O prazer do texto

maio 25th, 2011 § 2 Comentários

- Não se aborreça tanto. Nem Édipo viu a mãe gozando.

A frase dita por Sharon Stone ao psiquiatra em Instinto Selvagem 2 é uma das mais, digamos, eruditas na compilação de Mariza Gualano. Quanto Mais Quentes Melhor – As Melhores Frases de Sexo do Cinema tem outras bem mais chulas, como a de Lili Taylor em Um Tiro para Andy Warhol:

- Ele atravessará um rio de meleca e um mar de vômito se tiver uma xoxota esperando.

Mariza Gualano é a autora de Ouvir Estrelas, outra compilação de frases e diálogos do cinema. Nesse novo livro, o foco se concentra em trepadas, boquetes, masturbação e outras delícias da arte cinematográfica. Nesse campo, historicamente, ninguém bate Mae West:

- Dez homens à porta à minha espera? Mandem um deles para casa. Estou cansada (Empresário em Apuros)

ou Woody Allen:

- Você é tão verbal! Quem mais me convenceria a te dar uma chupada no enterro do meu pai? (Desconstruindo Harry)

Há quem se divirta mais do que eu com esse tipo de antologia. A prova é que elas vendem, e muito. São como aqueles clipes de cenas curtas de filmes que encontramos no Youtube. Valem não só pela graça em si, mas pelo que nos trazem à mente da personalidade dos atores que falam ou dos roteiristas e diretores que criam. Que tal pensar em Ornella Mutti dizendo o que Marco Ferreri escreveu em Crônica do Amor Louco?:

- Quero ser comida até que não sobre nada para os outros.

E como o livro abrange também muitas frases de filmes brasileiros, lá está Fernanda Montenegro abrindo o jogo em O Outro Lado da Rua:

- Não dá! Eu tenho uma cicatriz de cesariana, outra de apendicite, estrias… Parece um jogo da velha. Como é que eu vou tirar a roupa?  

Quanto Mais Quentes Melhor será lançado amanhã (quinta), a partir das 19h, na Livraria Travessa de Ipanema.

Tio Boonmee ou Da corajosa atitude zen budista de sair no meio de um filme

fevereiro 6th, 2011 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Uma das pessoas mais bem-humoradas que conheço é meu amigo Ricardo Cota. Ótimo crítico de cinema, ele anda afastado dessa atividade por força de seus compromissos no poder público – é coordenador de comunicação do governo Sérgio Cabral. Essa situação o deixa à vontade para curtir com a cara dos colegas críticos. Sua correspondência é sempre divertida. Depois de ver Tio Boonmee, o vencedor da Palma de Ouro de Cannes, e discordar dos elogios dominantes, ele fez o seguinte relato de sua experiência no Unibanco Arteplex:   

“O filme começa. Um boi, ou seria uma vaca?, rumina. Silêncio. Não. Sons. Cigarras e ou grilos.  Bailam corujas e pirilampos entre sacis e as fadas. Até que lá no fundo azul da noite da floresta surge aquele que mais tarde saberemos ser o macaco-fantasma de luminosos olhos vermelhos.

Uma mesa de jantar. Tio Boonmee lamuria a iminência da morte. Aparece uma mulher fantasma e se revela que não é só Tio Boonmee que tem o poder de ver os antepassados. Os outros também.

Chega o macaco-fantasma.

Nesse momento, na sala de cinema, duas jovens se levantam e saem.

Não, não têm o perfil de jovens desenganadas que foram atrás de Desenrola e acabaram nos braços peludos do macaco-fantasma. Não.

Elas saem por um motivo que deduzo espiritual, zen budista: estão achando tudo um saco.

Como principiante na contemplativa prática do zen budismo, saio do meu zen sonambulismo e me vejo, como alguns personagens do filme, em dois lugares paralelos.

A cabeça seguiu com as moças; o corpo continua ali, inerte.

Enquanto isso, na tela, uma princesa de rosto deformado entra num riacho e faz sexo, suponho que oral, com um bagre que fala. O sexo oral, que supus, praticado pelo bagre, bem entendido.

Volto a pensar nas moças. Onde estarão? No café do Arteplex? Na livraria? Ou já descansadas em suas respectivas residências?

Tio Boonmee agora está numa caverna habitada pelos macacos-fantasmas agonizando, morrendo até morrer.

Sou covarde, não saio. Sou forte, não durmo.

Em off, um personagem reflete sobre olhos abertos que não vêem.

Me identifico.

Agora um jovem zen budista despe o manto e toma uma chuveirada. Depois convida a Tia Boonmee, que ainda não morreu, para jantar. Ela não quer. Quer ver tevê com a filha. Eis que num passe de mágica, o filme se divide em dois planos: o monge permanece frente à tevê e ao mesmo tempo está num bar jantando com a tia.

Só então percebi a genialidade de Tio Boonmee.

Trata-se de um filme sobre a possibilidade de se estar e não estar em dois lugares ao mesmo tempo. Da dialética entre perda total ou apenas parcial de tempo. A inevitável dinâmica entre a vida no hall do Arteplex e a morte nos braços do macaco-fantasma.

E aí entendo a atitude corajosa das meninas, essas sim!, zen budistas. Elas não estavam mais na sala; mas ao mesmo tempo estavam. Sacaram?

Devia tê-las seguido. Mas covardemente me mantive abraçado ao macaco-fantasma de radiantes olhos vermelhos.

Definitivamente, tenho muito que aprender com o zen budismo.

Ou, melhor ainda, com o bagre ensaboado”.

Ricardo Cota

Onde está Hitch?

janeiro 9th, 2011 § 2 Comentários

Diversão de domingo:

O Youtube está cheio de clipes com as cameo appearances de Alfred Hitchcock. Aquelas cenas em que ele fazia aparições rápidas, umas mais, outras menos dissimuladas, como uma espécie de assinatura divertida nos seus filmes. Já foi passatempo de cinéfilo enumerar as aparições, fosse passando discretamente por uma calçada, tentando pegar um ônibus ou insinuando-se como uma silhueta ou mesmo uma foto no jornal. Houve até quem decobrisse um estranhíssimo fantasma hitchcockiano numa cena de O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais:

Conheci recentemente, através de uma dica de Sergio Caldieri, uma coletânea de aparições que me pareceu bem feita, apesar de incompleta.  O autor, Roy van der Zwaan, usou apenas os filmes que possuía em DVD, deixando de fora pelo menos sete títulos. Ainda assim, é uma das mais abrangentes que se pode encontrar. E com o requinte de “iluminar” a figura de Hitch. Curta aí, se já não curtiu antes:

        

As asas de Angeli

novembro 25th, 2010 § 3 Comentários

Caos, crise, obsessão, poluição, velocidade. É o apocalipse ou um dia na vida de São Paulo? Nada disso, ou talvez um pouco de tudo isso. Estamos falando do mundo do cartunista Angeli. Estamos no coração de um fantástico curta que estreia esta noite no Festival de Brasília. Beth Formaggini vinha me segurando as mãos quase literalmente para que nada quebrasse o ineditismo exigido pelo festival. Pronto, acabou. Já posso escrever sobre Angeli 24 Horas.

Beth não poderia ter sido mais feliz nesta apresentação do personagem Angeli em meio a seus escrotinhos, bananas, rê bordosas, bob cuspes, freaks, políticos xexelentos, cônjuges monstruosos et caterva. O cronista que criou essa épica do vil é ele mesmo um compulsivo, cara de mal dormido, fala e gestos nervosos, como se fosse explodir dentro de 10 segundos e deixar a parede do estúdio coberta de gosma verde.  

O filme potencializa essa identificação entre criador e criaturas colhendo a autoanálise de Angeli num estúdio decorado com motivos gráficos, trabalhando muito com a relação entre figura e sombra, e projetando as tiras sobre seu corpo numa espécie de instalação. Além disso, filma pontos-chave de São Paulo em ritmo acelerado e “encontra” nas ruas figuras reais que poderiam ter inspirado personagens de Angeli. Assim é que artista e cidade se fundem pela lógica dos fluxos incessantes. Embora saia pouco da prancheta, Angeli flutua com sua imaginação mórbida, radical e divertidíssima pelos espaços da metrópole, tal como o anjo de Asas do Desejo. Entre seguir em frente e mudar de rumo, Angeli opta pelas duas coisas.

Eixo quebrado entre as várias câmeras que o filmavam, ele fala de suas grandes inspirações; conta como se livrou de seus personagens mais célebres e das propostas de massificação; como encontrou na tragédia familiar do amigo (e muso) Laerte a deixa para uma guinada em sua carreira; por que prefere os diabos aos deuses na hora de riscar o papel. Para cada afirmação ou dúvida, Beth vai localizar a tirinha adequada para fazer a passagem entre pensamento e obra, movimento e resultado. Como eixo central e justificativa do título, Angeli vai preparando a charge que sairá no dia seguinte num jornal paulista.

Outro elemento fundamental para a incrível coesão artística do filme é a trilha sonora heavy e aliciante de JR Tostoi (do grupo Vulgue Tostoi). Num de seus melhores momentos, a música sampleia a voz de Angeli numa batida persistente e sublinha a evidência de que tudo nesse filme emana da pulsação de seu personagem. Não são muitos os perfis de artista com esse grau de coerência. 

 

Casais impossíveis

novembro 21st, 2010 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Uma imagem vale mil palavras. O velho provérbio ganhou uma acepção divertida na comunidade online Worth1000, que desde 2002 mobiliza internautas para brincar com imagens. Eles promovem competições diárias que resultam em entretenimento visual e até alguns escândalos, quando suas fotos inventadas são confundidas com o real. O site conta com orgulho que até o Pentágono já soltou uma declaração desassociando-se das imagens do Worth1000.

Uma das competições mais populares por lá é de “Casais de Celebridades Impossíveis”, reunindo numa mesma foto artistas vivos e mortos. Abaixo destaquei três que me agradaram especialmente, mas vale a pena visitar o Worth1000 e navegar pelas várias páginas e diversas edições do tal concurso.    

Di Caprio e Miranda

Heath Ledger e Katy Perry

Clooney e Kelly

Mais bios do Twitter

agosto 5th, 2010 § 2 Comentários

Não imagino a razão, mas o meu velho post sobre Bios do Twitter continua sendo um dos mais acessados deste blog. Todo dia, entre 20 e 30 visitantes diferentes o bisbilhotam. Quer dizer que existe uma demanda pela coisa, seja por diversão ou por utilidade. Resolvi então publicar mais algumas, selecionadas entre meus seguidores recentes. Vão em ordem decrescente de modéstia:    

@falazevedo  Não me siga, eu também estou perdida

@rogeklaus  Metrossexual de pele ruim. Não sabe onde está, mas também se soubesse, não saberia o que fazer. Jovem com espírito de velho.

@fabonini  Vivendo e achando bom!

@EdmPires  Keeping my eyes open

@flaviacandida  I’m brown goodgood and I love my sparkling water with extra bubbles

@eduardoades  vivendo em um filme americano dos anos 1940-50. musical, melodrama, noir, western.

@twtdoeli  Sou a única pessoa no mundo que eu realmente queria conhecer bem

@apierogatti  Colecionador de informações, intérprete da Era de Aquário

@patylouzada  [Pacifista]Cinema,semiótica e planos,muitos planos.

@Korphee  Russian Switzerland-based 17 years old student in art and multimedia at Eikon. I don’t know what I’ll be doing in two years but I will go to Valhalla.

@eriberta  Sou atriz formada com registro profissional, sindicalizada, com atividades em teatro e tv. Graduação em COMUNICAÇÃO SOCIAL PUBLICIDADE E PROPAGANDA

@willcairuga  Dublê de abdome de Hugh Jackman

@Fernandaalyssa  eu sou uma alegoria de mim! A alegoria chega quando descrever a realidade já não nos serve.

@ronaldopelli  Harder, Better, Faster, Stronger

@quelzinhafck2  Deus me disse: Desce e arrasa!!!!!

Crítico de arte

junho 20th, 2010 § 2 Comentários

O título é meu, mas a foto é de Jean-Baptiste Mondino

Foto: Jean-Baptiste Mondino

Uma família em risco

junho 12th, 2010 § Deixe um comentário

O título é meu, mas a foto é de Matt Stuart

Foto: Matt Stuart

O melhor amigo do cão

janeiro 10th, 2010 § Deixe um comentário

Diversão de domingo:

Green Beret (Boina Verde), 2005

Se o cão é o melhor amigo do homem, William Wegman provou que essa amizade pode render muito diante de uma câmera. Na década de 1970, quando o vídeo chegou às mãos de artistas como ele, Wegman fez furor com as performances de seus weimaraners, uma raça inteligente conhecida como “cachorros com cérebro de gente”. Um deles, chamado Man Ray, entrou para a história da arte contemporânea em séries clássicas de fotos e vídeos.

Nos vídeos dos anos 70, os cães são manipulados pelo olhar, pelo apetite ou mesmo pelo toque físico do artista. O efeito é hilariante, embora role ao mesmo uma ternura no olhar triste dos weimaraners. Na seleção abaixo, de 9 minutos, estão alguns momentos antológicos dessa parceria. Chama atenção o trecho em que Wegman pratica uma manipulação sexual em Man Ray.

 

William Wegman, 67 anos, é também pintor e desenhista (conheça seu site). Seus trabalhos de artes plásticas conheceram uma grande evolução nas três últimas décadas, partindo do desenho tosco para telas rebuscadas e colagens divertidas. Em matéria de fotos, ele sempre foi genial – o Richard Avedon da expressão canina. Mas nos vídeos, Wegman trocou o preto-e-branco dos 70 pela cor e ficou um tanto aborrecido e presunçoso. Nada do que ele gravou recentemente parece ter o humor e a simplicidade de Stomach Song. Não deixe de ver essa pérola de pouco mais de 1 minuto. No site de Wegman, entre em Galeria, Vídeos 1970-77. É o primeiro.  

    

Milagre em Recife

dezembro 18th, 2009 § 1 Comentário

O ator Andres Schaffer no papel do repórter argentino

Os recifenses costumam dizer que sua cidade só conhece duas estações: verão e inferno. Mesmo no período chuvoso, entre abril e agosto, o calor não dá tréguas. Foi nessa época do ano, quando a fornalha se cobre de nuvens e adquire tons de cinza, que Kleber Mendonça Filho filmou seu novo e maravilhoso curta, Recife Frio. Algumas cenas foram rodadas em Gramado e na África do Sul. Inserções cenográficas e de figurinos, um tratamento sutil na finalização das imagens e um roteiro sugestivo completam as condições para esse fino exercício de sátira social através da ficção científica.  Continue lendo

Cine-Profecias

novembro 19th, 2009 § 2 Comentários

10 razões para ver “Brüno”

agosto 21st, 2009 § 3 Comentários

Brüno

  1. Uma felação gay durante sessão mediúnica
  2. Um pênis que dança e “fala” o nome do filme
  3. Um deputado republicano num quartinho de filme pornô
  4. Nunca vá a um fashion show com um macacão de velcro
  5. Pais capazes de tudo para botar seus filhos na mídia
  6. Depois de Darfur, por que não ajudar Dar-five?
  7. Elton John ao piano, sentado num mexicano
  8. Cena honcho num rink de luta livre
  9.  “Não, Hamas não tem nada a ver com homus”
  10.  Brüno ist mehr übersympatisch und mehr überkritik als Herr Schwarzenegger   

Abacaxi é a celebridade da semana

junho 29th, 2009 § Deixe um comentário

abacaxi

O Canal Brasil exibe nesta terça, às 20h15, o segundo programa da série Celebridades do Brasil, criada por Nelson Hoineff e Michel Melamed. A estrela da semana é Abacaxi, funcionário público e performer excêntrico de Volta Redonda. Como no programa de estreia, não há interesse pela “vida real” do personagem, mas somente pela sua face pública. Da biografia de Abacaxi, por exemplo, só ficamos sabendo que foi calouro do Chacrinha, jantou com Garrastazu Médici e teve que suplantar a concorrência de um certo Ananás pelas atenções de sua cidade.

Na semana que vem será a vez de um seresteiro e um cavaquinista de Conservatória. O grande achado do programa, pelo que já vi até agora, é explorar a convicção do personagem de que é uma celebridade local. Isso pode soar patético ou até hilariante. Mas há também a saudável anarquia da paródia de TV chinesa, com o tema sendo frequentemente metralhado por intervenções humorísticas. No programa de amanhã, é irresistível a forma como o repórter Shu Zheng Bo explica ao suposto público chinês quem foi Médici, misturando Mao Tse-Tung, Marilyn Monroe e Andy Warhol.

Ha! Tchen! Dung! Ho!    

Ting ling Brasil

junho 24th, 2009 § Deixe um comentário

Estreou ontem no Canal Brasil a série Celebridades do Brasil, dirigida por Nelson Hoineff e roteirizada por Michel Melamed. Talvez seja correto chamar esse primeiro programa de reality comedy. Carlos Evanney, um imitador de Roberto Carlos, é “apresentado” por um suposto repórter da TV chinesa, Shu Zheng Bo, que viaja pelo mundo à caça de “celebridades locais”.

Em rápidos 12 minutos, vemos uma hilária paródia de programa chinês, com legendas ideogramáticas, trilha sonora típica, cortes desconcertantes e absurdos intervalos comerciais igualmente chineses. Hoineff, que nos mantém a todos na expectativa do seu premiado Chacrinha, exercita aqui também o pendor para o documentário irreverente, politicamente incorreto (de leve) e de linguagem dinâmica.  

O estilo, a se manter, indica uma preferência por personagens pitorescos, o que pode limitar a pauta do programa. De qualquer forma, a estreia foi tão auspiciosa que quero acompanhar a série, nas terças-feiras às 20h15. O problema é que não decoro grade de TV. Acabo perdendo tudo. Acho que não nasci para essa mídia.

Bela Toscana

junho 22nd, 2009 § Deixe um comentário

Para os amigos que curtem minhas fotos de viagem, já tem álbuns de Florença, Siena, San Gimignano e Volterra no Webshots. Depois virão outras cidades que também visitei em maio. Clique na foto abaixo para entrar (minha identidade lá é versaooriginal):

Palazzo Publico, Piazza del Campo, Siena

Palazzo Publico, Piazza del Campo, Siena

E por falar em arte renascentista, aí vai um cartum do Laerte, do seu livro autobiográfico Laertevisão:
Laerte 001

 Não deixa de fazer certo sentido, né?

Onde estou?

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