Terras da desordem

abril 27th, 2012 § Deixe um comentário

(Texto publicado originalmente em abril de 2011 – Festival É Tudo Verdade)

Sem-terras, posseiros, grileiros, fazendeiros e índios se ameaçam reciprocamente numa região de Mato Grosso. Suiá-Missú era terra xavante antes de ser comprada por um grande latifundiário. Depois foi vendida a distintos fazendeiros e ocupada por posseiros. Os índios, transferidos para uma Missão com a conivência de padres, voltaram na marra anos mais tarde (aqueles que sobreviveram às doenças) e hoje reivindicam o direito de nação. O clima é de guerra iminente.

Vale dos Esquecidos faz um mapeamento das razões e das armas de cada um. O fazendeiro americano John Carter, por exemplo, vê a região como uma fronteira de faroeste, e não hesita, mesmo diante da câmera, em atear fogo nas choças de posseiros que localiza em suas terras. O cacique xavante agita sua borduna e explica que sua cultura não reconhece esse negócio de diálogo. Políticos e posseiros admitem que seus títulos de posse são ilegais, mas duvidam que alguém os tire dali. Passadas de mão em mão há mais de 50 anos, essas terras da desordem são um microcosmo de várias outras pelo Brasil afora.

Maria Raduan conta com dois profissionais de peso em sua equipe: o tarimbado fotógrafo-aventureiro Sylvestre Campe, responsável pelas magníficas imagens, e a montadora Jordana Berg, que articula da melhor maneira possível os vários temas e focos em questão. Algumas pontas ficam soltas, como o problema das queimadas e a responsabilidade da igreja na história. Mas como painel horizontal de um conflito complexo, o doc cumpre seu papel com muita propriedade.

Um épico do compartilhamento

abril 21st, 2012 § Deixe um comentário

No dia 24 de julho de 2010, eu vi uma sessão de curtas no Anima Mundi e recebi em casa a minha amiga Marília Martins, que acabava de voltar de uma temporada em Nova York. Muita coisa aconteceu pelo mundo naquele sábado. Um menino ganhou trocados nas ruas de Lima, um rapaz americano pegou o telefone e contou à avó que era gay, uma mulher chorou sozinha na cama em algum ponto da Europa, um fotógrafo saiu mostrando que Cabul não era só guerra, muita gente se feriu num acidente de multidão em Duisburg, um homem desmaiou enquanto filmava o parto do seu filho no Brasil… Flashes desse dia, um dia como outro qualquer, compõem o primeiro doc colaborativo a circular internacionalmente em salas de cinema.

O projeto A Vida em um Dia é a ponta mais visível de um novo iceberg na linguagem dos documentários: sai o filme de autor, entra o filme de curador. No Brasil não tem sido diferente. Eduardo Coutinho fez a “curadoria” de programas de TV em Um Dia na Vida. Já em Pacific, Marcelo Pedroso trabalhou exclusivamente com vídeos de turistas em cruzeiros a Fernando de Noronha. Diante da massa de produção individual e caseira que surge a cada dia na era digital, cabe a curadores buscar e organizar sentidos, com vistas a criar novas obras a partir do já criado. De certa forma, somos todos curadores quando precisamos administrar, selecionar, favoritar e arquivar o que nos atrai e interessa. Mas Kevin MacDonald (One Day in September, Touching the Void, O Último Rei da Escócia) foi proativo na sua ideia: através do Youtube, convocou a todos que quisessem filmar aquele 24 de julho em suas vidas e suas cidades, e postar o resultado no megasite. Resultaram 88.000 inscrições de 192 países, gerando 4.500 horas de vídeo. Com isso MacDonald montou os 93 minutos de Life in a Day.

De alguma forma, o longa evoca o modelo das sinfonias documentais que marcaram a década de 1920, mostrando em fragmentos o decorrer de um dia na vida de cidades como Berlim, Moscou, Paris e São Paulo. Em A Vida em um Dia, o início na madrugada e o percurso aproximado da jornada sugerem uma sinfonia mundial. Dentro desse circuito macro, MacDonald criou circuitos menores, unificados por temas (trabalho, romance, nascimentos, alimentação, violência e dor etc), certos padrões de movimento (caminhadas, atletismo) e perguntas específicas (o que você carrega no bolso ou na bolsa? O que você mais ama? O que você mais teme?).

Esse carrossel de cenas públicas e privadas – muitas corriqueiras, algumas legitimamente dramáticas, outras bastante divertidas – formam uma espécie de elogio do banal. Ou melhor, mostram que o banal pode assumir um valor poético ou singular quando oferecido ao olhar que não sabe o que esperar do próximo minuto. Além disso, há uma profunda singeleza nesse oferecimento de si e do seu entorno pelo simples prazer de compartilhar. A Vida em um Dia talvez seja o primeiro épico cinematográfico da idade do compartilhamento.

E você, é capaz de lembrar e compartilhar algo que fez em 24/7/2010?

Uma família brasileira

junho 11th, 2011 § 1 Comentário

Há documentários que se equilibram numa linha tênue entre a adesão simpática a seus personagens e a exploração de seus traços mais pitorescos. Eduardo Coutinho é mestre em evitar a ultrapassagem dessa linha. O risco está bastante presente em Família Braz: Dois Tempos, filme com que Arthur Fontes e Dorrit Harazim venceram a competição nacional do último É Tudo Verdade. Conheça o site do filme

Arthur e Dorrit retornaram 10 anos depois às pessoas que documentaram em Família Braz como parte da série Seis Histórias Brasileiras, produzida pela Videofilmes. No ano de 2000, eles queriam mostrar um grupo exemplar de classe média baixa de periferia que não se encaixasse nos estereótipos de exclusão, criminalidade e tragédia. Os Braz, moradores do bairro de Brasilândia, periferia de São Paulo, eram o protótipo da família digna e humilde, mas a que não faltavam metas e ambições. Além do mais, eram simpáticos a não mais poder. O sobrenome e o nome do bairro não mentiam – eles se pareciam com uma ideia média de Brasil.

Dez anos depois vamos encontrá-los com a vida melhorada. Não na medida de suas esperanças, mas ainda assim bafejada pelo sopro da ascensão social. O progresso entre eles é medido pelo número de carros na garagem (de um para quatro), as casas próprias ou a expansão dos puxadinhos, os cruzeiros de férias por águas nacionais e os novos hábitos adquiridos, como o consumo de comida japonesa e as idas a espetáculos teatrais. O carisma de “Seu” Toninho, Dona Maria, seus quatro filhos e respectivos genros e noras encanta a plateia. Eles falam sem timidez nem censura sobre suas questões pessoais e profissionais, seus sonhos e limitações. Não há como não admirá-los.

Ainda assim, me pergunto se o filme não os expõe ao mostrá-los cultuando uma ênfase exagerada no consumo e uma relação superficial e ingênua com o mundo da cultura e do bem-viver. Em vários momentos, a plateia de uma pré-estreia culta ria de algumas falas, traindo nesse riso uma consciência de diferença. O efeito cômico de um encanador humilde descrevendo seu deslumbramento com o musical Miss Saigon é algo que me deixa em cima daquela linha tênue entre a simpatia e a docexplotiation. Uma das cenas recuperadas do filme de 2000, em preto e branco, vem reiterar a pouca solidez das concepções do jovem Anderson, apresentado como “o intelectual da família”, ao falar de Platão, Aristóteles e Freud.

Não quero com isso negar os méritos desse retrato de família. Ver gente que personifica a ambição honesta e a simplicidade sem recalques é algo reconfortante – e relativamente raro no documentarismo brasileiro. Mas tampouco quero me calar sobre os dilemas que o filme me colocou. Entre construir uma imagem simpática dos personagens e desconstruir a visão que eles têm de si mesmos, a parede é muito fina, e este doc chega muito perto de rompê-la.

Outra anotação que não resisto em fazer é sobre o contexto de ascensão social dos Braz e de tantas outras famílias como eles. Nada disso é mencionado no filme, e os diretores se apressam a negar, mas a nova realidade econômica do governo Lula é a grande protagonista oculta de oito daqueles 10 anos compreendidos entre os dois filmes e os dois tempos da Família Braz.

Famílias do outro lado do mundo

abril 7th, 2011 § 2 Comentários

POSIÇÃO ENTRE AS ESTRELAS (POSITION AMONG THE STARS)
de Leonard Retel Helmrich

SÁRIS COR-DE-ROSA (PINK SARIS)
de Kim Longinotto

Esses dois filmes da Mostra O Estado das Coisas têm afinidades muito especiais. Ambos são assinados por diretores profundamente engajados nos seus objetos ou temas. Em suas carreiras, através do olhar aguçado sobre a relação entre indivíduos e suas famílias, o holandês Leonard Retel Helmrich e a inglesa Kim Longinotto nos oferecem um insight incomparável de sociedades muito distantes e diferentes das suas originais.

Posição entre as Estrelas

Helmrich acompanha há 12 anos a vida da família Shamshuddin, habitante de uma favela de Jacarta, na Indonésia. Posição entre as Estrelas é o terceiro doc de uma trilogia, sucedendo a The Eye of the Day (2001) e Shape of the Moon (2004). Cada filme observa os eventos da família em meio a mudanças históricas no país: a queda do ditador Suharto, a ascensão do poder islâmico e agora os ventos da democracia e da globalização. Esse terceiro filme, autônomo em relação aos demais, se desenrola entre o campo, onde mora a avó, e a cidade, onde vivem o filho, a mulher e a filha adotiva, uma adolescente que representa, muito a contragosto, os ideais de ascensão cultural de todo o clã.

Já é tamanha a convivência dos Shamshuddin com a câmera (única) manejada pelo próprio diretor que o modelo “mosca na parede” funciona às mil maravilhas. Com a ajudinha, é claro, de algumas cenas visivelmente preparadas e decupadas para as lentes de Helmrich. O dia-a-dia da família é como uma vitrine da luta pela sobrevivência numa sociedade marcada por corrupção endêmica, diferenças econômicas abissais, condições de higiene medievais etc. Vez por outra, o diretor parece ceder à morbidez, como quando sai do seu eixo para deter-se sobre uma mendiga sem braços ou demorar-se em closes de ratos e baratas. Um corte especialmente problemático une os planos de uma barata mergulhando numa vasilha de comida e uma mãe alimentando uma criança. 

Mas, afora esses lapsos de mundo-cão, o que se impõe é o engenho de Helmrich na captura de momentos e emoções singulares, capazes de nos transportar para esse pedaço de mundo e esse modo de vida que tão pouco se conhece. E onde, além da precariedade, há espaço também para vislumbres de poesia – como a belíssima cena final, que justifica o título.

Mãe Índia

Sáris Cor-de-rosa

O compromisso de Kim Longinotto é com a exposição da condição feminina nos mais diversos países: Japão, Irã (Divórcio à Iraniana é um clássico), Camarões, Egito, Quênia e agora Índia. Em alguns de seus docs, Kim filma procedimentos judiciais para flagrar relações e contradições se expressando concentrada e dramaticamente. Sáris Cor-de-Rosa trata de uma espécie de tribunal de uma mulher só. A brava e desafiadora Sampat Devi lidera uma certa Gangue Cor-de-Rosa, que teoricamente se dedica a defender e dar guarida a mulheres vítimas de violência e abandono numa paupérrima região do norte da Índia. Digo teoricamente porque não vemos a ação da gangue – o que pode ser uma deficiência do filme ou a insinuação de um artifício político da líder. Testemunhamos apenas o empenho individual de Sampat ao afrontar maridos irresponsáveis e sogros violentos, proteger meninas em fuga de casamentos arranjados, e advogar por namorados de castas diferentes que desejam concretizar seu romance.

A relação maternal de Sampat com uma dessas meninas forma o núcleo emocional do filme, onde repercute a própria história pregressa daquela mulher forte e aparentemente invulnerável. Mas o conjunto de situações, envolvendo também familiares de Sampat, mostra a complexidade dessa personagem megalomaníaca, contraditória e, no fundo, uma grande farsante do bem.

Os “processos” informais abraçados por Sampat desnudam na prática as convenções mais retrógradas da sociedade indiana. Nesse bojo há lugar para o espanto, o humor e instantes de tamanha comoção que poderiam ter saído da criação de Ingmar Bergman.  

Um dado interessante a respeito do trabalho de Kim Longinotto é que ela ainda hoje utiliza câmeras grandes, na contramão da “intimidade digital” em voga. Segundo ela, o que conta não é o tamanho do equipamento, mas a confiança que se estabelece com os personagens. Por isso é comum nos seus filmes um certo momento em que as pessoas quebram o pacto de invisibilidade da câmera e se dirigem a ela. Uma das jovens filmadas em  Sáris Cor-de-Rosa chega a dividir com Kim um segredo que nem Sampat, a protagonista, deveria saber.

Educação inspiradora

abril 7th, 2011 § 1 Comentário

VOCACIONAL, UMA AVENTURA HUMANA 
de Toni Venturi

Ensino público e gratuito sem distinção de classes, educação participativa voltada para formar cidadãos conscientes, disciplinas aplicadas à realidade social, às artes, à vida prática e ao trabalho comunitário… Pode ser uma utopia para o Brasil de hoje, mas já aconteceu no passado e não foi Paulo Freire. A experiência revolucionária do Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha, repartido em três escolas no estado de São Paulo, que durou apenas de 1962 a 1970, é contada (e muito bem contada) nesse excelente doc de Toni Venturi.

Toni foi também aluno do Vocacional, e o filme é um tributo acalentado há muitos anos. Com sobriedade e franqueza ele se insere entre os que se encarregam de rememorar e avaliar suas vivências como alunos ou professores. O Vocacional está nos anos-chave da formação de uma elite da cultura e das Ciências Sociais de São Paulo. O filme beneficia-se, portanto, de uma rara clareza de enunciação, além do sentimento que transpira em cada depoimento. Da forma como o roteiro e a direção conduziram as coisas, o carinho pelo passado de cada um transcende a esfera pessoal e se transforma no elogio de um modelo – e no lamento por ter ele ficado para trás.

Quando a ditadura recrudesceu  em 1968, as ousadias do Vocacional foram prontamente tachadas de subversivas e o exército entrou em cena, como na Universidade de Brasília. A fundadora Maria Nilde Mascelani (1931-1999) foi perseguida e presa. Até o professor de Técnicas de Acampamento foi tomado por guerrilheiro. São muitas e apaixonantes as histórias que emergem das falas e dos materiais de arquivo do colégio, incluindo-se aí um raro e mitológico curta realizado pelos alunos (Aloysio Raulino e Roman Stulbach entre eles), fotografado por Jorge Bodanzky e supervisionado por Maurice Capovilla e Rudá de Andrade.

Toni Venturi realiza aqui um de seus melhores trabalhos. Seu engajamento pessoal tem a medida certa, e a emoção não turva nem sabota uma narrativa extremamente coesa. Para a educação brasileira atual, é um filme radicalmente inspirador.

Delícias do inferno

abril 6th, 2011 § Deixe um comentário

ASSIM É SE LHE PARECE
de Carla Gallo

Enquanto montava sua Ocupação no Itaúcultural, Nelson Leirner deixava-se “perfilar” por Carla Gallo (O Aborto dos Outros) para a série Iconoclássicos. Nelson é um show para esse tipo de abordagem leve e sem grandes compromissos biográficos. Sua relação muito íntima com o pop e o burlesco, seu passado de performer, sua visão dessacralizada da arte, tudo conflui para a imagem de um artista ao mesmo tempo irreverente e bonachão, carismático e irônico.

O filme aproveita bem os momentos passados com Nelson. Lá está ele comprando bugigangas para seus ready-mades (o “impulso de camelô”), cumprindo seus rituais de homem de várias religiões (“o que equivale a nenhuma”) ou passando seus princípios sobre arte em conversas informais com jovens artistas plásticos. São aulas de apropriação transcultural cujo poder de divertir repassa para o espectador.

Alguns materiais de arquivo ilustram as atividades de Nelson nos anos 1960 e 70, como os happenings do Grupo Rex e seus flertes com o Super 8 e o cinema marginal. Mas o que prevalece é a simpática visita ao artista no presente, deliciando-se com seu “inferno” dito da boca pra fora.

Paraíso tropical a explorar

abril 6th, 2011 § Deixe um comentário

SÃO MIGUEL DO GOSTOSO
de Eugenio Puppo

Para contar a transformação do município de São Miguel do Gostoso, no litoral do Rio Grande do Norte, de pacata aldeia de pescadores em movimentado point turístico, Eugenio Puppo adota um método francamente expositivo. Não apenas por basear-se em depoimentos diretos de velhos e jovens moradores, empreendedores estrangeiros e detentores de conhecimento histórico, mas principalmente por manter esses pontos-de-vista estanques no bojo da narrativa. Não há a intenção de confrontá-los nem produzir sentidos da sua interrelação além das óbvias conclusões: os estrangeiros descobriram o lugar, compraram terras a preço de banana, aproveitaram-se de uma legilação leniente e, para o bem e para o mal, mudaram a cara do lugar.

O filme se divide entre duas condutas: expor as transformações e tirar proveito da beleza vasta e limpa da região. Abundam as paisagens de tirar o fôlego. Nesse sentido, por se tratar de projeto de um realizador paulista, é como se fosse mais um empreendimento “estrangeiro” a explorar o potencial de Gostoso. Trata-se aqui de uma exploração cultural, é claro, que não polui nem destrói. Mas a linearidade do filme e seu cuidado em não tomar partido traem um desejo de ver e mostrar, sem problematizar.

O incrível exército de Santiago

abril 6th, 2011 § Deixe um comentário

MEMÓRIA CUBANA
de Alice Andrade e Iván Nápoles

(Memória Cubana será exibido hoje, quarta, às 19h30 no Cinemark Downtown, dentro da programação do É Tudo Verdade)

Iván Nápoles passou à história do cinema quando baixou a câmera para enquadrar as chinelas de Ho Chi Minh caminhando no Vietnã. Ele era um dos bravos cinegrafistas do ICAIC que registraram as primeiras décadas da Cuba revolucionária e suas missões no Vietnã, Camboja e África. Hoje um simpático senhorzinho habanero, guarda em vários cadernos escolares as memórias do tempo em que trabalhava sob as ordens de Santiago Álvarez. Alice Andrade o convocou para codirigir essa ótima rememoração dos Noticieros ICAIC, um tesouro do documentarismo latino-americano.

As recordações, muitas divertidíssimas, dos velhos colaboradores de Álvarez fazem o encanto de Memória Cubana. Somem-se a isso as preciosidades do acervo e temos uma atração imperdível. Enquanto vemos cenas memoráveis de clássicos como Ciclón, 79 Primaveras e Hasta la Victoria Siempre, conhecemos detalhes saborosos do método de trabalho dos Noticieros. “O que filmei não está à altura do que passei”, conta um dos cinegrafistas que filmaram os combates de Playa Girón, em 1961. Em outro bom momento, o montador Idalberto Gálvez praticamente reivindica a autoria do antológico curta Now!, explicando como editou e criou o impacto do filme a partir das fotos e das músicas que Santiago Álvarez simplesmente lhe entregou.

O roteiro de Alice Andrade explora muito bem os vários momentos da história do Noticiero – do surgimento como nascedouro de um cinema legitimamente cubano, em 1960, até a fase “crítica” dos anos 70 e seu desaparecimento com a crise da economia cubana na década de 90. Ressurgem ali lugares, pessoas e cenas que fizeram do cinejornal um gesto de criação, e da História, um vigoroso ponto de vista.  

Muybridge bárbaro

abril 5th, 2011 § 3 Comentários

OS CAVALOS DE GOETHE
de Arthur Omar

O entusiasmo de Arthur Omar com esse seu novo trabalho é plenamente justificado. “Obra-síntese” e “testamento” são alguns dos termos que ele usa para dimensioná-lo. E de fato lá estão muitos traços importantes de sua ação em diferentes mídias: o caráter extático da junção de imagens e música; a aproximação entre o efeito digital e os cânones fundadores da imagem em movimento; as faces gloriosas; a ideia do combate esvaziado do aspecto espetacular e eivado de uma aura mítica; a intertextualidade como busca de uma expressão suprarreal; a proposta de uma percepção sensorial simultânea à percepção intelectual.

Goethe foi um poeta que se dedicou a reinterpretar o fenômeno da percepção das cores. T. S. Elliot foi um poeta que pensou a física e a metafísica nos seus Quatro Quartetos. Morton Feldman foi um músico que dissolveu os sistemas de composição do seu tempo e compôs um Quarteto de Cordas com seis horas de duração ininterrupta. Com esses três “parceiros”, Arthur Omar dedica-se a montar uma “Alquimia da Velocidade” (subtítulo do vídeo) a partir de cenas gravadas na sua já lendária viagem ao Afeganistão em 2002.

Trata-se de ver o esporte como um combate e o combate como um ato de cinema. O buzkaschi é o esporte national do Afeganistão. Numa arena, dezenas de cavaleiros disputam a carcaça de um bode, às vistas de uma plateia siderada. Arthur filmou o primeiro buzkaschi em Cabul após a queda dos talibãs, que o haviam proibido. Selecionou poucas imagens e montou uma suíte decomposta em movimentos lentíssimos, apenas interrompidos aqui e ali por súbitas e breves acelerações. No centro da arena, captados pela teleobjetiva, homens e cavalos se fundem num amálgama de carnes, panos e formas coloridas. Na plateia, em tratamento igualmente ralentado, homens vibram com o espetáculo ou encaram a câmera. A música de Morton Feldman e os versos de Elliot se alternam com trechos de um poema no idioma dári, que, sem legendas, servem apenas como elementos na formação de uma massa sonora impactante.

Descrever Os Cavalos de Goethe acaba sendo uma tentação vã, já que sua maior força está na energia poética que despeja sobre a sala de cinema. É a percepção do tempo e do movimento que se altera nesses tableaux quase imóveis, mas profundamente carregados de tensão e eletricidade. É a percepção do espaço que se intensifica na quase-tridimensionalidade das camadas de homens e cavalos, ou nos intrigantes efeitos de morphing, microfusões e inserções incluídos na edição que se sugere líquida. São os ecos das guerras no Afeganistão que nos chegam subliminarmente através daqueles corpos e rostos em lenta euforia. São os ecos do próprio cinema que se acotovelam nas cavalgadas de um Muybridge bárbaro ou nas irrupções ferroviárias de um Lumière digital.

Eu e alguns companheiros de sessão concordamos em que o grande efeito, o pleno poder de Os Cavalos de Goethe estão nos seus primeiros 50 minutos, havendo uma sombra de repetitividade e uma perda de potência nos 10 minutos finais. Seja assim ou não, acho que esse é o mais belo e vigoroso vídeo experimental do cinema brasileiro contemporâneo. E um dos melhores da carreira de Arthur Omar.                           

Correções importantes

abril 5th, 2011 § Deixe um comentário

No post sobre a Retrospectiva Poesia, Documentário e Verdade, cometi dois erros em relação à mesa redonda sobre o tema. Será na quinta-feira (dia 7), e não no sábado, e terá a participação de Walter Carvalho, e não Salles. Desculpem a velhice e/ou a desatenção. Aproveito para informar que, além de Walter Carvalho e Joel Pizzini, teremos também a participação de Bebeto Abrantes (Recife/Sevilha: João Cabral de Melo Neto, As Batidas do Samba).

Agradeço a Thereza Jessouroun pela leitura atenta e a correção.      

Física e sedução

abril 5th, 2011 § Deixe um comentário

SANTOSCÓPIO = DUMONTAGEM + SANTOS DUMONT PRÉ-CINEASTA?
de Carlos Adriano

Não chega a um minuto a duração do filmete recomposto com os cartões de mutoscópio que Carlos Adriano encontrou no Museu Paulista. Esse pequeno-grande achado mostra Santos Dumont expondo, com elegância de gestos, os croquis e as ideias para seu balão dirigível ao esportista e engenheiro inglês Charles Rolls (um dos futuros fundadores da Rolls-Royce). Peça central da tese de doutorado de Adriano e do seu longa Santos Dumont Pré-cineasta? (veja abaixo), a breve cena foi revirada pelo avesso no curta Santoscópio = Dumontagem. Aqui o cineasta-arqueólogo explora o potencial lúdico, poético e metafórico daqueles poucos segundos filmados.

Aplicando diversos tipos de manipulação digital, Adriano sublinha no ritual da cena o que ela contém de sedução (SD certamente tentava “vender” o seu invento), mas também o que expressa da Física e da Mecânica. Os movimentos dos eixos e do voo são evocados pela edição, assim como as condições químicas do material cinematográfico vêm à tona no tratamento das imagens. Mais experimental e obsessivamente concentrado que o longa, o curta o complementa como um brinquedo manual pode complementar o prazer de uma boa leitura.       

Ver, voar, volver

A relativa coincidência entre o surgimento do mutoscópio (1894), as primeiras experiências de Santos Dumont com balões dirigíveis (1898) e a construção da Torre Eiffel (1889) – em torno da qual SD fez voo célebre em 1901 – levaram Carlos Adriano a articular, no longa Santos Dumont Pré-cineasta?,  uma série de conexões poético-científicas sobre o desejo de ver e voar.

Um dado vital acabou sendo incorporado pelo filme: a morte do pesquisador e animador cinematográfico Bernardo Vorobow (1946-2009), companheiro e produtor dos filmes de Adriano. As imagens de Bernardo, reiteradas ao longo de todo o filme, sublinham os temas da memória, da desaparição e da reaparição, tão intrínsecos à matéria do cinema. Bernardo, às voltas com uma pequena câmera fotográfica digital no Champs de Mars, cria uma interessante dilatação temporal e tecnológica com as buscas dos pioneiros da imagem em movimento, um século atrás.

Como nunca fizera em seus curtas, Adriano recorre aqui a depoimentos formais para puxar o fio de seu arrazoado. Ismail Xavier, Eduardo Morettin, Henrique Lins de Barros (biógrafo de SD), Ken Jacobs, curadores e historiadores internacionais comentam em paralelo a curiosidade do aviador e a gênese do cinema, bem como o trabalho contemporâneo com materiais de arquivo. O filme de Adriano, aliás, nasceu de um incrível achado arqueológico: centenas de cartões reproduzindo os fotogramas de um filmete da Biograph londrina, rodado para o mutoscópio em 1901. Nele, Santos Dumont aparece mostrando os desenhos e explicando o funcionamento de um balão. Um minuto precioso e desconhecido, que Adriano e Vorobow restauraram e devolveram à forma fílmica. Este é o elemento detonador de toda uma reflexão que nos leva a ver paralelismos formais entre os mecanismos do cinema e da aviação.

Uma inestimável antologia de imagens pioneiras de Marey, Muybridge, Méliès, Dickson, Cohl e outros complementa o prazer intelectual que esse pequeno longa oferece. Arte e pesquisa se unem e se comentam mutuamente num ensaio fertilizado também pelo aspecto afetivo.

Poesia é uma ou duas imagens em movimento

abril 5th, 2011 § Deixe um comentário

A Retrospectiva nacional do É Tudo Verdade este ano elenca 15 filmes, de várias metragens, que de alguma maneira se relacionam com a poesia (veja no site do festival). Há desde filmes bastante oficiais, como o Castro Alves de Humberto Mauro, produzido para o Instituto Nacional do Cinema Educativo em 1948, até uma obra tão autoral e independente como Pan-Cinema Permanente, o tributo de Carlos Nader ao amigo Waly Salomão.

Nesse amplo espectro de épocas e linguagens, o festival se pergunta sobre a convivência da poesia com a vocação supostamente realista do documentário.

O conceito de doc poético tem sido usado e abusado à exaustão. Basta que algum elemento de um filme destoe um pouquinho dos padrões clássicos de exposição, observação e interação para que alguém já encha a boca com a palavra “poético”. Mas para que um doc seja poético não é suficiente que lide com imagens em fusão, câmeras lentas, grafismos e adereços do gênero. Não basta tampouco que trate de poetas ou de poesia. Para ser poético, um doc precisa olhar a realidade de maneira lírica – e esta premissa já vai alterar profundamente (e não superficialmente) sua linguagem.

O Poeta do Castelo, retrato minimalista de Manuel Bandeira por Joaquim Pedro de Andrade, consegue acumular as duas acepções: é um filme poético sobre um poeta. Caramujo-Flor, de Joel Pizzini, vai ainda mais longe, traduzindo em poesia audiovisual a seiva terrosa de Manuel de Barros. Já Vinicius, o grande sucesso de Miguel Faria Jr., usa uma estrutura de prosa para cantar (e bem) o poetinha.

A retrospectiva reúne diversos modelos de aproximação entre o documentário e a poesia. A verdade, se é que cabe mencioná-la, tem que ser buscada em outras instâncias que não as do registro e da dramaturgia. Sobre isso e muito mais vamos conversar na quinta-feira, dia 7, às 16 horas, no cinema do Instituto Moreira Salles (Rio). Eu vou mediar o bate-papo com Joel Pizzini, Walter Carvalho e Bebeto Abrantes.

Apareçam.

Lição de ritmo

abril 5th, 2011 § 1 Comentário

AS BATIDAS DO SAMBA
de Bebeto Abrantes

O bom documentarista não é só o que descobre temas e objetos originais, mas também aquele que encontra, no que já é conhecido, a faceta ainda capaz de alguma revelação. Bebeto Abrantes vai ao samba com ouvidos atentos à evolução do gênero através dos seus instrumentos e suas bossas de percussão. Dos tambores do jongo ao banjo e ao tantan dos pagodes, somos apresentados a uma antropologia sonora de escol.

O filme é conduzido por dois guias principais: o enciclopédico Wilson das Neves e o afetivo Marçalzinho, filho do mítico Mestre Marçal. Monarco, Moacyr Luz e outros grandes ajudam a contar a história, sempre evocando gigantes do passado como João da Baiana, Bide e Ismael Silva. A “aula” de Wilson das Neves sobre a relação entre as escolas de samba e os orixás, e também sobre as diferenças entre ritmos aparentemente uniformes, é desses momentos que podem abrir uma avenida de percepção no espectador mais leigo.

Junto com seu corroteirista e montador Marcelo Rodrigues, Bebeto cria uma suíte rítmica de falas e batidas que delicia os ouvidos e mexe até com nossos músculos. O lugar-comum do batuque na cozinha com mulheres à beira do fogão podia ter sido evitado. Por outro lado, a configuração das várias rodas de samba remete às vezes a uma estética de comercial de cerveja. Mas esses são pormenores numa peça coesa que desliza suavemente entre o cinema de observação, o depoimento frontal e a fala didática. As três condutas se justificam num filme que não se furta a sua vocação francamente expositiva. E em matéria de lição de samba, com perdão pelo trocadilho, é praticamente imbatível.

Ícone de uma síntese

abril 4th, 2011 § 1 Comentário

REAGAN
de Eugene Jarecki

Se você acha que Ronald Reagan foi o principal ideólogo do sistema econômico que aprofundou as diferenças sociais e levou os EUA às crises recentes, então espere até conhecer Arthur Laffer, o economista que mais forneceu argumentos à Reaganomics. O almofadinha de Ohio aparece em Reagan explicando mais uma vez a sua “curva de Laffer” e sua exdrúxula teoria de que os ricos não devem pagar altos impostos para que haja cada vez mais ricos e menos pobres. Laffer é um dos muitos entrevistados por Eugene Jarecki (Why We Fight) para compor esse retrato multifacetado do ex-presidente americano.

A produção da HBO Documentaries tem aquele perfil clássico e muito eficiente de cercar o biografado por todos os ângulos através de um roteiro impecável, ritmo sugestivo de cada fase da trajetória e material de arquivo abundante e bem acionado. Reagan surge, portanto, como uma imagem construída desde os tempos de ator em Hollywood, garoto-propaganda da General Electric e patriota liberal cooptado pelos conservadores entrincheirados nas grandes corporações. Uma imagem de liderança a rigor vazia e falseadora, mas comprada com satisfação pelo americano médio assustado com as ideias socialistas. De tudo o que relata, o filme enfatiza sobretudo a profunda identificação entre política, consumo e entretenimento que predomina no imaginário americano. Reagan talvez tenha sido o ícone mais vistoso dessa síntese.

Um dos trunfos narrativos do doc é a diferença entre dois filhos de Reagan: o progressista Ron, que tenta separar as virtudes dos equívocos do pai; e o adotivo Michael, um conservador que gosta de posar diante de fotos de Reagan e festejar o seu legado.

Animação contra o desânimo

abril 4th, 2011 § 1 Comentário

A ONDA VERDE (THE GREEN WAVE)
de Ali Samadi Ahadi

Quando Ahmadinejad e o clero conservador sufocaram com mão de ferro a rebelião dos jovens verdes contra as fraudes das eleições de 2009, a única fonte de informação confiável eram os blogs, as redes sociais e as imagens de vídeo e celulares contrabandeadas através da internet. Na época, antes que as Google Revolutions derrubassem as ditaduras da Tunísia e do Egito, aquele fluxo caseiro não foi suficiente para deter o escândalo eleitoral e o massacre da oposição em Teerã.

É com esse material que The Green Wave constrói um poderoso libelo sobre o sonho interrompido da juventude e dos progressistas iranianos. Relatos de 15 blogs, além de mensagens do Twitter e do Facebook, inspiraram uma narrativa adaptada à animação. O efeito é muito poderoso, ficando a meio caminho entre o documento sonoro e a reencenação visual. Ao contrário do premiado Valsa com Bashir, as cenas animadas não predominam no filme, mas apenas fornecem um pathos dramático ao que é descrito em palavras, combinando-se com materiais filmados na rua e depoimentos de ativistas, jornalistas e reformistas.

Diretor, equipe e entrevistados são iranianos expatriados, sobretudo na Alemanha, onde o filme foi produzido. Todos eles sabem que, depois desse doc, tão cedo não poderão voltar ao Irã. Mas o tom das palavras que ouvimos no filme  não é só de revolta, terror e desânimo com o esmagamento da Onda Verde. Abatida mas persistente, resta uma voz de esperança pela “reconstrução da nossa nação”.

Emocionante como peça histórica, o filme de Ali Samadi Ahadi testemunha também a importância que os blogs e as redes sociais vão assumindo na realização de documentários. Eles “aquecem” os dossiês colocando a experiência humana à frente das visões profissionais do jornalismo. Um dos melhores filmes desse festival.     

Bodanzky e a fotografia

abril 4th, 2011 § Deixe um comentário

A identidade visual do É Tudo Verdade 2011 coloca em destaque a obra fotográfica de Jorge Bodanzky. Mais conhecido por seus documentários de ponta nos anos 1970 e 80, e pelo envolvimento mais recente com o binômio cultura/meio-ambiente, Bodanzky tem, no entanto, uma carreira paralela como fotógrafo que antecedeu e se ombreia com a do cineasta. Quando preparava com ele o livro Jorge Bodanzky – O Homem com a Câmera para a Coleção Aplauso, pude ter uma ideia do volume e da importância de sua produção fotográfica.

A foto de Brasília que deu origem à identidade visual do festival

Jorge entrou no cinema vindo da fotografia, daí sua relação sempre visceral com a câmera. Foi aluno de Luís Humberto, Amélia Toledo e David Drew Zingg. Participou de coletivas e teve uma foto sua na parede da 8ª Bienal de São Paulo (1965), a primeira a integrar uma seção de fotografia. Carregou o crachá de fotógrafo do Jornal da Tarde (SP) e da revista Manchete. Em 1971, ganhou o concurso internacional Asahi-Pentax com uma série de fotos de pescadoras do Rio Grande do Norte.

Uma caixa de fotografias foi o currículo que ele apresentou a Alexander Kluge para estudar na escola de cinema de Ulm, na Alemanha. Já na Amazônia, como fotógrafo da revista Realidade, percebeu na movimentação de prostitutas e camioneiros a semente para Iracema, uma Transa Amazônica. O cinema, então, já o absorvia quase completamente, ficando as fotos fixas como atividade paralela.

Jorge Bodanzky participa do ÉTV este ano numa mesa sobre o mercado brasileiro de docs na terça-feira, dia 5/4, às 16h, no Auditório do BNDES. Integram a mesa também Maurício Andrade Ramos (Videofilmes) e Paulo Mendonça (Canal Brasil), mediados pelo crítico Pedro Butcher. Às 18h, no mesmo local, será exibido o mais recente filme de Bodanzky, Pandemonium, que abordo a seguir:

A capital do inferno      

Na primeira imagem, uma ameaçadora mancha preta escorre pela tela até cobri-la completamente, remetendo a um vazamento de óleo. Daí em diante, uma sucessão de imagens e sons inquietantes colocam o espectador em estado de tensão. É como se a ameaça ambiental se materializasse no cenário de uma grande cidade brasileira. Imagens-síntese de desperdício, proliferação, corrosão. Um apocalipse iminente.

Não estou falando de um filme de ficção científica, mas do último trabalho do documentarista Jorge Bodanzky. Pandemonium é um alerta sobre o dispêndio indiscriminado de energia não renovável no mundo e suas consequências para as condições de vida no planeta. A argumentação verbal parte dos cientistas Rogério Cezar de Cerqueira Leite e Carlos Nobre. Otimismo pontual e pessimismo generalizado se revezam em suas falas, a partir de uma constatação de Rogério: “O homem é uma espécie de parasita que mata seu hospedeiro”.     

Rogério e Carlos discorrem sobre a forma superficial como nos preocupamos com o meio-ambiente e a necessidade de partirmos para grandes soluções que garantam um modelo sustentável para médio e longo prazo. Seguir apostando em veículos movidos a combustíveis fósseis e no desmatamento pode ser o caminho mais curto para a Terra se converter na capital do inferno (sentido mítico da palavra pandemônio conforme o poema Paraíso Perdido, de John Milton).

Bodanzky apresenta aqui um estilo diferente para escapar ao modelo de doc-palestra. Ele trabalhou falas, música (Thiago Cury e Marcus Siqueira), fotos e imagens em movimento (Matheus Rocha assina a fotografia) em regime de simultaneidade, perfazendo uma suíte audiovisual impactante. As imagens colhidas em São Paulo e na Amazônia são ressignificadas mediante uma montagem experimental (de Lucas Justiniano) e um tratamento cromático de grande efeito (por Alex Yoshinaga). As tonalidades ácidas predominam, reforçando nas palavras o sentido de urgência que carregam.

No fim das contas, Pandemonium mostra como um realizador supera as limitações de um projeto relativamente convencional através da criatividade potencial de sua linguagem.        

O homem diluído na História

abril 4th, 2011 § 1 Comentário

TANCREDO, A TRAVESSIA
de Silvio Tendler

Isso não é uma crítica, mas uma primeira aproximação ao novo longa de Silvio Tendler. Procuro ser cauteloso ao falar de seus filmes porque o Tendler acha que, ao contrário da minha grande admiração pelos clássicos Os Anos JK e Jango, eu agora “persigo” seus trabalhos recentes. O fato é que, a meu ver, Silvio continua a fazer bons documentários, mas bons documentários dos anos 1980. Boas aulas de História, mas não muito mais que aulas de História.

Tancredo, a Travessia é mais um desses tours-de-force de recompilação histórica baseada em vasta coleta de material de arquivo, depoimentos um tanto oficiais e um texto de narração onisciente – tudo organizado segundo uma estrita cronologia linear. O didatismo, apreciado por uns e execrado por outros, cobra um preço alto quando faz todas as particularidades se diluírem em benefício de um relato genérico e excessivamente codificado. Sem contar que o texto da narração não tem a mesma qualidade de sugestão e envolvimento dos filmes sobre JK e Jango.

Durante mais da metade inicial, Tancredo Neves parece confinado ao papel de “figurante com fala” na roda viva da política nacional. Mesmo que tivesse sido assim mesmo, parece-me lícito esperar de uma biografia que vá buscar, em cada momento e contexto, onde o personagem foi protagonista. O doc informa muito pouco sobre sua ascensão na política mineira e a formação de sua personalidade conciliadora e aparentemente bonachona. Somente quando ele é guindado à condição de candidato à presidência, ocupando o centro das atenções do país, é que Tancredo de fato ocupa o centro do filme. Em lugar de procurar o grande no pequeno, Tendler espera o grande ficar grande para organizar nossa atenção em torno dele.

O desejo sempre presente de montar painéis históricos o leva a abrir generosos espaços para eventos grandiosos sem ressaltar na mesma proporção aquilo em que Tancredo contribuiu ou participou. O episódio das Diretas-Já é um exemplo de concessão à emoção política e perda de objetividade – a ponto de incluir um depoimento totalmente descontextualizado de Maitê Proença.

É claro que sempre há boas declarações e boas histórias em torno dos conchavos, das atitudes e das posições de Tancredo. A razão de ele não ter sido cassado por Castelo Branco é uma delas. A eleição no Colégio Eleitoral em 1985, o choque da doença e a morte são os episódios de narrativa mais sólida, embora nada se mencione das teorias conspiratórias que surgiram na época a respeito de um possível atentado político. Mas o que mais senti falta foi de uma interpretação menos superficial do que Tancredo representou para o país, em sua longa carreira de eminência parda e personificação de uma certa mediania bem brasileira.  

Pois é, acabou sendo uma crítica. Mas é sincera e, se reitera alguns pontos de vista, nada tem de “perseguição”.            

Reconstruindo Nova Orleans

abril 3rd, 2011 § Deixe um comentário

TERRA DA OPORTUNIDADE (LAND OF OPPORTUNITY)
de Luisa Dantas

A brasileiro-americana Luisa Dantas mudou-se de Nova York para Nova Orleans em 2006 para documentar a reconstrução da cidade através de alguns personagens na linha de frente. Ao longo de quatro anos, ela registrou as idas e vindas de duas ativistas em defesa dos conjuntos residenciais públicos; um consultor engajado no replanejamento de um bairro de classe média; um menino que estuda em Los Angeles e retorna a N.O. para conferir os destroços de sua antiga moradia; um homem que perde a casa e se reinventa em pequeno agricultor; e dois imigrantes brasileiros que ganham a vida nos trabalhos de limpeza e reconstrução da cidade.

O título do filme não deixa de ter sua ironia e ambiguidade, uma vez que a luta dos moradores contra a burocracia e o projeto de demolição dos conjuntos residenciais atinge altas temperaturas de conflito. Por conta disso, o doc por vezes se aproxima da efervescência de um Harlan County, o clássico sobre batalhas entre policiais e sindicalistas. Ao mesmo tempo, as tramitações políticas e judiciais dão prova de como funciona a democracia nos EUA, ao menos no seu aspecto de fachada.

Luisa Dantas acertou não só na escolha dos personagens, bastante expressivos de cada interface da questão, como também na eficácia com que os acompanhou, sobretudo nos primeiros dois anos. Até o então candidato Barack Obama e o casal Pitt-Jolie fazem “participações especiais” ao interagirem com os líderes das comunidades afetadas. O filme se alonga um pouco, mas não perde substância. Veja o site oficial.

Eis o homem

abril 3rd, 2011 § Deixe um comentário

27 CENAS SOBRE JORGEN LETH
de Amir Labaki

O “filme do diretor” passa na última sessão de domingo no Arteplex. É uma boa pedida para se conhecer melhor o autor de Homem Erótico.

Eis o que eu chamo de uma oportunidade bem aproveitada. Por ocasião da vinda de Jorgen Leth ao Brasil, para o É Tudo Verdade de 2008, Amir Labaki gravou debates e depoimentos do grande documentarista e poeta dinamarquês. Esse é o material de base para uma eficaz introdução aos temas e métodos de Leth. O formato de módulos isolados (como no já clássico 32 Curtas sobre Glenn Gould) se presta adequadamente não só às intenções do filme, como a evocar o gosto de Leth pelos tableaux (vide The Perfect Human, 66 Scenes From America e o próprio Erotic Man). Alternam-se falas diretas para a câmera, trechos de conferências, poemas na tela, fotografias, quadros e cenas de filmes que exemplificam o puro documentário de invenção.

De maneira simples, mas com um roteiro de edição inteligente, Labaki consegue articular os interesses de Leth por poesia, antropologia, viagens, esportes, erotismo e cinema. O caráter multidisciplinar do seu trabalho ajuda a fazer desse pequeno doc um passeio saboroso pelo pensamento transformado em arte.

Corpo estranho

abril 3rd, 2011 § Deixe um comentário

ATERRO DO FLAMENGO
de Alessandra Bergamaschi

Numa manhã qualquer, um ponto do Parque do Flamengo se torna palco de uma cena inusitada. Um homem parece descansar deitado num dos equipamentos de ginástica do parque. As pessoas passam correndo, conduzindo seus cachorros ou fazendo seus exercícios físicos. Até que uma mulher resolve inspecionar de perto o corpo inerte. Outras pessoas começam a parar. Um estranho magnetismo atrai pessoas e olhares para o homem morto. Uns ficam por ali um momento e logo se vão. Outros começam uma espécie de vigília. Há mesmo os que se sentam ao lado do cadáver para exercitar os braços. Ionesco poderia assinar a cena.

Tudo é visto do alto de uma janela, com uma câmera fixa e microfones ligados unicamente no rumor do trânsito. Nem uma palavra, nenhum movimento na imagem. Andy Warhol fez filmes famosos assim, postando uma câmera, por exemplo, diante da entrada do Empire State Building durante seis horas e meia, ou bem diante de um homem dormindo por cinco horas e vinte. Mas enquanto Warhol investia no não-acontecimento, Alessandra Bergamaschi é movida por uma ocorrência macabra no cenário do mais singelo cotidiano urbano. O contraste é o que mais nos intriga ao contemplar esse registro e seu surdo potencial dramático. O distanciamento compulsório nos arregimenta como parte de um pequeno tratado sobre a curiosidade.

Duas mulheres

abril 3rd, 2011 § Deixe um comentário

O GOSTO AMARGO DA LIBERDADE (A BITTER TASTE OF FREEDOM)
de Marina Goldovskaya

Ana Politkovskaya

Ainda em vida, Ana Politkovskaya era tida na Rússia como uma espécie de Madre Teresa, uma heroína do jornalismo investigativo. O filme de sua amiga Marina Goldovskaya não foge ao modelo da hagiografia, ainda que evite o elogio do martírio. Ana lutou pela causa dos refugiados e dos chechenos, cobriu a guerra de um ponto de vista emocional e – mesmo presa, vítima de uma tentativa de envenenamento e criticada por colegas mais “objetivos” – nunca deixou de pugnar pela queda de Vladimir Putin. Em outubro de 2006, foi assassinada na entrada do prédio onde morava. “As coisas não costumam terminar bem para os idealistas”, diz Mikhail Gorbachev, um dos entrevistados por Marina, ao concluir uma rápida mas valiosa análise histórica da Rússia desde a perestroika.

A amizade entre as duas permitiu que Marina a filmasse em momentos domésticos e familiares, em passeios com o cachorro, conversas sobre vida amorosa, viagens, etc. Daí emerge um perfil muito mais pessoal do que, por exemplo, no doc Ana, Sete Anos no Front, exibido no É Tudo Verdade de 2008 (leia resenha). O filme absorve trechos de outro doc de Marina sobre Ana, Um Gosto de Liberdade (1991), e uma retomada da “personagem” 10 anos depois. A vida pública da ativista permite à cineasta repassar eventos dramáticos como a guerra da Chechênia e os atentados terroristas da época. 

No subtexto de O Gosto Amargo da Liberdade existe a identificação entre Marina e Ana, na medida em que ambas mexeram no vespeiro da política russa na transição do comunismo para a democracia. Mas o que garante sobriedade e efetividade ao filme é que Marina não cede ao sentimentalismo, nem adota uma postura de “dona” da personagem. O vínculo está nas entrelinhas de cenas tão íntimas quanto se pode compreender num documentário de firme cunho político.

Um abraço no Arteplex

abril 3rd, 2011 § Deixe um comentário

Na abertura carioca do É Tudo Verdade, um relance de confraternização me coloca entre Monica Guimarães, produtora do festival, Stig Björkman, especialista na obra de Bergman, e Amir Labaki.

Foto: Rodrigo Gorositto 

Odisséia de um sátiro

abril 3rd, 2011 § Deixe um comentário

HOMEM ERÓTICO (EROTIC MAN)
de Jorgen Leth

Dorothie (na foto), Schilaine, Rokhaya, Ana Flávia, Paula, Helena, Julia… Os nomes são sensuais, os corpos ainda mais. São as mulheres de Jorgen Leth, umas reais, outras fictícias, que aceitaram se relacionar com a câmera dele num pretenso estudo do erotismo. Leth reúne nesse filme, do meu ponto de vista, as três melhores coisas do mundo: cinema, viagens e mulheres lindas. Erotic Man é um ensaio másculo disfarçado em odisséia de um poeta em busca das imagens de amores perdidos no tempo.

Durante os últimos anos, Leth viajou por diversos países, a maioria do Terceiro Mundo, à procura de mulheres bonitas para filmar nuas em quartos de hotel. A cada uma explicava que não haveria cenas de sexo, mas queria filmar “os detalhes”. Vejo aí uma referência implícita ao envelhecimento masculino. As cenas de casting num hotel em São Paulo são particularmente curiosas. As imagens filmadas são muito bonitas, embora no padrão das revistas masculinas. Melhor, porque frutos de vivência e não de poses, é quando o diretor nos franqueia as imagens das brincadeiras eróticas com suas duas mulheres haitianas, com quem manteve relacionamentos duradouros. Mas é grande o risco de tudo isso parecer apenas um projeto onanista. As indagações sobre a natureza do erotismo e sua persistência na memória não levam a grandes conclusões, nem parece ser este o objetivo. Leth filma-se a si mesmo comentando seu processo, um tanto perdido nos versos minimalistas que conhecemos desde a obra-prima The Perfect Human.

Em que pese a veneração de Leth pela forma feminina, o que temos aqui, no fundo, é a fixação de um homem pela mulher como objeto de contemplação e desfrute. Lars Von Trier leva o crédito de “produtor criativo” e, desta vez, parece não ter feito nenhuma obstrução ao velho sátiro.

Cinema em sincronia

abril 2nd, 2011 § Deixe um comentário

O CARAMANCHÃO (THE ARBOR)
de Clio Barnard

A rigor, eu não deveria estar escrevendo sobre este filme. Assisti a uma cópia sem legendas, incapaz de entender o inglês popular provinciano de Bradford, norte da Inglaterra. Tive que ir ao Google para saber as linhas gerais da história da dramaturga Andrea Dunbar (1961-1990), jovem revelação com a peça The Arbor e autora também da conhecida Rita, Sue and Bob Too (cuja versão cinematográfica recebeu no Brasil o título de Rita, Sue e Bob Nu). Andrea bebeu todas e morreu uma década depois de estourar em Londres, de hemorragia cerebral. O filme divide seu tempo narrativo entre os dados de sua vida e o destino não muito melhor da filha Lorraine, viciada em heroína, perseguida por casar-se com um paquistanês e presa sob acusação de negligência na morte da própria filha de dois anos de idade.

Sabidos os fatos, eu continuaria hesitando em recomendar o filme, não fossem os métodos utilizados pela diretora Clio Barnard. Se você procura experiências de ponta no É Tudo Verdade, esse é o seu filme. Clio gravou entrevistas com parentes (inclusive Lorraine) e pessoas ligadas à família Dunbar. Em seguida, colocou atores para representar essas falas em absoluta sincronia labial, mas colocados em situação levemente dramatizada, assim como alguns flashes da infância de Lorraine. Acrescentou trechos da peça The Arbor encenados no pátio da propriedade em que os Dunbar ainda vivem, ao ar livre e sob os olhares dos moradores reais. Os atores anunciam as cenas para a câmera e atuam em cenários apenas insinuados. Complementam o material algumas poucas imagens reais de Andrea em programas de TV.

O que temos, então – independente de entendermos ou não o que é dito –, é uma oscilação permanente da nossa percepção entre o cinema e o teatro, o documentário e a ficção. Oscilamos entre a voz legítima que ouvimos e a técnica utilizada para ancorá-la visualmente. E as falas são como campos minados para os atores, com muitas hesitações, palavras interrompidas, pausas irregulares, conversas entre vários personagens, soluços, tosses etc. A façanha é memorável. Um crítico britânico a comparou à dublagem de Creature Comforts, o que é um elogio relativo, um vez que em animação as coisas são muito mais facilitadas. E esses múltiplos recursos não são gratuitos, uma vez que correspondem ao trânsito que sempre existiu entre a vida e o teatro de Andrea Dunbar. Ela colocava em cena justamente os seus amigos e vizinhos de Bradford.

Não tenho ideia de que apelo esse filme possa ter para o espectador brasileiro, se será atraente ou entediante. Mas certamente há algo ali que interessa a quem vem saboreando os recentes desdobramentos do cinema híbrido.

P.S. O filme tem 90 minutos, e não 120 como consta no material do festival

A Rússia e nós

abril 2nd, 2011 § Deixe um comentário

RETROSPECTIVA MARINA GOLDOVSKAYA

A Retrospectiva Marina Goldovskaya, por mais importante que seja a diretora, parece-me trazer um déficit de novidade para o É Tudo Verdade deste ano. Não só porque Marina já veio ao festival duas vezes trazendo alguns de seus filmes mais recentes, como também porque o tema dominante em sua filmografia, a questão russa desde a glasnost, soa hoje mais como História do que como motivo de debate para um festival de documentários.

Coloquei esse pensamento para Amir Labaki. Em sua resposta, ele destacou: “É especialmente interessante que esta produção capte a História com “h” maiúsculo, no mais das vezes a partir de seu impacto na vida cotidiana das pessoas, muito em consequência das novas possibilidades de intimidade no registro abertas pela revolução do cinema digital”.

Ok, Marina está completando 70 anos de idade e tem um livro de memórias chamado A Mulher da Câmera de Filmar. É uma grande realizadora, sem dúvida nenhuma. Mas estou curioso para ver como o festival vai estabelecer um diálogo mais caloroso entre ela e o público brasileiro – seja aquele interessado no doc pela ótica dos temas, seja da linguagem. Veja aqui o release e a programação da retrospectiva

Curtas: poéticas da cidade

abril 2nd, 2011 § 3 Comentários

Quatro curtas da competição nacional veiculam uma poética de cidades na fronteira entre o registro documental e a colocação do espaço público em situação de performance. O ambiente mais rústico é o de A Poeira e o Vento, em que Marcos Pimentel volta a apurar seu olhar nas estruturas físicas e nos fluxos de ação de cidades mineiras. Aqui é a isolada localidade de Mogol, frequentemente açoitada pelos dois elementos do título. Pimentel assume um viés contemplativo frente à aridez e à escassez humana do povoado. Cria temporalidades paralelas entre pequenos blocos de (in)ação, realçando o aspecto primitivo e os longos silêncios do lugar.

Outro tipo de aridez é atribuído a Brasília pelo poeta Nicolas Behr, personagem principal de Braxília, de Danyella Proença. Fruto da geração mimeógrafo, Nicolas combate com versos e intervenções urbanas a racionalidade e a desumanização do Plano Piloto. Dentro da “inventada” Brasília ele inventou uma utopia-da-utopia chamada Braxília. O filme é bem melhor quando situa o poeta no corpo da cidade e procura estabelecer uma relação gráfico-lírica com sua monumentalidade – daí a poesia de Nicolas contradizer-se ao criticar e ao mesmo tempo nutrir-se da dureza da cidade. Mas quando o ouve comportadamente numa sala diante de estantes, Braxília trai sua proposta central.

O poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960) é homenageado por 20 artistas conterrâneos em Palavra Plástica, de Leo Falcão. Essa diversidade gera 20 microcurtas dentro do curta. Neles, a declamação de sonetos conjuga-se com  recursos de toda natureza para formular situações e visualidades supostamente poéticas. A força de alguns momentos do filme e o perigo da dispersão vêm justamente dessa variedade. Recife surge amiúde tanto nas referências dos poemas quanto na encenação das performances.    

Por fim, o menos bem-sucedido dos quatro é São Silvestre, de Lina Chamie, que se contenta em ser uma reportagem um tanto repetitiva sobre a célebre maratona que percorre ruas de São Paulo e tem seu ápice na Avenida Paulista a cada 31 de dezembro. O mau aproveitamento da câmera “corredora” é um exemplo do caráter um tanto genérico da abordagem. O enfoque na emoção acaba privilegiando autocelebrações vazias e os lugares-comuns da superação por maratonistas portadores de deficiência.     

Impressões da abertura

abril 2nd, 2011 § Deixe um comentário

O É Tudo Verdade acertou em cheio ao incluir nas sessões de abertura o curta Thomaz Farkas, Brasileiro, de Walter Lima Jr. Foi bom rever bem vivo e aplaudir aquele gigante da fotografia, abridor de caminhos para o documentário e sobretudo uma das pessoas mais doces que jamais empunharam uma caipirinha sobre a Terra.

Nas falas de apresentação da abertura carioca, deu para perceber três coisas:

1. A Secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, anda encantada com a palavra “locus”;

2. A representante do BNDES tem humor: lembrou que o festival da “Verdade” estava começando no Dia da Mentira;

3. Amir Labaki ainda não encontrou um bom relacionamento com o microfone.

Amir Labaki e Stig Björkman

Mas o maior risco que Amir correu foi o de esvaziar o festival exibindo na abertura os dois docs de Stig Björkman sobre os bastidores dos filmes de Ingmar Bergman (leia minha resenha). Muita gente saiu da sessão dizendo que ia passar os próximos dias revendo a obra de Bergman em DVD ao invés de frequentar os docs de Amir.

Numa rápida conversa com Björkman, pude agradecer, em nome dos cinéfilos brasileiros, o bem que nos causou o livro Bergman Sobre Bergman, do qual foi co-autor, e que, editado aqui pela Paz e Terra, foi o primeiro meio de aproximação de muita gente ao pensamento do autor de Morangos Silvestres. Disse-lhe que sua presença com os novos filmes parecia fechar um grande círculo de admiração. Ele respondeu que também se sente fechando um círculo ao realizar esses dois filmes-tributo.

O homem que driblou a Globo

abril 2nd, 2011 § Deixe um comentário

COUTINHO REPÓRTER
de Rená Tardin

De sua mesa no CECIP, Eduardo Coutinho rememora para Rená Tardin os tempos de Globo Repórter. Conta como “caiu na real” e entrou para a Vênus Platinada, como descobriu seus processos em programas clássicos como Seis Dias em Ouricuri e Teodorico, o Imperador do Sertão. Em tudo, a disposição para contestar ou driblar as imposições do padrão Globo. Planos longos, subversão da função do narrador, etc.

Mas a subversão principal vem nos minutos finais, quando Coutinho “confessa”, talvez pela primeira vez, a extensão dos seus “furtos” na Globo para realizar Cabra Marcado para Morrer. É algo de que a emissora do Jardim Botânico deveria se orgulhar. Àquela altura, Coutinho já não admitia mais a encomenda de fazer um programa sobre os 50 anos do Pato Donald. Era tempo de mudar de vida novamente. Simplérrimo e eficiente, Coutinho Repórter sublinha momentos cruciais na carreira do mestre e ainda capta seu entusiasmo (no off dos créditos finais) com as condições atuais do ofício documental.

Tempos modernos

abril 1st, 2011 § Deixe um comentário

CARNE, OSSO
de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros

Chaplin nos faz rir e pensar com aquelas cenas antológicas de Tempos Modernos em que o operário corre contra a velocidade da esteira da fábrica e depois sai pela rua repetindo o movimento obsessivamente. Não é diferente, nem comédia, a realidade dos trabalhadores de frigoríficos brasileiros mostrada em Carne, Osso. Um letreiro na abertura nos adverte: nenhuma cena sofreu alteração de velocidade. As linhas de trabalho nos frigoríficos, onde operários devem realizar até 120 movimentos manuais por minuto, sob pressão das metas de produtividade, são literalmente de enlouquecer. E enlouquecem.

O filme é produzido pela Repórter Brasil, uma ONG dedicada à denúncia de condições trabalhistas nocivas, inclusive trabalho escravo. Enfoca frigoríficos (não identificados) do sul do país e abatedouros do centro-oeste, onde a insalubridade, a incidência de doenças psíquicas, membros decepados ou atrofiados convivem com a impunidade das empresas e a sobrecarga do sistema previdenciário. Em discussão, o custo humano da produtividade.

Bem-acabado no modelo clássico do doc de denúncia, Carne, Osso busca seu efeito combinando estatísticas e falas humanas emocionadas. Acaba criando um potente e dramático paralelo entre os animais que vão sendo progressivamente desmembrados e desossados nos frigoríficos, e os próprios trabalhadores vitimados pelo ritmo implacável da máquina fordista.

Violência domesticada

abril 1st, 2011 § Deixe um comentário

ACADEMIA DE BOXE (BOXING GYM)
de Frederick Wiseman

Talvez ainda motivado pelo seu filme anterior sobre o Balé da Ópera de Paris (La Danse), Frederick Wiseman enxergou coreografias em muito do que filmou na academia Lord’s Jym, em Austin, Texas. A câmera de John Davey (seu cinegrafista há quase 25 anos) desvia-se com frequência dos punhos para os pés dos alunos, sublinhando uma performance quase tão movimentada e importante quanto a dos membros superiores. Em alguns breves momentos, a dança chega a ocupar de fato o centro da cena. Embora tenha filmado a academia antes do balé, a edição foi feita depois, o que pode ter influenciado suas escolhas finais.

Seco, casual e observacional como todo Wiseman, este seu 38º filme acompanha em grande proximidade os exercícios, as instruções dos treinadores, as interações entre frequentadores e as entrevistas dos clientes com o dono da academia, um homem simpático e roufenho. Vale o clichê de dizer que o lugar é um microcosmo da América média. Entre crianças, adultos e velhos, homens e mulheres, há negros, latinos, operários, pequenos empresários, professores. Em meio a punchs, jams, hooks e jabs, conversa-se sobre família, trabalho, dinheiro e ambições. Se Wiseman já fez um filme sobre violência doméstica, pode-se dizer que agora fez um sobre a domesticação do impulso violento. 

Nada que se assemelhe ao universo mítico do boxe pela ótica de Hollywood. Apenas o dia-a-dia suado e ofegante de gente comum, que sonha pequeno e quase nem olha para as paredes cobertas de posters das estrelas do ringue. Ao final, aquela sensação que fica em todo filme de Wiseman: a de que realmente estivemos lá.

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