O pré-Hemingway de Curitiba
dezembro 28th, 2011 § Deixe um comentário
Essa cara de moleque paranaense aí em cima não engana. Bem antes de pular para trás das câmeras, Sylvio Back era um jovem crítico de cinema e teatro, jornalista “entrão” que sonhava em ser copidesque, posição cobiçada nas redações em fins dos anos 1950. O Diário do Paraná confiou-lhe em1959 a edição de sua página literária dominical. Influenciados pelo Suplemento Dominical do JB carioca, Back e o programador visual de nome não menos literário, Emilio Zola Florenzano, criaram uma página dinâmica, arejada, contemporânea. Durante 85 domingos, o letras e/& artes (assim mesmo, com minúsculas) fustigou a cena cultural de Curitiba. Parou de circular quando Back, aos 23 anos, foi demitido por liderar uma greve salarial.
Agora, 50 anos depois, o letras e/& artes ressurge em edição facsimilar, patrocinada pela Itaipu Binacional e distribuída à margem do comércio. Dá gosto folhear as páginas enormes e ver como o debate cultural de uma fase de transição na cultura brasileira repercutia num ambiente relativamente provinciano.
A pauta aprovada pelo editor Sylvio C. Back contemplava contos, poemas, traduções (de Genet, Camus, Lorca etc), críticas de filmes e montagens teatrais, ensaios sobre existencialismo (então na moda entre os jovens curitibanos) e muitos textos editorializantes contra os pseudointelectuais, os escritores “barrocos”, os críticos “viteloni” (boas-vidas) e os canastrões de toda ordem. A página era feita por e para os “jovens da terra”, como afirmava o editor.
Back jogava em diferentes posições. Como crítico de cinema, saudava Tati, Jules Dassin e Tchukrai, incensava O Grande Momento de Roberto Santos e duvidava de Glauber na afirmação de que a ida das câmeras para o Nordeste renovaria o cinema brasileiro. Voltando-se para os palcos, lastimava “o ambiente descultural do teatro paranaense” e celebrava a novidade do Teatro de Arena. Rebatia Wilson Martins em defesa de um escritor-filósofo local. Defendia a Lolita de Nabokov (“nada tem de imoral”), Os Amantes de Louis Malle e a revolução cubana (“Não foi em vão que Sartre disse ter Castro feito o que é preciso fazer”). Outros pequenos textos, de teor “angustial” (então sinônimo para existencial), prenunciavam a veia ficcional do futuro cineasta-poeta.
Do garoto que aspirava a ser um “pré-Hemingway” ao diretor de filmes como Aleluia Gretchen e Lost Zweig, Sylvio Back mudou muito e ao mesmo tempo não mudou tanto. Os seus filmes e – principalmente – os textos que ele produz em paralelo conservam bastante daquela verve conflagradora, da rejeição a alinhamentos e do gosto pela palavra mordaz.
As asas de Angeli
novembro 25th, 2010 § 3 Comentários
Caos, crise, obsessão, poluição, velocidade. É o apocalipse ou um dia na vida de São Paulo? Nada disso, ou talvez um pouco de tudo isso. Estamos falando do mundo do cartunista Angeli. Estamos no coração de um fantástico curta que estreia esta noite no Festival de Brasília. Beth Formaggini vinha me segurando as mãos quase literalmente para que nada quebrasse o ineditismo exigido pelo festival. Pronto, acabou. Já posso escrever sobre Angeli 24 Horas.
Beth não poderia ter sido mais feliz nesta apresentação do personagem Angeli em meio a seus escrotinhos, bananas, rê bordosas, bob cuspes, freaks, políticos xexelentos, cônjuges monstruosos et caterva. O cronista que criou essa épica do vil é ele mesmo um compulsivo, cara de mal dormido, fala e gestos nervosos, como se fosse explodir dentro de 10 segundos e deixar a parede do estúdio coberta de gosma verde.
O filme potencializa essa identificação entre criador e criaturas colhendo a autoanálise de Angeli num estúdio decorado com motivos gráficos, trabalhando muito com a relação entre figura e sombra, e projetando as tiras sobre seu corpo numa espécie de instalação. Além disso, filma pontos-chave de São Paulo em ritmo acelerado e “encontra” nas ruas figuras reais que poderiam ter inspirado personagens de Angeli. Assim é que artista e cidade se fundem pela lógica dos fluxos incessantes. Embora saia pouco da prancheta, Angeli flutua com sua imaginação mórbida, radical e divertidíssima pelos espaços da metrópole, tal como o anjo de Asas do Desejo. Entre seguir em frente e mudar de rumo, Angeli opta pelas duas coisas.
Eixo quebrado entre as várias câmeras que o filmavam, ele fala de suas grandes inspirações; conta como se livrou de seus personagens mais célebres e das propostas de massificação; como encontrou na tragédia familiar do amigo (e muso) Laerte a deixa para uma guinada em sua carreira; por que prefere os diabos aos deuses na hora de riscar o papel. Para cada afirmação ou dúvida, Beth vai localizar a tirinha adequada para fazer a passagem entre pensamento e obra, movimento e resultado. Como eixo central e justificativa do título, Angeli vai preparando a charge que sairá no dia seguinte num jornal paulista.
Outro elemento fundamental para a incrível coesão artística do filme é a trilha sonora heavy e aliciante de JR Tostoi (do grupo Vulgue Tostoi). Num de seus melhores momentos, a música sampleia a voz de Angeli numa batida persistente e sublinha a evidência de que tudo nesse filme emana da pulsação de seu personagem. Não são muitos os perfis de artista com esse grau de coerência.
A imprensa em seus piores dias
outubro 11th, 2010 § 12 Comentários
Quem me segue no Twitter tem testemunhado minha recente vergonha com o diploma de jornalista. Não pela profissão em si, uma das mais nobres que existem, mas pelo sentido que ela tem adquirido na grande imprensa brasileira. Estou impressionado com a quantidade de jornalistas-carneirinhos que se prestam ao jogo sujo praticado pelos grandes jornais e revistas nessa campanha eleitoral.
A grande mídia tem sido o braço auxiliar das forças conservadoras, ecoando acriticamente o denuncismo eleitoreiro, as baixarias difamatórias e, mais recentemente, o fundamentalismo religioso que infelizmente virou protagonista da campanha. Essa mídia não só ecoa, como fornece combustível para a caça às bruxas e as insinuações perversas, numa parceria sinistra para a transparência de uma sociedade democrática.
O Globo, único jornal que (ainda) assino por causa do Segundo Caderno e de alguns suplementos, abre espaços mínimos para o pensamento progressista, mas prontamente o ofusca mediante uma “seleção” de assuntos e espaços destinada exclusivamente a torpedear a candidatura de Dilma Roussef. Nenhuma realização do Governo Lula merece mais que algumas linhas em cantos de página ou perdidas dentro de alguma matéria “questionadora”, ao passo que os elogios ao governo Cabral (justos, não discuto) são uma cantilena praticamente diária. Cito isso apenas para desmentir a tese de que “jornais não são para elogiar, mas para investigar”. No caso da campanha à presidência, até a paginação do jornal reflete a escolha eleitoral dissimulada: artigos sobre Dilma na página par; textos sobre Serra na página ímpar (zona áurea da leitura). Nem caberia enumerar aqui as estratégias de edição que a cada dia procuram reforçar uma imagem negativa para a candidata oficial.
A Folha de S. Paulo, de passado épico na campanha pelas Diretas Já, hoje é, com raras exceções, um ninho de pós-yuppies tucanos dispostos a tudo para trazer as aves bicudas de volta ao poder. O Estadão, que pelo menos teve a dignidade de explicitar seu apoio a Serra num editorial, mostra-se truculento no combate ao dissenso, como ocorreu no episódio da demissão da colunista Maria Rita Kehl por conta de um artigo em que defendia o Governo Lula. A Veja… bem, há muito não a considero uma revista, mas um panfleto das elites conservadoras. Há outros grandes jornais e revistas no mercado, mas seu papel político é bem menos decisivo que o desses.
Em tal panorama repulsivo, uma coisa tem me causado um mal-estar quase físico: é a falácia de alguns jornais em se arvorarem porta-vozes da sociedade e canal obrigatório de comunicação entre governantes e governados. Artigos e editoriais revoltados condenam sites, blogs e twitters de políticos e estatais – de Cristina Kirchner e Hugo Chávez à Petrobras – por estabelecerem um contato direto entre governos e sociedade. Qualquer iniciativa nesse sentido é tomada como um ataque ao papel mediador da imprensa.
Ora, que mediação é essa? A imprensa é espaço e instrumento de poder, além de empreendimento comercial. E isso não é de hoje. Todos sabemos como os grandes jornais pediram e apoiaram o golpe de 1964, sendo que alguns se arrependeram pouco depois ao ver o monstro que tinham ajudado a criar. O sistema Globo, aliás, seguiu apoiando a ditadura até o fim. Com a mais recente “empresificação” dos meios de comunicação, estes se tornaram, ainda mais, veículos de defesa e cabos eleitorais de interesses econômicos. Um desses interesses, senão o principal, é o deles próprios. Jornais precisam conservar seu poder de influência para se manterem comercialmente fortes. Daí as reações inflamadas contra qualquer tentativa de regulação ou de bypass pelas instituições políticas que, através da internet, lhes roubam o papel de “mediador”.
No mundo inteiro, essa função da imprensa vem sendo relativizada. A cada semana recebo, por exemplo, e-mails assinados por Barack Obama (através do projeto democrata Organizing for America) discutindo suas principais inquietações. Já se foi o tempo em que o cidadão dependia da mídia para ter acesso ao que pensa o seu prefeito ou seu presidente. A internet pulverizou essa mediação, e isso nada tem a ver com autoritarismo, muito pelo contrário.
É preciso denunciar esse bordão da imprensa como instituição “neutra”, vestal intocável a serviço do bem comum. Não é. Talvez nunca tenha sido. Essa grande imprensa brasileira de hoje não me representa, assim como certamente não representa a grande maioria do povo brasileiro. Mediadores entre governantes e cidadãos são os instrumentos da sociedade civil, a livre veiculação de ideias e opiniões não tuteladas por editores comprometidos. Jornais e TVs são balcões de compra e venda, aí entendido também o comércio político.
À grande mídia brasileira não basta mais retratar o país pior do que é na verdade. Ela agora contribui para torná-lo de fato pior. É por isso que mantenho meu diploma na gaveta, à espera de que o jornalismo deixe de ser uma vitrine para a hipocrisia e o obscurantismo.
Notas sobre o partido da imprensa
fevereiro 8th, 2010 § 3 Comentários
1.
Há quase oito anos acompanho nos jornalões o que chamo de “colunismo do mas”. Desde o início do governo Lula, articulistas como Merval Pereira e Miriam Leitão, de O Globo, militam na inglória tarefa de semear dúvidas sobre a política econômica. A cada iniciativa ou sucesso do governo, eles admitem o óbvio para logo em seguida contrapor um “mas…”. Ora é a crise internacional que vai mostrar suas garras; ora é a insuficiência das medidas para um futuro próximo; ora são indicadores menores que não acompanham o êxito dos maiores.
Os meses passam, a economia se mantém firme, mas o “colunismo do mas” renova sua retórica pateticamente. Novos sucessos têm que ser admitidos, mas…
Nesse domingo, Merval Pereira comentou a indiscutível ascensão da renda da classe média, mas foi pesquisar autores que colocam em dúvida a sustentabilidade desse quadro baseado no aumento do consumo. É sempre assim: o governo Lula é um sucesso, mas o preço do carretel de linha continua subindo e não dá pra garantir que em 2050 o país esteja bem.
OK, ninguém está pedindo um coro de contentes, mas até quando teremos que aguentar o coro dos descontentes batendo latinha enquanto passa a caravana de um Brasil melhor?
2.
Se tenho cá as minhas dúvidas sobre os métodos e a fanfarronice de Hugo Chávez, as dúvidas são maiores ainda sobre a maneira como a grande mídia conservadora brasileira o pinta dia após dia. As reações contra a recente cassação da concessão de uma rede de TV serviram para desenhar o perfil de um país “dividido” – como se a democracia não fosse justamente a arte de administrar divisões.
O Globo de domingo também trouxe uma matéria com depoimentos de admiradores e desafetos do governo Chávez. Basta comparar os argumentos de cada lado para perceber que há uma cisão entre camadas populares e as classes média e alta. A opção do presidente pela redução de desigualdades está levando a luta de classes à esfera das políticas públicas. Mais uma prova da genialidade política de Lula foi seguir esse caminho sem botar o país na rota da polarização.
O que mais me espanta nessas notícias de Caracas são as imagens dos estudantes que assumiram a defesa de uma empresa de televisão e protestam contra o governo. Eles podem até ter razão, mas precisavam parecer uma milícia de pitboys parrudos? Ou, pior ainda, como nessa foto de Fernando Vergara/AP, uma coluna perfilada com saudação fascista e máscaras brancas que remetem à Ku Klux Klan?
3.
A mídia conservadora abraça acriticamente todos os signos e falsos questionamentos que contam a favor de suas escolhas. Sim, porque é ingenuidade ou canalhice achar que os grandes jornais e redes de TV são meros instrumentos da liberdade e da democracia. Eles o são apenas na parte cosmética. No fundo, são empresas que fazem escolhas políticas e se aproximam da condição de um partido informal. Orientações explícitas correm em surdina pelas redações. São todos contra Lula e contra Chávez, embora poucos assumam isso frontalmente como a revista Veja.
O resto é demagogia e manipulação.
Quem tinha medo de Paulo Francis?
janeiro 23rd, 2010 § 2 Comentários
Não é preciso ser um admirador de Paulo Francis para gostar de Caro Francis, o documentário de Nelson Hoineff sobre um de seus maiores amigos durante 19 anos. Eu mesmo rejeitava o elitismo que parecia atravessar a personalidade inteira do jornalista – da política à cultura, do humor à baixa estima que destilava pelas coisas brasileiras. Francis era republicano, antipopular, racista, sexista, talvez um tanto misantropo – ou seja, tudo o que pessoalmente abomino. No entanto, apreciei este perfil traçado com honestidade pelos seus próprios amigos e ex-colegas de trabalho. Continue lendo
Um jornal em campanha
julho 21st, 2009 § 3 Comentários
O oposicionismo militante de O Globo já chegou às raias do ridículo. Na edição de hoje, a capa omite completamente a manchete do caderno de Economia (“Otimismo de volta a empresários” – aliás, que redação é esta?) e dá um destaque incompreensível a denúncia miúda envolvendo a Petrobras.
Não gosto de escrever sobre política, mas os factóides do jornalão estão embrulhando o estômago, dia após dia. No noticiário internacional e na Economia, só dá Brasil, mas as chamadas de capa desconhecem essas editorias. Na capa, O Globo é pura campanha. É assim que se forma a opinião da classe média subinformada.
Seja jornalista, seja herói
junho 30th, 2009 § 1 Comentário
Todo jornalista está comentando Intrigas de Estado. Não é para menos. Os personagens centrais são um profissional experimentado de jornal impresso e uma jovem blogueira do braço online da mesma empresa. Obrigados a trabalhar juntos numa matéria investigativa, eles começam com as implicâncias típicas de casal que acabará tendo um romance mais adiante. Mas, felizmente, esse não é o caso. A harmonia virá através da divisão do trabalho.
Aí é que o filme de Kevin MacDonald faz seu cumprimento ao conservadorismo. O safo Cal (Russel Crowe) ficará com a parte pesada da missão, até correndo perigo de morte numa fantasiosa investida de repórter-herói. A Della (Rachel McAdams) caberá o papel de coadjuvante, além dos aspectos “menores” da reportagem.
Ou seja, embora pareça celebrar a colaboração do jornalismo impresso com o online, o filme na verdade cria uma hierarquia. O papel é hard, másculo e heróico. O digital é ligeiro e superficial. Os preconceitos de Cal se confirmam simpaticamente no decorrer da trama.
Mas é possível também ler o filme de outra maneira: com o crescimento do jornalismo online, caberá aos diários tradicionais investir em matérias de fundo, mais ambiciosas. E quiçá perigosas. O jornalista de papel precisa se transformar em herói se não quiser ser deglutido pela blogocracia.



