A voz humana

maio 17th, 2012 § Deixe um comentário

Pierre Perrault começou a fazer documentários no rádio, nos anos 1950. Colhia as falas de trabalhadores e gente comum para seu programa na Radio-Canada. Deixou-se seduzir especialmente pelas histórias dos pescadores, marinheiros e caçadores que viviam às margens do rio St. Laurent. Alguns desses personagens seriam levados ao cinema quando surgiram as câmeras leves e o som direto, no início dos anos 60. Pour la Suite du Monde (Para que o Mundo Prossiga), realizado por Perrault e Michel Brault em 1962, ia se tornar um clássico, o primeiro longa do cinema direto. Ele é um dos carros-chefe da Mostra Pierre Perrault, que chega ao Rio nesta sexta, 18, no Instituto Moreira Salles.

Com 31 documentários do diretor, produzidos entre 1958 e 1994, e mais três filmes sobre ele, a mostra vai percorrer seis capitais brasileiras apresentando o conjunto de um trabalho pouco conhecido por aqui. Perrault esteve no Rio, na Mostra do Filme Etnográfico, em 1996, quando se encontrou com Jean Rouch (na foto acima, PP, JR e Patrícia Monte-Mór). Mas quantos de nós já viram sua famosa trilogia sobre os habitantes da Île-aux-Coudres ou os filmes que ajudaram a construir uma ideia de cinema tipicamente quebequense?

Por se basearem fortemente na fala e nas tradições populares, os filmes de Pierre Perrault inspiraram um certo nacionalismo no Québec, espremido num país majoritariamente anglófono. Mas seu enfoque vai além do registro preservacionista e tangencia uma poética do real. Em Pour la Suite du Monde, por exemplo, a fascinação dos pescadores pelos marsouins (belugas, ou pequenas baleias brancas) é tão importante quanto o projeto de capturá-las. A pesca da beluga torna-se mais uma tradição a ser conservada no vilarejo muito católico, assim como as festas da Micarena (Meia-Quaresma) ou a devoção às “almas do purgatório”.

Por pouco essa opra-prima não existiria dessa forma. Perrault queria representar os habitantes da Île-aux-Coudres com atores profissionais. Foi o cineasta Fernand Dansereau quem apresentou Perrault a Michel Brault, levando o projeto para a seara então nascente do documentário de observação.

Na história do cinema documental, Pour la Suite du Monde representa uma revolução na ideia de reencenação. Se Robert Flaherty, em Nanook, o Esquimó e O Homem de Aran, dissimulou o fato de que estava encenando velhas práticas de pesca já em desuso, no filme de Perrault essa retomada é o próprio assunto do filme. Os ilhéus discutem como farão para reavivar um método abandonado havia quase 50 anos. Explicitamente, é o filme que os leva a se lançar mais uma vez à captura da beluga por meio de um cercado de varas no meio das águas. A câmera de Michel Brault (o cinegrafista de Crônica de um Verão) acompanha todo o processo de convencer os mais velhos, montar o aparato e mobilizar a vila para o grande momento. E por fim transportar uma beluga viva até um aquário em Nova York. Não há, portanto, encenação, mas uma ação deliberada de voltar-se para o passado a fim de manter viva uma tradição.

O prazer de ver o filme se espalha pela visão idílica da “Ilha das Avelaneiras”, a graça peculiar dos personagens e seu dialeto, a sensibilidade da câmera em seguir os passos e gestos das pessoas, a sutil passagem do encenado para o espontaneamente vivido.                        

Já no filme seguinte, La Règne du Jour (O Reino do Dia), Perrault adota um procedimento mais, digamos, rouchiano. Sete anos depois do filme anterior, ele volta à Île-aux-Coudres e convida o velho Alexis Tremblay, sua mulher e o filho para uma viagem à Bretanha (França), a terra de seus antepassados. O filme foi montado com as filmagens da visita, que durou um mês, e os comentários do trio de volta ao Québec. O que eles fazem é cotejar os modos de vida rural dos dois países, em busca de continuidades e contrastes entre a mãe-França e o “filho abandonado”, o Canadá francófono. O tema do filme é a busca de uma matriz étnica, assim como a ilustração de uma dialética entre tradição e modernidade.

La Règne du Jour testemunha uma evolução do cinema de Perrault na direção de um estilo mais solto e uma montagem mais liberta do tempo real, inspirados talvez na descontração dos personagens em suas raríssimas férias turísticas. A família Tremblay, com suas discussões ásperas entre pai e filho e o carinho rústico entre os velhos cônjuges, forma um conjunto de personagens inesquecíveis que atravessam esses dois filmes.

Desconheço o restante da obra de Pierre Perrault e como ele levou adiante o pioneirismo dos canadenses no cinema direto. Sei, porém, que se manteve fiel ao procedimento de propor uma atividade ou uma viagem a seus personagens para assim revelá-los em plena ação.

Cerca de 20 filmes dele podem ser vistos na íntegra no site do Office National du Film du Canada, mas com a desvantagem de estarem quase todos sem legendas – e não adianta muito saber francês para decifrar o québécois predominante. Daí a importância dessa mostra subtitulada em português no Instituto Moreira Salles. Nos dias 24 a 26, no mesmo local, um colóquio sobre a obra de Perrault reunirá 18 estudiosos do documentário, incluindo Michel Marie, Phillipe Dubois, Marc-Henri Piault, Silvio Da-Rin e Fernão Ramos.

Confira aqui a programação e outras informações sobre o evento.

Rio acima com Meirelles

março 28th, 2012 § Deixe um comentário

É Tudo VerdadeParalelo 10, o primeiro filme de Silvio Da-Rin depois do ótimo Hércules 56, combina diversas tradições do documentarismo brasileiro: o filme de viagem pela Amazônia, na trilha de pioneiros como Silvino Santos e Luiz Thomaz Reis; o filme de personagem, no caso o sertanista José Carlos Meirelles, suas ideias e dilemas; e o filme etnográfico, que reflete sobre o estatuto dos índios brasileiros.

Transcrevo a seguir a entrevista que fiz com o diretor para o material de imprensa do filme:

O que o motivou a subir o Rio Envira junto com José Carlos Meirelles?

Silvio – Em 2003, participando de uma filmagem em aldeia Kuikuro, no Xingu, reencontrei uma velha amiga, a jornalista Simone Cavalcanti, que trabalhava na área de comunicação da Funai. Com entusiasmo, ela me falou dos sertanistas. Fiquei fascinado por aquela categoria profissional tão particular – gente que dedicava a vida a atrair, fazer o primeiro contato e pacificar índios até então sem contato regular com a sociedade nacional. Atividade perigosa, que obriga a incursões longas na floresta, em regiões ermas, sem qualquer tipo de infraestrutura, expostos a agressões de animais selvagens e dos próprios índios.

Comecei a pesquisar o assunto e contei, de imediato, com a valiosa parceria do sertanista Wellington Figueiredo, já aposentado. Ele me introduziu à tese de doutorado Sagas Sertanistas, de autoria do antropólogo Carlos Augusto da Rocha Freire, trabalho de fôlego, que apresenta historicamente a tradição sertanista e entrevista os principais profissionais em atividade ou aposentados.

Wellington esperava que eu abordasse de modo panorâmico o trabalho dos sertanistas, uma verdadeira saga coletiva que começa mal com os bandeirantes e toma rumo humanista quando Rondon começa a desbravar o Centro-Oeste, no final do século XIX.

Mas eu tinha a convicção de que, para atingir o coração e a consciência dos espectadores, precisava abordar uma equipe específica e sua experiência localizada. Procurei então um sertanista ao mesmo tempo experiente, carismático e bom fabulador, que tivesse desenvolvido trabalho com resultados concretos em alguma parte da Amazônia. Descartei sucessivas opções até me fixar em José Carlos Meirelles, criador da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira – FPERE, no Acre. Continue lendo

Ladrões e Bicicletas

novembro 30th, 2011 § 1 Comentário

Não sei se tem a ver com a minha chegada, mas ontem (terça) a chuva se foi e o sol se abriu sobre Belo Horizonte. No Palácio das Artes, a turma boa do Fórum Doc BH ocupava o Cinema Humberto Mauro e o café adjacente. Uma pena que a livraria Letras e Artes esteja desmobilizada. Mas bem em frente, no Conservatório de Música, é possível encontrar as atraentes edições da UFMG com 20% de desconto. Nada mau.

No cinema, tive dois programas principais ontem. Ao ver Bicicletas de Nhanderu, deu até pra entender por que houve certa rejeição dos índios guaranis ao filme, mesmo tendo sido feito por dois deles, Sandro Ariel Ortega e Patrícia Ferreira. O assunto é a perda da espiritualidade por parte dos Mbya-Guarany. Enquanto um líder da tribo coordena a construção de uma “casa de reza”, vemos um painel de comportamentos nada espiritualizados entre os índios: festas, jogo, cerveja, conversas sobre ganhar dinheiro com os filmes, crianças imitando Michael Jackson e pedindo restos de pão em casas de brancos.

O título do filme se refere ao ser humano, que para os Mbya-Guaranys seriam meros veículos dos deuses. Há certo realismo da parte do líder espiritual ao reconhecer que a pureza absoluta é impossível num mundo feito de imperfeições. O cotidiano da aldeia Koenju, no Rio Grande do Sul, revela essa imperfeição numa escala raramente vista por filmes realizados por índios. Mesmo para os padrões não conformistas da Vídeo nas Aldeias, Bicicletas éuma ousada investigação para além dos estereótipos dos indígenas simpáticos, modelares e ciosos de sua herança cultural.

A outra sessão memorável da terça-feira me trouxe de volta a alegria de quando vi pela primeira vez Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos, nos anos 1970. Contando a história de um grupo de favelados que rouba o equipamento de cinema de uma equipe estrangeira e resolve fazer a sua própria versão de Tiradentes, o filme tira um sarro hilariante do cinema dominante no Brasil à época (1977). A onda do filme histórico-literário, estimulado pela ditadura militar e patrocinado pela Embrafilme, sofre aqui uma espécie de estupro. A estética popular se apossa dos meios de produção, transforma a História oficial em carnaval e a favela em cenário épico. A operação é magistralmente levada a cabo num modelo de espetáculo que bebe nas chanchadas, nos programas humorísticos de TV e nos desfiles das escolas de samba. A antropofagia se faz não somente sobre o estrangeiro, mas também sobre as formas de expressão nacionais, inclusive com Grande Otelo repetindo um pouco seu papel em Rio Zona Norte, mas agora tentando vender um argumento cinematográfico.

Após a sessão, aplaudida com força e gritos, Jean-Claude Bernardet praticamente saiu da tela – do papel do francês Claude Rouch, que fornece negativos para os cineastas-favelados – para comentar o filme diante da plateia. Ele fez sua habitual leitura política, chamando atenção para o “limite ideológico” que levou Coni e o roteirista Sergio Sanz a, de um lado, fazerem os favelados absorver a cultura intelectual dos livros de pesquisa e, de outro, pontuar alguns questionamentos sobre o papel de Tiradentes, um branco rico e de patente, como herói supremo da História do Brasil.

Em tempos de revisão da chanchada e tantas discussões sobre a fusão entre ficção e documentário, cultura de elite e cultura de periferia, um relançamento de Ladrões de Cinema seria uma tacada de mestre.

Ontem foi exibido também Santos Dumont: Pré-Cineasta?, de Carlos Adriano, já bastante comentado aqui no blog. O “mineiro pra lá de bom” deu o recado em sua terra natal. Adriano está acertando direitos de músicas e imagens para finalmente lançar seu premiado ensaio nos cinemas.

Três dias no Fórum

novembro 29th, 2011 § Deixe um comentário

Atendendo ao gentil convite de Aline Ferreira, vou enfim conhecer in loco o Fórum Doc BH – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte. Eles estão em festa de 15 anos – o tempo em que eu os acompanho à distância, por exiguidade de agenda e falta de oportunidade. Minha estada vai ser curta – três dias a partir de hoje (terça) – mas acho que é um bom período para sentir a força do evento.

Hoje à noite, por exemplo, vai ser ótimo rever Ladrões de Cinema em sessão comentada por Jean-Claude Bernardet. Fernando Coni Campos (1933-1988) é homenageado com uma retrospectiva, que pretende contribuir para tornar esse realizador um pouco menos “objeto estranho” na cinematografia brasileira. Amanhã à tarde, todos os olhos estarão voltados para a sessão especial do novíssimo A Voir Absolument (Si Possible) – Dix Années aux Cahiers du Cinéma, 1963-1973, de Ginette Lavigne, Jean Narboni e Jean-Louis Comolli (este, um verdadeiro ídolo do Fórum). Na quinta, se me deixarem entrar como ouvinte, vou assistir à primeira aula do curso de Eduardo Escorel, intitulado Dilemas da Observação.

Basta folhear o catálogo do Fórum 2011 (online aqui) para perceber que este é um dos festivais de cinema mais cultos do país. Organizado por gente saída da academia e ligada aos Estudos de Cinema, tem como meta não só exibir filmes, mas também aprofundar questões caras ao cinema não puramente ficcional. Assim, além da mostra competitiva com os filmes da temporada, há outros segmentos de caráter mais especulativo. A mostra/seminário deste ano é dedicada às relações entre homens e animais através do cinema. Outra mostra, igualmente acompanhada de debates, está apresentando o cinema dos povos originários da Bolívia e do México.

Cada um dos setores do Fórum mereceu um ou mais textos no catálogo, que tem corpo e densidade de um bom livro. O texto de apresentação, assinado por nada menos que 26 pessoas, reflete a postura de um evento descentralizado, fruto não de um projeto de empreendimento, mas de uma reunião de amigos dispostos a exercer a paixão e o zelo pelo cinema e as ideias em torno dele. Sintomaticamente, essa apresentação conclui referindo-se a “uma pequena comunidade, leve e dispersa – e isso confere um mistério a esse festival – que se materializa nas primeiras filas da sala Humberto Mauro, em um período de breves e densos dias do ano para assistir e conversar sobre filmes, que certamente nunca teríamos chance de ver e compartilhar se não os projetássemos nós mesmos. Foi por isso que fizemos”.

Nos três dias em que me juntarei a essa comunidade, pretendo passar minhas impressões pelo Twitter e Facebook. Se houver tempo, volto aqui ao blog.

Crônicas do fim do mundo

novembro 24th, 2011 § Deixe um comentário

Apesar do sobrenome, o doc-artista catalão Carlos Casas não parece muito enamorado pela ideia de ficar em casa. Longe disso, ele escolheu lugares extremos do mundo para fazer seus filmes bastante peculiares. Sejam madeireiros da Patagônia argentina, sejam pescadores do Mar do Aral ou caçadores da Sibéria profunda, seus personagens são figuras desgarradas em paisagens imensas, pessoas convivendo quase que só consigo mesmas e com uma natureza inóspita e esmagadora.

Carlos Casas estará amanhã (sexta) no Instituto Cervantes (Rua Visconde de Ouro Preto, 62, Botafogo), a partir das 19 horas, num evento do Festival Multiplicidade. Vai abrir a exposição End, de fotos tiradas durante as expedições que geraram a trilogia homônima de filmes. Na ocasião, será exibido o terceiro tomo da trilogia, Hunters Since the Beginning of Time, sua odisseia siberiana. Em seguida, ele fará um bate-papo público com o documentarista Bebeto Abrantes e comigo.

Hunters (foto acima) é a coroação de uma maneira toda própria de filmar lugares e homens. Se quisermos fazer aproximações indicativas, podemos imaginar Robert Flaherty menos a dramatização e Werner Herzog menos a retórica. Casas faz uma espécie de observação radical da rotina de seus personagens. Articula uma dimensão épica – a árdua extração vegetal ou animal nos imensos cenários naturais – e uma visão intimista das pessoas dentro de casa, em suas refeições e hábitos domésticos. Combina também o desejo etnográfico de informar, ainda que sem entrevistas e quase nenhuma narração, com a busca da beleza, sempre impactante nessas geladas bordas do planeta.

A câmera, manipulada pelo próprio diretor, raramente se atrela ao movimento dos objetos filmados, mas mantém-se em escolhas impassíveis, ora fixa, ora em lentas panorâmicas laterais que lembram as de Jia Zhang-Ke. Ou seja, o estilo subjuga a realidade filmada, traduzindo não a procura de um decalque, mas a criação de um terceiro objeto a partir da soma realidade+cinema.

A Trilogia End foi iniciada há dez anos com Solitude at the End of the World, na Patagônia (foto à esquerda). Ali já se impunham os personagens solitários em cenários ermos, os solilóquios de gente ensimesmada, a trilha atmosférica mais baseada em pulsões sonoras que em música e uma certa tendência à contemplação, na medida em que o tempo das tomadas absorve algo da temporalidade esgarçada daquelas lonjuras.

Em seguida veio Fishing in an Invisible Sea (foto à direita), rodado entre pescadores nos 20% que sobraram do Mar de Aral (na verdade um grande lago), no Caracalpaquistão (ex-URSS). Ali os moradores remanescentes esperam o mar e os peixes “voltarem” num mítico ciclo de 40 ou 50 anos após a desertificação quase total. Dos três, este é o único filme que possui alguma narração, repartida entre os representantes das três gerações enfocadas. E também o único que contém uma sequência de diálogo efetivo entre personagens.

Por fim, Hunters me parece a obra-prima de Carlos Casas. Ao concentrar-se na dualidade básica da sobrevivência, caçar e comer, ele chega ao âmago de sua proposta. O tempo do filme é o tempo das tocaias na divisa entre neve e mar. A beleza congelada do lugar sugere às vezes cenários de ficção científica, enquanto as lentes captam cromatismos indefiníveis, mágicas refrações de luz e composições fascinantes. As cenas da caça à baleia, filmadas no interior de um barco, são igualmente de tirar o fôlego.

No encontro do Instituto Cervantes, vamos conversar sobre isso e muito mais. Carlos Casas vai falar das diversas formas como vem apresentando a Trilogia End ao redor do mundo, inclusive em instalações. No Rio de Janeiro, ele já produziu com Batman Zavareze, diretor do Multiplicidade, o vídeo Rocinha – Daylight of a Favela.

Se quiser saber mais sobre Casas e ver alguns de seus trabalhos, use os links abaixo:

Site do artista
Carlos Casas no blog Multiplicidade
Videos de Carlos Casas no Vimeo
Filme da Patagonia
Filme do Aral

Vida de antropólogo

novembro 21st, 2011 § 2 Comentários

Ao olho seco da teoria, biografia e filme etnográfico não têm muito em comum. A biografia é uma construção voltada para o tempo, uma ordenação mais ou menos cronológica de fatos da vida de alguém. Na imensa maioria das vezes, enfoca indivíduos isoladamente. O filme etnográfico, por sua vez, é coisa que se faz no espaço, na presença viva da câmera, no registro direto. Geralmente se interessa por grupos sociais e práticas culturais que transcendem o indivíduo.

É claro que, na prática, nada disso é rígido, dada a liberdade crescente no reino tanto das biografias quanto dos filmes etnográficos. Mas a discussão certamente vai passar por aí na mesa redonda que integrarei amanhã, na Mostra Internacional do Filme Etnográfico (terça, 18h, no Museu da República). Comigo estarão os cineastas Rolf Husmann, Nora Bateson e Joel Pizzini, além do diretor da mostra, José Inácio Parente.

A composição da mesa traz uma curiosa particularidade: os três cineastas estão exibindo na mostra perfis biográficos de antropólogos e/ou diretores ligados à antropologia visual. Husmann tratou de Asen Balikci, um expoente e inovador do filme etnográfico por décadas. Nora fez um retrato de seu pai, Gregory Bateson (1904-1980), grande pensador da antropolgia e da comunicação. Pizzini recolheu ecos da passagem do sueco Arne Sucksdorff pelo Pantanal matogrossense nos anos 1970. De alguma forma, meus três colegas de mesa enfrentaram o desafio de tratar da vida de alguém cujo trabalho foi sempre tratar de vidas alheias. Certamente vamos conversar sobre isso.

Um ponto de partida possível serão as diferenças de tratamento que encontramos nesses três filmes, marcadas pelas distintas relações entre cada realizador e seu personagem.

Dos três, The Professional Foreigner: Asen Balikci e a Antropologia Visual talvez seja o mais próximo de uma biografia tradicional. Com o veterano mas ainda vivo Asen Balikci, o diretor Rolf Husmann ocupa o lugar do colega de profissão e admirador. O filme se organiza, então, como uma série de encontros entre os dois nos diversos cenários em que Balikci viveu, filmou e ensinou a fazer filmes etnográficos. Em caminhadas e conversas por Istambul, Londres, Bulgária e nos Himalaias, Husmann entrevista Balikci sobre os diversos momentos de sua vida e carreira, assim como o interroga sobre questões específicas da antropologia visual. Temos, então, uma biografia quase sempre em primeira pessoa. Balikci mostra casas onde viveu ou trabalhou, descreve situações, reencontra um personagem de antigo filme seu e confessa que foi movido pela culpa e a vontade de retribuir que ele passou a instruir nativos na documentação de seus ambientes. Outra revelação interessante faz eco aos métodos de Flaherty em Nanook: Ao filmar os esquimós do norte do Canadá, na década de 1960, Balikci optou por reconstituir a caçada com caiaques que já tinha sido abandonada há tempos.

Nesse filme, o contato direto, o aspecto nômade, o tom de camaradagem e a curiosidade profissional de Rolf Husmann aproximam de certa forma a empreitada biográfica de um modelo de abordagem etnográfica. Veja o trailer.

Já o filme que Nora Bateson fez sobre seu pai, o multipensador Gregory Bateson (1904-1980), leva a circunstância familiar até ao slogan do cartaz: “A daughter’s portrait”. Nora assume diversas “funções” no filme: relembra os ensinamentos do pai desde sua infância, ajuda a explicar algumas ideias dele e ainda protagoniza pequenos ensaios ilustrativos chegados à videoarte. An Ecology of Mind lança mão ainda de gravações de palestras de Gregory, depoimentos de outros cientistas, animações e textos na tela. Poucos dados biográficos são espargidos aqui e ali, mas o foco está no pensamento do ex-marido de Margaret Mead. Ele explorou incansavelmente as fronteiras da nossa percepção a respeito do mundo. Ressaltou sempre que não existem definições estáticas para tudo o que se refere aos seres vivos, mas tão somente interrelações, interdependência, conexões e mudança incessante. No filme, palavras e imagens se juntam para clarificar conceitos como “a diferença que faz a diferença”, “duplo vínculo” e a própria expressão que dá título ao filme.

An Ecology of Mind é um esforço de compreensão de sistemas de pensamento complexos. Assim como Gregory Bateson fazia em suas palestras, usando desenhos e ilustrações prosaicas, Nora também tenta traduzir as ideias do pai para o campo das imagens. Apesar da trilha um tanto chill out, é um filme intelectualmente denso, que não cede às facilidades do elogio nem da celebração. Conheça o site oficial.  

Por fim, o ensaio de Joel Pizzini sobre Arne Sucksdorff (1917-2001) recorre a expedientes de natureza mais poética que retórica. Em Elogio da Graça, ele evoca o trabalho do cineasta sueco no Mato Grosso através das lembranças de sua viúva brasileira, Maria da Graça Sucksdorff, que Arne conheceu quando preparava as filmagens da série Mundo à Parte, em 1970. Se essa série de História Natural (produzida pelo IBDF) incorporava seu próprio making of e tematizava a vida do casal, Elogio da Graça quer ser uma espécie de eco. Joel é outro cineasta que chega ao Pantanal e pede a Maria da Graça que não apenas conte a sua história, mas também repita gestos e olhares que foram plasmados quase 40 anos antes pela câmera de Arne. A montagem cuida de criar belíssimas conexões entre os dois tempos, como a frisar que ambos pertencem a um só fluxo, o do cinema.

Longe de ser um perfil do cineasta de Ritmos da Cidade, Fábula e vários filmes sobre o Brasil, Elogio da Graça pode ser visto como uma biografia mínima do casal Sucksdorff. Juntos, Arne e Graça geraram dois filhos, alguns filmes, um livro e uma memória que o Brasil ainda precisa conhecer melhor. Veja o trailer.

Buffet etnográfico

novembro 16th, 2011 § Deixe um comentário

Cooking Up Dreams (Peru)

O calendário de festivais de cinema no Rio ficou com uma lacuna irreparável no ano passado. Por dificuldades na busca de patrocínio, Patrícia Monte-Mór e José Inácio Parente não puderam realizar a Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Este ano, felizmente, a mostra volta em sua 15ª edição com toda força e patrocínio da Eletrobrás, Secretaria de Cultura do Estado do RJ e Prefeitura/Riofilme. Na abertura hoje à noite para convidados, será exibida a co-produção luso-brasileira O Manuscrito Perdido, de José Barahona.

A partir de amanhã (quinta) e até o dia 24, o Museu da República vai abrigar exibições na sala de cinema, nos jardins e nas quatro cabines de visionamento. Nestas últimas, o espectador faz seu próprio programa com todos os filmes da mostra e mais a coleção completa do Etnodoc. Dos 350 filmes inscritos, a programação vai reunir mais de 100, realizados no Brasil e em outros 16 países. José Inácio Parente destaca não só a quantidade de trabalhos, mas a liberdade crescente na linguagem dos filmes, muitos dos quais se desprendem do modelo tradicional de entrevistas + material de arquivo.

Além do habitual Laboratório do Filme Etnográfico – este ano com Angela Torresan, professora brasileira da Universidade de Manchester/Granada Centre, já com inscrições encerradas –, haverá um fórum de debates envolvendo diretores brasileiros e estrangeiros com filmes na mostra. Vários desses filmes são perfis biográficos de antropólogos: An Ecology of Mind foi dirigido por Nora Bateson e versa sobre as ideias de seu pai, o antropólogo Gregory Bateson, casado com Margaret Mead; The Professional Foreigner: Asen Balikci and Visual Ethnography, de Rolf Husmann, discute o fazer do filme etnográfico a partir da trajetória de um de seus expoentes; Elogio da Graça, de Joel Pizzini, é um carinhoso retrato do cineasta Arne Sucksdorff a partir das lembranças de sua esposa brasileira, Maria da Graça Sucksdorff. É interessante notar que esse foco temático coincide com um momento do cinema brasileiro em que estão prestes a entrar em cartaz Paralelo 10, de Silvio Da-Rin (sobre o sertanista José Carlos Meirelles) e Xingu, de Cao Hamburger (ficção sobre os Irmãos Villas-Boas).

Eu vou mediar uma das mesas do fórum, sobre Biografia no Filme Etnográfico, com participações de Nora Bateson, Rolf Husmann e Joel Pizzini. Outras mesas terão os realizadores de As Hiper Mulheres e o francês Emmanuel Grimaud, cujos trabalhos de antropologia visual podem enfocar tanto o gestual dos cineastas de Bollywood como os movimentos de máquinas e robôs.

A mostra vai ser uma boa chance para quem ainda não viu filmes brasileiros recentemente elogiados e premiados. É o caso de Marcelo Yuka no Caminho das Setas, Angeli 24 Horas, Cinematógrafo Brasileiro em Dresden, Terra Deu Terra Come, Copa Vidigal, Babás, Avenida Brasília Formosa, Walachai, Terras, As Batidas do Samba, A Falta que me Faz, Acercadacana, Icandomblé, Soldados da Borracha e Formas do Afeto: Ensaio sobre Mário Pedrosa. Emilio Domingos vai estrear o seu Quando Xangô Apitar, mais um doc ambientado no inesgotável samba da Mangueira.

Entre os filmes internacionais, uma atração que reputo imperdível é Pink Saris, de Kim Longinotto. Folheando o catálogo on line, já agendei conhecer os seguintes: Awareness, o último rebento do inefável casal David e Judith MacDougall, de quem será exibido também o clássico Lorang’s Way; The Lover and the Beloved: a Journey into Tantra; Cooking up Dreams (sobre o papel social da gastronomia no Peru), Djeneba (retrato intimista de uma família do Mali) e Kings of the Beetles (uma competição de besouros-rinocerontes na Tailândia filmada pelo convidado Emmanuel Grimaud).  

As homenagens do evento este ano se dirigem ao cineasta Adrian Cowell, que muito e bem filmou a Amazônia brasileira, e à escritora e pesquisadora Lélia Coelho Frota, uma grande amiga da Mostra.

A mão que aperta o queijo

outubro 1st, 2011 § 3 Comentários

A piada é velha, mas a ocasião é nova. Diz que o mineiro encontrou o gênio da garrafa e foi instado a fazer três pedidos. “Um queijo, uma mulher bonita e outro queijo”, ele pediu. O gênio estranhou: “Por que você pediu dois queijos e uma só mulher?”. Ao que o mineiro respondeu: “É que eu fiquei com vergonha de pedir três queijos”.

O traço de cultura que gerou esse tipo de anedota é o substrato do doc O Mineiro e o Queijo. (veja o site e o trailer). Nos debates e apresentações que antecederam o lançamento, o foco quase sempre se concentrou na questão do queijo minas artesanal autêntico, fabricado em pequenas fazendas das serras das Gerais, e sobretudo na restrição que ainda existe a sua circulação nacional. Mas o filme do mineiro Helvécio Ratton tem sua identidade e sua simpatia calcadas no binômio do título. É tanto um filme sobre o queijo quanto sobre um certo modo de vida de quem o fabrica. Falar de mineiro e falar de queijo, aprendemos, no fundo é quase a mesma coisa.

O queijo conduz as rédeas do roteiro, mas quem dá as cartas são os queijeiros do interior, com sua prosódia peculiar, seu jeito amoroso de se referir ao queijo e chamar as vacas pelo nome, sua timidez bem-humorada. Do ponto de vista etnográfico, trata-se de um trabalho clássico. Fala das origens e da tradição do queijo artesanal, produzido por gerações sucessivas das mesmas famílias na Serra da Canastra e nas regiões do Serro e do Alto Paranaíba. Mostra em detalhes o processo de fabrico, da teta da vaca aos balcões do mercado. Discute as questões do comércio e o “imperialismo higiênico” que faz uma regra de inspiração americana dos anos 1950 prevalecer até hoje para impedir que o queijo artesanal mineiro seja vendido fora do estado. Legalmente, pelo menos, já que o trânsito clandestino e as intermediações são tolerados e quiçá estimulados.

Nesse sentido, O Mineiro e o Queijo se alinha a uma tendência contemporânea do documentarismo internacional, empenhada em valorizar a produção alimentícia local, orgânica e artesanal, em oposição aos gêneros industriais e ecologicamente não-sustentáveis. O americano Food Inc e o francês Soluções Locais para a Desordem Global são exemplos recentes. O queijo minas artesanal – não padronizado porque varia com o tempo, as temperaturas e até a pressão da mão de quem o fabrica (“aperta”), aparece aqui como uma reserva de personalidade e um reconhecido patrimônio cultural. As indústrias de laticínios seriam os grandes lobistas por trás das restrições à exportação doméstica do mineirinho, muito embora não pese nenhuma restrição à entrada de queijos similares vindos do exterior.

Helvécio Ratton não se interessou por ouvir os defensores da lei federal de 1952 (veja comentário do realizador),  o que representa um evidente partis-pris na retórica do doc. Afinal, a intenção é mesmo de exercer um papel político na discussão do assunto e na defesa dos artesãos. Mas não é por atender a essa função estratégica que o filme deixa de ser atraente como informação e divertimento. O caráter do mineiro profundo encanta e provoca um certo humor etnográfico. Eis uma categoria que pode soar politicamente incorreta, mas não é assim quando a graça brota da mais pura espontaneidade e de uma visão não preconceituosa. Os conterrâneos que Helvécio foi buscar nos ermos das Gerais, obcecados pelo “queijin” nosso de cada dia”, são gente que certamente gostaríamos de visitar. E visitar com mais calma e mais gosto do que é possível entrever pela câmera na mão e a montagem, mais preocupadas em informar do que em fazer sentir os ambientes. Ainda assim, para além das atribuições políticas e etnográficas, o filme é delicioso em muitos outros sentidos.

A política está na mesa

setembro 18th, 2011 § 2 Comentários

O interior do Cine Pireneus

Ficou com fome quem veio ao Slow Filme, em Pirenópolis, à cata de regabofes como A Festa de Babette ou delicatessen como Ratatouille. Este é um festival de cinema político, aliás como poucos outros no Brasil. A alimentação aqui é uma via de acesso ao funcionamento da sociedade, uma vitrine para a divulgação de práticas revolucionárias no uso da terra e dos recursos alimentares. Uma tribuna dos pequenos contra os grandes. O festival está terminando hoje (domingo).

Acho que foi neste delicioso Cine Pireneus, na sexta passada, que se deu a primeira exibição brasileira do longa francês Soluções Locais para a Desordem Global, um filme que praticamente resume o espírito do festival. É um libelo contra a agroindústria e a exploração dos agricultores pelas multinacionais das sementes compulsórias e dos fertilizantes químicos. Durante três anos, Coline Serreau viajou por quatro continentes coletando depoimentos e histórias de quem reage contra a mercantilização desmesurada da alimentação. Da Ucrânia à Índia, da França ao Brasil, ela entrevistou ativistas, filósofos, economistas e agricultores. O MST brasileiro tem papel de protagonismo, não como a brigada ideológica que a direita brasileira teima em pintá-lo, mas como um exército de gente comum em busca de soluções locais e independentes. A policultura em espiral praticada no Sul, por exemplo, e chamada de “agricultura companheira”. É claro que sobram farpas contra o projeto de etanol do governo Lula numa conversa entre João Pedro Stédile e a veneranda agrônoma Ana Primavesi.

Coline Serreau não perde a oportunidade de dar seu habitual viés feminista ao assunto. O tratamento exaustivo da terra, a corrida pela produtividade em troca da sustentabilidade, a industrialização desenfreada são apontados por vários participantes como uma masculinização da agricultura, que tanto podem reverter quanto mais esse métier seja devolvido às mulheres. Nesse raciocínio de gênero, até o contumaz genocídio de fetos femininos na Índia pode estar ligado a essa supressão das mulheres do cenário do suprimento alimentar no mundo.

O curador do Slow Filme, Sergio Moriconi, fez escolhas corajosas, algumas até radicais. O curta O Jantar, por exemplo, faz um comentário mordaz sobre a atualidade húngara através do som do rádio enquanto um homem sofre um acidente fatal no seu chiqueiro, e o cadáver fica dias por lá, ante a indiferença da família, até ser devorado pelos porcos. No doc iraniano Gato e Rato, acompanhamos a saga dos meninos catadores de restos de pão para a indústria de reciclagem, um trabalho de Sísifo que parece fazer uma ponte entre a era industrial e os tempos medievais. No Senegal, meninos mendigam pão nas ruas para vender no mercado negro de pão dormido (O Pão Nosso de Cada Dia). Na Índia, Comida, Sempre Comida faz um corte transversal da sociedade através dos hábitos alimentares, destacando a luta dos vendedores de rua para fazer face à polícia corrupta que os reprime para dar lugar às cadeias de fast food. Na Polônia, Milkbar enfoca a decadência das cantinas populares ex-comunistas, assoladas pela atual miséria financeira da população. Do Uzbequistão veio um impressionante doc sobre o progressivo encolhimento do Mar de Aral, que transformou um vilarejo de pescadores numa cidade-fantasma em meio à desolação de um deserto salgado.

Ou seja, o Slow Filme não veio pra bolinho. Isso não quer dizer que não haja diversão. O curta de animação francês O Santo Banquete, por exemplo, narra com bandejas de humor negro a história de um ogro que não consegue atingir sua meta de comer criancinhas no dia festivo dedicado a isso. Os curtas catarinenses Histórias da Cerveja em Santa Catarina e Cerveja Falada são fermentados em humor etnográfico colhido na expressão regional e no carisma de alguns personagens.

Esse humor etnográfico, carinhoso e cativante, temperou muitos filmes da programação e transbordou no longa O Mineiro e o Queijo, de Helvécio Ratton, outro que soou como síntese dos conceitos do Slow Filme. Ainda vou me estender mais sobre esse doc quando do lançamento dia 23 em BH e dia 30 no Rio e São Paulo. Esse mergulho profundo numa Minas secular, a dos produtores do queijo artesanal, isolados nas montanhas do Serro e da Canastra, tem tudo para agradar quem gosta de docs e de gastronomia. Ele nos leva aos currais, às pequenas quejeiras e a um processo de fabricação em que as mãos têm importância fundamental. Mas a dimensão política do filme é enfatizada, denunciando as normas sanitárias (alegadamente obsoletas e alienadas da realidade brasileira) que impedem o autêntico queijo Minas de ser vendido fora do estado.

Carmem Moretzsohn e Gioconda Caputo, organizadoras do Slow Filme

Festival pequeno, mas com identidade forte e organizado com simpatia e eficiência pela equipe da Objeto Sim, o Slow Filme fez circular sua mensagem num ambiente propício. Na graciosa Pirenópolis, vivemos uma grande proximidade com os frutos diretos da natureza. Em cada prato ou guloseima, sentimos mais a mão do homem do que as esteiras da indústria. Isso é comida para o pensamento.

O Brasil visto do alto

junho 3rd, 2011 § 4 Comentários

O segundo lançamento da Sessão Vitrine traz ao Cine Joia, no Rio, um dos documentários mais polêmicos das últimas safras. Um Lugar ao Sol não é aquele velho clássico de George Stevens sobre ascensão social, mas um filme sobre assunto análogo. Retrata oito pessoas ou famílias que moram em coberturas de luxo no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. As coberturas, para o diretor Gabriel Mascaro, foram um caminho (um dispositivo) para chegar ao pensamento de um estamento social pouco visitado pelos docs brasileiros.

O filme foi muito discutido em festivais por conta do retrato pouco lisonjeiro que faz de alguns personagens e pela ética duvidosa com que Mascaro deles se aproximou. A produção contatou os entrevistados através de um folheto que apresentava Gabriel como um famoso diretor de publicidade internacional, interessado em conversar sobre a moradia em coberturas. No curso de algumas entrevistas, o tema acabava deslizando para os preconceitos e sentimentos de superioridade e segurança que alimentam o apartheid social nas grandes cidades brasileiras. Sentindo-se num contexto publicitário, as pessoas deram vazão a uma franqueza que talvez não tivessem em outra situação.

Nem tudo no filme é exaltação da diferença. Há também considerações sobre espaço, liberdade, conforto, verticalização urbana etc. Há personagens relativamente matizados. Mas dificilmente o doc não será lembrado pelas cenas explícitas de arrogância social. Um dos personagens elogia a direção por finalmente fazer um documentário sobre “uma coisa positiva”. Não intuía o quadro geral que o filme acabaria por descortinar: o de uma elite dominada pelo medo e o complexo de superioridade.

A ausência de informações sobre o processo de abordagem das pessoas e dos assuntos provoca mal-estar em parte dos espectadores, entre os quais me incluo. Embora admire a força do filme e a originalidade do tema, sinto-me presenciando o efeito de um ardil. Teria o diretor “traído” seus personagens ao estimular neles a demagogia e o preconceito? Deve-se ter com os ricos a mesma ética que se costuma ter ao filmar os pobres, ou seja, protegê-los de suas próprias palavras? São questões que vêm à cabeça depois de vermos o filme. Há mesmo um momento em que uma senhora parece cair em si a respeito do intuito da entrevista, pede para interrompê-la e sai da sala para não mais voltar.

Outros, porém, veem o resultado com naturalidade. Lembro-me de conversas que tive no Festival de Tiradentes em 2010. “Essas pessoas são cultas e informadas o suficiente para saberem o que estavam falando”, dizia Sylvie Debs, então adida cultural da França em Belo Horizonte. Para o ensaísta e professor Cezar Migliorin, havia até certa justiça poética na conduta dos realizadores: “Às vezes a gente tem mesmo que escolher o inimigo e, dependendo do inimigo, partir para a violência”.

É, pode ser.

>>> Um Lugar ao Sol passa diariamente às 19h30 no Cine Joia até a quinta-feira próxima.

A experimentação baiana

fevereiro 18th, 2011 § Deixe um comentário

(Texto de Rubens Machado Jr.*, publicado na caixa de DVDs Bahia, 100 Anos de Cinema)  

“Gato/Capoeira”, de Mario Cravo Neto

Forasteiros, podemos ter às vezes a impressão de que o cinema baiano traz sempre um caráter inventivo ao longo de sua história. Algo como uma inquietação própria, não só a de vanguarda, ou experimental. Se não nos enganamos, ainda quando não se pretende uma criação original, restaria disseminada pelos filmes alguma sugestão remota de jogo, em ponta de ironia, ou qualquer resíduo inquieto de expressão que não quer calar por sobre as convenções pesadas que se fizeram impor. 

Ilusão de ótica? Viagem metafísica? Contágio de uma decantada verve discursiva que distingue o emblemático falar baiano? Imposição urbana da antiga capital do país, velhas persuasões da sua arquitetura barroca balizando exigências do nosso olhar? Mesmo os habitantes mais fugazes da cidade de Salvador parecem captar esse complexo feitiço. Como talvez o que veio se fixar no magnetizante Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno (1981) de Miguel Rio Branco, nessa exata condição de morador pouco demorado. Nele, o bairro do Maciel nos fala de um país protelado e fascinante, violento e generoso. Uma Baixa do Sapateiro medonha e bela que tantos filmes de antes e de depois adotaram como uma coordenada inspiradora, matriz visual com uma densa experiência de tradição, base documentária de pulsações decisivas da sociedade – registros de Vito Diniz, Tuna Espinheira e tantos outros; ficções incontáveis do Pelourinho, epicentro de dores e risos, vibrações cinematográficas baianas. Reflete-se este cataclismo nas lonjuras do sertão, do litoral baiano? ‑ ou ao contrário, esse tremor seria deles um consequente reflexo tectônico? Em todo caso, domar convulsões, ou sublimá-las apenas, é algo que também acontece, basta ver a serenidade do centro histórico em Gato/Capoeira (1979), de Mario Cravo Neto; a busca plácida de harmonias na Arembepe de José Agrippino de Paula, em Céu sobre água (1978).

O certo é que o convívio de tanta diferença vai desafiar uma visão conjunta, um esforço de totalizar que ganhou no cinema pelo menos dois precoces filmes de reflexão sobre o próprio cinema baiano, o coletivo superoitista Na Bahia ninguém fica em pé (1980), de Araripe Jr., Pola Ribeiro e Edgard Navarro e, desse último, Talento demais (1994), um cineasta cuja percepção das diferenças produzira o “cult” Superoutro (1989). Este viés do diferente, aliás, já teria estruturado o magnífico surto de experimentalismo superoitista nos anos 70, precedido de pouco pelas experiências de André Luiz Oliveira, Álvaro Guimarães e José Umberto. Mas a sensibilidade das diferenças nos levaria mais longe, às origens da modernidade e do cinema experimental na vanguardista década de 50 baiana.

Já anunciam muito do que se verá mais tarde os filmes Um dia na rampa (1955-1960), de Luiz Paulino, e O pátio (1957-1959), de Glauber, como bem intuiu na época o atento crítico paraibano Wills Leal, com mínima inclinação para o primeiro. O contraponto dos dois estreantes já nos traz uma configuração lapidar de Povo e Elite, fundamento básico da imagem movente baiana. No primeiro filme, um novo escandir rítmico de imagens populares do trabalho diário em montagem singular no seu humor e riqueza de associações. No segundo, mudam atores sociais e coreografia no construir abstrato de uma tensa melancolia de mirantes tropicais privilegiados. Como numa esplanada de fortificações, podemos ali esquadrinhar o horizonte oceânico da boca da Baía de todos os Santos, por onde uma elite vislumbraria vínculos seguros com outros portos, do país e d’além-mar. Já no filme de Paulino, como num contracampo voltado para a terra do Recôncavo, em ponto de vista do mar ondulante, encontraremos a vibração do centro popular, mercados de sobrevivência e de vitalidade baiana.

* Rubens Machado Jr. é pesquisador, curador e professor titular de Teoria e História do Cinema da ECA-USP. É vice-presidente do Conselho de Orientação Artística do MIS-SP e integra a editoria das revistas Cine-Olho, Infos Brésil, Praga, Sinopse e Significação.

O realismo lírico de Vittorio De Seta

janeiro 18th, 2011 § Deixe um comentário

Se você gosta de documentários e estará no Rio na tarde de quinta-feira, um conselho: adie outro compromisso, engane o chefe, deixe o parente no hospital. Faça qualquer coisa para não perder a única reprise da sessão Vittorio De Seta, às 15h30, no Instituto Moreira Salles.

Não confunda De Seta com o mais famoso e prolífico Vittorio De Sica. Nascido em Palermo, em 1923, De Seta ainda é vivo e filmou até 2006. Sua reputação, no entanto, é mais ligada a esses 10 curtas realizados na Sicília e na Sardenha entre 1954 e 1959, todos com esplêndida fotografia em cores. À exceção de Páscoa na Sicília e Os Esquecidos, que enfocam festas populares, o tema dos demais é o trabalho na pesca, no pastoreio, nas minas, nas lavouras de trigo, na fabricação de pães. Trabalho e cotidiano familiar interligados em narrativas cheias de senso de atmosfera, ritmo e poesia. Por vezes somos tomados pela mesma imersão que nos provocavam os bons e velhos filmes dos Irmãos Taviani e de Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos).

Vittorio De Seta

Há um pouco de Flaherty na sutil encenação do trabalho, um pouco de Grierson na seleção de momentos e na criação de climas dramáticos. Vários curtas foram filmados em Cinemascope ou num certo Cineramica, formatos que ampliam o espectro do quadro com efeitos magníficos sobre a paisagem e as aglomerações de camponeses. Sem entrevistas nem narração, as imagens dão conta de tudo, auxiliadas de maneira muito evocativa por sons ambientes e cantos de trabalho. Em cena, um modo de vida rude e arcaico, visto por De Seta com um viés lírico, embora não exatamente nostálgico. O conjunto dos filmes foi lançado em DVD na Europa com o título de “O Mundo Perdido”.

Mas nem tudo ali é passado. Quem assistir, por exemplo, a Camponeses do Mar, vai ver cenas assustadoras da emboscada e matança do atum, que em tudo se assemelham aos momentos mais sangrentos de The Cove, vencedor do Oscar de doc do ano passado. As condições de trabalho dos mineiros de enxofre em Surfarara talvez não sejam muito diferentes das que prevalecem ainda hoje em certas minas do Terceiro Mundo.

Em cada curta de De Seta, experimentamos (mais do que testemunhamos) um dia na vida de um grupo. É extraordinário o uso da luz e da montagem para restituir o fluxo do tempo e da labuta, com seus momentos de preparação, espera, progressão, clímax e repouso. Não há como não destacar a expectativa dos moradores de Stromboli durante as erupções de 1954, a “coreografia” dos debulhadores de trigo em A Parábola do Ouro ou a quase sublime condensação do cotidiano em Um Dia em Barbagia.

Alguns desses filmes podem ser encontrados no Youtube ou em sites de download. Mas eu aconselho a não perder a oportunidade de vê-los assim, em cópias impecavelmente restauradas pela Cinemateca de Bolonha. Para lembrar que documentários também podem ser belíssimos espetáculos de cinema.

Vozes da Guiné-Bissau

novembro 27th, 2010 § 3 Comentários

A Guiné-Bissau não tem propriamente uma estrutura de cinema, mas isso não quer dizer que não tenha talentos cinematográficos. Um deles certamente é Domingos Sanca, diretor de Rio da Verdade, projeto ganhador do DOCTV CPLP em seu país. O documentário de média-metragem, produzido por Carlos Vaz, está sendo exibido em emissoras de nove países, além de festivais e mostras como a Brasilidade, em cartaz no Rio de Janeiro.

Domingos Sanca trabalha na televisão nacional da Guiné-Bissau e se responsabilizou também pela bela fotografia de Rio da Verdade. As imagens revelam uma área paradisíaca do noroeste do país, o Parque Natural do Rio Cachéu. Esse paraíso encontra-se ameaçado pela desertificação com o avanço progressivo do Saara a partir do Senegal, ao norte. A direção do parque implantou uma política de proteção que coíbe a derrubada de grandes árvores e a caça e a pesca indiscriminadas. Embora sejam acompanhadas de orientações para práticas menos agressivas ao meio-ambiente, essas normas colidem com certas rotinas de subsistência tradicionais dos moradores da região.

O conflito se assemelha ao dos caboclos da Amazônia com as regras do Ibama, como já foi mostrado em diversos documentários brasileiros. Mas nenhum que eu conheça logrou apresentar esse dilema com o grau de dramaticidade de uma cena de Rio da Verdade. A propósito da derrubada ilegal de uma árvore, dois funcionários do parque discutem com um lavrador os direitos e obrigações dos moradores. Cada lado expõe suas razões diante da câmera, deixando claro o choque entre os interesses individuais – amparados na tradição, na noção de posse e na necessidade imediata – e as exigências da sustentabilidade, voltadas para o futuro e o bem coletivo. É uma cena rara e forte, que mobiliza a consciência do espectador.

A importância do Rio Cachéu é mais que ecológica. É mítica e política. Para além dos limites do parque, nas duas margens do rio, localizam-se duas etnias rivais. O rio, cantado em versos por poetas guineenses como Mussá Baldé, é fonte de vida e lugar sagrado para a população. As ambiguidades da relação entre espiritualidade e sobrevivência são ilustradas pela questão dos hipopótamos. Considerados parentes dos homens, eles não devem ser mortos. Mas com frequência devastam as plantações de arroz, causando enormes prejuízos. Quando alguém abate um deles, a comunidade faz um ritual de expiação e prontamente se farta com sua carne generosa.

Rio da Verdade tem a qualidade, relativamente rara em filmes etnográficos, de abordar seu tema através de muitas vozes, onde não faltam contradições e controvérsias. Além disso, assume um caráter não didático, mas baseado na observação da natureza e dos homens. O ritmo é distendido e evocativo, privilegiando o tempo largo do rio e a cadência natural dos trabalhos no campo e das cerimônias religiosas.

Domingos Sanca merece toda atenção com seu novo projeto sobre o Arquipélago dos Bijagós, reserva natural colocada em risco pela ação de pescadores clandestinos e a recente descoberta de petróleo. Nesse filme, o diretor pretende trabalhar nos limites entre ficção e documentário, para isso incorporando a história de um casal conflagrado pelas obrigações ritualísticas da etnia Bijagó. 

Teclado moçambicano

novembro 25th, 2010 § 1 Comentário

Um documentário moçambicano está correndo o mundo lusófono com roupa de gala. Junto a outros realizados no âmbito do programa DOCTV CPLP, Timbila & Marimba Chope participou da competição do Festival Internacional de Cinema de Luanda e vem sendo exibido por emissoras de TV em nove países. Esta semana, foi uma das estrelas do megaevento Brasilidade no Rio de Janeiro, onde o seu diretor, Aldino Languana, participou de uma série de debates sobre o cinema de expressão portuguesa. 

Curiosamente, porém, são dois outros idiomas que se destacam no filme de Languana: o chope, falado em certas áreas de Moçambique, e o idioma mais universal da música. Timbila & Marimba Chope narra com detalhismo didático o processo de fabricação da mbila, uma espécie de xilofone, instrumento um tanto mítico do país de Samora Machel e declarado pela Unesco como patrimônio imaterial da Humanidade. Ou melhor, quem narra mesmo é o mestre Estêvão, um célebre artesão e tocador de mbila da região de Zavala. 

O filme consegue a rara proeza de fazer confluírem simultaneamente duas anotações etnográficas de grande importância: de um lado, os “segredos” da construção da mbila; de outro, a maneira muito particular de Estêvão contar suas histórias, que vale por uma imersão na fabulação do povo da Zavala. Sua prosódia saborosa e o estilo com que apresenta as informações ditam o ritmo “musical” do documentário.

Estêvão é ao mesmo tempo personagem, narrador, entrevistador, mestre de cerimônias e entertainer. Enquanto cede esses papéis ao mestre da timbila, Aldino Languana mantém as rédeas da direção mediante uma exposição progressiva do fabrico de uma mbila, com todas as suas injunções materiais, técnicas e mesmo espirituais. A localização de uma colmeia subterrânea e a coleta da cera especialíssima para colar partes do instrumento (as cabaças de massala) abrem caminho para uma reflexão que transcende o mero artesanato. Uma senhora participa desse processo com sua sabedoria quase mágica, embora não saiba precisar quantos anos tem. “Saber a idade é coisa de gente moderna”, diz ela.

A origem da mbila também se perde em tempos imemoriais – o que, afinal, importa menos do que sua preservação no presente e a transmissão de seus “segredos” para as futuras gerações. É isso o que o filme de Aldino Languana garante através da memória audiovisual.

O som da mbila marca o documentário com seu ritmo alegre e polifônico, às vezes competindo com outras informações sonoras pela atenção do espectador. Nem sempre isso é produtivo para a economia expressiva do filme. Em compensação, quando na sequência final a orquestra timbila e a dança chope inundam a tela numa noite ao ar livre, já estamos íntimos de tudo e o efeito é arrebatador.          

DOCTV CPLP em drágeas

novembro 22nd, 2010 § Deixe um comentário

Li Ké Terra (Portugal)
Num subúrbio de Lisboa predominantemente habitado por imigrantes, dois rapazes de ascendência cabo-verdiana tentam regularizar sua situação e firmar uma identidade. Vencedor do DocLisboa, o filme faz uma observação cuidadosa do cotidiano e dos pensamentos dos gajos, usando uma câmera “invisível” e uma edição afinada com a estética contemporânea. Divertido e perspicaz. 

Rio da Verdade

Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
Belíssimo doc sobre a luta de um parque ecológico no noroeste da Guiné-Bissau para evitar a desertificação com o avanço do Saara rumo ao Sul. Etnografia sem didatismo, abrindo espaço para opiniões contrárias na discussão do preservacionismo. A linguagem poética privilegia os tempos do trabalho e do ambiente, a sonoridade particular da região do Rio Cachéu e a beleza dos enquadramentos.

Eugênio Tavares – Coração Crioulo (Cabo Verde)
Uma simpática evocação do poeta, músico e herói nacional de Cabo Verde. Apesar do tom elegíaco, transparecem algumas contradições do personagem e as condições em que se formou o seu mito. A fotografia é sugestiva da atmosfera da pequena Ilha Brava, prisão e ao mesmo tempo signo de liberdade para “Nhô Tavares”. Na faixa sonora, as célebres e nostálgicas “mornas” caboverdianas. 

Timbila Marimba Chope

Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Relato didático da fabricação da timbila, espécie de xilofone moçambicano declarado patrimônio da Humanidade pela Unesco. Um mestre timbileiro, com sua verve especial, mostra todo o processo, valorizando os “segredos” e a ressonância espiritual do instrumento. Quando a orquestra de timbilas se apresenta no final, é arrebatador. 

Exterior (Brasil)
Perfil de um grupo de presidiários estrangeiros recolhidos em um presídio brasileiro. Ainda que as imagens sejam cuidadas e alguns personagens tenham carisma, faltou foco ao doc para valorizar a condição singular daquelas pessoas duplamente isoladas por se encontrarem privadas da liberdade e num país que não é o delas.

Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea

 Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
Passado, presente e futuro de um ferrovia que atravessava toda a latitude de Angola integrando o país e fazendo nascer cidades. O roteiro um tanto desestruturado prejudica a fluidez, mas restam informações importantes sobre a história recente do país e o interesse em conhecer relances de uma forma de vida remota e colorida.

O Restaurante (Macau)
O multiculturalismo de Macau é representado pelos convidados para a festa de 20 anos de um restaurante português. Com uma estrutura dispersiva, que tenta captar essa dinâmica de idiomas, heranças culturais e modos de vida, o doc passa em velocidade por questões importantes. Por exemplo, qual a relação dessa minoria com a realidade macauense de hoje?  

Tchiloli - Identidade de um Povo

Tchiloli – Identidade de um Povo (São Tomé e Príncipe)
Registro de uma encenação teatral que faz o julgamento da colonização e se tornou patrimônio cultural das ilhas de São Tomé e Príncipe. Mediante esparsos depoimentos e textos de narração, o filme comenta o espetáculo, enquanto abre espaço para os personagens da peça evoluírem através de uma curiosa mescla de teatro, dança, pantomima e simulações de luta.  

‘Tamboro’, um país em movimento

outubro 29th, 2010 § Deixe um comentário

Neste sábado, às 20 horas, com entrada franca, o Circo Voador vai receber uma atração bem de acordo com sua imagem mítica. Vai exibir o doc Tamboro, que Sergio Bernardes deixou editado ao morrer em 2007, aos 63 anos. Tomara que a projeção e o som estejam à altura da exuberância do filme, que ganhou os prêmios especial do júri e de melhor montagem da Première Brasil do Festival do Rio de 2009. Anteontem, venceu como melhor longa o 3º Cine Fest Brasil Buenos Aires.

Tamboro pode ser chamado de um grande videoclipe sobre o Brasil, se quisermos reduzi-lo a sua forma dominante: imagens extraordinárias da natureza, das cidades e das gentes brasileiras, editadas como um mosaico, uma suíte embalada por ruídos, vozes, músicas e a belíssima trilha sonora original de Guilherme Vaz. Ora vertiginoso, ora sedutoramente envolvente, o ritmo do filme nos coloca no centro de um caleidoscópio, com o país se esparramando por todos os lados.

Muitas dessas imagens foram captadas para o projeto Via Brasil, iniciado em 1996 pela Acesa Produções com patrocínio do governo federal e da Fundação Banco do Brasil. O empreendimento consistia em filmar os pontos mais notáveis de todo o território nacional, incluindo “inatingíveis” como o Monte Roraima. Com direção de fotografia a cargo de Lula Araújo, lugares como os Lençóis Maranhenses, a selva Amazônica e o Complexo do Alemão surgem na tela em enquadramentos estonteantes, sejam rasantes aéreos, balés de steadicam ou microcâmeras que parecem voar com autonomia.

Tudo é movimento em Tamboro. Movimentos de câmera, movimentos de edição e movimentos de ideias. O painel holístico vez por outra quebra seu código documental para incorporar performances e encenações, feitas especialmente para o filme. É o caso de um almoço chique numa favela, a saída de um “bonde” de bandidos, ou uma sequência de incrível ferocidade sobre a captura e contrabando de animais silvestres. Aqui Sergio Bernardes insere, em meio ao maravilhoso, um duro olhar crítico sobre a realidade brasileira. O contraste brusco e retórico comanda diversos momentos do filme. Quando corta do voo sobre a Avenida Paulista para um canyon barrento no norte do país, ou da multidão em Aparecida do Norte para um Maracanã lotado, o comentário se limita ao âmbito das formas. Mas quando passa de uma sucessão de árvores majestosas para um caminhão carregado de motosserras, Sergio Bernardes provoca no espectador um choque superior a qualquer discurso preservacionista formal. Da mesma forma, ao cortar de um grupo aguerrido de agricultores do MST para uma cena de malhação de judas em outro contexto, é uma associação mais polêmica e política que se estabelece.

Curtos depoimentos de Leonardo Boff, Hermeto Pascoal, Ailton Krenak e outros ajudam a fornecer sentido para a pletora de imagens, tentando sintetizar anotações sobre o Brasil. Mas o viés social de Tamboro tem que conviver com uma atração visceral pelo exótico. A formação de um banco de imagens, que está na base do trabalho, responde pela busca do excepcional, do grandioso e do pitoresco. Sucedem-se, então, índios, repentistas, folguedos, onças, famílias sertanejas posando para a câmera, igrejas se abrindo em cascata, cataratas, rodas de samba, hip hop… Tudo cabe se tem som e fúria para despejar diante do espectador extasiado.

A palavra tamboro significa “para todos, sem exceção” na língua dos ingaricó, povo indígena de Roraima. Ela exprime a ambição de Sergio Bernardes no sentido de abarcar com um filme o espírito brasileiro inteiro. A aventura desse filme deslumbra, inquieta e, em sua escala quase sobre-humana, interroga sobre os extremos do país enquanto volta as costas para o mediano e o corriqueiro. Por isso seria cabível perguntar se, de fato, estamos todos em Tamboro.

Leia um pouco mais sobre Tamboro e sobre Sérgio Bernardes.    

Assista abaixo ao trailer do filme:

 

Antropólogos não são santos

abril 6th, 2010 § 10 Comentários

Chagnon e um inaomâmi

Os filmes de José Padilha são corajosos. Isso implica estarem sempre no lusco-fusco entre a complexidade e o sensacionalismo. Em Garapa, prevaleceu o sensacionalismo. Em Tropa de Elite, as duas coisas se equilibraram e geraram polêmica. Seu novo documentário, Segredos da Tribo, junta-se a Ônibus 174 como vitória da complexidade sobre o efeito. O filme é uma das maiores atrações do É Tudo Verdade, que começa sexta-feira.

Secrets of the Tribe é uma co-produção da brasileira Zazen (de Padilha e Marcos Prado) com a HBO e a BBC. Foi adquirida pela HBO depois de estrear no Sundance com resenhas quase perplexas diante dessa visão demolidora do universo da Antropologia. Para quem vê de fora, os antropólogos formam uma comunidade razoavelmente coesa, sóbria e colaborativa. Motivados pelas melhores intenções, os antropólogos modernos também se autoexaminam, procurando assumir e refletir sobre as interferências de seu trabalho sobre os grupos humanos que estudam. Em contraponto à ideia do “bom selvagem”, eles seriam os “bons cultos”, devotados ao conhecimento e à defesa dos povos primitivos.

Mas o que Padilha vai revelar é bem diverso desse quadro, digamos, onírico. São histórias de pedofilia, indução ao homossexualismo, exploração de prostituição, experiências danosas à saúde dos índios. Não se poupa nem mesmo a palavra genocídio. A tribo do título, claro, é a comunidade dos etnógrafos.

Continue lendo

A classe média vai ao paraíso

fevereiro 2nd, 2010 § 5 Comentários

Cena de "Pacific"

Quando cheguei à 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, sexta-feira passada, eram já os dois últimos dias do evento. Perdi alguns filmes muito comentados pelas ruas de pedras da cidade. Por exemplo, o vencedor da Mostra Aurora, Estrada para Ythaca, road-movie dirigido e interpretado por um grupo de jovens cearenses. Ou A Falta que nos Move, em que a diretora Christiane Jatahy levou para o cinema uma experiência de improvisação radical feita antes no teatro.

Mas de todos o filme mais discutido era o doc Um Lugar ao Sol (já comentado aqui no blog), por conta de seu retrato pouco lisonjeiro de algumas famílias de classe média alta e da ética duvidosa com que Gabriel Mascaro delas se aproximou. A produção contatou os entrevistados através de um folheto que apresentava Gabriel como um famoso diretor de publicidade internacional, interessado em conversar sobre a moradia em coberturas. No curso de algumas entrevistas, o tema acabava deslizando para os preconceitos e sentimentos de superioridade e segurança que alimentam o appartheid social nas grandes cidades brasileiras.

Nem tudo no filme é exaltação da diferença. Há também considerações sobre espaço, liberdade, conforto, verticalização urbana etc. Mas dificilmente o filme não será lembrado pelas cenas explícitas de arrogância social. A ausência de informações sobre o processo de abordagem das pessoas e dos assuntos provoca mal-estar em parte dos espectadores, entre os quais me incluo. Embora admire a força do filme e a originalidade do tema, sinto-me presenciando o efeito de uma armadilha. Outros, porém, veem o resultado com naturalidade. “Essas pessoas são cultas e informadas o suficiente para saberem o que estavam falando”, dizia Sylvie Debs, adida cultural da França em Belo Horizonte. Para o ensaísta e professor Cezar Migliorin, havia até certa justiça na conduta dos realizadores: “Às vezes a gente tem que escolher o inimigo mesmo, e, dependendo do inimigo, partir para a violência”.              

Embalado por essa polêmica, preparei o espírito para ver outro doc pernambucano presente na mostra. Em Pacific, o diretor Marcelo Pedroso (montador de Um Lugar ao Sol) reuniu imagens de 34 câmeras de turistas que fizeram cruzeiros de Recife a Fernando de Noronha em fins de 2008. Não há uma única imagem ou som produzido diretamente para o filme, além dos letreiros iniciais que explicam o processo. A equipe limitava-se a observar os grupos e famílias que se filmavam durante os seis dias de viagem. Ao final, pedia autorização para usar cópias do material num documentário. O filme monta cenas de quatro cruzeiros de maneira a criar a continuidade de uma única viagem.

O contexto é, certamente, de deslumbramento pequeno-burguês. Mas, ao contrário do filme de Mascaro, não se vê aqui uma intenção deliberada de expor condutas condenáveis. Até porque o material, por natureza ingênuo e lúdico, cria um distanciamento característico. É a consciência em férias. Uma sensação catártica perpassa as falas fascinadas pelas atrações do navio, as “bocas livres”, a expectativa da chegada ao tão sonhado “paraíso” de Noronha. As imagens balançadas, estouradas, erráticas são expressões mais de uma exaltação pessoal que de um desejo de mostrar ou informar. A celebração em miniDV.

Esse fluxo polifônico, que passa de um grupo a outro, tem seus momentos especiais. Um casal, por exemplo, filma-se fazendo poses elegantes, mas supostamente naturais, nas dependências do navio. Outro imita a cena do deck de Titanic (foto ao lado). Uma menina filma os pais na intimidade da cabine. E por aí afora. Quando chegamos à última cena, o reveillón de 2009, apesar do enjoo com as trepidações das imagens amadoras (boa referência às oscilações do navio), podemos mesmo sentir uma certa ternura por essa estética naif e ultra-clichê.

O efeito principal de Pacific (ou “Pacifíque”, como pronuncia uma voz nordestina) é de um deslocamento quase dadaista. Aquelas imagens e sons não foram feitas para serem vistas por nós, muito menos numa sala de cinema. Ali somos voyeurs de algo feito para consumo doméstico e privado. O risco do filme é limitar-se a uma oferta ao voyeurismo. Ao mesmo tempo, precisamos ter sempre em mente que aquelas cenas não foram feitas pela equipe do filme. Nos docs que usam materiais de arquivo entre outras coisas, esse código está sempre muito presente. Aqui não, pois tudo é só e radicalmente alheio.

Por muitas razões, Pacific nos coloca num estranho lugar como espectadores.

Etnográficos premiados

dezembro 4th, 2009 § 1 Comentário

Joana Carelli subiu ao palco três vezes na cerimônia de premiação da 14ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Ela representava o pai, Vincent Carelli, autor de Corumbiara, para receber os prêmios Manuel Diegues Jr. pela importância do tema, o Prêmio Aquisição de longa-metragem da TV Brasil e o Prêmio OCIC (Office Catholique International du Cinéma). Com isso, Corumbiara se distancia como o doc brasileiro mais premiado do ano.

O desconcertante Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, que comentei dois posts abaixo, ganhou o Prêmio Manuel Diegues Jr. de concepção e realização, enquanto Negros, uma compilação que evidencia a passagem dos negros baianos das bordas para o centro da imagem ao longo do tempo, ficou com o prêmio relativo a desenvolvimento, pesquisa e roteiro.

O júri do Prêmio Manuel Diegues Jr., composto por Edilberto Fonseca, Julia Wagner e Patricia Rebello, concedeu menções honrosas ao contagiante Depois Rola o Mocotó, de Debora Herszenhut e Jefferson Oliveira, Homens, Máquinas e Deuses, de Eduardo Duwe, e Os Olhos d’Água de Nossa Senhora do Rosário, de Pedro de Castro Guimarães.

Além de Corumbiara, mereceram prêmios de aquisição da TV Brasil o curta Damas, de Mariana Mattos e Luísa Moraes, e o média Nas Rodas do Choro, de Milena Sá.

O júri da ABD&C (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtas-metragistas) deu seu prêmio a Batatinha, Poeta do Samba, de Marcelo Rabelo, além de uma menção honrosa a Outra Cidade, de Coraci Ruiz.     

Nesses poucos dias de mostra, 50 projetos já se candidataram no edital Etnodoc. As inscrições vão até 30 de dezembro pelo site www.etnodoc.org.br.   

O Brasil do último andar

dezembro 1st, 2009 § Deixe um comentário

Subir é verbo gordo, recheado de muitos sentidos. Pode significar ascensão física, social ou espiritual. Sobe-se para a serra, sobe-se na vida, sobe-se para sair do plano corriqueiro do mundo. Sobem as bolsas, os preços e as marés, assim como elevam-se a voz dos cantores e o espírito dos místicos. No jargão da internet, subir um texto é publicar, trazer à luz. No alto estão a claridade, a aspiração, a conquista e o privilégio.  

Fui levado a pensar essas coisas a propósito de dois filmes da Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Para seus personagens, a prerrogativa de morar no alto assume um leque curioso de significados. Em Um Lugar ao Sol, oito pessoas/famílias de posses descrevem o que é viver em coberturas do Rio, São Paulo e Recife. Em Depois Rola o Mocotó, número aproximado de personagens exemplificam as muitas funções das lajes numa comunidade pobre como o Complexo do Alemão, no Rio.  Continue lendo

Filmes de gente

novembro 26th, 2009 § 3 Comentários

Um dos grandes eventos que privilegiam o cinema documental no Rio, a Mostra Internacional do Filme Etnográfico abre hoje à noite sua 14ª (!) edição. A morte de Lévi-Strauss, a restauração de mais filmes de Adrian Cowell, a consagração de Vincent Carelli com Corumbiara e o lançamento de um novo edital do Etnodoc fazem a moldura do evento.

Filme etnográfico é basicamente filme sobre gente. As fronteiras do filme etnográfico (se as há) dentro do conjunto do cinema do real serão objeto de uma mesa-redonda que reunirá Rahul Roy, diretor do Festival Etnográfico de Nova Délhi, o antropólogo Marco Antonio Gonçalves e este que vos fala. Será na Caixa Cultural, no dia 4/12, às 14 horas.

Também na Caixa, Vincent Carelli vai ministrar um workshop (dias 27 e 28). A cineasta indiana Saba Dewan, mulher de Rahul Roy, apresentará pessoalmente seu novo filme, Naach – The Dance. Entre os cerca de 100 filmes programados, haverá uma sessão-homenagem ao Mestre Vitalino e um programa dedicado ao filme etnográfico cubano.        

Veja a programação completa no site do festival.

A seguir, alguns destaques que já tive a oportunidade de conhecer:

Continue lendo

Bodanzky relembra Lévi-Strauss

novembro 9th, 2009 § 1 Comentário

No livro que fiz com/sobre ele, Jorge Bodanzky rememora seu encontro com Claude Lévi-Strauss (1908-2009) em fins dos anos 1980. Transcrevo abaixo esse trecho de Jorge Bodanzky: O Homem com a Câmera (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado SP, 2006):

Mato Grosso: memórias de Lévi-Strauss

Minha relação com o livro Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, levou cinco anos para se transformar em filme.

Em 1985, enquanto montava Igreja dos Oprimidos em Paris, cometi a imprudência de fazer a proposta diretamente a Lévi-Strauss por telefone, e ainda por cima no meu péssimo francês. Eu queria voltar às aldeias indígenas do Mato Grosso que ele visitou em 1935 e 1938 para verificar o seu estado atual, assim como a memória que ainda houvesse dos encontros, a partir das suas fotografias e dos filmes que sua mulher, Dina, rodou na ocasião. Lévi-Strauss não foi especialmente gentil, mas pediu que lhe mandasse uma proposta por escrito. Foi o que fiz. Poucos dias depois, recebi uma resposta amável, autorizando a referência ao seu livro e o uso dos filmes. Mais que isso, ele se dizia “vivamente interessado em rever, filmadas por você no seu estado atual, as regiões que percorri há meio século”. Continue lendo

Expressões amazônicas

novembro 1st, 2009 § 8 Comentários

o areal

Um areal no Pará, uma comunidade de quilombolas em Marajó e um vendedor de picolés de Manaus valeram os três prêmos Muiraquitã da IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, encerrada ontem à noite em Manaus. O Areal (foto acima), doc exibido na Mostra Meio-ambiente do último Festival do Rio, foi o que mais agradou o júri, composto pelo escritor Marcio Souza, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, a pesquisadora Stella Oswaldo Cruz Penido e este escriba. Abaixo, transcrevo uma microresenha do filme que eu já havia feito aqui no blog:  Continue lendo

Cabeças cortadas em Marajó

outubro 30th, 2009 § Deixe um comentário

Onde mais eu poderia ver um documentário sobre a Ilha de Marajó senão na Mostra Amazônica do Filme Etnográfico? Pois aqui vi dois. Um deles foi dirigido pelo canadense Gavin Andrews. O Glorioso retrata a festa em homenagem a São Sebastião na cidade de Cachoeira do Arari. O santo do corpo flechado há muito roubou a cena da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, e sua festa mobiliza gente de toda a ilha e também do Pará.

A partir da festa (10 a 20 de janeiro) e de sua longa preparação desde seis meses antes, o filme faz uma etnografia da culinária, das lutas corporais e do sincretismo religioso típicos da cultura marajoara. Mas, com uma limitação frequente nesse tipo de doc preso aos rituais, passa ao largo de qualquer observação social.

O mesmo não acontece com Salvaterra, Terra de Negro, da paraense Priscilla Brasil (autora do irresistível As Filhas da Chiquita, sobre travestis que festejam o Círio de Nazaré). Em Salvaterra, diversas comunidades de descendentes de quilombolas de Marajó são visitadas através de personagens fortes, como um líder popular, um praticante do culto bárbaro da Cabocla Erondina e uma jovem que se diz herdeira da luta de Zumbi. Nesse doc muito bem realizado, o estudo etnográfico convive bem com a questão social.

Em Marajó, muitas comunidades populares vivem progressivamente comprimidas por fazendas que demarcam seus limites com cercas eletrificadas. Priscilla Brasil contrapõe a alegria das festas e a intensidade dos rituais à denúncia desses campos de concentração. O efeito dramático é poderoso.

No entanto, para quem conhece a realidade de Marajó, a extensão do problema ainda não foi exposta por nenhum filme. O antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, meu colega de júri, explicou-me que a festa de São Sebastião é o único período do ano em que os proprietários facultam a travessia das cercas pelos pequenos lavradores e suas famílias. Quando essa regra é desobedecida em outra época, a punição não é pequena: cabeças são cortadas e jogadas no rio.

Onde estou?

You are currently browsing entries tagged with etnografia at ...rastros de carmattos.