Passeios no bosque da arte
dezembro 4th, 2011 § 6 Comentários
Dois dias são o tempo mínimo necessário para conhecer razoavelmente Inhotim, misto de jardim botânico, laboratório paisagístico e multigaleria de arte contemporânea a 60 km de Belo Horizonte. Trata-se de uma oportunidade rara, eu diria mesmo no mundo, de se perceber in loco as possibilidades de interação entre arte e natureza. Esse é mesmo um dos objetivos do projeto criado por Bernardo Paz a partir de uma fortuna amealhada na indústria de mineração e do desejo de interferir vigorosamente na forma como se consome a arte contemporânea e a (arte) botânica no Brasil.
(Clique nas fotos para vê-las maiores)
Para começar, a solenidade dos museus é suavemente desmontada pelo fato de as obras de arte estarem distribuídas num imenso parque. São cerca de 500 obras de 97 artistas de 30 nacionalidades, dispostas ao ar livre ou dentro das 18 galerias espalhadas pelo terreno. A ideia de passeio sobrepõe-se à de maratona cultural, e o visitante se sente mais um flâneur que um consumidor programado de cultura. Entre uma obra e outra, caminhamos por alamedas de palmeiras, orlas de lagos, praças ajardinadas, caminhos de pedra e até trechos de bosque denso em carrinhos especiais.
De repente, no meio da vegetação podemos nos deparar com uma espécie de iglu tecnológico, ou uma esfera de vidro semelhante a uma nave espacial, ou um imenso cubo de concreto, ou uma piscina conceitual onde queremos mergulhar o pensamento. A harmonia entre essas estruturas arquitetônicas ou escultóricas e o entorno verde é algo que não pode ser descrito, mas apenas experimentado. A natureza é tratada como arte, ao passo que a arte, cuidadosamente “plantada” em cada jardim ou edificação construída especialmente para a obra, aparece como algo que “nasceu” ali naturalmente.
Algumas obras comentam sem rodeios o diálogo arte-natureza. Como a árvore suspensa em vigas de metal de Giuseppe Penone, ladeada por outras árvores plantadas que no curso do tempo abraçarão e cobrirão a árvore biônica central. Ou as esferas de aço de Yayoi Kusama, que flutuam numa piscina ao sabor do vento, formando uma obra mutante e que, ao refletir a imagem do espectador nas bolas, multiplica caleidoscopicamente o efeito de Narciso. Outro destaque nesse agenciamento da natureza é a instalação Sonic Pavilion, de Doug Aitken. Dentro de uma cúpula num dos pontos mais altos do terreno de Inhotim, podemos ouvir os ruídos do interior da terra através de microfones instalados num buraco de 202 metros de profundidade. As atividades de mineração da região reverberam nas caixas de som do ambiente.
Quando saí de Belo Horizonte para Inhotim, Jean-Claude Bernardet me fez o alerta: “Aproveite as obras, mas não deixe de apreciar o jardim”. Lembrei-me dele a cada instante de deslumbramento diante, por exemplo, da diversidade das palmeiras – são cerca de 1500 espécies diferentes na maior coleção do mundo no gênero –, das flores e frutos exóticos que a gente quase toma por alguma delicada escultura, dos bancos “naturais” feitos de troncos inteiros embelezados por suas imperfeições. Tudo isso resgata uma dimensão artística da botânica e da jardinagem, muito comum nos jardins japoneses, mas aqui aditivados pela exuberância da flora tropical.
Inhotim é também um curso rápido de arte contemporânea. Textos curtos mas densos introduzem cada obra, pontuando os sentidos buscados pelos artistas e as conexões entre os conceitos envolvidos. Como todo mundo, saí de lá com algumas obras preferidas. Forty Part Motet, de Janet Cardiff, é uma instalação de alto-falantes de pé dispostos em círculo num grande salão, emitindo um canto coral do século 16. Ao nos aproximarmos de cada caixa de som, ouvimos a voz específica de um dos cantores. Além da experiência auditiva única, há a sugestão visual da presença física dos cantores na sala, representados pelos alto-falantes erguidos à altura de um homem. Emocionante.
Afora algumas obras já citadas, apreciei muito as esculturas humanas de Edgard de Souza, com as cabeças fundidas umas às outras ou enterradas no chão; as grandes vigas de ferro cravadas por Chris Burden no alto de uma elevação, compondo uma espécie de Pollock pesado e tridimensional; a grande sala densamente ocupada por Thomas Hirschhorn com ferramentas, livros de filosofia e fotos de corpos mutilados, tudo amordaçado com um aluvião de fita crepe.
E, bem, há os clássicos pelos quais já chegamos salivando em Inhotim. Lá estão cinco Cosmococas para entrar, brincar, banhar-se ou relaxar ao som de Jimi Hendrix ou John Cage. Lá está o quarto vermelho do Cildo Meireles, com sua sala adjacente por onde caminhamos em plena escuridão rumo àquela pia misteriosa de onde jorra “sangue”. Como não se deixar ficar uma boa hora no estupendo Pavilhão Miguel Rio Branco degustando as fotos-choque do bairro do Maciel, em Salvador, e o doc-ensaio Nada levarei quando morrer, Aqueles que me devem cobrarei no Inferno, entre muitas outras obras do artista em várias mídias?
Passeando por Inhotim, a gente pouco se dá conta de que o complexo não para de crescer. Obras para receber mais obras. Uma Grande Galeria está sendo construída, assim como estufas e laboratórios para as pesquisas de botânica. Muitas obras de arte já passaram pelas galerias e hoje pertencem à reserva técnica do instituto ou já foram desmontadas. Outras virão para se juntar às permanentes, numa dinâmica que não transparece na serena estabilidade do lugar. Tudo é relativamente novo, mas parece ter estado sempre ali – e não tem data para sair. Com certeza, uma das maravilhas do Brasil.
Travessuras de Laurie
março 29th, 2011 § 1 Comentário
Com seu ar de garoto travesso, Laurie Anderson abriu ontem pessoalmente a sua exposição I in You / Eu em Tu no CCBB-RJ. A moça trouxe seus violinos performáticos, vídeos e duas instalações de encher os olhos (e ouvidos). Numa delas, poemas audiovisuais são projetados em quatro telas de formatos e tamanhos diferentes. Na outra, a mais bela de todas, a “tela” é uma paisagem construída com picotes de papel sugerindo campos e aldeias, sobre a qual são projetadas imagens e grafismos de diversas naturezas.
Vi tudo sem muita calma, em meio à pequena multidão que acorreu à abertura. Quero voltar. Na verdade, gostaria de me mudar para aquela sala da paisagem. Ficar ali uns três meses ouvindo as experimentações musicais de Laurie e apreciando a brisa das imagens passar sobre os vales de papel.
A exposição tem fotos da Laurie performer em distintas fases de sua vida. Quando jovem ela gostava de dormir em lugares públicos inusitados para ver se o local influenciava seus sonhos. As fotos dessas performances me lembram uma série de fotografias que faço de gente dormindo em lugares públicos (veja aqui). À esquerda, uma das fotos de Laurie.
Abaixo, um trecho da performance Duet on Ice, que gravei com meu celular na noite de ontem. Ela repete hoje às 18 horas no saguão do CCBB. E às 18h30 faz palestra. Na performance original, Laurie calçava os blocos de gelo para determinar o tempo de duração do ato. Quando o gelo derretia e ela começava a perder o equilíbrio, era hora de terminar.
A pintura morreu. Viva o vídeo
dezembro 13th, 2010 § 3 Comentários
Enquanto visitava a 29ª Bienal, na semana passada, por vezes me sentia num festival de vídeo, daqueles que proliferavam nos anos 1980 e 90. A cada dez passos no labirinto proposto pelos curadores, topava com um monitor (a maioria configurada na janela errada, achatando as imagens originais), uma videoinstalação ou uma sala para vídeo single channel (a exibição convencional em tela única). A crer nessa curadoria, a arte contemporânea é o reino quase absoluto da imagem em movimento.
“Tem vídeo demais”, era um bordão que se ouvia tanto entre frequentadores comuns quanto entre especialistas. Rubens Machado Jr. e Ismail Xavier, ambos professores da USP e inequívocos amantes do audiovisual, tinham a mesma impressão. Soube que até videoartistas famosos acusaram a overdose.
Em decorência, era raro ver uma tela pintada ou uma escultura. As instalações físicas e as imersivas dividiam com o vídeo a primazia absoluta. Algo me diz que esta Bienal resolveu cortejar a atração do público pelo movimento, seja dele próprio, seja daquilo que vê. A arte estática e o hábito de parar diante dela pareciam subliminarmente condenados. Mesmo as obras fotográficas, em seu caráter serial, traziam implícita a ideia de movimento e demandavam a mobilidade do espectador entre elas.
No entanto, essa proposta envolvia uma contradição. Grande parte dos vídeos tinha duração superior a 10 minutos. Para um fruição adequada, exigia que o visitante se detivesse às vezes por 30 ou 40 minutos diante da tela, muitas vezes sem lugar para se sentar. Na verdade, a Bienal convidava o público a dezenas de sessões de cinema sem oferecer o conforto e o contexto adequados. Um dos “terreiros” criados como áreas de repouso e performances era um oca de papelão dedicada à exibição regular de filmes relacionados à arte.
Por mais admiração que se tenha pela obra de Harun Farocki, como assistir, de pé no meio de um “corredor”, à soma de quase 40 minutos do seu tríptico Serious Games, gravado em centros de treinamento para militares americanos? Ou como parar durante mais de 30 minutos diante das imagens belíssimas e intrigantes de Factory, filme do taiwanês Chen Chieh-jen, tendo do lado de fora da sala “um oceano inteiro para nadar”? (Faço aqui uma relação entre o verso de Leonilson e o de Jorge de Lima que serviu de slogan para esta Bienal: “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”).
Um vídeo como Phantoms of Nabua, de Apichatpong Weerasethakul, com seus concisos 10 minutos dedicados ao registro poético de uma performance - garotos chutam bolas de fogo e acabam ateando fogo à tela onde um filme era projetado ao ar livre (assista aqui) – parece perfeitamente integrado ao espírito de uma exposição de arte. Idem sobre o chocante filme de Miguel Rio Branco, Nada Levarei Quando Morrer Aqueles que mim Deve Cobrarei no Inferno, rodado no submundo de Salvador, com sua mescla de fotos e imagens em movimento. Afinal, é um típico filme de artista, que se furta a uma estratégia puramente jornalística ou voyeurística. Os videodiários de Jonas Mekas, fonte de seu 365-Day Project, também podiam ser degustados em pequenas porções, dado o seu caráter por natureza fragmentário.
Mas o que dizer, por exemplo, de Catastrophy, de Artur Zmijewsci, meia-hora de um documentário absolutamente convencional sobre as reações dos poloneses à morte do presidente Lech Kaczynski em abril? Ou do sobrevoo filmado de Steve McQueen em torno da Estátua da Liberdade? Ou ainda da conhecidíssima entrevista de Clarice Lispector à TV Cultura? Obras como essas não são potencializadas pelo fato de serem exibidas numa Bienal, nem acho que a Bienal se potencializa por exibi-las. Resta o fetiche das coisas que se movem. E a justificativa retórica de relacionar Arte e Política.
Outra constante na megaexposição eram os longos slideshows, em que o movimento se dava entre uma foto e outra. Nan Goldin tinha sempre sala cheia para The Ballad of Sexual Dependency, coletânea de suas personagens enfiadas no limbo das noites doentias. Pouca gente, porém, se dava ao luxo de ver a íntegra do show com mais de uma hora.
Desse tipo de trabalho, o que mais me impressionou foi um do belga David Claerbout, um explorador de “momentos decisivos” captados por centenas de câmeras simultaneamente. Em The Algiers’ Sections of a Happy Moment, vemos, congelado no tempo, um instante em que um grupo de rapazes e adolescentes se diverte com uma revoada de pombos no terraço de uma casa em Argel. A cena é única, mas os
pontos de vista se sucedem no slideshow, fazendo o espectador flutuar entre, sobre e sob os personagens e o local. O efeito é aliciante. Lentamente, somos levados a experimentar a multiplicidade quase infinita de ângulos de um momento único. O tempo se esgarça, a imobilidade se relativiza. A sensação de felicidade que emana da tela contrasta com as memórias de conflitos evocadas pela Argélia. De repente, nessa obra serena mas provocadora, era como se todas as sugestões da 29ª Bienal se concretizassem.
O Verde Crescerá sobre suas Cidades
outubro 4th, 2010 § Deixe um comentário
O artista em ação
O título do filme, melhor traduzido por “Grama crescerá sobre suas cidades”, vem de uma citação bíblica a respeito das profecias de destruição. Anselm Kiefer, provavelmente o maior artista plástico alemão vivo, usa essa referência para parte das obras que criou em seu imenso ateliê no sul da França, no local de uma fábrica abandonada. O filme de Sophie Fiennes testemunha alguns momentos cruciais desse trabalho, enquanto tenta estabelecer um diálogo visual com as obras através do uso de lentos travellings, panorâmicas e zooms.
Kiefer é um alquimista que trabalha na fronteira entre a construção e a destruição, o rigor e a aleatoriedade. As obras que ocupam solo, subsolo e ar de La Ribaute são fruto de escavações, perfurações, queimas, oxidações e todo tipo de ação física sobre os materiais. Guindastes, tratores, maçaricos e baldes de ácido têm papel de protagonistas no processo. São túneis, labirintos, salas e galpões convertidos em instalações que comentam a industrialização, as origens e o fim do mundo material. Grandes “livros” de chumbo sustentam torres de concreto, miniaturas de barcos pendem à frente de grandes telas, galerias de arquivos são pavimentadas com vidro e louça espatifados.
O filme destina-se ao consumo de quem tem um especial interesse pela radicalidade da arte contemporânea ou pelo artista em si, já que não há contextualização de sua obra nem informações biográficas. Durante meros 13 minutos de entrevista, Kiefer explicita seu interesse pelo mar, pelo tédio e pelas edificações (“Quadros precisam de seu próprio edifício para fazerem sentido”, diz). O resto é a simples observação dos trabalhos no canteiro de obras, com o artista e seus auxiliares, e a exploração visual do lugar. Não um retrato de artista, mas um olhar sobre sua ação.
As Praias de Agnès
setembro 26th, 2009 § 1 Comentário
(Les Plages d’Agnès)
Doc catador. Os documentários de Agnès Varda são ensaios de uma catadora de imagens. São poemas de fragmentos coletados aqui e ali e selecionados por uma nuvem temática. Desta vez, numa espécie de filme-testamento, o objeto é sua própria história, seus entes queridos, seus filmes. Agnès tem um misto de fé e desconfiança na capacidade do cinema para reconstruir memórias. Daí o aspecto lúdico dessa rememoração. Ela usa diversos artifícios para conectar tempos distintos e manifestações artísticas diferentes. De alguma forma, tudo começa e termina com uma instalação e uma performance, formas indissociáveis no seu trabalho recente. O amor por Jacques Demy e pelo cinema responde pelas vinhetas mais carismáticas do filme. Mas, sejamos justos, há também um pouco de autoindulgência e um excesso de digressões. É preciso um certo engajamento afetivo para melhor apreciar o fluxo caprichoso de referências e autorreferências. De qualquer forma, trata-se de um trabalho inspirador pela liberdade de uma montagem colada à expressão verbal. Nessa conversa com a plateia, não há hierarquia entre palavra e imagem. ♦♦♦
Corpos na parede
setembro 2nd, 2009 § Deixe um comentário
Finalmente visitei Gary Hill no Oi Futuro (em cartaz somente até este domingo). Há 12 anos o conheci no CCBB, trazido pelo mesmo Marcello Dantas. Naquele evento, às quatro instalações se somava uma extensa mostra de vídeos single channel. Nada do que vi agora no Oi Futuro se compara a Tall Ships, um corredor escuro assombrado por figuras humanas que se aproximavam de nós como fantasmas interativos.
O mais próximo disso na exposição atual é Viewer, um clássico do gênero de 1996. Veja um pequeno trecho que gravei com minha Cybershot:
Numa grande parede alinham-se projeções de 17 homens em tamanho natural, que encaram o espectador com olhar mudo e pequenos movimentos naturais de cabeça, braços e pernas. Pela aparência e vestuário, são trabalhadores braçais de diversas etnias. Mas essa “informação” acaba não valendo muito diante da impassividade deles. Gary Hill trabalha aí nesse vazio entre o corpo e os significados. Parece dizer que não basta estar diante de um corpo, expressão absoluta da matéria humana, para compreender o mundo se o tempo e o contexto são abolidos. Continue lendo







