Bresson por Mocarzel
maio 8th, 2012 § 1 Comentário
Evaldo Mocarzel é apaixonado por Robert Bresson. Quem não sabia disso vai ter a medida aproximada nesse texto que ele escreveu para nosso blog e para o site Críticos.
A ideia inicial era resenhar o livro Bresson – ou o Ato Puro das Metamorfoses, de Jean Sémolué, lançado em 2011 no Brasil pela editora É Realizações. Mas a paixão levou Evaldo a muitas e férteis digressões. Na verdade, o que ele nos oferece é quase um resumo do livro, entremeado por suas próprias observações sobre o mestre francês, trechos das Notas sobre o Cinematógrafo, de Bresson, que o próprio Evaldo traduziu para o português, e até declarações do cineasta em documentários e programas de TV sobre ele.
Para Evaldo, “Bresson está mais ‘moderno’ que nunca, sobretudo a aparência documentária dos seus planos aplainados, condensados, sempre em estado de contenção, de espera e de reserva.”
O texto é longo, mas vale por uma iniciação completa à obra de Bresson.
Epifanias de Bresson
Lançado no Brasil no segundo semestre do ano passado pela É Realizações Editora, “Bresson – ou O Ato Puro das Metamorfoses”, do crítico e ensaísta Jean Sémolué, é um precioso estudo sobre a obra do cineasta Robert Bresson, apesar do título cifrado e até certo ponto escalafobético, contrastando um pouco com a simplicidade e o minimalismo do grande mestre francês.
Sémolué lembra que, para Bresson, toda vida é feita de acasos e de predestinações, “cada filme tem a sua hora”, ressaltando ainda que esse grande artista era um “amador” na sua acepção mais apaixonada, como escreveu Malraux em “L’ Homme Precaire deLa Litérature”.
Durante o Festival de Cannes em 1957, após a apresentação de “Um Condenado à Morte Escapou”, realizado no ano anterior, Bresson afirmou que “o cinema não é um espetáculo, é uma escritura”, e passou a se referir à arte cinematográfica como “cinematógrafo”, a invenção dos irmãos Lumière, à maneira de um grande amigo, também um mentor no início de sua carreira e que depois se tornou uma espécie de antípoda do cineasta francês: Jean Cocteau. Bresson foi muito amigo de Cocteau durante toda a vida e essa grande figura renascentista, que transitou por tantas linguagens, como a literatura, o cinema, o teatro e as artes visuais, chegou a assinar os diálogos do segundo longa-metragem de Bresson: “As Damas do Bois de Boulogne”, de 1943. No entanto, artisticamente, os dois foram se afastando paulatinamente: enquanto Cocteau gostava de bordar as suas obras com todo tipo de ornamento, Bresson enveredou por uma busca minimalista que poderia ser definida como “criação por subtração”, se despojando de todo tipo de excesso para tentar vislumbrar o “real” no inesperado e na essência epifânica da imanência de todas as coisas, sobretudo nos atos falhos dos não-atores, ou melhor, “modelos”, que passou a dirigir em seus sets de filmagem, como um pintor. Continue lendo
O ‘Amarcord’ de Jurandyr Noronha
abril 19th, 2012 § Deixe um comentário
Existe uma cidade com esse nome no norte da Bahia, perto da fronteira com o Piauí. Mas não é essa a Remanso em que Jurandyr Noronha, aos 96 anos, fincou o esteio do seu romance Bravos Companheiros (EMC Edições), a ser lançado em noite de autógrafos na próxima quinta-feira, dia 26, a partir de 19h30, na Livraria da Travessa de Ipanema. A Remanso de Jurandyr é mais ou menos como a Rimini de Fellini em Amarcord: livre território de lembranças, província quase de sonho e povoada por personagens característicos. Dessa cidade fictícia ele parte para contar uma pequena história do Brasil entre 1921 e 1960.
Lá estão os comunistas Donato e Nicola distribuindo panfletos clandestinos do Partidão; o fotógrafo judeu Isaac driblando tabus para casar-se com a mulata Maria Rosa; o gráfico Spencer Valverde tirando da cartola a ideia de criar o primeiro jornal da cidade; o Padre Flávio tentando conciliar as divergências no seu rebanho; o alemão Helmut e sua família fazendo o possível para se assimilar à paisagem cultural brasileira. Questões que o país viveu intensamente na primeira metade do século 20.
Remanso vê aos poucos chegar a modernidade: além da Gazeta, um aeroporto fluvial, uma hidrelétrica, uma fábrica de laticínios, o rádio, a televisão, uma visita de Getúlio Vargas e outra do comunista Apolônio de Carvalho. E junto com isso, os grandes conflitos que abalaram o Brasil e o mundo. Jurandyr Noronha, além de decano do documentarismo brasileiro e pioneiro na militância pela preservação dos materiais cinematográficos, sempre foi um amante da história bélica. Bravos Companheiros faz uma súmula das efemérides militares do período, desde o episódio dos 18 do Forte (Copacabana, 1922) até a Revolução Cubana, passando pela Revolução de 30, o movimento paulista de 32, a Coluna Prestes, o levante integralista, a Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã. De caso a caso, Jurandyr detalha os armamentos e veículos utilizados, conta as baixas e comenta as performances de cada lado.
Da mesma forma, relata sucintamente uma seleção de eventos que inclui o lançamento do primeiro satélite artificial da Terra e do primeiro filme sonoro brasileiro, a coqueluche causada pela radionovela O Direito de Nascer, o surgimento inovador de Rio 40 Graus, a construção de Brasília, etc. Vez por outra, os dois campos se cruzam, como no episódio da atriz Lélia Abramo e do crítico Mário Pedrosa trocando tiros com os protofascistas de Plinio Salgado.
Os grandes acontecimentos rebatem inevitavelmente em Remanso, dividindo opiniões e engajando alguns habitantes. A estrutura do romance é um constante vai-vem entre o macro e o micro, o mundo e a província. Alguns personagens podem sugerir traços biográficos do autor, nascido e crescido em Juiz de Fora (MG). Ubiratan, que nasce na primeira página, pode personificar seu amor pelo cinema e a aviação. Os oficiais Cícero e Ewandro permitem a Jurandyr incorporar seus conhecimentos de quando frequentava a Escola Militar de Realengo. Mas tudo isso vem diluído numa fabulação politicamente equidistante, na qual Remanso condensa fatos e dilemas gerais do país na época.
A cronologia atende ao rigor de historiador de Jurandyr. Em sua pesquisa, ele exuma ocorrências pouco difundidas. Uma delas é a carga bélica, em plena Copacabana, contra o navio alemão Baden, que teimou em deixar o Rio durante um bloqueio da Revolução de 30. Outra é o afundamento de outro navio alemão pela força aérea inglesa durante a II Guerra, quando pereceram cerca de 6.000 prisioneiros judeus, comunistas, negros, homossexuais, ciganos, etc. Sobre esta tragédia, Jurandyr não hesita em comentar: “significou muitos dias sem trabalho para os campos de concentração de Ravensbruck e Dachau”.
Bravos Companheiros é, assim, um misto de história militar e fábula provinciana, um tipo de livro que não se faz mais hoje em dia. Justamente por isso, tem um sabor incomum, uma singularidade que os muitos descuidos de revisão não botam a perder. Clique aqui para ler um pequeno trecho do livro
Os homens que eu tive
março 27th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade – Numa cena de Com Amor, Carolyn, a octogenária Carolyn Cassady mostra alguns lençóis onde teria dormido com Neal Cassady, seu marido, e Jack Kerouac, seu amante. “Se pudesse provar isso, venderia esses lençóis ao Johnny Depp por milhares e milhares de libras”, comenta. A fala condensa bem o quadro flagrado pelas jovens documentaristas suecas Maria Ramström e Malin Korkeasalo. Solitária, Carolyn vive basicamente das memórias de sua convivência íntima por 20 anos com os ícones da geração Beat. Daí tenta, não sem certa relutância, tirar seu sustento, no que é ajudada pelo filho, John Allen Cassady.
Quando o filme começa, Carolyn já se mostra uma mulher sem ilusões. Ela sabe que só está sendo objeto de atenção por ter tido os homens que teve, não por ser também uma escritora. Seu único livro, aliás, é Off the Road, um relato do seu ponto de vista da saga ficcionalizada em On the Road. Ou seja, é uma mulher ocupada por dois homens mortos há muito tempo, e que não conseguiu refazer sua vida amorosa. O atual revival dos beats é uma oportunidade para melhorar um pouquinho o baixo saldo bancário e colocar alguns pontos nos “is” – ou seja, dizer que a história gloriosa de Neal e Jack na verdade é uma história de autodestruição e desperdício de talento.
As diretoras transmitem nas imagens e sons o grau de intimidade que conseguiram estabelecer com a personagem. Não sei se algumas confissões envolvendo sexo e família já haviam sido antecipadas no livro, mas de qualquer forma ouvi-las de viva voz surte um efeito poderoso. No fim das contas, esse retrato de uma mulher forte e determinada fecha certos contornos da história maior que a envolveu e selou seu futuro. Como aperitivo para On the Road, de Walter Salles, é um dry martini no capricho.
Coutinho passo a passo
março 22nd, 2012 § 5 Comentários
A retrospectiva naciona
l do É Tudo Verdade este ano vai enfocar a trajetória de Eduardo Coutinho até Cabra Marcado para Morrer. Este foi um período em que o grande documentarista ainda tateava uma carreira. Estudou Direito, foi copidesque de revista, respondeu sobre Chaplin em programas de TV e fez seu primeiro curta como estudante do IDHEC de Paris. Ainda na França, dirigiu teatro infantil e seu primeiro documentário. De volta ao Brasil, envolveu-se com o CPC da UNE, Cinco Vezes Favela, roteiros de ficção como A Falecida, Garota de Ipanema e Dona Flor e seus Dois Maridos. Ao mesmo tempo, dirigia um episódio de ABC do Amor e os longas ficcionais O Homem que Comprou o Mundo e Faustão. Em seguida, “caiu na real” através do Globo Repórter, que iria prepará-lo para a aventura final do Cabra.
Esse itinerário foi recomposto no meu livro Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real, feito para o Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira (Portugal), em 2003. Modestamente, posso afiançar que é uma boa fonte de pesquisa sobre essa fase multidisciplinar da carreira de Coutinho, já que o excelente livro de Consuelo Lins detém-se apenas sobre o trabalho nos documentários.
Coloco aqui o PDF do livro completo para consulta e download. Ele cobre até Edifício Master. Compõe-se de uma introdução, uma grande entrevista, uma biofilmografia e capítulos sobre cada filme ou grupo de programas de TV, divididos em “contexto” e “análise”. Minha intenção foi justamente detectar as linhas de continuidade e os pontos de ruptura que conduziram o realizador até o que ele viria a ser na maturidade.
Clique para abrir: Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real
20 anos de teatro cidadão
março 14th, 2012 § Deixe um comentário
De Brecht à Bósnia, de Lima Barreto a Heiner Müller, de Martins Penna a João Cabral de Melo Neto, o repertório da Companhia Ensaio Aberto é um elogio do teatro como mix de divertimento e reflexão política. Luiz Fernando Lobo, Tuca Moraes e sua trupe estão há 20 anos na estrada e comemoram a data com um belo livro sobre sua trajetória. O lançamento será na próxima sexta-feira, às 19 horas, na Livraria Travessa do Shopping Leblon.
A documentação do fazer teatral é sempre uma forma precária, mas a única, de preservar o que nasceu para durar apenas uma temporada. A Ensaio Aberto teve o privilégio de ter seus 20 espetáculos fotografados por Antonio Augusto Fontes. Esse material, junto com o de outros fotógrafos (a companhia sempre permitiu a qualquer um registrar seus espetáculos), faz as delícias visuais do livro. De resto, há textos de Lionel Fischer, Iná Camargo Costa, Felipe Radicetti, Pedro Tierra, Batman Zavarese e Tuca Moraes sobre vários aspectos do trabalho e uma entrevista de Luiz Fernando Vianna com o diretor do grupo.
Assisti a muitas montagens da companhia (leia sobre a última de Missa dos Quilombos) e testemunhei como eles se lançaram com enorme apetite a vários formatos teatrais. Cemitério dos Vivos (sobre Lima Barreto) e A Missão (de Heiner Müller) explodiam o palco por diversas dependências do Palácio da Praia Vermelha e do Paço Imperial, respectivamente. Cabaré Youkali e Café Havana exploravam as ambiguidades do estilo cabaré em espaços naturalmente mais confinados. Estação Terminal estimulava performances interativas com a plateia. Bósnia, Bósnia e Olga Benário – Um Breve Futuro expandiam sua ação através de recursos multimídia no rumo do teatro-documentário em parcerias com Silvio Tendler e o pesquisador de imagens Antonio Venâncio. Companheiros e Missa dos Quilombos investiam no musical de contornos sociais e fatura épica. A dar unidade a essas várias experiências estava sempre o compromisso com um senso de coletivo, não só dentro do grupo, mas também para fora dele.
A Ensaio Aberto leva a sério o seu título tentando atrair para o teatro parcelas da população que não têm o hábito de frequentá-lo. Para isso, sempre ofereceu espetáculos a preços populares ou gratuitos a populações de baixa renda, assim como articulou a formação de plateias cidadãs em comunidades, colégios (preferencialmente públicos), sindicatos, associações de moradores e movimentos sociais organizados. Levou a suas peças grupos de presos em regime semi-aberto, crianças em situação de risco, mendigos e doentes mentais. A proposta é “refuncionalizar o teatro”, tornando-o mais includente e mobilizador.
Aos 20 anos, com esse livro, a Ensaio Aberto dá mais um passo no sentido de superar a natural efemeridade do teatro. Uma próxima etapa desejável seria o lançamento de uma caixa de DVDs com os registros de alguns espetáculos. Não custa nada sonhar.
O livro do DOC TV
março 12th, 2012 § 3 Comentários
Uma das mais felizes iniciativas do governo Lula na área do audiovisual, aparentemente descontinuada no governo Dilma, o programa DOC TV possibilitou a criação de quase 200 documentários e a exibição de mais de 3.000 horas de material nas TVs públicas de todo o país. O programa foi reeditado por outros países da América Latina e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Essa história de sucesso acaba de ser contada em livro, organizado pela jornalista Maria do Rosário Caetano. Com textos de apresentação de Orlando Senna, Silvio Crespo e Maria do Rosário, resenhas críticas de 10 docs e sinopse e ficha técnica de toda a coleção, Doc TV Operação em Rede será lançado em São Paulo durante o Festival É Tudo Verdade, em fins deste mês. No Rio, articula-se um lançamento possivelmente no âmbito do Cinesul, em junho.
A seguir, adianto o texto que me coube fazer a respeito de Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato, um dos vários rebentos do programa que viraram pequenos clássicos do doc brasileiro contemporâneo.
Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem
Crianças vestidas de anjo numa procissão, uma carroça subindo a ladeira, um homem olhando o vazio, dois copos de plástico rolando na brisa. Imagens assim banais e descontextualizadas intrigaram os primeiros espectadores de Acidente. Que informações elas transmitiam, perguntavam-se os objetivistas do documentário. Que relação havia entre elas, além do fato de terem sido colhidas em pequenas cidades do interior de Minas Gerais, indagavam-se os ciosos da narratividade. Melhor deixar a análise para uma segunda visão, ponderavam críticos responsáveis.
De fato, os pequenos mistérios de Acidente se revelam com calma – e melhor ainda numa revisita ao filme. Arquitetos do acaso, Cao Guimarães e Pablo Lobato deixaram-se guiar pelo fortuito quando visitavam aquelas cidades de nomes sugestivos. Lançavam sobre elas um olhar sem pautas, uma observação interessada não nos nexos possíveis entre fatos e pessoas, mas nos eventos imprevistos, flagrantes mínimos ou micro-histórias que fossem capazes de produzir um sopro de identidade para cada lugar.
Assim, alguns são representados por metáforas alusivas ao seu próprio nome. O município de Tombos, por exemplo, é visto em fragmentos de prédios enquadrados contra um imenso céu azul, assim como se a cidade tivesse virado de ponta-cabeça. Fervedouro, por sua vez, é mostrada na figura de um caminhoneiro que troca seu veículo abrasador pelo mergulho numa piscina. Espera Feliz, minha favorita, faz-se presente através de diversos planos curtos e estáticos onde subitamente se desenha uma ação, criando no público uma (feliz) expectativa a cada momento. Há mesmo o recurso ao mero trocadilho, como na cidade de Jacinto, presente na pele de um velho (aparente morador de rua) que entoa uma canção de dor de cotovelo.
Mas a funcionalidade das figuras de linguagem não são o único procedimento de que se valem Cao e Pablo. A cidade de Ferros comparece por meio de duas ações infantis em direções opostas: um menino que escala um pau-de-sebo e outro que mergulha nas águas de um rio. Abre Campo e Descoberto se inserem por meio de imagens de ruas semidesertas ou de uma movimentação de pessoas estranhamente desconectadas, como num sonho. Vazante e Heliodora se mostram mais confessionais, com personagens que interagem com a câmera.
O acidental se opera em vários níveis. O material gravado em cada cidade contém o seu próprio dispositivo, fruto da escolha momentânea dos realizadores: ora a observação estendida, como no balcão do bar em Entre Folhas; ora um esboço de interação; ora, ainda, a pura busca da plasticidade de um pedaço de chão, um céu noturno, o vento na relva. O campo semântico do título inclui, naturalmente, os acidentes geográficos que determinam a topografia das cidades e em boa medida a relação que com elas estabelecem os seus moradores.
Por outro lado, se a ordenação das cidades atende ao desejo de formar um (duvidoso) poema com seus nomes, pode-se perfeitamente argumentar que outras várias ordens seriam possíveis e igualmente poéticas. Prevalece, então, mais uma vez, a impressão de casualidade, tanto no interior de cada episódio, como na sua sucessão.
Dizer, porém, que o acidental do filme quer corresponder ao acidental da vida seria reduzi-lo ao que não é. A impressão do imprevisto contrasta com sinais de uma construção minuciosa na edição de imagens e de sons (offs, ambientação sonora do Grivo, um latido de cão que transborda de Pai Pedro para Abre Campo). O acidente, no fundo, é uma reconstrução a que se chega na base do recorte, da aproximação de coisas distantes e do acréscimo desmotivado.
Realizado em 2005 e exibido com êxito e prêmios em vários festivais nacionais e internacionais, Acidente foi um dos primeiros rebentos a demonstrar o potencial do programa DOC-TV, seja em termos de diversidade de modelos documentais, seja em abertura para a modernização da prática no Brasil. O filme tornou-se referência nos estudos do chamado “documentário de dispositivo”, que substitui os tradicionais roteiros e pesquisas por eleições prévias e critérios predefinidos de filmagem que vão gerar a unidade e a força do filme.
Acidente também ajudou a consolidar certos tipos de experiência que caracterizam o documentário mineiro contemporâneo. Entre elas, a rarefação do aspecto narrativo em troca de uma lógica mais lírica; a atenção a uma fenomenologia do contato entre homens e natureza; a tematização de acontecimentos miúdos, corriqueiros ou levemente excêntricos; e por fim a convivência de estéticas do documentário, da videoarte e das texturas mais evocativas do Super 8.
Além dos muros da escola
dezembro 19th, 2011 § 5 Comentários
Amizade, autoestima, comportamento de grupos, comunicação, conexão, confiança, conflito, criatividade, ética, informática, lealdade, talento, tecnologia, traição… Essas são algumas tags para o filme A Rede Social, conforme abordado por Myrna Silveira Brandão no livro Leve seus Alunos ao Cinema (Qualitymark Editora, 2011). Aqui mais um vez Myrna combina seus dotes de crítica de cinema, pesquisadora (ela preside o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro) e especialista em recursos humanos (é também diretora cultural da Associação Brasileira de Recursos Humanos).
Ela já havia feito isso em dois livros anteriores, dirigidos ao público corporativo. Leve seu Gerente ao Cinema (2004) e Luz, Câmera, Gestão – A arte do cinema na arte de gerir pessoas (2006) colocavam os filmes nossos de todo dia numa perspectiva de relacionamento humano e profissional. Com esta nova publicação, Myrna fornece orientações para professores tirarem proveito das abordagens cinematográficas no debate da própria escola, do aprendizado e dos temas do cotidiano de seus alunos.
O livro explora as potencialidades de 62 filmes, de um blockbuster como Duelo de Titãs a um documentário brasileiro como Pro Dia Nascer Feliz; de filmes europeus como Cinema Paradiso a asiáticos como Nenhum a Menos, de Zhang Yimou; de dramas como O Óleo de Lorenzo a animações como Ratatouille e Wall-E. Cada filme é descrito com ênfase nos aspectos educacionais, evidenciando metáforas e detalhes de dramaturgia que se prestam ao assunto em pauta. A isso se seguem uma lista de temas (as tags a que me referi acima) e uma série de sugestões para debate em classe, incluindo dicas metodológicas para um melhor aproveitamento das discussões pós-filme.
Títulos como Ao Mestre com Carinho, Entre os Muros da Escola e Sociedade dos Poetas Mortos trazem a questão da educação na sua própria trama, mas outros requerem certa perspicácia para serem usados em sala de aula. É onde entra o olhar tarimbado de Myrna para apontar caminhos e levantar questões. A escola, projetada no mundo através dos filmes, passa a ser não apenas um lugar de acumulação de conhecimentos, mas de reflexão sobre a sociedade e o estar no mundo.
A crítica como processo
outubro 5th, 2011 § Deixe um comentário
Resenha publicada em O Estado de S. Paulo de 1.10.2011 com o título “Lições de cinema e crítica”
Saiu a imagem de Pereio com o revólver na boca em O Bravo Guerreiro e entrou uma arte meio psicodélica com desenhos de pupilas. Afora essa atemporalização da capa e o novo prefácio de Luiz Zanin Oricchio, nada mudou na nova edição, pela Martins Fontes, de Trajetória Crítica, lançado primeiramente em 1978 pela editora Polis. Fiel ao compromisso com o reexame de sua própria evolução como crítico, Jean-Claude Bernardet manteve os erros gramaticais e de má tradução dos textos originais, sobretudo os mais antigos. Afinal, o belga Jean-Claude explica que aprendeu o português justamente escrevendo sobre cinema.
O livro é a expressão de um aprendizado que aos poucos se transforma em ensino. Característico do método crítico de Bernardet é o voltar-se sobre si mesmo. Examinar-se enquanto examina a obra, já que é na relação com o espectador e o crítico que a obra se completa. Esse movimento, presente em boa parte de seus textos para jornais e revistas, se potencializa aqui pela análise que ele empreende da sua própria produção crítica entre os anos de 1960 e 1974. O período foi marcado pelo golpe de 64, o recrudescimento de68, aeclosão do Cinema Novo e sua transformação em empreendimento, a floração do Cinema Marginal. Tudo isso repercute nas páginas do livro.
Temos, portanto, a autocrítica do jovem CCC (“crítico cinematográfico colonizado”, denominação que ele mesmo se atribui) e a gradual rejeição da atitude contemplativa diante dos filmes, das expressões francesas e das referências culturais diletantes. Para Bernardet, os anos 60 eram uma fase pródiga também em declarações de amor ao cinema e ao movimento, o que vai mais tarde ceder lugar a manifestações de afeto menos efusivas e mais complexas, daí não menos profundas.
Os “papéis” vividos e sistematicamente criticados pelo autor dizem muito sobre as variações e pretensões do trabalho crítico em geral. De decifrador de símbolos, vemo-lo passar a orientador, contestador, conscientizador, analista de estruturas narrativas e, por fim, propositor de metodologias para seus colegas e alunos. O que muda com o tempo é a predominância desse ou daquele “papel”, já que, de alguma maneira, todos sempre conviveram na sua forma de pensar.
Talvez essa Trajetória Crítica se comunique melhor com críticos e espectadores críticos do que com um público apenas superficialmente interessado em filmes. Para quem se formou na crítica de cinema nos últimos 50 anos, os textos de Bernardet trouxeram posturas e métodos fundamentais para se aprofundar e sofisticar o ofício. O crítico, a seu ver, não é um juiz do processo cultural, mas parte dele. E não apenas porque Jean-Claude atua como cineasta, roteirista, dramaturgo e autor literário, mas porque a crítica lhe aparece como interlocutor essencial na produção de cinema, inclusive a futura. Para que esse diálogo se estabeleça plenamente, é importante relacionar os fatores estéticos dos filmes com seu modo de produção e com o contexto político-social. A mera abstração filosófica ou sociológica é banida em troca de uma abordagem muito concreta das obras, frequentemente em interrelação com outras obras, sejam elas filmes ou não.
Parte da evolução desenhada no livro é a concentração progressiva do foco no cinema brasileiro, que Bernardet vê como um grande corpo de significações, bem ao contrário do clichê de que tudo por aqui são surtos. Estudar o cinema brasileiro era então para ele examinar a luta de classes no campo estético, o que pode soar como uma redução arriscada. Mas suas análises aproximativas entre filmes de épocas, gêneros e graus de popularidade diferentes tinham, em sua época, um valor de descoberta realmente inspirador. E continuam tendo hoje, face à superficialidade e à despolitização de grande parte do cinema e da crítica no Brasil.
Mesmo que não concordemos com um ou outro viés da análise de Bernardet, é preciso reconhecer o poder de seu discurso crítico, baseado numa profunda clareza e no instrumental rigoroso. Ele é peremptório ao afirmar que a crítica deve ser um exercício flutuante, sem vocação para grandes conclusões. Daí seu apego a termos como “contradições” e “tensões”, capazes de afastar o risco das ideias prontas e dos julgamentos definitivos. No livro, os comentários que sucedem ou introduzem cada texto ampliam esse efeito de flutuação provocado pela passagem do tempo, o surgimento de outros filmes e os avanços do método. É a crítica como processo, na sua melhor acepção.
Mas é preciso considerar também que esta é a versão que o próprio Bernardet oferece de seu itinerário naqueles anos. Ele selecionou os textos e assim construiu uma imagem de si mesmo que se afigura evolutiva e coerente. Instruídos por ele, poderíamos perguntar pelas errâncias, reincidências e hesitações que teriam sido eliminadas nessa autocuradoria. Talvez fosse esse um pedido despropositado, impossível de atender na prática. Mas seria o corolário dessa demanda exigente e quase insaciável que Jean-Claude Bernardet coloca ao cinema.
Glauber e Walter – uma herança?
julho 13th, 2011 § 3 Comentários
Glauber Rocha fez seus filmes mais importantes entre 1964 e 1969. Walter Salles fez os seus entre 1998 e 2004, ou seja, de 30 a 40 anos depois. No entanto, e apesar das profundas diferenças biográficas e de estilo, parte considerável da crítica latino-americana vê uma linha de permanência e continuidade entre as obras dos dois. Isso se manifestaria, pelo menos, no que diz respeito à escolha de personagens populares, à temática nordestina e a um tipo de fabulação passível de ser reconhecida como, mais que brasileira, continental.
Essa aproximação de identidades, tão útil para se entender a construção de uma imagem do cinema brasileiro moderno e contemporâneo, é estudada em profundidade por Eliska Altmann no livro O Brasil Imaginado na América Latina – a crítica de filmes de Glauber Rocha e Walter Salles (Contra Capa/Faperj, 2010). O foco é a recepção crítica dos dois realizadores em países latino-americanos. Com mais peso em Cuba e Argentina para Glauber, e no México para Walter.
Ao longo do livro, Eliska destaca trechos de críticas que denotam a percepção de Glauber ora como “gênio”, capaz de retratar o Brasil para além das facilidades da alegoria e do naturalismo, ora como epíteto de um nacionalismo algo tacanho e veiculador de um exotismo para exportação. De qualquer forma, em sua “sociologia da crítica”, a autora encontra um movimento de reciprocidade: Glauber teria sido de certa forma uma construção da crítica, assim como também teria forjado, com seu discurso de autorrepresentação altamente influente, um cânone para a crítica latino-americana dos anos 1960. Um cânone baseado nas propostas do Cinema Novo e que continuaria a prevalecer nos anos 90 e 2000.
Se Glauber era o protótipo do autor, cuja biografia se colava à obra, e cujas características pessoais (barroco, por exemplo) se identificavam com a realidade do país, Walter Salles é visto como um cineasta pessoalmente à parte do seu cinema e mais associado a um certo “internacional-popular”, em lugar do “nacional-popular” dos anos 60. Mas enquanto a crítica brasileira usa essa diferença para rejeitar a ideia de uma continuidade entre os dois diretores, a parte mais visível da crítica latino-americana vê a continuidade apesar disso. E vai apontar, de Terra em Transe a Diários de Motocicleta, um viés de pan-latino-americanismo revolucionário que evocaria José Martí, Bolívar e Che Guevara.
Eliska analisa a visão dos críticos latinos a respeito de espaço, tempo, povo e outras categorias nos filmes de Glauber e Walter. Lança mão de teorias de André Bazin, Michel Foucault, Hannah Arendt, Octavio Ianni e outros para embasar seu método. Identifica contradições, faz paralelos, extrai sentidos comuns ou discordantes. Coloca-se, principalmente, uma série de perguntas sobre a crítica como “empreendimento canônico” e as mudanças de atitude crítica que poderiam determinar as eventuais diferenças no tratamento concedido a Glauber e Walter nos seus respectivos tempos. A partir do exame dos textos alheios, Eliska vai enveredando para suas próprias conclusões, que envolvem tanto o cinema como a crítica.
De todas essas conclusões, a única que me pareceu frágil foi a do último capítulo, em que Eliska enfoca as dificuldades do público médio para apreender o cinema de Glauber. Num desdobramento desse raciocínio, ela acaba por aproximar os dois cineastas na busca de um certo “bom gosto culto”. Minha impressão é de que a linguagem cifrada e barroca de Glauber não buscava exatamente um bom gosto, mas uma expressão de força. Essa distância entre o gesto épico de Glauber e o engenho humanista de Walter é, a meu ver, mais que um denominador comum, um dado de complexidade nessa dialética que o livro explora tão bem.
Ely revê Ileli
junho 15th, 2011 § Deixe um comentário
A amizade pessoal e a admiração profissional moveram o crítico Ely Azeredo a preparar para a Coleção Aplauso uma espécie de dossiê sobre o cineasta, crítico, jornalista e livreiro Jorge Ileli (1925-2003). Além disso, o livro é perpassado por dois sentimentos de perda: a pouca frequência com que Ileli dirigiu filmes (ele fez apenas quatro longas, dois curtas e um número não conhecido de cinejornais); e o desaparecimento ou deterioração de quase todos os negativos de seus filmes. De alguma forma, Jorge Ileli – O Suspense de Viver tenta preencher o vácuo de informações sobre um realizador que caiu numa espécie de limbo.
Ele não foi o único obscurecido entre os que viveram a fase de transição do cinema “velho” para o Cinema Novo, ao longo das décadas de 50 e 60 do século passado. Quanto se sabe e se fala hoje de Roberto Santos e Roberto Pires, por exemplo? Junto com Paulo Vanderley, Ileli dirigiu em 1953 um clássico que unia ensinamentos do neorrealismo italiano com traços de policial americano e apontava para uma modernidade prestes a desembarcar no cinema brasileiro: Amei um Bicheiro (1953). Depois realizou a comédia o thriller Mulheres e Milhões, o documentário O Mundo em que Getúlio Viveu e o thriller noir Viver de Morrer. Em comum entre todos, como bem destaca Ely, a origem em fatos que tiveram o primeiro impacto nas páginas do jornais.
Ileli foi jornalista de O Cruzeiro e crítico da revista de esquerda Diretrizes, mas a partir de certo momento dedicou a maior parte do seu tempo a conduzir negócios em restaurantes e livrarias. Foi dono da rede Entrelivros, e numa de suas lojas Ely Azeredo montou o Estúdio A, pioneiro na oferta de cursos e oficinas de roteiros para cinema e TV. Apesar dessa proximidade, numa época em que era grande a interação entre cineastas e críticos, o livro passa com certa velocidade pelos aspectos biográficos de Jorge Ileli. A preferência de Ely recaiu sobre os dossiês críticos e de reportagens sobre o seu cinema. Assim, somos reapresentados a textos de Sérgio Augusto, José Louzeiro, Fernando Ferreira, Antonio Olinto e Octavio de Faria, entre outros. Ao repescar um texto próprio, uma crítica de Amei um Bicheiro publicada em 1958, Ely nos recorda como podia ser ácido, mesmo ao falar de um filme que admirava com restrições:
“Já no caso de Eliana, o trabalho da direção foi frustrado. Privou-a de seu padrão habitual de boneca de engonço, de sucesso de programa de calouros, sem obter o mínimo de retribuição como sucedâneo. O resultado é uma atuação zumbi, constrangida: uma colegial lançada no set em transe hipnótico”.
Entre outros bons textos, o livro tem uma cintilante análise de José Carlos Monteiro sobre o Ileli crítico. Pena que as duas resenhas escolhidas para ilustrar essa faceta não sejam representativas do que ele devia ter de melhor. Alguma informação sobre os curtas do diretor seriam bem-vindas nesse dossiê. No que diz respeito à edição, o uso emaranhado de itálicos deixa o leitor às vezes perdido entre as várias vozes presentes no livro.
Mesmo com uma certa fragmentação, O Suspense de Viver ajuda a clarear áreas ainda obscuras na história do cinema brasileiro, normalmente contada com base nos grandes medalhões do passado, nos ícones cinemanovistas e na diversidade contemporânea. Jorge Ileli foi um daqueles discretos autesãos (misto de autores e artesãos) que fizeram a passagem e correm o risco de ficarem esquecidos no caminho.
>>> O livro pode ser comprado em livrarias ou lido/baixado no site da Imprensa Oficial do Estado de SP.
O prazer do texto
maio 25th, 2011 § 2 Comentários
- Não se aborreça tanto. Nem Édipo viu a mãe gozando.
A frase dita por Sharon Stone ao psiquiatra em Instinto Selvagem 2 é uma das mais, digamos, eruditas na compilação de Mariza Gualano. Quanto Mais Quentes Melhor – As Melhores Frases de Sexo do Cinema tem outras bem mais chulas, como a de Lili Taylor em Um Tiro para Andy Warhol:
- Ele atravessará um rio de meleca e um mar de vômito se tiver uma xoxota esperando.
Mariza Gualano é a autora de Ouvir Estrelas, outra compilação de frases e diálogos do cinema. Nesse novo livro, o foco se concentra em trepadas, boquetes, masturbação e outras delícias da arte cinematográfica. Nesse campo, historicamente, ninguém bate Mae West:
- Dez homens à porta à minha espera? Mandem um deles para casa. Estou cansada (Empresário em Apuros)
ou Woody Allen:
- Você é tão verbal! Quem mais me convenceria a te dar uma chupada no enterro do meu pai? (Desconstruindo Harry)
Há quem se divirta mais do que eu com esse tipo de antologia. A prova é que elas vendem, e muito. São como aqueles clipes de cenas curtas de filmes que encontramos no Youtube. Valem não só pela graça em si, mas pelo que nos trazem à mente da personalidade dos atores que falam ou dos roteiristas e diretores que criam. Que tal pensar em Ornella Mutti dizendo o que Marco Ferreri escreveu em Crônica do Amor Louco?:
- Quero ser comida até que não sobre nada para os outros.
E como o livro abrange também muitas frases de filmes brasileiros, lá está Fernanda Montenegro abrindo o jogo em O Outro Lado da Rua:
- Não dá! Eu tenho uma cicatriz de cesariana, outra de apendicite, estrias… Parece um jogo da velha. Como é que eu vou tirar a roupa?
Quanto Mais Quentes Melhor será lançado amanhã (quinta), a partir das 19h, na Livraria Travessa de Ipanema.
Livro de garagem
fevereiro 28th, 2011 § 3 Comentários
“Cinema de Garagem” foi o título de uma mostra de filmes organizada por Dellani Lima em Belo Horizonte. Acabou virando título também do livro que ele e Marcelo Ikeda lançaram recentemente, com o subtítulo de “Inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI”.
Para esses observadores, carinhosos mais que críticos, o que define um certo tipo de cinema que pode ser chamado “de garagem”? Isso passaria tanto pelo modelo de produção quanto pelo processo de criação. Muitos desses filmes, mesmo de longa metragem, são feitos sem dinheiro de editais ou de grandes patrocinadores. Respondem a um desejo mais de expressão que de reconhecimento. Em alguns casos, o propósito de viver “no” cinema supera o de viver “do” cinema, refletindo uma linha de continuidade entre o profissional e o vivencial. A assinatura do autor é diluída entre vários signatários, que ora se agrupam em conjuntos (Alumbramento, Teia etc.), ora se permutam em redes através de vários estados.
Se de um lado a postura crítica de Marcelo e Dellani soa cautelosa ao recuar sempre de hierarquias e totalizações, de outro assume preferências de maneira explícita e às vezes retumbante. Como quando Ikeda, ao analisar o documentário de Cao Guimarães e Pablo Lobato, conclui peremptório: “acredito que o cinema deva ser como Acidente”. Ikeda, aliás, insere no livro seu sonoro manifesto por uma crítica que seja não um porto seguro, mas “um barco à deriva”, que prefira a dúvida às certezas de especialistas. No entanto, suas próprias notas críticas sobre filmes alheios estão repletas de afirmacões convictas e adjetivos policromáticos.
Se a contradição pode ser tomada aqui como uma virtude, isso se deve ao caráter “de garagem” do livro em si. Ele foi editado pelos próprios autores, e nesse sentido tem muito a ver com o modelo de cinema que eles procuram iluminar. O livro nasceu do desejo de oferecer, de bate-pronto, um pacote de reações aos filmes, muitas vezes no ato mesmo de sua primeira exibição. Em vez de reflexão distanciada, Cinema de garagem é, em sua maior parte, uma coletânea de textos publicados em catálogos de mostras e blogs frequentados pelos autores, que acompanham a cena desde seu alvorecer. Daí vêm uma certa descontinuidade, algumas repetições e principalmente o sentido de urgência que norteou aqueles artigos.
Vou publicar uma resenha mais completa do livro no número 54 da revista Filme Cultura, a ser lançado em maio. Mas Cinema de Garagem chega bem antes aos leitores do Rio e São Paulo. Será lançado na Mostra do Filme Livre em março, nos dias 13 (Rio) e 24 (SP).
Cinderela sertaneja
dezembro 29th, 2010 § 2 Comentários

Talvez você se recorde de Marlene França como a morena taluda e bonita, uma espécie de Sophia Loren brasileira, que atraiu olhares e tesões em filmes de cangaço e comédias eróticas das décadas de 1960 e 70. Pode ser que você se lembre dela como atriz dramática em filmes de Roberto Santos (Nasce uma Mulher, Quincas Borba) nos anos 80. Quem sabe você a tem na memória como diretora dos documentários político-sociais Frei Tito, Mulheres da Terra, Meninos de Rua e O Vale das Mulheres. E se você passava os olhos pelas velhas colunas sociais, pode saber que Marlene França é também a mulher do herdeiro de uma das famílias mais ricas do Brasil, os Matarazzo.
Como essas mulheres todas convivem numa mesma mulher é o que pretende contar a biografia Marlene França – Do Sertão da Bahia ao Clã Matarazzo, escrita pela jornalista Maria do Rosário Caetano para a Coleção Aplauso. Como na maioria dos livros da coleção, o texto parte de um depoimento de Marlene, colhido e editado por Rosário.
Elas perderam uma boa chance de começar com a frase “Era uma vez”. Sim, porque a história de Marlene, tal como contada aqui, é uma variante dos contos de fada. Com participação intensa do acaso. Marlene foi descoberta por Ary Fernandes quando vendia cocada num mercado de Feira de Santana, interior da Bahia. Ary procurava figurantes para o curta Ana, a ser dirigido por Alex Viany como parte do longa internacional A Rosa dos Ventos, supervisionado por Joris Ivens e produzido pelo Partido Comunista da Alemanha Oriental. Marlene e toda sua pobre família acabou contratada para fazer figuração. A menina de 12 anos, que já sonhava em ser atriz e “sair nas capas das revistas”, tinha ali o primeiro de uma série de encontros quase mágicos.
Três anos mais tarde, já emigrada para São Paulo, eis que Marlene topa casualmente com Alex Viany numa rua do centro. Alex a apresenta a Ruy Santos, que a “encaixa” como assistente de montagem e continuísta. Novo encontro numa rua do Brás a levou para os estúdios fotográficos, onde posaria para anúncios e até capa de disco de bolero. Lima Barreto (de O Cangaceiro) a queria para o papel de Inocência, roteiro que só seria filmado muito tempo depois por Walter Lima Jr. com Fernanda Torres.
Depois de um casamento e vários namoros na área artística (Lima Barreto, Ignacio de Loyola Brandão, Riva Faria, Gianni Amico, Renzo Rossellini), Marlene foi finalmente fisgada por seu príncipe encantado enquanto ensaiava um show em boate paulista. Angelo Andrea Matarazzo Ipolito a transformou numa “Cinderela do século XX”, que passou a viver entre Porsches, Guarujá e temporadas suntuosas na Europa. Ao mesmo tempo, esbaldava-se em farras e filmagens na Boca do Lixo, assim como mantinha amizades estreitas com a esquerda brasileira e latino-americana.
Maria do Rosário situa os pontos decisivos dessa trajetória fascinante, mas é pena que não aprofunde uma investigação sobre o seu sentido. Num relato provavelmente feito às pressas, ela parece ceder à memória preguiçosa de Marlene com relação a suas atuações. A atriz fornece poucos insights particulares sobre os quase 50 trabalhos em cinema e televisão, ou mesmo sobre os docs que dirigiu. Em contrapartida, há um excesso de sinopses e nomes de elencos e equipes a atravancar a fluência do texto.
Fica, porém, a curiosidade aguçada sobre essa mulher certamente extraordinária, que consegue reunir em torno de si vários mundos. Contraditórios mas, para a sertaneja-cinderela, complementares.
O livro pode ser folheado e lido na íntegra aqui.
É tudo memória
novembro 28th, 2010 § Deixe um comentário
À primeira vista, o livro que Amir Labaki acaba de lançar pela Imprensa Oficial de São Paulo parece ser um catálogo-de-catálogos dos primeiros 15 anos do Festival É Tudo Verdade. Lá estão as listas de todos os filmes participantes e os premiados de cada ano, assim como muitas fotos do festival, dos convidados e das obras exibidas. Mas, à medida que avançamos na leitura dos textos de Amir a respeito de cada edição, vamos constatando que o livro é bem mais que isso.
É Tudo Cinema – 15 Anos de É Tudo Verdade pode ser lido como uma síntese da cultura do documentário no Brasil no período 1996-2010, narrada por quem mais conhece o assunto. Labaki usa um enfoque bem pessoal (nos limites de sua persona discreta) para relembrar como foi preparado cada festival e como cada um repercutiu no mercado e nas reflexões sobre essa modalidade de cinema entre nós. De fato, a memória do ÉTV se confunde com a memória do doc no Brasil nesses 15 anos.
O relato começa na inesquecível conversa que tivemos os dois no CCBB-Rio, em 1994, quando o estimulei a criar o projeto de um festival internacional de documentários. Dali em diante, Amir não mais parou de pensar e ter ótimas ideias sobre o assunto, já a partir do nome do evento que se concretizaria dois anos depois. O resto está contado nas páginas do livro com riqueza de detalhes: suas viagens a festivais internacionais, os contatos e conhecimentos que carreou para o festival brasileiro, a história das grandes retrospectivas, o crescimento em tamanho e importância do certame.
Não faltam episódios memoráveis como a vinda de Johann Van der Keuken ao Brasil durante a preparação de Férias Prolongadas, seu filme-testamento; a visita de Marcel Ophuls a uma favela carioca; ou o encontro de Robert Drew com Marina Silva. Entre a crônica e o balanço cultural, É Tudo Cinema nos coloca, ao mesmo tempo, nos bastidores e na consciência do maior festival de documentários da América Latina.
Mercado também é cultura – e livros
novembro 23rd, 2010 § Deixe um comentário
Por muito tempo desdenhado como fator de interesse menor, o mercado começa a frequentar os estudos sobre cinema brasileiro. Uma maior profissionalização dos setores de produção, distribuição e exibição, com a fixação de uma proto-indústria após a Retomada, pode responder por isso. Até os profissionais do ramo se mobilizam, como é o caso da produtora Iafa Britz, do distribuidor Rodrigo Saturnino Braga e do exibidor Luiz Gonzaga Assis de Luca, que lançaram há poucas semanas o livro Film Busine$$, O Negócio do Cinema (Elsevier Editora).
Mas o crescimento do interesse geral pela economia da cultura no âmbito da academia ajuda, e muito, a explicar essa nova onda de pesquisas, dissertações e publicações. Nessa área, o nome de Alessandra Meleiro e da editora Escrituras têm sido incontornáveis. Autora de O Novo Cinema Iraniano – Arte e Intervenção Social (2006), ela organizou em 2007 a coleção Cinema no Mundo, cinco pequenos livros sobre as relações entre indústria, política e mercado nos cinco continentes. Mais recentemente, assumiu a organização da coleção Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira, cujos três primeiros volumes enfocaram Cinema e Políticas de Estado, Cinema e Economia Política e Cinema e Mercado.
Três novos títulos foram agora incorporados à coleção pela Editora Terceiro Nome, como resultado de um concurso promovido pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. O I Prêmio SAV para Publicação de Pesquisa em Cinema e Audiovisual elegeu seus vencedores entre teses de doutorado, dissertações de mestrado e pesquisas independentes.
Os três livros terão um lançamento nesta sexta-feira no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, dentro do festival Arariboia Cine.
Dos três o mais abrangente é O Filme nas Telas, de Hadija Chalupe da Silva, uma análise penetrante das formas como o filme brasileiro chega até o público. A autora examina em profundidade a distribuição, lançamento, promoção e exibição de cinco filmes lançados em 2005, com perfis diferentes de aproximação do mercado: Dois Filhos de Francisco, Cidade Baixa, Casa de Areia, Cabra-Cega e Cinema, Aspirinas e Urubus. A partir desses cases, Hadija analisa não só os métodos de circulação específicos, como também as transformações institucionais que afetaram a performance do cinema brasileiro entre o período da Embrafilme e a era da Ancine, das leis de incentivo e da Globofilmes. Entre suas conclusões, ela cita a necessidade de uma política governamental que promova a integração público/filme, como também a urgência com que os profissionais de cinema precisam considerar produção, distribuição e exibição como atividades fundamentalmente dependentes entre si, em vez de “blocos” distintos.
Em Economia da Cultura e Cinema – Notas empíricas sobre o Rio Grande do Sul, Leandro Valiati estuda o mercado cinematográfico gaúcho em paralelo com o mercado nacional. Trata-se do quarto maior mercado estadual e o maior fora da região Sudeste. Porto Alegre é a capital brasileira com melhor relação de salas de cinema per capita, uma para cada 21 mil habitantes. Isso justificaria a escolha regional para chegar a conclusões que valeriam para outros estados. Leandro abre seu caminho entre gráficos e tabelas, levando em conta as ópticas da oferta, da demanda e do mercado de trabalho. O exaustivo levantamento de informações é assim elogiado por Gustavo Dahl no prefácio do livro: “Dados não são uma preferência nacional, daí o grande mérito de se correr atrás deles”.
Pode soar exagerado para um concurso como este da SAV, mas o mercado gaúcho também está no foco do terceiro estudo, Entre Lanternas Mágicas e Cinematógrafos, de Alice Dubina Trusz. A historiadora foi às fontes primárias (imprensa da época, basicamente) para levantar as origens do espetáculo cinematográfico em Porto Alegre. O livro faz um misto de historiografia e crônica do período 1861-1908, quando as exibições de lanternas mágicas, panoramas e parafernálias óticas precederam e depois conviveram com a chegada do cinema. A passagem da “tradição lanternista” para a exibição itinerante e depois o cinema sedentarizado em salas permanentes permite à autora traçar uma evolução das maneiras como as atrações do movimento foram exploradas comercialmente e percebidas socialmente numa localidade e num intervalo de tempo específicos.
Como uma carta extraviada
agosto 29th, 2010 § 1 Comentário
Há oito anos lancei meu tardio primeiro livro, Walter Lima Jr. – Viver Cinema (Casa da Palavra), uma combinação de biografia e análise da obra do cineasta. Não posso dizer que tenha sido mal recebido, como provam as opiniões de vários críticos, jornalistas e cineastas que o leram. Mas o tempo passa, o livro – mal distribuído – cai no limbo de um certo esquecimento e a gente se envolve com outros livros, outros trabalhos.
Por isso é bom quando um novo feedback desponta inesperadamente, como carta de um bom amigo que tivesse ficado extraviada por um longo tempo. Foi o que aconteceu hoje, quando me deparei com o comentário postado por André Setaro aqui no blog.
Setaro, dono de um blog muito lido, é um gigante da crítica de cinema na Bahia, homem culto, discreto e franco nas opiniões. Seus elogios ao meu livro me deixaram, mais que envaidecido, encabulado. Vão muito além do que certamente mereço. Mesmo assim, não poderia deixar de compartilhá-los com vocês:
“Sobre ser uma análise perfuratriz da rica filmografia de Walter Lima Junior, que é sem dúvida um dos mais sinceros e criativos cineastas brasileiros, “Walter Lima Jr. – Viver Cinema” (Casa da Palavra, 2002) tem o rigor de um grande biógrafo e um estilista da palavra. É engenhosa a maneira como trata o retrato do realizador, como faz emergir a memória de Lima desde a sua infância em Niteroi (riquíssima de detalhes e um documento de uma época precioso).
Além do mais, o livro nos oferece o prazer da leitura, que se pode considerar coisa rara nos dias atuais quase ágrafos (apesar da profusão dos blogs e dos escritos internéticos). Li “Walter Lima Jr. – Viver Cinema” somente no ano passado e o considero a melhor biografia já escrita sobre um cineasta brasileiro.
Obra de referência não somente sobre o criador de ‘A ostra e o vento” como também um estudo analítico sobre o nascimento de um cineasta no Brasil.
André Setaro”
Walter Lima Jr.: Viver Cinema
agosto 29th, 2010 § Deixe um comentário
A imprensa disse:
“Desconfio seriamente que Walter Lima Júnior: Viver Cinema, de Carlos Alberto Mattos (Casa da Palavra), seja a melhor biografia crítica de um cineasta brasileiro desde Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte, de Paulo Emílio Salles Gomes”. Sérgio Augusto, O Pasquim
“Um grande cineasta enxergado por um dos críticos de cinema mais sensíveis e inteligentes do país; um livro, no mínimo, obrigatório!” Carlos Reichenbach, cineclick.com.br
“Faltava ao cinema nacional, no entanto, uma biografia em que história, teoria e boa literatura se mesclassem prazerosamente. Walter Lima Júnior: Viver Cinema é esta biografia”. Ricardo Cota, Jornal do Brasil (Idéias)
“Viver Cinema documenta cada momento dessa complexa história. E com a seriedade e riqueza que um bom livro exige. Ou seja, apontando contradições, cotejando textos escritos em diferentes momentos, indo a fontes primárias. E, principalmente, indo aos filmes, roteiros e livros que serviram de fonte de inspiração a WLJr.” Maria do Rosário Caetano, O Estado de S.Paulo
“Um dos mais importantes cineastas brasileiros dos últimos 40 anos (…) ganha enfim um livro à altura da sua obra. (…) Além de dissecar cada filme de Lima Jr., desde a sua gênese até a recepção do público e da crítica, o pesquisador narra com talento literário os momentos mais dramáticos da vida do diretor”. José Geraldo Couto, Folha de S.Paulo
“Percebendo que a criação artística está obrigatoriamente ligada à vida, Carlos Alberto ilumina a trajetória de Walter Lima Júnior (…), transcendendo o nível do serviço prestado ao cinema brasileiro”. Daniel Schenker Wajnberg, Tribuna da Imprensa
“É sempre muito importante quando o cinema brasileiro ganha mais um livro. E melhor ainda quando é sobre um cineasta consagrado como Walter Lima Jr. e escrito por um jornalista e crítico consciente e com o talento de Carlos Alberto Mattos”. Myrna Silveira Brandão, Tribuna da Imprensa
“São tantas as boas histórias em Walter Lima Júnior: Viver Cinema que você não precisa ter visto nenhum filme do cineasta para apreciar o livro”. Mauro Ventura, O Globo
“Não apenas um dos críticos de cinema mais refinados da imprensa brasileira, Carlos Alberto Mattos se revela também um escritor, quase um romancista, de agudo senso de humor e arguta observação. (…) Leitura obrigatória não apenas para cinéfilos mas para todos os interessados na recente história cultural brasileira”. Fernando Albagli, criticos.com.br
“O livro é uma biografia que transcende o factual e analisa os principais momentos do cinema brasileiro de cinco décadas para cá.” Mauro Trindade, revista Bravo
“Poderia ser lido como romance, não fosse a história real de um dos grandes realizadores do cinema do Brasil.” Revista Cinema
“Walter tem a sorte de ter a melhor biografia já escrita sobre um cineasta brasileiro (o livro de Carlos Alberto Mattos).” Maria do Rosário Caetano, Almanaque eletrônico
“Imperdível”. Inácio Araújo, Folha de São Paulo
“… a melhor biografia já escrita sobre um cineasta brasileiro. Obra de referência não somente sobre o criador de ‘A ostra e o vento’ como também um estudo analítico sobre o nascimento de um cineasta no Brasil.” André Setaro, comentário neste blog
Pernambuco, pernambucos
maio 11th, 2010 § Deixe um comentário
Lançado no Cine-PE e trazido por Joana Nin, recebi um exemplar de O Novo Ciclo de Cinema em Pernambuco – A Questão do Estilo, de Amanda Mansur Custódio Nogueira (Editora Universitária UFPE). O livro, resultado de uma dissertação de mestrado, procura investigar se existe, de fato, esse tal “cinema pernambucano” de que tanto se fala desde a erupção de Baile Perfumado (1997).
A resposta de Amanda é sim, mas para caracterizar o “novo ciclo” ela concentra o estudo em oito longas-metragens de um grupo mais ou menos coeso: Baile Perfumado, O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, Amarelo Manga, Cinema, Aspirinas e Urubus, Árido Movie, Baixio das Bestas, Cartola e Deserto Feliz. Marca de estudo acadêmico é concentrar para aprofundar. Assim Amanda encontra sinais de identificação estilística como a auto-referencialidade, a brodagem, o “privilégio à música” e as problematizações identitárias. A análise converge para reforçar a imagem de grupo e, a partir dela, a ideia de ciclo.
É interessante confrontar a argumentação de Amanda com a matéria de Luiz Joaquim para a revista Filme Cultura 50. A certa altura de Os Frutos da Audácia Pernambucana, depois de citar quatro dos longas acima, o jornalista sustenta que “tentar enxergar Pernambuco por apenas qualquer um dos quatro filmes ou por eles reunidos seria redutor”. Daí seu artigo abarcar também manifestações decisivas na área do curta-metragem e do documentário. A revitalizadora produção da Símio, os curtas primorosos de Kléber Mendonça Filho e os docs de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso não podem ser deixados de lado quando se pensa no cinema pernambucano atual.
Amanda e Luiz Joaquim se complementam na medida em que a matéria dele atualiza e amplifica o livro dela, enquanto o livro embrenha-se com boa disposição no manguezal estético dos longas e nas origens do ciclo.
Operários e Bernardet
abril 27th, 2010 § Deixe um comentário
A Mostra Cineastas e Imagens do Povo, em cartaz no CCBB Rio (em SP a partir de 19/05 e em Brasília a partir de 8/6), propõe rever e discutir documentários brasileiros pela ótica do famoso livro homônimo de Jean-Claude Bernardet. Os organizadores me pediram um texto para o catálogo, abordando dois capítulos do livro que tratam do chamado “ciclo operário” surgido em fins dos anos 1970. Para quem não tiver o catálogo, compartilho o artigo aqui no blog.
O crítico diante do outro em filme
Existe um antes e um depois na nossa maneira de ver documentários brasileiros, e esse divisor de águas é o livro de Jean-Claude Bernardet. Mais que qualquer outro crítico, ele se detém na estrutura dramatúrgica dos filmes, nas relações temporais entre as cenas e na produção de significados através da montagem e da interação entre som e imagem. Instituiu, para os docs brasileiros, um padrão de análise mais comumente encontrado na abordagem de filmes de ficção.
A atenção de Bernardet – e por extensão a nossa – se estende com frequência ao que não está no filme. O crítico pergunta-se sobre as “limpezas” decorrentes do processo de seleção, eleição e edição característico de todo doc, sobretudo aqueles voltados para a construção da memória histórica. Instaura um grau saudável de desconfiança num modo de cinema feito, em última análise, para a recepção baseada na crença.
Cahiers de pesquisá
março 13th, 2010 § 4 Comentários
Na década de 1980, os pesquisadores do cinema brasileiro viviam uma era bem diferente da atual, quando ainda não existiam e-mails, Google e outras ferramentas que atualmente colocam o mundo ao alcance dos dedos. As pesquisas eram feitas no papel, nas viagens e na consulta empírica aos acervos. Foi quando surgiram os Cadernos de Pesquisa, editados pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), primeiramente com o apoio da Embrafilme. Foram publicados quatro números dos Cadernos, que hoje constituem peças raras em coleções. Eles representaram um momento importante na divulgação da pesquisa cinematográfica brasileira, através da edição de trabalhos que foram fundamentais para o estudo da história do nosso cinema.
Os tempos mudaram, mas o CPCB continua a agregar pesquisadores das várias regiões do país e a restaurar filmes brasileiros como Menino de Engenho, O País de São Saruê, Aviso aos Navegantes, O Homem que Virou Suco e A Hora da Estrela. Agora, com o patrocinio da Petrobras, o Centro está publicando uma quinta edição (especial) dos Cadernos de Pesquisa. O primeiro lançamento será neste sábado, no campus Gragoatá da UFF, por ocasião do encerramento do IV Congresso do Forcine – Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual.
Professores de cinema de todo o país vão receber em primeira mão a publicação que reúne 10 artigos assinados por pesquisadores como João Luiz Vieira, Selda Vale da Costa, Solange Stecz e Vladimir Carvalho (veja sumário abaixo). Fui responsável pela edição, juntamente com Myrna Silveira Brandão, presidente do CPCB. Cuidamos para que estivessem representadas as diversas regiões onde existem núcelos do CPCB.
O número especial é dedicado à memória de José Tavares de Barros (1936-2009), um dos fundadores da entidade e idealizador dos Cadernos de Pesquisa. Dele está sendo publicado um texto original de 1978 sobre o filme mineiro Tormenta (1931).
Ah, a montagem fotográfica da capa (acima) é trampo aqui do bonitão.
A periferia, com amor
março 3rd, 2010 § 3 Comentários
Sentado no meio-fio de uma rua de Ipanema, esperando a van noturna para Santa Cruz, o garoto Marcus Vinícius imaginava a Ipanema solar dos filmes e dos livros. Essa ele não tinha coragem de frequentar, moleque de periferia que aprendeu a viver no trânsito entre as várias Zonas da cidade. Hoje Marcus Vinícius Faustini é cineasta, autor teatral, animador cultural e Secretário de Cultura de Nova Iguaçu. Acima de tudo, é um cara que transpira entusiasmo e boas ideias pelas quebradas do Rio.
MVF tem uma maneira única de ver o subúrbio e a Baixada: com humor, poesia e verve ficcional. Isso é o que encontramos no seu primeiro livro, Guia Afetivo da Periferia, da ótima Coleção Tramas Urbanas (Ed. Aeroplano/Petrobras). Autobiografia precoce, sem dúvida, mas imune à pretensão de ser “grande livro”. A informalidade das anotações dá o sabor do texto, que não se prende a cronologias ou métodos. É mais uma etnografia de ruelas, armazéns, menus humildes, remédios, TV aberta. São memórias de andanças, trabalhos, leituras, descobertas, amizades, sonhos de namorar “uma caixa da Mesbla que gostasse de cinema francês”. Um moço fazendo pontes entre a cultura e a vida simples, a realidade e a imaginação.
Também de infância muito pobre, gostei de encontrar onde minha história se cruzava com a de MVF. Entre os muitos empregos dele, por um tempo houve o de “menor auxiliar” (contínuo) do Banco do Brasil, ofício que eu havia desempenhado muitos anos antes em outro banco. Enquanto ele subia e descia as escadas do BB, eu lá trabalhava como redator de uma revista sobre comércio exterior. Mais tarde, ele passou a frequentar o cinema do CCBB, que eu programava. Estivemos durante muito tempo próximos, sem que eu o conhecesse.
No Guia Afetivo da Periferia há um pouco de todo mundo. Mas principalmente de gente como Marcus Vinicius, que retempera e eleva o seu meio pelas artes da observação e da invenção. O livro é bem escrito, bem-humorado e bem ilustrado. Entre as frequentes decolagens poéticas do autor, destaco esse trecho de epifania durante uma viagem de ônibus, quase uma síntese de todo o percurso de MVF:
Autoviação
Já rodei quase uma noite inteira dentro do 415 chorando. A dor era grande. A maior que senti até hoje. Era como não ter pulmão para respirar. Estava tudo ali, naquela dor. Parecia a última que eu sentiria. Não sei exatamente como, mas uma saudade contundente de meus avós me ocupou. Chorava no percurso e não conseguia sair do ônibus. Ao longo do repetido caminho, apesar das lágrimas e do buraco em meus pulmões darem a constatação física do tamanho de minha dor, eu desconfiava dela. Passando mais uma vez pelo Aterro, olhando entre as lágrimas, do alto dos prédios, as luzes dos outdoors do Passeio e da Avenida Beira-Mar ficaram mais belas naquele instante. Meus olhos se concentraram neles e comecei a imaginar como contaria o que estava sentindo. Imaginei uma frase que poderia escrever sobre aquele pequeno instante onde sentia aquela dor e ao mesmo tempo aquela beleza. Ensaiava como a falaria. Experimentei ali, pela primeira vez, um prazer em organizar a dor de existir. Com o ônibus já cruzando a Avenida Presidente Vargas, um autorretrato na janela se configurou. Não me perdoei. Sentir tamanha dor, chorar e ao mesmo tempo me descolar e ver beleza na cidade… A dor passou. O que se passa na cabeça das pessoas que cruzam a cidade pela madrugada dentro dos ônibus? Será que a cidade invade o lugar de seus pensamentos? Como cada um constrói sua Autoviação?
Reencontrando Ely
março 1st, 2010 § Deixe um comentário
Em 1978, Ely Azeredo escreveu assim no Jornal do Brasil:
“Sem dúvida, A Lira do Delírio é uma celebração do gosto pelo cinema. Não estamos ante um filme-veículo, algo que serve para mera ilustração de uma história. Mais que em qualquer de seus fimes anteriores, Walter Lima Júnior demonstra ter absorvido em seus tempos de cinéfilo e crítico uma acervo de cultura cinematográfica muito ponderável, sem copiar ninguém – aquém ou além-fronteiras. Antes, talvez não lhe fosse possível driblar tanto as palavras de ordem sobre conteúdo, mensagem e formalidades desse tipo. Hoje, o chamado Brasil pragmático parece apto a aceitar, até nas esferas oficiais, um filme que se mostraria inútil ao exame dos criptólogos de qualquer ideologia”.
Eu era então um iniciante na crítica de cinema, e textos como esse reverberavam no meu aprendizado. Um filme era bem mais que um filme, mas algo que obrigatoriamente se relacionava com o mundo do cinema e o mundo ao seu redor. Na época eu tinha dois gurus à mão nas páginas do JB: José Carlos Avellar, com seus textos “para dentro”, construindo sentidos a partir da estrutura das cenas; e Ely Azeredo, com seus textos “para fora”, projetando os filmes no firmamento do cinema e do seu tempo. Não sei qual dos dois me impressionava mais.
Quando comecei, na Tribuna da Imprensa, orgulhava-me de ali ter começado também Ely sua carreira profissional, e em cujas páginas ele cunhou a expressão “Cinema Novo”. Amanhã, terça-feira, vou ao lançamento do livro Olhar Crítico – 50 Anos de Cinema Brasileiro, na condição de colega e amigo de Ely. Vai ser na livraria Travessa do Shopping Leblon, a partir das 19 horas.
O livro, editado pelo Instituto Moreira Salles, traz uma seleta de resenhas e artigos do autor entre 1953 (O Cangaceiro) e 2003 (Carandiru). De uma ponta à outra, são textos desabridos, francamente opinativos, construídos com a fluência e elegância que sempre admirei. Na introdução e no capítulo “Trajetória do autor”, fica patente a inserção de Ely para muito além do dia-a-dia jornalístico. A implantação do primeiro circuito de cinemas de arte, a criação da revista Filme Cultura – que ressurge agora com minha modesta participação – e a idealização do primeiro Concurso Nacional de Roteiros, em 1975, são apenas algumas das iniciativas pelas quais o crítico se estabeleceu como articulador e animador da cultura cinematográfica no Brasil.
Uma trajetória inspiradora, sem dúvida, que só realça a falta que Ely Azeredo faz hoje, limitado a esporádicas aparições nos limites do Bonequinho de O Globo. Esse livro restaura um mínimo de sua importância.
Balanço dos dias sem blog
fevereiro 22nd, 2010 § 4 Comentários
• Escrevi o artigo sobre as visões do Brasil constantes nos filmes de Nelson Pereira dos Santos. Pouco mais de 40 mil caracteres (com espaços) para uma coletânea que deve ser publicada ainda este ano.
Assisti aos filmes:
• A Fita Branca – Quase uma obra-prima, não fosse a estranha volúpia de Haneke em narrar a crueldade, o que sempre me deixa com um pé atrás.
• Preciosa – Peça grosseira de mundo-cão onde só apreciei a performance de Mo’nique e uma certa entrega bovina da Gabourey Sidibe.
• Annie Leibovitz: A Vida por Trás das Lentes – Retrato parcial mas interessante da fotógrafa que “viu” o sublime e o vulgar da cultura das celebridades. Em DVD.
• O Amor Segundo B. Schianberg – Experiência meio chatinha, mas razoavelmente curtível de Beto Brant. Um casal bonito brincando de amar e viver é quase tudo o que o cinema sempre ofereceu.
Aplauso online
janeiro 6th, 2010 § Deixe um comentário
Dos seis livros que escrevi sobre cineastas brasileiros, quatro foram para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de SP. A coleção coordenada por Rubens Ewald Filho, Marcelo Pestana e Carlos Cirne engloba biografias, roteiros, coletâneas de críticas e outros textos relativos a cinema, teatro e mais recentemente música. Os relatos biográficos são escritos em primeira pessoa, embora o trabalho de coleta, organização e redação seja feito por jornalistas e críticos. É um formato interessante, que tira do artista a tarefa às vezes indesejada de botar sua trajetória no papel.
Os livros da Aplauso agora estão disponíveis para leitura online no site da Imprensa Oficial. Os meus podem ser acessados diretamente aqui:
Carla Camurati – Luz Natural (2005)
Jorge Bodanzky – O Homem com a Câmera (2006)
Maurice Capovilla – A Imagem Crítica (2006)
Vladimir Carvalho – Pedras na Lua e Pelejas no Planalto (2008)
É muito bom encontrar seus livros na rede, à disposição de quem quiser folhear. Principalmente quando você já recebeu direitos fixos por todo tipo de publicação (uma merreca, tudo bem) e não depende do desempenho nas livrarias. Mas ainda não sei bem o que pensar sobre quem vive de uma parcela das vendas e topa com seu trabalho pirateado na internet. Tomei um susto quando vi meu primeiro livro, Walter Lima Júnior – Viver Cinema (2002) escaneado no Google Livros. Depois verifiquei que é uma visualização parcial, com muitas páginas saltadas – e até com páginas dobradas acidentalmente. Estou para ver um método de divulgação tão esquisito.
Quanto a Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real (2004), edição portuguesa que circulou pouco no Brasil, ainda penso uma forma de colocá-la na rede em breve. Mas primeiro preciso atualizar. Coutinho se reinventa tanto que fica difícil acompanhá-lo.
Estado permanente de roteiro
dezembro 16th, 2009 § Deixe um comentário
Há quem queira sacar o revólver quando ouve falar em roteiro de documentário. Uma concepção ingênua ou muitas vezes hipócrita sustenta que os docs são imunes ao roteiro, já que nasceriam, magicamente, de um confronto direto com o real. A prática, porém, não confirma isso. No Brasil, sobretudo, parte considerável da produção documental depende de editais, que requerem a apresentação de um planejamento, um pré-roteiro. Mais tarde, durante as filmagens, a confecção de pautas e a previsão de linhas de ação ganham importância para um trabalho criterioso. Já na montagem, tudo responderá a um novo roteiro a partir do material filmado. Este roteiro de edição, aliás, é o mais claramente assumido pelos documentaristas. Continue lendo
Mauro por Ronaldo
dezembro 14th, 2009 § Deixe um comentário
Nesta terça-feira, às 19 horas, na livraria Blooks (Unibanco Arteplex), o poeta, escritor e jornalista Ronaldo Werneck lança Kiryrí Rendaua Toriboca Opé – Humberto Mauro Revisto por Ronaldo Werneck. Com capa dura e 450 páginas numa edição caprichada da editora artepaubrasil (SP), o tijolo é uma homenagem de mineiro para mineiro – do poeta das palavras ao poeta da imagem.
Infelizmente, por estar fora do Rio, não poderei comparecer à noite de autógrafos, quando Ronaldo vai exibir dois filmes que fez sobre Mauro, sOLdade e Mauro Move o Mundo. Mas deixo com vocês o texto que honrosamente escrevi para as orelhas do livro:
Uma caneta na mão…
dezembro 8th, 2009 § 3 Comentários
Fui ontem à noite ao lançamento do livro Contente em Ler Cineastas, na Casa de Cultura Laura Alvim. Este é o primeiro volume de uma série de cinco livros da série Contente em Ler, que reunirá pequenos textos de artistas de diferentes áreas. A iniciativa é de Renata Boldrini, Maíz de Oliveira e Fernanda Cortez, criadoras da Contente Entretenimento. Como diferencial, as meninas destinam parte da receita de venda dos livros a instituições sociais. Neste primeiro, o Instituto da Criança.
Os textos são crônicas, contos, memórias e reflexões sobre cinema, de acordo com a escolha de cada cineasta convidado. O escrete congrega veteranos como Ruy Guerra e Roberto Farias, e emergentes como Mauro Lima, Esmir Filho e Fellipe Barbosa. Sandra Werneck é a única mulher. Leituras rápidas para enquanto se espera o filme começar.
Dos 20 autores, cerca de metade estiveram presentes na noite de autógrafos.
E agora vejam o autógrafo que o Padilha colocou no meu livro. Não sei se foi apenas um clichê ou um recado para o crítico que fez francas restrições a seus dois últimos filmes, Tropa de Elite e Garapa.

Vigo, novamente em vigor
novembro 23rd, 2009 § Deixe um comentário
Há muito não se falava em Jean Vigo por aqui. Lá se foi o tempo das cinematecas e cineclubes onde Zero em Comportamento, L’Atalante e A Propos de Nice eram programas obrigatórios, lufadas inspiradoras para o cinema de invenção. Mesmo o famoso livro de Paulo Emílio Salles Gomes, escrito na década de 1950 e saudado como “exemplar” por ninguém menos que André Bazin, andava há muito desaparecido das livrarias.
Tudo isso foi corrigido de uma vez só pela editora Cosacnaify com o lançamento de uma caixa contendo dois livros e dois DVDs. Jean Vigo, o livro, é o primeiro e definitivo estudo da vida e da obra do cineasta por Paulo Emílio. São 500 páginas de textos e fotos. Uma empreitada que serve de modelo para quem quer enxergar a obra de um artista para além do seu volume. Vigo viveu apenas 29 anos (1905-1934) e não fez mais que quatro filmes. Mesmo assim, o livro do crítico brasileiro ajudou a colocá-lo no panteão dos grandes autores do cinema.
O segundo livro, Vigo, Vulgo Almereyda, é um perfil do pai de Vigo, conhecido como Miguel Almereyda (1883-1917, portanto também de vida curta). Foi durante a pesquisa sobre o cineasta que Paulo Emílio acabou se interessando também pela vida do seu pai, um militante anarquista e socialista cuja importância na formação do filho foi maior que na média dos pais.
A empreitada editorial, coordenada por Carlos Augusto Calil, se completa com a íntegra da obra cinematográfica de Vigo em dois DVDs. Os extras são igualmente preciosos: além das tradicionais fotos e textos, incluem o doc sobre Vigo na série Cineastes de Notre Temps e entrevistas com Calil, Ismail Xavier, Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles e François Truffaut.
Resumindo: Vigo está novamente em vigor no Brasil.
Bodanzky relembra Lévi-Strauss
novembro 9th, 2009 § 1 Comentário
No livro que fiz com/sobre ele, Jorge Bodanzky rememora seu encontro com Claude Lévi-Strauss (1908-2009) em fins dos anos 1980. Transcrevo abaixo esse trecho de Jorge Bodanzky: O Homem com a Câmera (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado SP, 2006):
Mato Grosso: memórias de Lévi-Strauss
Minha relação com o livro Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, levou cinco anos para se transformar em filme.
Em 1985, enquanto montava Igreja dos Oprimidos em Paris, cometi a imprudência de fazer a proposta diretamente a Lévi-Strauss por telefone, e ainda por cima no meu péssimo francês. Eu queria voltar às aldeias indígenas do Mato Grosso que ele visitou em 1935 e 1938 para verificar o seu estado atual, assim como a memória que ainda houvesse dos encontros, a partir das suas fotografias e dos filmes que sua mulher, Dina, rodou na ocasião. Lévi-Strauss não foi especialmente gentil, mas pediu que lhe mandasse uma proposta por escrito. Foi o que fiz. Poucos dias depois, recebi uma resposta amável, autorizando a referência ao seu livro e o uso dos filmes. Mais que isso, ele se dizia “vivamente interessado em rever, filmadas por você no seu estado atual, as regiões que percorri há meio século”. Continue lendo
Nossa música, nosso cinema
setembro 12th, 2009 § 3 Comentários
O cinema talvez nunca tenha sido completamente mudo, pois o acompanhamento musical sempre foi parte importante do espetáculo. É frequente que filmes sejam apreciados e lembrados, ainda que inconscientemente, mais pela música que propriamente pelo que mostram suas imagens. Mas, em matéria de estudos,
a metade sonora do cinema não costuma receber a mesma atenção da metade visual. No Brasil, então, muito menos.
Não me lembro de outro trabalho publicado além do recentíssimo O Som no Cinema Brasileiro, de Fernando Morais da Costa. Por isso é de se festejar com aplausos sonoros o surgimento do livro Nas Trilhas do Cinema Brasileiro, coletânea de ensaios organizada pela Associação Cultural Tela Brasilis com patrocínio da Light.
Em oito textos, são examinadas desde a relação das marchinhas e sambas com os velhos filmes carnavalescos e as chanchadas, até a contribuição estética e narrativa das canções num filme do ano 2000, Bicho de Sete Cabeças. Entre um ponto e outro, analisam-se a música da Vera Cruz, a revolução musical do Cinema Novo, a obra de Remo Usai, as trilhas dos anos 1970 e 80.
Pena que a distribuição seja restrita, sem tiragem comercial. Alguém precisa dar um jeito para que esse trabalho sem precedentes possa chegar às livrarias – e estimular outros estudos sobre a trilha, essa rica prima-pobre do cinema brasileiro.











