Além dos muros da escola
dezembro 19th, 2011 § 5 Comentários
Amizade, autoestima, comportamento de grupos, comunicação, conexão, confiança, conflito, criatividade, ética, informática, lealdade, talento, tecnologia, traição… Essas são algumas tags para o filme A Rede Social, conforme abordado por Myrna Silveira Brandão no livro Leve seus Alunos ao Cinema (Qualitymark Editora, 2011). Aqui mais um vez Myrna combina seus dotes de crítica de cinema, pesquisadora (ela preside o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro) e especialista em recursos humanos (é também diretora cultural da Associação Brasileira de Recursos Humanos).
Ela já havia feito isso em dois livros anteriores, dirigidos ao público corporativo. Leve seu Gerente ao Cinema (2004) e Luz, Câmera, Gestão – A arte do cinema na arte de gerir pessoas (2006) colocavam os filmes nossos de todo dia numa perspectiva de relacionamento humano e profissional. Com esta nova publicação, Myrna fornece orientações para professores tirarem proveito das abordagens cinematográficas no debate da própria escola, do aprendizado e dos temas do cotidiano de seus alunos.
O livro explora as potencialidades de 62 filmes, de um blockbuster como Duelo de Titãs a um documentário brasileiro como Pro Dia Nascer Feliz; de filmes europeus como Cinema Paradiso a asiáticos como Nenhum a Menos, de Zhang Yimou; de dramas como O Óleo de Lorenzo a animações como Ratatouille e Wall-E. Cada filme é descrito com ênfase nos aspectos educacionais, evidenciando metáforas e detalhes de dramaturgia que se prestam ao assunto em pauta. A isso se seguem uma lista de temas (as tags a que me referi acima) e uma série de sugestões para debate em classe, incluindo dicas metodológicas para um melhor aproveitamento das discussões pós-filme.
Títulos como Ao Mestre com Carinho, Entre os Muros da Escola e Sociedade dos Poetas Mortos trazem a questão da educação na sua própria trama, mas outros requerem certa perspicácia para serem usados em sala de aula. É onde entra o olhar tarimbado de Myrna para apontar caminhos e levantar questões. A escola, projetada no mundo através dos filmes, passa a ser não apenas um lugar de acumulação de conhecimentos, mas de reflexão sobre a sociedade e o estar no mundo.
Cinema na sala de aula
agosto 8th, 2011 § 1 Comentário
Nesta terça e quarta-feira, das 14 às 17 horas, a Cinemateca do MAM vai mostrar curtas de estudantes. Mas não é do Festival de Cinema Universitário, que terminou domingo. Os curtas (ou “exercícios audiovisuais”) foram realizados por alunos de 10 escolas municipais do Rio de Janeiro, dentro do projeto Imagens em Movimento.
Desde fevereiro, cerca de 200 estudantes, inseridos voluntariamente, estão aprendendo a pensar e fazer cinema nas salas de aula. O projeto, idealizado pela diretora e montadora Ana Dillon e patrocinado pela Petrobras, segue um método pedagógico compartilhado por escolas da Europa e coordenado pela Cinemateca Francesa. O cineasta e professor Alain Bergala veio de Paris ministrar a aula inaugural no Odeon, em março. Desde então, quatro alunos já foram à cinemateca parisiense mostrar seus filmes para uma plateia de estudantes de vários países, com a presença de Costa Gavras, diretor da Cinemateca.

Na Cinemateca Francesa, Costa-Gavras e os estudantes cariocas Jonathan Victorino, Thays de Oliveira e Humberto Martins
A ideia não é exatamente formar cineastas, mas estimular um diálogo crítico e consciente com o cinema. Os filmes serão exibidos ao longo do ano também nas Lonas culturais do município, sempre seguidos de debates e troca de ideias com o público, profissionais de cinema e de educação.
Leia mais sobre o projeto nesta matéria de O Globo.
Educação inspiradora
abril 7th, 2011 § 1 Comentário
VOCACIONAL, UMA AVENTURA HUMANA
de Toni Venturi
Ensino público e gratuito sem distinção de classes, educação participativa voltada para formar cidadãos conscientes, disciplinas aplicadas à realidade social, às artes, à vida prática e ao trabalho comunitário… Pode ser uma utopia para o Brasil de hoje, mas já aconteceu no passado e não foi Paulo Freire. A experiência revolucionária do Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha, repartido em três escolas no estado de São Paulo, que durou apenas de 1962 a 1970, é contada (e muito bem contada) nesse excelente doc de Toni Venturi.
Toni foi também aluno do Vocacional, e o filme é um tributo acalentado há muitos anos. Com sobriedade e franqueza ele se insere entre os que se encarregam de rememorar e avaliar suas vivências como alunos ou professores. O Vocacional está nos anos-chave da formação de uma elite da cultura e das Ciências Sociais de São Paulo. O filme beneficia-se, portanto, de uma rara clareza de enunciação, além do sentimento que transpira em cada depoimento. Da forma como o roteiro e a direção conduziram as coisas, o carinho pelo passado de cada um transcende a esfera pessoal e se transforma no elogio de um modelo – e no lamento por ter ele ficado para trás.
Quando a ditadura recrudesceu em 1968, as ousadias do Vocacional foram prontamente tachadas de subversivas e o exército entrou em cena, como na Universidade de Brasília. A fundadora Maria Nilde Mascelani (1931-1999) foi perseguida e presa. Até o professor de Técnicas de Acampamento foi tomado por guerrilheiro. São muitas e apaixonantes as histórias que emergem das falas e dos materiais de arquivo do colégio, incluindo-se aí um raro e mitológico curta realizado pelos alunos (Aloysio Raulino e Roman Stulbach entre eles), fotografado por Jorge Bodanzky e supervisionado por Maurice Capovilla e Rudá de Andrade.
Toni Venturi realiza aqui um de seus melhores trabalhos. Seu engajamento pessoal tem a medida certa, e a emoção não turva nem sabota uma narrativa extremamente coesa. Para a educação brasileira atual, é um filme radicalmente inspirador.
40 anos de cinema e educação
dezembro 15th, 2010 § 1 Comentário
Eles já tinham 20 anos de estrada quando os conheci melhor, nos tempos em que programava o setor de cinema e vídeo do CCBB-Rio. O Cineduc – Cinema e Educação implantou no Centro Cultural a Sessão Criança, que até hoje atrai público infanto-juvenil para exibições vespertinas aos sábados e domingos. Também nessa época o Cineduc e o CCBB criaram o festival anual Cinema Criança. Bem antes que eventos semelhantes chegassem aos multiplexes, o Cineduc já abria espaços de resistência à dieta massificada dos programas de TV e da oferta mais comercial dos cinemas.
Amanhã (terça) o Cineduc está completando 40 anos e merece toda celebração. Desde 1970 vem trabalhando para a promoção humana, a formação de plateias críticas e de cidadãos conscientes da importância dos meios de comunicação. Não é uma tarefa simples diante do bombardeio que crianças e adolescentes sofrem diariamente com uma programação cultural repetitiva, alienante, quando não enfeitada com uma interatividade que, no fundo, reforça o consumo passivo.
As atividades do Cineduc procuram despertar a sensibilidade das plateias infanto-juvenis não só para os temas dos filmes, mas também para as técnicas envolvidas na podução audiovisual. Assim é que edita livros (Cinema, uma Janela Mágica, de Marialva Monteiro, é um clássico) e publicações divertidas e instrutivas. Realiza programas de TV e vídeos educativos. Organiza e participa de seminários e mesas-redondas no Brasil e no exterior. Leva a diversos festivais seu know-how específico em curtas e oficinas. No Festival do Rio, faz a curadoria da Mostra Geração.
A entidade atua com crianças, jovens e adultos, alunos e educadores, de latitudes diferenciadas, seja em favelas, em bairros de baixa e alta clásse média, em escolas carentes e privilegiadas, buscando não somente catalisar experiências diversificadas e, em certos momentos, opostas socialmente, mas sobretudo permitir, na prática, sua autossuficiência.
O Cineduc tem um acervo de mais de 100 filmes super-8 e centenas de vídeos realizados por crianças e jovens de escolas públicas, particulares e projetos sociais. Por suas salas de aula passaram os produtores Renata Magalhães, Paula Lavigne, Leo Monteiro de Barros, da Conspiração Filmes, e os diretores Dodô Brandão e Luís Felipe Sá.
É um trabalho abnegado, feito muitas vezes com poucos recursos, mas com uma enorme disposição de colocar o cinema ao alcance dos alunos como instrumento de expressão criativa. E também com um espírito “familiar” que os distingue de outros profissionais do ramo.
Por tudo isso, amanhã é dia de estender o tapete vermelho e aplaudir o Cineduc. Quem quiser se juntar a eles e a mim, apareça às 10 horas da manhã no Espaço de Cinema (R. Voluntários da Pátria, 35). Haverá uma breve projeção de filmes curtos em DVD, com a presença de ex-alunos, professores, amigos e gente de cinema.
Transformações na tela
outubro 22nd, 2010 § Deixe um comentário
Há poucos dias, fiz um grande passeio pelo Brasil através de 20 curtas do projeto Nós na Tela. De Lábrea, na selva Amazônica, a Londrina, no Paraná, passando por Tocantins, Piaçabuçu (AL), Ilhéus (BA), Recife e outros tantos municípios, conheci projetos bacanas de inserção social e cultural, topei com alguns vídeos bem críticos, outros com cara mais “institucional”.
Os curtas, todos com duração de 15 minutos, foram realizados por jovens egressos de oficinas audiovisuais e tiveram seus projetos selecionados no Concurso de Apoio à Produção de Obras Audiovisuais Digitais Inéditas de Curta Metragem, nos Gêneros Documentário ou Telerreportagem, sobre o tema “Cultura e Transformação Social” – Nós na Tela. Uma oficina específica ajudou a preparar as produções. Todos os curtas foram exibidos quarta e quinta na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Quinta à noite aconteceu a cerimônia de premiação, conforme escolha de um júri composto pelos críticos Daniel Caetano, Rodrigo Fonseca e este que vos fala.
O primeiro lugar, aquinhoado com um prêmio de 15 mil reais, foi do paranaense Vila das Torres 2014, de Willian Coutinho Duarte, Lúcia Pego dos Santos, Marta Pego dos Santos e Bruno Mancuso. Destacado pelos três jurados, o doc tem um roteiro muito bem articulado em torno do passado, presente e futuro de um bairro carente que destoa da paisagem organizada e asséptica de Curitiba (“uma cicatriz no rosto da Cidade-Sorriso”, como diz alguém). Moradores de Vila das Torres narram as origens da comunidade e o desenvolvimento espontâneo de uma cultura do futebol no local. Especulam também sobre o destino do bairro nos preparativos para a Copa de 2014, que terá jogos em Curitiba. É um trabalho crítico, que não se furta a ironias sobre a elite e a administração pública da cidade, mas o faz de maneira orgânica, sem panfletarismo. Tem tudo para percorrer o país em festivais.
Outro curta com poder de fogo é Arquitetura da Exclusão, de Adelvan de Lima, que ficou com o segundo lugar e um prêmio de 10 mil reais. O projeto é paulista, mas se refere ao muro construído em torno da favela Dona Marta e às UPPs cariocas. A pergunta “O Haiti é aqui?” serve de mote performático para um questionamento dos objetivos do tal muro (proteção ecológica ou encarceramento da comunidade?) e de uma certa visão idealista das UPPs. A própria equipe passa por uma batida policial antes de retirar dos guardas bons depoimentos sobre seu treinamento e porte de armas. Pode ser visto como um hors d’oeuvre para o doc que está sendo produzido por Cacá Diegues sobre esse tema.
O terceiro lugar (5 mil reais) foi para Quenda, de Warlem Machado, um esperto perfil de três meninos gays que frequentam a noite do Rio. Eles contam como vivem e veem a si próprios, além das circunstâncias em que saíram do armário perante suas famílias. Embora o tema do outing seja gasto, as particularidades e a franqueza dos personagens garantem a personalidade do filme, que busca uma linguagem afinada com o comportamento e o ambiente retratados.
Havia outros curtas dignos de menção, como o breve apanhado da nova geração do hip hop paulista, exoticamente intitulado Disseminando Ideias e Influenciando Pessoas. Este curta de Felipe Rodrigues era um dos meus preferidos, tanto pelo charme e a graça da confecção, quanto pela forma como se aproxima dos métodos caseiros de trabalho do rapper e produtor musical Emicida. Também apreciei especialmente os santistas BNH 001, de Aline Assis (discussão dos efeitos da construção de um shopping no primeiro projeto de conjunto residencial do antigo BNH) e Aloha, de Paula Luana Maia dos Santos e Nildo Ferreira (sobre surfistas portadores de deficiências físicas). E ainda o amazonense Paumari na Cidade, de Eugênio Paumari e Sérgio Lobato, que mostra jovens índios escapando do tráfico pelo caminho do aprofundamento étnico; e Cinema de Bolso, de Alan Russel (Tocantins), abordagem em alto astral de um projeto de formação audiovisual com celulares e câmeras fotográficas.
O Nós na Tela é mais uma iniciativa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura que vem semeando a expressão autóctone pelos quatro cantos do país durante o governo Lula. Em breve, os 20 curtas integrarão a série televisiva Nós na Tela, dirigida por Francisco César Filho, que organiza todo o projeto. Cada programa de meia-hora incluirá um curta, cenas de making of, entrevista com o(s) diretor(es) e uma breve reportagem sobre a comunidade onde foi produzido. A série será veiculada pelas emissoras ligadas à Associação Brasileira de Canais Comunitários – ABCCom e em outros canais do sistemas público e estatal.
A difícil educação
abril 30th, 2010 § Deixe um comentário
Para quem achava o jornalista e cineasta Eduardo Souza Lima (Rio de Jano) meio sumido nos últimos tempos, a explicação foi exibida há poucos dias na prévia do Cine-PE. Entre setembro de 2007 e abril de 2009, o nosso ‘Zé José’ acompanhou alguns participantes do projeto educacional Travessia em cidades de Pernambuco. Patrocinado pela Fundação Roberto Marinho, o Travessia procura tirar da inércia estudantes com defasagem escolar em virtude de reprovações reincidentes.
Travessias, o doc, registra momentos decisivos de três alunos e uma professora durante um ano e meio, período de implantação do projeto. Carioca de escol, o diretor também abre espaço para as memórias de uma família que tem origem num subúrbio do Rio. A atenção do documentarista se volta mais para a vida pessoal dos personagens do que para uma exposição organizada do projeto. Isso de alguma forma se justifica pelo lugar “difícil” que ocupa a educação em meio a problemas com emprego, gravidez, cansaço – ou mesmo falta de confiança nos benefícios de um diploma em contextos sociais limitados.
O filme, realizado inteiramente por Eduardo (afora edição e finalização), procura a intimidade das pessoas e, de certa maneira, aceita sem problematizar a visão compenetrada que elas têm do projeto. O elogio à educação fica mais nas palavras bem intencionadas e nas entrelinhas da montagem do que no resultado concreto mostrado na tela.
Do Alabama à Casa Branca
agosto 18th, 2009 § 1 Comentário

James Hood e Vivian Malone em "Crise"
Em 1963, o fedelho Barack Hussein Obama ainda aprendia a andar na casa dos seus pais, no Havaí. Longe dali, na capital do Alabama, sul dos EUA, dois estudantes negros abriam as últimas portas para que um dia o jovem Barack entrasse nas Universidades de Columbia e Harvard.
Vivian Malone e James Hood não cederam às pressões e decidiram entrar para a Universidade do Alabama, a última a aceitar a determinação federal de integrar brancos e negros. O governador George Wallace, um segregacionista de quatro costados, prometeu impedir pessoalmente a entrada de Vivian e James na sala de aula. O assunto foi parar na mesa do presidente John F. Kennedy e de seu Procurador de Justiça, Robert Kennedy. Estava aberta uma das grandes crises de seu mandato.
Os dias decisivos desse episódio foram registrados por Robert Drew e sua equipe no doc Crise (Crisis: Behind a Presidential Commitment). O filme, disponível em DVD da Videofilmes, traz o melhor da utopia do cinema direto americano: o acesso privilegiado a momentos privilegiados, a câmera subordinada à movimentação das personagens, a sensação de “estar lá”, a construção dramática do plot como num filme de ficção.
Não vou aqui me estender sobre os procedimentos do doc, sempre muito interessantes. Nem sobre o desfecho do caso, que se vê no filme. Quero somente refletir sobre o valor simbólico da confrontação do Alabama para o futuro dos EUA. Numa brincadeira não desprovida de certa ambição, o aspirante a universitário James Hood comentava diante da câmera que sua meta era ser governador do Alabama. Hoje com 66 anos, Hood perdoou George Wallace e compareceu ao seu funeral em 1998. Não sei dizer se votou em Obama, mas com certeza sentiu uma ponta de orgulho pessoal quando o viu entrar na Casa Branca.
Estranhos no continente
julho 18th, 2009 § Deixe um comentário
Em entrevista a Marilia Martins, o escritor mexicano Carlos Fuentes estranhou a distância dos brasileiros em relação ao idioma espanhol: “Existe hoje um intercâmbio intenso entre escritores dos países de língua espanhola, e não existe o mesmo com os brasileiros, que ficam isolados no continente latino-americano”. E se perguntava: “Por que os brasileiros não são incentivados a aprender espanhol no curso primário, junto com o português?”.
Eu vivo me perguntando isso. Por que aprendemos desde cedo a língua dominante e não temos nenhum interesse pela língua lateral, que nos cerca por três lados? O resultado é esse isolamento, que muitos latino-americanos percebem como soberba. Por conta disso, à boca pequena, o Brasil costuma ser tachado de autosuficiente cultural ou excessivamente voltado para a cultura americana.
Nos festivais de cinema sul-americanos, é comum ver o gap de comunicação entre brasileiros e os demais. Com poucas exceções, nós acabamos formando guetos de conterrâneos, enquanto argentinos, bolivianos, uruguaios, chilenos e peruanos vivem um clima de interação, discussão e congraçamento. Não só na literatura como no cinema e em todas as áreas, teríamos muito a ganhar com uma integração continental – e me refiro à esfera individual, pois só ela pode injetar legitimidade e abrangência a mecanismos oficiais como o Mercosul.
Por que não implantar o ensino de espanhol desde o primeiro grau, para que os brasileiros cresçam sabendo olhar não só para cima, mas também para os lados?
Escolas de França
julho 1st, 2009 § 6 Comentários
Há uma porção de observações interessantes e plausíveis sobre a psicologia de uma pré-adolescente em Stella, o bom filme de Sylvie Verheyde. Mas me atenho a comentar a representação da dinâmica escolar no ano de 1977. Os professores são tirânicos, os alunos reagem quase sempre com bom humor, e ninguém questiona frontalmente os valores ensinados na sala de aula.
É tudo tão diferente do que vemos em Entre os Muros da Escola, que retrata uma classe da mesma Paris, mas na realidade multiétnica e agressiva de 2007. A possível aproximação desses dois filmes, e mais ainda se contarmos o documentário Ser e Ter (2002) e o mais recuado Quando Tudo Começa, de Bertrand Tavernier (1999), chama atenção para a frequência com que o cinema francês aborda o tema da educação. Certamente em nenhum outro país a escola aparece tanto como instrumento de reflexão sobre a sociedade. Aliás, um clássico do gênero, igualmente francês, acaba de sair por aqui em DVD: Zero em Comportamento, a fantasia anárquica de Jean Vigo (1933).
No cinema brasileiro, se minha memória não me trai, isso é privilégio de pouquíssimos filmes. Não me lembro de outro recente além do doc Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. A bem da verdade, Tropa de Elite passava de raspão pelo tema. É flagrante o contraste dessa lacuna com o peso da educação na gênese dos nossos grandes problemas.
Mas Stella não é exatamente um filme sobre ensino. É mais sobre a capacidade de uma menina de entender o mundo e a si mesma para além do que lhe transmitem pais e mestres.


