O livro do DOC TV
março 12th, 2012 § 3 Comentários
Uma das mais felizes iniciativas do governo Lula na área do audiovisual, aparentemente descontinuada no governo Dilma, o programa DOC TV possibilitou a criação de quase 200 documentários e a exibição de mais de 3.000 horas de material nas TVs públicas de todo o país. O programa foi reeditado por outros países da América Latina e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Essa história de sucesso acaba de ser contada em livro, organizado pela jornalista Maria do Rosário Caetano. Com textos de apresentação de Orlando Senna, Silvio Crespo e Maria do Rosário, resenhas críticas de 10 docs e sinopse e ficha técnica de toda a coleção, Doc TV Operação em Rede será lançado em São Paulo durante o Festival É Tudo Verdade, em fins deste mês. No Rio, articula-se um lançamento possivelmente no âmbito do Cinesul, em junho.
A seguir, adianto o texto que me coube fazer a respeito de Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato, um dos vários rebentos do programa que viraram pequenos clássicos do doc brasileiro contemporâneo.
Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem
Crianças vestidas de anjo numa procissão, uma carroça subindo a ladeira, um homem olhando o vazio, dois copos de plástico rolando na brisa. Imagens assim banais e descontextualizadas intrigaram os primeiros espectadores de Acidente. Que informações elas transmitiam, perguntavam-se os objetivistas do documentário. Que relação havia entre elas, além do fato de terem sido colhidas em pequenas cidades do interior de Minas Gerais, indagavam-se os ciosos da narratividade. Melhor deixar a análise para uma segunda visão, ponderavam críticos responsáveis.
De fato, os pequenos mistérios de Acidente se revelam com calma – e melhor ainda numa revisita ao filme. Arquitetos do acaso, Cao Guimarães e Pablo Lobato deixaram-se guiar pelo fortuito quando visitavam aquelas cidades de nomes sugestivos. Lançavam sobre elas um olhar sem pautas, uma observação interessada não nos nexos possíveis entre fatos e pessoas, mas nos eventos imprevistos, flagrantes mínimos ou micro-histórias que fossem capazes de produzir um sopro de identidade para cada lugar.
Assim, alguns são representados por metáforas alusivas ao seu próprio nome. O município de Tombos, por exemplo, é visto em fragmentos de prédios enquadrados contra um imenso céu azul, assim como se a cidade tivesse virado de ponta-cabeça. Fervedouro, por sua vez, é mostrada na figura de um caminhoneiro que troca seu veículo abrasador pelo mergulho numa piscina. Espera Feliz, minha favorita, faz-se presente através de diversos planos curtos e estáticos onde subitamente se desenha uma ação, criando no público uma (feliz) expectativa a cada momento. Há mesmo o recurso ao mero trocadilho, como na cidade de Jacinto, presente na pele de um velho (aparente morador de rua) que entoa uma canção de dor de cotovelo.
Mas a funcionalidade das figuras de linguagem não são o único procedimento de que se valem Cao e Pablo. A cidade de Ferros comparece por meio de duas ações infantis em direções opostas: um menino que escala um pau-de-sebo e outro que mergulha nas águas de um rio. Abre Campo e Descoberto se inserem por meio de imagens de ruas semidesertas ou de uma movimentação de pessoas estranhamente desconectadas, como num sonho. Vazante e Heliodora se mostram mais confessionais, com personagens que interagem com a câmera.
O acidental se opera em vários níveis. O material gravado em cada cidade contém o seu próprio dispositivo, fruto da escolha momentânea dos realizadores: ora a observação estendida, como no balcão do bar em Entre Folhas; ora um esboço de interação; ora, ainda, a pura busca da plasticidade de um pedaço de chão, um céu noturno, o vento na relva. O campo semântico do título inclui, naturalmente, os acidentes geográficos que determinam a topografia das cidades e em boa medida a relação que com elas estabelecem os seus moradores.
Por outro lado, se a ordenação das cidades atende ao desejo de formar um (duvidoso) poema com seus nomes, pode-se perfeitamente argumentar que outras várias ordens seriam possíveis e igualmente poéticas. Prevalece, então, mais uma vez, a impressão de casualidade, tanto no interior de cada episódio, como na sua sucessão.
Dizer, porém, que o acidental do filme quer corresponder ao acidental da vida seria reduzi-lo ao que não é. A impressão do imprevisto contrasta com sinais de uma construção minuciosa na edição de imagens e de sons (offs, ambientação sonora do Grivo, um latido de cão que transborda de Pai Pedro para Abre Campo). O acidente, no fundo, é uma reconstrução a que se chega na base do recorte, da aproximação de coisas distantes e do acréscimo desmotivado.
Realizado em 2005 e exibido com êxito e prêmios em vários festivais nacionais e internacionais, Acidente foi um dos primeiros rebentos a demonstrar o potencial do programa DOC-TV, seja em termos de diversidade de modelos documentais, seja em abertura para a modernização da prática no Brasil. O filme tornou-se referência nos estudos do chamado “documentário de dispositivo”, que substitui os tradicionais roteiros e pesquisas por eleições prévias e critérios predefinidos de filmagem que vão gerar a unidade e a força do filme.
Acidente também ajudou a consolidar certos tipos de experiência que caracterizam o documentário mineiro contemporâneo. Entre elas, a rarefação do aspecto narrativo em troca de uma lógica mais lírica; a atenção a uma fenomenologia do contato entre homens e natureza; a tematização de acontecimentos miúdos, corriqueiros ou levemente excêntricos; e por fim a convivência de estéticas do documentário, da videoarte e das texturas mais evocativas do Super 8.
Banco Central – a verdade ainda pode vir à tela
julho 21st, 2011 § 1 Comentário
Chega aos cinemas amanhã (sexta) um novo candidato a blockbuster brasileiro. Assalto a Banco Central usa elenco multiestelar, trilha sonora excessiva e boa fotografia para macaquear os thrillers de assalto americanos diluídos no refrigerante da comédia. O filme de Marcos Paulo se passa em dois tempos narrados alternadamente. De um lado, a arregimentação da quadrilha, o surgimento de conflitos internos, a escavação do túnel e a realização do maior roubo (e não assalto) bancário da história do país. De outro, a investigação posterior, a cargo de um delegado e sua assistente lésbica, culminando com a captura de parte do bando.
Uma combinação de fatos apurados e lances inventados ou deduzidos tenta extrair os aspectos, digamos, hollywoodianos da trama que abalou o notíciário policial em agosto de 2005. Do roubo se descobriu quase tudo, mas os detalhes reais da investigação permanecem desconhecidos da maioria dos mortais. Uma mulher, no entanto, presenciou grande parte da “Operação Toupeira”, conduzida pelo delegado Antonio Celso dos Santos. E ela tinha uma câmera.
Logo em seguida ao crime, a repórter e documentarista Luciana Burlamaqui foi convidada para dirigir um documentário sobre as investigações. Durante dois anos, ela acompanhou a dupla formada por Antonio Celso e outro agente federal, gravando com exclusividade – e em regime top secret – o trabalho dos policiais em 40 viagens por 10 estados brasileiros. Essa história ainda está por ser mostrada.
Luciana até hoje negocia com duas produtoras a forma de finalização do material. Ela quer montar um seriado de TV com o título provisório de Diário de uma Investigação – Os bastidores do maior roubo a banco da história do Brasil. Luciana prefere não se estender sobre os pormenores de um assunto que se tornou delicado para muita gente. Mas não esconde suas intenções:
- Todo o meu interesse nessa história é pelo fato de poder contar como é possível combater o crime no Brasil sem violência e sim com inteligência. Fui testemunha do método investigativo adotado pelo delegado e chefe da investigação Antonio Celso dos Santos, e por isso decidi apostar nessa história e me entregar fortemente ao projeto, pois achava que ali havia algo importante para se mostrar com mais profundidade.
Luciana escreveu um diário simultaneamente às filmagens. Quer publicar esses textos combinados com suas reflexões sobre a violência no Brasil nos últimos 20 anos. Desde a década de 1990 ela se especializou na cobertura desse tema. Aos 20 anos, já atuava como repórter investigativa para o livro Rota 66, de Caco Barcellos. No ano passado, lançou o excepcional documentário Entre a Luz e a Sombra, sobre a convivência de uma atriz e ativista com dois artistas presidiários ao longo de sete anos. Ao documentar a investigação do roubo ao BC, Luciana diz ter adotado o mesmo tipo de movimento dramático que aproxima a narrativa da ficção. Garante, porém, que nada foi dramatizado:
- Tudo é absolutamente real, gravado em tempo real. Segui diariamente uma dupla de policiais e registrei tudo o que encontravam pela frente, sem previsão do que ia acontecer. Foi um trabalho fascinante o de conhecer o submundo da criminalidade brasileira pelo ponto de vista de uma investigação policial, já que sempre documentei mais o lado dos acusados – e ter certeza de que é possível combater o crime sem violência. Esta é uma história muito importante para o Brasil conhecer.
Esperamos que sim, Luciana. O documentário brasileiro não pode ficar sem esse capítulo.
>>> Leia entrevista de Luciana Burlamaqui à Folha de S. Paulo após a publicação deste post.
O homem que driblou a Globo
abril 2nd, 2011 § Deixe um comentário
COUTINHO REPÓRTER
de Rená Tardin
De sua mesa no CECIP, Eduardo Coutinho rememora para Rená Tardin os tempos de Globo Repórter. Conta como “caiu na real” e entrou para a Vênus Platinada, como descobriu seus processos em programas clássicos como Seis Dias em Ouricuri e Teodorico, o Imperador do Sertão. Em tudo, a disposição para contestar ou driblar as imposições do padrão Globo. Planos longos, subversão da função do narrador, etc.
Mas a subversão principal vem nos minutos finais, quando Coutinho “confessa”, talvez pela primeira vez, a extensão dos seus “furtos” na Globo para realizar Cabra Marcado para Morrer. É algo de que a emissora do Jardim Botânico deveria se orgulhar. Àquela altura, Coutinho já não admitia mais a encomenda de fazer um programa sobre os 50 anos do Pato Donald. Era tempo de mudar de vida novamente. Simplérrimo e eficiente, Coutinho Repórter sublinha momentos cruciais na carreira do mestre e ainda capta seu entusiasmo (no off dos créditos finais) com as condições atuais do ofício documental.
A história de três quases
janeiro 11th, 2011 § Deixe um comentário
Agora que o cinema brasileiro parece tomar um novo fôlego de mercado, e que o assunto vira matéria de reflexão acadêmica e lançamentos editoriais, o momento é oportuno para relembrar outros capítulos dessa história. A partir de amanhã (quarta), o Canal Brasil vai exibir Luz & Ação, três programas em que Maurice Capovilla e Marília Alvim reuniram memórias de colegas sobre três episódios da luta dos cineastas brasileiros pela conquista do mercado. O subtítulo da trilogia corre o risco de continuar atual: “Quase fomos o que queremos ser”.
Luiz Carlos Barreto, Roberto Farias, Zelito Viana, Walter Lima Jr., Cacá Diegues e Hugo Carvana têm a palavra. E é nas palavras que os programas se sustentam, dispensando materiais de arquivo e quase totalmente cenas de filmes para ilustrar, complementar ou instabilizar o que é dito.
O primeiro programa (quarta 21h, com reprise sábado 11h30) descreve a trajetória da Difilm (1965-69), iniciativa pioneira de produtores e diretores do Cinema Novo que se associaram para assumir a distribuição de seus próprios filmes. A empresa que Lima Jr. define como uma “visão coletiva” transplantada para a esfera comercial teve uma vida curta mas radiante. Gerou lucros e fomentou novos filmes. Quando se dissolveu por conta de dissenções internas, já se anunciava no horizonte a criação da Embrafilme (1969-1990), objeto do segundo programa (dia 19 às 21h, com reprise dia 22 às 11h30).
Zelito Viana abre e fecha este programa de maneira retumbante. “A Embrafilme foi criada pelos militares para comprar o silêncio dos cineastas”, afirma no início. Mas a armadilha seria convertida numa galinha dos ovos de ouro pela habilidade política de cineastas como Farias, Barreto e Glauber, levando o cinema brasileiro a dominar 30% do mercado (no programa, fala-se em 42 e até 50%, mas os números não confirmam). De qualquer forma, o sucesso da Embra no período áureo 1974-1978 chegou a assustar os americanos, e isso é lembrado com alguns espasmos de xenofobia habituais na turma dos sessenta e setenta. Ao final do programa, coberto de razão, Zelito acusa a Veja e a Folha de São Paulo de terem publicado matérias encomendadas pela Motion Pictures Association para minar a Embrafilme, precipitando sua decadência.
O terceiro programa (dia 26 às 21h, com reprise dia 29 às 11h30) é o único que não obtém ótimo rendimento narrativo da costura de falas. Um pouco porque o projeto da Cooperativa Brasileira de Cinema (1978-1982) nasceu falido. Cerca de 70 diretores e produtores do Rio e São Paulo arremataram um conjunto de salas deixado pela Pelmex e tentaram formar um circuito de exibição. Não mais de um ano após a criação, a CBC já exibia seu fracasso. Poucas lembranças ficaram, em boa parte registradas no jornalzinho Luz & Ação, lançado pela cooperativa em 1981 e que dá título a esta série.
O segundo bloco desse último programa é ocupado por análises do momento atual do cinema brasileiro, onde abunda a palavra “falta”. Segundo os cineastas ouvidos, falta confiança nos cineastas, falta conteúdo para as novas tecnologias, falta sala, falta “projeto”, falta “política”. Walter Lima Jr. cita o projeto da Ancinav como uma solução infelizmente metralhada no meio do caminho. Roberto Farias pede a volta do adicional de renda, discute-se a participação do estado.
Os tempos e o modus operandi do cinema brasileiro são hoje muito diferentes da época da Difilm, Embrafilme e CBC. As ideias de grupo e classe que animaram aqueles três momentos não comovem os participantes de editais do século 21. Como reconhece Capovilla, “podem ser considerados hoje utópicos, mágicos ou surrealistas, típicos daqueles tempos quando os cineastas, sem necessidade de serem amigos, uniam-se num propósito único”. Mas esse resgate histórico fornece uma perspectiva interessante, quando nada para se entender o que Barretão quer dizer quando fala: “O filme brasileiro deu certo, mas o cinema brasileiro não”.
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Aproveite para ver um primeiro e curto (2,5 minutos) making of do novo longa de Capovilla, Nervos de Aço:
Coutinho e o zapping de autor
dezembro 20th, 2010 § 2 Comentários
A famosa “sessão única” de Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho, realizada na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, repetiu-se sábado no Rio, no Instituto Moreira Salles. Nada foi anunciado previamente, não se cobraram ingressos. Mas o público que lotou a salinha da Gávea para a Sessão Cinética, em sua quase totalidade, sabia ou suspeitava de que havia algo mais nas quatro horas da programação reservadas para debate.
O fato é que a sessão carioca foi muito diferente da paulista. Não havia mais o fator surpresa, já que praticamente todos ali sabiam do que se tratava por terem lido em blogs e jornais. Restava conferir e experimentar. Segundo Ilana Feldman, que esteve nas duas exibições, os espectadores do Rio demonstraram maior descontração perante as imagens reunidas por Coutinho. De fato, riu-se muito do desfile de vulgaridades e absurdos expostos na tela grande.
Como se sabe, Um Dia na Vida é uma seleção de trechos da programação da TV aberta do dia 1º de outubro de 2009. A partir da gravação de 19 horas de seis canais, Coutinho e a montadora Jordana Berg fizeram uma edição de pouco mais de 90 minutos. Como roteiro, mantiveram os programas em suas respectivas faixas de horário. Assim, sucedem-se os telecursos, os programas pseudoeducativos, os de culinária e beleza feminina, auto-ajuda e religião, televendas, reportagens policiais, novelas, variedades e, por fim, os indefectíveis pastores da noite.
Na conversa após a sessão, Coutinho avançou mais algumas ideias que nortearam esse projeto. Reiterou, por exemplo, que se tratava, sim, de uma pesquisa para filme futuro. Contou que já tinha até atores contratados para um filme todo feito de citações – da TV, de livros e até da lista telefônica. Que pretendia trabalhar com as ideias de pilhagem e plágio, focando “as tolices do mundo”. E que nessa montagem-pesquisa, tinha “intenções ideológicas e dramatúrgicas”.
O debate, dada a força do tema, tendeu a abordar a televisão e suas veleidades. Mas houve espaço também para tratar do filme (ou “esse troço”, como prefere Coutinho) como filme mesmo. Afinal, ninguém edita e exibe 90 minutos de material se não achar que tem ali um produto.
Embora sem nenhuma intervenção visível além das anotações de horário, Um Dia na Vida é um filme construído para surtir efeitos sobre o espectador. A seleção privilegiou um certo exotismo, acentuado por uma edição que reproduz o fluxo incessante da televisão, sem pausas, nem silêncios, nem tempos mortos. Essa “fidelidade” ao formato original faz com que tudo se assemelhe a um zapear constante. Não um zapear movido pelo acaso, mas um cuidadosamente pensado de antemão. Digamos, um zapping de autor.
O autor Coutinho não gosta de assumir claramente, mas fez o seu zapping em busca de efeitos precisos sobre a plateia. Seja a pura hilaridade, por exemplo, quando corta do show da banda gótico-paródica Massacration para as feições tumulares de William Waack; seja a ironia política, quando passa de Lula parafraseando o “Yes, we can” de Obama diretamente para uma recepção de socialites paulistas no programa de Amaury Jr.
A TV brasileira não sai bem na foto de Um Dia na Vida. Coutinho se pergunta por que tanta gente gosta dela. Cobra dos estudiosos investigar os padrões de recepção da TV no Brasil. “A respeito disso só tem chute por aí”, reclama. Seu “troço” é uma provocação nesse sentido. Diante da tela do cinema, irmanados por um misto de rejeição e perplexidade, rimos muito com o acúmulo de sandices que costumam passar batidas no dia-a-dia. O zapping de autor nos coloca frente a frente com um banquete de irrealidade. Mas, no fundo, como quase todo filme de Coutinho, é uma ideia simples levada a cabo com engenhosidade.
A mão do diretor
dezembro 4th, 2010 § 2 Comentários
Não ter o hábito de ver televisão me faz perder coisas que deveria ver. É o que aconteceu com a última minissérie de Luiz Fernando Carvalho, Capitu, e com os primeiros episódios da que está em cartaz, Afinal, o que Querem as Mulheres? Não chega a ser uma compensação, mas pelo menos belisquei um tira-gosto desse banquete vendo o documentário Afinal, Entre Nós, que o GNT exibe amanhã (domingo), às 20h.
A sensação foi ao mesmo tempo de êxtase e angústia. Tantas ideias cênicas brilhantes, tantos atores exuberantes, tantas mulheres lindas, tantas imagens e sons apaixonantes não poderiam ficar restritos aos 50 minutos desse making of. O remédio é esperar saírem os DVDs. Mas, para quem aprecia os resultados obtidos por LFC, nada melhor do que vê-lo com a mão na massa.
Literalmente.
Quando fala no seu método tátil de dirigir, Luiz Fernando não está apenas recorrendo a uma sinestesia, uma figura de linguagem. Ele de fato dirige com as mãos, tanto quanto com a voz. A maneira como avalia os trabalhos dos cenógrafos e dos figurinistas, como conduz fisicamente os atores e como participa do trabalho de câmera, seja direcionando o corpo do cinegrafista, seja manejando ele mesmo o equipamento, é de alguém que não se contenta com a intermediação das palavras. LFC faz questão de imprimir pelo toque o seu ritmo e sua sensibilidade em cada setor, detalhe por detalhe.
Esse comportamento costuma ser associado a realizadores autoritários e perfeccionistas. Luiz Fernando pode ser um pouco de cada coisa. Mas há sobretudo uma alegria e um entusiasmo patentes na sua interação obsessiva com elenco e equipe. O making of nem precisaria alinhar tantos depoimentos elogiosos ao diretor, sublinhando sua centralidade em todo o processo. Bastaria deixar falar os muitos fragmentos que o mostram investindo corpo e mente na busca da excelência.
Vozes da Guiné-Bissau
novembro 27th, 2010 § 3 Comentários
A Guiné-Bissau não tem propriamente uma estrutura de cinema, mas isso não quer dizer que não tenha talentos cinematográficos. Um deles certamente é Domingos Sanca, diretor de Rio da Verdade, projeto ganhador do DOCTV CPLP em seu país. O documentário de média-metragem, produzido por Carlos Vaz, está sendo exibido em emissoras de nove países, além de festivais e mostras como a Brasilidade, em cartaz no Rio de Janeiro.
Domingos Sanca trabalha na televisão nacional da Guiné-Bissau e se responsabilizou também pela bela fotografia de Rio da Verdade. As imagens revelam uma área paradisíaca do noroeste do país, o Parque Natural do Rio Cachéu. Esse paraíso encontra-se ameaçado pela desertificação com o avanço progressivo do Saara a partir do Senegal, ao norte. A direção do parque implantou uma política de proteção que coíbe a derrubada de grandes árvores e a caça e a pesca indiscriminadas. Embora sejam acompanhadas de orientações para práticas menos agressivas ao meio-ambiente, essas normas colidem com certas rotinas de subsistência tradicionais dos moradores da região.
O conflito se assemelha ao dos caboclos da Amazônia com as regras do Ibama, como já foi mostrado em diversos documentários brasileiros. Mas nenhum que eu conheça logrou apresentar esse dilema com o grau de dramaticidade de uma cena de Rio da Verdade. A propósito da derrubada ilegal de uma árvore, dois funcionários do parque discutem com um lavrador os direitos e obrigações dos moradores. Cada lado expõe suas razões diante da câmera, deixando claro o choque entre os interesses individuais – amparados na tradição, na noção de posse e na necessidade imediata – e as exigências da sustentabilidade, voltadas para o futuro e o bem coletivo. É uma cena rara e forte, que mobiliza a consciência do espectador.
A importância do Rio Cachéu é mais que ecológica. É mítica e política. Para além dos limites do parque, nas duas margens do rio, localizam-se duas etnias rivais. O rio, cantado em versos por poetas guineenses como Mussá Baldé, é fonte de vida e lugar sagrado para a população. As ambiguidades da relação entre espiritualidade e sobrevivência são ilustradas pela questão dos hipopótamos. Considerados parentes dos homens, eles não devem ser mortos. Mas com frequência devastam as plantações de arroz, causando enormes prejuízos. Quando alguém abate um deles, a comunidade faz um ritual de expiação e prontamente se farta com sua carne generosa.
Rio da Verdade tem a qualidade, relativamente rara em filmes etnográficos, de abordar seu tema através de muitas vozes, onde não faltam contradições e controvérsias. Além disso, assume um caráter não didático, mas baseado na observação da natureza e dos homens. O ritmo é distendido e evocativo, privilegiando o tempo largo do rio e a cadência natural dos trabalhos no campo e das cerimônias religiosas.
Domingos Sanca merece toda atenção com seu novo projeto sobre o Arquipélago dos Bijagós, reserva natural colocada em risco pela ação de pescadores clandestinos e a recente descoberta de petróleo. Nesse filme, o diretor pretende trabalhar nos limites entre ficção e documentário, para isso incorporando a história de um casal conflagrado pelas obrigações ritualísticas da etnia Bijagó.
Teclado moçambicano
novembro 25th, 2010 § 1 Comentário
Um documentário moçambicano está correndo o mundo lusófono com roupa de gala. Junto a outros realizados no âmbito do programa DOCTV CPLP, Timbila & Marimba Chope participou da competição do Festival Internacional de Cinema de Luanda e vem sendo exibido por emissoras de TV em nove países. Esta semana, foi uma das estrelas do megaevento Brasilidade no Rio de Janeiro, onde o seu diretor, Aldino Languana, participou de uma série de debates sobre o cinema de expressão portuguesa.
Curiosamente, porém, são dois outros idiomas que se destacam no filme de Languana: o chope, falado em certas áreas de Moçambique, e o idioma mais universal da música. Timbila & Marimba Chope narra com detalhismo didático o processo de fabricação da mbila, uma espécie de xilofone, instrumento um tanto mítico do país de Samora Machel e declarado pela Unesco como patrimônio imaterial da Humanidade. Ou melhor, quem narra mesmo é o mestre Estêvão, um célebre artesão e tocador de mbila da região de Zavala.
O filme consegue a rara proeza de fazer confluírem simultaneamente duas anotações etnográficas de grande importância: de um lado, os “segredos” da construção da mbila; de outro, a maneira muito particular de Estêvão contar suas histórias, que vale por uma imersão na fabulação do povo da Zavala. Sua prosódia saborosa e o estilo com que apresenta as informações ditam o ritmo “musical” do documentário.
Estêvão é ao mesmo tempo personagem, narrador, entrevistador, mestre de cerimônias e entertainer. Enquanto cede esses papéis ao mestre da timbila, Aldino Languana mantém as rédeas da direção mediante uma exposição progressiva do fabrico de uma mbila, com todas as suas injunções materiais, técnicas e mesmo espirituais. A localização de uma colmeia subterrânea e a coleta da cera especialíssima para colar partes do instrumento (as cabaças de massala) abrem caminho para uma reflexão que transcende o mero artesanato. Uma senhora participa desse processo com sua sabedoria quase mágica, embora não saiba precisar quantos anos tem. “Saber a idade é coisa de gente moderna”, diz ela.
A origem da mbila também se perde em tempos imemoriais – o que, afinal, importa menos do que sua preservação no presente e a transmissão de seus “segredos” para as futuras gerações. É isso o que o filme de Aldino Languana garante através da memória audiovisual.
O som da mbila marca o documentário com seu ritmo alegre e polifônico, às vezes competindo com outras informações sonoras pela atenção do espectador. Nem sempre isso é produtivo para a economia expressiva do filme. Em compensação, quando na sequência final a orquestra timbila e a dança chope inundam a tela numa noite ao ar livre, já estamos íntimos de tudo e o efeito é arrebatador.
DOCTV CPLP em drágeas
novembro 22nd, 2010 § Deixe um comentário
Li Ké Terra (Portugal)
Num subúrbio de Lisboa predominantemente habitado por imigrantes, dois rapazes de ascendência cabo-verdiana tentam regularizar sua situação e firmar uma identidade. Vencedor do DocLisboa, o filme faz uma observação cuidadosa do cotidiano e dos pensamentos dos gajos, usando uma câmera “invisível” e uma edição afinada com a estética contemporânea. Divertido e perspicaz.
Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
Belíssimo doc sobre a luta de um parque ecológico no noroeste da Guiné-Bissau para evitar a desertificação com o avanço do Saara rumo ao Sul. Etnografia sem didatismo, abrindo espaço para opiniões contrárias na discussão do preservacionismo. A linguagem poética privilegia os tempos do trabalho e do ambiente, a sonoridade particular da região do Rio Cachéu e a beleza dos enquadramentos.
Eugênio Tavares – Coração Crioulo (Cabo Verde)
Uma simpática evocação do poeta, músico e herói nacional de Cabo Verde. Apesar do tom elegíaco, transparecem algumas contradições do personagem e as condições em que se formou o seu mito. A fotografia é sugestiva da atmosfera da pequena Ilha Brava, prisão e ao mesmo tempo signo de liberdade para “Nhô Tavares”. Na faixa sonora, as célebres e nostálgicas “mornas” caboverdianas.
Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Relato didático da fabricação da timbila, espécie de xilofone moçambicano declarado patrimônio da Humanidade pela Unesco. Um mestre timbileiro, com sua verve especial, mostra todo o processo, valorizando os “segredos” e a ressonância espiritual do instrumento. Quando a orquestra de timbilas se apresenta no final, é arrebatador.
Exterior (Brasil)
Perfil de um grupo de presidiários estrangeiros recolhidos em um presídio brasileiro. Ainda que as imagens sejam cuidadas e alguns personagens tenham carisma, faltou foco ao doc para valorizar a condição singular daquelas pessoas duplamente isoladas por se encontrarem privadas da liberdade e num país que não é o delas.
Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
Passado, presente e futuro de um ferrovia que atravessava toda a latitude de Angola integrando o país e fazendo nascer cidades. O roteiro um tanto desestruturado prejudica a fluidez, mas restam informações importantes sobre a história recente do país e o interesse em conhecer relances de uma forma de vida remota e colorida.
O Restaurante (Macau)
O multiculturalismo de Macau é representado pelos convidados para a festa de 20 anos de um restaurante português. Com uma estrutura dispersiva, que tenta captar essa dinâmica de idiomas, heranças culturais e modos de vida, o doc passa em velocidade por questões importantes. Por exemplo, qual a relação dessa minoria com a realidade macauense de hoje?
Tchiloli – Identidade de um Povo (São Tomé e Príncipe)
Registro de uma encenação teatral que faz o julgamento da colonização e se tornou patrimônio cultural das ilhas de São Tomé e Príncipe. Mediante esparsos depoimentos e textos de narração, o filme comenta o espetáculo, enquanto abre espaço para os personagens da peça evoluírem através de uma curiosa mescla de teatro, dança, pantomima e simulações de luta.
Documentários em ‘portugueses’
outubro 20th, 2010 § 2 Comentários
Depois de emplacar como usina de bons documentários no Brasil, o programa DOCTV espalhou-se pela América Latina e agora chega à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Nesta sexta às 22h estreia na TV Brasil (sempre com reprise no sábado às 24h na TV Cultura) a série DOCTV CPLP. São nove docs realizados em quatro continentes e com exibição assegurada nas TVs públicas dos nove países participantes. Visualize um PDF com a grade de exibição no Brasil.
Uma Lulik, de Victor de Souza, foi o primeiro filme produzido e dirigido por um timorense desde a libertação do Timor Leste. Mais que viabilizar a realização de docs, o programa multilateral vem fomentando a criação de estruturas para produção audiovisual. Em Cabo Verde, Timor Leste e São Tomé e Príncipe, onde não havia sequer entidades do setor, o DOCTV propiciou a criação de institutos que agora se dedicarão a estimular a produção local.
O DOCTV CPLP custou 900 mil euros, repartidos igualmente entre Brasil e Portugal. Os países africanos (Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) e asiáticos (Timor Leste e Macau) foram apenas beneficiários dessa ação que visa alavancar a CPLP através do audiovisual e promover a isonomia entre as diversas regiões.
O filme brasileiro, exibido na noite de lançamento, terça passada, é Exterior, de Matias Mariani e Maíra Bühler, co-autores do premiado Elevado 3.5. Traça um perfil superficial de alguns estrangeiros recolhidos em um presídio brasileiro. Alguns deles têm certo carisma e as imagens são expressivas, mas o doc peca pela ausência de um foco mais afinado. A singularidade dos personagens, duplamente isolados por se encontrarem privados da liberdade e num país que não é o deles, passa ao largo do interesse dos diretores. Não fosse por uma única fala, nem saberíamos que o presídio fica no Brasil. Os relatos de memórias de infância, circunstâncias de seus delitos e condições de suas celas não se sustentam à falta do principal: o que são esses homens tão longe de suas raízes e como vivem sua extrema solidão? Assim sendo, cabe perguntar por que eles e não quaisquer outros presidiários. Uma ironia a mais: já que todos os personagens se expressam em línguas estrangeiras, a única relação do filme com a CPLP são… as legendas.
Mais bem sucedido foi Laura, de Felipe Barbosa, que representou o Brasil na segunda série do DOCTV Latinoamérica (ex-Iberoamerica). Esta já se encontra no ar desde agosto, toda quinta-feira às 23h na TV Brasil. Os 14 países latino-americanos participantes dividiram equitativamente os custos e benefícios do programa.
Ely Azeredo responde a Sylvio Back
maio 6th, 2010 § Deixe um comentário
Para concluir de vez a discussão sobre o assunto aqui no blog, atendo ao pedido de resposta do crítico Ely Azeredo:
“Se a TV Brasil anunciasse uma apresentação de “O triunfo da vontade”, o documentário clássico sobre a manifestação do Partido Nazista em Nuremberg, 1934, eu me manifestaria contra por ser uma TV pública (não estatal, porém viabilizada pela União). Por motivo idêntico lamento a programação de “Rádio Auriverde”. O responsável por este antidocumentário me acusa de ”saudade” dos tempos da censura – sentimento ausente de minha trajetória, que remonta aos anos 1950. Muito ao contrário. Por exemplo: em plena ditadura militar, nos anos 1960, defendi a exibição de “O desafio”, de Saraceni, no “Jornal do Brasil”, quando o filme estava ameaçado de interdição ad infinitum. (Tenho uma carta de agradecimento do produtor.). Outro exemplo: nos anos 1970, na vigência do AI-5, quando a mídia estava proibida de mencionar até a existência de censura, assinei matéria de capa, no Caderno B (JB), defendendo a livre circulação de filmes eróticos. Chamou-se “Erotismo – cine qua non”. O sindicato da classe dos produtores (do Rio) congratulou-se comigo, em carta que mantenho arquivada. Também sempre combati a “censura de mercado”. Quando “Milagre em Milão” foi mal lançado no Rio por uma distribuidora pobre-coitada, e o exibidor ameaçou retirá-lo de cartaz com apenas sete dias de projeções, liderei a campanha de imprensa que prolongou a carreira do filme - e em maior número de salas. Dessa vitória conservo o telegrama (cabograma, na época) com agradecimentos dos autores, Vittorio de Sica e Cesare Zavattini.
Quanto à referência a uma parceria minha na realização do documentário de Jorge Ileli, nobilíssimo cineasta, sobre a presença da FEB na Segunda Guerra Mundial, é evidentemente um delírio do armador de ”Rádio Auriverde”. Qualquer busca na internet revela a frequência de minha presença no mundo doc – exatamente zero.
Ely Azeredo”
“O filme mais odiado da história”
maio 4th, 2010 § Deixe um comentário
A cobra vai fumar de novo. A exibição do controvertido documentário Rádio Auriverde na TV Brasil, às 23h da próxima sexta-feira, está reeditando um pouco da celeuma que acompanhou sua estreia há quase 20 anos. Eu era programador do cinema do CCBB quando aconteceu ali a primeira exibição do filme no Rio, em 12/5/1992. A pressão contrária era enorme, mas nós não compactuaríamos com qualquer tipo de censura. Reforçamos a segurança para o caso de os protestos anunciados pelos ex-pracinhas se transformarem em nova guerra. Àquela altura, a reação ao filme já era extremada, fazendo com que Sylvio Back o alardeasse como “o mais odiado da história”.
Com sua revisão sarcástica da participação brasileira na II Guerra, Rádio Auriverde dubla a narração de cinejornais e elege Carmem Miranda como contraponto e síntese simbólica de uma aventura militar supostamente farsesca e talhada segundo os moldes da colonização norte-americana. Na leitura de Back, a FEB teria sido usada como “carne de canhão” num conflito já praticamente definido. Ao contrário da imagem heróica cultivada pela História, ele expunha soldados estropiados e mal preparados para o frio e o conflito. Mas havia algo ainda mais grave e arriscado, que era dar razão à propaganda nazista.
Trata-se de um filme cruel, panfletário e incômodo, mas que se oferece ao debate sem subterfúgios. Sylvio Back sempre o defendeu como uma visão do pracinha “humanizado, em carne e osso”, além de uma crítica, isso sim, ao “espírito de corporação” que perpetua mitos intocáveis. Isso não bastou para impedir que historiadores, críticos e ex-combatentes até hoje cerrem fileiras contra o filme. Agora mesmo o crítico Ely Azeredo me autorizou a publicar seu e-mail intitulado “Dia da infâmia”:
“A TV Brasil exibirá o antidocumentário Rádio Auriverde. Privilégio inglório: em nenhum lugar do mundo foi produzido e exibido para o grande público um filme veiculando a voz do reich nazista sobre a participação dos brasileiros na segunda guerra mundial. Agravante: o texto de introdução ao filme - no site da TV Brasil – nada informa sobre o mal-estar que a exibição do antidocumentário provocou em setores responsáveis da opinião pública brasileira, nem previne os eventuais telespectadores sobre os danos que (ainda) pode provocar na compreensão de nossa história.”
Do outro lado da trincheira, Back festeja a boa circulação do DVD e a transmissão na TV Brasil, operando agora numa rede que incorpora sete emissoras universitárias e 15 TVs públicas regionais, cobrindo mais de 1.700 municípios em 23 estados. “Um luxo de audiência, imagino!”
P.S. O site da TV Brasil até ontem registrava erroneamente que Rádio Auriverde ganhou o Kikito de melhor filme em Gramado 1991. O doc apenas concorreu. No Festival de Natal, levou um prêmio para a pesquisa.
Uma obstrução para Arthur Omar
março 4th, 2010 § Deixe um comentário
Acorde cedo ou programe seu gravador para o Canal Brasil às 10 horas da manhã de sexta-feira. A pororoca do documentário vai rolar durante o programa que Evaldo Mocarzel fez sobre Arthur Omar para a faixa Retratos Brasileiros.
Mocarzel é um artista cada vez mais inquieto. Seus programas sobre Ana Carolina e Jorge Bodanzky, para a mesma faixa do Canal Brasil, mostram como ele procura mergulhar o personagem nas suas próprias fixações para melhor retratá-lo. Com o imponderável Omar, ele meteu a mão num vespeiro produtivo.
Se a entrevista já é uma situação incômoda para o performático AO, Evaldo ainda cismou de amarrar o homem num quadro fechado, com a câmera postada de baixo para cima. Além de insatisfeito com o ângulo desfavorável a sua idade (embora favorável à vaidade), AO reclamava da opção imobilizadora. “Estou numa cadeira de dentista com a broca na boca”, comparava, pouco depois de se queixar: “Estou num documentário que é contra tudo o que penso como documentário”.
Assisti à versão longa-metragem, não sabendo exatamente o que ficou na edição de 26 minutos do programa. No que vi, boa parte do filme consistia numa altercação entre diretor (deitado no chão, fora de quadro) e personagem (na “cadeira de dentista”) sobre poder, autoritarismo, obstrução e estética. Através da discussão deliberadamente provocada, Evaldo aos poucos impunha seu modelo e conseguia o que almejava: um doc-processo, que falava de seu objeto ao mesmo tempo que de si mesmo.
No longa, Omar é visto também em afazeres domésticos, momentos de introspecção e caminhadas que Evaldo filma em busca de nexos audiovisuais. “Estou me retirando do universo da arte contemporânea (…) Agora sou um neurocientista da experiência cinematográfica.” Frases bochechudas como essas, ditas muitas vezes no limite entre a egolatria e a autoparódia, se mesclam às belas “ficções teóricas” com que AO costuma vestir seu trabalho. Mesmo com o distanciamento devido, é sempre muito bom ouvi-lo.
Update
Depois de ler este post, Evaldo Mocarzel me enviou um e-mail e me autorizou a dividi-lo com vocês aqui no blog:
“Meu amigo, gostaria de te dizer que o filme virou uma “obra em progresso” total! Só você e Jean-Claude Bernardet (e acho que também a Ivana) haviam gostado do filme. Todo o resto da humanidade a quem mostrei achou o documentário no limite do insuportável. Jean-Claude me disse que ficou muito impressionado com o embate no filme e que a discussão é “antológica”, e que precisava ser ampliada. Como já fiz a versão para o Canal Brasil com essa mesma estrutura do primeiro corte da versão longa, vou mudar tudo, dilatar o embate e vou voltar a filmar com Arthur Omar para que ele critique a montagem e também para fazer aquela sugestão sua: problematizar dentro do filme a negociação das imagens dele, que não pretendo usar, mas esse debate pode ser muito interessante, como você apontou. Levei Jean-Claude lá para casa, coloquei o filme numa televisão 50 polegadas e deixei Jean-Claude dissecar o filme, discutimos sobre alteridade e “euteridade” (neologismo jean-claudiano), o mestre me disse que Arthur Omar havia me “humilhado” dentro do filme (e eu me coloquei também numa posição desconfortável e submissa total, entrevistando-o deitado no chão), e que eu precisava reagir, as perguntas que não consegui fazer deveriam entrar no filme, assim como a minha troca de mensagens com Arthur Omar discutindo o filme. E ainda quero te entrevistar, você, Carlinhos querido, para problematizar ainda mais o processo do filme e me distanciar da versão do Canal Brasil. Moral da história: o documentário vai ser uma outra coisa, acho que também vou entrevistar a Ivana, e a nova estrutura será, como já disse, a dilatação do embate, do meu conflito com ele, ardilosamente encenado por nós dois, mas nem por isso menos inflamado do que seria se não fosse amigo do Arthur Omar. Acho que a amizade que me une a ele foi o que possibilitou todo esse processo de atritos de egos e de conceitos.”
Sarney por ele mesmo
janeiro 12th, 2010 § 2 Comentários
Quando completar 80 anos em abril, José Sarney terá uma comemoração em forma de documentário. Não, não estou falando do projeto de Silvio Tendler, anunciado há poucos dias. José Sarney, Um Nome na História já está pronto desde o ano passado. Foi o último trabalho dirigido por Fernando Barbosa Lima (1933-2008) na sua produtora FBL, concluído já depois de sua morte. Vai circular em DVDs e ser exibido na televisão.
O vídeo, bastante clássico, se organiza em torno de uma entrevista-base de Sarney, coadjuvada por alguns depoimentos de parentes e políticos, além de cenas de arquivo. O programa principal enfoca a infância e adolescência no Maranhão e a trajetória política que o levou, por uma artimanha do acaso, a ocupar a presidência da República de 1985 a 1990. Continue lendo
Memórias do Super 8
janeiro 4th, 2010 § 6 Comentários
Leia o update de Clóvis Molinari Jr. no final do texto
Se você tem mais de 35 anos, é provável que tenha pelo menos frequentado algumas sessõezinhas de Super 8. Fosse para ver as últimas travessuras das crianças, suportar as imagens tremidas da recente viagem do amigo ou babar com as proezas de alguma estrela pornô em cópias contrabandeadas. Talvez você tenha até cometido algumas filmagens com aqueles rolinhos e montado com cortadeira e coladeira que pareciam de brinquedo. Como eu, que, junto com meu amigo Julio Bronislawski, cheguei a vencer um festivalzinho em Campinas com um curta de desenlace amoroso inspirado na música de Piazzolla.
Mas se você tem menos de 30 anos, é capaz de nem saber o que é Super 8. Se bem que a bitolinha nunca tenha saído da mira dos documentaristas em busca de arquivos domésticos e tenha voltado à moda há algum tempo como diferencial estético em filmes experimentais. Os do Cao Guimarães, por exemplo. Para quem não conhece ou quer rever o fascínio portátil desse “outro cinema”, começa à meia-noite de segunda para terça no Canal Brasil a série Super 8 – Tamanho Também é Documento. Continue lendo
Costurando os Pontos
novembro 28th, 2009 § 1 Comentário
Hoje (sábado), às 23h45, a TV Brasil vai transmitir o segundo programa da faixa Ponto Brasil, uma experiência interessante em matéria de produção coletiva para a TV. Os pequenos ensaios, ficções e documentários que compõem cada um dos 14 programas temáticos foram produzidos em regime colaborativo por cerca de 100 Pontos de Cultura e coletivos audiovisuais em 15 estados.
Durante 18 semanas de gravação este ano, aproximadamente 400 participantes realizaram 130 vídeos. Desde os primeiros argumentos até a edição, cada vídeo é assinado por uma coleção de grupos, que se reuniu sob a orquestração da equipe fixa do Ponto Brasil, dirigida por Leandro Saraiva. Quem quiser verificar como funciona esse método de criação de conteúdo online pode acessar o site do Ponto Brasil.
Na prática, é a pequena revolução operada pelos Pontos de Cultura que chega à TV. Com qualidade audiovisual razoavelmente sofisticada, os programas tratam de cidadania, identidade, relacionamentos, cotidiano etc. No primeiro, que pode ser visto aqui, o tema foi a cidade. O resultado me pareceu irregular, variando entre a ingênua caminhada de uma cozinheira do interior por Belo Horizonte, uma deplorável ficção sobre solidão em Londrina, uma energética argumentação sobre quilombos urbanos em São Paulo e dois caprichados ensaios poéticos sobre fluxos da cidade em Goiânia e monumentos paulistas. Em alguns momentos da edição, ronda o risco da semelhança com a estética da propaganda oficial.
Mas é preciso ver um pouco mais para formar uma apreciação. O tema do programa de hoje é “Ossos e Ofícios”. Vale a pena conferir, nem que seja pela imprevisibilidade do que virá e pela aragem fresca que vem dessa maneira de reunir impulsos criativos dos quatro cantos do Brasil.
Um mural na cabeça de uma agulha
novembro 22nd, 2009 § 1 Comentário
Peço licença hoje para um pouco de orgulho pessoal. Transcrevo abaixo um comentário que recebi em forma de e-mail do crítico Ely Azeredo a respeito do meu programa de TV sobre Jurandyr Noronha:
Caro Carlinhos,
Um mural na cabeça de uma agulha. Foi o que pensei ao ver Jurandyr Noronha – Tesouros Quase Perdidos.
Revendo, fico impressionado em dobro.
Primeiro, como Jurandyr conseguiu – além de tudo o que a vida exige do dia-a-dia (a “burocracia” do sobreviver) - realizar tanta coisa em uma sucessão de terrenos difíceis, como o velho INCE (em que tudo ficava à sombra de Humberto Mauro) e o INC dos primeiros tempos, tão dependente de magros orçamentos etc. Continue lendo
Celebração trash de uma memória
novembro 4th, 2009 § 5 Comentários
Gosto de me pensar como uma pessoa politicamente correta – ou pelo menos que almeja sê-lo. Não me envergonho disso. Acho que a correção política é uma conquista, não uma praga dos nossos tempos. Não compartilho da campanha contra o politicamente correto, movida pelos cínicos de plantão. Para mim, ela é parte do relativismo selvagem e da canalhice da-boca-para-fora que soam moderninhos por aí.
Portanto, a julgar pelo que tenho ouvido de gente que respeito, tinha tudo para odiar Alô Alô Teresinha. E se odiasse, estava disposto a crivar o filme de balas politicamente corretas, mesmo sendo amigo e colega de profissão do diretor, o também crítico Nelson Hoineff. Qual não foi minha surpresa quando isso absolutamente não aconteceu. Continue lendo
Jurandyr Noronha e eu
novembro 1st, 2009 § 5 Comentários
Abro espaço para o release do programa Jurandyr Noronha – Tesouros Quase Perdidos, que dirigi para a série Retratos Brasileiros e estreia hoje, às 18 horas, no Canal Brasil. A quem assistir, repito o que disse em e-mail aos amigos: apreciem a grandeza do trabalho do Jurandyr e desculpem as insuficiências do meu.
Estreia no domingo, dia 1º de novembro, às 18 horas, na faixa Retratos Brasileiros do Canal Brasil, o programa Jurandyr Noronha: Tesouros Quase Perdidos. Aos 93 anos, o veterano documentarista, pesquisador e escritor reconta sua trajetória, que começou nos anos 1940. Jurandyr Noronha trabalhou com Adhemar Gonzaga na Cinédia, com Humberto Mauro no Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi cinegrafista do DIP de Vargas e realizou dezenas de documentários, entre eles os longas-metragens Panorama do Cinema Brasileiro, 70 Anos de Brasil e Cômicos + Cômicos. Continue lendo
Acontece por aí
agosto 31st, 2009 § 2 Comentários
Update: Começa quinta, na Casa do Saber da Lagoa, o curso “Entre a Tela e o Divã”, com o psicanalista e crítico de cinema Luiz Fernando Gallego. Ele explica que vai falar “de Orson Welles, William Wyler, Gregg Toland, André Bazin, Visconti, Pasolini, Bertolucci, Scorsese e Kubrick – pelo lado da tela. Com pitadas de Freud, Melanie Klein e Heinz Kohut pelo lado do divã”. Mais informações aqui.
Nesta quinta-feira, às 21h30, no Unibanco Arteplex, haverá o lançamento de HU, documentário de Pedro Urano e Joana Traub Csekö. Baseado em dissertação de mestrado de Joana, o DOC-TV faz o estudo audiovisual de um grande desperdício. O enorme edifício modernista ocupado pelo Hospital Universitário da UFRJ no Fundão tem uma metade nunca concluída e outra parte abandonada ao descaso e à deterioração. Saúde pública e arquitetura se articulam num filme que, embora criativo na abordagem dos espaços, sofre com o peso do tema e demora a articular sua questão central. Resta, no fim, a denúncia um tanto vaga da incúria do Estado em ambos os setores. A sessão no Arteplex terá entrada franca e será seguida de debate com os diretores, o arquiteto Roberto Segre, a documentarista e pesquisadora Consuelo Lins e a artista visual Rosângela Rennó.
Amanhã (quarta) Marcelo Janot dá início ao seu curso Ouvir o Filme: Uma Investigação do Papel da Música no Cinema. O crítico de cinema e DJ Janot une suas duas grandes paixões, cobrindo do cinema mudo às trilhas pop contemporâneas. Mais informações no site do POP.
O Espaço Telezoom oferece, a partir de quinta-feira, um curso de Direção de Arte para Cinema, TV e Publicidade com a tarimbada Isabel Paranhos. Além de explorar o tripé cenografia-produção de arte-figurino como estrutura da direção de arte, a oficina aborda também elementos gerais da linguagem cinematográfica. Leia mais no site do Telezoom
O documentário O Tablado e Maria Clara Machado, de Creuza Gravina, será exibido no Planetário da Gávea nesta quinta, às 19 horas, dentro do V Ibero Brasil Cine Festival. O doc conta, de maneira carinhosa, a história desse capítulo importante do teatro carioca. Dele falam ex-alunos e ex-professores de várias gerações, como Marieta Severo, Malu Mader, Ernesto Piccolo, Cláudia Abreu, Gilberto Braga e outros. A participação de Barbara Heliodora, relembrando seus tempos de “Bruxa”, é particularmente divertida.
Começou ontem (segunda) na TV Brasil a série documental Era das Utopias, tema que Silvio Tendler vem trabalhando há vários anos. Infelizmente, perdi o primeiro episódio, mas pretendo ver/gravar os demais. Silvio dividiu a série em três blocos de dois capítulos cada: Utopia Capitalista, Utopia Socialista e Novas Utopias. De hoje a sexta-feira, os programas passam às 20h30. O último, no sábado às 21h30. Conheça o site da série.
A Cia. Teatro Oficina faz a estreia nacional de Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!! (duas exclamações) nos dias 5, 6, 7, 12 e 13 de setembro, em sessões às 18 horas, no Espaço Tom Jobim, dentro do Jardim Botânico (Rio). Para não fugir da bacante irreverência habitual, Zé Celso põe o público para entrar através dos bastidores: os atores nos camarins, a banda afinando-se, os operadores de luz e som iluminados.
Sai uma cerveja para Sidney Poitier
agosto 3rd, 2009 § Deixe um comentário
Barack Obama ainda vai ter que promover muitas “cúpulas da cerveja” para tentar sanar os conflitos raciais que percorrem o cotidiano do seu país. Inclusive no meio cultural. Um provável exemplo disso é o que aconteceu com o teledoc Sidney Poitier: Um Estranho em Hollywood, dirigido pela francesa Catherine Arnaud.
Admiradora do ator, Catherine batalhou muitos anos para realizar o filme, exibido na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (leia minha resenha para o DocBlog na época). Em dezembro último, Poitier interditou sua exibição fora da Europa. Catherine se surpreendeu com a súbita mudança de atitude do ator, que havia concordado com a produção e autorizado o uso de trechos de sua autobiografia.
As razões não estão muito claras, mas Catherine acredita que Poitier tenha sido influenciado por algum “brother” quanto ao caráter um tanto irreverente do documentário. Afinal, ela não deixou de fora as críticas que o ator sofreu do movimento negro por sua postura conciliadora, estigmatizada como conformista.
Com a proibição, Catherine perdeu boas oportunidades de distribuição por empresas do Harlem, que pretendiam tirar partido do “efeito Obama”. Ela se debruça agora sobre dois novos projetos não menos polêmicos: um doc sobre os stand up comedians afro-americanos e outro sobre os encontros de mulheres num salão de beleza do Irã. Tudo estava pronto para a filmagem deste último quando vieram as eleições e o país virou de cabeça para baixo. Catherine está torcendo para que suas cabeleireiras não desapareçam junto com a oposição a Ahmadinejad.
Ver Débora
julho 24th, 2009 § Deixe um comentário
Esta semana ela entrou na minissérie Som & Fúria como Julieta no baile de Verona. Só havia olhos para Débora Falabella. Ela fazia uma Julieta cujo amor transbordava da personagem para a atriz. E a gente não se contentava em gostar somente da personagem.
Esses dias ela está também no palco do Teatro Nelson Rodrigues, no jogo cênico proposto pelo chileno Marco Antonio de la Parra, O Continente Negro. Desconfiei do release que prometia “uma linguagem quase cinematográfica”, mas o nome de Aderbal Freire-Filho na direção sempre inspira alguma confiança. Mesmo que não fosse por isso, eu iria ver O Continente Negro de qualquer maneira. Espero que meu joelho me permita atravessar a pracinha do Nelson Rodrigues antes que a curtíssima temporada acabe, a 2 de agosto.
Vou sobretudo para ver Débora. Ela é doce, bonita e talentosa. Tem um quê de namoradinha de portão, uma expressão que passeia entre o deslumbramento infantil e a queixa de animalzinho ferido, com muitos desvios no caminho. Quero ver Débora ao vivo e checar se ela não é apenas uma miragem das telas.
Olhar social sobre os docs
julho 21st, 2009 § 1 Comentário
Conheço três Patricias profundamente ligadas ao documentário. Patricia Montemór criou e dirige, junto com José Inácio Parente, o Festival Internacional do Filme Etnográfico. Patricia Rebello, estudiosa de docs, é doutoranda na UFRJ e colaborava com meu DocBlog. A terceira é Patricia Aufderheide, professora universitária e diretora do Center for Social Media em Washington.
Pat Aufderheide é íntima do Brasil, onde morou muitos anos e pesquisou nossa mídia pelo Programa Fulbright. Daí talvez a particularidade das menções que ela faz ao cinema brasileiro no seu livro Documentary Film: A Very Short Introduction (Oxford, 2007). Cabra Marcado para Morrer, Ônibus 174, Das Crianças Ikpeng para o Mundo (Vídeo nas Aldeias) e Opinião Pública (Arnaldo Jabor) recebem algum tipo de destaque, sendo que os três primeiros aparecem numa lista de “100 grandes documentários” mundiais.
O livro, compacto e objetivo, diferencia-se da média da produção acadêmica por não se pautar pela teoria – muito embora inclua um apêndice sobre a história dos estudos de documentários. O forte de Patricia é a análise sócio-político-econômica do cinema documental em várias épocas. E também a sua abertura para áreas menos cobertas pelos estudos desse campo, como a produção massificada da TV (a grande fábrica e grande mercado dos docs) e os momentos importantes do documentarismo em áreas periféricas (África, América Latina, Ásia). Explica-se assim sua admiração por Erik
Barnouw, o mais importante historiador do ramo com seu basilar Documentary: A History of the Non-Fiction Film, inexplicavelmente nunca traduzido no Brasil.
Por conta de seu approach social, Patricia rejeita implicitamente o relativismo em voga e coloca a questão da verdade no centro de sua visão crítica do doc como representação da realidade. Dito dessa maneira, pode soar antiquado, mas levando em conta que ela abarca as grandes linhas da produção documental, ideias como plausibilidade, boa-fé e precisão não poderiam mesmo ficar de fora da conversa.
Jurandyr em 26 minutos
julho 11th, 2009 § 6 Comentários

Anna Azevedo entrega semana que vem ao Canal Brasil o programa sobre Jurandyr Noronha para a série Retratos Brasileiros. Ela e sua Hy Brazil Filmes produziram este que é meu primeiro trabalho de direção, se não contar os vídeos domésticos de viagens e uns Super-oitos que fiz com Julio Bronislawski em fins dos anos 1970.
Aceitei o convite do Canal Brasil por conta da minha amizade com Jurandyr, um veterano que admiro sobretudo por sua cruzada pela preservação da memória cinematográfica brasileira. Isso o levou não só a reencontrar tesouros perdidos, como a realizar documentários e escrever livros que são verdadeiros cursos de história do nosso cinema.
Aos 93 anos, com memória intacta, Jurandyr contou sua trajetória para a câmera de Jacques Cheuiche. Duro foi resumi-la nos parcos 26 minutos da grade, o que fiz com a parceria de Felipe Abrahão ao longo de várias semanas de edição. Eduardo Souza Lima, o Zé José, foi outro parceiro de criação em vários momentos.
Ainda não sei quando o canal vai agendar o programa e me transformar de pedra em vidraça. Não é assim que falam os que veem a relação artista-crítico como um tópico bélico? Não é o meu caso, mas sei que a metáfora estridente ainda vem ao pensamento quando um crítico passa à direção. Torço para que uma nova geração de críticos-cineastas possa sepultar de novo esse conceito, como aconteceu na Nouvelle Vague francesa e no Cinema Novo brasileiro.
Mas essa “estreia” é mais uma extensão do meu trabalho de pesquisador do que o surgimento de um documentarista. Cineasta mesmo é Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, que terá exibido neste domingo, às 18 horas, o seu recém-concluído programa sobre o grande cenógrafo Anísio Medeiros na mesma série Retratos Brasileiros. Aí então vou ver como é que se faz.
Uma invasão canadense?
julho 10th, 2009 § 5 Comentários
Brilhante!
É o mínimo que se pode dizer da minissérie Som & Fúria, de Fernando Meirelles na Globo. A intensidade e a velocidade características da TV são usadas não para jogar areia nos olhos do espectador, mas para despejar inteligência cênica, acelerar o humor e aditivar a ironia de um texto provocante. Vá lá que a adaptação à realidade brasileira (mesmo à paulista) não convença muito. Mas o pique dos atores e o ritmo contagiante criam um universo próprio que, afinal, não precisa da realidade para se manter de pé.
Som & Fúria baseia-se na telessérie canadense Slings and Arrows, de Mark McKinney, Susan Coyne e Bob Martin. Vocês já repararam como os brasileiros estão antenados ultimamente com os originais do Canadá? Monique Gardenberg montou Os Sete Afluentes do Rio Ota, de Robert Lepage. Selton Mello dirigiu Zastrozzi, de George Walker. Enrique Diaz encenou In On It, de Daniel MacIvor. O grupo paulista Serial Cômicos fez Cold Meat Party, de Brad Fraser. Será que estamos vivendo uma “invasão canadense” na cena nacional?
Abacaxi é a celebridade da semana
junho 29th, 2009 § Deixe um comentário

O Canal Brasil exibe nesta terça, às 20h15, o segundo programa da série Celebridades do Brasil, criada por Nelson Hoineff e Michel Melamed. A estrela da semana é Abacaxi, funcionário público e performer excêntrico de Volta Redonda. Como no programa de estreia, não há interesse pela “vida real” do personagem, mas somente pela sua face pública. Da biografia de Abacaxi, por exemplo, só ficamos sabendo que foi calouro do Chacrinha, jantou com Garrastazu Médici e teve que suplantar a concorrência de um certo Ananás pelas atenções de sua cidade.
Na semana que vem será a vez de um seresteiro e um cavaquinista de Conservatória. O grande achado do programa, pelo que já vi até agora, é explorar a convicção do personagem de que é uma celebridade local. Isso pode soar patético ou até hilariante. Mas há também a saudável anarquia da paródia de TV chinesa, com o tema sendo frequentemente metralhado por intervenções humorísticas. No programa de amanhã, é irresistível a forma como o repórter Shu Zheng Bo explica ao suposto público chinês quem foi Médici, misturando Mao Tse-Tung, Marilyn Monroe e Andy Warhol.
Ha! Tchen! Dung! Ho!
De volta a Grey Gardens
junho 27th, 2009 § 1 Comentário

Na imagem acima, o ator Arye Gross interpreta o documentarista Albert Maysles dando a Edith Beale uma importante lição sobre o cinema de não-ficção. É uma cena do telefilme Grey Gardens, que a HBO reprisa ainda uma vez neste domingo, às 15h45.
Grande sucesso da TV americana em abril último, Grey Gardens traz os Irmãos Maysles como personagens de uma dramatização. O ponto de partida e chegada é o doc que eles fizeram em 1975 com as decadentes mãe e filha Beales, respectivamente tia e sobrinha de Jackie Kennedy. Jackie também é personagem, e a visita dela às parentas é um dos melhores momentos do telefilme, que acabou com um certo sabor de F. Scott Fitzgerald.
É interessante ver como um documentário serve de motivação e “consultoria” para uma dramatização. Gera um modelo, digamos, “autêntico” para nortear toda a encenação daquilo que não estava contido nele: o passado, as conversas com câmera desligada, o making of etc. Vale a pena correr à locadora e ver também o filme dos Maysles, lançado em DVD pela Videofilmes, para melhor curtir as fantásticas interpretações – melhor dizendo, reencarnações – de Jessica Lange e Drew Barrymore. E também o trabalho de cenografia que revive os diversos momentos da mansão-título, em East Hampton, nas fases de glamour e da mais completa decadência.
O Grey Gardens documental virou um clássico do cinema direto, mas talvez só tenha dado lucro com suas “adaptações”. Em 2006, para musical da Broadway (o primeiro inspirado num doc), e agora para essa requintada e competente recriação da HBO Films.
Ting ling Brasil
junho 24th, 2009 § Deixe um comentário
Estreou ontem no Canal Brasil a série Celebridades do Brasil, dirigida por Nelson Hoineff e roteirizada por Michel Melamed. Talvez seja correto chamar esse primeiro programa de reality comedy. Carlos Evanney, um imitador de Roberto Carlos, é “apresentado” por um suposto repórter da TV chinesa, Shu Zheng Bo, que viaja pelo mundo à caça de “celebridades locais”.
Em rápidos 12 minutos, vemos uma hilária paródia de programa chinês, com legendas ideogramáticas, trilha sonora típica, cortes desconcertantes e absurdos intervalos comerciais igualmente chineses. Hoineff, que nos mantém a todos na expectativa do seu premiado Chacrinha, exercita aqui também o pendor para o documentário irreverente, politicamente incorreto (de leve) e de linguagem dinâmica.
O estilo, a se manter, indica uma preferência por personagens pitorescos, o que pode limitar a pauta do programa. De qualquer forma, a estreia foi tão auspiciosa que quero acompanhar a série, nas terças-feiras às 20h15. O problema é que não decoro grade de TV. Acabo perdendo tudo. Acho que não nasci para essa mídia.












