Longa jornada crise adentro

dezembro 15th, 2011 § 1 Comentário

Kevin Spacey é parte do excepcional elenco de "Margin Call"

Nada mais adequado do que o subtítulo de filme-catástrofe sapecado no lançamento brasileiro de Margin Call – O Dia Antes do Fim. O dia C do crack financeiro de 2008 é contado do ponto de vista da primeira empresa que teria escancarado a crise oferecendo-se em holocausto no mercado para que seus mais altos executivos pudessem sobreviver. O clima é de apocalipse. Não à toa, aqueles homens apavorados diante das telas de computador se assemelham aos cientistas de uma central de comando monitorando um choque inevitável de planetas em filme de ficção científica.

Margin Call já foi chamado de “continuação de Wall Street”, em referência aos dois filmes de Oliver Stone. Mas eu o vejo mais como um contracampo do documentário Trabalho Interno. Enquanto este tratava a crise numa perspectiva macro, enfeixando-a histórica e contextualmente, Margin Call o faz por dentro de um case específico. Nem os personagens, nem a empresa têm contraparte definida no mundo real, mas, como anotou o crítico americano Roger Ebert, é bem claro que o nome do chefão John Tuld, vivido por Jeremy Irons, lembra o de Richard Fuld, o CEO da Lehman Brothers que lucrou milhões com a falência de sua empresa.

Há uma cena discreta mas muito simbólica no filme. Em dado momento da longa noite de agonia, dois executivos entram num elevador onde se encontra uma faxineira. Eles continuam a conversa – cifrada para simples mortais – como se não houvesse ninguém com eles no elevador. A faxineira, por sua vez, mantém os olhos fixos para a frente e uma expressão impassível, misto de respeito e ignorância. A cena expressa bem o nível de alienação recíproca entre o mundo das finanças e o mundo do trabalho. De certa forma, expressa também a relação da maioria dos espectadores com as discussões que presenciamos dentro e fora do elevador. E é justamente aí que Margin Call se revela um prodígio de dramaturgia.

O teor de abstração e de “financês” de quase tudo o que ouvimos é espantoso, mas ainda assim acompanhamos a jornada noite adentro daqueles executivos com absoluta compreensão e engajamento. Tanto em termos de roteiro quanto de direção, é espantoso o trabalho de J.C. Chandor, vindo de comerciais, videoclipes e pequenos documentários para essa promissora estreia no longa-metragem. A noção de timing, a propriedade dos diálogos e a maestria na direção dos atores nos coloca no centro de um torvelinho de vaidades, oportunismo e humilhação que por vezes tangencia Eugene O’Neill, Arthur Miller ou mesmo uma tragédia de Shakespeare.

De resto, não é desprezível o efeito catártico provocado pelo filme. Afinal, como é bom ver grandes porcos capitalistas em apuros.

A porta giratória

fevereiro 19th, 2011 § Deixe um comentário

Por mais que a crise americana de 2008 nos tenha afetado com a “marolinha”, e por mais que estejamos iniciados em swaps, subprimes, rating agencies, derivatives, Lehman Brothers & Cia., existe algo que nos escapa completamente em Trabalho Interno. É o potencial catártico de ver tantos vilões gaguejarem mais que Colin Firth em O Discurso do Rei. Ou ficarem a nu em seu cinismo diante da câmera e das perguntas incisivas de Charles Ferguson. Para os americanos que conviveram por tanto tempo com aquelas autoridades e megaexecutivos nos telejornais diários, o efeito é especialmente forte – e sem dúvida contribuiu para a estima crítica que leva Inside Job ao favoritismo no Oscar de melhor longa documentário.

As cenas de abertura sugerem o estilo de Oliver Stone: Wall Street goes pop. Mas não vai muito longe a impressão. Logo em seguida somos assoberbados por uma pletora de cabeças falantes, gráficos, fac-símiles de jornais e documentos, créditos de identificação – e ainda as legendas da tradução, muitas vezes impressas em branco sobre fundo branco, ou seja, null. É árdua a tarefa de ver Inside Job. Por vezes você vai sentir saudade dos alívios cômicos e da escala “humana” de Michael Moore. Mas Ferguson não quer entreter nem fazer cinema criativo. Cientista político, matemático e especialista em tecnologia da informação, tendo prestado consultoria à Casa Branca e a empresas como Apple, Xerox e Motorola, sua carreira no cinema começou em 2008 com No End in Sight, doc sobre o envolvimento dos EUA na guerra do Iraque. Seus dois filmes, portanto, são dossiês destinados a “fechar” capítulos da história americana. Por isso são pesados, sóbrios e detalhistas.

Trabalho Interno tem uma pegada didática. Pretende explicar as raízes da crise, lá no governo Reagan, e a rede de interesses que se armou ao longo dos governos Clinton e Bush, unindo o sistema financeiro com as esferas governamentais. A escalada da especulação, a bolha dos empréstimos imobiliários, o jogo das grandes corporações financeiras com o dinheiro dos clientes, o enriquecimento estapafúrdio dos altos executivos, tudo é dissecado em flashes, falas editadas no essencial e pequenos blocos de narração. Mas acompanhar o ritmo das informações e a trama das relações é um desafio para o espectador que desconheça os personagens e o idioma economês. Ferguson não facilita as coisas em prejuízo da fidelidade aos pormenores.

Os personagens são muitos – e muito mais seriam se todos os figurões tivessem concordado em dar entrevista para o filme. A sucessão de cartelas informando quem não topou participar funciona como acusações implícitas: quem se omite tem culpa no cartório. Na virtual impossibilidade de seguir o fluxo de tantas acusações e defesas vacilantes, resta-nos aceitar a argumentação indignada do diretor e sua câmera-dedo apontada para os vilões. No fundo, é mais uma questão de confiar no cineasta que de entender e posicionar-se.

Boa parte dos fatos já haviam sido abordados, com igual apetite e um pouco menos de aridez, em Capitalismo: uma História de Amor, de Michael Moore. Mas há pelo menos dois pontos de vantagem para Ferguson. Um deles é a inclusão da academia na rede de falsificações e consultorias forjadas. Segundo o filme, professores das universidades de Harvard e Columbia contribuíram decisivamente para sustentar as mistificações da bolha e o status quo do neoliberalismo predatório. O outro ponto é a decepção com o governo Obama, que não implementou as reformas prometidas e cedeu cargos públicos às velhas raposas do sistema anterior. A nota de esperança que encerrou vários docs americanos recentes, o de Moore inclusive, é severamente desmentida em Trabalho Interno. Houve mesmo quem interpretasse a narração de Matt Damon (um eleitor Democrata) como um sinal de que Hollywood estaria abandonando Obama.   

A boa causa e o caráter direto do filme não lhe garantem, porém, uma qualidade cinematográfica distintiva. A retórica de Ferguson baseia-se em falas, dados e imagens-padrão de reportagens sobre corporações. Planos aéreos de Nova York indicam a amplitude da abordagem, torres simbolizam poder e cobiça, fachadas envidraçadas sugerem impessoalidade. E ainda um elemento dramático que se impõe a cada dez minutos: a porta giratória. Ela representa o movimento contínuo, a roda da fortuna que acolhe como expulsa, o equipamento que engole e expele seres humanos das entranhas do dragão financeiro. Tudo bem. Mas depois da quinta ou sexta porta giratória, você começa a achar que sobra razão mas falta cinema em Inside Job.         

Casais impossíveis

novembro 21st, 2010 § 1 Comentário

Diversão de domingo:

Uma imagem vale mil palavras. O velho provérbio ganhou uma acepção divertida na comunidade online Worth1000, que desde 2002 mobiliza internautas para brincar com imagens. Eles promovem competições diárias que resultam em entretenimento visual e até alguns escândalos, quando suas fotos inventadas são confundidas com o real. O site conta com orgulho que até o Pentágono já soltou uma declaração desassociando-se das imagens do Worth1000.

Uma das competições mais populares por lá é de “Casais de Celebridades Impossíveis”, reunindo numa mesma foto artistas vivos e mortos. Abaixo destaquei três que me agradaram especialmente, mas vale a pena visitar o Worth1000 e navegar pelas várias páginas e diversas edições do tal concurso.    

Di Caprio e Miranda

Heath Ledger e Katy Perry

Clooney e Kelly

A imprensa em seus piores dias

outubro 11th, 2010 § 12 Comentários

Quem me segue no Twitter tem testemunhado minha recente vergonha com o diploma de jornalista. Não pela profissão em si, uma das mais nobres que existem, mas pelo sentido que ela tem adquirido na grande imprensa brasileira. Estou impressionado com a quantidade de jornalistas-carneirinhos que se prestam ao jogo sujo praticado pelos grandes jornais e revistas nessa campanha eleitoral.  

A grande mídia tem sido o braço auxiliar das forças conservadoras, ecoando acriticamente o denuncismo eleitoreiro, as baixarias difamatórias e, mais recentemente, o fundamentalismo religioso que infelizmente virou protagonista da campanha. Essa mídia não só ecoa, como fornece combustível para a caça às bruxas e as insinuações perversas, numa parceria sinistra para a transparência de uma sociedade democrática. 

O Globo, único jornal que (ainda) assino por causa do Segundo Caderno e de alguns suplementos, abre espaços mínimos para o pensamento progressista, mas prontamente o ofusca mediante uma “seleção” de assuntos e espaços destinada exclusivamente a torpedear a candidatura de Dilma Roussef. Nenhuma realização do Governo Lula merece mais que algumas linhas em cantos de página ou perdidas dentro de alguma matéria “questionadora”, ao passo que os elogios ao governo Cabral (justos, não discuto) são uma cantilena praticamente diária. Cito isso apenas para desmentir a tese de que “jornais não são para elogiar, mas para investigar”. No caso da campanha à presidência, até a paginação do jornal reflete a escolha eleitoral dissimulada: artigos sobre Dilma na página par; textos sobre Serra na página ímpar (zona áurea da leitura). Nem caberia enumerar aqui as estratégias de edição que a cada dia procuram reforçar uma imagem negativa para a candidata oficial. 

A Folha de S. Paulo, de passado épico na campanha pelas Diretas Já, hoje é, com raras exceções, um ninho de pós-yuppies tucanos dispostos a tudo para trazer as aves bicudas de volta ao poder. O Estadão, que pelo menos teve a dignidade de explicitar seu apoio a Serra num editorial, mostra-se truculento no combate ao dissenso, como ocorreu no episódio da demissão da colunista Maria Rita Kehl por conta de um artigo em que defendia o Governo Lula. A Veja… bem, há muito não a considero uma revista, mas um panfleto das elites conservadoras. Há outros grandes jornais e revistas no mercado, mas seu papel político é bem menos decisivo que o desses. 

Em tal panorama repulsivo, uma coisa tem me causado um mal-estar quase físico: é a falácia de alguns jornais em se arvorarem porta-vozes da sociedade e canal obrigatório de comunicação entre governantes e governados. Artigos e editoriais revoltados condenam sites, blogs e twitters de políticos e estatais – de Cristina Kirchner e Hugo Chávez à Petrobras – por estabelecerem um contato direto entre governos e sociedade. Qualquer iniciativa nesse sentido é tomada como um ataque ao papel mediador da imprensa. 

Ora, que mediação é essa? A imprensa é espaço e instrumento de poder, além de empreendimento comercial. E isso não é de hoje. Todos sabemos como os grandes jornais pediram e apoiaram o golpe de 1964, sendo que alguns se arrependeram pouco depois ao ver o monstro que tinham ajudado a criar. O sistema Globo, aliás, seguiu apoiando a ditadura até o fim. Com a mais recente “empresificação” dos meios de comunicação, estes se tornaram, ainda mais, veículos de defesa e cabos eleitorais de interesses econômicos. Um desses interesses, senão o principal, é o deles próprios. Jornais precisam conservar seu poder de influência para se manterem comercialmente fortes. Daí as reações inflamadas contra qualquer tentativa de regulação ou de bypass pelas instituições políticas que, através da internet, lhes roubam o papel de “mediador”. 

No mundo inteiro, essa função da imprensa vem sendo relativizada. A cada semana recebo, por exemplo, e-mails assinados por Barack Obama (através do projeto democrata Organizing for America) discutindo suas principais inquietações. Já se foi o tempo em que o cidadão dependia da mídia para ter acesso ao que pensa o seu prefeito ou seu presidente. A internet pulverizou essa mediação, e isso nada tem a ver com autoritarismo, muito pelo contrário. 

É preciso denunciar esse bordão da imprensa como instituição “neutra”, vestal intocável a serviço do bem comum. Não é. Talvez nunca tenha sido. Essa grande imprensa brasileira de hoje não me representa, assim como certamente não representa a grande maioria do povo brasileiro. Mediadores entre governantes e cidadãos são os instrumentos da sociedade civil, a livre veiculação de ideias e opiniões não tuteladas por editores comprometidos. Jornais e TVs são balcões de compra e venda, aí entendido também o comércio político.

À grande mídia brasileira não basta mais retratar o país pior do que é na verdade. Ela agora contribui para torná-lo de fato pior. É por isso que mantenho meu diploma na gaveta, à espera de que o jornalismo deixe de ser uma vitrine para a hipocrisia e o obscurantismo.                  

O estivador do Haiti

julho 15th, 2010 § 2 Comentários

Não duvido da seriedade de Sean Penn no Haiti. Desde fins de janeiro, depois de se separar da mulher, Robin, ele está administrando com as próprias mãos uma grande iniciativa de ajuda aos desabrigados de Porto Príncipe. Uma matéria do The Independent descreve a chamada Penn Tent como um exemplo de compromisso, organização, limpeza e eficiência. Bem diferente da maioria das ações humanitárias de ONGs e Nações Unidas, que recebem muito mais dinheiro e dão menores resultados. Penn estaria vivendo ali quase ininterruptamente desde janeiro, dormindo numa tenda e botando a mão na massa como qualquer outro voluntário ou morador local.

Foto: Getty Images

Mas alguma coisa na foto do artigo (acima) me desconcerta. Penn é de esquerda e não faz o jogo das celebridades. Acredito mesmo que ele esteja lá carregando sacos e resolvendo problemas em instância pessoal. Mas a foto é infeliz. Penn sobe a ladeira como um burro de carga, enquanto haitianos ao seu redor levam coisas leves ou não levam nada. Tem até um auxiliar caminhando ao seu lado com um smartphone, possivelmente o celular do próprio Penn. Então é assim: o astro carrega o fardo pesado enquanto um assistente fortão leva seu celular. Pode não ser, mas parece uma cena arrumada para a foto da Getty Images. Sean Penn como o mais empenhado de todos, o herói do real.

A história da Penn Tent é linda, mas a foto quase sabota o artigo.

“O filme mais odiado da história”

maio 4th, 2010 § Deixe um comentário

A cobra vai fumar de novo. A exibição do controvertido documentário Rádio Auriverde na TV Brasil, às 23h da próxima sexta-feira, está reeditando um pouco da celeuma que acompanhou sua estreia há quase 20 anos. Eu era programador do cinema do CCBB quando aconteceu ali a primeira exibição do filme no Rio, em 12/5/1992. A pressão contrária era enorme, mas nós não compactuaríamos com qualquer tipo de censura. Reforçamos a segurança para o caso de os protestos anunciados pelos ex-pracinhas se transformarem em nova guerra. Àquela altura, a reação ao filme já era extremada, fazendo com que Sylvio Back o alardeasse como “o mais odiado da história”.

Com sua revisão sarcástica da participação brasileira na II Guerra, Rádio Auriverde dubla a narração de cinejornais e elege Carmem Miranda como contraponto e síntese simbólica de uma aventura militar supostamente farsesca e talhada segundo os moldes da colonização norte-americana. Na leitura de Back, a FEB teria sido usada como “carne de canhão” num conflito já praticamente definido. Ao contrário da imagem heróica cultivada pela História, ele expunha soldados estropiados e mal preparados para o frio e o conflito. Mas havia algo ainda mais grave e arriscado, que era dar razão à propaganda nazista.

Trata-se de um filme cruel, panfletário e incômodo, mas que se oferece ao debate sem subterfúgios. Sylvio Back sempre o defendeu como uma visão do pracinha “humanizado, em carne e osso”, além de uma crítica, isso sim, ao “espírito de corporação” que perpetua mitos intocáveis. Isso não bastou para impedir que historiadores, críticos e ex-combatentes até hoje cerrem fileiras contra o filme. Agora mesmo o crítico Ely Azeredo me autorizou a publicar seu e-mail intitulado “Dia da infâmia”:

“A TV Brasil exibirá o antidocumentário Rádio Auriverde. Privilégio inglório: em nenhum lugar do mundo foi produzido e exibido para o grande público um filme veiculando a voz do reich nazista sobre a participação dos brasileiros na segunda guerra mundial. Agravante: o texto de introdução ao filme - no site da TV Brasil – nada informa sobre o mal-estar que a exibição do antidocumentário provocou em setores responsáveis da opinião pública brasileira, nem previne os eventuais telespectadores sobre os danos que (ainda) pode provocar na compreensão de nossa história.”

Do outro lado da trincheira, Back festeja a boa circulação do DVD e a transmissão na TV Brasil, operando agora numa rede que incorpora sete emissoras universitárias e 15 TVs públicas regionais, cobrindo mais de 1.700 municípios em 23 estados. “Um luxo de audiência, imagino!”

P.S. O site da TV Brasil até ontem registrava erroneamente que Rádio Auriverde ganhou o Kikito de melhor filme em Gramado 1991. O doc apenas concorreu. No Festival de Natal, levou um prêmio para a pesquisa.

Notas sobre o partido da imprensa

fevereiro 8th, 2010 § 3 Comentários

1.

Há quase oito anos acompanho nos jornalões o que chamo de “colunismo do mas”. Desde o início do governo Lula, articulistas como Merval Pereira e Miriam Leitão, de O Globo, militam na inglória tarefa de semear dúvidas sobre a política econômica. A cada iniciativa ou sucesso do governo, eles admitem o óbvio para logo em seguida contrapor um “mas…”. Ora é a crise internacional que vai mostrar suas garras; ora é a insuficiência das medidas para um futuro próximo; ora são indicadores menores que não acompanham o êxito dos maiores.

Os meses passam, a economia se mantém firme, mas o “colunismo do mas” renova sua retórica pateticamente. Novos sucessos têm que ser admitidos, mas…

Nesse domingo, Merval Pereira comentou a indiscutível ascensão da renda da classe média, mas foi pesquisar autores que colocam em dúvida a sustentabilidade desse quadro baseado no aumento do consumo. É sempre assim: o governo Lula é um sucesso, mas o preço do carretel de linha continua subindo e não dá pra garantir que em 2050 o país esteja bem.

OK, ninguém está pedindo um coro de contentes, mas até quando teremos que aguentar o coro dos descontentes batendo latinha enquanto passa a caravana de um Brasil melhor?

2.

Se tenho cá as minhas dúvidas sobre os métodos e a fanfarronice de Hugo Chávez, as dúvidas são maiores ainda sobre a maneira como a grande mídia conservadora brasileira o pinta dia após dia. As reações contra a recente cassação da concessão de uma rede de TV serviram para desenhar o perfil de um país “dividido” – como se a democracia não fosse justamente a arte de administrar divisões.            

O Globo de domingo também trouxe uma matéria com depoimentos de admiradores e desafetos do governo Chávez. Basta comparar os argumentos de cada lado para perceber que há uma cisão entre camadas populares e as classes média e alta. A opção do presidente pela redução de desigualdades está levando a luta de classes à esfera das políticas públicas. Mais uma prova da genialidade política de Lula foi seguir esse caminho sem botar o país na rota da polarização. 

O que mais me espanta nessas notícias de Caracas são as imagens dos estudantes que assumiram a defesa de uma empresa de televisão e protestam contra o governo. Eles podem até ter razão, mas precisavam parecer uma milícia de pitboys parrudos? Ou, pior ainda, como nessa foto de Fernando Vergara/AP, uma coluna perfilada com saudação fascista e máscaras brancas que remetem à Ku Klux Klan?          

3.

A mídia conservadora abraça acriticamente todos os signos e falsos questionamentos que contam a favor de suas escolhas. Sim, porque é ingenuidade ou canalhice achar que os grandes jornais e redes de TV são meros instrumentos da liberdade e da democracia. Eles o são apenas na parte cosmética. No fundo, são empresas que fazem escolhas políticas e se aproximam da condição de um partido informal. Orientações explícitas correm em surdina pelas redações. São todos contra Lula e contra Chávez, embora poucos assumam isso frontalmente como a revista Veja.

O resto é demagogia e manipulação.  

Conta outra

setembro 9th, 2009 § Deixe um comentário

Mentiras sinceras interessam, cantava Cazuza. Mentiras essenciais são o que importa, poetava Waly Salomão.

Mas há mentiras que não são sinceras nem essenciais. São puras, deslavadas enganações. Elas surgem a todo momento, especialmente na mídia e na internet. Quantas vezes você não tem vontade de abrir a janela e gritar “Não! Isso é mentira!”.

Compreendi que, de alguma forma, o Twitter pode fazer as vezes dessa janela. Você vai ali e, em essenciais 140 toques, diz que não acredita em determinada lorota. Pelo menos seus amigos seguidores saberão o que você pensa.

Para isso, criei no meu Twitter a hashtag (palavra-tema) ”#contaoutra“. Sempre que não acreditar numa história corrente, vou contar ali no microblog. Convido os amigos a compartilharem a hashtag, gritando na sua própria janela o que achar que é mera conversa fiada.

Desde sexta-feira, já postei as seguintes patranhas no #contaoutra:

- “O governo” está fraudando a mega-sena. Só ganham “laranjas”. A mídia só não denuncia porque “o governo” não deixa.

- O Estação abandonou as salas do novo prédio porque a UPA desvalorizou o lugar como entretenimento. 

- A Argentina tem futebol.

- Os Normais 2 merece algum tipo de aplauso. 

- O Globo tem revisores e copidesques.

- Trabalho escravo é flagrado em obra do PAC (Folha SP). Conheça a verdade: http://is.gd/329RF

- O “socialista” Obama vai comer as criancinhas estudantes dos EUA.

Ao final de todas essas frases, ouçam o meu mais sincero “então, tá”.

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