Duas perguntas à Deneuve
junho 10th, 2011 § Deixe um comentário
A entrevista coletiva com Catherine Deneuve ontem (quinta) no Hotel Sofitel, no Rio, começou bem atrasada, correu rápida e sequinha, como parece ser o jeito da “Madame”. Ela falou um pouco de Potiche – Mulher-Troféu, o filme de François Ozon que a trouxe ao Brasil por ocasião do Festival Varilux de Cinema Francês. Falou também sobre a era digital, envelhecimento, divismo e, claro, A Bela da Tarde.
Gravei a entrevista inteira com minha MiniDV. Abaixo, dois trechos em que fiz perguntas à atriz:
Outras declarações de La Deneuve que tenho de memória:
” Diva é coisa de ópera italiana. Acho o termo até um pouco pejorativo”
“Envelhece-se melhor na Europa e provavelmente no Brasil que nos EUA” (falando a respeito de papéis para atores maduros)
“Minha filha Chiara é mais parecida com o pai, Marcello (Mastroianni). Ela é muito italiana. Eu sou bem menos…”
“Você é que tem que me dizer o que acha das mulheres na política. Vocês têm uma presidenta. Diga o que você acha!” (devolvendo a pergunta a um jornalista)
“”Faço essa longa viagem ao Brasil para falar de Potiche e o maior destaque na internet é que eu fumei na coletiva (de São Paulo). Parece pequeno…”
Peneira Digital: Mulheres do Cinema Brasileiro
fevereiro 13th, 2011 § 3 Comentários
http://www.mulheresdocinemabrasileiro.com/
Este é um site de fã, mas reuniu tantas informações úteis que passou a ser interessante não só para outros fãs, como para qualquer pesquisador. Adilson Marcelino começou a brincadeira em 2003 com um fotolog dedicado a atrizes brasileiras. Já no ano seguinte o fotolog virou site e o acervo foi ampliado. Hoje, quem visita o Mulheres do Cinema Brasileiro tem várias “salas” à sua disposição.
Na Sala Isabel Ribeiro estão as fichas de atrizes, com pequenos comentários biográficos e filmografia. Na Sala Ana Carolina moram as cineastas. Na Sala Betty Faria ficam produtoras, fotógrafas, roteiristas, diretoras de arte, etc. A Sala Dina Sfat abriga entrevistas. A Sala Lilian Lemmertz contém textos de homens sobre mulheres do cinema brasileiro. E por aí afora.
A navegação não é das mais funcionais, nem o design é especialmente atraente. Ainda assim, o trabalho de Adilson Marcelino ganha relevância por sua especificidade e pela dedicação e carinho com que trata aquele universo. Afinal, não é bom ter um lugar onde encontrar rapidamente informações sobre mulheres tão diferentes quanto Léa Garcia, Maria Augusta Ramos ou Karen Harley?
Cinderela sertaneja
dezembro 29th, 2010 § 2 Comentários

Talvez você se recorde de Marlene França como a morena taluda e bonita, uma espécie de Sophia Loren brasileira, que atraiu olhares e tesões em filmes de cangaço e comédias eróticas das décadas de 1960 e 70. Pode ser que você se lembre dela como atriz dramática em filmes de Roberto Santos (Nasce uma Mulher, Quincas Borba) nos anos 80. Quem sabe você a tem na memória como diretora dos documentários político-sociais Frei Tito, Mulheres da Terra, Meninos de Rua e O Vale das Mulheres. E se você passava os olhos pelas velhas colunas sociais, pode saber que Marlene França é também a mulher do herdeiro de uma das famílias mais ricas do Brasil, os Matarazzo.
Como essas mulheres todas convivem numa mesma mulher é o que pretende contar a biografia Marlene França – Do Sertão da Bahia ao Clã Matarazzo, escrita pela jornalista Maria do Rosário Caetano para a Coleção Aplauso. Como na maioria dos livros da coleção, o texto parte de um depoimento de Marlene, colhido e editado por Rosário.
Elas perderam uma boa chance de começar com a frase “Era uma vez”. Sim, porque a história de Marlene, tal como contada aqui, é uma variante dos contos de fada. Com participação intensa do acaso. Marlene foi descoberta por Ary Fernandes quando vendia cocada num mercado de Feira de Santana, interior da Bahia. Ary procurava figurantes para o curta Ana, a ser dirigido por Alex Viany como parte do longa internacional A Rosa dos Ventos, supervisionado por Joris Ivens e produzido pelo Partido Comunista da Alemanha Oriental. Marlene e toda sua pobre família acabou contratada para fazer figuração. A menina de 12 anos, que já sonhava em ser atriz e “sair nas capas das revistas”, tinha ali o primeiro de uma série de encontros quase mágicos.
Três anos mais tarde, já emigrada para São Paulo, eis que Marlene topa casualmente com Alex Viany numa rua do centro. Alex a apresenta a Ruy Santos, que a “encaixa” como assistente de montagem e continuísta. Novo encontro numa rua do Brás a levou para os estúdios fotográficos, onde posaria para anúncios e até capa de disco de bolero. Lima Barreto (de O Cangaceiro) a queria para o papel de Inocência, roteiro que só seria filmado muito tempo depois por Walter Lima Jr. com Fernanda Torres.
Depois de um casamento e vários namoros na área artística (Lima Barreto, Ignacio de Loyola Brandão, Riva Faria, Gianni Amico, Renzo Rossellini), Marlene foi finalmente fisgada por seu príncipe encantado enquanto ensaiava um show em boate paulista. Angelo Andrea Matarazzo Ipolito a transformou numa “Cinderela do século XX”, que passou a viver entre Porsches, Guarujá e temporadas suntuosas na Europa. Ao mesmo tempo, esbaldava-se em farras e filmagens na Boca do Lixo, assim como mantinha amizades estreitas com a esquerda brasileira e latino-americana.
Maria do Rosário situa os pontos decisivos dessa trajetória fascinante, mas é pena que não aprofunde uma investigação sobre o seu sentido. Num relato provavelmente feito às pressas, ela parece ceder à memória preguiçosa de Marlene com relação a suas atuações. A atriz fornece poucos insights particulares sobre os quase 50 trabalhos em cinema e televisão, ou mesmo sobre os docs que dirigiu. Em contrapartida, há um excesso de sinopses e nomes de elencos e equipes a atravancar a fluência do texto.
Fica, porém, a curiosidade aguçada sobre essa mulher certamente extraordinária, que consegue reunir em torno de si vários mundos. Contraditórios mas, para a sertaneja-cinderela, complementares.
O livro pode ser folheado e lido na íntegra aqui.
Quisiera morir
novembro 14th, 2010 § 4 Comentários
Diversão de domingo:
Soledad Villamil dando uma canja para os convidados do 7º Amazonas Film Festival no domingo passado, nos jardins do Palácio Rio Negro (Manaus). Gravei com meu Motorola Milestone e não soube resolver a perda de synch nos últimos instantes do clipe. Perdoem, mas vale pela raridade.
Em Manaus, com Soledad
novembro 5th, 2010 § 1 Comentário
Manaus vai ter uma chance de descobrir o segredo dos olhos de Soledad Villamil. Em tempo de mulheres presidentes, a atriz e cantora de tangos será a presidente de honra do 7º Amazonas Film Festival, que começa hoje (sexta). Para disputar os holofotes com ela estarei eu, presidindo o júri de curtas amazonenses e do concurso de roteiros idem.
O AFF tem fama de bons orçamentos e elenco forte de convidados internacionais. Em anos anteriores lá estiveram Claude Lelouch, Alan Parker, John Boorman, John McTiernan, Hugh Hudson, Leonor Silveira, Parker Posey, Bill Pullman, Irving Kershner e até o equilibrista Philippe Petit. Eles viram e julgaram filmes, assim como foram levados para conhecer igapós, igarapés e tucunarés. A realização do festival é do governo do estado, com patrocínio master da Coca-Cola.
A programação deste ano abre com gala no Teatro Amazonas exibindo Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley. Finalmente vou poder conhecer as reinações de Vik Diniz no Jardim Gramacho. Ao mesmo tempo, na praça em frente ao teatro, La Villamil vai apresentar aos manauaras o romântico O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1999), primeira reunião dela com Ricardo Darín sob a direção de Juan José Campanella.
O festival promove sessões em vários pontos da cidade, inclusive num centro de convivência para idosos. Há competições de curtas nacionais, curtas amazonenses e longas brasileiros e internacionais. Entre esses últimos, fica engraçado ver disputando os mesmos prêmios o überblockbuster chinês Aftershock, o sganzerliano Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro Martins, e o turbinado Elvis e Madona, de Marcelo Laffitte.
À margem das minhas atribuições de jurado, vou comentar uma pequena mostra composta pelos docs Uma Noite em 67, Dzi Croquetes e Programa Casé. Como não ficarei até o final do evento, espero ter algum tempo livre para revisitar as cores, os cheiros e os ruídos do mercado municipal. Se for em companhia de Soledad, melhor ainda.
Meus encontros com Vanessa
junho 24th, 2010 § 3 Comentários
Romeu e Julieta já se prestaram a quase tudo no cinema. Faltava talvez explorar a romaria turística em torno da casa de Verona onde teria morado a Julieta de Shakespeare. As pessoas não se importam que tudo seja mera ficção: vão lá, tiram fotos no “famoso” balcão, deixam cartas para Julieta (ultimamente podem enviar e-mails num computador dentro da casa), grafitam as paredes, suspiram.
Esse é o mote de Cartas para Julieta, a simpática comédia romântica que, embora pareça planejada por um computador, não deixa de entreter e enternecer, principalmente pelo carisma do elenco. Nele se destaca, obviamente, a figura “maior que a vida” de Vanessa Redgrave. Seu encontro com Franco Nero, adiado até o quarto final do filme, reverbera o reencontro dos dois atores. Franco e Vanessa tiveram um romance e um filho nos anos 1960, separaram-se e voltaram a se reunir em 2006, com casamento e tudo.
Por razões que o cinema desconhece, o filme me fez lembrar os dois breves encontros que tive com Vanessa Redgrave. O primeiro foi em 1987, no Festival de Moscou, quando fiz a foto à direita e a entrevistei para o Jornal do Brasil (leia aqui). Era o festival da glasnost e da perestroika. O clima em Moscou era de liberalização e politização. Vanessa militava pela causa palestina, pela perestroika, pelo fim do apartheid e mais um monte de causas. Eu pedi a entrevista no recinto da Domkino, a sede do sindicato dos cineastas soviéticos. Ela concordou imediatamente. Pediu que me sentasse ao seu lado numa escada interna do prédio, e ali conversamos. Fez questão de repartir comigo um sanduíche de queijo e presunto. É o tipo da coisa que a gente não esquece.
O segundo encontro foi em Londres, em 2002, quando comentei filmes brasileiros numa mostra promovida pela embaixada brasileira. Avistei Vanessa durante uma caminhada pela área de Covent Garden. Ela passeava com uma neta, despreocupadamente. Aproximei-me para entregar-lhe um folheto e convidá-la para a mostra. Ela reagiu com aquele misto de susto e encantamento típico dos ingleses ao serem abordados por um desconhecido. Não recordei nosso encontro anterior. Preferi deixar os dois fatos separados como fait divers que são. Mas, no íntimo, celebrei a segunda oportunidade de trocar palavras com ela. Depois a acompanhei por um tempo, de longe, deleitando-me com mais uma visão daquela mulher admirável.
Vanessa, a rebelde
junho 20th, 2010 § Deixe um comentário
Entrevista de Vanessa Redgrave a Carlos Alberto Mattos durante o Festival de Moscou de 1987, publicada no Jornal do Brasil.
A atriz inglesa Vanessa Redgrave, 50 anos, não perde oportunidade, dentro e fora da tela, de defender suas vigorosas ideias. No Festival de Moscou, Vanessa apoiou Gorbachev e concedeu esta entrevista ao Jornal do Brasil.
JB – Qual sua impressão sobre a glasnost no cinema soviético?
VR – Esse festival é um microcosmo do país. Aqui eu vejo uma tremenda energia criadora como consequência direta da perestroika. Essa energia está nos filmes, nas decisões da União de Cineastas e nessa atmosfera salutar da Domkino. Aqui há lugar para os novos e os velhos, a troca de ideias e de filmes. É uma situação excepcional e está apenas começando.
JB – Qual a importância do cinema na discussão dos problemas atuais?
VR – O mundo vive hoje problemas perturbadores como a ameaça de guerra nuclear, a fome, a poluição, a censura etc. Os filmes soviéticos estão tratando desses assuntos à sua maneira e devem ser vistos o mais amplamente possível. A cooperação cinematográfica do Oriente com o Ocidente é de enorme importância, e Moscou está tomando a iniciativa nesse campo.
JB – O que tem visto do cinema brasileiro ultimamente?
VR – Em 1983 vi o brilhante Eles Não Usam Black-tie, de Leon Hirszman, um filme soberbo artística, social e politicamente. Aqui no festival assisti ao documentário Mulheres da Terra, de Marlene França, outro trabalho magnífico em sua simplicidade e objetividade.
JB – Como você lida com a função social do cinema?
VR – Infelizmente, as atrizes não têm muita escolha. Eu preciso trabalhar duro para viver. Mas um ator se deforma internamente quando se expõe por muito tempo a trabalhos nos quais não acredita. Eu jamais faria um filme racista, antissemita ou anticomunista.
JB – Qual a personagem que mais lhe gratificou até hoje?
VR – Foi Julia, no filme de Fred Zinnemann, pela bela amizade entre Julia e Lilian Hellman. Curiosamente, eu só vim a conhecer a Lilian em 1983, sete anos depois do filme. Nosso encontro foi emocionante como o de duas velhas amigas. Até hoje choro ao pensar que ela já não vive.
JB – Como tem sido sua experiência de documentarista?
VR – Estimulante. Minha companhia produziu Os Palestinos em 1977, no qual eu conduzia as entrevistas no Líbano, tratando da questão do exílio. Fiz também as entrevistas para o documentário A Quinta Guerra, do Palestinian Film Institute, sobre a invasão israelense de 1978. Agora estou preparando outro filme sobre a Palestina ocupada e espero realizar mais um sobre o apartheid na África do Sul e o sionismo em Israel, dois estados criados em 1948 sobre fundações igualmente racistas.
JB – Seu trabalho tem despertado reações políticas?
VR – Por ter feito esses documentários e tê-los apresentado em várias partes do mundo, eu fiquei mais de um ano sem conseguir emprego. Muitas tentativas foram feitas para me remover dos estúdios, especialmente quando eu faziaHolocausto de Mulheres, aquele telefilme sobre a orquestra feminina em Auschwitz. Na ocasião, a Liga de Defesa Judaica, uma horrenda organização que tem por base o partido fascista KACH, de Israel, ameaçou o estúdio em vão. Mas em 1982 eu fui contratada para uma série de concertos de Stravinsky pela Sinfônica de Boston e o programa foi subitamente cancelado por razões claramente políticas. Eu impetrei e ganhei uma ação contra o Estado de Massachussetts, mas até agora não recebi a indenização por danos profissionais. O último texto de Lilian Hellman foi escrito em minha defesa nesse caso.
Inferno do cineasta, paraíso do cinéfilo
maio 15th, 2010 § 2 Comentários
Enquanto assistia a O Inferno, entre um orgasmo estético e outro, eu ora lamentava: que pena que Henri-Georges Clouzot (1907-1977) não concluiu esse filme maravilhoso; ora exultava: que bom que ele não terminou. Sim, porque o fato de nunca ter vindo às telas como obra acabada ocasionou agora esse resgate de um dos conjuntos de cenas de bastidores mais deslumbrantes do cinema moderno.
Serge Bromberg conta na primeira sequência como chegou por acaso às 13 horas de filme deixadas por Clouzot há mais de 40 anos e nunca exibidas. Bromberg, um renomado especialista em restauração, tomou para si (e para a co-diretora Ruxandra Medrea) a deliciosa tarefa de recontar a história do que seria um dos filmes mais inovadores dos anos 1960. Sua fascinação pelas imagens de L’Enfer é tamanha que mesmo os depoimentos dos colaboradores de Clouzot foram gravados num estúdio em meio a uma instalação com telas que não param de mostrá-las.
Não é para menos. O estudo sobre um homem que enlouquece de ciúme da mulher num pequeno balneário francês foi projetado para ser uma súmula das vanguardas audiovisuais em voga em 1964. Enquanto a realidade era mostrada em preto e branco, os delírios paranóicos do marido eram filmados em cores psicodélicas. Mas até o plano da realidade sofria os efeitos da neurose do ciumento, mediante o uso de efeitos óticos e uma movimentação de personagens e figurantes minuciosamente orquestrada para sugerir a patologia do protagonista.
Talvez como resposta aos luminares da Nouvelle Vague, que o associavam a um cinema de gênero e ultrapassado (O Salário do Medo, As Diabólicas, Crime em Paris etc), Clouzot resolveu integrar a O Inferno a arte cinética, a op art, a música eletroacústica e recursos experimentais na maquiagem e nos figurinos. Trabalhou com inversão de cores, distorções, caleidoscopismo. Explorou, sobretudo, a beleza alpina de Romy Schneider, injetando sensualidade na figura comumente associada à inocência da imperatriz Sissi. As aparições de Romy em cenas e testes, às vezes com os seios à mostra, às vezes com o rosto embebido em luzes e cosméticos alucinados, são a expressão plena de como abordar um ícone cinematográfico em toda a sua extensão.
O documentário põe em destaque também a personalidade de Clouzot, embora não mencione sua passagem por instituições psiquiátricas nos anos 1930. No cinema, ele era um perfeccionista que planejava cada centímetro do campo visual dos seus filmes e exigia sacrifícios dos atores e da equipe. Para L’Enfer, contava com orçamento ilimitado da americana Columbia, os melhores técnicos (William Lubtschansky, um dos diretores de fotografia, e Costa-Gavras, assistente de direção, estão entre os entrevistados do doc), mas não com um projeto inteiramente sob controle. Após três semanas de filmagem e experimentações febris, ele parecia desnorteado. O ator principal, Serge Reggiani, indispôs-se com ele e, fingindo uma doença, abandonou o set. O próprio Clouzot teve um enfarte no meio de uma filmagem, o que foi a gota d’água para a interrupção da produção.
Curiosamente, o processo de criação de L’Enfer evoca a essência do argumento de Oito e Meio de Fellini, o filme que marcara Clouzot um ano antes e certamente mobilizava seu apetite pela narrativa anticonvencional e pelo tema da desestabilização. O risco de paralisia que o Guido de Fellini corria atingiu de verdade Clouzot. E o inacabado L’Enfer passaria à história do cinema francês como um filme maldito.
Esse doc restaura um bocado do prazer que o filme teria proporcionado à plateia, com a vantagem de mostrá-lo por dentro, nas experiências magnetizantes desenvolvidas por Clouzot e nos divertidos exercícios com os atores. Quando se trata de reconstituir fragmentos de sequências, isso é feito com uma edição sonora muito sugestiva e um senso de fetiche que não passa despercebido. O único elemento que destoa um pouco são os diálogos reencenados pelos atores Bérénice Bejo e Jacques Gamblin, roteiro em mãos. É um acréscimo apenas funcional, propositalmente despojado, e que por isso mesmo quebra o fluxo de encantamento das cenas originais.
Peça de cinefilia de primeira grandeza, L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot recupera também o interesse por um cineasta meio esquecido e completamente desconhecido das novas gerações. Pelo menos cinco de seus clássicos foram lançados em DVD no Brasil. Os thrillers de Clouzot lhe valeram o epíteto de “o Hitchcock francês”, que também foi aplicado a Claude Chabrol. O mesmo Chabrol que filmaria o roteiro de L’Enfer em 1993, com Emmanuelle Béart e François Cluzet. O filme foi lançado no Brasil como Ciúme: O Inferno do Amor Possessivo.
Para terminar com uma nota não menos conjugal, vale lembrar que Clouzot foi casado com a carioca Vera Gibson-Amado, cuja carreira de atriz limitou-se a três filmes do marido: Salário do Medo, As Diabólicas e Os Espiões.
Retrato de mulher
abril 23rd, 2010 § Deixe um comentário
Finalmente vi Rita Cadillac – A Lady do Povo. É escancarada a diferença em relação ao Alô, Alô Terezinha, do Nelson Hoineff. Isto porque Toni Venturi, ao colar no perfil de uma única ex-chacrete, optou pela narrativa biográfica. Mas não vi nessa escolha um redutor, como afirma minha amiga Patricia Rebello em sua resenha no site Críticos.
Hoineff, em seu painel, procurou o lado performático das reboladeiras e dos ex-calouros. Fez um filme divertido e coerente com sua proposta: revelar uma certa continuidade no perfil daquelas pessoas desde a época da Discoteca do Chacrinha até hoje. Venturi, porém, investiu na dualidade inerente à figura de Rita de Cássia/Rita Cadillac. O filme busca uma espécie de auto-análise, em que ora é Cássia que reflete sobre Cadillac, ora é Cadillac que se sobrepõe a Cássia. Desse olhar em mão dupla nasce a identidade do documentário.
Rita aparece engraçada, sensual, elegante, inocente, humana, às vezes quase carola na má consciência sobre os tempos loucos de garota de programa e atriz pornô. Com carinho e respeito, o filme abre uma janela para Rita expor suas contradições (se é que há mesmo contradições entre a vamp dos palcos e a dona de casa) . Surge daí um retrato de mulher bastante interessante.
Alucinadas!
março 8th, 2010 § Deixe um comentário
O que têm em comum Cléopatra, Salomé e a Lola Lola de O Anjo Azul? Ou Betty Blue, Barbarella e a Camila de Nome Próprio? São todas mulheres “intensas, passionais, tempestuosas e vulneráveis”, no entender de Julio Cesar de Miranda, da saudosa locadora Polytheama. Ele é o curador da mostra Mulheres Alucinadas, que ocupa o Cinema 2 do CCBB-Rio a partir desta terça-feira.
Por trás dessa seleção há o apelo da personagem feminina exaltada, desestabilizadora, epítome do desejo erótico e dos dilemas morais da plateia. Um apelo muito caro ao cinema desde sempre. Edison já sabia disso ao filmar suas bailarinas alvoroçadas que pré-lançaram o voyeurismo cinematográfico. Depois que Almodóvar se projetou internacionalmente, firmou-se até a expressão “mulheres à beira de um ataque de nervos” para caracterizar essas criaturas em estado alterado. O filme dele, é claro, está na programação.
Marlene Dietrich, Bette Davis, Louise Brooks e Isabelle Huppert estão no fantástico elenco da mostra, que também abre alas para filmes de Bergman (Persona), Alexander Kluge (Trabalhos Ocasionais de uma Escrava) e Lars Von Trier (Anticristo). As exibições em DVD vão incluir filmes mais raros como o húngaro O Amor, de Károly Makk, Lua de mel de Assassinos, de Leonard Kastle, e A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos, de Aki Kaurismäki.
Dias de Glória
dezembro 9th, 2009 § 4 Comentários
Ontem (terça) foi meu dia de Glória Pires. Pela manhã, a vi carregar nas costas o melodrama de Lula, o Filho do Brasil. Suas aparições são breves em relação aos outros personagens, mas cada vez que Dona Lindu entra em cena, é como se ligasse a corrente elétrica do filme. Poucas palavras, muitos olhares e uma inteireza cênica que nada pode abalar.
À noite, Glória era outra mulher na pele de Baby, a paulistana solitária de É Proibido Fumar. Quase o tempo todo no quadro, ela mais uma vez me fazia esquecer a diferença entre atriz e personagem. Só Glória e Fernanda Montenegro são capazes de se despir de todo estrelismo com tal propriedade. Não há qualquer resquício de pose, “técnica” ou “composição” na maneira como Glória encarna essas duas mulheres do povo – uma mãe-coragem sertaneja e uma urbanoide compulsiva. Continue lendo
Ver Débora
julho 24th, 2009 § Deixe um comentário
Esta semana ela entrou na minissérie Som & Fúria como Julieta no baile de Verona. Só havia olhos para Débora Falabella. Ela fazia uma Julieta cujo amor transbordava da personagem para a atriz. E a gente não se contentava em gostar somente da personagem.
Esses dias ela está também no palco do Teatro Nelson Rodrigues, no jogo cênico proposto pelo chileno Marco Antonio de la Parra, O Continente Negro. Desconfiei do release que prometia “uma linguagem quase cinematográfica”, mas o nome de Aderbal Freire-Filho na direção sempre inspira alguma confiança. Mesmo que não fosse por isso, eu iria ver O Continente Negro de qualquer maneira. Espero que meu joelho me permita atravessar a pracinha do Nelson Rodrigues antes que a curtíssima temporada acabe, a 2 de agosto.
Vou sobretudo para ver Débora. Ela é doce, bonita e talentosa. Tem um quê de namoradinha de portão, uma expressão que passeia entre o deslumbramento infantil e a queixa de animalzinho ferido, com muitos desvios no caminho. Quero ver Débora ao vivo e checar se ela não é apenas uma miragem das telas.
A sombra de Rita
junho 21st, 2009 § 3 Comentários
Rita Lee é a grande presença-ausência em Loki, o documentário sobre Arnaldo Baptista. O que se depreende do conjunto de depoimentos é que Arnaldo pirou por causa das drogas e da separação. Rita é uma sombra que se projeta sobre tudo, mas aparece apenas em fotos e filmes antigos, além da voz nos Mutantes. Ela não quis dar entrevista, embora tenha autorizado o uso dos materiais de arquivo.
Provavelmente não quis retomar um assunto doloroso, pelo qual se sente de alguma forma responsável. Num sentido oposto, Yoko Ono foi vilanizada como pivô da dissolução dos Beatles – e esse é mais um curioso paralelo entre Os Mutantes e os garotos de Liverpool. Se participasse de Loki, talvez Rita pudesse esclarecer algumas razões que, sem ela, ficam apenas na esfera da especulação.
Ao não participar, Rita Lee se fez ainda mais “presente”. Para suprir a ausência, Paulo Henrique Fontenelle é levado a multiplicar as referências sobre ela, como para cobrir todas as versões possíveis. E sua presença fantasmal se estende em letras posteriores de Arnaldo, em sua pintura e, meudeus!, até naquele recente penteado da nova mulher, Lucinha. É ou não é de arrepiar?


Para pensar melhor sobre Loki, leia esta resenha da Patricia Rebello no site Criticos.
E olha só a letra de Rita, de Chico Buarque (nada a ver, mas tudo a ver).
Japonês, libanês
junho 13th, 2009 § 13 Comentários
Diante de tão cerrada unanimidade elogiosa ao japonês oscarizado A Partida, acho que estou precisando de um psicanalista, padre ou pastor. Gente, que desapontamento! Esse é o filme mais “mensageiro” dos últimos tempos. E tudo vem sublinhado com obviedades reiteradas à exaustão, alternâncias de alegria e tristeza que parecem saídas de um manual de roteiro para principiantes, e mais aquele violoncelo pavoroso tentando arrancar lágrimas a todo custo.
Tudo bem, o filme tem a coragem de tratar a morte de frente – assim como a câmera enquadra rostos de “cadáveres” em closes frontais. Mas o acúmulo de “lições de vida”, telegrafadas e repetidas para não deixar dúvidas, foi de amargar. Saí do cinema sem nada para completar, deduzir ou refletir.
Será que estou sozinho nessa decepção? Será que devo procurar algum tipo de ajuda?

- Nadine Labaki
Apesar de outros tantos defeitos, apreciei mais Caramelo. O roteiro também é pastoso aqui e ali, o adocicado às vezes exagera na medida. Mas pelo menos tem o Líbano na tela, o que é raro, visto através de temas “ousados” como homossexualidade, adultério, menopausa. E tem uma mulher linda no papel central, Nadine Labaki (sua parenta, Amir?). Ela é também a diretora. É uma estrela do audiovisual libanês. Dirige videoclipes e faz anúncios da Coca-Cola Light. Quase uma deusa.







