Física e sedução
abril 5th, 2011 § Deixe um comentário
SANTOSCÓPIO = DUMONTAGEM + SANTOS DUMONT PRÉ-CINEASTA?
de Carlos Adriano

Não chega a um minuto a duração do filmete recomposto com os cartões de mutoscópio que Carlos Adriano encontrou no Museu Paulista. Esse pequeno-grande achado mostra Santos Dumont expondo, com elegância de gestos, os croquis e as ideias para seu balão dirigível ao esportista e engenheiro inglês Charles Rolls (um dos futuros fundadores da Rolls-Royce). Peça central da tese de doutorado de Adriano e do seu longa Santos Dumont Pré-cineasta? (veja abaixo), a breve cena foi revirada pelo avesso no curta Santoscópio = Dumontagem. Aqui o cineasta-arqueólogo explora o potencial lúdico, poético e metafórico daqueles poucos segundos filmados.
Aplicando diversos tipos de manipulação digital, Adriano sublinha no ritual da cena o que ela contém de sedução (SD certamente tentava “vender” o seu invento), mas também o que expressa da Física e da Mecânica. Os movimentos dos eixos e do voo são evocados pela edição, assim como as condições químicas do material cinematográfico vêm à tona no tratamento das imagens. Mais experimental e obsessivamente concentrado que o longa, o curta o complementa como um brinquedo manual pode complementar o prazer de uma boa leitura.
Ver, voar, volver
A relativa coincidência entre o surgimento do mutoscópio (1894), as primeiras experiências de Santos Dumont com balões dirigíveis (1898) e a construção da Torre Eiffel (1889) – em torno da qual SD fez voo célebre em 1901 – levaram Carlos Adriano a articular, no longa Santos Dumont Pré-cineasta?, uma série de conexões poético-científicas sobre o desejo de ver e voar.
Um dado vital acabou sendo incorporado pelo filme: a morte do pesquisador e animador cinematográfico Bernardo Vorobow (1946-2009), companheiro e produtor dos filmes de Adriano. As imagens de Bernardo, reiteradas ao longo de todo o filme, sublinham os temas da memória, da desaparição e da reaparição, tão intrínsecos à matéria do cinema. Bernardo, às voltas com uma pequena câmera fotográfica digital no Champs de Mars, cria uma interessante dilatação temporal e tecnológica com as buscas dos pioneiros da imagem em movimento, um século atrás.
Como nunca fizera em seus curtas, Adriano recorre aqui a depoimentos formais para puxar o fio de seu arrazoado. Ismail Xavier, Eduardo Morettin, Henrique Lins de Barros (biógrafo de SD), Ken Jacobs, curadores e historiadores internacionais comentam em paralelo a curiosidade do aviador e a gênese do cinema, bem como o trabalho contemporâneo com materiais de arquivo. O filme de Adriano, aliás, nasceu de um incrível achado arqueológico: centenas de cartões reproduzindo os fotogramas de um filmete da Biograph londrina, rodado para o mutoscópio em 1901. Nele, Santos Dumont aparece mostrando os desenhos e explicando o funcionamento de um balão. Um minuto precioso e desconhecido, que Adriano e Vorobow restauraram e devolveram à forma fílmica. Este é o elemento detonador de toda uma reflexão que nos leva a ver paralelismos formais entre os mecanismos do cinema e da aviação.
Uma inestimável antologia de imagens pioneiras de Marey, Muybridge, Méliès, Dickson, Cohl e outros complementa o prazer intelectual que esse pequeno longa oferece. Arte e pesquisa se unem e se comentam mutuamente num ensaio fertilizado também pelo aspecto afetivo.
Nostalgia da Luz
outubro 6th, 2010 § 1 Comentário
De ossos e estrelas
Se você tiver de escolher um filme apenas na semana de Última Chance do Festival do Rio, aconselho optar por Nostalgia da Luz (dia 14, às 13h15, no Estação 1). Eis uma das mais belas meditações cinematográficas que vi ultimamente.
Patricio Guzmán, o extraordinário cronista da queda de Allende (Batalha do Chile, Salvador Allende) retorna ao tema por um viés surpreendente, que de certa forma difere da abordagem mais militante e arquivística dos filmes anteriores. Nostalgia da Luz pertence à estirpe dos ensaios poéticos, mas sem nada perder do gume e da capacidade de articulação dos outros trabalhos.
O filme parte de uma aproximação vertiginosa entre três atividades desenvolvidas no Deserto de Atacama. Num observatório de alta tecnologia, astrônomos perscrutam as estrelas em busca das origens do universo. Nos canteiros arqueológicos, geólogos estudam os traços deixados pela pré-história. Ao mesmo tempo, um grupo de mulheres continua a esquadrinhar o solo à procura de restos mortais dos seus filhos e parentes mortos pela ditadura de Pinochet e enterrados no deserto (as “novas Antígonas”, como bem caracterizou Luiz Fernando Gallego).
O roteiro de Guzmán, baseado em depoimentos e num comovente texto de narração, opera uma série de nexos entre o micro e o macro, a curiosidade científica e a necessidade de esclarecer a História, as perguntas sobre a nossa condição de seres viventes e o interesse por transformar o luto em reafirmação da memória e da vida.
Tudo isso poderia soar meramente retórico se não estivesse conduzido por uma sincera aposta na reflexão e uma legítima busca de sentidos a partir daquela incrível coincidência no livro da Natureza que é o Atacama. Poderia ser um filme puramente discursivo se não fosse construído sobretudo através do poder das imagens. É a partir delas que Guzmán encontra as conexões entre estrelas e ossos (o cálcio que lhes é comum), cúpulas e crânios, cosmos e bolas de gude, mães e pesquisadores. Vestígios de passados tão distantes entre si mas que ali se tocam no desejo humano de cruzar a linha tênue do presente, entender a si mesmo e secar feridas.
Santos Dumont: Pré-cineasta?
outubro 1st, 2010 § 1 Comentário
Ver, voar, volver
Carlos Adriano não esconde a origem de seu primeiro longa na sua própria tese de doutorado sobre Santos Dumont e a pré-história do cinema. A relativa coincidência entre o surgimento do mutoscópio (1894), as primeiras experiências de Santos Dumont com balões dirigíveis (1898) e a construção da Torre Eiffel (1889) – em torno da qual SD fez voo célebre em 1901 – levou o cineasta a articular uma série de conexões poético-científicas sobre o desejo de ver e voar.
Um dado vital acabou sendo incorporado pelo filme: a morte do pesquisador e animador cinematográfico Bernardo Vorobow (1946-2009), companheiro e produtor dos filmes de Adriano. As imagens de Bernardo, reiteradas ao longo de todo o filme, sublinham os temas da memória, da desaparição e da reaparição, tão intrínsecos à matéria do cinema. Bernardo, às voltas com uma pequena câmera fotográfica digital no Champs de Mars, cria uma interessante dilatação temporal e tecnológica com as buscas dos pioneiros da imagem em movimento, um século atrás.
Como nunca fizera em seus curtas, Adriano recorre aqui a depoimentos formais para puxar o fio de seu arrazoado. Ismail Xavier, Eduardo Morettin, Henrique Lins de Barros (biógrafo de SD), Ken Jacobs, curadores e historiadores internacionais comentam em paralelo a curiosidade do aviador e a gênese do cinema, bem como o trabalho contemporâneo com materiais de arquivo. O filme de Adriano, aliás, nasceu de um incrível achado arqueológico: centenas de cartões reproduzindo os fotogramas de um filmete da Biograph londrina, rodado para o mutoscópio em 1901. Nele, Santos Dumont aparece mostrando os desenhos e explicando o funcionamento de um balão. Um minuto precioso e desconhecido, que Adriano e Vorobow restauraram e devolveram à forma fílmica. Este é o elemento detonador de toda uma reflexão que nos leva a ver paralelismos formais entre os mecanismos do cinema e da aviação.
Uma inestimável antologia de imagens pioneiras de Marey, Muybridge, Méliès, Dickson, Cohl e outros complementa o prazer intelectual que esse pequeno longa oferece. Arte e pesquisa se unem e se comentam mutuamente num ensaio fertilizado também pelo aspecto afetivo.
Cameron is coming
fevereiro 24th, 2010 § 4 Comentários
Dois posts abaixo eu dizia que tinha dois segredos para contar em breve. Um deles já vazou numa revista semanal cujo nome me recuso a repetir. James Cameron, o mago de Titanic e Avatar, vem ao Brasil em fins de março, trazido pela empresa Seminars. Fará duas conferências – uma em Manaus, sobre sustentabilidade, e outra em São Paulo sobre temas ligados a cinema, espetáculo e tecnologia.
É bem provável que chegue por aqui com alguns Oscars na bagagem. Isto é, se a ex-mulher não lhe roubar todos.
Santos Dumont, Darwin e INCE na festa da Ciência
outubro 20th, 2009 § Deixe um comentário
A 15ª edição da Mostra Ver Ciência começa hoje no CCBB-Rio, com patrocínio da Petrobras. Trata-se de uma mostra de programas de TV, mas não basta ligar o seu aparelho para ver muitas coisas legais que estão na programação.
Uma delas é o programa Asas da Loucura, da rede pública americana PBS. Realizado em 2006 e inédito no Brasil, faz o reconhecimento tardio – mas explícito – da primazia de Santos Dumont na invenção do avião. Os americanos enfim admitem, pelo menos, que os Irmãos Wright trabalhavam na encolha, enquanto o brasileiro voava primeiro diante do público.
Os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies ganhou uma seleção de novíssimos docs e reportagens da BBC e de várias emissoras brasileiras. Darwin, naturalmente, é uma das estrelas da mostra este ano. Mas brilham também 16 cientistas brasileiros retratados em nova série do Globo Ciência (Canal Futura), a ser exibida na íntegra no CCBB.
Um dos grandes destaques da 15ª Mostra não tem origem na televisão, mas no extinto Instituto Nacional do Cinema Educativo. São 14 filmes de curta e média metragem recentemente restaurados e digitalizados pela Cinemateca Brasileira, com verbas dos Ministérios da Cultura e da Ciência e Tecnologia. Vários trazem a assinatura de Humberto Mauro. O mais curioso talvez seja o doc+drama O Segredo das Asas, em que um oficial da FAB faz pouso forçado no pasto de uma fazenda e passa a relatar a formação de aviadores a uma bela moça rendeira. É supimpa!
Os filmes do INCE incluem títulos há muito fora de circulação, como A Medida do Tempo, de Jurandyr Noronha, um doc de 1964 que conta com a ajuda da animação.
Veja a programação completa no site da mostra, que só vai até domingo.