Notícias das ilhas

maio 23rd, 2011 § 1 Comentário


“Chegou o crítico”, brincaram alguns alunos da pós-graduação em cinema quando apareci, terça passada, para minha primeira aula em Cabo Verde. Eles estavam finalizando um longa documental coletivo que colocaria à prova sua experiência prévia e também o aprendizado que chegava ao fim. Fragmentos do Mindelo foi exibido sábado no encerramento, e duvido que muitos docs de conclusão de curso apresentem a linguagem moderna e a abordagem incisiva que vi ali.

Um dos episódios acompanhava, em exemplar estilo cinema direto, a chegada de um pequeno container à casa de uma humilde família do Mindelo. Enviado por um parente emigrado nos EUA, o recipiente em forma de barril trazia roupas, calçados, brinquedos, shampoos, guloseimas. Diariamente chegam dezenas dessas remessas aos portos do arquipélago. A explicação é simples. Mais de 60% da população caboverdiana vive fora do país, especialmente em Massachussetts e Lisboa. As remessas financeiras deles respondem por algo entre 30 e 40% do PIB do país. Os containers familiares são apenas uma contribuição mais direta para suprir a baixa oferta de produtos de consumo em Cabo Verde.

Outro episódio do filme mostrava a construção de uma “casa-lata”, os barracos de folhas de latão que colorem a periferia pobre da cidade, muito semelhantes aos feitos com latas de óleo até os anos 1970 em bairros populares brasileiros. Os moradores erguem-nos clandestinamente à espera de que a Câmara do concelho subsidie sua transformação em casa de concreto.

Um dos fragmentos abordava o bairro controvertido de Ribeira Bote, que alimenta não só o orgulho de ser a “primeira zona libertada” do jugo português como a reputação de bairro perigoso, marcado por criminalidade e tráfico de drogas. Esse aspecto foi desbravado por Luis Alencar, o único brasileiro da turma, um baiano íntimo das favelas do Rio e autor do longa doc Bombadeira.

Para quem visita a cidade, entretanto, esse tipo de perigo parece lenda. O ambiente singelo e relax de todo o país resulta, por exemplo, na convivência entre pescadores pacatos jogando cartas, velhas vendedoras limpando seus peixes e jovens partilhando marijuana numa mesma pracinha do porto numa morna tarde de sábado. A profunda paz do Mindelo não é quebrada nem mesmo nas noites de sexta, quando os bares e esquinas se enchem de casais multirraciais, a moçada da cerveja e estrangeiros curiosos, todos embalados pelos ritmos em que se cruzam batidas africanas, swing caribenho e melancolia lusitana.

No filme dos alunos há também um episódio sobre os blocos de Mandinga, cujos participantes se pintam de preto e brincam de reviver suas tradições afro. Saem no famoso Carnaval de Mindelo, simultâneo ao do Brasil, mas “atrasado” um ano. Isso porque os mindelenses vêm ao Rio após cada folia para comprar adornos e adereços usados, que estarão no desfile deles no ano seguinte. Nessa época, o Mindelo costuma ser chamado, em bom crioulo, de “Brazilim”.

A Baía do Mindelo

Cabo Verde não tem crítica de cinema porque quase não tem cinema. Nem salas de cinema. A única sala comercial do Mindelo que ainda não se transformou em igreja, o Eden Park, está inativo e foi objeto de uma instalação aberta no sábado por Leão Lopes, cineasta, artista plástico e maior referência cultural da cidade junto com a cantora Cesária Évora. A instalação dispunha materiais de cinema no meio de uma sala, frente a um televisor que exibia imagens do Eden Park com acentos de marcha fúnebre. A expressão de revolta não parece fazer parte do cotidiano de um povo que sempre privilegiou a tranquila interação étnica, não conheceu grandes disparidades de classe e desfruta de uma paz de espírito muito característica. O caboverdiano comum fala baixo e sorri timidamente. Apressa-se a dizer “sim, sim” quando concorda com você, e a exclamar “ui!” quando concorda muito. Adora dar “boléia” (carona) nas estradas e botar a mesa para repartir com você.

A culinária, porém, assim como o artesanato, não me encantou. A dieta de legumes é pouco variada e os temperos que provei não pareciam nada especiais, mesmo nos peixes e mariscos. Acho que a cozinha caboverdiana padece também de certa timidez. O grogue, aguardente local, desceu melhor quando misturado com mel no chamado pontche. Suspeito que estão fazendo bons vinhos na Ilha do Fogo.

São Vicente: um Monument Valley by the sea

Cada ilha, aliás, tem suas particularidades. São Vicente, onde está Mindelo, tem a capital cultural e um porto importante. A estrada que corta a ilha de norte a sul (em não mais que 30 minutos de carro) passa por paisagens impressionantes, como uma espécie de Monument Valley à beira-mar. Durante minha estada, tive oportunidade de percorrer alguns trechos da árida Ilha do Sal, que sugere um Marte vulcânico. Os vulcões extintos estão onde menos se espera, provocando belas surpresas no viajante. As Salinas Pedra de Lume ocupam o bojo de uma cratera para onde o mar se infiltrou e parecem uma visão sobrenatural. Já na Ilha de Santo Antão, onde passei a sexta-feira de folga, uma imensa cratera foi coberta de lavoura, trazendo à lembrança imagens do Peru inca. Santo Antão é a maior, mais montanhosa e de natureza mais exuberante das ilhas. O passeio por ela nos transporta de visões de planeta desabitado a aldeias agrícolas que parecem saídas de ilustrações antigas e praias espargidas ao pé de falésias abissais. É essa ilha que fornece a maior parte do milho, feijão e batata, pratos de resistência da cozinha do país, ao lado do peixe e da carne de txuk (porco).

Santo Antão: uma cratera cultivada

Ilha do Sal: vulcão extinto, salina ativa

Falta muita coisa a Cabo Verde: água potável, hortaliças, cinema, indústrias, interação com o Brasil, uma maior divulgação de sua música deliciosa. Segundo alguns, falta também vergonha na cara dos políticos corruptos. A visão que o caboverdiano tem do Brasil é de um país de números inimagináveis, futuro promissor, telenovelas interessantes e uma realidade social conturbada. Os meus alunos analisaram criticamente Cidade de Deus e discutiram uma série de críticas profissionais ao filme. A impressão mais frequente foi um misto de fascinação pelo filme e repulsa pelas condições da favela. Uma aluna iniciou seu texto com a pergunta “Onde está Deus nessa cidade?”.

Em matéria de nome, Cabo Verde também soa incongruente: não há cabo nem muito verde naquele país. O tal cabo verde fica a centenas de quilômetros, na costa do Senegal.

Na rota de Cabo Verde

maio 15th, 2011 § 4 Comentários

A África está mesmo me chamando. Eu estava na Suazilândia, no mês passado, quando abri o e-mail de Joel Zito Araújo. Ele me convidava para dar um pequeno curso em Cabo Verde. Era o módulo Crítica de Cinema da pós-graduação em cinema e audiovisual do Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura, na cidade de Mindelo. O curso é uma parceria com o Brasil através da ONG Projeto Legal. A turma de 35 alunos compreende caboverdianos, portugueses, moçambicanos e brasileiros.

Nunca pensei em lecionar crítica de cinema. No fundo, acho que isso não se ensina, aprende-se no fazer, no trânsito da cinefilia entre o coração e o cérebro, no refinamento da sensibilidade e no gosto pelo texto. Afinal, a crítica para mim é um gênero literário, no qual sou eterno aluno. Mas não resisti à oportunidade de conhecer Cabo Verde, e estou embarcando hoje via Lisboa. A viagem é uma áfrica (epa!). Chego em Lisboa amanhã por volta do meio-dia. Fico pela cidade até as 22h, quando pego outro avião para a Ilha do Sal, onde passarei a noite de amanhã. Na segunda cedinho voo do Sal para a Ilha de São Vicente, onde está o Mindelo.

Adoro a expressão “o Mindelo”, como aqui se fala “o Recife”. Creio que é a mais bonita cidade do arquipélago, com suas rochas vulcânicas emoldurando o cenário de praças tranquilas, ruas coloridas e porto pesqueiro. Leão Lopes, o reitor do Instituto, é o cineasta mais famoso do país, responsável por um dos poucos longas-metragens autenticamente caboverdianos, Ilhéu de Contenda (1996). Leão realizou também o doc Bitú, que andou passando por aqui em algum festival e retratava poeticamente o Mindelo através dos pintores locais. Recentemente, vi o DOCTV Eugênio Tavares, Coração Crioulo, sobre o poeta mais querido de Cabo Verde. De resto, lembro-me do país somente como locação de filmes portugueses, entre eles Casa de Lava, de Pedro Costa, e a coprodução brasileira O Testamento do Senhor Napomuceno, de Francisco Manso.

O curso de especialização coordenado por Joel Zito já levou Paulo Betti, Orlando Senna, Claudio MacDowell, David Tygel, Assunção Hernandes, Cleumo Segond e o animador César Coelho, entre outros brasileiros. Meu módulo é o último do curso, que se encerra na sexta-feira. Vou falar da minha experiência, meus métodos de trabalho (sim, eles existem!), dos críticos que admiro, e discutir o momento atual da crítica entre a imprensa e a internet. E, nas horas vagas, ouvir as mornas, funanás e o chiado bom da língua crioula; saborear as cavalas, monchupas e frigenotes; repousar a vista sobre a palheta das ilhas e a infinidade do Atlântico.

P.S. Dizem que este blog está virando um blog de viagem.

Festival do Re

outubro 25th, 2010 § 1 Comentário

Recuperar, Reutilizar, Ressignificar – eis o tripé sobre o qual trabalham os filmes com imagens de arquivo. Eles são a estrela do Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo, que terá sua sessão de abertura hoje (segunda) às 19h30 e vai até sexta-feira no Arquivo Nacional – RJ. Para entrar na competição do Recine, um filme precisa ser composto por no mínimo 30% de cenas garimpadas em acervos audiovisuais, sejam eles públicos ou privados. Com isso, desde 2002 o evento vem procurando estimular a preservação e a reintrodução desses acervos sob diferentes dinâmicas e recriações.

A cada edição, o Recine traz uma mostra temática – a deste ano é Movimentos da Música Popular Brasileira – e uma seção competitiva, além de uma série de debates em torno do tema em foco. Veja a programação completa no site do festival. Todos os anos, o Arquivo Nacional promove também uma oficina prévia para iniciantes, que realizam curtas de 5 minutos incorporando materiais de arquivo. Em 2010, fui eu o orientador da oficina. Dela resultaram 11 curtas, que participam da competição oficial. São eles (sinopses fornecidas pelos diretores):   

Divina, de Ethel Oliveira
Poesia audiovisual para uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, Elizeth Cardoso.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Eldorado: a esperança e o desespero, de Paula Moreira
A lenda de Eldorado atraiu muitos aventureiros para a América do Sul à época da colonização das Américas. No filme, ela serve como um paralelo para retratar a tentativa de se conseguir uma vida melhor no país por meio da migração para florestas ainda pouco exploradas pelo homem.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Ensaio sobre a figueira, de Vitor Damasceno
O corte de uma árvore em um condomínio na cidade do Rio de Janeiro é o estopim para uma breve reflexão.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Felicidade fragmento, de Tiago Machado
O que é felicidade para você? As pessoas conseguem alcançar a felicidade? Fragmentos e depoimentos sobre a eterna procura do homem.
Dia 27, 16h30, no Auditório

Um José, de Denise Munhoz
O filme apresenta imagens da destruição da setecentista Igreja de São Pedro, para a construção da av. Presidente Vargas. José, personagem genérico, é gradativamente identificado como o padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), considerado o primeiro compositor das Américas no seu tempo. Tanto José como a Igreja de São Pedro, local onde foi sepultado, estão hoje no esquecimento.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Mãos e registros, de Bernardo de Paola
Um breve ensaio sobre a manipulação de imagens e sons.
Dia 27, 16h30, no Auditório

Maria Maria, de Renato Vallone
Ensaio sobre infância e memória a partir de uma investigação poética de arquivos pessoais e não pessoais. Um convite à investigação sincera, intimista e alegórica de uma vaidade em nome da invenção individual sobre o tempo e o afeto. É também um recado universal para um futuro particular.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Nem tudo é passageiro, de Anthony Ravoni
Uma viagem de bonde pelas memórias e a história do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Onde está o ditador?, de Sílvia Rachel
Trata-se de uma pequena brincadeira sobre os muitos tipos de ditadores do nosso pequeno planeta Terra.
Dia 27, 16h30, no Auditório

Trabalho e pão, de Fábio Gama
O que se conhece sobre a Favela da Maré? A partir de projeções de fotografia e filmes dentro da réplica de palafita no Museu da Maré, é mostrada a vida que pulsa cheia de amor, alegria, trabalho e solidariedade na Favela da Maré.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Vila Aliança – Memórias em cinco minutos, de Jeferson Alves
A favela Vila Aliança entra na máquina do tempo para narrar o surgimento do primeiro conjunto habitacional da América Latina, trazendo suas raízes, a solidariedade e a contribuição dos moradores para o avanço da comunidade.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Oficina José Louzeiro – Ely Azeredo

agosto 7th, 2010 § 3 Comentários

Repasso a seguir o informe do mestre Ely Azeredo: 

Há exatamente 30 anos, o escritor José Louzeiro e o crítico Ely Azeredo ministravam no “Estúdio A” (“A” de Azeredo) as primeiras oficinas livres de Roteiro para Cinema e TV no Rio de Janeiro. O que se fez antes, no gênero, era exclusivo para profissionais ou convidados de empresas, como a TV Globo. A Casa de Cultura Laura Alvim assinala esse aniversário com um Curso-Oficina a ser ministrado por Louzeiro, com produção de Azeredo.
 
Terá início no sábado, 14 de agosto de 2010,  na Casa de Cultura Laura Alvim, uma Oficina de Roteiro para Cinema e TV ministrada pelo roteirista e escritor José Louzeiro, com aulas aos sábados, das 11h às 13 horas. É aberta a iniciantes. Os interessados podem solicitar reserva de vaga pelo telefone 2236-5099; ou pelo email abaixo:
ely.azeredo@gmail.com
 
São dez aulas (14 de agosto a 16 de outubro). Os participantes serão motivados a dar continuidade, entre um sábado e outro, aos exercícios desenvolvidos em parceria com José Louzeiro durante as aulas. Por ocasião do encerramento do curso, os alunos terão elaborado, em parceria com o professor, roteiro para um episódio de minissérie (TV) e para um curta-metragem (cinema).
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PERFIL – José Louzeiro é um dos criadores de Pixote, a Lei do Mais Fraco“, um dos filmes brasileiros mais aplaudidos ao redor do mundo.  Louzeiro produziu outros  roteiros para longas-metragens, mais de 30 livros, cinco telenovelas (na Globo, na Record e na antiga TV Manchete) e quatro adaptações para teatro. Foi presidente do Sindicato dos Escritores RJ e da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais). Trabalha atualmente em roteiro para uma produção francesa e em um livro sobre a imprensa.
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PREÇO – O preço total do curso é R$ 400 (em duas parcelas).
CERTIFICADO – Os alunos que participarem de (pelo menos) 70% da carga horária terão direito ao Certificado de Frequência.
 
 >Informações adicionais com a coordenadora da oficina, Maria Helena, diariamente, pelo telefone 2236-5099. Ou pelo seguinte e-mail:
ely.azeredo@gmail.com
 
>Casa de Cultura Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema.

 

Uma semana com os filmes de arquivo

agosto 2nd, 2010 § Deixe um comentário

Começa hoje (segunda) a minha oficina do Recine 2010 – Festival Internacional de Cinema de Arquivo. O festival acontecerá de 13 a 17 de setembro, no Arquivo Nacional, mas antes disso os 10 selecionados para a oficina recebem fundamentos teóricos e técnicos para realizarem pequenos curtas a partir de 10 horas de material disponibilizado pelo Arquivo. Os filmes vão participar da competição em setembro.

Não gosto nem de pensar na minha responsabilidade de suceder a orientadores tão ilustres, em edições passadas, como Silvio Tendler, Arthur Omar, Silvio Da-Rin, Eduardo Escorel e Vladimir Carvalho. Não sou um cineasta, portanto minha atuação será mais voltada para a análise de filmes feitos majoritariamente com material de arquivo. Para isso, a turma vai assistir a cinco programas nas manhãs de segunda a sexta, a saber:

1. Miss Universe 1929, de Peter Forgacs. Uma história de amor através do século XX, contada através das filmagens da bela austríaca Lisl Goldarbeiter pelo seu apaixonado primo.

2. Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos, de Marcelo Masagão. Pequenas e grandes tragédias do século XX evocadas por meio de materiais colhidos na internet e mesclando personagens reais com fictícios.

3. Videogramas de uma Revolução, de Harun Farocki e Andrei Ujica. Relato da queda do comunismo na Romênia, feito com cenas de Tv e filmagens amadoras.

4. Brasília Segundo Feldman, de Vladimir Carvalho, e Negros, de Mônica Simões. Dois exemplos de uso criativo de material de arquivo, com níveis diferentes de intervenção.

5. Seleção dos premiados nas ofinas dos anos anteriores.

Nas tardes, comentaremos o programa exibido pela manhã e faremos um curso sobre documentário brasileiro contemporâneo. Os moldes do curso serão semelhantes ao que já dei na Laboratório Estação, no POP e no Sesc-Quitandinha. Vamos abordar as diversas modalidades e estratégias dos filmes realizados de 1995 para cá, mas com ênfase maior nos docs pessoais, de coleta e de compilação de materiais de arquivo. 

Na semana que vem, os participantes da oficina vão partir para a ilha de edição e botar a mão na massa. De minha parte, espero ter bons momentos e, pelo menos, não aborrecê-los muito.  

Se demorar um pouco a atualizar o blog, vocês já sabem por quê. 

Amigos fotógrafos

março 31st, 2010 § 6 Comentários

Meu programa noturno de hoje (quarta), a partir de 20h, é comparecer à abertura da coletiva de fotografia da Casa Benet Domingo (Av. São Sebastião, 135, Urca, Rio). Meu novo amigo Rob Curvello expõe fotos da série COMeSTRUiÇÃO, composições de imagens que fragmentam o real para reconstruí-lo sob nova perspectiva.

Foto: Rob Curvello

Uma das composições de Rob Curvello

Rob Curvello frequentou meu curso recente sobre documentários no SESC-Quitandinha. Em subidas e descidas semanais da serra de Petrópolis, ficamos amigos. Mais que isso, Rob me arrastou para mais perto da área da realização. Resultado: estamos fazendo juntos o roteiro de um doc cujo título de trabalho é Revelando Milan.

O homem do título é o fotógrafo Milan Alram, de 83 anos, francês radicado no Brasil desde 1939. Pioneiro na utilização do filme colorido na publicidade brasileira (fez as primeiras fotos em cores da Coca-Cola entre nós), Milan viveu seu auge profissional a partir da década de 1950. Fotografou grandes mudanças urbanas no Rio de Janeiro e a construção de Brasília, ao mesmo tempo em que prestava serviços para as principais agências de publicidade.

Foto: Milan Alram
A Rua Uruguaiana em 1957 por Milan Alram

Em 1967 iniciou uma carreira internacional que o levou para o circuito Paris–Milão, onde trabalhou para empresas como Air France e Philips. Voltou ao Brasil em 1974 e seguiu a carreira de fotógrafo até 1982, quando um câncer na garganta o fez perder o estímulo profissional e boa parte da potência da voz. Como já cuidava ele mesmo da revelação dos seus filmes – por  não haver no Rio de Janeiro laboratório que atendesse a suas exigências –, resolveu  criar o laboratório Kronokroma, que logo passou a ser referência de qualidade para os profissionais da cidade.

Hoje, após décadas de sucesso, ele vive a nova realidade da introdução das técnicas digitais na produção e pós-produção de fotografias profissionais e amadoras. O pequeno laboratório da Praça do Russel virou um ícone de resistência pessoal e um verdadeiro oásis artesanal para artistas e amantes do celulóide.

Se tudo der certo e algum edital nos abençoar, Revelando Milan vai ser um curta e um longa, ambos enfocando o dia-a-dia do Kronokroma e as visitas ilustres que recebe. Já gravamos participações de Miguel Rio Branco, um dos tradicionais clientes de Milan, e do pesquisador Joaquim Marçal, que prepara um livro sobre ele. Para as próximas semanas, estão previstas gravações com Rosângela Rennó e outros luminares da fotografia que confiam seus negativos à cuidadosa revelação do Kronokroma.

Foto: Hélio Melo

Rob Curvello e Milan Alram no Kronokroma

Para mim, tudo isso está valendo por um pequeno curso de fotografia. Já aprendi, por exemplo, que revelar e ampliar também são uma arte.   

O doc vai subir a serra

dezembro 21st, 2009 § 3 Comentários

Alô, turma de Petrópolis. Em janeiro e fevereiro eu darei um curso sobre documentário brasileiro contemporâneo no SESC-Quitandinha. As sete aulas serão às quintas-feiras, das 16h às 19h. Para informações sobre inscrições, o telefone é (24) 2245 2020.

A ideia do curso é examinar como o documentário brasileiro contemporâneo, prestigiado no país e no exterior, longe de ser um rótulo, é um feixe de métodos e linguagens que fazem sua riqueza. Vamos estudar cada uma dessas alternativas, a partir da obra de cineastas fundamentais como Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Evaldo Mocarzel, Kiko Goifman e outros. Além disso, vamos situar a nova fase em relação à história do documentário brasileiro e às influências internacionais que sobre ele se exerceram desde os anos 1960.      

Todas as aulas serão ilustradas com a exibição de trechos de documentários e alguns filmes na íntegra.

O temário dos encontros será o seguinte:

Dia 7/1: Discussão do conceito de documentário e das principais teorias. Rápido panorama histórico do documentário brasileiro até a década de 1980.

Dia 14/1: Cinema-verdade e cinema direto: métodos que engendraram o documentário moderno. Seus primeiros frutos no Brasil e sua herança atual. O documentário sociológico.

Dia 21/1: Eduardo Coutinho: realidade, representação e depuração na estratégia do encontro. A autoficção.

Dia 28/1: João Moreira Salles, Maria Augusta Ramos etc: a observação como postura e como dramaturgia.

Dia 4/2: Kiko Goifman, Sandra Kogut etc: o documentário pessoal. As novas releituras do filme doméstico. O caso Santiago.

Dia 11/2: Evaldo Mocarzel, Roberto Berliner, Paulo Sacramento, Andrea Tonacci etc: problematização da entrevista, metalinguagem, convivência, transferência de meios e reflexividade.

Dia 25/2: Tradição e invenção. Heranças do documentário clássico: Ônibus 174, biografias, documentários musicais. O documentário de invenção: Cao Guimarães, Joel Pizzini, Arthur Omar etc. O pseudo-documentário no Brasil.

Acontece por aí

agosto 31st, 2009 § 2 Comentários

Update: Começa quinta, na Casa do Saber da Lagoa, o curso “Entre a Tela e o Divã”, com o psicanalista e crítico de cinema Luiz Fernando Gallego. Ele explica que vai falar “de Orson Welles, William Wyler, Gregg Toland, André Bazin, Visconti, Pasolini, Bertolucci, Scorsese e Kubrick – pelo lado da tela. Com pitadas de Freud, Melanie Klein e Heinz Kohut pelo lado do divã”. Mais informações aqui.

Nesta quinta-feira, às 21h30, no Unibanco Arteplex, haverá o lançamento de HU, documentário de Pedro Urano e Joana Traub Csekö. Baseado em dissertação de mestrado de Joana, o DOC-TV faz o estudo audiovisual de um grande desperdício. O enorme edifício modernista ocupado pelo Hospital Universitário da UFRJ no Fundão tem uma metade nunca concluída e outra parte abandonada ao descaso e à deterioração. Saúde pública e arquitetura se articulam num filme que, embora criativo na abordagem dos espaços, sofre com o peso do tema e demora a articular sua questão central. Resta, no fim, a denúncia um tanto vaga da incúria do Estado em ambos os setores. A sessão no Arteplex terá entrada franca e será seguida de debate com os diretores, o arquiteto Roberto Segre, a documentarista e pesquisadora Consuelo Lins e a artista visual Rosângela Rennó.

Amanhã (quarta) Marcelo Janot dá início ao seu curso Ouvir o Filme: Uma Investigação do Papel da Música no Cinema. O crítico de cinema e DJ Janot une suas duas grandes paixões, cobrindo do cinema mudo às trilhas pop contemporâneas. Mais informações no site do POP.

O Espaço Telezoom oferece, a partir de quinta-feira, um curso de Direção de Arte para Cinema, TV e Publicidade com a tarimbada Isabel Paranhos. Além de explorar o tripé cenografia-produção de arte-figurino como estrutura da direção de arte, a oficina aborda também elementos gerais da linguagem cinematográfica. Leia mais no site do Telezoom

O documentário O Tablado e Maria Clara Machado, de Creuza Gravina, será exibido no Planetário da Gávea nesta quinta, às 19 horas, dentro do V Ibero Brasil Cine Festival. O doc conta, de maneira carinhosa, a história desse capítulo importante do teatro carioca. Dele falam ex-alunos e ex-professores de várias gerações, como Marieta Severo, Malu Mader, Ernesto Piccolo, Cláudia Abreu, Gilberto Braga e outros. A participação de Barbara Heliodora, relembrando seus tempos de “Bruxa”, é particularmente divertida.

Começou ontem (segunda) na TV Brasil a série documental Era das Utopias, tema que Silvio Tendler vem trabalhando há vários anos. Infelizmente, perdi o primeiro episódio, mas pretendo ver/gravar os demais. Silvio dividiu a série em três blocos de dois capítulos cada: Utopia Capitalista, Utopia Socialista e Novas Utopias. De hoje a sexta-feira, os programas passam às 20h30. O último, no sábado às 21h30. Conheça o site da série.

A Cia. Teatro Oficina faz a estreia nacional de Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!! (duas exclamações) nos dias 5, 6, 7, 12 e 13 de setembro, em sessões às 18 horas, no Espaço Tom Jobim, dentro do Jardim Botânico (Rio). Para não fugir da bacante irreverência habitual, Zé Celso põe o público para entrar através dos bastidores: os atores nos camarins, a banda afinando-se, os operadores de luz e som iluminados.

Cursos bacanas

julho 14th, 2009 § Deixe um comentário

Claudia Dottori manda dizer que seu curso-mostra sobre Cinema Argentino Contemporâneo, no Espaço Telezoom, foi adiado para 24 de julho. Em foco, as obras de cineastas como Lucrecia Martel, Pablo Trapero, Carlos Sorin e Daniel Burman.

Luiz Fernando Gallego, dublê de Dr. Jekyll (psicanalista) e Mr. Hyde (crítico de cinema), manda dizer que vai dar curso de Cinema & Psicanálise no O Crânio (Rua Pacheco Leão, 94 – Tel. 3114 0171 / 9763 7444 / 7831 8538). O programa é de virar a cabeça. Veja só:

Inconsciente em Freud, Buñuel, Salvador Dalí;
Paranóia em Buñuel e Lacan;
Voyeurismo em Hitchcock e Buñuel;
Registro/Memória/Tempo Passado em Bioy Casares, Alain Robe-Grillet e Alain Resnais;
A Busca do Tempo Perdido em Proust, Alain Resnais e Orson Welles;
Freud segundo Sartre e John Huston.

P.S. O bordão “Fulano manda dizer” é inspirado em similar do Blog do Carlão Reichenbach.

Cinema argentino em curso

junho 25th, 2009 § Deixe um comentário

Na Argentina dos anos 1990, surgiu uma geração de cineastas dispostos a conversar com o público médio sem abrir mão de suas referências artísticas. Isso somado a atores deslumbrantes, o novo cinema argentino conquistou admiradores no mundo inteiro e criou um modelo que influenciou parte do cinema latino-americano, inclusive o brasileiro.

Essa “nueva ola” é agora objeto de curso no Espaço Telezoom, no Rio. A partir do dia 3 de julho, nas noites de terças e sextas, a pesquisadora Claudia Dottori vai ministrar o Curso e Mostra de Cinema Argentino Contemporâneo. Na pauta, as origens, a formação e o trabalho de cineastas como Daniel Burman, Carlos Sorín, Lucrecia Martel e Pablo Trapero.

Mais informações aqui.

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