha Amora sobre os “micos” que ela pagou na infância por causa do pai está entre os momentos antológicos desse tipo de “papo-família” em documentários. O encontro com Gil e Caetano diante das imagens de O Demiurgo, piração filmada em Londres, 1970, é outra passagem fadada ao inesquecível. De uma ponta à outra, o filme diverte e adensa o perfil de Mautner, esse extremista de centro que tomou as ideologias como um parque de diversões.

O roteiro e a montagem são excelentes. Tiram partido de frases, canções e materiais de arquivo para construir um ensaio documental. As cenas de arquivo têm um papel criativo logo no início, quando imagens da II Guerra, ao som de Lágrimas Negras, marcam o ponto inicial de todas as obsessões do “filho do Holocausto”. Ou mais adiante, quando uma apresentação de palhaços num estádio de futebol comenta ironicamente o relato de uma briga (quase fatal) por causa do Corinthians.

Mas o melhor de tudo é a liberdade que Mautner e o filme se autoconcedem para aprofundar, sempre em tom de performance, o que existe de grave, complexo e ambíguo na persona desse pensador incansável.

Nosso primeiro Oscar?

fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário

João Luiz Vieira me apresentou a pesquisa de seu ex-aluno Felipe Haurelhuk, cuja monografia de conclusão de curso (TCC) foi sobre a presença do Brasil no Oscar desde 1929. Segundo o professor, Felipe “descobriu dados bastante interessantes, tudo muito bem documentado, incluindo pesquisas na biblioteca da Academy of Motion Pictures, em Los Angeles”. A meu pedido, Felipe escreveu esse artigo sobre as chances de nossa música faturar o primeiro Oscar para o Brasil. 

O primeiro Oscar para o nosso cinema

Felipe Haurelhuk

A proximidade do Carnaval e as altas temperaturas do verão abafaram um pouco a repercussão em nosso país da lista de indicados à 84ª cerimônia do Oscar, anunciada no último dia 24 de janeiro. Uma pena, já que a cinematografia brasileira finalmente está prestes a conquistar, depois de mais de oito décadas, seu primeiro “prêmio de mérito da Academia” (nome de batismo dos troféus). Ou melhor dizendo: nossa música popular, em uma irônica indicação que reescreve uma longa história de flerte brasileiro com o prêmio.

Desde o início das cerimônias, em 1929, 13 brasileiros natos ou radicados já tiveram a honra de terem seus nomes indicados pela Academia. E o que muito pouca gente sabe é que o nosso pioneiro não era diretor, roteirista, fotógrafo ou ator. Era músico. Em 1944 o mineiro Ary Barroso, responsável por partituras clássicas da MPB como “Aquarela do Brasil”, foi o primeiro brasileiro a ser reconhecido pela organização. Ele foi o responsável pela melodia da canção “Rio de Janeiro”, composta ao lado do norte-americano Ned Washington para o musical “Brasil – Encontro No Rio” (Brazil. Estados Unidos, 1944). Infelizmente trata-se de um filme de difícil localização, nunca lançado em DVD nem no mercado norte-americano e muito menos em território nacional. Mesmo assim, neste link http://www.youtube.com/watch?v=to4mXckO6d0 é possível conferir a canção, interpretada pelo ator mexicano protagonista, Tito Guizar. De qualquer maneira, Barroso entrou para a história do nosso “cinema” por essa marca. E hoje, 67 anos depois, estamos prestes a conquistar nossa primeira estatueta dourada, mais uma vez, pelo trabalho dos profissionais da música. Carlinhos Brown e Sergio Mendes foram indicados mais uma vez na categoria Melhor Canção, pela melodia de “Rise In Rio”, do longa-metragem animado “Rio” (Rio. Estados Unidos, 2011).

Sem escarcéu midiático ou otimismo infundado, e ao contrário de diversas outras oportunidades relativamente recentes, desta vez as possibilidades de êxito são realmente muito grandes. A junta de músicos da Academia (responsável pelas indicações da categoria) reúne-se na sede da entidade em Los Angeles entre os meses de Dezembro e Janeiro para ouvir as canções e assistir aos filmes elegíveis nessa categoria. Para este ano foram 39 composições que, durante o processo de avaliação, recebem uma nota que varia entre 6 e 10. Apenas trabalhos com conceito igual ou superior a 8,25 são considerados finalistas na categoria, que neste ano resultaram em “Rise In Rio” e “Man Or Muppet”, de “Os Muppets” (The Muppets. Estados Unidos, 2011), cuja melodia e letras são de Bret McKenzie. Ou seja, das quase quatro dezenas de canções elegíveis, apenas essas duas despertaram a atenção dos votantes, que nesta segunda rodada terão apenas tais escolhas para decidirem sobre a vencedora. Uma possibilidade de no mínimo 50%.

Para além da matemática, o histórico de canções premiadas na categoria sempre privilegiou trabalhos derivados de grandes musicais ou longas de animação: “Over The Rainbow” de “O Mágico De Oz” (1939), “Talk To the Animals” de “O Fantástico Doutor Dolittle” (1967), “Fame” de “Fama” (1980), “Circle of Life” de “O Rei Leão” (1994) e “You’ll Be In My Heart” de “Tarzan” (1999) são alguns exemplos disso. Se até aí a corrida parece empatada pelo fato de Os Muppets ser um musical de grande sucesso da Disney, o histórico recente da categoria mostra que o perfil dos vencedores vem se distanciando de composições melosas e piegas, como já foi o mote da categoria em alguns períodos do passado. Entre as vencedoras nos últimos dez anos estão duas canções de hip hop: “Lose Yourself”, de “8 Mile – Rua Das Ilusões” (2002) e “It’s Hard Out Here For A Pimp”, de “Ritmo De Um Sonho” (2005), uma canção “indiana” (“Jai Ho”, de “Quem Quer Ser Um Milionário”, em 2008) e até mesmo uma canção em espanhol: “Al Otro Lado Del Rio”, de “Diários de Motocicleta” (2004). Há uma mudança gradual no perfil das canções, sejam elas premiadas ou somente indicadas. E cá entre nós, a música de “Rio” é tecnicamente superior à dos Muppets. Portanto, o Brasil deverá finalmente colocar as mãos em um Oscar na noite do próximo dia 26 de fevereiro. E ironicamente, assim como há 67 anos, não pelo mérito de nossos cineastas, mas de nossos músicos.

Não posso deixar de citar, por fim, o quanto a figura de Carlinhos Brown é alegórica nessa provável conquista. Ao contrário de nossos representantes cinematográficos outrora indicados (Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno e Fábio Barreto, Fernanda Montenegro, Carlos Saldanha e o próprio Ary Barroso), Brown não tem suas origens fundadas em uma família de posses do Sudeste. Não faz parte da elite branca intelectual brasileira, que elege seus cânones culturais e possui os meios econômicos e políticos para entrar pesado no jogo comercial que também é o cinema. Negro, nascido nas periferias de Salvador, Brown é aquele que levou a influência do som afro baseado na forte percussão aos blocos de Carnaval da Bahia, ainda na década de 1980. É aquele que levou garrafadas por ter tido a ousadia de reproduzir sua música “de baixa qualidade” durante a programação do Rock in Rio 3. E que, ao lado de Sergio Mendes e da compositora norte-americana Siedah Garrett, provavelmente fará o Brasil finalmente receber seu primeiro Oscar pela excelência do trabalho.

Felipe Haurelhuk

Por dentro da Missa

dezembro 14th, 2011 § Deixe um comentário

Antes de publicar o post anterior, sobre a montagem em cartaz de Missa dos Quilombos, eu tinha enviado algumas perguntas ao diretor Luiz Fernando Lobo. As respostas chegaram depois da publicação. Segue aqui a entrevista:
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- Esta parece ser a sétima vez que você monta o espetáculo. Qual a principal novidade dessa atual montagem, além do espaço do Armazém?
LFL – De fato essa é a sétima edição da Missa. Não há nenhuma inovação formal. O que há é que ao longo dos anos fomos trabalhando e conseguindo com isso um aperfeiçoamento técnico e artístico do próprio espetáculo. Em termos de tecnologia há uma grande mudança na qualidade do som, especialmente das vozes.
- Que acréscimos você fez nessa versão em relação ao texto original da Missa?
LFL – Acrescentei só dois textos, mas já em 2002: a carta das mães sem terra e o texto do Betinho sobre a criança que corta uma tonelada de cana por dia.
- Com quem você divide a direção do canto e as coreografias?
LFL – A preparação vocal é da Aurora Dias, também atriz do espetáculo e membro da Ensaio Aberto. A preparação corporal é da Joana Marinho, também do nosso coletivo desde 2003. A preparação das danças de orixás são do Forró, que faz o espetáculo desde a criação, e da Valéria Monã.  A coreografia de Mariama e do Ofertório é da Paula Águas.
- Quem é o cantor que tem voz idêntica à do Milton Nascimento, que faz o primeiro solo da peça?
LFL – Aquele cantor maravilhoso é de Minas e se chama Ladston Nascimento. Apesar da origem, do sobrenome e da voz, não é parente do Milton.
- Estou delirando ou tem uma estética de Metropolis/Fritz Lang ali?
LFL – Não é delírio. Criei todo o espetáculo a partir do conceito de Eisenstein de dramaturgia da forma, uma dramaturgia que não parte do texto mas das imagens. No caso, partimos das imagens do mundo do trabalho do Sebastião Salgado e do João Roberto Ripper. Com essas imagens na mão, vimos a que parte da Missa elas mais se ligavam e depois fechamos os pontos. É claro que isso tem toda uma relação com o construtivismo russo e alemão do início do século 20. Não busquei uma estética nem russa nem alemã mas o espetáculo é herdeiro disso de alguma forma. Tem uma coisa que se fala muito pouco que é o conceito brechtiano de estranhamento, que tem um similar russo, Ostreinie. É um caldo disso tudo com a música linda do Milton e a poesia do Pedro Tierra e de D. Pedro Casaldáliga. 

Ópera operária

dezembro 14th, 2011 § 3 Comentários

Foto: Carlos Alberto Mattos

Dê uma pausa na dupla Botelho & Moeller e se ligue num autêntico musical brasileiro. Missa dos Quilombos está só até terça que vem no Armazém da Utopia, no cais do porto. A Missa na verdade é uma ópera afro-brasileira, escrita há 30 anos por Milton Nascimento, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra. Já foi montada sete vezes pela mesma Companhia Ensaio Aberto desde 2002 em várias partes do Brasil. Mesmo que você já tenha visto alguma dessas montagens, vale a pena revê-la no espaço literalmente épico do Armazém.

O pequeno vídeo abaixo, que gravei com meu celular, dá uma ideia do uso que Luiz Fernando Lobo e sua trupe fazem da ampla boca de cena e do pé direito monumental. Ali se pode sentir melhor os ecos de um Metropolis, de Fritz Lang, ou de uma ópera contemporânea tipo Bob Wilson. Sob o palco principal instala-se uma oficina metalúrgica, enquanto a ação se espalha pelas laterais evocando ora canteiros de construção civil, ora as labutas da mineração, da lavoura ou dos estivadores. O entorno das docas, com seus guindastes e os barcos que passam, compõe uma espécie de cenário adicional, perfeitamente integrado ao espetáculo.

Missa dos Quilombos usa a estrutura narrativa e os temas de uma missa católica para falar da escravidão, do preconceito racial e das injustiças sociais de um Brasil então mergulhado nos últimos anos da ditadura. A Companhia Ensaio Aberto atualiza a pauta com o movimento dos sem-terra e outras referências mais recentes. Aqui e ali, Luiz Fernando Lobo deixa sua marca um tanto jogralesca, com textos exclamados em uníssono e posturas de realismo socialista. Mas da forma como isso vem envelopado na musicalidade exuberante da Missa e no magnífico trabalho de canto, dança e luz, tudo fica irresistível, emocionante. Não dá pra perder.

Missa dos Quilombos: quarta a sábado, segunda e terça às 21h; domingo às 19h.
Armazém da Utopia – Av. Rodrigues Alves, Armazém 6. Tel.: 2253-8726  

Águas de Mauro

novembro 6th, 2011 § 6 Comentários

Para deixar na memória aqui do blog, publico a paródia de Águas de Março que fiz para a coluna “O Que é Cinema Brasileiro” da Revista Zingu!. Nesta versão, fiz duas ou três pequenas alterações. É para ser cantada com a melodia e a métrica da canção de Tom Jobim.

É sol, é terra, é o Glauber falando
É o dinheiro pouco, é o Dib filmando
É o riso da Leila, é a praia, é o sal
É a noite, o espantalho, Aruanda, Arraial
É a velha a fiar, é a terra estrangeira
Uirá, Candeias, é o Nelson Pereira
É A Ostra e o Vento, Denoy de Oliveira
É O Segredo da Múmia e também Grande Feira
É o Limite do Mário, é o Tarcísio Meira
É a Ganga, é O Grão, é o Tonico Pereira
É a Carmen posando, Edgard caprichando
Nas águas de Mauro, é Oscarito brincando
É Otelo, é Lewgoy, é a chanchada matreira
Camerinha na mão, filme na cachoeira
É A Grande Cidade, é Cidade de Deus
É o Cabra Marcado, é Fernanda, é Matheus
É o Bandido Rogério, é o Anjo Bressane
A mão do Barreto, Total ou Gullane
É um Grito, é uma Greve, é uma luta, é um luto
É a Jordana editando, é o Cosme e o charuto
É a Tropa, é trepada, é a Dira atuando
É o palhaço Didi, é Eliana cantando
É a Ilha das Flores, é o Porto das Caixas
É a garrafa de cana, Estrada da Cachaça
É o projeto no pitching, é a luz na favela
É a equipe formada, é a tela, é a tela
Força nesse edital, verba da Petrobras
Fundo setorial, quem dá mais, quem dá mais?
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Pereio comendo a Dama do Lotação
É um saci, Curumim, é Bigode, é Lulu
É a Bete Balanço, Cacá, Lerfa Mu
São as águas de Mauro inundando o sertão
É a gentil Dona Flor semeando tesão
É sol, é terra, é O Fim do sem Fim
É o close na Xuxa, é o Satã do Karim
É um padre, é uma moça, é um Bravo Guerreiro
É O Canto do Mar, é o punhal cangaceiro
São as águas de Mauro inundando o sertão
É o céu se abrindo pro Moleque Tião
sol, terra, fim, carrinho
corta, monta, lança, jeitinho
Cao, Walter, Tata, Joel,
Manga, Silvio, Brant, Escorel
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Iracema posando no meu coração

Vladimir no shopping

outubro 22nd, 2011 § Deixe um comentário

Rock Brasília – Era de Ouro estreou ontem nacionalmente com pinta de se tornar o maior sucesso comercial da carreira de Vladimir Carvalho. São 40 cópias, o que é raríssimo para documentários brasileiros. Só em João Pessoa, capital do seu estado natal, o filme entrou em três shopping centers. Segundo Renato Félix, jornalista do Correio da Paraíba, isso é “coisa absolutamente inédita para um cineasta paraibano que teve carreira aqui (e acho, até, para qualquer paraibano)”.

O filme chega precedido pelo prêmio de melhor doc do Festival de Paulínia e exibições calorosas nos festivais de Brasília e do Rio. Mais que tudo, vem aditivado pelo carisma de Renato Russo e da garotada que contestou o estilo de vida meio burocrático da Brasília dos anos 1970 e, para espanto de seus pais diplomatas e professores, criou uma usina de rock-br que depois iria espalhar seus fluidos por outros estados da federação. Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso estão no foco de Vladimir, ele que sempre gostou de pingar umas gotas de rock nos seus filmes.

Já escrevi aqui sobre a diferença entre Rock Brasília e o que se convenciona chamar de “filme de rock”. Não vou me repetir. Leiam ou releiam o artigo. Só quero acrescentar o palpite de que Rock Brasília tem verve, informação e charme para agradar tanto no cineclube da esquina quanto no multiplex do shopping.

O ritmo nas veias

outubro 21st, 2011 § Deixe um comentário

À direita, a montadora-ritmista de "Coração do Samba"

A bateria é onde pulsa a escola de samba. Se ela falha, o corpo inteiro sente. Se ela vibra, tudo o mais vibra também. O novo documentário de Thereza Jessouroun, seu primeiro de longa metragem, vai em busca dos segredos e da história desse órgão vital no corpo da Estação Primeira de Mangueira. Esnobado pela comissão de seleção do Festival do Rio, Coração do Samba estreia hoje (sexta) na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A primeira exibição será no Unibanco Arteplex, às 19h.

Coração do Samba é filme marcado pelo símbolo da familiaridade. De Thereza com a Mangueira, onde há dez anos fez o belo doc Samba. Da comontadora Marcela Amarante com o ritmo, já que ela própria é integrante da bateria da escola. Familiaridade, enfim, do principal narrador, o carismático, apaixonado e articulado Elmo dos Santos, ex-presidente da Mangueira e filho do fundador da ala da bateria.

Thereza acompanhou os ensaios e desfiles da escola em 2004 (com fotografia de Mauro Pinheiro Jr.) e 2011 (câmera a cargo de Alberto Bellezia). Entre um e outro bloco temporal, alguns fatos mudam o panorama: o diretor de bateria Robson Roque é morto pelo tráfico, a bateria quebra um velho tabu e passa a incorporar mulheres, a rejeição à “paradinha” cai em benefício de uma agora famosa “paradona”. No entanto, a velha luta pelos pontos cruciais na apuração do Sambódromo continua. A bateria da Mangueira é como bicho teimoso que não para de fustigar.

Há no filme um bonito movimento pendular entre passado, presente e futuro. Elmo dos Santos e outros falam das raízes da bateria, de figuras míticas não tão conhecidas como Cartola e Sargento. Contam histórias de abnegação e amor pelos instrumentos. As câmeras vasculham oficinas e ensaios em busca dos detalhes técnicos e das táticas de regência que fazem aquela massa rítmica soar tão homogênea e ao mesmo tempo tão sutilmente diferenciada. Na bateria mirim, flagra as sementes da Mangueira de amanhã.

A informação relevante vem embalada num ritmo quase sempre arrebatador. Assim experimentamos a euforia ao mesmo tempo em que testemunhamos de onde ela vem e como se produz.

As Canções

outubro 14th, 2011 § 1 Comentário

As canções sempre tiveram um papel importante nos filmes de Eduardo Coutinho. Quando os personagens de Santo Forte, Babilônia 2000 ou Edifício Master, por exemplo, eram instados a cantar diante da câmera, aquilo fazia parte da proposta de autofabulação embutida nos filmes. Ao cantar, as pessoas se reinventavam, assumiam mais plenamente o “teatro de si mesmas” que Coutinho buscava estimular com suas entrevistas. Esse recurso, subsidiário em vários trabalhos, ganha o proscênio agora em As Canções.

Invertendo o enquadramento de Jogo de Cena, as personagens de As Canções aparecem saindo do palco para a plateia de um teatro, e falam com a cortina ao fundo. Mais uma vez, parecem estar a sós com o diretor e suas lembranças. Cantam e explicam por que aquelas se transformaram nas músicas de suas vidas. A maioria dessas histórias se prende a amores perdidos no passado mas cuja memória ainda trava a voz e arranca lágrimas. Daí o filme ter um caráter algo repetitivo, como variações de uma mesma melodia. As canções, por seu turno, nem sempre parecem justificar plenamente o desenrolar das conversas, que Coutinho tenta sustentar às vezes penosamente, como que tirando leite de pedra.

Mas o que talvez roube mesmo de As Canções a força e a originalidade de outros filmes do diretor é o déficit de carisma de diversos personagens. Coutinho infringe uma regra básica do seu cinema, que é a particularidade graciosa de seus entrevistados. São poucos os momentos em que se dá aquele milagre de comunicação a que ele nos acostumou. Esse é, a meu ver, um momento de relativa estagnação no conjunto de uma obra desbravadora.

Rock Brasília – Era de Ouro

outubro 8th, 2011 § 2 Comentários

(Texto publicado originalmente em 9/7/2011)

Um filme sobre rock?! É o que muitos perguntam, assustados, ao ver o nome de Vladimir Carvalho associado a seu novo longa, Rock Brasília – Era de Ouro, eleito melhor doc do Festival de Paulínia e Prêmio Saruê no de Brasília. Para Vladimir, no entanto, isso não representa uma novidade absoluta. Um dos filmes que mais o impressionaram nos anos jovens foi Sementes de Violência, de Richard Brooks, que praticamente lançou o rock ‘n roll no cinema. Em sua casa, quem lançou o rock foi o irmão Walter, que participava de concursos de roqueiros. “Nos meus filmes, volta e meia tem rock”, diz ele, citando cenas de O País de São SaruêConterrâneos Velhos de Guerra e Barra 68.

Mas será mesmo Rock Brasília um filme sobre rock no sentido que se espera do gênero, com ritmo veloz, som em alto volume e imagens de rebeldia? Não é bem assim. Rock Brasília é, isso sim, um filme de Vladimir Carvalho. Um filme sobre como as pessoas se lembram das coisas e são capazes de contá-las cara a cara com o diretor. Na verdade, mais do que sobre rock, este é um filme sobre Brasília. Conclui uma trilogia de longas sobre momentos históricos da capital: a construção, evocada em Conterrâneos Velhos de Guerra; os assédios da ditadura, expostos em Barra 68; e a manifestação talvez mais frutuosa da cultura brasiliense, que foi o rock surgido ali entre o fim dos anos 1970 e o princípio dos 80, quando chegou a haver quase duzentas bandas na cidade.  Continue lendo

Um filme de rock?

julho 9th, 2011 § 2 Comentários

Plebe Rude na Boate Zoom

Um filme sobre rock?! É o que muitos perguntam, assustados, ao ver o nome de Vladimir Carvalho associado a seu novo longa, Rock Brasília, que estreia nacionalmente hoje no Festival de Paulínia. Para Vladimir, no entanto, isso não representa uma novidade absoluta. Um dos filmes que mais o impressionaram nos anos jovens foi Sementes de Violência, de Richard Brooks, que praticamente lançou o rock ‘n roll no cinema. Em sua casa, quem lançou o rock foi o irmão Walter, que participava de concursos de roqueiros. “Nos meus filmes, volta e meia tem rock”, diz ele, citando cenas de O País de São Saruê, Conterrâneos Velhos de Guerra e Barra 68.

Mas será mesmo Rock Brasília um filme sobre rock no sentido que se espera do gênero, com ritmo veloz, som em alto volume e imagens de rebeldia? Não é bem assim. Rock Brasília é, isso sim, um filme de Vladimir Carvalho. Um filme sobre como as pessoas se lembram das coisas e são capazes de contá-las cara a cara com o diretor. Na verdade, mais do que sobre rock, este é um filme sobre Brasília. Conclui uma trilogia de longas sobre momentos históricos da capital: a construção, evocada em Conterrâneos Velhos de Guerra; os assédios da ditadura, expostos em Barra 68; e a manifestação talvez mais frutuosa da cultura brasiliense, que foi o rock surgido ali entre o fim dos anos 1970 e o princípio dos 80, quando chegou a haver quase duzentas bandas na cidade.

Renato Russo e Vladimir CarvalhoVladimir percebeu na época a importância do que rolava nas superquadras de classe média, especialmente naquela chamada Colina. Estimulou alunos e colegas da ABD a registrarem os primeiros shows das bandas Aborto Elétrico, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e Detrito Federal. Não satisfeito, saiu ele mesmo para fazer entrevistas e filmar eventos como o célebre show do Legião em 1988, que terminou em confusão com muitos feridos e em ódio de parte do público pelo grupo. Esse material, guardado desde então, é a base documental de Rock Brasília.

Através de entrevistas e cenas de arquivo, além de uma sequência encenada para recuperar a atmosfera romântica dos acampamentos à beira do Lago Paranoá, o filme conta uma história de sonhos e obstáculos. Uma “epicrônica”, como Vladimir prefere chamar. Durante a fase de montagem, ele se abria aos eflúvios do livro A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler, que analisa a criação de histórias a partir de estruturas míticas. Assim, a jornada dos heróis roqueiros foi montada com base nos desafios à ordem estabelecida, confrontos com a polícia, catalisação de insatisfações políticas, rachas internos, conflitos de garotos que se tornaram homens em plena exposição da mídia. Nesse percurso, tiveram mentores e guardiões, sendo também assombrados pela morte prematura do líder maior, Renato Russo.

Russo, que Vladimir considera “o maior poeta do rock brasileiro”, é o eixo individual mais importante na narrativa de Rock Brasília, mas divide o tempo de tela com integrantes da Legião, Capital e Plebe, bem como respectivos familiares. No fundo, é uma história de famílias o que ali se conta. Em sua maioria filhos de professores, diplomatas e altos servidores públicos, os roqueiros saídos de Brasília tinham um acesso privilegiado à cultura estrangeira – e as influências de Bob Dylan, do Police e do movimento punk ficam patentes. Tinham, por outro lado, a pecha de “filhinhos de papai” para desmentir com atitudes e letras de música. A última cena do filme, puxando bem para o lado emocional, completa o sentido familiar dessa saga.

Para ser um legítimo filme de rock, Rock Brasília precisaria ter mais música e menos falas. Precisaria ter capas de disco fazendo piruetas na tela, fãs se descabelando e uma certa exaltação das emoções em jogo. Mas aí talvez não fosse um filme de Vladimir Carvalho. Não há um interesse específico em celebrar o êxito das bandas. Os relatos da formação, da dissolução e de uma ressurreição superam a crônica dos anos de maior sucesso. Isso fica para outro tipo de filme ou programas de TV. Vladimir, como sempre, sai atrás das histórias humanas que rebatem na política. Sai atrás das memórias que ficam depois que a poeira baixa e a reflexão substitui a dor e a euforia.

Pão para os ouvidos

maio 31st, 2011 § 5 Comentários

Foto: Ziga Koritnik

Foto: Ziga Koritnik

Escrevo estas notas ainda sob os eflúvios do concerto que vi há pouco no Espaço Tom Jobim. Ultimamente tem sido muito rara a oportunidade de ver Egberto Gismonti tocando ao vivo. E poucas coisas se comparam a Egberto Gismonti tocando ao vivo. O misto de concentração sagrada e arrebatamento lúdico com que ele ataca os instrumentos, duplicando-os ou triplicando-os no efeito final, é algo que não dá pra descrever.

A música tampouco se parece com nada do que é feito hoje no Brasil. Gismonti pertence à estirpe de Villa Lobos e só a ele se compara. O sentimento profundo de brasilidade chega a suas composições arejado pela experimentação jazzística, a modernidade multicultural, o improviso virtuosístico com as cordas ou o piano. Sempre saí dos seus concertos alimentado e inspirado. E dessa vez não foi diferente.

Egberto estava feliz no palco. A apresentação abriu o 8º Seminário Friedmann, encontro internacional promovido pelo Instituto de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica. É isso mesmo. Coisas de Maria Borba, que vem aproximando a cosmologia das artes. Foi apresentado pelo cientista Mario Novello como alguém capaz de promover um ritual de beleza. Em contrapartida, citou Pessoa e Manoel de Barros. Estava feliz também porque tocava com o filho, Alexandre Gismonti. Veja abaixo um pequeno trecho, gravado porcamente (e sem zoom) com meu celular. Vale pelo som:

Diante dos aplausos da plateia para a interpretação solo de Alexandre da sua própria composição O Tempo de um Sonho, o papai-coruja não se conteve e brincou com os cientistas presentes: “Que me desculpem os físicos, mas isso é química”. Tive vontade de contestar da minha cadeira: “Não! É religião. Deus pai e deus filho”. O concerto contou também com uma participação deslumbrante da violinista Ana Oliveira, com destaque para uma versão veloz e prodigiosa do Miudinho de Villa-Lobos para violino e piano.

O maior músico brasileiro vivo é um gênio arredio. Quase não gravou nos anos 2000, não frequenta festivais nem faz shows regulares. A veneração da plateia no Tom Jobim era uma questão de fome. Gismonti é o melhor pão para quem tem ouvidos. E este anda escasso.

Lição de ritmo

abril 5th, 2011 § 1 Comentário

AS BATIDAS DO SAMBA
de Bebeto Abrantes

O bom documentarista não é só o que descobre temas e objetos originais, mas também aquele que encontra, no que já é conhecido, a faceta ainda capaz de alguma revelação. Bebeto Abrantes vai ao samba com ouvidos atentos à evolução do gênero através dos seus instrumentos e suas bossas de percussão. Dos tambores do jongo ao banjo e ao tantan dos pagodes, somos apresentados a uma antropologia sonora de escol.

O filme é conduzido por dois guias principais: o enciclopédico Wilson das Neves e o afetivo Marçalzinho, filho do mítico Mestre Marçal. Monarco, Moacyr Luz e outros grandes ajudam a contar a história, sempre evocando gigantes do passado como João da Baiana, Bide e Ismael Silva. A “aula” de Wilson das Neves sobre a relação entre as escolas de samba e os orixás, e também sobre as diferenças entre ritmos aparentemente uniformes, é desses momentos que podem abrir uma avenida de percepção no espectador mais leigo.

Junto com seu corroteirista e montador Marcelo Rodrigues, Bebeto cria uma suíte rítmica de falas e batidas que delicia os ouvidos e mexe até com nossos músculos. O lugar-comum do batuque na cozinha com mulheres à beira do fogão podia ter sido evitado. Por outro lado, a configuração das várias rodas de samba remete às vezes a uma estética de comercial de cerveja. Mas esses são pormenores numa peça coesa que desliza suavemente entre o cinema de observação, o depoimento frontal e a fala didática. As três condutas se justificam num filme que não se furta a sua vocação francamente expositiva. E em matéria de lição de samba, com perdão pelo trocadilho, é praticamente imbatível.

Travessuras de Laurie

março 29th, 2011 § 1 Comentário

Com seu ar de garoto travesso, Laurie Anderson abriu ontem pessoalmente a sua exposição I in You / Eu em Tu no CCBB-RJ. A moça trouxe seus violinos performáticos, vídeos e duas instalações de encher os olhos (e ouvidos). Numa delas, poemas audiovisuais são projetados em quatro telas de formatos e tamanhos diferentes. Na outra, a mais bela de todas, a “tela” é uma paisagem construída com picotes de papel sugerindo campos e aldeias, sobre a qual são projetadas imagens e grafismos de diversas naturezas.

Vi tudo sem muita calma, em meio à pequena multidão que acorreu à abertura. Quero voltar. Na verdade, gostaria de me mudar para aquela sala da paisagem. Ficar ali uns três meses ouvindo as experimentações musicais de Laurie e apreciando a brisa das imagens passar sobre os vales de papel.

A exposição tem fotos da Laurie performer em distintas fases de sua vida. Quando jovem ela gostava de dormir em lugares públicos inusitados para ver se o local influenciava seus sonhos. As fotos dessas performances me lembram uma série de fotografias que faço de gente dormindo em lugares públicos (veja aqui). À esquerda, uma das fotos de Laurie.

Abaixo, um trecho da performance Duet on Ice, que gravei com meu celular na noite de ontem. Ela repete hoje às 18 horas no saguão do CCBB. E às 18h30 faz palestra. Na performance original, Laurie calçava os blocos de gelo para determinar o tempo de duração do ato. Quando o gelo derretia e ela começava a perder o equilíbrio, era hora de terminar.    

 

‘Os Mutantes & the Garden of Notes’

dezembro 19th, 2010 § 3 Comentários

Diversão de domingo:

Descobri no Youtube esse curta americano em homenagem a Os Mutantes. Para apresentá-lo, apenas traduzo a sinopse postada pelo autor, Jeff McCarty:

“A história de Os Mutantes é talvez a mais estranha em toda a história do rock e serviu como inebriante inspiração para artistas tão diversos como Beck, Devendra Banhart, Sean Lennon, Nirvana e os Flaming Lips. Imagine um grupo de rock brasileiro dos anos 1960 composta por três adolescentes que gostavam de usar roupas estranhas e tocar música psicodélica com guitarras feitas por eles mesmos. Agora imagine essa banda tocando uma música tão estranha e tão bonita que o governo militar de direita do Brasil os declarou uma ameaça nacional, prendendo muitos dos seus amigos e companheiros de banda. Em meio a tanta opressão, é um milagre que seus discos tenham sobrevivido décadas e sejam considerados uma inspiração tão grande por muitos dos melhores artistas de hoje. Os Mutantes and the Garden of Notes mistura animação original, fantasia colorida, velhos clipes musicais, fotografias de arquivo e vinhetas impressionistas para contar a história da banda, da opressão militar e do seu impacto nas gerações futuras em várias partes do mundo. Narrado por Devendra Banhart”.

Quisiera morir

novembro 14th, 2010 § 4 Comentários

Diversão de domingo:

Soledad Villamil dando uma canja para os convidados do 7º Amazonas Film Festival no domingo passado, nos jardins do Palácio Rio Negro (Manaus). Gravei com meu Motorola Milestone e não soube resolver a perda de synch nos últimos instantes do clipe. Perdoem, mas vale pela raridade.

Uma Noite em discussão

julho 31st, 2010 § 9 Comentários

Foto: Wilson Santos/JB

Tenho visto dois tipos de reação entre as pessoas que saem de Uma Noite em 67. De um lado tem aqueles, geralmente mais maduros, que comentam, maravilhados, os eventos do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Ou repetem, divertidos, os comentários colhidos por Ricardo Calil e Renato Terra juntos aos finalistas de então – Roberto Carlos, Gil, Caetano, Chico, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, MPB-4 – e a outros envolvidos na organização e no júri do festival.

De outro lado, tem aqueles – não necessariamente mais jovens – que acham tudo muito simpático mas fazem restrições à simplicidade, supostamente excessiva, do filme. Afinal, o doc nada mais faz que justapor depoimentos atuais a clipes de apresentações e entrevistas daquela noite muito especial. Não há nada além desses dois materiais. Aparentemente, nenhuma elaboração que “enobreça” o documentário.

Fico pensando nesses dois tipos de opinião. Os primeiros não se importam com as razões dos segundos. Estes, por sua vez, não se contentam ou não se comovem com as razões dos primeiros. Como gosta de repetir meu amigo Luiz Fernando Gallego, “pãos ou pães é questão de opiniães”. Mas será que podemos ir um pouco além das meras opiniões?

A simplicidade em Uma Noite em 67 é fruto de escolhas bem definidas. Terra e Calil não saíram atrás de depoimentos de especialistas para interpretarem a batalha cultural que atravessava a música brasileira naquele momento de obscurecimento da Bossa Nova e eclosão do Tropicalismo. Nem de analistas que comentassem o cenário político que fomentava a ansiedade e a catarse de artistas e plateia através da música. Seria óbvio demais. Tudo ficou a cargo de quem participou diretamente do evento. E eles cobrem todos esses aspectos em falas esclarecedoras, engraçadas ou deliciosamente dissimuladoras – como Gil desconversando sobre sua “chapada” na noite decisiva. São muitos os detalhes inéditos, quase 40 anos depois.

É muito criterioso também o uso das filmagens da Record, números inteiros alternando-se com as impagáveis entrevistas de Randal Juliano e Cidinha Campos com os astros da noite. Não existe aqui a tentação de “recriar” o acontecimento com malabarismos de montagem, até porque a edição original do programa primava pela agilidade, especialmente nas apresentações musicais. O que temos, portanto, é o respeito à integralidade do material e a inserção de depoimentos que de fato iluminam o que se passava no palco e nos bastidores.

A contenção nesse filme é uma virtude, não uma limitação. Por ser assim, linear na aparência mas preciso no resultado, é que ele nos recoloca no clima daquele festival  que representou um embate entre o velho e o novo perante uma plateia ávida por se manifestar e dizer-se viva.

Um programa de TV? Um ringue de luta? Uma festinha doméstica de fim de ano? Ou um microcosmo da cultura em transformação?  O festival foi tudo isso e muito mais. Um Noite em 67 nos abre uma janela no tempo e mostra o que foi feito de seus protagonistas. Um bom filme, mesmo para quem não viveu as emoções na época mas certamente acompanha suas repercussões até hoje.

Bem, essa, no fundo, é só a minha opinião.

O animal que escuta a si mesmo

março 6th, 2010 § 1 Comentário

Ainda não vi o doc Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal, mas trago de volta aqui o iluminado texto que Felipe Messina publicou no DocBlog durante o Festival do Rio de 2008. Curtam aí:  

Antes que acenda a luz do dia, o morcego corta o ar e desfere seus berros contra os obstáculos. A cada batida de asas, calcula as distâncias entre ele e o que o cerca. Seu próprio som o faz navegar em territórios nos quais nem os “Olhos de Lince” conseguem enxergar. Seja pedra, seja planta, seja bicho, seja humano.

O primeiro berro lança contra o diretor do filme. “Para que todas essas entrevistas? Sinceramente não estou entendendo! Eu não confio nisso! Tô falando sério!” A câmera?, deixa-a de lado e encara os arguidores em tom ameaçador. Óculos escuros, camisa de super-homem e zelo pela própria história. Mesmo para quem Vive do presente, diz em alto e bom som que teme por “uma catástrofe”, pela “desconstrução de sua vida”. O mito da infalibilidade e transcendência do cinema persiste. Mas o filme segue. Segue incompleto, como todos. Lacunas planejadas pelo personagem; lacunas geradas pelos criadores. 

Corte. Fumaça, cabeça, nuca, fonogramas… “Vou ficar aqui exposto à audição pública”, escuta-se mais uma vez enquanto o cenário prepara a entrada das imagens de super 8 impressas também por ele. Cores silvantes e versos antigos se unem às imagens do passado que se misturam aos dias recentes como se certos momentos vivessem para sempre. Se a pele muda, a cor da carne se mantém. Se os pelos agrisalham, a língua permanece a mesma. Dela sai a voz que canta o filme inteiro. Ouvi-lo em suas mais variadas fases é quase uma obsessão. Canta letras de sua autoria e interpreta a lírica de outros poetas. Se os versos não são seus, os sentimentos parecem vir de dentro. Assim um perfil é construído também através da música. Solidão, fervor, eletricidade, enfrentamento. Sobretudo solidão e enfrentamento.     

De repente, um pretexto é mote rápido para vê-lo no palco onde hoje é entrevistado por Jaguar. Não se acostume, os lances são velozes e o texto redigido é linha mestra na costura entre as canções, perguntas e anedotas. Os risos nunca cessam e o humor lhe transborda. Ri de si mesmo, ri do camburão, ri do saudoso companheiro e mestre Kid Morengueira (a amizade entre os dois está no curta Tira os Óculos e Recolhe o Homem, de André Sampaio). Nesta sequência extensa de entrevistas, as horas e horas de conversas ficam sugeridas. Vê-se o cantor, o compositor, o ator.  O destino do poeta é coisa dele e talvez por isso os amigos, colegas e admiradores lhe façam deferência. Capinam, Cafi, Chico Chaves, Zé Celso, Nelson Pereira…

Soberba, a mãe lhe sustenta o passo e, sentados num balanço de Penedo, relembram a “peleja” entre ele e Dori Caymmi. Afeito aos acordes dissonantes, com o violão na perna mostra à Dona Lygia a diminuta “inoportuna” que o amigo lhe impusera. Sente-se mais uma vez o cheiro da casa da mãe onde os amigos enfurnados tramavam o Tropicalismo. Saudades de Torquato. Rio e também posso chorar.

Wally não pede licença e, tão rápido como um raio, cruza o cenário com sua voz e sua poesia. Dele apenas as palavras e a imagem enquanto declama. Ah vale a pena ser poeta.

Pouco a pouco, define-se o rumo entre o palco constante, a repetição das imagens antigas e o rememorar dos tantos golpes, de sorte ou de azar. Caçavam bruxas nos telhados de Gotham City e ele próprio acabou marcado pelos inimigos com os quais se debateu. A ponto de ser rotulado como “maldito” juntamente com outras figuras como Luiz Melodia e Jorge Mautner. Foi o preço que pagou por dizer o que pensava, por atacar a indústria fonográfica e alçar outros tantos voos no escuro. Ah como é forte o gosto da farinha do desprezo. Quando a comeu, ao menos foi em boa companhia.

A vida sempre por um triz. No passo errante do risco, o morcego também pousa solitário. É certo que de ponta-cabeça. Apesar de tudo, escuta sempre a si mesmo. “Os próprios barulhinhos internos”. E aí nunca fica só.

Felipe Messina

O homem que também fazia músicas

janeiro 22nd, 2010 § 3 Comentários

Na minha resenha de O Homem que Engarrafava Nuvens (leia aqui), fiz rápida menção ao fato de o filme não destacar devidamente as letras, o que teria sido a contribuição principal de Humberto Teixeira nas suas parcerias com Luiz Gonzaga. Ao ler isso, meu amigo Jairo Severiano, um dos maiores pesquisadores da MPB, ponderou comigo que Humberto é responsável também pela música de muitos baiões de sucesso da dupla. Não haveria, portanto, uma divisão muito rígida entre músico e letrista.

Jairo possui uma cópia do longo depoimento de Humberto Teixeira ao pesquisador cearense Nirez, dado em 1977 para o Museu Cearense da Comunicação. Vários trechos desse depoimento estão no áudio do documentário de Lírio Ferreira. Para ilustrar sua colocação, Jairo transcreveu uma pequena passagem que não se ouve no filme, onde Humberto esclarece a natureza da parceria. Veja aí:

“Principalmente depois do processo de mitificação de Luiz Gonzaga, a redescoberta que a onda baiana fez em torno de Luiz Gonzaga, muita gente querendo ser generosa diz que eu sou o letrista das músicas de Luiz Gonzaga. Não existe nada disso. Muitas delas são minhas integralmente, letra, música, tudo… como outras são do Luiz. Na nossa parceria, eu costumo dizer, não sei onde começa o poeta e onde termina o músico. É uma parceria indestrutível, muito amiga, muito fraterna, de maneira que o que não foi feito por ele eu considero feito e vice-versa. A recíproca é absolutamente verdadeira. (…) Eu nunca me importei muito com esse processo de eu ter ficado atrás do reposteiro.”

Jairo Severiano esclarece, inicialmente, que a tal “onda baiana” citada por Humberto refere-se à “conhecida onda de elogios desencadeada por Caetano e Gil em louvor ao sanfoneiro e que resultou em sua ressurreição profissional”.

Por fim, Jairo me passou o seguinte comentário, de sua lavra:

“Além de sua importância, dividida com Teixeira, no processo de estilização da música nordestina, Luiz Gonzaga foi o grande divulgador do gênero. A presença intensa do cantor-sanfoneiro nos palcos, no rádio e no disco, com sua competência, sua simpatia, seu carisma, fez dele uma das maiores figuras de nossa música popular no século XX. Sem Luiz Gonzaga o baião jamais teria chegado ao sucesso alcançado. Tudo isso está reconhecido e exaltado em outro trecho do depoimento de Humberto Teixeira”.

Jairo Severiano é autor dos livros Yes, Nós Temos Braguinha (Funarte/Martins Fontes, 1987), A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras (2 volumes, co-autoria de Zuza Homem de Mello, Ed. 34, 1997) e o definitivo Uma História da Música Popular Brasileira (Ed. 34, 2008)   

Baião, que bom tu sois

janeiro 16th, 2010 § 3 Comentários

Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga

Ao contrário de muita gente boa, eu não gostei de Cartola – Música para os Olhos, o doc com que Lírio Ferreira e Hilton Lacerda quase afogaram o sambista num mar de referências estapafúrdias (leia minha resenha). Se os dois pernambucanos não acertaram o compasso do samba, a afinidade de Lírio com o baião rende agora um filmaço com O Homem que Engarrafava Nuvens (conheça o blog do filme). Toda a invenção, o cruzamento de alusões e eixos narrativos, que em Cartola pareciam pretensiosos, aqui se justificam plenamente e formam uma unidade coesa.      

Humberto Teixeira era um homem brilhante e conservador, co-responsável (com Luiz Gonzaga) por impor o baião como uma das matrizes da música popular brasileira, aqui e no exterior. Com roteiro e edição primorosos, o filme costura as dimensões humana e artística do personagem sem jamais perder a graça e o ritmo. Pontua os elos entre o baião e manifestações tão diversas da MPB quanto os cegos cantadores, o Tropicalismo, Raul Seixas, o pop pernambucano e até, quem sabe, o reggae. Não dá pra sair do filme sem uma ponta de orgulho por tanta musicalidade.  

Talvez fosse interessante ressaltar melhor o aspecto mais marcante da contribuição de Humberto Teixeira, que foram as letras. O foco acaba mesmo na música, perigando reforçar a desigualdade do peso em relação a seu parceiro estelar (Leia update sobre o assunto). Há quem reclame da “lavagem de roupa suja” de Denise Dumont (filha de Humberto, produtora e co-roteirista do filme), mas isso me pareceu completamente orgânico pela forma como o doc se organiza desde a sequência inicial.  

No fim das contas, temos um perfil criativo, às vezes empolgante, de um grande artista que soube combinar como poucos o erudito e o popular. Eu poderia tecer loas à fotografia de Walter Carvalho e às deslumbrantes imagens de arquivo garimpadas por Antonio Venancio, mas prefiro fazer outra coisa: deixar vocês com o texto que Felipe Messina escreveu para o DocBlog em 2008, muito mais inspirado do que o meu.   Clique para ler

Saura engessa o fado em museu

outubro 17th, 2009 § 4 Comentários

Fados

A evolução dos filmes musicais de Carlos Saura, a começar por Bodas de Sangue (1981), mostra um crescente abandono dos pretextos de dramaturgia para assumir, cada vez mais, a forma de shows. Fados é um dos mais assumidamente teatrais, consistindo de uma série de performances de estúdio que mal disfarçam a repetição de uma mesma fórmula. Repetição dentro do filme e na carreira de Saura, se considerarmos Flamengo, Sevillanas e Iberia.

Telões de vídeo e espelhos multiplicam a imagem de cantores, músicos e dançarinos (a cenografia é assinada pelo próprio Saura). Quase todos os “números” terminam com o mesmo escurecimento da imagem. E, como em Iberia, a última cena é uma “revelação” do estúdio e seus recuos técnicos através de uma grua que se move em direção a um espelho. Mero exercício de metalinguagem pomposo, narcisista e vazio.

Um após outro, desfilam os fados de Cabo Verde e Moçambique, o fado flamengo, o alfacinha, o menor, o batido. A busca de excelência nas performances engessa o espetáculo numa espécie de museu do fado. Mulheres super-maquiadas, cada mecha de cabelo e cada acorde em seu devido lugar. Não sobra um milímetro de cena para qualquer espontaneidade.

Caetano Veloso foi agraciado com o momento mais icônico do filme. Cabe a ele estrelar a homenagem a Amália Rodrigues, cantando Estranha Forma de Vida com sotaque lusitano, em falsete e com batida de Bossa Nova. É ousado e bonito. A Chico Buarque tocou a porção política: canta Fado Tropical à frente de imagens da Revolução de Abril. Nacionalismos à parte, esses dois momentos valem o ingresso para o público brasileiro.

No mais, Saura hiperformaliza o fado num filme de elegância cafona. Nele, as ruas de Alfama aparecem como fantasmas virtuais, sem cheiro e sem vida.

(Texto publicado originalmente no DocBlog, em 29.09.2007)

Herbert de Perto

outubro 4th, 2009 § 1 Comentário

Doc bio-musical. O acidente de ultraleve que quase matou Herbert Viana e custou a vida de sua mulher, Lucy Needham, é a espinha dorsal de Herbert de Perto. Isso confere ao filme um caráter um tanto sentimental. A história de Herbert e da Paralamas do Sucesso é contada como uma história de superação da tragédia e da impossibilidade. Superação do silêncio. Retomada da fé na capacidade de conquista que parece mover a vida de Herbert, piloto de banda e de aviões. Roberto Berliner e Pedro Bronz narram com precisão e cuidado as fases mais difíceis, como o desastre, a lenta recuperação e a retomada da carreira. É o acidente que reparte os tempos na narrativa entre um antes e um depois inexoráveis. Antes: a leveza, a irreverência, a arrogância juvenil. Depois: a dor, a reflexão, a maturidade. As músicas estão lá, para quem gosta. Mas o tom predominante é o de uma aventura humana que, tristemente, se tornou exemplar. ♦♦♦

Site do filme 

RiP: Um Manifesto Remixado

setembro 30th, 2009 § Deixe um comentário

(RiP: A Remix Manifesto)

Doc mashup. O Brasil ganha um destaque suntuoso nesse filme, como exemplo de cultura de compartilhamento elevada à categoria de projeto de estado. Mais realce que o Gil, o funk e os Pontos de Cultura brasileiros, só mesmo o super-sampleador Girl Talk, ídolo do diretor e web-ativista Brett Gaylor. Usando e abusando da estética do mashup (criação a partir de fragmentos de obras alheias), Gaylor constrói seu manifesto contra a noção de propriedade intelectual. O eixo da oposição remixadores x grandes corporações deixa de lado um elemento raramente ouvido nesse tipo de argumentação: os artistas. Sim, pois nem todo mundo é Gil ou Radiohead, que andaram estimulando o livre download e reciclagem de suas criações. OK, não há por que esperar equilíbrio de um panfleto em que várias argumentações soam claramente manipulativas. Esse doc está longe de esgotar as muitas questões em torno do direito autoral de músicas e imagens. Mas, como bom material para discussão, cumpre seu objetivo principal. ♦♦

A Todo Volume

setembro 27th, 2009 § Deixe um comentário

(It Might Get Loud) 

Doc musical. Para os fâs de rock e os aficcionados da guitarra, pode ser um manjar dos deuses. Para os demais, pode ser uma pequena decepção. Em seu primeiro filme depois de Uma Verdade Inconveniente, Dennis Guggenheim encarou um material diametralmente distinto. Reuniu o “acústico” Jack White (The White Stripes), o tecno-humanista The Edge (U2) e o “poeta” Jimmy Page (Led Zeppelin) num encontro para troca de memórias e riffs. Eles revisitam lugares e momentos decisivos de suas respectivas carreiras e dão pistas do talento que os fez gênios das cordas pop. Mas a narrativa que intercala suas participações resulta confusa e, no fim das contas, um tanto vazia. Há um excesso de tecnicalidades sobre delays, speed ups, sustain e outros bichos, enquanto a música chega aos pedaços. Um atrativo à parte, para quem curte a construção de documentários, é a edição das falas e dos trechos musicais, fazendo de tudo um só tecido sonoro. Esse pensamento integrado é o que faz falta em muitos docs do gênero. ♦♦

Site do filme 

Nossa música, nosso cinema

setembro 12th, 2009 § 3 Comentários

O cinema talvez nunca tenha sido completamente mudo, pois o acompanhamento musical sempre foi parte importante do espetáculo. É frequente que filmes sejam apreciados e lembrados, ainda que inconscientemente, mais pela música que propriamente pelo que mostram suas imagens. Mas, em matéria de estudos, a metade sonora do cinema não costuma receber a mesma atenção da metade visual. No Brasil, então, muito menos. 

Não me lembro de outro trabalho publicado além do recentíssimo O Som no Cinema Brasileiro, de Fernando Morais da Costa. Por isso é de se festejar com aplausos sonoros o surgimento do livro Nas Trilhas do Cinema Brasileiro, coletânea de ensaios organizada pela Associação Cultural Tela Brasilis com patrocínio da Light.

Em oito textos, são examinadas desde a relação das marchinhas e sambas com os velhos filmes carnavalescos e as chanchadas, até a contribuição estética e narrativa das canções num filme do ano 2000, Bicho de Sete Cabeças. Entre um ponto e outro, analisam-se a música da Vera Cruz, a revolução musical do Cinema Novo, a obra de Remo Usai, as trilhas dos anos 1970 e 80.

Pena que a distribuição seja restrita, sem tiragem comercial. Alguém precisa dar um jeito para que esse trabalho sem precedentes possa chegar às livrarias – e estimular outros estudos sobre a trilha, essa rica prima-pobre do cinema brasileiro.

Confira o sumário do livro

Acontece por aí

agosto 31st, 2009 § 2 Comentários

Update: Começa quinta, na Casa do Saber da Lagoa, o curso “Entre a Tela e o Divã”, com o psicanalista e crítico de cinema Luiz Fernando Gallego. Ele explica que vai falar “de Orson Welles, William Wyler, Gregg Toland, André Bazin, Visconti, Pasolini, Bertolucci, Scorsese e Kubrick – pelo lado da tela. Com pitadas de Freud, Melanie Klein e Heinz Kohut pelo lado do divã”. Mais informações aqui.

Nesta quinta-feira, às 21h30, no Unibanco Arteplex, haverá o lançamento de HU, documentário de Pedro Urano e Joana Traub Csekö. Baseado em dissertação de mestrado de Joana, o DOC-TV faz o estudo audiovisual de um grande desperdício. O enorme edifício modernista ocupado pelo Hospital Universitário da UFRJ no Fundão tem uma metade nunca concluída e outra parte abandonada ao descaso e à deterioração. Saúde pública e arquitetura se articulam num filme que, embora criativo na abordagem dos espaços, sofre com o peso do tema e demora a articular sua questão central. Resta, no fim, a denúncia um tanto vaga da incúria do Estado em ambos os setores. A sessão no Arteplex terá entrada franca e será seguida de debate com os diretores, o arquiteto Roberto Segre, a documentarista e pesquisadora Consuelo Lins e a artista visual Rosângela Rennó.

Amanhã (quarta) Marcelo Janot dá início ao seu curso Ouvir o Filme: Uma Investigação do Papel da Música no Cinema. O crítico de cinema e DJ Janot une suas duas grandes paixões, cobrindo do cinema mudo às trilhas pop contemporâneas. Mais informações no site do POP.

O Espaço Telezoom oferece, a partir de quinta-feira, um curso de Direção de Arte para Cinema, TV e Publicidade com a tarimbada Isabel Paranhos. Além de explorar o tripé cenografia-produção de arte-figurino como estrutura da direção de arte, a oficina aborda também elementos gerais da linguagem cinematográfica. Leia mais no site do Telezoom

O documentário O Tablado e Maria Clara Machado, de Creuza Gravina, será exibido no Planetário da Gávea nesta quinta, às 19 horas, dentro do V Ibero Brasil Cine Festival. O doc conta, de maneira carinhosa, a história desse capítulo importante do teatro carioca. Dele falam ex-alunos e ex-professores de várias gerações, como Marieta Severo, Malu Mader, Ernesto Piccolo, Cláudia Abreu, Gilberto Braga e outros. A participação de Barbara Heliodora, relembrando seus tempos de “Bruxa”, é particularmente divertida.

Começou ontem (segunda) na TV Brasil a série documental Era das Utopias, tema que Silvio Tendler vem trabalhando há vários anos. Infelizmente, perdi o primeiro episódio, mas pretendo ver/gravar os demais. Silvio dividiu a série em três blocos de dois capítulos cada: Utopia Capitalista, Utopia Socialista e Novas Utopias. De hoje a sexta-feira, os programas passam às 20h30. O último, no sábado às 21h30. Conheça o site da série.

A Cia. Teatro Oficina faz a estreia nacional de Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!! (duas exclamações) nos dias 5, 6, 7, 12 e 13 de setembro, em sessões às 18 horas, no Espaço Tom Jobim, dentro do Jardim Botânico (Rio). Para não fugir da bacante irreverência habitual, Zé Celso põe o público para entrar através dos bastidores: os atores nos camarins, a banda afinando-se, os operadores de luz e som iluminados.

Rio das dores

agosto 28th, 2009 § Deixe um comentário

Waldick

Quando o penetrante e um tanto melancólico documentário de Patricia Pillar passou no É Tudo Verdade de 2008, Waldick Soriano ainda lutava contra um câncer na próstata. Se não vendia saúde, tampouco parecia já negociar com a morte que o levaria em setembro. Waldick– Sempre no Meu Coração foi exibido no Canal Brasil e agora chega ao cinema como um tributo póstumo ao menestrel da dor de cotovelo e do macho-vítima.

Republico abaixo o bonito texto que  Carolina de Assis escreveu em março de 2008 para o DocBlog: 

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No lugar de Kurt Cobain

agosto 17th, 2009 § 2 Comentários

O Cine Glória está exibindo, em sessão única diária às 20h40, um filme muito particular. Em Kurt Cobain: Retrato de um Ausência, não vemos nem ouvimos nada daquilo que constitui a fórmula canônica dos documentários sobre astros da música: imagens de shows, a música do próprio, depoimentos sobre o personagem. Até as fotos de Kurt Cobain – poucas – aparecem somente nos momentos finais. No entanto, poucos filmes conseguem sugerir tão bem o universo do artista como este ensaio impressionista assinado por A. J. Schnack.

A base de tudo é o áudio das conversas de Cobain com o jornalista Michael Azerrad para um livro biográfico, gravadas um ano antes do suicídio do roqueiro. Schnack optou desde o início por um caminho próprio. Não lhe interessava coletar mais evidências, mas atrelar às Kurt 2falas de Cobain um comentário visual que restituísse o “senso de lugar” dos fatos narrados. Assim, produziu belas e inesperadas imagens dos lugares frequentados pelo músico em Aberdeen (sua cidade natal, daí o título original, About a Son), Olympia e Seattle. A música não é a de Kurt, nem do Nirvana, mas dos artistas que ele ouvia e lhe inspiravam.

O resultado é um retrato oblíquo, mas intensamente sugestivo, dos ambientes em que Cobain se formou e se consumiu: ruas, casas, escolas, clubes, bares, casas noturnas. Editadas pelo próprio diretor, essas imagens se organizam ora pela lógica poética do videoclipe, ora pela ilustração indireta. E com toques de animação. É uma lufada de ar fresco num gênero de docs que usualmente investe na literalidade.         

P.S.   A. J. Schnack  mantém um blog antenadíssimo com o planeta doc. Veja só.   

Jazz animado

agosto 9th, 2009 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Begone Dull Care (1949). Animação de Norman McLaren, música de Oscar Peterson. Duração: 8 minutos

Insustentável leveza

julho 24th, 2009 § 2 Comentários

Eu temia que Coração Vagabundo acabasse conhecido como apenas o filme em que  Caetano Veloso mostra uma nesga do pênis. Se dependesse do marketing de Paula Lavigne, seria isso mesmo. Mas, felizmente, o doc de Fernando Grostein Andrade chega às telas com uma definição mais adequada: é um simpático e despretensioso retrato de Caetano em relativa intimidade, coracaofazendo piadas consigo mesmo, caminhando ao léu no estrangeiro, comentando generalidades culturais com a verve de sempre.

De qualquer forma, é um exagero alçá-lo à esfera dos melhores docs musicais brasileiros do momento. Quando do É Tudo Verdade de 2008, Juliano Gomes falou bem no DocBlog sobre as virtudes e limites do filme (leia aqui). A insustentável leveza de Coração Vagabundo dá a impressão de uma viagem fragmentada demais, excessivamente deslumbrada com os lugares por onde passa. Vale a pena, sim, assisti-lo no cinema, mas melhor ainda é vê-lo em casa, numa tarde vadia, com uma xícara de chá verde na mão e pantufas nos pés.

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