Mais África
maio 15th, 2012 § Deixe um comentário
Por causa de meu post anterior, sobre a mostra África Hoje, fiquei sabendo de outro festival com filmes africanos que está em cartaz esta semana, até sexta-feira. É no Ceará onde está rolando o FestFilmes - Festival de Audiovisual Luso-Afro-Brasileiro, em Fortaleza e mais 24 cidades daquele estado.
Não costumo transcrever releases aqui no blog, mas vai uma exceção como adendo ao outro post:
O Ceará se transforma, esse ano, em polo catalizador e irradiador do intercâmbio cultural, social e econômico dos países de língua portuguesa, com a realização do FestFilmes – Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, que ocupa a capital Fortaleza e outras 24 cidades cearenses. Contando com filmes de jovens cineastas de países de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste), o festival exibe 45 filmes de curta-metragem em três mostras competitivas – regional, nacional e internacional – entre 13 e 18 de maio. Os vencedores das mostras serão escolhidos por voto popular durante as sessões, e as premiações somam R$ 47 mil em dinheiro.
Em sua primeira edição, o festival também homenageia o documentarista Silvio Tendler em mostra paralela, além de trazer para o público brasileiro os filmes do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Évora (FIKE), em Portugal. Dentre as muitas atividades promovidas pelo festival, destacam-se também as oficinas de cinema oferecidas pelo músico David Tygel e pelo roteirista Di Moretti. Confirmando a crescente importância do Ceará no cinema brasileiro hoje, o FestFilmes é uma boa oportunidade para se conhecer os mais novos nomes do nosso cinema – e de nossos irmãos lusófonos.
Mostra Faróis em segunda semana
dezembro 13th, 2011 § Deixe um comentário
A II Mostra Faróis do Cinema está entrando em sua segunda semana na Caixa Cultural RJ. O programa de hoje (terça) é um pequeno festival de curtas e médias dos realizadores farolados nesta edição. Veja a seguir:
(sala 1)
16h – Ismael & Adalgisa + Sexualidades (de Malu DeMartino)
18h – Anjos Urbanos + Crepúsculo Republicanos + Cabeça de Copacabana (de Rosane Svartman)
20h – Vox Populi + Banquete + Ópera Curta + Fúria (de Marcelo Laffitte)
(sala 2)
16h – Um Dia, Um Circo (de Marcelo Laffitte)
18h – Copa Mixta + Alô Tetéia (José Joffily) + Gentileza (Vinícius Reis)
20h – Vida Vertiginosa + Dor Secreta + O Acendedor de Lampiões + O Sereno Desespero (de Luiz Carlos Lacerda)
A primeira semana teve uma abertura animada com Xica da Silva e duas excelentes conversas sobre cinefilia, memória e criação cinematográfica. Uma delas reuniu Cacá Diegues e Rosane Svartman; a outra, José Joffily e Vinícius Reis. Nesta semana, mais quatro cineastas vão estar presentes para trocar ideias sobre suas admirações, influências e seu próprio trabalho. Sempre às 18 horas, na quinta-feira teremos Luiz Carlos Lacerda (For All – O Trampolim da Vitória) e Malu DeMartino (Como Esquecer); e no sábado, Neville D’Almeida (A Dama do Lotação) e Marcelo Laffitte (Elvis e Madona).
Acompanhe a programação e veja as sinopses dos filmes no blog Faróis do Cinema, onde também estão as coberturas de cada encontro pela crítica e pesquisadora Patricia Rebello. A mostra vai até domingo. Os ingressos custam 2 reais, com meia entrada a 1 real. Os encontros têm entrada franca.
Vida de antropólogo
novembro 21st, 2011 § 2 Comentários
Ao olho seco da teoria, biografia e filme etnográfico não têm muito em comum. A biografia é uma construção voltada para o tempo, uma ordenação mais ou menos cronológica de fatos da vida de alguém. Na imensa maioria das vezes, enfoca indivíduos isoladamente. O filme etnográfico, por sua vez, é coisa que se faz no espaço, na presença viva da câmera, no registro direto. Geralmente se interessa por grupos sociais e práticas culturais que transcendem o indivíduo.
É claro que, na prática, nada disso é rígido, dada a liberdade crescente no reino tanto das biografias quanto dos filmes etnográficos. Mas a discussão certamente vai passar por aí na mesa redonda que integrarei amanhã, na Mostra Internacional do Filme Etnográfico (terça, 18h, no Museu da República). Comigo estarão os cineastas Rolf Husmann, Nora Bateson e Joel Pizzini, além do diretor da mostra, José Inácio Parente.
A composição da mesa traz uma curiosa particularidade: os três cineastas estão exibindo na mostra perfis biográficos de antropólogos e/ou diretores ligados à antropologia visual. Husmann tratou de Asen Balikci, um expoente e inovador do filme etnográfico por décadas. Nora fez um retrato de seu pai, Gregory Bateson (1904-1980), grande pensador da antropolgia e da comunicação. Pizzini recolheu ecos da passagem do sueco Arne Sucksdorff pelo Pantanal matogrossense nos anos 1970. De alguma forma, meus três colegas de mesa enfrentaram o desafio de tratar da vida de alguém cujo trabalho foi sempre tratar de vidas alheias. Certamente vamos conversar sobre isso.
Um ponto de partida possível serão as diferenças de tratamento que encontramos nesses três filmes, marcadas pelas distintas relações entre cada realizador e seu personagem.
Dos três, The Professional Foreigner: Asen Balikci e a Antropologia Visual talvez seja o mais próximo de uma biografia tradicional. Com o veterano mas ainda vivo Asen Balikci, o diretor Rolf Husmann ocupa o lugar do colega de profissão e admirador. O filme se organiza, então, como uma série de encontros entre os dois nos diversos cenários em que Balikci viveu, filmou e ensinou a fazer filmes etnográficos. Em caminhadas e conversas por Istambul, Londres, Bulgária e nos Himalaias, Husmann entrevista Balikci sobre os diversos momentos de sua vida e carreira, assim como o interroga sobre questões específicas da antropologia visual. Temos, então, uma biografia quase sempre em primeira pessoa. Balikci mostra casas onde viveu ou trabalhou, descreve situações, reencontra um personagem de antigo filme seu e confessa que foi movido pela culpa e a vontade de retribuir que ele passou a instruir nativos na documentação de seus ambientes. Outra revelação interessante faz eco aos métodos de Flaherty em Nanook: Ao filmar os esquimós do norte do Canadá, na década de 1960, Balikci optou por reconstituir a caçada com caiaques que já tinha sido abandonada há tempos.
Nesse filme, o contato direto, o aspecto nômade, o tom de camaradagem e a curiosidade profissional de Rolf Husmann aproximam de certa forma a empreitada biográfica de um modelo de abordagem etnográfica. Veja o trailer.
Já o filme que Nora Bateson fez sobre seu pai, o multipensador Gregory Bateson (1904-1980), leva a circunstância familiar até ao slogan do cartaz: “A daughter’s portrait”. Nora assume diversas “funções” no filme: relembra os ensinamentos do pai desde sua infância, ajuda a explicar algumas ideias dele e ainda protagoniza pequenos ensaios ilustrativos chegados à videoarte. An Ecology of Mind lança mão ainda de gravações de palestras de Gregory, depoimentos de outros cientistas, animações e textos na tela. Poucos dados biográficos são espargidos aqui e ali, mas o foco está no pensamento do ex-marido de Margaret Mead. Ele explorou incansavelmente as fronteiras da nossa percepção a respeito do mundo. Ressaltou sempre que não existem definições estáticas para tudo o que se refere aos seres vivos, mas tão somente interrelações, interdependência, conexões e mudança incessante. No filme, palavras e imagens se juntam para clarificar conceitos como “a diferença que faz a diferença”, “duplo vínculo” e a própria expressão que dá título ao filme.
An Ecology of Mind é um esforço de compreensão de sistemas de pensamento complexos. Assim como Gregory Bateson fazia em suas palestras, usando desenhos e ilustrações prosaicas, Nora também tenta traduzir as ideias do pai para o campo das imagens. Apesar da trilha um tanto chill out, é um filme intelectualmente denso, que não cede às facilidades do elogio nem da celebração. Conheça o site oficial.
Por fim, o ensaio de Joel Pizzini sobre Arne Sucksdorff (1917-2001) recorre a expedientes de natureza mais poética que retórica. Em Elogio da Graça, ele evoca o trabalho do cineasta sueco no Mato Grosso através das lembranças de sua viúva brasileira, Maria da Graça Sucksdorff, que Arne conheceu quando preparava as filmagens da série Mundo à Parte, em 1970. Se essa série de História Natural (produzida pelo IBDF) incorporava seu próprio making of e tematizava a vida do casal, Elogio da Graça quer ser uma espécie de eco. Joel é outro cineasta que chega ao Pantanal e pede a Maria da Graça que não apenas conte a sua história, mas também repita gestos e olhares que foram plasmados quase 40 anos antes pela câmera de Arne. A montagem cuida de criar belíssimas conexões entre os dois tempos, como a frisar que ambos pertencem a um só fluxo, o do cinema.
Longe de ser um perfil do cineasta de Ritmos da Cidade, Fábula e vários filmes sobre o Brasil, Elogio da Graça pode ser visto como uma biografia mínima do casal Sucksdorff. Juntos, Arne e Graça geraram dois filhos, alguns filmes, um livro e uma memória que o Brasil ainda precisa conhecer melhor. Veja o trailer.
Viagens na garupa do cinema
novembro 19th, 2011 § Deixe um comentário
Pequenos comentários sobre alguns filmes vistos na 15ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, que continua até quinta-feira no Museu da República:
O MANUSCRITO PERDIDO, de José Barahona
Cartas portuguesas. A correspondência está no cerne desse doc em co-produção luso-brasileira, exibido na noite de abertura da mostra. Tudo começou quando José Eduardo Agualusa publicou as cartas de Fradique Mendes, poeta e aventureiro português que andou pelo Brasil no século XIX e libertou seus escravos antes da abolição, contestando os padrões da época. O documentarista português José Barahona veio recentemente ao Brasil em busca de um certo manuscrito deixado por Fradique. Ele narra sua viagem em forma de carta a Agualusa, ao mesmo tempo em que resgata trechos da Carta de Pero Vaz de Caminha. De certa maneira, Barahona incorpora o viajante português de sempre, mas agora interessado em procurar aspectos atuais da herança colonizadora de seus conterrâneos, especialmente no capítulo das contradições.
O que ele recolhe, num trajeto pelo interior da Bahia e no Rio de Janeiro, é um pequeno tratado de antropologia popular. Feirantes, monges, índios, sem-terras dão sua versão sobre a História e a atualidade. Muita coisa ali é mais novidade para ouvidos portugueses do que para os nossos, mas ainda assim alguns personagens se destacam. Como Noêmia, uma sem-terra feliz e vaidosa que parece ter saído de um dos melhores momentos de Eduardo Coutinho. A busca do manuscrito é pouco mais que um efeito retórico. Mais valem as reflexões do caminho, sejam as de Barahona, sejam as de alguns de seus interlocutores.
MORADA, de Joana Oliveira
Doçura mineira. Esse filme é uma prova de que o comum pode perfeitamente não ser banal. Joana Oliveira encontrou na sua própria família o material de um primeiro longa. Durante 56 anos, sua avó esperou pela desapropriação de sua casa, em área de Belo Horizonte progressivamente devassada pela ampliação de uma grande avenida. Enquanto a demolição não chegava, o sobrado virou um misto de museu da família e depósito de quinquilharias. Joana filmou Dona Virgínia nos três últimos anos dessa longa espera. Mais que um retrato daquele tipo de avó que todos queríamos ter, ela fez uma meditação sobre os sentimentos que nos prendem e nos afastam de um determinado lugar.
Impossível determinar quanto Dona Virgínia rejeitava e quanto desejava a ideia de sair de sua longeva morada. Mas quando chega enfim a hora, a emoção atravessa a soleira da porta. Pela lente da relação carinhosa entre avó e neta passam observações sutis sobre a tradicional família mineira: a empregada de mil e uma utilidades, o espaço do canto e das comidas na vida das pessoas, a mania dos guardados. Apesar de alguns trechos um pouco alongados, uma doçura e uma sinceridade muito grandes atravessam a tela e nos encantam.
DJENEBA, de Bata Diallo
Passa segunda-feira, às 20h
Mulher maravilha. Numa pequena comunidade rural do Sul do Mali, Dejeneba é a típica mulher que assume o papel de chefe da família na estação das secas, enquanto o marido trabalha longe em busca de salário. Djeneba tem muito do que cuidar: da terra, do estudo dos filhos, da cozinha, da venda de sopa de cabeça de bode para ajudar nas finanças da casa. Através desse perfil intimista, a diretora malinesa Bata Diallo (que estuda na Noruega) descreve o funcionamento de toda a comunidade. Especialmente o destino das mulheres, que, depois de casadas, só saem do lugar com o marido ou com o divórcio. O velho Nono, enfraquecido e experiente, é uma espécie de reserva de consciência tradicional. A possibilidade de ruptura com aquela ordem é tão remota quanto a lua das noites claras.
Mesmo sem grandes descobertas ou revelações, o filme cumpre sua função etnográfica com certa graça e bons insights. Durante as filmagens, Djeneba se desincumbiu com louvor de uma tarefa a mais: conduzir conversas diante da câmera para plasmar o tom e as questões da vida na comunidade. Uma bela mulher, sem dúvida.
VER O PESO, de Gavin Andrews
Inventário burocrático. Já apreciei mais outros trabalhos desse diretor canadense radicado há oito anos no Norte brasileiro. Seu inventário de personagens e histórias do mercado Ver o Peso, de Belém, soa burocrático e repetitivo. A inclusão de tímidos depoimentos de antropólogas e uma funcionária do Iphan trai o caráter institucional do filme e falha em aprofundar os valores simbólicos e culturais apenas ventilados aqui e ali. O Ver o Peso passou por reformas sanitizadoras nos últimos tempos, mas parece não ter perdido o sabor que conheci há muitos anos. O roteiro errático e os problemas de exposição na fotografia é que não ajudam muito a contar essa história.
E alguns que eu já havia visto antes:
CINEMATÓGRAFO BRASILEIRO EM DRESDEN, de Eduardo Thielen e Stella Oswaldo Cruz Penido
Passa domingo, às 15h
Pérolas de arquivo. Há exatos 100 anos, três filmes científicos pioneiros foram exibidos com grande repercussão no Pavilhão Brasileiro da Exposição Internacional de Higiene de Dresden, Alemanha. O próprio Oswaldo Cruz os apresentou. Dois deles mostravam as medidas preventivas contra a febre amarela levadas a cabo na cidade do Rio de Janeiro (com cenas épicas de casas sendo cobertas com imensos lençóis para a fumigação). Outro exibia crianças portadoras do Mal de Chagas. Com um formato bastante clássico, o curta se destaca sobretudo pelo interesse histórico do material resgatado. Essas pérolas de arquivo são contextualizadas por depoimentos de especialistas.
BABÁS, de Consuelo Lins
Passa segunda-feira, às 18h
Um hábito colonial. Um curta já antológico, super-premiado, que parte de uma história pessoal para levantar a cortina de sobre o hábito colonial brasileiro de famílias brancas contratarem babás negras. Consuelo não disfarça uma certa influência de Santiago, de João Moreira Salles, o que só beneficia seu doc, meditativo e ao mesmo tempo incisivo.
WALACHAI, de Rejane Zilles
Passa quarta-feira, às 16h
Nos limites da identidade. Depois de fazer um curta a respeito de um velho imigrante que escrevia a história de sua região gaúcha em cadernos pautados, Rejane partiu para este longa sobre o Walachai. Ali se fala um dialeto já em desuso até na Alemanha, e o Brasil parece num dos limites de sua identidade. A diretora, nascida lá, tem a sensibilidade e o talento suficientes para nos fazer mergulhar naquele lugar.
SOLDADOS DA BORRACHA, de Cesar Garcia Lima
A História pela boca de quem viveu. Uma proposta simples, mas eficaz: encontrar antigos seringueiros da Amazônia que trabalharam no esforço para ajudar os aliados na II Guerra. Embora o tema não seja novo em documentários mais ou menos recentes, a força deste curta está em concentrar-se nos personagens e daí extrair seu carisma. São eles que dimensionam humanamente uma história cheia de aventuras, ilusões e decepções. Roteiro, edição e fotografia de ótima qualidade completam o serviço.
Coutinho Repórter e Uma Visita para Elizabeth Teixeira
outubro 14th, 2011 § 1 Comentário
Dois curtas exibidos ontem na Première Brasil são costelas nascidas da obra de Eduardo Coutinho. Ambos são filmes muito simples, que se valem de um mito já pronto para passar seu recado sinteticamente.
Uma Visita para Elizabeth Teixeira vai reencontrar a personagem central de Cabra Marcado para Morrer em sua casa do interior da Paraíba (comprada por Coutinho) e testemunhar sua persistência na defesa da reforma agrária. Acompanha Dona Elizabeth também na primeira visita que faz a uma capelinha erguida, não se sabe por quem, à memória de seu marido, o líder camponês João Pedro Teixeira, no local em que ele foi assassinado.
A ideia é apenas confirmar que Dona Elizabeth continua a mesma, para o que contribui um rápido depoimento de outro João Pedro, o Stédile do MST. De novidade, que eu saiba, a informação de que ela declinou de um convite de Fidel para viver em Cuba nos anos 1960. O curta de Susanna Lira tem o efeito de atualizar o status de uma história que virou História.
Já em Coutinho Repórter, é o próprio cineasta quem, de sua mesa no CECIP, rememora para Rená Tardin os tempos de Globo Repórter. Conta como “caiu na real” e entrou para a Vênus Platinada, como descobriu seus processos em programas clássicos como Seis Dias em Ouricuri e Teodorico, o Imperador do Sertão. Em tudo, a disposição para contestar ou driblar as imposições do padrão Globo. Planos longos, subversão da função do narrador, etc.
Mas a subversão principal vem nos minutos finais, quando Coutinho “confessa”, talvez pela primeira vez, a extensão dos seus “furtos” na Globo para realizar Cabra Marcado para Morrer. É algo de que a emissora do Jardim Botânico deveria se orgulhar. Àquela altura, Coutinho já não admitia mais a encomenda de fazer um programa sobre os 50 anos do Pato Donald. Era tempo de mudar de vida novamente. Eficiente em sua simplicidade, Coutinho Repórter sublinha momentos cruciais na carreira do mestre e ainda capta seu entusiasmo (no off dos créditos finais) com as condições atuais do ofício documental.
Em cartaz no TendlerTube
setembro 13th, 2011 § 5 Comentários
Silvio Tendler é um dos poucos documentaristas brasileiros acostumados com o sucesso de público. Juntos, Os Anos JK, Jango e O Mundo Mágico dos Trapalhões somaram mais de 3 milhões de espectadores nos anos 1980. Nas últimas semanas ele voltou a sentir o gostinho da multidão com um de seus novos filmes. Não nos cinemas, mas na internet. O Veneno Está na Mesa, realizado para a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, já foi visto por mais de 65.000 pessoas, contando os cliques da versão integral e da versão em quatro partes.
Silvio descobriu as potencialidades do Youtube no ano passado, quando postou o curta Fragmentos do Exílio, feito para a Jornada de Cinema da Bahia de 2003. Desde então, realizou especificamente para esse canal uma versão in progress de Há Muitas Noites na Noite (a partir do Poema Sujo de Ferreira Gullar) e os filmes-homenagem Matzeiva Juliano Mer-Khamis (sobre o entertainer-ativista israelense recentemente assassinado) e Giap, Memórias Centenárias da Resistência (para comemorar o centenário de nascimento do general vietnamita Vo Nguyen Giap, que derrotou três impérios).
A grande sacada de Silvio é que os filmes do Youtube não param no Youtube. Ao contrário, decolam para uma intensa vida paralela. “A exibição gratuita na web não mata as possibilidades de outros circuitos. Não param de me convidar para lançar O Veneno Está na Mesa em eventos e festivais. Não paro mais de dar entrevista. Mesmo usando bengala, virei um arauto da saúde”, conta, divertido.
O Veneno abre e fecha com a palavra mágica de Eduardo Galleano. Entre uma e outra, uma série de depoimentos, gráficos e reportagens de TV dão conta dos riscos dos agrotóxicos e das injunções políticas e econômicas que levam a seu uso praticamente compulsório no Brasil, em benefício de multinacionais. Galleano estranha como governos progressistas da América Latina cedem ao envenenamento das lavouras em nome da produtividade e do “deus mercado”. O filme, de 49 minutos, apresenta também uma espécie de “herói orgânico”, um agricultor sintomaticamente chamado Adonai (“Ele, Deus”, em hebraico), que reinventou o milho crioulo no Rio Grande do Sul. Como bom filme de campanha, O Veneno tem sido utilizado até como peça de acusação contra a empresa Monsanto em batalhas judiciais.
Outro filme de impacto no TendlerTube é o do venerando general Giap, o Invencível. Parte da entrevista que Silvio fez com ele em 2003 aparecia em Utopia e Barbárie. Mas aqui há trechos inéditos, como a referência ao “Hanói Hilton”, o campo de prisioneiros usados pelos norte-vietnamitas. Os materiais de arquivo dos estúdios de Hanói incluem cenas (inéditas por aqui) de prisioneiros capturados e armamentos americanos destroçados. Uma trilha sonora original de tons épicos acrescenta ao aspecto elegíaco do curta.
Silvio quer que Giap viaje pelo mundo através de mostras e festivais. Mas admite que este é sempre um público pequeno. No Youtube a plateia se multiplica rapidamente e as chances de circulação dos filmes se ampliam. Para breve, aguardem o próximo lançamento do TendlerTube: um filme construído a partir de fotos do gaúcho Luiz Achutti de um circo mambembe onde a atração principal era um porco. “Vai ser uma metáfora sobre a pobreza”, promete.
Veja os filmes:
O Veneno Está na Mesa
Giap, Memórias Centenárias da Resistência
Fragmentos do Exílio
Matzeiva Juliano Mer-Khamis
Há Muitas Noites na Noite
Delícias turcas
agosto 14th, 2011 § Deixe um comentário
Diversão de domingo:
Eu já estive na Turquia, nos anos 1990, mas nunca tinha ouvido falar em pehlivan. Este é um esporte tradicional do país, uma luta corporal em que os contendores se enroscam lambuzados até a alma em azeite de oliva. A peleja, também conhecida como turkish wrestling, é derivada das lutas greco-romanas e tem regras bastante peculiares. Entre os objetivos principais está expor o umbigo do oponente e alçá-lo inteiramente do chão pendurando-o pela calça besuntada. Para isso vale – e deve-se – enfiar as mãos dentro da calça do outro, contanto que não apertem os testículos ou invadam o ânus do bravo combatente.
Descobri o estranhíssimo pehlivan através desse curta feito em 1964 por Maurice Pialat. Reparem que o enfrentamento tem todo um ritual prévio e é acompanhado por música percussiva. O misto de força viril e sensualidade quase homoerótica é intrigante.
Pehlivan é um dos seis curtas realizados por Pialat na Turquia em 1964, antes de fazer seu primeiro longa. Eram encomendas do governo turco, que lhe chegaram através de Samy Halfon, produtor de Hiroshima Mon Amour. Apesar do caráter chapa branca, esses filminhos são pequenas joias que merecem ser conhecidas. A fotografia quase sempre em preto e branco de Willy Kurant é prodigiosa. Em alguns, a música de Georges Delerue é extremamente evocativa. Byzance tem texto de Stefan Zweig.
Veja os demais no Youtube:
Istanbul / Byzance / La Corne d’Or / Maitre Galip / Bosphore
Suíte de ruínas
julho 5th, 2011 § 6 Comentários
Um curta cearense está chamando atenção nos festivais por onde passa. Já venceu dois: o de Jericoacoara e o prêmio do público no Festival Art Déco de Cinema, em São Paulo. Chama-se Mato Alto – Pedra por Pedra, e poderia ser um documentário bastante convencional sobre o assunto escolhido: um complexo de arquitetura visionária construído no sertão cearense na primeira metade do século passado.
Mas de convencional é que o filme do iniciante Arthur Leite, de 19 anos, feito para o projeto Revelando os Brasis, não tem nada. Arthur preferiu contar essa estranha história mais pelos ecos que pelos fatos. Sem linearidade nem preocupação explicativa, o filme emenda falas, sussurros, preces, ruídos e silêncios numa pequena suíte sobre as ruínas de um tempo e de uma saga familiar. O perfil de José Honorato, o construtor do complexo (formado por um casarão muito comprido, um poço gigantesco, um tanque e uma capela suspensa) nos chega em fragmentos tênues e contraditórios. O único sobrevivente dos muitos filhos e sua mulher exumam trapos de memória que dão conta de um homem empreendedor e competente, mas também patriarcal e obcecado, que não poupou a saúde da família para colocar de pé o seu sonho.
Mato Alto tem imagens e edição sonora de grande beleza a serviço de uma estrutura ousada, disposta a mais fazer sentir que explicar. Uma cena em especial, a árdua subida do velho Egídio ao santuário, ajudado pelo próprio diretor, tem, guardadas as proporções, grandeza similar à romaria ao Monte Santo em Deus e o Diabo na Terra do Sol. A forma de mostrar os interiores do casarão me lembrou uma sequência de O País de São Saruê, razão pela qual fiz questão de mostrar o curta a Vladimir Carvalho. “Um filme sobre fantasmas”, como disse Zeca Ferreira, que me trouxe o DVD do Ceará. Fantasmas de uma medievalidade que teima em deixar vestígios nos rincões do Nordeste brasileiro.
Torço para que Mato Alto chegue logo a um mostra no Rio ou, que seja, à internet.
De Recife a Cotiporã
junho 24th, 2011 § 1 Comentário
O que pode haver em comum entre o curta Recife Frio e o longa Morro do Céu, reunidos no lançamento da Sessão Vitrine esta semana, além de serem dois dos melhores filmes realizados no Brasil nos últimos anos?
Não muita coisa, certamente. O fenômeno atmosférico que congela a Recife imaginada por Kleber Mendonça Filho nem chega a aproximá-la do sul ensolarado que Gustavo Spolidoro capturou. Recife Frio (foto à esquerda) é um falso documentário supostamente rodado por uma equipe da TV argentina, e usa o código da sátira para falar de coisas graves como a desumanização das cidades e o jequismo do consumo cultural de massa. Morro do Céu, por sua vez, faz do cinema de observação radical uma ferramenta para plasmar um modo de vida interiorano e bucólico.
O que esses dois filmes têm mesmo em comum é o fato de consagrarem dois diretores companheiros de geração e cujas carreiras, iniciadas nos anos 1990, exprimem um desejo contínuo de aprimoramento, experimentação e comunicabilidade. Kleber, dublê de crítico e realizador, fez curtas originais como Vinil Verde e Eletrodoméstica, além do longa Crítico. Gustavo tem curtas premiadíssimos como Velinhas e De Volta ao Quarto 666, mais o virtuosístico longa em plano-sequência Ainda Orangotangos. Recife Frio e Morro do Céu são suas respectivas obras-primas até o momento. Neles, o domínio de modelos narrativos é excepcional.
Morro do Céu (foto à esquerda) observa o cotidiano do “guri” Bruno Storti na pequena Cotiporã, colônia de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. Bruno passeia com os amigos pelos arredores, tenta capturar a atenção de uma menina com mensagens pelo rádio e o celular, trabalha na lavoura da família, restaura uma moto, conversa com os pais sobre o futuro e a Itália. As ações são fragmentadas, mas a edição vai formando linhas de continuidade que sugerem um fluxo dramático ficcional. Tudo respira singeleza, calma e intimidade, numa paisagem montanhosa e verdejante que ajuda a contextualizar as sensações experimentadas por Bruno. A introspecção do menino é um dado que o diretor utiliza a seu favor. Ele monta o filme no diapasão do personagem, em vez de forçar uma “expressividade” artificial que fosse mais propícia a uma suposta economia narrativa.
Durante quatro meses de filmagem, Gustavo Spolidoro trabalhou praticamente sozinho, fazendo imagem e som. A câmera, quase sempre fixa no tripé, colhe cenas espontâneas no figurino ideal do cinema direto americano, como uma mosca na parede. Mas esta é uma mosca caprichosa, atenta à beleza das composições e à eloquência da luz.
Nada mais distante desse naturalismo minuciosamente burilado do que o jorro de ideias mordazes presente em Recife Frio. Como em A Menina do Algodão e Vinil Verde, Kleber trabalha entre o carinho e a ironia para com os gêneros cinematográficos. Neste caso, a ficção científica e o mockumentary, ou pseudo-documentário, tirando sarro com a linguagem da televisão e provocando um riso crítico e fecundo. Mesmo para quem não conhece as vicissitudes da capital pernambucana, ou não percebe em toda sua extensão a bela homenagem final a Lia de Itamaracá e ao clássico neorrealista Milagre em Milão, o filme tem apelo imediato e ressonância em qualquer um. Estou longe de ser o único a considerar Recife Frio o melhor curta feito no Brasil desde Ilha das Flores.
>>> O programa duplo fica em cartaz até quinta-feira próxima no Cine Joia (Rio), na sessão das 20h30. Clique aqui para ver a programação em outras cidades.
Abaixo, o trailer de Morro do Céu:
Aqui e ali, no Cinesul
junho 13th, 2011 § Deixe um comentário
Abre hoje (segunda) à noite e começa amanhã para o público o Cinesul – Festival Ibero-americano de Cinema e Vídeo (veja o site do evento). Dos filmes programados este ano, já tive oportunidade de ver alguns, e passo a vocês minhas impressões e links de resenhas:
Update: Walachai, de Rejane Zilles. Depois de fazer um curta a respeito de um velho imigrante que escrevia a história de sua região gaúcha em cadernos pautados, Rejane partiu para este longa sobre o Walachai, onde se fala um dialeto já em desuso até na Alemanha e o Brasil parece num dos limites de sua identidade. A diretora, nascida lá, tem a sensibilidade e o talento suficientes para nos fazer mergulhar naquele lugar.
Babás, de Consuelo Lins. Um curta já antológico, super-premiado, que parte de uma história pessoal para levantar a cortina de sobre o hábito colonial brasileiro de famílias brancas contratarem babás negras. Quando estive recentemente no Museu do Apartheid, em Joanesburgo, vi que o tema é importante também na África do Sul. Consuelo não disfarça uma certa influência de Santiago, de João Moreira Salles, o que só beneficia seu meditativo e ao mesmo tempo incisivo doc.
A Dama do Peixoto, de Douglas Soares e Allan Ribeiro. Outra pérola de curta duração e longa ressonância. Douglas e Allan constroem pela ausência o perfil de uma mulher misteriosa que frequenta uma praça no Bairro Peixoto. É desses filmes que se impõem pelo rigor do dispositivo e criam uma relação intrigante entre personagem e espectador.
Los Minutos, las Horas, de Janaína Marques Ribeiro (Cuba/Brasil). Uma direção firme e uma linguagem sintética magnetizam o nosso olhar para a história de uma mulher comum em busca do amor na Havana de hoje. Esse curta também já colheu prêmios em diversos festivais pelo mundo.
O Gigante do Papelão, de Barbara Tavares. Perfil conciso e eficiente de Sergio Cezar, um miniaturista engenhoso que constrói favelas e paisagens urbanas em papelão. A junção de arte e bons propósitos sociais pode soar oportunista, mas aqui existe uma fagulha de sinceridade que não nos deixa indiferentes.
Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini. Um dos melhores retratos de cartunista que já vi no cinema. Leia a resenha.
Os Representantes, de Felipe Lacerda. Um bom mergulho na política à moda amazônica. Confira a resenha.
Claudia, de Marcel Gonnet Wainmayer (Argentina). Interessante revisão de uma personagem da crônica policial argentina. Veja a resenha.
Na Trilha do Bonde, de Virgínia Flores. Viagem poética aos trilhos dos bondes cariocas de outrora. Leia a resenha.
Cinema Paraibano – Memória e PreservAção
janeiro 24th, 2011 § Deixe um comentário
Soube através do indispensável Almanaque da Rosário (e-mails divulgados pela jornalista Maria do Rosário Caetano) que uma parte importante da memória cinematográfica paraibana está prestes a ser resgatada. O projeto, aprovado pela Petrobras, tem o título deste post e está sendo tocado por Fernando Trevas Falcone e Lara Amorim, professores da UFPB. Até meados de 2013, eles vão restaurar e digitalizar o acervo do Nudoc – Núcleo de Documentação Cinematográfica da UFPB.
Em sua maioria nas bitolas de Super 8 e 16mm, o tesouro inclui pepitas de grande valor para completar o mapa da cinematografia da região. Falcone citou algumas:
Gadanho (João de Lima e Pedro Nunes, 1979) mostra os catadores que vivem do lixão de João Pessoa. Quando exibido, provocava forte reações da plateia. A miséria estampada na tela é contudente.
Mestre de Obra (Newton Júnior, 1982) acompanha a vida de um operário. A música é de Chico César.
Celso Pós-Milagre (Vânia Perazzo, 1982). A rotina parisiense de Celso Furtado, o mais renomado dos paraibanos cassados pela ditadura.
Não conheço a Lara, mas admiro muito a inteligência e a capacidade do jornalista Fernando Trevas Falcone. Ainda não li a sua dissertação de mestrado na USP, “A Crítica Cinematográfica na Paraíba e o Cinema Brasileiro – Anos 50 e 60″, mas levo muita fé. Naquele estado e período havia uma forte colaboração entre críticos e cineastas, sendo que a Associação de Críticos local frequentemente aparece como coprodutora de filmes. Linduarte Noronha, diretor de Aruanda, foi um dos que circularam entre os dois ofícios.
Além da recuperação do acervo, Fernando e Lara pretendem realizar uma mostra e publicar um livro com reflexões sobre a produção e com o resumo dos debates que devem acontecer durante o evento. Querem também criar um site para divulgar os filmes e, se houver possibilidade, disponibilizá-los para os internautas.
O realismo lírico de Vittorio De Seta
janeiro 18th, 2011 § Deixe um comentário
Se você gosta de documentários e estará no Rio na tarde de quinta-feira, um conselho: adie outro compromisso, engane o chefe, deixe o parente no hospital. Faça qualquer coisa para não perder a única reprise da sessão Vittorio De Seta, às 15h30, no Instituto Moreira Salles.
Não confunda De Seta com o mais famoso e prolífico Vittorio De Sica. Nascido em Palermo, em 1923, De Seta ainda é vivo e filmou até 2006. Sua reputação, no entanto, é mais ligada a esses 10 curtas realizados na Sicília e na Sardenha entre 1954 e 1959, todos com esplêndida fotografia em cores. À exceção de Páscoa na Sicília e Os Esquecidos, que enfocam festas populares, o tema dos demais é o trabalho na pesca, no pastoreio, nas minas, nas lavouras de trigo, na fabricação de pães. Trabalho e cotidiano familiar interligados em narrativas cheias de senso de atmosfera, ritmo e poesia. Por vezes somos tomados pela mesma imersão que nos provocavam os bons e velhos filmes dos Irmãos Taviani e de Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos).
Há um pouco de Flaherty na sutil encenação do trabalho, um pouco de Grierson na seleção de momentos e na criação de climas dramáticos. Vários curtas foram filmados em Cinemascope ou num certo Cineramica, formatos que ampliam o espectro do quadro com efeitos magníficos sobre a paisagem e as aglomerações de camponeses. Sem entrevistas nem narração, as imagens dão conta de tudo, auxiliadas de maneira muito evocativa por sons ambientes e cantos de trabalho. Em cena, um modo de vida rude e arcaico, visto por De Seta com um viés lírico, embora não exatamente nostálgico. O conjunto dos filmes foi lançado em DVD na Europa com o título de “O Mundo Perdido”.
Mas nem tudo ali é passado. Quem assistir, por exemplo, a Camponeses do Mar, vai ver cenas assustadoras da emboscada e matança do atum, que em tudo se assemelham aos momentos mais sangrentos de The Cove, vencedor do Oscar de doc do ano passado. As condições de trabalho dos mineiros de enxofre em Surfarara talvez não sejam muito diferentes das que prevalecem ainda hoje em certas minas do Terceiro Mundo.
Em cada curta de De Seta, experimentamos (mais do que testemunhamos) um dia na vida de um grupo. É extraordinário o uso da luz e da montagem para restituir o fluxo do tempo e da labuta, com seus momentos de preparação, espera, progressão, clímax e repouso. Não há como não destacar a expectativa dos moradores de Stromboli durante as erupções de 1954, a “coreografia” dos debulhadores de trigo em A Parábola do Ouro ou a quase sublime condensação do cotidiano em Um Dia em Barbagia.
Alguns desses filmes podem ser encontrados no Youtube ou em sites de download. Mas eu aconselho a não perder a oportunidade de vê-los assim, em cópias impecavelmente restauradas pela Cinemateca de Bolonha. Para lembrar que documentários também podem ser belíssimos espetáculos de cinema.
‘Os Mutantes & the Garden of Notes’
dezembro 19th, 2010 § 3 Comentários
Diversão de domingo:
Descobri no Youtube esse curta americano em homenagem a Os Mutantes. Para apresentá-lo, apenas traduzo a sinopse postada pelo autor, Jeff McCarty:
“A história de Os Mutantes é talvez a mais estranha em toda a história do rock e serviu como inebriante inspiração para artistas tão diversos como Beck, Devendra Banhart, Sean Lennon, Nirvana e os Flaming Lips. Imagine um grupo de rock brasileiro dos anos 1960 composta por três adolescentes que gostavam de usar roupas estranhas e tocar música psicodélica com guitarras feitas por eles mesmos. Agora imagine essa banda tocando uma música tão estranha e tão bonita que o governo militar de direita do Brasil os declarou uma ameaça nacional, prendendo muitos dos seus amigos e companheiros de banda. Em meio a tanta opressão, é um milagre que seus discos tenham sobrevivido décadas e sejam considerados uma inspiração tão grande por muitos dos melhores artistas de hoje. Os Mutantes and the Garden of Notes mistura animação original, fantasia colorida, velhos clipes musicais, fotografias de arquivo e vinhetas impressionistas para contar a história da banda, da opressão militar e do seu impacto nas gerações futuras em várias partes do mundo. Narrado por Devendra Banhart”.
As asas de Angeli
novembro 25th, 2010 § 3 Comentários
Caos, crise, obsessão, poluição, velocidade. É o apocalipse ou um dia na vida de São Paulo? Nada disso, ou talvez um pouco de tudo isso. Estamos falando do mundo do cartunista Angeli. Estamos no coração de um fantástico curta que estreia esta noite no Festival de Brasília. Beth Formaggini vinha me segurando as mãos quase literalmente para que nada quebrasse o ineditismo exigido pelo festival. Pronto, acabou. Já posso escrever sobre Angeli 24 Horas.
Beth não poderia ter sido mais feliz nesta apresentação do personagem Angeli em meio a seus escrotinhos, bananas, rê bordosas, bob cuspes, freaks, políticos xexelentos, cônjuges monstruosos et caterva. O cronista que criou essa épica do vil é ele mesmo um compulsivo, cara de mal dormido, fala e gestos nervosos, como se fosse explodir dentro de 10 segundos e deixar a parede do estúdio coberta de gosma verde.
O filme potencializa essa identificação entre criador e criaturas colhendo a autoanálise de Angeli num estúdio decorado com motivos gráficos, trabalhando muito com a relação entre figura e sombra, e projetando as tiras sobre seu corpo numa espécie de instalação. Além disso, filma pontos-chave de São Paulo em ritmo acelerado e “encontra” nas ruas figuras reais que poderiam ter inspirado personagens de Angeli. Assim é que artista e cidade se fundem pela lógica dos fluxos incessantes. Embora saia pouco da prancheta, Angeli flutua com sua imaginação mórbida, radical e divertidíssima pelos espaços da metrópole, tal como o anjo de Asas do Desejo. Entre seguir em frente e mudar de rumo, Angeli opta pelas duas coisas.
Eixo quebrado entre as várias câmeras que o filmavam, ele fala de suas grandes inspirações; conta como se livrou de seus personagens mais célebres e das propostas de massificação; como encontrou na tragédia familiar do amigo (e muso) Laerte a deixa para uma guinada em sua carreira; por que prefere os diabos aos deuses na hora de riscar o papel. Para cada afirmação ou dúvida, Beth vai localizar a tirinha adequada para fazer a passagem entre pensamento e obra, movimento e resultado. Como eixo central e justificativa do título, Angeli vai preparando a charge que sairá no dia seguinte num jornal paulista.
Outro elemento fundamental para a incrível coesão artística do filme é a trilha sonora heavy e aliciante de JR Tostoi (do grupo Vulgue Tostoi). Num de seus melhores momentos, a música sampleia a voz de Angeli numa batida persistente e sublinha a evidência de que tudo nesse filme emana da pulsação de seu personagem. Não são muitos os perfis de artista com esse grau de coerência.
Assim foi no Amazonas
novembro 15th, 2010 § 5 Comentários
Tive que sair de Manaus antes do dia do encerramento do 7º Amazonas Film Festival, tendo já cumprido minhas tarefas nos júris dos curtas amazonenses e no debate de documentários brasileiros. Trouxe ótima impressão de um evento realizado com grande profissionalismo e alcance social (há exibições até em presídios, comunidades, escolas e asilos de idosos). As sessões no mítico Teatro Amazonas não deixam ninguém indiferente, mesmo que o filme não seja lá essas coisas. O hotel Caesar Business, onde se hospedam todos os convidados, está tinindo de novo e funciona à perfeição.
Falta um maior estímulo à discussão dos filmes, já que o público local não parece ter muita disposição para isso. Das três sessões paralelas que me cabia comentar, no simpático Teatro de Instalação, somente os espectadores de Dzi Croquettes, em boa parte ligados a teatro, permaneceram na sala após os créditos.
Na premiação, poucas surpresas, a julgar pela opinião de quem acompanhou melhor do que eu as sessões competitivas. O papa-prêmios Recife Frio foi o melhor curta da competição nacional, enquanto o elogiado thriller americano Winter’s Bone, de Debra Granik (quatro estrelas de Roger Ebert), ganhava o troféu de melhor longa. Lixo Extraordinário ficou com o prêmio especial do júri. Elvis e Madona valeu a Igor Cotrim o destaque de melhor ator.
No âmbito dos curtas amazonenses, o júri formado por mim, o fotógrafo Andreas Valentin e o cineasta gaúcho Jaime Lerner elegeu Perdido, de Zeudi Souza, como o melhor. Trata-se de um exercício temporal sofisticado em torno de um seringalista falido que sai de casa e se perde na floresta. Quando ele reencontra o caminho de casa e da mulher, percebemos que sua desorientação na verdade é a experiência da morte. A cenografia do grande Oscar Ramos é um dos trunfos do curta. Demos também um prêmio especial a Contra-fluxo, de Valdemir de Oliveira, experiência interessante na videodança, ramo que parece ter caído nas graças dos jovens artistas de Manaus.
É preciso dizer que esses dois filmes foram exceções num panorama marcado por muitas ingenuidades, técnica precária e grandes dificuldades na articulação de narrativas, direção de atores e criação de diálogos. Esses aspectos precisam ser urgentemente “atacados” nas oficinas e cursos de cinema da região.
Avaliamos ainda 12 roteiros para novos curtas, dos quais pelo menos quatro se destacaram pela modernidade da linguagem e a adequação entre tema e tratamento. Como só podíamos premiar um deles, optamos pelo documentário Ser ou Não Ser. O diretor Leonardo Costa vai investigar o cotidiano de quatro jovens indígenas que vivem na periferia de Manaus em constante interação com a cultura branca e encarnam o dilema entre ser e não ser índios. O projeto nos pareceu sólido, com personagens bem escolhidos e procedimentos calcados em visões bem contemporâneas do documentário. No ano que vem, Ser ou Não Ser vai integrar a sessão de abertura do festival concorrendo a melhor curta nacional. Espero estar lá para ver.
Confira a seguir a lista completa dos premiados:
Roteiro curta-metragem 35 milímetros Amazonas
Vencedor: “Ser ou Não Ser”, Leonardo Costa
Curta-metragem Digital Amazonas
Vencedor: “Perdido”, Zeudi Souza
Júri popular: “Rock que o Brasil Não viu”, Bosco Leão, Caio de Biasi
Prêmio especial do júri: “Contra-fluxo”, Valdemir de Oliveira
Curta-metragem digital Brasil
Vencedor: “Recife Frio”, Kleber Mendonça Filho
Júri popular: “Uayná – Lágrimas de veneno”, Júnior Rodrigues
Longa metragem
Vencedor: “Winter’s Bone”, Debra Granik
Júri popular: “Habana Eva”, Fina Torres
Prêmio especial de melhor filme: “Lixo Extraordinário”, Lucy Walker
Menção honrosa: “Luz nas Trevas, a volta Bandida da Luz Vermelha”, Ícaro C. Martins e Helena Ignez
Melhor roteiro: “Las Buenas Hierbas”, Maria Novaro
Melhor atriz: Úrsula Prumeda, em “Las Buenas Hierbas”
Melhor ator: Igor Cotrim, em “Elvis e Madonna”
Melhor diretor: Feng Xiaogang, em “Aftershock”
Premiados do Recine
outubro 30th, 2010 § 2 Comentários
Loki – Arnaldo Batista, de Paulo Henrique Fontenelle, e Babás, de Consuelo Lins, ganharam os prêmios de melhor filme (longa e curta, respectivamente) da 9ª edição do Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Na cerimônia de encerramento, ontem (sexta) à noite, no Arquivo Nacional, Loki ganhou também o prêmio de melhor roteiro de longa-metragem. O júri oficial – composto por Patrícia Montemór, Patricia Rebello e José Inácio Parente – escolheu como melhor diretor de longas Lírio Ferreira, por O Homem que Engarrafava Nuvens, que também levou o prêmio de melhor longa do júri popular. O público apontou como melhor curta Aquelas Mulheres, de Matilde Teles e Verena Kael.
Fiquei todo orgulhoso com dois alunos da minha oficina que subiram ao palco. Fabio Evangelista recebeu o prêmio de melhor contribuição à linguagem cinematográfica por Trabalho e Pão, uma comovente evocação da história da favela da Maré a partir de um dispositivo engenhoso. Fábio projetou fotos e trechos de filmes (docs e fics) sobre uma réplica de palafita existente no Museu da Maré. O efeito, belíssimo, produz diversas camadas significantes num trabalho que reúne cinema e instalação. Silvia Rachel saiu da festa com uma menção especial do júri pelo seu divertido Onde Está o Ditador?. Usando cenas de arquivo de marchas militares, desfiles de moda e exercícios de educação física, Silvia aponta, literalmente, os grandes e pequenos ditadores que assombram nossa história e cotidiano.
Outros prêmios do Recine 2010:
Melhor direção de curta: Os Japoneses no Vale da Ribeira, de Chico Guariba
Melhor pesquisa: Negros, de Monica Simões
Melhor concepção sonora: La Voce Stratos, de Luciano D’Onofrio e Monica Affatato (Itália)
Melhor montagem: Mário Filho, o Criador das Multidões, de Oscar Maron Filho (a meu ver, a decisão mais discutível do júri).
Transformações na tela
outubro 22nd, 2010 § Deixe um comentário
Há poucos dias, fiz um grande passeio pelo Brasil através de 20 curtas do projeto Nós na Tela. De Lábrea, na selva Amazônica, a Londrina, no Paraná, passando por Tocantins, Piaçabuçu (AL), Ilhéus (BA), Recife e outros tantos municípios, conheci projetos bacanas de inserção social e cultural, topei com alguns vídeos bem críticos, outros com cara mais “institucional”.
Os curtas, todos com duração de 15 minutos, foram realizados por jovens egressos de oficinas audiovisuais e tiveram seus projetos selecionados no Concurso de Apoio à Produção de Obras Audiovisuais Digitais Inéditas de Curta Metragem, nos Gêneros Documentário ou Telerreportagem, sobre o tema “Cultura e Transformação Social” – Nós na Tela. Uma oficina específica ajudou a preparar as produções. Todos os curtas foram exibidos quarta e quinta na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Quinta à noite aconteceu a cerimônia de premiação, conforme escolha de um júri composto pelos críticos Daniel Caetano, Rodrigo Fonseca e este que vos fala.
O primeiro lugar, aquinhoado com um prêmio de 15 mil reais, foi do paranaense Vila das Torres 2014, de Willian Coutinho Duarte, Lúcia Pego dos Santos, Marta Pego dos Santos e Bruno Mancuso. Destacado pelos três jurados, o doc tem um roteiro muito bem articulado em torno do passado, presente e futuro de um bairro carente que destoa da paisagem organizada e asséptica de Curitiba (“uma cicatriz no rosto da Cidade-Sorriso”, como diz alguém). Moradores de Vila das Torres narram as origens da comunidade e o desenvolvimento espontâneo de uma cultura do futebol no local. Especulam também sobre o destino do bairro nos preparativos para a Copa de 2014, que terá jogos em Curitiba. É um trabalho crítico, que não se furta a ironias sobre a elite e a administração pública da cidade, mas o faz de maneira orgânica, sem panfletarismo. Tem tudo para percorrer o país em festivais.
Outro curta com poder de fogo é Arquitetura da Exclusão, de Adelvan de Lima, que ficou com o segundo lugar e um prêmio de 10 mil reais. O projeto é paulista, mas se refere ao muro construído em torno da favela Dona Marta e às UPPs cariocas. A pergunta “O Haiti é aqui?” serve de mote performático para um questionamento dos objetivos do tal muro (proteção ecológica ou encarceramento da comunidade?) e de uma certa visão idealista das UPPs. A própria equipe passa por uma batida policial antes de retirar dos guardas bons depoimentos sobre seu treinamento e porte de armas. Pode ser visto como um hors d’oeuvre para o doc que está sendo produzido por Cacá Diegues sobre esse tema.
O terceiro lugar (5 mil reais) foi para Quenda, de Warlem Machado, um esperto perfil de três meninos gays que frequentam a noite do Rio. Eles contam como vivem e veem a si próprios, além das circunstâncias em que saíram do armário perante suas famílias. Embora o tema do outing seja gasto, as particularidades e a franqueza dos personagens garantem a personalidade do filme, que busca uma linguagem afinada com o comportamento e o ambiente retratados.
Havia outros curtas dignos de menção, como o breve apanhado da nova geração do hip hop paulista, exoticamente intitulado Disseminando Ideias e Influenciando Pessoas. Este curta de Felipe Rodrigues era um dos meus preferidos, tanto pelo charme e a graça da confecção, quanto pela forma como se aproxima dos métodos caseiros de trabalho do rapper e produtor musical Emicida. Também apreciei especialmente os santistas BNH 001, de Aline Assis (discussão dos efeitos da construção de um shopping no primeiro projeto de conjunto residencial do antigo BNH) e Aloha, de Paula Luana Maia dos Santos e Nildo Ferreira (sobre surfistas portadores de deficiências físicas). E ainda o amazonense Paumari na Cidade, de Eugênio Paumari e Sérgio Lobato, que mostra jovens índios escapando do tráfico pelo caminho do aprofundamento étnico; e Cinema de Bolso, de Alan Russel (Tocantins), abordagem em alto astral de um projeto de formação audiovisual com celulares e câmeras fotográficas.
O Nós na Tela é mais uma iniciativa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura que vem semeando a expressão autóctone pelos quatro cantos do país durante o governo Lula. Em breve, os 20 curtas integrarão a série televisiva Nós na Tela, dirigida por Francisco César Filho, que organiza todo o projeto. Cada programa de meia-hora incluirá um curta, cenas de making of, entrevista com o(s) diretor(es) e uma breve reportagem sobre a comunidade onde foi produzido. A série será veiculada pelas emissoras ligadas à Associação Brasileira de Canais Comunitários – ABCCom e em outros canais do sistemas público e estatal.
Regard Edgar
agosto 22nd, 2010 § 3 Comentários
Diversão de domingo:
Querem acabar com o Cine Edgard
E pôr um supermercado no seu lugar
Mas enquanto a velha estiver a fiar,
Tem gente boa que não vai deixar.
O Edgard Cine-Teatro é uma instituição em Cataguases. Foi naquela sala da Praça Rui Barbosa que Humberto Mauro e o diretor de fotografia Edgar Brasil viram seus primeiros filmes. Durante o recente Festival Ver e Fazer Filmes, uma turma de artistas-guerreiros criou um curta-manifesto em defesa daquele espaço mítico do cinema mineiro.
Regard Edgar é um delicioso plano-sequência cheio de surpresas e referências ao universo maureano. As participações incluem, na frente ou atrás das câmeras, Maurice Capovilla, Marília Alvim, Ronaldo Werneck, Luiz Carlos Lacerda, Emilio Gallo, Joel Pizzini e Julio Mauro, entre muitos outros.
Vejam essa pérola:
Uma semana com os filmes de arquivo
agosto 2nd, 2010 § Deixe um comentário
Começa hoje (segunda) a minha oficina do Recine 2010 – Festival Internacional de Cinema de Arquivo. O festival acontecerá de 13 a 17 de setembro, no Arquivo Nacional, mas antes disso os 10 selecionados para a oficina recebem fundamentos teóricos e técnicos para realizarem pequenos curtas a partir de 10 horas de material disponibilizado pelo Arquivo. Os filmes vão participar da competição em setembro.
Não gosto nem de pensar na minha responsabilidade de suceder a orientadores tão ilustres, em edições passadas, como Silvio Tendler, Arthur Omar, Silvio Da-Rin, Eduardo Escorel e Vladimir Carvalho. Não sou um cineasta, portanto minha atuação será mais voltada para a análise de filmes feitos majoritariamente com material de arquivo. Para isso, a turma vai assistir a cinco programas nas manhãs de segunda a sexta, a saber:
1. Miss Universe 1929, de Peter Forgacs. Uma história de amor através do século XX, contada através das filmagens da bela austríaca Lisl Goldarbeiter pelo seu apaixonado primo.
2. Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos, de Marcelo Masagão. Pequenas e grandes tragédias do século XX evocadas por meio de materiais colhidos na internet e mesclando personagens reais com fictícios.
3. Videogramas de uma Revolução, de Harun Farocki e Andrei Ujica. Relato da queda do comunismo na Romênia, feito com cenas de Tv e filmagens amadoras.
4. Brasília Segundo Feldman, de Vladimir Carvalho, e Negros, de Mônica Simões. Dois exemplos de uso criativo de material de arquivo, com níveis diferentes de intervenção.
5. Seleção dos premiados nas ofinas dos anos anteriores.
Nas tardes, comentaremos o programa exibido pela manhã e faremos um curso sobre documentário brasileiro contemporâneo. Os moldes do curso serão semelhantes ao que já dei na Laboratório Estação, no POP e no Sesc-Quitandinha. Vamos abordar as diversas modalidades e estratégias dos filmes realizados de 1995 para cá, mas com ênfase maior nos docs pessoais, de coleta e de compilação de materiais de arquivo.
Na semana que vem, os participantes da oficina vão partir para a ilha de edição e botar a mão na massa. De minha parte, espero ter bons momentos e, pelo menos, não aborrecê-los muito.
Se demorar um pouco a atualizar o blog, vocês já sabem por quê.
Premiadas do Femina
junho 14th, 2010 § 1 Comentário
Thereza Jessouroun, Anna Azevedo e a inglesa Jocelyn Cammack foram as grandes vencedoras do Femina 2010. Dois Mundos, o belo curta de Thereza sobre surdos que ouvem, ganhou o Grande Prêmio da competição nacional, enquanto The Time of Their Lives, de Jocelyn, ganhava o da competição internacional. Anna Azevedo, com seu curta Geral, levou o prêmio de destaque feminino na internacional e o prêmio especial do júri na nacional.
O júri da competição internacional, do qual participei, jogou com um jogador a menos. A apresentadora Renata Boldrini fez forfait e a decisão ficou nas minhas mãos e da dinamarquesa Elisabeth Jensen, crítica de literatura e diretora do Centro Dinamarquês de Informação sobre Mulheres e Gênero. A discussão foi tranquila e nossas deliberações finais foram por unanimidade.
Não havia dúvida quanto ao melhor filme da mostra, claramente o longa documental inglês The Time of Their Lives (Os Melhores Momentos), um libelo de amor à vida e à liberdade de pensamento. O filme de Jocelyn Cammack mostra o cotidiano da Mary Feilding Guild, uma casa de repouso para idosos com vida ativa no norte de Londres. Destacam-se Hetty Bower, 102 aninhos, Rose Hacker, 101, e Alison Selford, 87. Ativistas e escritoras, elas falam com paixão de suas ideias; comparecem a marchas de protesto contra a guerra do Iraque; tratam de sexo, amor e morte com mais jovialidade do que eu e você podemos discutir a última zebra da Copa. A diretora sabe onde colocar a câmera e combinar delicadeza e frontalidade na aproximação dessas extraordinárias personagens. O que termina captando é um elogio das ideias como fonte de eterna juventude. Eis um doc para não esquecer.
O prêmio especial do júri da competição internacional foi para o longa de ficção dinamarquês Velsignelsen (A Bênção), de Heidi Maria Faisst. Em pauta, um conflito arquetípico na vida de muitas mulheres, a rejeição da maternidade. A protagonista não consegue se relacionar com o bebê recém-nascido, ao mesmo tempo em que tenta redesenhar um mau relacionamento com sua própria mãe. Tema difícil tratado de maneira sólida, com belas nuances e muito bem traduzido audiovisualmente. Aqui e ali, lembra os irmãos Dardenne.
A melhor diretora foi a sueca Susanna Wallin, também responsável pelo roteiro e a edição do belíssimo curta Marker (Marcador). No extremo norte da Suécia, uma menina perde o pai e precisa ocupar o seu lugar junto a um rebanho de renas. Esse rito de passagem é narrado de maneira poética, concisa e original.
Anna Azevedo, com seu empolgante (em som e imagem) Geral, ganhou o prêmio de destaque feminino. Explico: quatro filmes representavam o Brasil na competição internacional. Eu e minha colega jurada compreendemos o curta de Anna, no contexto do festival, como uma perspectiva feminina do que seja a essência do futebol: emoção, fúria, loucura, paixão. É o futebol de costas para o gramado e de frente para os “geraldinos”. Anna filmou no Maracanã em alguns dos últimos jogos a contar com essa plateia ultrapopular, em 2005. O filme resultou hilariante e arrebatador.
Demos ainda uma menção especial ao média de ficção israelense Surrogate (A Suplente), de Tali Shalom-Ezer. É a história do relacionamento entre um paciente psicanalítico e uma profissional de terapia sexual. O filme faz um intrigante cruzamento de gêneros e tem um jogo intenso entre os dois atores centrais. No ano passado, Surrogate foi pivô de uma polêmica no Festival de Edinburgo, quando Ken Loach pediu boicote ao evento porque o governo israelense, acusado de massacrar os palestinos em Gaza, tinha custeado a viagem de Tali Shalom-Ezer. Não sei se, afinal, Loach viu o filme, mas aposto que não desgostaria.
Leia a lista completa dos premiados do Femina 2010:
Competição internacional
Grande Prêmio Femina – The Time of Their Lives (Os Melhores Momentos)
Prêmio especial do júri – Versignelsen (A Bênção)
Melhor direção – Susanna Wallin por Marker (Marcador)
Destaque feminino – Anna Azevedo por Geral
Menção especial – Surrogate (A Suplente)
Competição nacional
Grande Prêmio Femina – Dois Mundos
Prêmio especial do júri – Geral
Melhor direção – Ana Bárbara Ramos, por Sweet Karolynne
Destaque feminino – Edith Seligmann, personagem do doc Separações, de Andrea Seligmann Silva.
Uns minutinhos da sua atenção
março 27th, 2010 § 1 Comentário
Uma das consequências do consumo cada vez maior de audiovisual online é a redução das durações. O mainstream do Youtube limita os vídeos a 10 minutos. Deu-se bem quem já lidava com o filme curtíssimo. O Festival do Minuto, por exemplo, tornou-se permanente e online a partir de 2007. Para outros, a restrição tornou-se uma estética. Veja o Cinelan, para onde grandes documentaristas internacionais produzem filmes de 3 minutos.
Para dar conta do recado em tão pouco tempo, a turma tem se valido da síntese, claro, mas também de recortes muito definidos e de uma linguagem que se estabeleça rapidamente e conquiste a atenção do espectonauta. A tentação de dar um back ou clicar em outra coisa é ainda maior que a de zapear no controle remoto da TV.
O reino do filme online é um zapear constante. A satisfação deve vir sem delongas. Mas o modelo do microfilme também já se estende ao mundo offline. Estão abertas as inscrições brasileiras para o Festival Internacional de Filmes Curtíssimos – leia-se até 3 minutos. Imagino que os discursos de apresentação e agradecimento serão mais longos que as obras.
Na rede, já falei aqui dos belíssimos docs da Mediastorm. Agora descobri a série Miami-Havana, um co-produção internacional que a televisão europeia Arte vem veiculando desde 22 de fevereiro. A cada dia, durante três meses, dois vídeos estão sendo postados no site. Um de Havana, outro de Miami. Nos dois lados, separados por 90 milhas e uma espessa barreira ideológica, jovens cubanos que nasceram bem depois da revolução castrista falam de suas raízes, sonhos e dificuldades.
Adivinhe a duração de cada vídeo? Dois minutinhos, no más.
Milagre em Recife
dezembro 18th, 2009 § 1 Comentário
Os recifenses costumam dizer que sua cidade só conhece duas estações: verão e inferno. Mesmo no período chuvoso, entre abril e agosto, o calor não dá tréguas. Foi nessa época do ano, quando a fornalha se cobre de nuvens e adquire tons de cinza, que Kleber Mendonça Filho filmou seu novo e maravilhoso curta, Recife Frio. Algumas cenas foram rodadas em Gramado e na África do Sul. Inserções cenográficas e de figurinos, um tratamento sutil na finalização das imagens e um roteiro sugestivo completam as condições para esse fino exercício de sátira social através da ficção científica. Continue lendo
Costurando os Pontos
novembro 28th, 2009 § 1 Comentário
Hoje (sábado), às 23h45, a TV Brasil vai transmitir o segundo programa da faixa Ponto Brasil, uma experiência interessante em matéria de produção coletiva para a TV. Os pequenos ensaios, ficções e documentários que compõem cada um dos 14 programas temáticos foram produzidos em regime colaborativo por cerca de 100 Pontos de Cultura e coletivos audiovisuais em 15 estados.
Durante 18 semanas de gravação este ano, aproximadamente 400 participantes realizaram 130 vídeos. Desde os primeiros argumentos até a edição, cada vídeo é assinado por uma coleção de grupos, que se reuniu sob a orquestração da equipe fixa do Ponto Brasil, dirigida por Leandro Saraiva. Quem quiser verificar como funciona esse método de criação de conteúdo online pode acessar o site do Ponto Brasil.
Na prática, é a pequena revolução operada pelos Pontos de Cultura que chega à TV. Com qualidade audiovisual razoavelmente sofisticada, os programas tratam de cidadania, identidade, relacionamentos, cotidiano etc. No primeiro, que pode ser visto aqui, o tema foi a cidade. O resultado me pareceu irregular, variando entre a ingênua caminhada de uma cozinheira do interior por Belo Horizonte, uma deplorável ficção sobre solidão em Londrina, uma energética argumentação sobre quilombos urbanos em São Paulo e dois caprichados ensaios poéticos sobre fluxos da cidade em Goiânia e monumentos paulistas. Em alguns momentos da edição, ronda o risco da semelhança com a estética da propaganda oficial.
Mas é preciso ver um pouco mais para formar uma apreciação. O tema do programa de hoje é “Ossos e Ofícios”. Vale a pena conferir, nem que seja pela imprevisibilidade do que virá e pela aragem fresca que vem dessa maneira de reunir impulsos criativos dos quatro cantos do Brasil.
Niterói respira cinema
novembro 20th, 2009 § Deixe um comentário
Começa hoje (sexta) a oitava edição do Araribóia Cine-Festival de Niterói. À frente, como sempre, a dinâmica e queridíssima Tetê Mattos (atenção, não somos da mesma família). O Araribóia leva para o outro lado da baía uma mostra competitiva e uma informativa de curtas centrados no tema “Retratos”. Confira a programação no site do festival.
Como todo ano, é homenageado um cineasta que tenha alguma relação com a cidade. Dessa vez, a honraria cabe a Ricardo Miranda, com uma seleção de filmes dirigidos e montados por ele. Destaque para o curta inédito Palavra Exata.
A pedido de Tetê, escrevi o seguinte texto sobre Ricardo Miranda para o jornal do festival:
Ricardo Miranda, afeto e invenção
Esta edição do Arariboia Cine presta homenagem a Ricardo Miranda e apresenta a estreia de seu último filme, Palavra Exata. No centro desse curta está o irmão de Ricardo, o artista plástico Ronaldo Miranda. Na verdade, estão os dois, já que as memórias do cineasta se imbricam às coisas do pintor, o irmão mais velho que teve papel importante na formação de Ricardo.
Palavra Exata é apenas o último – e talvez o mais explícito – opus de uma obra nutrida pelo afeto. Esse é o caminho preferido das criações de Ricardo Miranda. O afeto é que o leva a interessar-se pelo pensamento e a obra de gente como Paulo César Saraceni (A Etnografia da Amizade), Luiz Rosemberg Filho (Bricolage), Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, José Mojica Marins etc. Ricardo precisa imantar-se afetivamente para adquirir a liberdade de tocar na vida e na obra de quem quer que seja. Continue lendo
Vai um stop motion?
novembro 15th, 2009 § Deixe um comentário
Diversão de domingo:
O Youtube, Vimeo e sites afins não se limitam a trazer o mundo em movimento para o nosso nariz e levar nosso mundo para o nariz dos outros. Eles permitem também a qualquer um se converter em curador e programador dentro do grande fluxo da rede. Você pode criar canais pessoais, dentro do próprio site, para sugerir o que outras pessoas devem ver. Ou então fazer suas curadorias no seu próprio site ou blog.
Uma excelente “mostra” virtual eu conheci recentemente através do indispensável Twitter da @mariliamartins, correspondente de O Globo em NY. O designer canadense Mike Smith selecionou no Vimeo 50 curtas incríveis que usam a técnica do stop motion, envolvendo desenho, grafite, animação 3D e gente de carne e osso.
Clique aqui para chegar lá. Vale por um pequeno Anima Mundi.
Os muitos trânsitos de Vivian Ostrovsky
novembro 5th, 2009 § 1 Comentário
Vivian Ostrovsky apresenta um programa especial no Curta Cinema nesta sexta-feira, às 20h30 21h30, no Odeon. Serão exibidos Copacabana Beach, Ice/Sea, P.W., Télépattes, The Title Was Shot e Tatitude. A pedido de Aílton Franco Jr., escrevi o seguinte texto para o catálogo do Festival:
Os cinco curtas escolhidos por Vivian Ostrovsky para este programa dão uma ideia da diversidade de procedimentos utilizados pela realizadora, mas também evidenciam alguns traços comuns numa obra marcadamente pessoal. A primeira ideia que se impõe é a do trânsito.
Jet Lag é como se chama a produtora de Vivian. Nome escolhido a dedo por uma artista que vive em trânsito entre Nova York, Paris, Rio, Moscou, Jerusalém e outros tantos lugares. “Minha ambição é ser uma luftmensch, uma pessoa do ar”, diz. Seu cinema é marcado por esse trânsito – cenas colhidas no cotidiano por alguém que é íntimo e visitante ao mesmo tempo. Continue lendo
Dois eventos da pesada
novembro 2nd, 2009 § Deixe um comentário
São eles: a mostra Olhares Desinibidos, no Instituto Moreira Salles, e a sessão especial de 12 anos da Cavídeo no Odeon. Vamos a cada um:













