Cogumelos podem salvar o planeta
junho 25th, 2011 § Deixe um comentário
Micologista, escritor maia, designer de permacultura, etnofarmacologista, futurista, cientista noético… Talvez você nunca tenha visto tantas designações profissionais incomuns nos créditos de um documentário. Estes e muitos outros são ouvidos em 2012 – Tempo de Mudança como arautos de uma nova consciência em termos de comportamento social, ecologia e sustentabilidade.
O âncora do projeto é o jornalista americano Daniel Pinchbeck, autor do best-seller 2012: O Ano da Profecia Maia. O filme não é uma adaptação do livro, mas uma nova investigação de Pinchbeck junto à comunidade que busca atalhos de sobrevivência para o planeta. A tese de Pinchbeck é que a crise ensina, basta querer aprender. A badalada profecia maia sobre o apocalipse em 2012 seria na verdade a antevisão do fim de um ciclo e o começo de outro. Daí a mescla de catastrofismo e hesitante otimismo que ele recolhe em suas conversas. Pinchbeck quer anunciar o possível advento de uma forma avançada de inteligência que incluiria o alternativo, o colaborativo e… o aditivo.
Sim, porque a sua tomada de consciência começou com um desbunde aos 30 anos e uma imersão no xamanismo e no psicodelismo. A saída para os problemas globais passaria, segundo o filme, por mudanças de paradigma pessoais, como se o estado do mundo fosse resultado da mera soma de resultados individuais. Para isso coletam-se testemunhos particulares de artistas-ativistas. Sting narra em detalhes sua experiência com ayauhasca no Brasil; Gilberto Gil conta como a ioga o transformou física e espiritualmente; David Lynch faz mais uma defesa de sua meditação transcendental; Ellen Page (Juno) confessa que se sentiu “muuuuito bem” mexendo em cocô de cabras numa fazenda do Oregon.
Toda a retórica do filme se equilibra entre os bons propósitos e a ingenuidade, uma vez que se mantém afastada da política. A estética é a da conversa entremeada por clipes de variadas procedências e formatos, como se consagrou nesse tipo de doc-grandes-questões. Quem dirige 2012 – Tempo de Mudança (conheça o site do filme) é João Amorim, o outro filho cineasta do ex-ministro Celso Amorim. Ele vem da animação e é também responsável pelas abundantes vinhetas animadas do filme, todas aliás bastante “animadas” por um visual psicodélico. A convergência de toda argumentação, no fim das contas, para uma espécie de utopia neo-hippie dá um caráter peculiar – a meu ver, limitativo e comprometedor – a esse ensaio desejoso sobre a renovação do mundo.
‘Enchente’ em Tiradentes
janeiro 22nd, 2011 § 5 Comentários
A 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou sexta-feira sob os signos do luto (pelas tragédias das chuvas) e da política. “Inquietações políticas” é o eixo temático das discussões este ano. E um dos filmes a disputar o Troféu Aurora, entre realizadores iniciantes, vai bater na tela com um significado muito especial. Trata-se do documentário Enchente, de Julio Pecly e Paulo Silva, produzido por Cavi Borges.
Os desastres da região serrana do Rio de Janeiro ainda não tinham acontecido quando o doc foi feito, mas a sensação de “esse filme a gente já viu” vai tomar conta de todos. Enchente é uma evocação da tromba d’água que atingiu o Rio em fevereiro de 1996 e fez dezenas de mortos somente no bairro de Cidade de Deus. O trunfo maior são as gravações amadoras feitas, na noite da catástrofe e no dia seguinte, por um certo Zezinho com uma câmera VHS recém-comprada. As imagens de Zezinho têm aquela qualidade que as cenas dos telejornais dificilmente conseguem obter: os acontecimentos filmados na hora, com a pulsação viva de alguém que se sente parte daquilo. Lembram as imagens captadas por Kimberly Rivers no olho do furacão Katryna, que motivaram o doc americano Trouble the Water, de 2008.
Julio Pecly e Paulo Silva coletaram lembranças dos moradores de Cidade de Deus 15 anos depois, mostrando como o trauma de um desastre desses se enraiza na memória das vítimas. Além disso, Enchente faz uma espécie de histórico das grandes inundações cariocas desde 1954. Daí a sensação de “filme repetido”, que se ampliaria na megacatástrofe deste janeiro negro. “Quando será a próxima enchente?”, perguntava-se o letreiro final da versão que vi, ainda num corte provisório meses atrás.
Não é difícil soar profético quando se trata desse tipo de desgraça, causada por uma combinação de fúria da natureza, imprevidência do poder público e falta de consciência dos próprios cidadãos. A partilha dessas responsabilidades é um dos assuntos discutidos no filme, daí o seu caráter político. O então prefeito Cesar Maia aparece acusando os governos estadual e federal de omissão. Hoje em dia, que esse divórcio de poderes não ocorre mais no Rio, como refazer a discussão sobre responsabilidade e culpa?
Enchente será exibido na segunda-feira, às 19h30, no Cine-Tenda.
Leia sobre outros filmes da Mostra Tiradentes que eu já comentei aqui no blog:
Avenida Brasília Formosa
Copa Vidigal
Santos Dumont Pré-cineasta?
Vozes da Guiné-Bissau
novembro 27th, 2010 § 3 Comentários
A Guiné-Bissau não tem propriamente uma estrutura de cinema, mas isso não quer dizer que não tenha talentos cinematográficos. Um deles certamente é Domingos Sanca, diretor de Rio da Verdade, projeto ganhador do DOCTV CPLP em seu país. O documentário de média-metragem, produzido por Carlos Vaz, está sendo exibido em emissoras de nove países, além de festivais e mostras como a Brasilidade, em cartaz no Rio de Janeiro.
Domingos Sanca trabalha na televisão nacional da Guiné-Bissau e se responsabilizou também pela bela fotografia de Rio da Verdade. As imagens revelam uma área paradisíaca do noroeste do país, o Parque Natural do Rio Cachéu. Esse paraíso encontra-se ameaçado pela desertificação com o avanço progressivo do Saara a partir do Senegal, ao norte. A direção do parque implantou uma política de proteção que coíbe a derrubada de grandes árvores e a caça e a pesca indiscriminadas. Embora sejam acompanhadas de orientações para práticas menos agressivas ao meio-ambiente, essas normas colidem com certas rotinas de subsistência tradicionais dos moradores da região.
O conflito se assemelha ao dos caboclos da Amazônia com as regras do Ibama, como já foi mostrado em diversos documentários brasileiros. Mas nenhum que eu conheça logrou apresentar esse dilema com o grau de dramaticidade de uma cena de Rio da Verdade. A propósito da derrubada ilegal de uma árvore, dois funcionários do parque discutem com um lavrador os direitos e obrigações dos moradores. Cada lado expõe suas razões diante da câmera, deixando claro o choque entre os interesses individuais – amparados na tradição, na noção de posse e na necessidade imediata – e as exigências da sustentabilidade, voltadas para o futuro e o bem coletivo. É uma cena rara e forte, que mobiliza a consciência do espectador.
A importância do Rio Cachéu é mais que ecológica. É mítica e política. Para além dos limites do parque, nas duas margens do rio, localizam-se duas etnias rivais. O rio, cantado em versos por poetas guineenses como Mussá Baldé, é fonte de vida e lugar sagrado para a população. As ambiguidades da relação entre espiritualidade e sobrevivência são ilustradas pela questão dos hipopótamos. Considerados parentes dos homens, eles não devem ser mortos. Mas com frequência devastam as plantações de arroz, causando enormes prejuízos. Quando alguém abate um deles, a comunidade faz um ritual de expiação e prontamente se farta com sua carne generosa.
Rio da Verdade tem a qualidade, relativamente rara em filmes etnográficos, de abordar seu tema através de muitas vozes, onde não faltam contradições e controvérsias. Além disso, assume um caráter não didático, mas baseado na observação da natureza e dos homens. O ritmo é distendido e evocativo, privilegiando o tempo largo do rio e a cadência natural dos trabalhos no campo e das cerimônias religiosas.
Domingos Sanca merece toda atenção com seu novo projeto sobre o Arquipélago dos Bijagós, reserva natural colocada em risco pela ação de pescadores clandestinos e a recente descoberta de petróleo. Nesse filme, o diretor pretende trabalhar nos limites entre ficção e documentário, para isso incorporando a história de um casal conflagrado pelas obrigações ritualísticas da etnia Bijagó.
‘Tamboro’, um país em movimento
outubro 29th, 2010 § Deixe um comentário
Neste sábado, às 20 horas, com entrada franca, o Circo Voador vai receber uma atração bem de acordo com sua imagem mítica. Vai exibir o doc Tamboro, que Sergio Bernardes deixou editado ao morrer em 2007, aos 63 anos. Tomara que a projeção e o som estejam à altura da exuberância do filme, que ganhou os prêmios especial do júri e de melhor montagem da Première Brasil do Festival do Rio de 2009. Anteontem, venceu como melhor longa o 3º Cine Fest Brasil Buenos Aires.
Tamboro pode ser chamado de um grande videoclipe sobre o Brasil, se quisermos reduzi-lo a sua forma dominante: imagens extraordinárias da natureza, das cidades e das gentes brasileiras, editadas como um mosaico, uma suíte embalada por ruídos, vozes, músicas e a belíssima trilha sonora original de Guilherme Vaz. Ora vertiginoso, ora sedutoramente envolvente, o ritmo do filme nos coloca no centro de um caleidoscópio, com o país se esparramando por todos os lados.
Muitas dessas imagens foram captadas para o projeto Via Brasil, iniciado em 1996 pela Acesa Produções com patrocínio do governo federal e da Fundação Banco do Brasil. O empreendimento consistia em filmar os pontos mais notáveis de todo o território nacional, incluindo “inatingíveis” como o Monte Roraima. Com direção de fotografia a cargo de Lula Araújo, lugares como os Lençóis Maranhenses, a selva Amazônica e o Complexo do Alemão surgem na tela em enquadramentos estonteantes, sejam rasantes aéreos, balés de steadicam ou microcâmeras que parecem voar com autonomia.
Tudo é movimento em Tamboro. Movimentos de câmera, movimentos de edição e movimentos de ideias. O painel holístico vez por outra quebra seu código documental para incorporar performances e encenações, feitas especialmente para o filme. É o caso de um almoço chique numa favela, a saída de um “bonde” de bandidos, ou uma sequência de incrível ferocidade sobre a captura e contrabando de animais silvestres. Aqui Sergio Bernardes insere, em meio ao maravilhoso, um duro olhar crítico sobre a realidade brasileira. O contraste brusco e retórico comanda diversos momentos do filme. Quando corta do voo sobre a Avenida Paulista para um canyon barrento no norte do país, ou da multidão em Aparecida do Norte para um Maracanã lotado, o comentário se limita ao âmbito das formas. Mas quando passa de uma sucessão de árvores majestosas para um caminhão carregado de motosserras, Sergio Bernardes provoca no espectador um choque superior a qualquer discurso preservacionista formal. Da mesma forma, ao cortar de um grupo aguerrido de agricultores do MST para uma cena de malhação de judas em outro contexto, é uma associação mais polêmica e política que se estabelece.
Curtos depoimentos de Leonardo Boff, Hermeto Pascoal, Ailton Krenak e outros ajudam a fornecer sentido para a pletora de imagens, tentando sintetizar anotações sobre o Brasil. Mas o viés social de Tamboro tem que conviver com uma atração visceral pelo exótico. A formação de um banco de imagens, que está na base do trabalho, responde pela busca do excepcional, do grandioso e do pitoresco. Sucedem-se, então, índios, repentistas, folguedos, onças, famílias sertanejas posando para a câmera, igrejas se abrindo em cascata, cataratas, rodas de samba, hip hop… Tudo cabe se tem som e fúria para despejar diante do espectador extasiado.
A palavra tamboro significa “para todos, sem exceção” na língua dos ingaricó, povo indígena de Roraima. Ela exprime a ambição de Sergio Bernardes no sentido de abarcar com um filme o espírito brasileiro inteiro. A aventura desse filme deslumbra, inquieta e, em sua escala quase sobre-humana, interroga sobre os extremos do país enquanto volta as costas para o mediano e o corriqueiro. Por isso seria cabível perguntar se, de fato, estamos todos em Tamboro.
Leia um pouco mais sobre Tamboro e sobre Sérgio Bernardes.
Assista abaixo ao trailer do filme:
The Cove
setembro 26th, 2010 § Deixe um comentário
Mar vermelho
Há um modelo de documentário que domina as preferências da crítica e do público bem-pensante americano. Envolve geralmente uma causa, de preferência ecológica, uma abordagem emocional e toques de dramaturgia ligados ao cinema de ficção. The Cove tem tudo isso e ganhou o Oscar de documentário deste ano. A matança de golfinhos na enseada de Taiji, Japão, é de fato um espetáculo chocante, merecedor de toda indignação. Para mostrá-lo, Louie Psihoyos e sua equipe se convertem numa troupe de filme de espionagem (comparam-se textualmente a Ocean Eleven) e se dispõem a enfrentar ou driblar a máfia pesqueira japonesa com câmeras ocultas e todo um aparato hitech.
A ênfase nesse circo tecnológico, porém, não se justifica perante os resultados alcançados na filmagem. Tudo soa mais como uma aventura de americanos bem-intencionados e bem equipados contra vilões de sotaque estrangeiro. Uma grosseira escalação de personagens evoca velhos sentimentos antinipônicos e situa como fracos e indolentes os países pobres que se deixariam corromper pelos interesses japoneses na normatização internacional da caça às baleias.
No centro de tudo, o foco emocional é reiterado a cada 15 minutos de filme: a amizade entre humanos e os inteligentes, sorridentes golfinhos; e a culpa de Rick O’Barry, criador do sucesso de Flipper, que agora se dedica à expiação combatendo a captura dos peixes. Esse argumento não renderia mais que um bom programa de TV, não fosse a verdade inconveniente daquele mar vermelho que capturou consciências e estatuetas. Não estamos diante de um novo O Equilibrista.
No Meio do Rio, Entre as Árvores
setembro 25th, 2010 § Deixe um comentário
Ecologia e tecnologia
Há vários anos Jorge Bodanzky singra as águas do norte do país com seu barco Navegar Amazônia, verdadeiro centro cultural flutuante. Ali documenta a vida das populações ribeirinhas e as inicia nos misteres da produção audiovisual e da internet. Tudo desagua em vídeos no site da TV Navegar. Seu mais novo longa-metragem serve como amostra desse trabalho de cultivo persistente nos confins do Alto Solimões.
No Meio do Rio, entre as Árvores tem bons momentos das oficinas populares de vídeo, embora incorpore pouco dos seus resultados. O forte mesmo é a visão abrangente de como Bodanzky e sua equipe registram o dia-a-dia das comunidades, suas diversões, questões de saúde, educação e controle ambiental.
Outro destaque são as belíssimas imagens da natureza amazônica, cenário que o cineasta conhece como a palma da mão. Longe do trabalho mais autoral e investigativo dos tempos de Iracema e Terceiro Milênio, o Bodanzky que se vê aqui é alguém empenhado no bom convívio entre ecologia e tecnologia.
Por um punhado de pesos
julho 25th, 2010 § 2 Comentários
Em ritmo de road-doc, Fernando Solanas percorre províncias longínquas do noroeste argentino para denunciar o neocolonialismo das mineradoras estrangeiras neste Tierra Sublevada: 1. Oro Impuro. O filme, que será reprisado em duas sessões na próxima terça-feira, na mostra do Instituto Moreira Salles (Rio), é apresentado como quinto capítulo de uma grande investigação político-econômica do país, seguindo-se a Memória del Saqueo, La Dignidad de los Nadies, Argentina Latente e La Última Estación.
Para quem conhece bem a obra documental de Solanas, Oro Impuro não traz grandes novidades além de um ritmo mais fluido e paisagens impressionantes. De resto, é a mesma maneira franca e engajada de lidar com assuntos que dizem respeito a suas posições dentro da agenda política argentina. Solanas assinala focos de corrupção e desmandos governamentais, ao mesmo tempo em que louva a ação dos que resistem nas organizações populares.
Desde que Menem entregou o subsolo argentino às concessões para mineração a céu aberto, o discurso do progresso e do enriquecimento vem servindo para encobrir a exploração multinacional a preços vis e a contaminação do meio-ambiente. Solanas visita localidades abandonadas, amostras de deterioração do sistema ecológico, grupos de professores e pequenos profissionais liberais envolvidos na luta contra o saque e a contaminação. Esmiuça um incrível conluio entre governantes, empresários e até universidades para minimizar os efeitos danosos daquele tipo de mineração em troca de bons punhados de pesos.
Não há espaço para as tais “razões dos dois lados”. Solanas é um documentarista com partido (em ambos os sentidos). Autoritário, corta a palavra do inimigo quando bem entende. Narra a História e a atualidade conforme seu ponto-de-vista, e o faz claramente, dramatizando aqui e ali sua presença como engenheiro de sua própria opinião. A mise-en-scène que às vezes percebemos, especialmente no contato afetuoso com os ativistas ambientais, deixa patente que o diretor está, mais que flagrando coisas, construindo um arrazoado que soe sintético e efetivo. São recursos do doc político, que Solanas maneja com rara sobriedade e grande sinceridade.
O segundo capítulo de Tierra Sublevada será Oro Negro, sobre a exploração de petróleo.
A capital do inferno
junho 18th, 2010 § Deixe um comentário
Na primeira imagem, uma ameaçadora mancha preta escorre pela tela até cobri-la completamente, remetendo a um vazamento de óleo. Daí em diante, uma sucessão de imagens e sons inquietantes colocam o espectador em estado de tensão. É como se a ameaça ambiental se materializasse no cenário de uma grande cidade brasileira. Imagens-síntese de desperdício, proliferação, corrosão. Um apocalipse iminente.
Não estou falando de um filme de ficção científica, mas do último trabalho do documentarista Jorge Bodanzky. Pandemonium é um alerta sobre o dispêndio indiscriminado de energia não renovável no mundo e suas consequências para as condições de vida no planeta. A argumentação verbal parte dos cientistas Rogério Cezar de Cerqueira Leite e Carlos Nobre. Otimismo pontual e pessimismo generalizado se revezam em suas falas, a partir de uma constatação de Rogério: “O homem é uma espécie de parasita que mata seu hospedeiro”.
Rogério e Carlos discorrem sobre a forma superficial como nos preocupamos com o meio-ambiente e a necessidade de partirmos para grandes soluções que garantam um modelo sustentável para médio e longo prazo. Seguir apostando em veículos movidos a combustíveis fósseis e no desmatamento pode ser o caminho mais curto para a Terra se converter na capital do inferno (sentido mítico da palavra pandemônio conforme o poema Paraíso Perdido, de John Milton).
O doc de 52 minutos pode ser visto na íntegra no site da Elo WebTV. Você pode conferir como Bodanzky apresenta aqui um estilo diferente para escapar ao modelo de doc-palestra. Ele trabalhou falas, música (Thiago Cury e Marcus Siqueira), fotos e imagens em movimento (Matheus Rocha assina a fotografia) em regime de simultaneidade, perfazendo uma suíte audiovisual impactante. As imagens colhidas em São Paulo e na Amazônia são ressignificadas mediante uma montagem experimental (de Lucas Justiniano) e um tratamento cromático de grande efeito (por Alex Yoshinaga). As tonalidades ácidas predominam, reforçando nas palavras o sentido de urgência que carregam.
No fim das contas, Pandemonium mostra como um realizador supera as limitações de um projeto relativamente convencional através da criatividade potencial de sua linguagem.
Cameron is coming
fevereiro 24th, 2010 § 4 Comentários
Dois posts abaixo eu dizia que tinha dois segredos para contar em breve. Um deles já vazou numa revista semanal cujo nome me recuso a repetir. James Cameron, o mago de Titanic e Avatar, vem ao Brasil em fins de março, trazido pela empresa Seminars. Fará duas conferências – uma em Manaus, sobre sustentabilidade, e outra em São Paulo sobre temas ligados a cinema, espetáculo e tecnologia.
É bem provável que chegue por aqui com alguns Oscars na bagagem. Isto é, se a ex-mulher não lhe roubar todos.
No Impact Man
outubro 1st, 2009 § 1 Comentário
Doc ½ ambiente. Cruzamento de Super Size Me com Uma Verdade Inconveniente, o filme de Laura Gabbert e Justin Schein documenta uma experiência idealista. O escritor Colin Beavan, esposa e filha testaram se era possível – e prático – viver um ano sem causar qualquer impacto negativo ao meio-ambiente. Cortaram da eletricidade ao papel higiênico, dos transportes motorizados às comidas industriais e embalagens plásticas. Produziram lixo quase zero. Isso tudo em plena Nova York. Apesar da inspiração no formato, é bem mais digno que a média dos reality shows. Colin veicula a ideologia do projeto, enquanto a mulher, Michelle, vivencia os dilemas de uma vida à margem da cultura do hiperconsumo e do desperdício. Os encontros do casal com a mídia, amigos e ambientalistas colocam em discussão a eficiência das iniciativas individuais. É aí que o filme se torna mais interessante, para além de seus atrativos como comédia dramática do gênero família. ♦♦♦
Petróleo Bruto
setembro 27th, 2009 § Deixe um comentário
(Crude)
Doc ½ ambiente. Por cerca de dois anos, Joe Berlinger documentou o litígio de camponeses e índios da Amazônia equatoriana contra a Chevron-Texaco por danos causados na exploração de petróleo na região: contaminação de águas, doenças, mortes, destruição de fauna e flora. A causa é nobre e toda divulgação, necessária. Mas o filme não escapa aos clichês de representação do gênero Davi x Golias. Lá estão os humildes tropicais contra os prédios imensos das corporações; o herói local, que de tão esvaziado mais parece um talismã levado da selva para o campo de batalha; os ambientalistas americanos orientando as falas e convocando celebridades; mães pobres chorando suas perdas; advogados e porta-vozes das empresas desfiando sua lógica macabra. Berlinger limita-se a reportar e criar contrastes na edição. Enquanto ainda se discute de quem foi a responsabilidade pelo chamado Chernobyl Amazônico, a população da floresta continua a sofrer as consequências. E Crude caminha para uma possível indicação ao Oscar, na onda verde que embala os docs nos EUA. ♦♦
O Areal
setembro 24th, 2009 § Deixe um comentário
Doc etno-½ ambiente. O chileno Sebastián Sepúlveda, ex-aluno da Escola de Cinema de Cuba, estreia na direção com este média rodado na Amazônia paraense. Sem pressa e com bom senso de observação, retrata o ritmo da vida numa comunidade de descendentes de escravos. Isolados, eles se cercam de uma mitologia cheia de pássaros encantados, lobisomens, sereias d’água, Matinta Pereira. Os relatos são bonitos e divertidos. O filme demora um pouco a instalar sua questão central: uma grande ponte está sendo construída ali perto, e a especulação se aproxima do areal supostamente mágico que os separa do resto do mundo. A lembrança de Arraial do Cabo se faz inevitável. Após um salto de três anos, finalmente o tema se apresenta: nem a aproximação do progresso, nem a chegada dos evangélicos pode enterrar as crendices, capazes de gerar tanto medo quanto alegria. Nesse caso, pelo menos, a cultura parece mais forte que o tempo. ♦♦
O dedo na cara dos estúpidos
setembro 21st, 2009 § 1 Comentário

Pete Postlethwaite em "A Era da Estupidez"
Passada a guerra no Iraque, chegou a vez da “onda verde” no documentarismo americano. A cada semana, surgem dois ou três novos docs alarmados seja com o desperdício de água, seja com o aquecimento global, a proliferação de plásticos, os derramamentos de petróleo, a destruição das florestas etc. E a onda se reproduz na Europa, com lentes abertas sobre África, Ásia e América Latina. Oito desses títulos estarão numa mostra especial do Festival do Rio, a Mostra Meio-ambiente.
A coisa vira megaevento hoje (segunda), numa tenda armada em downtown Nova York para a “première global” de A Era da Estupidez (The Age of Stupid). Na véspera da conferência da ONU sobre o clima, Kofi Annan e diversas celebridades vão estar presentes para sublinhar o alerta feito pelo filme de Franny Armstrong. Amanhã (terça), haverá uma exibição simultânea em mais de 700 cinemas de 40 países, inclusive o Brasil. No Rio, será no Espaço Rio Design às 21h30 e no Unibanco Arteplex às 22h. Para outras cidades, consulte o site da Moviemobz.
Se Uma Verdade Inconveniente, o filme que puxou a “onda verde”, era uma aula-sermão de Al Gore, A Era da Estupidez é uma admoestação, um dedo na cara dos homens de hoje, apontado por uma figura ficcional do ano 2055. Nesse futuro não tão distante, mesmo depois de Chelsea Clinton ter sido presidente dos EUA, a Terra seria não mais que uma ruína despovoada, como mostram as cenas de abertura. O único aparente sobrevivente (Pete Postlethwaite) é um arquivista que zela pelas obras e imagens do passado no alto de uma torre no norte da Noruega. Sua grande tela touchscreen é a própria tela do cinema, onde ele “edita” cenas documentais que mostram como nosso tempo nos terá conduzido ao suicídio coletivo. Continue lendo




