Heleno sem documento
março 31st, 2012 § 2 Comentários
Cada vez mais preguiçoso para fazer resenhas comme il faut, prefiro remeter vocês ao exatíssimo texto de Ely Azeredo sobre Heleno em O Globo. Ele diz tudo o que me interessaria dizer.
Mas quero usar esse espaço para destacar um aspecto abordado rapidamente pelo Ely: o filmaço de José Henrique Fonseca “não se propõe a documentar a vida e a obra de Heleno de Freitas”. De fato, para quem anda chateado com a recorrente utilização de recursos documentais nos filmes de ficção brasileiros, notadamente os de caráter biográfico, Heleno é uma exceção refrescante. Não há traços de testemunho, arquivos ou improvisação naturalística (a não ser na cena da conversa com os internos do sanatório). As fotos do Heleno real nos créditos finais são apenas um lugar-comum bem vindo nesse tipo de filme.
Há uma falsa insinuação de “documento”, logo no início, quando a câmera percorre uma parede coberta de jornais com manchetes das artimanhas do ídolo botafoguense. Mas não demora muito para vermos que essa “cenografia” tem, na verdade, um valor dramático. A atitude de Heleno/Rodrigo Santoro simboliza, de certa forma, como o filme engole as referências documentais para dentro de seu organismo ficcional e as transforma num ensaio poético.
O Rio de Janeiro que está no filme é um Rio estilizado, quase uma projeção da megalomania e do hedonismo do personagem. Nesse sentido, lembra a Little Italy de Jake La Motta no Touro Indomável de Scorsese. Intuo no filme uma vasta e bem assimilada influência de Raging Bull, seja na composição do personagem fascinante e auto-destrutivo, seja na estética primorosa que une a fotografia preto e branco de Walter Carvalho à montagem cortante de Sergio Mekler; o uso dos corpos, dos closes, do slow motion, das brumas expressionistas.
Numa sessão verspertina ontem (sexta) no Espaço Itaú de Cinema, o público aplaudiu ao final. Ouvi, porém, alguém reclamar que o filme não exprime o lado glorioso do craque. Tem toda razão. Estamos a milênios do filme para torcedor ou para a posteridade deste ou daquele clube. Com sua estranha atmosfera fronteiriça entre a euforia e a depressão, a beleza e a abjeção, a vida e a morte, enfim, Heleno é, isso sim, um filme sobre um fantasma ainda vivo, patético e desesperado. O futebol é somente a circunstância.
Delícias turcas
agosto 14th, 2011 § Deixe um comentário
Diversão de domingo:
Eu já estive na Turquia, nos anos 1990, mas nunca tinha ouvido falar em pehlivan. Este é um esporte tradicional do país, uma luta corporal em que os contendores se enroscam lambuzados até a alma em azeite de oliva. A peleja, também conhecida como turkish wrestling, é derivada das lutas greco-romanas e tem regras bastante peculiares. Entre os objetivos principais está expor o umbigo do oponente e alçá-lo inteiramente do chão pendurando-o pela calça besuntada. Para isso vale – e deve-se – enfiar as mãos dentro da calça do outro, contanto que não apertem os testículos ou invadam o ânus do bravo combatente.
Descobri o estranhíssimo pehlivan através desse curta feito em 1964 por Maurice Pialat. Reparem que o enfrentamento tem todo um ritual prévio e é acompanhado por música percussiva. O misto de força viril e sensualidade quase homoerótica é intrigante.
Pehlivan é um dos seis curtas realizados por Pialat na Turquia em 1964, antes de fazer seu primeiro longa. Eram encomendas do governo turco, que lhe chegaram através de Samy Halfon, produtor de Hiroshima Mon Amour. Apesar do caráter chapa branca, esses filminhos são pequenas joias que merecem ser conhecidas. A fotografia quase sempre em preto e branco de Willy Kurant é prodigiosa. Em alguns, a música de Georges Delerue é extremamente evocativa. Byzance tem texto de Stefan Zweig.
Veja os demais no Youtube:
Istanbul / Byzance / La Corne d’Or / Maitre Galip / Bosphore
Muybridge bárbaro
abril 5th, 2011 § 3 Comentários
OS CAVALOS DE GOETHE
de Arthur Omar
O entusiasmo de Arthur Omar com esse seu novo trabalho é plenamente justificado. “Obra-síntese” e “testamento” são alguns dos termos que ele usa para dimensioná-lo. E de fato lá estão muitos traços importantes de sua ação em diferentes mídias: o caráter extático da junção de imagens e música; a aproximação entre o efeito digital e os cânones fundadores da imagem em movimento; as faces gloriosas; a ideia do combate esvaziado do aspecto espetacular e eivado de uma aura mítica; a intertextualidade como busca de uma expressão suprarreal; a proposta de uma percepção sensorial simultânea à percepção intelectual.
Goethe foi um poeta que se dedicou a reinterpretar o fenômeno da percepção das cores. T. S. Elliot foi um poeta que pensou a física e a metafísica nos seus Quatro Quartetos. Morton Feldman foi um músico que dissolveu os sistemas de composição do seu tempo e compôs um Quarteto de Cordas com seis horas de duração ininterrupta. Com esses três “parceiros”, Arthur Omar dedica-se a montar uma “Alquimia da Velocidade” (subtítulo do vídeo) a partir de cenas gravadas na sua já lendária viagem ao Afeganistão em 2002.
Trata-se de ver o esporte como um combate e o combate como um ato de cinema. O buzkaschi é o esporte national do Afeganistão. Numa arena, dezenas de cavaleiros disputam a carcaça de um bode, às vistas de uma plateia siderada. Arthur filmou o primeiro buzkaschi em Cabul após a queda dos talibãs, que o haviam proibido. Selecionou poucas imagens e montou uma suíte decomposta em movimentos lentíssimos, apenas interrompidos aqui e ali por súbitas e breves acelerações. No centro da arena, captados pela teleobjetiva, homens e cavalos se fundem num amálgama de carnes, panos e formas coloridas. Na plateia, em tratamento igualmente ralentado, homens vibram com o espetáculo ou encaram a câmera. A música de Morton Feldman e os versos de Elliot se alternam com trechos de um poema no idioma dári, que, sem legendas, servem apenas como elementos na formação de uma massa sonora impactante.
Descrever Os Cavalos de Goethe acaba sendo uma tentação vã, já que sua maior força está na energia poética que despeja sobre a sala de cinema. É a percepção do tempo e do movimento que se altera nesses tableaux quase imóveis, mas profundamente carregados de tensão e eletricidade. É a percepção do espaço que se intensifica na quase-tridimensionalidade das camadas de homens e cavalos, ou nos intrigantes efeitos de morphing, microfusões e inserções incluídos na edição que se sugere líquida. São os ecos das guerras no Afeganistão que nos chegam subliminarmente através daqueles corpos e rostos em lenta euforia. São os ecos do próprio cinema que se acotovelam nas cavalgadas de um Muybridge bárbaro ou nas irrupções ferroviárias de um Lumière digital.
Eu e alguns companheiros de sessão concordamos em que o grande efeito, o pleno poder de Os Cavalos de Goethe estão nos seus primeiros 50 minutos, havendo uma sombra de repetitividade e uma perda de potência nos 10 minutos finais. Seja assim ou não, acho que esse é o mais belo e vigoroso vídeo experimental do cinema brasileiro contemporâneo. E um dos melhores da carreira de Arthur Omar.
Curtas: poéticas da cidade
abril 2nd, 2011 § 3 Comentários
Quatro curtas da competição nacional veiculam uma poética de cidades na fronteira entre o registro documental e a colocação do espaço público em situação de performance. O ambiente mais rústico é o de A Poeira e o Vento, em que Marcos Pimentel volta a apurar seu olhar nas estruturas físicas e nos fluxos de ação de cidades mineiras. Aqui é a isolada localidade de Mogol, frequentemente açoitada pelos dois elementos do título. Pimentel assume um viés contemplativo frente à aridez e à escassez humana do povoado. Cria temporalidades paralelas entre pequenos blocos de (in)ação, realçando o aspecto primitivo e os longos silêncios do lugar.
Outro tipo de aridez é atribuído a Brasília pelo poeta Nicolas Behr, personagem principal de Braxília, de Danyella Proença. Fruto da geração mimeógrafo, Nicolas combate com versos e intervenções urbanas a racionalidade e a desumanização do Plano Piloto. Dentro da “inventada” Brasília ele inventou uma utopia-da-utopia chamada Braxília. O filme é bem melhor quando situa o poeta no corpo da cidade e procura estabelecer uma relação gráfico-lírica com sua monumentalidade – daí a poesia de Nicolas contradizer-se ao criticar e ao mesmo tempo nutrir-se da dureza da cidade. Mas quando o ouve comportadamente numa sala diante de estantes, Braxília trai sua proposta central.
O poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960) é homenageado por 20 artistas conterrâneos em Palavra Plástica, de Leo Falcão. Essa diversidade gera 20 microcurtas dentro do curta. Neles, a declamação de sonetos conjuga-se com recursos de toda natureza para formular situações e visualidades supostamente poéticas. A força de alguns momentos do filme e o perigo da dispersão vêm justamente dessa variedade. Recife surge amiúde tanto nas referências dos poemas quanto na encenação das performances.
Por fim, o menos bem-sucedido dos quatro é São Silvestre, de Lina Chamie, que se contenta em ser uma reportagem um tanto repetitiva sobre a célebre maratona que percorre ruas de São Paulo e tem seu ápice na Avenida Paulista a cada 31 de dezembro. O mau aproveitamento da câmera “corredora” é um exemplo do caráter um tanto genérico da abordagem. O enfoque na emoção acaba privilegiando autocelebrações vazias e os lugares-comuns da superação por maratonistas portadores de deficiência.
Quem dá bola para a paz?
novembro 13th, 2010 § 3 Comentários
O Odeon exibe hoje (sábado), na programação do IV Encontro de Cinema Negro Brasil África & Caribe, uma das novas produções da Cavídeo. É o longa Copa Vidigal, programado para as 18 horas. Luciano Vidigal dirigiu, Cavi Borges produziu junto com o Nós do Morro. Na tela, temperada com muito sambinha e pitadas de funk, transcorre uma temporada do campeonato de futebol criado no Morro do Vidigal pelo líder comunitário Cypa depois que uma guerra entre traficantes abalou a favela em 2006.
O mote da Copa Vidigal é “jogando pela paz”. O futebol seria um antídoto à violência, como costumam ser as atividades artísticas em tantas áreas de risco social. No entanto, o filme acaba denunciando uma contradição, na medida em que as rivalidades do torneio criam áreas de agressividade que por pouco não se mostram trágicas. A certa altura, o próprio Cypa é ameaçado de morte e tem de passar seis meses isolado com sua família dentro de casa.
Esse é apenas o clímax de uma atmosfera que oscila entre a euforia e uma tensão quase permanente nas imediações da quadra. O juiz é pivô frequente de querelas aguerridas. Os embates no campo geram discussões e porradas. Os jogadores xingam os adversários e suas torcidas com as piores ferramentas verbais. Cypa, pregador da paz e mestre da escolinha de futebol, é o primeiro a admitir que a “lei da favela” é diferente da lei do asfalto. “Aqui se respeita a lei porque se paga com a vida”, explica num misto ambíguo de crítica e elogio.
Além de Cypa, o filme tenta desenvolver outros personagens, entre os quais o bonachão Nélio, comerciante num ponto gay da praia de Ipanema. Mas o forte de Copa Vidigal, mais que os indivíduos e que a dramaturgia rala dos jogos, é a abordagem da favela nessa dialética difícil da guerra e da paz. A violência da competição será um simulacro pacificador ou uma perpetuação do clima de conflito?
Amor a Maradona
julho 6th, 2010 § 2 Comentários
Nos primeiros jogos da Copa, enquanto a seleção argentina ainda prometia na África do Sul, eu observava o comportamento de Maradona à margem do gramado e postava essa trovinha no Twitter:
“Ele pode ser pedante, pode ser cafona / Mas ninguém humaniza mais o futebol / Do que Diego Maradona”
Logo depois, chegava o pior dia na vida esportiva de Don Diego, a goleada de 4 x 0 impingida pela Alemanha. Paralelamente a esse drama-tango, saiu no mercado brasileiro o DVD do documentário Maradona por Kusturica. Quando o filme foi exibido no Festival do Rio de 2009, fiz uma pequena resenha, que reproduzo a seguir. Ainda não revi o filme desde então, mas acho que mantenho as palavras:
Diego Maradona encontrou um retratista à altura em Emir Kusturica. Ambos são vaidosos, viris, fanfarrões, competentes no que fazem e lotados de ressentimento contra certos poderes constituídos. Maradona, contra a FIFA (suposta responsável pelas vitórias do Brasil em Copas), a Inglaterra (Malvinas) e a direita dos EUA; Kusturica, contra o Ocidente que se opôs à Sérvia na guerra da Bósnia. Os dois se identificam e dividem o tempo de tela. Kusturica flagra, sublinha e partilha o culto ao baixinho argentino, um misto de canonização e folclorização brega, algo difícil de definir. Diego é comparado a Fallstaf, Gilgamesh, Deus e os Sex Pistols, apenas para citar alguns. Ele próprio se define como um iluminado, só obscurecido pelo diabo da cocaína. Não se trata de uma biografia, mas de um elogio indisciplinado, uma declaração de amor do cineasta ao jogador, uma insistente e afetada aproximação do mito Maradona à mitologia construída por Kusturica em seus filmes. Estamos no reino dos excessos e da bufonaria. Política, inclusive. Quem entrar nesse espírito vai sair bastante recompensado.
Agora convido você a ler um texto bem melhor sobre o Maradona que aparece nesse filme, das teclas de Leandro Calbente.
Futebol american way
junho 12th, 2010 § 4 Comentários
A bola já está rolando, o Cinefoot já rolou, e eu vou falar um pouco de futebol. No avião de volta de Madri, assisti a um documentário – lançado diretamente em DVD no Brasil – que conta a história do Cosmos de Nova York. O título brasileiro de Once in a Lifetime, O Mundo a seus Pés, refere-se a Pelé, o astro do filme e do time que quebrou o tabu do futebol nos EUA.
A rigor, o doc de Paul Crowder e John Dower trata menos de soccer que de business. A “extraordinária história do New York Cosmos” é contada como um empreendimento, ou melhor um capricho de três magnatas da Warner Communications que resolveram diversificar com ousadia nos anos 1970. Os empresários que bancaram o Cosmos não sabiam o que era uma cabeçada nem quem era esse tal de Pelé. Mas tinham dinheiro de sobra para comprar o mundo e saíram comprando. A investida em busca do passe de Pelé é contada como uma saga econômico-política. O advogado que acabara de contratar Dustin Hoffman para filmar Todos os Homens do Presidente foi despachado para o Brasil com uma oferta de 2 milhões de dólares. Pelé pediu 5. Fecharam em 4,5 milhões, mas só conseguiram levá-lo depois que Henry Kissinger entrou em campo para convencer o governo brasileiro a cedê-lo por dois anos.
Pelé aparece no filme ao som de Nessun Dorma, de Puccini. O futebol precisava ser explicado aos americanos como se fosse uma espécie de ópera, um grande espetáculo em dois atos para ser visto com apenas um intervalo. Esporte, para eles, era uma coisa cheia de interrupções para cerveja e salgadinhos. Não tinham paciência para acompanhar um fluxo de 45 minutos. Pelé chegou como um valor não só de técnica, mas de mídia, grife e investimento. Para que o esporte se estabelecesse, era preciso cativar as televisões e os fabricantes de quinquilharias. Já na primeira coletiva do rei, os jornalistas estavam convertidos em torcedores. Nos primeiros jogos, os companheiros de equipe tinham vontade de parar para ver Pelé jogar. Um torcedor aparece dizendo: “Vim ao estádio porque o cara vale 4 milhões. Eu tinha de vê-lo!”.
O Cosmos incendiou paixões, justificou a construção de um novo estádio, forjou a americanização dos jogos (shows no intervalo, mini-games para eliminar empates), virou motivo de festas com celebridades no Studio 54. Essa história toda é contada com estética de filme blaxploitation: ritmo funkado, telas divididas, tudo muito splash. A narração é de Matt Dillon. Uma ótima sacada é utilizar certos tipos de jogada como metáfora dramática para o que está sendo narrado. Bolas na trave, por exemplo, para sublinhar um momento de crise. O roteiro segue as etapas do modelo folhetinesco. À fase de afirmação segue-se a de crescimento. O Cosmos contrata craques do mundo inteiro, chegando a entrar em campo sem um único jogador americano. Compraram, entre outros, Beckenbauer, Carlos Alberto e aquele que viria a ser o pivô do terceiro ato: o artilheiro italiano Giorgio Chinaglia. A influência de Chinaglia sobre o fundador do clube, Steve Ross, somada ao seu temperamento arrogante e agressivo, faz dele o antagonista perfeito do bem-comportado Pelé.
Se o brasileiro dominou os anos de ouro do Cosmos, o italiano deu as cartas durante o período de decadência, já nos 80. Nenhum depoimento ajuda a entender como um clube, e por conseguinte todo o soccer, despenca do topo da popularidade e praticamente morre por não conseguir um contrato com a TV. É o esporte american way. A tese do filme é que as sementes plantadas pelo Cosmos germinaram no atual status do futebol nos EUA. A seleção americana vem disputando Copas do Mundo desde 1990 e teve desempenhos bastante competitivos em 1994 e 2002. Ocupa o 14º lugar no ranking da FIFA.
Vale a pena alugar O Mundo a seus Pés para um intervalo entre os jogos da Copa. O filme é bem consumido como uma biografia de astro de Hollywood, modelo em que se inspira. O assunto é o Cosmos, mas a estrela é Pelé. Ou melhor, o futebol brasileiro, mostrado como o maior espetáculo da terra. Pelé só aparece em (muitas) cenas de arquivo. Nos créditos finais, a informação de que o rei não concordou em ser entrevistado vem com um som explicativo: o de uma caixa registradora. Deduz-se que a verba do filme, ao contrário da do clube, era limitada.
Mandela, Médici, Lula
fevereiro 11th, 2010 § 4 Comentários
Invictus é um filme caretão, de roteiro didático e soluções simplistas. No fim das contas, se resume a mais um elogio americano da vitória e do emocionalismo como panaceia para divisões e conflitos. Mas, enquanto o assistia, vinham-me à cabeça alguns paralelos que divido aqui com vocês.
Primeiro: O engajamento do Mandela com a seleção de rúgbi de 1994 me lembrou muito o do Garrastazu Médici com a seleção brasileira na Copa de 1970. Claro, o contexto e a causa eram radicalmente diferentes. Médici usou o futebol para dissimular o auge da repressão política e da tortura, pretendendo dar um verniz popular ao governo ditatorial. Mandela, ao contrário, investiu no rúgbi para unificar simbolicamente o país, ainda dividido racialmente na aurora do pós-appartheid.
Mas os métodos eram muito similares. Abrangiam o envolvimento direto com os jogadores – Médici chegou a escalar Dario Peito de Aço –, a presença em estádios, visitas à concentração e principalmente o vínculo da seleção à vigente propaganda do Brasil Grande. Como os negros da África do Sul, a esquerda brasileira fingia torcer contra o escrete canarinho para não jogar água na bacia dos militares.
Embora mencionado em vários filmes, esse episódio ainda não mereceu um tratamento à altura no cinema brasileiro.
Segundo: Mandela é uma unanimidade mundial, a gente sabe. Mesmo assim, Invictus é uma peça de canonização do presidente. Não são poucas as sequências que terminam solenemente com uma frase edificante na boca de Morgan Freeman, na medida para ficar soando na consciência do espectador.
Nesse sentido, é muito mais enaltecedor que Lula, o Filho do Brasil. Mas, vindo da África e da lavra de Clint Eastwood, ninguém questiona isso. Mandela também aparece fazendo política miúda através de um meio não convencional como o esporte. Por aqui, acusou-se o filme de Fábio Barreto de despolitizar Lula, talvez por não tê-lo mostrado lendo Marx (que nunca deve ter lido mesmo) ou costurando altas estratégias num período em que isso ainda não existia.
São dois pesos e duas medidas para se apreciar um filme que fala diretamente a nossa realidade e outro que trata de uma realidade distante e romanceada.



