Cinefilia online

abril 16th, 2012 § Deixe um comentário

Artigo escrito em 2010 para a revista Filme Cultura nº 53, de janeiro de 2011 (alguns números devem, portanto, estar defasados)

Você baixa seus e-mails pela manhã e recebe a mensagem de um amigo avisando que um filme raro dos anos 1970 acaba de ser disponibilizado num site de cinema online. Então você não resiste, pega um café e se refestela no sofá para assistir no seu notebook. Em seguida, visita o fórum do site para checar o que está sendo discutido sobre o filme. Navega depois para outros fóruns semelhantes, “conversa” com outros apreciadores do filme, sendo um de Manágua e um de Singapura. Deixa um comentário rápido no Facebook, recomenda o link do filme no Twitter e escreve um post para o seu blog. Por fim, visita o IMDb para verificar o que seus críticos favoritos escreveram sobre aquela obra-prima.

Mesmo sem entrar numa sala de cinema, sem conversar no barzinho, sem folhear qualquer publicação impressa nem gastar um tostão, você terá percorrido um circuito completo de autêntica cinefilia. O notebook, é claro, não se compara à tela grande, assim como a comunicação virtual não se equipara ao contato pessoal. Os nostálgicos dirão mesmo que o jornal eletrônico não tem as virtudes táteis e até olfativas da revista impressa. Já os contemporâneos argumentarão que nenhum cinema estaria exibindo “aquele” filme. E, afinal, de que outra forma você trocaria ideias com os tais cinéfilos de Manágua e Singapura?

Discussões à parte, o fato é que uma nova cinefilia se impõe para fazer face a uma nova forma de consumo do produto audiovisual. E por que não dizer, a um novo cinema. Um cinema descentrado, individualizado e não simultâneo, mas ampliado pela rede globalizada que já engendrou uma espécie de “novo coletivo”.  Continue lendo

Travessuras de Laurie

março 29th, 2011 § 1 Comentário

Com seu ar de garoto travesso, Laurie Anderson abriu ontem pessoalmente a sua exposição I in You / Eu em Tu no CCBB-RJ. A moça trouxe seus violinos performáticos, vídeos e duas instalações de encher os olhos (e ouvidos). Numa delas, poemas audiovisuais são projetados em quatro telas de formatos e tamanhos diferentes. Na outra, a mais bela de todas, a “tela” é uma paisagem construída com picotes de papel sugerindo campos e aldeias, sobre a qual são projetadas imagens e grafismos de diversas naturezas.

Vi tudo sem muita calma, em meio à pequena multidão que acorreu à abertura. Quero voltar. Na verdade, gostaria de me mudar para aquela sala da paisagem. Ficar ali uns três meses ouvindo as experimentações musicais de Laurie e apreciando a brisa das imagens passar sobre os vales de papel.

A exposição tem fotos da Laurie performer em distintas fases de sua vida. Quando jovem ela gostava de dormir em lugares públicos inusitados para ver se o local influenciava seus sonhos. As fotos dessas performances me lembram uma série de fotografias que faço de gente dormindo em lugares públicos (veja aqui). À esquerda, uma das fotos de Laurie.

Abaixo, um trecho da performance Duet on Ice, que gravei com meu celular na noite de ontem. Ela repete hoje às 18 horas no saguão do CCBB. E às 18h30 faz palestra. Na performance original, Laurie calçava os blocos de gelo para determinar o tempo de duração do ato. Quando o gelo derretia e ela começava a perder o equilíbrio, era hora de terminar.    

 

Casais impossíveis

novembro 21st, 2010 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Uma imagem vale mil palavras. O velho provérbio ganhou uma acepção divertida na comunidade online Worth1000, que desde 2002 mobiliza internautas para brincar com imagens. Eles promovem competições diárias que resultam em entretenimento visual e até alguns escândalos, quando suas fotos inventadas são confundidas com o real. O site conta com orgulho que até o Pentágono já soltou uma declaração desassociando-se das imagens do Worth1000.

Uma das competições mais populares por lá é de “Casais de Celebridades Impossíveis”, reunindo numa mesma foto artistas vivos e mortos. Abaixo destaquei três que me agradaram especialmente, mas vale a pena visitar o Worth1000 e navegar pelas várias páginas e diversas edições do tal concurso.    

Di Caprio e Miranda

Heath Ledger e Katy Perry

Clooney e Kelly

Santos Dumont: Pré-cineasta?

outubro 1st, 2010 § 1 Comentário

Ver, voar, volver

Carlos Adriano não esconde a origem de seu primeiro longa na sua própria tese de doutorado sobre Santos Dumont e a pré-história do cinema. A relativa coincidência entre o surgimento do mutoscópio (1894), as primeiras experiências de Santos Dumont com balões dirigíveis (1898) e a construção da Torre Eiffel (1889) – em torno da qual SD fez voo célebre em 1901 – levou o cineasta a articular uma série de conexões poético-científicas sobre o desejo de ver e voar.

Um dado vital acabou sendo incorporado pelo filme: a morte do pesquisador e animador cinematográfico Bernardo Vorobow (1946-2009), companheiro e produtor dos filmes de Adriano. As imagens de Bernardo, reiteradas ao longo de todo o filme, sublinham os temas da memória, da desaparição e da reaparição, tão intrínsecos à matéria do cinema. Bernardo, às voltas com uma pequena câmera fotográfica digital no Champs de Mars, cria uma interessante dilatação temporal e tecnológica com as buscas dos pioneiros da imagem em movimento, um século atrás.

Como nunca fizera em seus curtas, Adriano recorre aqui a depoimentos formais para puxar o fio de seu arrazoado. Ismail Xavier, Eduardo Morettin, Henrique Lins de Barros (biógrafo de SD), Ken Jacobs, curadores e historiadores internacionais comentam em paralelo a curiosidade do aviador e a gênese do cinema, bem como o trabalho contemporâneo com materiais de arquivo. O filme de Adriano, aliás, nasceu de um incrível achado arqueológico: centenas de cartões reproduzindo os fotogramas de um filmete da Biograph londrina, rodado para o mutoscópio em 1901. Nele, Santos Dumont aparece mostrando os desenhos e explicando o funcionamento de um balão. Um minuto precioso e desconhecido, que Adriano e Vorobow restauraram e devolveram à forma fílmica. Este é o elemento detonador de toda uma reflexão que nos leva a ver paralelismos formais entre os mecanismos do cinema e da aviação.

Uma inestimável antologia de imagens pioneiras de Marey, Muybridge, Méliès, Dickson, Cohl e outros complementa o prazer intelectual que esse pequeno longa oferece. Arte e pesquisa se unem e se comentam mutuamente num ensaio fertilizado também pelo aspecto afetivo.     

Nossa Vida Exposta

setembro 25th, 2010 § 1 Comentário

Origens do contemporâneo

O máximo de exposição pode se equivaler ao máximo de repressão – eis o que demonstra esse ótimo doc de Ondi Timoner. Ex-funcionária da pioneira webTV Pseudo.com, ela herdou a tarefa de montar o filme a partir das 5 mil horas filmadas em torno do arauto da internet Josh Harris ao longo de duas décadas. O que resultou é um mergulho sem precedentes na lógica que comandou os primeiros anos de vida virtual, antecipando dramaticamente a realidade atual da autoexposição e das redes sociais.

Entre seus pares, Harris teve o diferencial de fazer isso como uma proposta radical de comportamento. Para o projeto Quiet: We Live in Public (1999), ele reuniu mais de 100 voluntários para viver num bunker subterrâneo sob vigilância constante (mesmo!) de dezenas de webcams, em regime de total conectividade. A todos era concedida liberdade total e, ao mesmo tempo, um tratamento de Guantánamo. Mais tarde, Harris repetiu a experiência com ele mesmo e sua namorada, dividindo com o público cada segundo da convivência do casal durante meses. Que todas essas empreitadas tenham terminado mal não chega a afetar sua importância visionária. O teor de disponibilidade, vigilância e mesmo sadomasoquismo da autoexposição servem como reflexo antecipado – e aumentado – do que vivemos hoje cotidianamente.

We Live in Public nos familiariza um pouco com “internet enterpreneurs”, “surveillance artists”, “interrogation artists” e toda uma fauna de “dot.com boys” que passou do anonimato ao estrelato e de volta à obscuridade em poucos anos. Josh Harris é um deles, talvez o mais performático, a ponto de ter sido chamado de “Warhol da webTV”. Ele é o eixo central de um roteiro primoroso, tão coeso que cada depoimento ou cena de arquivo parece ter nascido já dentro do filme. O gigantesco e energético trabalho de edição não deixa fios perdidos e mantém o sabor de entretenimento. Ao fim da projeção, é como se saíssemos de uma montanha russa, mas com um gap de informação preenchido sobre as origens da contemporaneidade.

Site do filme 

Rubens Machado Jr. comenta “o novo coletivo”

julho 19th, 2010 § Deixe um comentário

O parceiro da conversa que inspirou meu post sobre o cinema e o “novo coletivo” enviou os seguintes comentários, que merecem o destaque na página da frente:

Carlos, ótimo desenvolvimento da nossa conversa temos aqui! Vou tentar me explicar um pouco mais, não sei se tenho razão, só vejo com curiosidade e atenção ao fato de que “estarmos” é diferente de “nos sentirmos” num espaço público. A 1ª condição não é necessária nem suficiente para a segunda, mas ajuda muito, exerce um papel decisivo. A civilidade ou falta de civilidade do público circunstante nas salas de cinema depende disso. E nossa percepção muda (ainda que insondavelmente), nossa sensibilidade para o filme não é a mesma, a de estamos em casa ou nas salas, para qualquer filme, ainda que seja mais evidente em comédias, nós veremos sempre de outro modo – essa é a minha hipótese. Tudo bem que o casuísmo ou o pentelhismo de um vizinho chato nos atrapalha a fruição – mas mudar de cadeira costuma resolver. E depois, preocupa-me pensar nos incômodos de estar sozinho em casa durante um filme, exagerando um pouco: me parece que faltou algo, perdi uma parte do filme. A internet e o dvd podem ter trazido uma dimensão coletiva à fruição caseira, que a torna uma experiência pública também. Porém, digamos que ela é mais incerta. Há um eremita crescendo em nós a cada década, um eremita civilizado? Haverá polis sem espaço público? Os eremitas coletivizados do futuro seriam mais ou menos politizados? Os obesos internautas galáticos de Wall-E convivem num salão, numa nave, e o filme é otimista. Eu diria que o admirável mundo novo não está definido, nem vem datado de 1984. Mas que a indústria cultural está nos fabricando de um modo assustador, não tenho dúvida.

O cinema e o “novo coletivo”

julho 13th, 2010 § 14 Comentários

Os multiplexes, o Imax, o 3-D e os sistemas sofisticados de som estão lutando o bom combate, mas será que o futuro do cinema como fruição coletiva está com os dias contados? Eis uma pergunta que frequenta muitas conversas sobre o assunto. E não foi diferente em Salvador, na última sexta-feira, quando jantei com o crítico e professor da USP Rubens Machado.

Rubens levantou essa bola. De fato, quando a TV se instalou como mídia dominante, muito do consumo audiovisual deixou de ser coletivo e passou a ser familiar ou de pequenos grupos. Agora, com os computadores e celulares, o audiovisual passou a ser consumido individualmente, numa tendência que parece irreversível. Rubens citou isso como uma perda para a arte do cinema. Eu coloquei uma dúvida na mesa: será mesmo que o caráter coletivo é intrínseco ao cinema, ou é apenas uma contingência técnica e econômica surgida com o cinematógrafo e adotada pela indústria?

O pré-cinema, como o kinetoscópio e o mutoscópio de Edison, era destinado em sua maioria à fruição individual. Só mais tarde, com o advento do projetor e das telas grandes e verticais, é que o cinema tornou-se espetáculo para plateias maiores, em regime de simultaneidade. A indústria cinematográfica consagrou o modelo como negócio, em que o número de espectadores para uma mesma sessão passou a ser a chave da viabilidade financeira. A indústria investiu, então, nesse formato, criando os “palácios de sonho” e produzindo tecnologias cada vez melhores para a exibição coletiva com imagens e sons em escala extraordinária. A ponto de muitas vezes confundirmos o efeito de grupo com a qualidade do filme.

Rubens argumentou que, mesmo no pré-cinema, as exibições individuais se davam em espaços públicos. Ele dá grande importância a essa questão do espaço público. O fator coletivo, dizia ele, amplia a experiência do cinema através da interatividade na plateia e da contaminação do riso e da emoção. Estava certo. Não é a mesma coisa assistir a O Pequeno Nicolau num cinema lotado e solitariamente num monitor de notebook. Algo se perde nessa redução, não tanto pelo tamanho da tela, mas sobretudo pela falta de companhia. Resta saber quanto da qualidade da comédia de Laurent Tirard depende da experiência coletiva e quanto reside no filme de per si.

Além disso, contra-argumentei, o consumo individual está longe de se parecer com um vício privado. Ao contrário, tende hoje a se coletivizar virtualmente por meio das redes sociais. Quando enviamos um arquivo ou um link para um amigo, trocamos nossas impressões no Facebook ou no Twitter, estamos formando grupos de fruição. Cineclubes virtuais se constroem à base de downloads, comentários, recomendações etc. Acredito que, mesmo cada um em sua casa, estamos vivendo uma espécie de “novo coletivo”.

Um abraço, Rubens, o papo foi ótimo.

Cameron is coming

fevereiro 24th, 2010 § 4 Comentários

Dois posts abaixo eu dizia que tinha dois segredos para contar em breve. Um deles já vazou numa revista semanal cujo nome me recuso a repetir. James Cameron, o mago de Titanic e Avatar, vem ao Brasil em fins de março, trazido pela empresa Seminars. Fará duas conferências – uma em Manaus, sobre sustentabilidade, e outra em São Paulo sobre temas ligados a cinema, espetáculo e tecnologia.

É bem provável que chegue por aqui com alguns Oscars na bagagem. Isto é, se a ex-mulher não lhe roubar todos.  

10 regras de etiqueta no Twitter

janeiro 14th, 2010 § 7 Comentários

Nos seis meses em que estou no Twitter, pude notar que certas condutas podem assegurar um fluxo claro e amigável de mensagens no microblog. Mas nem todo mundo parece ligado nessas regrinhas não escritas. A título de colaboração cidadã, escrevi esses 10 tópicos de etiqueta:

1. Poupe seus seguidores de overdose. Não sobrecarregue a caixa alheia com tudo o que lhe vier à cabeça ou parecer interessante repassar (retuitar). Dez ou doze tweets por dia parecem números razoáveis. A não ser que você seja uma agência noticiosa.

2. Esqueça a reciprocidade. Não se sinta obrigado a seguir quem lhe segue. Esse é o espírito do Twitter. Compreenda que muitos dos que você segue também não estão lhe seguindo. Portanto, nada de stress.  

3. Refreie a vaidade. Retuitar uma mensagem alheia de elogio a você, só quando contiver informação relevante ou alguma graça especial. Do contrário, vai soar tolo e cafona (isso mesmo, cafona).

4. Preserve o tweet alheio. Se quiser fazer algum comentário ou acréscimo ao retuitar uma mensagem, faça-o sempre antes do RT @…….. Se o seu plus aparecer depois, será interpretado como parte do que o outro disse.

5. Resista à facilidade do botão de retweet automático. Ele poupa o trabalho de recortar e colar, e por isso estimula o retweet indiscriminado. Pense bem se a mensagem vai interessar à maioria dos seus seguidores tanto quanto interessou particularmente a você.

6. Mencione a fonte da informação. Quando, em vez de retuitar, você vai repassar uma mensagem reeditada, sobretudo se ela for importante e/ou rara, dê o crédito a quem a enviou: (via @…….).

7. Direcione corretamente as respostas. Quando a resposta (reply) a um tweet só interessar àquela pessoa, sempre comece com @….. Se você escrever um caractere sequer antes disso, a resposta vai para todos os seus seguidores. Isso, quase sempre, é como ouvir conversa alheia sem saber o assunto.

8. Indique o assunto da resposta. Mencione uma palavra ao menos que indique sobre o que você está respondendo. Se não, a resposta pode chegar como um enigma.

9. Aproveite a privacidade. O Twitter tem o dispositivo da mensagem direta (direct message) para enviar tweets exclusivos. Use-o para assuntos de interesse particular em vez de coalhar a caixa geral. No caso de seguidores recíprocos, essa função é acessada a partir do menu da direita. Se você não segue o destinatário, mas ele o segue, basta entrar no Tweet dele e clicar “direct message to” no menu da rodinha dentada.

10. Seja diplomático. Use periodicamente o botão de pesquisa do seu username (na coluna da direita, logo abaixo de Home) para checar quem andou mencionando você ou retuitando suas mensagens. Se você não os segue, essa é a única forma de acompanhar. Daí podem resultar diálogos interessantes.

P.S. Por favor acrescentem ou discutam nos comentários 

Conectividade ou morte

dezembro 29th, 2009 § Deixe um comentário

Consciência ecológica, crítica à ganância geoeconômica, mensagem de respeito ao diferente – todas essas ideias edificantes circulam velozes pelas veias de Avatar. A floresta, ora jardim das delícias, ora inferno dantesco, é o palco para uma atualização de dois gêneros: o filme de alienígena e o filme de índio. Obedecendo à lógica instalada nos anos 1960, os “estranhos” é que são os heróis, enquanto o papel de vilão cabe à ideologia belicista dos terráqueos e brancos. 

Mas o que ancora toda a lógica politicamente correta do filme é algo bem mais contemporâneo. É o elogio da conectividade. O maior tesouro da civilização Na’vi é sua compreensão panteísta do universo, de que tudo está ou pode estar conectado. As árvores se comunicam, assim como homens e animais uns com os outros, corpos e espíritos. Conectar é “ver por dentro”, compartilhar energias e conhecimento.

Por isso os terráqueos beligerantes soam tão rudes e cínicos. Mais que tudo, eles são a retaguarda da desconexão. No seu egoísmo devastador, não têm noção da importância de compartilhar. Para eles, o mundo é pura matéria-prima para ser explodida e transformada segundo seus interesses. Para aqueles senhores da guerra, nada se conecta com nada, a não ser com um fim de conquista através dos avatares.    

O filme de James Cameron coloca vários temas clássicos para convergir num grande tema que interessa à mentalidade e à indústria tecnológica de hoje: um mundo que precisa da conectividade para ver as coisas por dentro e, quem sabe, se salvar de um horizonte de autodestruição. Conecte-se, ou será desconectado para sempre.              

Twitter, eu te amo

novembro 12th, 2009 § 3 Comentários

140Não sei se é o primeiro, mas vai sair em breve um filme completamente inspirado pelo Twitter. O título é auto-explicativo: 140. Mas também poderia ser “Twitter, I Love You”, já que a proposta se aproxima da série iniciada com Paris, Je t’Aime. A ideia foi do curta-metragista irlandês Frank Kelly. Ele pediu a 140 pessoas de 23 países que filmassem durante 140 segundos no dia 21 de junho às 8 da noite (horário Greenwich). O tema era “conexão”. De posse desse material, Frank começou a editá-lo livremente, de maneira a criar um fluxo de ideias e imagens, um poema audiovisual a respeito de conectividade. 

Já existe um clipe do filme na rede. Por ele, não dá bem para sacar qual será o resultado. Mas diz uma coisa: o Brasil é a menina dos olhos do mundo. Quase todo o clipe é composto de imagens do Rio de Janeiro (tem SP também?), com direito ao Cristo Redentor e seu panorama (veja abaixo). Entre os 140 cineastas, há quatro brasileiros, sendo três de SP e um do Rio.  

Por conexão, Frank Kelly entende um espectro amplo de coisas. Ele recomendou aos envolvidos que filmassem algo que os conectasse com o lugar onde vivem. “Pode ser qualquer coisa. Suas crianças. O oceano. Um crepúsculo. Amanhecer. O sorriso de um amante. Amigos rindo. Tráfego. Uma paisagem. Não há regras. Cabe a você decidir. Mas deve ser verdadeiro para você.”.

Frank vai em seguida batalhar a colocação de 140 em festivais e distribuí-lo mundo afora. De futuro, ele pretende criar um site com um mapa onde se possa clicar e ver os 140 segundos completos de cada locação. Para saber a quantas anda o projeto, consulte o blog ou, claro, siga Frank no Twitter.

Projeção digital: o debate continua

outubro 22nd, 2009 § 2 Comentários

Após a divulgação da carta aberta de críticos brasileiros aos responsáveis pelas más condições do cinema digital entre nós, a empresa responsável pelo sistema Rain respondeu minimizando o assunto, como se ele se restringisse apenas a mostras e festivais. Leia no blog do Zanin.

Em comentário enviado diretamente a mim, a respeito do post “O cinema digital na berlinda” (veja mais abaixo), Luiz Gonzaga Assis de Luca, diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro e vice-presidente da Federação Nacional dos exibidores, fez uma minuciosa análise da situação. “Cinema digital está se convertendo em cinema de baixa qualidade por aqui, quando a proposição é de se ter a melhor qualidade, com menos manipulação dos originais e com a garantia de se ter uma cópia absolutamente igual ao original.”, afirma.

Luiz Gonzaga defende o padrão DCI, mais dispendioso, mas capaz de preservar a qualidade e o formato das cópias 35mm. Quanto à Rain Networks, reconhece a maior adequação à nossa realidade, mas explica os inconvenientes de ter que fazer ajustes “artesanais” para cada filme exibido. Aí é que os descalabros acontecem entre os originais e o que se vê nas telas.

“A única questão que posso assegurar pela minha experiência de quase 35 anos atuando em cinema, a maior parte deles trabalhando com tecnologia, é que cinema digital é bom”, garante. “Na pior das hipóteses, equipara ao 35mm. Na melhor das hipóteses, é que cria condições ímpares de exibir conteúdos que não poderiam ser exibidos em cinema. É só fazer direito o que tem que ser feito. O que é fazer direito? É seguir as normas técnicas.”

Clique aqui para ler o arrazoado completo de Luiz Gonzaga Assis de Luca.

Santos Dumont, Darwin e INCE na festa da Ciência

outubro 20th, 2009 § Deixe um comentário

A 15ª edição da Mostra Ver Ciência começa hoje no CCBB-Rio, com patrocínio da Petrobras. Trata-se de uma mostra de programas de TV, mas não basta ligar o seu aparelho para ver muitas coisas legais que estão na programação.

Uma delas é o programa Asas da Loucura, da rede pública americana PBS. Realizado em 2006 e inédito no Brasil, faz o reconhecimento tardio – mas explícito – da primazia de Santos Dumont na invenção do avião. Os americanos enfim admitem, pelo menos, que os Irmãos Wright trabalhavam na encolha, enquanto o brasileiro voava primeiro diante do público.

Os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies ganhou uma seleção de novíssimos docs e reportagens da BBC e de várias emissoras brasileiras. Darwin, naturalmente, é uma das estrelas da mostra este ano. Mas brilham também 16 cientistas brasileiros retratados em nova série do Globo Ciência (Canal Futura), a ser exibida na íntegra no CCBB.

Um dos grandes destaques da 15ª Mostra não tem origem na televisão, mas no extinto Instituto Nacional do Cinema Educativo. São 14 filmes de curta e média metragem recentemente restaurados e digitalizados pela Cinemateca Brasileira, com verbas dos Ministérios da Cultura e da Ciência e Tecnologia. Vários trazem a assinatura de Humberto Mauro. O mais curioso talvez seja o doc+drama O Segredo das Asas, em que um oficial da FAB faz pouso forçado no pasto de uma fazenda e passa a relatar a formação de aviadores a uma bela moça rendeira. É supimpa!

Os filmes do INCE incluem títulos há muito fora de circulação, como A Medida do Tempo, de Jurandyr Noronha, um doc de 1964 que conta com a ajuda da animação.

Veja a programação completa no site da mostra, que só vai até domingo.

O cinema digital na berlinda

outubro 18th, 2009 § 1 Comentário

Uma boa e uma má notícia sobre o cinema digital.

A boa notícia é o recente lançamento do livro A Hora do Cinema Digital – Democratização e Globalização do Audiovisual, de Luiz Gonzaga Assis de Luca. A parca existência de estudos brasileiros (menos ainda publicados) sobre o cinema pelo seu viés tecnológico-industrial torna esse trabalho de suma importância. O autor retoma e aprofunda o tema de seu livro anterior, Cinema Digital – Um Novo Cinema, também da Coleção Aplauso/Imprensa Oficial do Estado de SP. Conta a história das transformações vividas pela exibição cinematográfica no Brasil e no mundo, e analisa o fenômeno da convergência digital, em que filmes, televisão, shows e jogos trafegam entre plataformas e decretam o fim da era das segmentações absolutas.  Continue lendo

Conta outra

setembro 9th, 2009 § Deixe um comentário

Mentiras sinceras interessam, cantava Cazuza. Mentiras essenciais são o que importa, poetava Waly Salomão.

Mas há mentiras que não são sinceras nem essenciais. São puras, deslavadas enganações. Elas surgem a todo momento, especialmente na mídia e na internet. Quantas vezes você não tem vontade de abrir a janela e gritar “Não! Isso é mentira!”.

Compreendi que, de alguma forma, o Twitter pode fazer as vezes dessa janela. Você vai ali e, em essenciais 140 toques, diz que não acredita em determinada lorota. Pelo menos seus amigos seguidores saberão o que você pensa.

Para isso, criei no meu Twitter a hashtag (palavra-tema) ”#contaoutra“. Sempre que não acreditar numa história corrente, vou contar ali no microblog. Convido os amigos a compartilharem a hashtag, gritando na sua própria janela o que achar que é mera conversa fiada.

Desde sexta-feira, já postei as seguintes patranhas no #contaoutra:

- “O governo” está fraudando a mega-sena. Só ganham “laranjas”. A mídia só não denuncia porque “o governo” não deixa.

- O Estação abandonou as salas do novo prédio porque a UPA desvalorizou o lugar como entretenimento. 

- A Argentina tem futebol.

- Os Normais 2 merece algum tipo de aplauso. 

- O Globo tem revisores e copidesques.

- Trabalho escravo é flagrado em obra do PAC (Folha SP). Conheça a verdade: http://is.gd/329RF

- O “socialista” Obama vai comer as criancinhas estudantes dos EUA.

Ao final de todas essas frases, ouçam o meu mais sincero “então, tá”.

Ubuweb, a um passo da utopia

agosto 24th, 2009 § 4 Comentários

Ubuweb

 

 

 

Você provavelmente já topou com o Ubuweb. Mas já parou para pensar nele?

O Ubuweb é um site criado em 1996 pelo poeta estadunidense Kenneth Goldsmith para disponibilizar poesia sonora, escrita e visual. Poemas, textos, filmes e áudio são incorporados sem autorização dos autores, com base no pressuposto de que as obras são de vanguarda e não têm potencial comercial.

Mas como isso é decidido? O próprio Ubuweb explica: se o trabalho está fora de circulação comercial, eles uploadam numa boa. Se está circulando a um preço tido como alto demais, arriscam oferecer de graça no site. Mas se a obra está sendo comercializada a um preço considerado justo, eles não tocam. Se qualquer artista pede para retirar seus trabalhos, isto é feito imediatamente.

“Fala a verdade, se tivéssemos que pegar autorização de todo mundo no Ubuweb, não haveria Ubuweb”, afirmam candidamente os editores no seu FAQ.  

Pirataria? Pode ser, mas muito simpática e politicamente correta. Tudo é muito claro e honesto, num ambiente de cultura compartilhada e gift economy (ninguém põe a mão em dinheiro, nada é vendido ou comprado). Tanto que a maioria dos artistas fica feliz de encontrar suas criações no site, e muitos oferecem obras para inclusão.  

O acervo de filmes do Ubuweb é um imenso céu estrelado. De Beckett a Beuys, de Godard a Gary Hill, de Mekas a Mishima, são centenas de obras de artistas do primeiro time da vanguarda internacional de várias épocas.

A utopia de um mundo sem copyright fica mais perto com iniciativas como essa. 

Tuitando pertinho

agosto 13th, 2009 § Deixe um comentário

Agora você pode acompanhar meu Twitter também aqui no blog. Veja na coluna da direita, logo abaixo dos filmes em cartaz. Minhas cinco mensagens (ou tweets) mais recentes estão ali.

Se você também tuíta, então siga-me: @carmattos

50 seguidores!

agosto 6th, 2009 § 1 Comentário

Atingi a vertiginosa marca de 50 seguidores no Twitter. Agora só faltam os seguintes números para alcançar:

Paulo Coelho: 81.383

Marcelo Tas: 222.915

The White House: 876.111

Ashton Kutsher: 3.075.496

Também pudera: eles não devem eliminar os spammers, aqueles malucos que começam a seguir qualquer um na esperança de serem seguidos em contrapartida automática e assim inflarem seu número de followers. Tanto que algumas celebridades estão dando um unfollow geral para recomeçar do zero, sem o spam. Paulo Coelho foi um que não suportava mais receber milhares de mensagens sem nexo e resolveu dar uma zerada.  

De minha parte, tenho eliminado seguidores suspeitos – geralmente empresas comerciais ou garotas de programa. Meu Twitter, portanto, é bem limpinho. Estou muito satisfeito com esses 50 amigos que recebem meus recados regularmente.    

Enlatados

agosto 6th, 2009 § 3 Comentários

Orson Welles disse certa vez que o mal dos filmes é que eles são guardados em latas. “Nada que vem enlatado pode ser fresco”, explicou.

O mestre precisaria agora recorrer a outra metáfora para sua crítica ao cinema massificado. Grande parte do que hoje se produz não passa por latas. Termina em fitas de vídeo, DVDs, HDs, chips, redes eletrônicas. O cinema como objeto é algo cada vez menos palpável. O que não significa que ficou mais fresco.

Mas, pensando bem, o que é a cornucópia de sequelas da Hollywood atual, em luta para manter os níveis da indústria, assim como suas emulações em outros países? Mesmo que não passem por latas, são provas de que a expressão ”enlatados” pode estar perdendo seu sentido literal, mas não metafórico.

Twitteratura: muitas ideias em poucas palavras

julho 29th, 2009 § Deixe um comentário

Em entrevista a André Miranda, há poucos dias, José Saramago disse que o Twitter é um passo a mais na descida do homem até o grunhido. Na certa, o autor de Ensaio Sobre a Cegueira não estava se referindo apenas ao mar de banalidades e recadinhos espertos dessa rede social. Estava duvidando do seu potencial literário. Mas já tem um bocado de gente praticando um subgênero chamado twitterature, que busca tirar partido da circulação-relâmpago e do limite de 140 caracteres dos tweets (agora o verbo “to tweet” faz parte da gramática oficial dos EUA).  

Muitos projetos literários estão sendo desenvolvidos diretamente no Twitter. Há mesmo quem redija pequenas histórias a partir de palavras-chave que estão circulando na rede. Dois estudantes da Universidade de Chicago começaram a postar no Twitter trechos selecionados de obras de Dante, Stendhal, Shakespeare, Joyce etc, e já preparam um livro com esse material. No Brasil, C.S.Soares é tido como o autor da primeira twitterização de um romance,  o sd8. Continue lendo

Xô, microvida e metavida

julho 23rd, 2009 § 7 Comentários

Cotidiano tecnologizado, acesso imediato à informação, explosão das redes sociais… E a gente não consegue mais sair da frente do computador (ou desligar o celular). O grande desafio que se apresenta é: como selecionar?

Desde que entrei no Twitter, senti a necessidade ainda maior de não sucumbir à avalanche da hipercomunicação. Para isso, vou consolidando aos poucos uma decisão: fugir da microvida e da metavida.

A microvida é aquela dos eventos banais do dia-a-dia. Por exemplo, não sigo quem usa o Twitter principalmente para dizer que acordou mal-humorado ou que acabou de comprar um melancia deliciosa na feira. Por mais amigo que seja, e mesmo que esteja me seguindo, não sigo. Ninguém precisa saber essas coisas. Se da minha microvida até eu mesmo procuro escapar, imagina da microvida dos outros.

Já a metavida é aquele tempo enorme que, cada vez mais, dedicamos à própria tecnologia como um fim em si. Fico besta de ver a quantidade de mensagens que rolam no Twitter sobre as maravilhas do próprio Twitter, de como ele vai melhorar sua vida e mantê-lo em contato com o mundo inteiro de uma vez só. Acho que o Twitter é o principal assunto do Twitter, o que não me interessa nem um pouco.

Se bobearmos, o espaço dedicado à metavida vai crescer tanto a ponto de a confundirmos com nossa vida de verdade. A internet é um canal, não o destino. Digo isso a mim mesmo. E ponho aqui no blog.

Agora vou correr pra botar no Twitter…          

P.S. E ainda tem a pseudovida. Artur Xexéo caiu no conto do Twitter falso, esculachando Narcisa Tamborindeguy mediante a tuitagem de um impostor que se inscreveu em seu nome. Eu mesmo já topei com Twitters suspeitos, quando não visivelmente apócrifos, como vários criados em nome do Presidente Lula só para achincalhá-lo. 

Onde estou?

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