Seres híbridos em filme híbrido
novembro 18th, 2011 § 2 Comentários
Certos filmes me deixam num estado de perplexidade quando os vejo pela primeira vez. Saio com a certeza de que preciso revê-los, quando então tudo pode acontecer: da rejeição frontal à apreciação apaixonada, passando por todos os estágios intermediários. Foi o que aconteceu quando assisti pela primeira vez a O Céu Sobre os Ombros. Cheguei a comentar com o diretor Sérgio Borges: “Não sei o que pensar do seu filme, preciso ver de novo”. Pois bem, foi na segunda visita que percebi a profunda originalidade desse estranho objeto cinematográfico.
São três personagens que se alternam diante de nós, sem nenhuma relação entre si. Três núcleos dramáticos independentes. A uni-los apenas o fato de serem apresentados dentro de ônibus nas sequências iniciais e – mais importante – o fato de serem personagens plurais, que conciliam condições muito distintas na sua maneira de estar no mundo (ou no filme, pelo menos). Um deles trabalha numa padaria e num call center, é entusiasmado torcedor de futebol e devoto do Hare Krishna. Outro é um poeta imigrante de supostas tendências suicidas, que tem dificuldade para se integrar ao meio literário e cuida de um filho com características especiais. O terceiro é um travesti que se prostitui nas ruas de Belo Horizonte enquanto não está fazendo palestras sobre sexualidade, citando Foucault e Ovídio ou escrevendo requintadas cartas de amor para um amante imaginário.
Nada nos assegura o quanto de documentário ou de ficção existe em cada uma das situações vividas ou mencionadas por eles. Nas entrevistas e debates, o diretor dribla toda pergunta nesse sentido, fazendo questão de deixar a decisão de “acreditar” ou não para o foro íntimo de cada espectador. É justamente nessa ambiguidade que reside o encanto do filme, como em muitos de Abbas Kiarostami. Mas, ao contrário da maioria dos filmes de aspecto documental, Sérgio Borges usa uma linguagem muito peculiar para construir suas cenas. Nada é exposto ao “olho natural” do acaso. Tudo é composto com uma sucessão de fragmentos, a montagem deslocando nosso olhar frequentemente para detalhes inesperados. Da mesma forma, a câmera de Ivo Lopes Araújo (o Walter Carvalho do jovem cinema brasileiro) raramente aponta para o enquadramento esperado, a “melhor posição”. Há uma preferência por ângulos subsidiários, em que nem sempre o centro da atenção está no centro do quadro ou mesmo dentro dele, criando com isso uma espécie de expansão do campo visual e sonoro para além do que se vê na tela.
Ao mesmo tempo, há um naturalismo quase blasé nas atuações, uma espontaneidade que às vezes leva a cena aos limites da não-representação. A surpresa vem desse misto de naturalismo de enunciação e sofisticação de estilo. No entanto, há também uma luz tosca, cortes bruscos e secos, tudo contribuindo para a hibridez intrigante do filme. A banalidade é constantemente transcendida por uma poética que nasce da ambivalência fundamental daqueles seres meio marginais, meio improváveis, meio admiráveis em sua singularidade.
Tal é a força dos dois outros personagens que o jovem Hare Krishna fica em desvantagem, a ponto de alguns espectadores até o esquecerem ao final do filme (já percebi isso em dois deles). Quando sobem os créditos finais, a sensação de surpresa é inevitável, uma vez que nos é retirado todo o amparo dramatúrgico de um final. Mas se lembrarmos do início igualmente súbito e “despreparado”, vamos compreender que este não é um filme acabado no sentido convencional. Ele apenas nos franqueia um relance, uma visão passageira, na vida de três criaturas que não sabemos se existem, mas que são fortes na maneira única como nos é dado conhecê-las.
Os três da semana
setembro 17th, 2011 § Deixe um comentário
Numa sucessão vertiginosa, os filmes brasileiros estão chegando e rapidamente saindo de cartaz para voltarem ao circuito da relativa obscuridade. Poucos chegam a vencer o marco das duas semanas em alguma sala, em horários nem sempre convidativos. Isso faz com que sua passagem pelas salas de cinema se torne apenas uma etapa necessária a cumprir, como para legitimar sua existência, em vez de ser o momento culminante de sua trajetória.
Esta semana, mais três títulos chegam aos tijolinhos dos jornais cariocas. Até quando resistirão? São todos filmes problemáticos, que dependem mais da forma como o espectador se predispõe a eles do que da maneira como eles se dirigem ao espectador.
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180°, de Eduardo Vaisman, é o mais palatável ao gosto de uma plateia interessada em se divertir e acompanhar uma história intrigante, nos moldes do filme policial. Articula um triângulo amoroso com uma trama de roubo literário num roteiro ambicioso do ponto de vista da construção. Somos levados por uma intrincada alternância de blocos temporais, recolhendo pistas sobre uma certa caderneta de anotações encontrada por um jovem escritor.
Vi e revi o filme na tentativa de compreender o que me pareciam furos de uma narrativa artificialmente complicada em excesso. As razões da separação entre as personagens de Malu Galli e Eduardo Moscovis, as notícas na TV dois anos depois do lançamento do livro, a localização cronológica do jogo de cartas e o acontecimento do desfecho repentino são alguns pontos que me pareceram bastante confusos para um filme que se quer desenhar geometricamente na nossa percepção. Há também problemas de som que me impediram de entender algumas falas aparentemente cruciais.
Por sua vez, a sofisticação estética da fotografia e da decupagem nem sempre conta a favor da atmosfera de naturalismo pretendida nas interpretações. Fica mais uma impressão de requinte impostado, como nos filmes de Walter Hugo Khouri, onde até os caseiros podiam parecer modelos de moda masculina. A estrutura de romance policial acaba esvaziada pelo draminha burguês e pelo dispositivo um tanto arbitrário de embaralhar a ordem dos fatos.
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Desassossego (Filme das Maravilhas) está longe de correr esse tipo de risco, já que escapa de qualquer ordenação prosaica. A conclusão da trilogia Coração no Fogo, de Felipe Bragança e Marina Meliande (iniciada com A Fuga da Mulher Gorila e A Alegria), é um trabalho coletivo, montado a partir de pequenos curtas solicitados por carta a 14 diretores. Felipe e Marina atuaram como curadores-criadores, fornecendo o mote poético (utopia e sonho) e engendrando o produto final.
A proposta de não segmentar nem identificar as distintas contribuições responde a um desejo de dissolver autorias e chamar atenção para o material cinematográfico puro e simples. Não há tampouco a intenção de criar uma unidade dramatúrgica ou estética, para o bem e para o mal. Isso nos leva a assimilar o filme como sucessão de fragmentos, onde as diferenças saltam à vista e aos ouvidos. Muitas imagens banais são estufadas por uma edição sonora hiperbólica. Outros momentos alcançam uma certa força de poesia, como as cenas do casal na praia ou a fusão das imagens de uma Berlim nevada com um forró brasileirinho (essas, por acaso, sei que são de Karim Aïnouz).
Em meio ao tom monocórdico habitual e um certo ar depressivo, irrompem sinais apocalípticos que pretendem aludir ao cinema de ação: fogo, explosões, meteorito. O sentido geral, no entanto, me escapa completamente. No tocante à dramaturgia, chama atenção a frequência com que os cineastas recorreram à performance, seja para dar conta da natureza da “encomenda”, seja para atender aos requisitos de brevidade. De qualquer maneira, vale a pena observar como tantos filmes brasileiros, principalmente filmes de invenção, têm substituído a interpretação linear por situações performáticas, com cenas que se esgotam em si mesmas e um comportamento não interativo do elenco.
Desassossego foi realizado inicialmente como um projeto de 55 minutos do programa Rumos, do Itaúcultural, e distribuído junto com a carta de Felipe a 2010 pessoas no ano passado. A ideia era gerar outras respostas, quem sabe em filme. O que se vê esta semana na Sessão Vitrine (Cine Joia) é mais uma obra em processo do que um filme acabado. E também mais um exemplo do que venho chamando de criadoria.
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Além da Estrada, co-produção com o Uruguai, é mais um caso de uso da fórmula do road movie para compensar a ausência quase total de um projeto. Um jovem argentino e uma moça belga se conhecem no caminho e viajam juntos pelo interior do Uruguai em busca de parentes, amigos e uma possível mudança de vida. Passam por fazendas, pelo jet set de Punta del Leste e por uma comunidade de neo-hippies, colhendo o que podem em termos de prazer e ensinamentos, enquanto também se estudam romanticamente.
O filme de Charly Braun me bateu como a improvisação no seu pior sentido. Ora a câmera tonta captura clichês de estrada, ora o quadro é preparado minuciosamente para fazer imagens bonitas na hora mágica do sol alaranjado. A montagem é menos que amadora. Tudo é desconexão, laconismo, poses e uma exploração canhestra, mal disfarçada dos dotes físicos da atriz Jill Mulleady. O roteiro (ou o que quer que tenha norteado as filmagens) baseia-se supostamente em memórias do diretor, a crer nas imagens dos créditos finais. O GPS aponta para um mix de cenas improvisadas e outras criadas a partir de conhecimentos estratégicos, como a oca participação de Guilhermina Guinle (irmã do diretor) e Naomi Campbell. Pelos meus padrões, chega a ser absurdo o prêmio de direção que o filme ganhou no Festival do Rio. Critérios, enfim, são mistérios.
O que querem os artistas contemporâneos?
setembro 10th, 2011 § 4 Comentários
Riscado e Os Monstros são filmes que, através das atitudes de seus personagens, ajudam a pensar certas atitudes do jovem cinema brasileiro. Ajudam, antes de mais nada, por serem bons filmes. Neles, o prazer da fruição vem junto com a funcionalidade do diagnóstico.
Ambos têm em comum tratar da condição do artista contemporâneo a partir de uma dramaturgia fortemente baseada em vivências pessoais. Riscado trata de uma jovem atriz que ganha a vida com imitações de grandes estrelas, divulgação e animação de eventos, festas etc. Está à espera da oportunidade de um salto, que pode vir sob a forma de um contrato para uma grande produção internacional. O argumento inspira-se diretamente na carreira da atriz Karine Teles, mulher do diretor Gustavo Pizzi, que passou por algo semelhante no elenco de Rio Sex Comedy, de Jonathan Nossiter.
Bianca, a atriz esplendidamente interpretada por Karine (melhor atriz na Première Brasil do Festival do Rio de 2010), representa uma aspiração comum a muita gente, que é participar ativamente do sistema da indústria cultural, embora sem abrir mão de sua personalidade. “Quero fazer um filme honesto”, diz ela num dos muitos momentos em que fala ao mesmo tempo do filme e do filme-dentro-do-filme. Nesse espelhamento construído poeticamente, cena após cena, Riscado encontra sua profunda autenticidade como depoimento não só de Bianca, mas de toda uma geração de artistas que podem ali se ver refletidos. Gente que quer viver do seu trabalho e encontrar seu lugar na ribalta.
Ao mesmo tempo, Riscado é um filme que se quer, ele também, participante. É a produção mais caprichada e mais bem-sucedida até agora do grupo reunido em torno de Cavi Borges na Cavídeo. Não contou com patrocinadores, mas com investidores, parceiros e contribuições de amigos. Feito com carinho e cuidado, assim como Bianca, o filme quer entrar no sistema sem perder a alma. Modesto na proporção, mas criativo ao tratar de si mesmo, tem rodado por festivais internacionais e chega aos cinemas com um trabalho de comunicação dos mais dignos (veja o site oficial). Pena que meu amigo Daniel Schenker exagerou no rigor com seu bonequinho de O Globo. Riscado merece aplausos.
A mesma atenção deve ser dirigida a Os Monstros, que está na Sessão Vitrine do Cine Joia até quinta próxima, sempre às 15 horas. O esquema de produção no coletivo cearense Alumbramento guarda semelhanças com o de Riscado. Os quatro diretores/autores/atores – Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti – o viabilizaram nos mesmos moldes do anterior Estrada para Ythaca, ou seja, com dinheiro do próprio bolso e de amigos. Mas nesse caso temos um movimento bem diverso com relação ao tal sistema da indústria cultural. O quarteto costuma negar qualquer intenção de entrar no mercado, seja o dos editais, seja o do consumo puro e simples. Seus filmes não têm o desejo de agradar a não ser a eles próprios e a alguns próximos, muito embora pelo talento acabem agradando a bem mais gente. A história contada em Os Monstros parece comentar essa rejeição ao sistema.
Se em Ythaca os quatro companheiros inseparáveis partiam em viagem por causa da morte de um amigo comum, o mote que os reune em Os Monstros é a separação conjugal de um deles. Dois são técnicos de som, que resolvem largar o emprego na televisão, outros dois são músicos de vanguarda. Numa cena de auto-ironia emblemática, um deles toca flauta num bar enquanto os frequentadores vão saindo e restam apenas os amigos fiéis. Na cena final, muito discutida no Festival de Tiradentes, os quatro se reunem para dois longos duetos de guitarra e flauta, símbolo sonoro de uma opção radical pela liberdade.
Aqui os artistas estão saindo do sistema (casamento e emprego) e optando pela arte como evento pessoal. De certa maneira, fazem o percurso inverso de Bianca em Riscado. Esses “monstros” da margem personificam também um contingente de criadores que desejam – ao menos teoricamente – permanecer numa faixa alternativa. Não propriamente marginais, mas cultores de uma arte mais íntima, mais insular, em que a experiência de vida não precisa ser convertida a algo próximo do espetáculo. Conheça o site seminu do Alumbramento.
Cada qual a sua maneira, Riscado e Os Monstros trazem um imenso frescor em sua forma de tratar personagens e imagens. O conto carioca de Pizzi experimenta com mídias e tratamentos de textura diferentes para expressar as várias instâncias de Bianca, das mais objetivas às mais subjetivas. Já o devaneio dos meninos do Ceará se faz com ação minimalista, vadiagens divertidas, belos silêncios e interlúdios musicais tão deliciosos quanto despretensiosos. E finalmente o que os une, para além de todas as sutis mas importantes diferenças, é a busca de uma dicção e um gestual não formatados, mas nascidos de uma observação da vida que se confunde com a própria vida.
Tão jovens
setembro 3rd, 2011 § 4 Comentários
Três filmes que acabam de entrar em cartaz no Rio lidam com questões da juventude ou procuram algum tipo de diálogo com uma plateia juvenil: O Homem do Futuro, A Fuga da Mulher Gorila e Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual. São três caminhos inteiramente distintos e três modelos de cinema bastante diferenciados. Eu gostaria de sair dos meus 57 anos e estar na pele de um jovem de hoje para saber qual dos três conversaria melhor comigo. Não sendo isso possível fora da ficção, mando lá minhas impressões de velho crítico ranzinza.
O Homem do Futuro é o mais convencional como cinema de consumo, baseado em fantasias como De Volta para o Futuro e O Feitiço do Tempo. Baseado, principalmente, num formato de comédia americana em que caretas, trapalhadas e trama rocambolesca buscam um contato imediato e frenético com o público. Um cientista volta no tempo para tentar preservar a namorada da juventude, mas acaba chegando à conclusão de que é melhor não mexer na agenda do acaso – ou pelo menos não mexer muito. O filme de Claudio Torres é uma façanha técnica razoável para os padrões médios da produção cabocla, com muitos efeitos especiais e muito capricho na direção de arte e figurinos.
Mas não se pode negar também a eficiência do ritmo e da direção em geral. Após um início muito caricato, a história ganha razoável densidade para um filme do gênero, além de algumas referências cômicas interessantes. O chiste com Eike Batista, por exemplo. Wagner Moura, como sempre, faz barba, cabelo e bigode. Para o cinema brasileiro, um Wagner Moura não é mais suficiente. Então O Homem do Futuro tem três – e a contracena entre eles garante certa graça. Nada mais que chavões da ficção científica romântica, mas ainda assim um divertimento bem passável.
O outro lançamento brasileiro da semana é A Fuga da Mulher Gorila, primeira parte da trilogia Coração de Fogo, de Felipe Bragança e Marina Meliande, secundada por A Alegria (também em cartaz) e o inédito Desassossego. A Fuga talvez seja o mais redondo dos três, embora também se ressinta da apatia colorida que assola os filmes da dupla. Num road movie meio paradão, temos duas irmãs que viajam pelo interior do Rio fazendo o espetáculo da mulher-gorila e curtindo os dilemas de ser tão jovens. A mais velha é angustiada e sensual, a mais nova é lírica e infantil. Elas quase nunca conversam. Em vez disso, expressam-se por canções e frases aparentemente alheias.
O filme tangencia questões de representação (as roupas de gorila), de gênero (elas eventualmente dão carona a um ator desgarrado), de poder (nas relações do trio) e de cultura (o flerte supostamente poético com a música brega e a estética interiorana). Mas a rarefação das ações e dos vínculos entre os personagens não me permitiu um contato minimamente sólido com os sentimentos e os sintomas em jogo. Tudo o que se arma como esboço de situação é logo diluído numa evasiva, numa desconversa, como se a articulação plena de qualquer ideia fosse algo a ser evitado por banal. Os jovens estão na tela, mas não parece haver uma intenção de tê-los também na plateia. Se não é assim, não sei exatamente a quem se dirige A Fuga da Mulher Gorila.
Com o argentino Medianeras ocorre algo que tem a ver com O Homem do Futuro: a viagem no tempo. Sim, porque Medianeras parece filme do início da década passada, quando se falava muito de Onde Está Waly?, solidão ao computador, o caos arquitetônico e o isolamento do indivíduo nas grandes cidades. Quando casais predestinados demoravam um filme inteiro para se encontrar, passando por chats na internet e se cruzando diversas vezes sem se conhecer. Lembra disso? Pois é, não vejo ali material para mais do que um curta da ECA-USP dos anos 2000, mas Gustavo Taretto achou que bastava desenvolver o argumento do seu curta homônimo de 2005 para fazer novamente um filme contemporâneo. Tenho a impressão de que os jovens de hoje devem vê-lo como filme de época. Se Gramado se encantou tanto com ele, imagino como terá sido o resto da programação.
Cinema passageiro
agosto 30th, 2011 § Deixe um comentário
Enquanto Pacific está em cartaz no Cine Joia (até 5ª feira, sempre às 20h), republico aqui o texto que fiz para a Filme Cultura nº 55 sobre o “cinema a bordo” de Marcelo Pedroso:
Chama atenção o fato de um jovem realizador pernambucano ter feito, consecutivamente, dois filmes inteiramente rodados a bordo de embarcações. Seria apenas uma curiosidade logística, não fossem Balsa e Pacific duas viagens em busca de linguagens pouco usuais no documentário brasileiro.
Em Balsa, um média-metragem de 48 minutos, Marcelo Pedroso instala a câmera em diversos compartimentos de uma balsa que transporta carros e passageiros entre as margens de um rio em Alagoas. No longa Pacific, ele apenas reúne e monta cenas filmadas por turistas durante um cruzeiro que parte de Recife em direção a Fernando de Noronha. O fato de ambos os filmes se passarem a bordo é a única semelhança evidente. De resto, eles se opõem visceralmente como dispositivos de registro documental.
As diferenças começam no sentido mesmo das viagens. As travessias de Balsa são cotidianas, rotineiras, momentos de suspensão na trajetória de pessoas rumo ao trabalho ou ao lazer. A esse vazio da viagem corresponde a quase total indiferença em relação à câmera, afixada em pontos estratégicos da embarcação. Isso permite captar o absolutamente casual: embarques e desembarques, rostos ensimesmados, olhares vadios, gestos fortuitos, corpos que saem e entram no quadro sem qualquer propósito deles próprios ou da câmera. O estado de suspensão sugere pausa, serenidade, comedimento.
Pacific é em tudo o oposto disso. Os passageiros do cruzeiro estão navegando em direção à concretização de um sonho de consumo: a chegada ao paraíso de Noronha. As imagens, solicitadas pela equipe do filme somente depois de encerrados os cruzeiros, carregam a plena espontaneidade do registro doméstico, aí incluídos narração e comentários incessantes do cinegrafista e das pessoas ao redor. Nada soa casual nessa coletânea de registros exaltados pelo deslumbramento e a autossatisfação. Ao contrário de Balsa, aqui o empenho dos passageiros é maximizado. As imagens exprimem uma catarse.
A estética de cada filme, naturalmente, é pautada por essas diferenças. A câmera sempre fixa de Balsa colhe ora o acaso dos movimentos no interior do barco, ora a composição rigorosa e expressiva dos movimentos da paisagem de fundo. O diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo usa recursos simples como grandes-angulares, teleobjetivas e seleção de foco para criar imagens de grande força plástica. Variações de luz e reflexos, somados a belos contrastes entre ruído e silêncio, imobilidade e deslocamento, acabam por desenhar uma pequena fenomenologia visual da travessia. Investimento mínimo dos passageiros, investimento máximo dos realizadores.
Inverta-se esta última fórmula e temos a equação de Pacific. Tudo o que está na tela foi produzido pelos passageiros. Daí a falta de rigor, a trepidação permanente do quadro, a caça sôfrega ao imediato, o excesso de intenções superlotando cada cena. Se Balsa promove o olhar do cineasta como instância organizadora do mundo, à revelia dos homens, Pacific propõe vermos o mundo pelos olhos dos homens. Ainda que, nos dois casos, sejamos sempre voyeurs dos viajantes.
Duas maneiras de abordar o estar a bordo, duas maneiras extremas de relacionar-se com os personagens de um documentário. Em nenhuma das duas existe o contato entre documentarista e documentado. Estaríamos, assim, de volta a um estágio inicial do cinema ou a uma alternativa contemporânea de dramatizar percursos reais? Uma coisa é certa: estamos a anos-luz da interatividade obsessiva que vem pautando o documentário brasileiro recente.
Uma curiosidade a mais sobre os filmes de Marcelo Pedroso, um aficionado por meios de transporte: seu primeiro longa-metragem, KFZ-1348, codirigido por Gabriel Mascaro, levantava a história de um velho Fusca através de seus sucessivos proprietários. O mais recente, Aeroporto, é um misto de doc e fic também relacionado a turismo. Veja abaixo uma pequena reportagem sobre este curta:
Fantasias sem corpo
agosto 20th, 2011 § Deixe um comentário
Comédia adolescente, aventura de super-heróis, conto de fadas, ensaio poético, drama de periferia – os gêneros cinematográficos se acotovelam em A Alegria. No entanto, o filme não quer ser nada disso, mas algo que estaria muito além: um comentário sobre os gêneros, na medida em que as potências de cada um estariam esgotadas pelo cinema mainstream. Seria preciso, então, inventar um tipo de filme que seja um misto de referência e rejeição, adesão e repulsa.
Assim é que temos mais um exemplar de filme jovem brasileiro que se perde nas vielas entre ser e não ser. Ao ver A Alegria, lembrei-me bastante do longa de estreia de Eduardo Valente, No Meu Lugar, em que uma compulsiva recusa à classificação gerava uma experiência amorfa, inabordável. A Alegria é o segundo tomo da trilogia Coração de Fogo, iniciada por A Fuga da Mulher Gorila e concluída com o ainda inédito Desassossego, um filme coletivo. Narra o verão de quatro adolescentes cariocas entre o cotidiano banal e pequenas fantasias. Luíza, a protagonista, lida ao mesmo tempo com o início do namoro com um colega de escola, a clandestinidade de um primo misteriosamente baleado no pé e a paranoia de um monstro marinho que vai chegar para engolir o Rio de Janeiro. O material seria ótimo para inventariar o universo juvenil de uma cidade bela e violenta, caso a tentativa não mergulhasse num coquetel de citações e numa lagoa de monotonia.
Felipe Bragança e Marina Meliande são cinéfilos apaixonados e empenhados em transformar a cinefilia em produção original. A Alegria tem alusões a pelo menos três grandes correntes do cinema moderno e contemporâneo. Da Nouvelle Vague vêm a narrativa descontínua, o amor pelos solilóquios, a cidade vista pelos seus pontos de fuga. O cinema marginal brasileiro dos anos 1970 comparece nos esgares escatológicos, na negação da interpretação naturalista, na conversão da política à performance de mentirinha, na mistura meio tropicalista de realidade com signos pop e até mesmo no Monstro Marinho que lembra o Homem de Papel de Hitler do III Mundo. Por fim, a admiração pelo novo cinema asiático (há mesmo um agradecimento a Apichatpong Weerasethakul nos créditos) se manifesta nos trânsitos entre pessoas, animais míticos e seres sobrenaturais, nas aparições e desaparições mágicas, além de metáforas ligadas a água, frutas, luz, etc. Num dos melhores planos do filme, perto do final, Luíza se transfigura numa espécie de pantera.
A coleta de inspirações, em si, não é nenhum problema se dá margem à criação de uma obra potente e também inspiradora. Mas em A Alegria elas, as inspirações, se enfileiram como tal, assim como um tecido contra a luz que deixa à mostra sua trama. Não há background cultural e estético para aquelas afetações. Elas caem no vazio de uma fantasia que, a rigor, não cobre corpo nenhum.
O tom monocórdico das falas do elenco jovem, o laconismo das sequências que terminam apenas porque a edição resolveu terminar, a lerdeza dos movimentos que vampirizam teatralmente a pulsão de juventude dos personagens, nada contribui para a adesão que o filme parece almejar, por exemplo, quando lança mão do Hino à Alegria de Beethoven. Ou quando, em outro bom momento, Luíza se atira contra a parede e se transforma em jato de luz saltando pelos apartamentos do seu bairro.
Existe um esboço de poesia nessa convivência de um fantástico soft com o comezinho dos apartamentos apertados de classe média baixa, das ruas de bairros populares e de uma “natureza” que mais sugere um quintal. As minúsculas aventuras dos quatro amigos nessa cidade que lhes parece indiferente seriam, em tese, arremedos de heroísmo e superpoder travados por uma angústia vagamente existencial. Mas, para perceber isso, o espectador não é servido com os talheres do cinema. Precisa pegar com a mão as frases ditas ou escritas na tela, grudar-se nelas para tirar algum sentido do que se esvai nas imagens como travessura intelectualizada e, no fim das contas, bastante estéril.
Enfim, Ythaca
maio 27th, 2011 § 1 Comentário
O poema de Konstantinos Kaváfis citado no final de Estrada para Ythaca é um elogio da viagem em detrimento do destino. Um louvor ao percurso em detrimento da chegada. Ythaca não seria tanto o objetivo, mas o que nos faz partir e absorver os conhecimentos do trajeto. O filme dos Irmãos Pretti e dos Primos Parente está embebido (literalmente) desse espírito: um road movie perdidão, que começa num bar e termina em outro, em busca de algo que ninguém sabe o que é, mas que afinal não importa tanto assim. Rodado em 2009, premiado no Festival de Tiradentes de 2010 e consagrado como manifesto do Novíssimo Cinema Brasileiro, parecia condenado a permanecer puro trajeto, sem nunca chegar aos cinemas convencionais. Mas eis que, como um OVNI surgido da noite escura, aparece o projeto Sessão Vitrine e o coloca em cartaz em oito capitais brasileiras.
Estrada para Ythaca é o primeiro lançamento de um formato que pretende exibir cada filme durante uma semana numa sala da cidade, em horário único. No Rio, passa até quinta próxima, sempre às 22h, no Cine Jóia (veja aqui a programação em outras cidades). Não é uma estreia de blockbuster, mas funciona para atender minimamente a um público que aprecia a tela grande e para promover o filme em outras mídias. Em seguida virão outros títulos muito esperados, como Estrada Real da Cachaça, Chantal Akerman de Cá, Morro do Céu, Um Lugar ao Sol, Avenida Brasília Formosa, Pacific e Favela on Blast.
Ythaca condensa diversos ingredientes/sintomas de um certo cinema jovem que hoje se faz no Brasil à margem da indústria. Foi realizado sem patrocínio público ou privado, criado e produzido por um grupo de amigos, tem escolhas estéticas bastante definidas e seu tema reverbera de certa maneira as condições em que foi feito. O livro Cinema de Garagem, de Marcelo Ikeda e Dellani Lima, faz a crônica dessa nova cena, com ênfase em suas vertentes cearense e mineira. Em Tiradentes este ano, o quarteto Pretti-Parente apresentou o opus seguinte, Os Monstros, em que confirmam um olhar afetuoso sobre si mesmos e sobre o cinema.
Com suas barbas e chapéus de fancaria, os quatro realizadores-produtores-técnicos-atores saem pelo interior do Ceará numa viagem de luto pela morte de um amigo. Têm algo de Irmãos Marx, embora minimalistas e paradões. Não há limites claros entre a tristeza pelo amigo desaparecido e a celebração bem-humorada da própria amizade. Na verdade, o filme se alimenta de suas suaves contradições. Tem, por exemplo, uma absoluta liberdade ficcional, ao mesmo tempo em que se prende a certos verismos documentais, como as bebedeiras e a difícil preparação de uma fogueira a certo ponto da jornada. É franciscanamente despojado na dramaturgia, mas abre espaço para intrigantes intervenções do sobrenatural. Embora exale aparentes despretensão e esvaziamento, não deixa de semear “mensagens” nas canções, nos letreiros, em frases pronunciadas pelo elenco e sobretudo na citação de Glauber Rocha em Vento Leste, de Godard: entre o cinema de aventuras e o cinema do Terceiro Mundo, o quarteto escolhe o segundo caminho.
Na produção desse jovem cinema brasileiro fora do eixo, o trabalho dos Pretti-Parente se destaca por uma notável unidade de estilo, uma convergência de sentidos entre forma e conteúdo, e a busca constante de uma estética que renove a relação entre atores, câmera e espaços. A construção dos planos quase nunca soa gratuita ou casual, assim como a edição reinventa os ritmos da vida e quebra expectativas rasas, deixando mais ainda à vista a influência de Godard.
O fato de ser um filme feito a quatro (e praticamente só quatro) mãos transparece todo o tempo, seja na câmera empunhada quase sempre por um deles diante dos outros três, seja pelo deslocamento dos personagens em relação a qualquer signo de sociedade ou contexto. Esse voltar-se para si mesmos requer do espectador uma disposição cúmplice e um interesse bastante focado. Há uma circulação de afetos dentro da tela que pode ou não se estender à plateia – e a comunicabilidade do filme depende em grande medida de isso acontecer.
Um dado que pode contribuir muito para a empatia do espectador é o caráter musical do filme. Um musical bêbado, talvez, mas ainda assim um musical. Não só pelas músicas e as performances que incorpora, mas pelo que exclui. Ao atirar CDs de músicas “merda” pela janela do carro, Luiz (ou será Ricardo?) Pretti mostra que um filme musical se faz também pela seleção, pela escolha do que não tocar.
Minha resposta a Filipe Furtado
março 26th, 2011 § 5 Comentários
A discussão sobre o jovem cinema brasileiro, deflagada pelos artigos de Felipe Bragança e meu em O Globo, foi retomada no blog Anotações de um Cinéfilo, do crítico Filipe Furtado. Para quem não andou por lá, segue abaixo minha resposta ao post do Filipe:
Parabéns, Filipe, pela pachorra em esmiuçar os subtextos dos dois textos. Não me importo de ser visto como crítico careta se isso significa de fato assumir uma atitude crítica perante filmes e textos correlatos. Apenas não gostaria de me ver reduzido a porta-voz deste ou daquele cinema que passa por “oficial”. Meu gosto e meus critérios são nutridos por cinefilia, honestidade comigo mesmo e amor pelas muitas acepções da beleza. Por isso é que, ao lado de alguns filmes do Salles e do Meirelles, também exalto “Serras da Desordem”, “Jogo de Cena”, “Santiago”, “Lavoura Arcaica”, “Sudoeste”, “Morro do Céu”, “Recife Frio”, “Os Famosos e os Duendes da Morte” (desculpe), “A Alma do Osso”, “Acidente”, “Nome Próprio”, “Árido Movie” e “Amarelo Manga” como alguns dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos, apenas para citar os que me lembro agora. São obras muito distintas entre si, de procedências as mais diversas, mas que têm em comum uma potência, uma integração de meios e propostas de diálogo com o espectador que me tocam e me interessam de maneira especial.
De resto, não tenho nenhum interesse em projetar uma imagem de mim mesmo através das minhas escolhas. Não pertenço a nenhum grupo, embora não tenha nada contra grupos, ao menos enquanto eles não se tornam “corpos” para comunhão de gostos e interesses.
Esse debate tem trazido à tona uma série de saudáveis revelações, além de necessárias afinações de discurso, de parte a parte. Bacana que o seu blog venha repercutir, prolongar e aprofundar essa conversa.
P.S. Muito curioso ver, entre os comentários ao post do Filipe, um de Felipe Bragança afirmando, seis dias depois, que não leu meu artigo em resposta ao dele. Que coisa, hein?!
Sérgio Borges defende convicções estéticas
março 21st, 2011 § 2 Comentários
Ainda um comentário que vale destacar no debate deflagrado aqui em torno do jovem cinema brasileiro. Dessa vez, é o cineasta mineiro Sérgio Borges, que dirigiu O Céu sobre os Ombros, eleito melhor filme do último Festival de Brasília:
Carlos,
Acho a sua posição importante.
Realmente os jovens realizadores brasileiros, dito autorais, tem que ter a percepção de que, se existe um cenário por aqui que traz singularidades e até novidades, esse cenário é incipiente, heterogêneo e precisa ser desenvolvido sem oba-oba e sem a vaidade ser maior do que os resultados (os filmes).
Apesar de ter realizado meu primeiro curta em 1998 (não sou tão novato assim), nenhum deles teve um destaque que chegasse perto do que O Céu sobre os Ombros, meu primeiro longa conseguiu. Então, a minha relação com a crítica, com os olhares sobre o meu trabalho é bem recente.
Vejo com interesse e curiosidade as reações adversas que começaram a ocorrer, de questionamento ao “novíssimo cinema brasileiro” (termo associado às produções como as do meu filme) desde Brasília, quando parece que uma instituição mais “relevante” legitimou essa produção. Talvez os questionamentos fossem anteriores, e essa impressão só tenha me acontecido, porque foi a partir daí que eu me envolvi. Mas acho que só começaram a relativizar a importância desse grupo de filmes/geração/movimento quando a imprensa/mídia/crítica/público mais ampla, menos guetificada passou a levar em conta que esses filmes existiam. Então, pra começar, esses filmes, essa geração, já estava produzindo antes, e exibindo seus filmes antes. Foram vocês (te coloco no meio disso Carlos) que passaram a dar mais importância (no meu modo de ver, merecidamente) para essa produção. Foi algo natural, a acredito que assim o foi, pela relevância dos filmes. Foi uma conquista dos filmes, e não uma estratégia obscura de seus realizadores.
Daqui do meu lugar, Belo horizonte, fazendo parte de um coletivo de realizadores, a TEIA, que completa 10 anos de existência no fim do ano, vejo a repercussão positiva desse cinema (feito com equipes menores e com menos hierarquias, feito de forma mais barata, feito a partir da fricção entre real e ficção, feito sem seguir a lógica narrativa hegemônica, etc…) com muito entusiasmo. O meu desejo de fazer filmes ia além da impossibilidade que o sistema de produção brasileira me indicava. Fui favorecido pelo surgimento das ilhas de edição caseiras e das câmeras digitais. Fiquei realmente confortado quando me dei conta de que em outros estados brasileiros (Ceará, Pernambuco, Rio, São Paulo, Paraíba…) haviam outras pessoas e grupos produzindo como a gente aqui. E ainda mais pertencente a uma geração, quando me dei conta que esse fenômeno é mundial. Que nas Filipinas, na Coréia, Portugal, Argentina, México, Chile, Tailândia, Romênia, e por aí vai, surgiam esquemas de produção e formas narrativas diversas da hegemônica, que ganhavam legitimidade e melhor, chegavam até mim. Acho que mais do que tudo, uma nova voz surgiu na cena audiovisual brasileira. Não acho que essa voz queira ser considerada genial, mavericks inventivos, muito menos queira desmerecer outros realizadores e outras formas de narração. Essa voz quer contar que também está presente no cinema brasileiro, que é possível fazer filmes dentro de um outro sistema, com outra lógica. Essa voz quer dizer também que ela não é um grito solitário no deserto. Daí talvez venha a importância de se dizer de afetividade, vida, rede. Não sei se você se dá conta Carlos, de quão especial é termos pares nessa vida no pequeno mundo do cinema brasileiro. E o cinema? Talvez, em uma análise mais contundente, realmente não sejam muito os filmes que se sustentem para gregos e troianos. Mas me parece novo, o fato de termos algumas dezenas de jovens realizadores ao menos esboçando algo interessante. Ainda mais se levarmos em conta que a grande maioria está fazendo seu primeiro longa. Acho que esse é o ponto a ser valorizado. Inclusive porque essa produção é diversa.
Percebi que vc tem um questionamento sobre a forma narrativa dos filmes tb (sobre a homogeneidade desss forma nesse grupo – um questionamento muito justo, diga-se de passagem) Particularmente acredito que o potencial expressivo do audiovisual é muito maior do que a forma (cinema industrial americano/telenovela brasileira) que o cinema brasileiro em sua enorme maioria produziu pós cinema novo. Os filmes que mais me comovem, transformam, reformam passam por uma relação mais complexa filme/espectador, com mais lacunas, para espectadores mais ativos. Apesar, disso, sei dar o devido valor a filmes que “contam uma história” de forma mais convencional. É preciso acreditar no filme que se vê. o cinema tem como característica expressiva se confundir com a vida, para quem o assiste. Hoje em dia, é difícil para mim acreditar em certos filmes, em ter essa relação. Vejo muitas vezes pequenos teatros feitos a partir de textos de roteiristas querendo trazer uma mensagem (humanista, ou moral, ou revolucionária, não importa) e não acredito neles. Mas isso é o meu caso, o meu olhar. E acho que exibir esses filmes para públicos diversos faz parte de um trabalho de longo prazo para formar público para o cinema, visto que a formação audiovisual brasileira vem da TV e de sua lógica de consumo. Não subestimo o público e tenho visto ótimos resultados, ao menos com o meu filme. Daqui a um ano saberei ainda mais. Mas tenho que ter noção do potencial de público do meu filme, e sei que é segmentado. Mas é curioso, porque acredito muito que o potêncial de público do Céu sobre os Ombros é maior que o circuito de festivais. E acho que as salas de shoppings já tem um público viciado. Sonho com outros circuitos de exibição no Brasil (universitário, Cine Mais Cultura), mas ainda acho que se meu filme for visto por 10 mil pessoas no cinema, o custo benefício (já que ele custou 150 mil) será melhor que o de um filme de 4 milhões visto por 200 mil pessoas. Eu tenho feito um esforço político e me mobilizando para criar condições de filmes “menores” poderem ser realizados e exibidos no Brasil.
De forma nenhuma acredito em autocontentamento com filmes baratos e sem rumo. Acho o “sem rumo” maldade (ou falta de sensibilidade) de sua parte com vários filmes. Não quero pertencer ao gueto do barato e autoral, mas não vou abandonar minhas convicções estéticas pelo sucesso no mercado. Fico realmente feliz em ver você ou o Sílvio Da Rin em um debate de jovens realizadores domingo de tarde no Rio. Mas fico com a impressão que para vcs, ainda somos um bando de amadores que precisam dar um salto de qualidade (como o Sílvio disse). Acho que não é bem assim. Quanto a jovem crítica, a minha impressão é de que ela dispõe de mais subsídios para ver os filmes, e não está formando uma panelinha que legitima esses filmes. Fábio Andrade é persona não grata de muitos realizadores, por exemplo, por criticar os filmes. Eu inclusive acho que muitas vezes eles pegam pesado demais e são muito pouco generosos com os filmes. Não acho que paternalismo seja bom, mas acho legal incentivar os novos realizadores apontando possíveis virtudes.
O seu olhar sobre essa cena me faz perceber que, se queremos nos dizer partícipes da cena cinematográfica brasileira, temos que responder sim a todos, e não só a nossos pares. Acho realmente saudável a sua crítica. Acho que entre esses novos realizadores, existe algo que os une, mas também cada filme e cada realizador deve responder por seus filmes e suas palavras. Acho que não estamos mesmo com essa bola toda. Mas estamos participando do jogo sim. Com direito a opiniões, críticas, e com muita gente querendo nos assistir. Não vi evasão de sala no meu filme, e acho Pacific um filme incrível, mesmo com grande evasão de público. É bom entender se há um erro de modulação nessa nova voz. Sua crítica me faz pensar nisso. Grande abraço.
Sérgio Borges
Minha resposta:
Caro Sergio, obrigado por participar dessa conversa. Apesar de uma ou outra discordância em relação ao peso das palavras, acho que pensamos o mesmo. A exaustão da narrativa convencional leva a uma cada vez mais difícil originalidade, embora eu não veja em nenhum tipo de cinema algo em que se deva “acreditar”. Algo de muito importante está ocorrendo nessa nova cena do cinema brasileiro, o que não significa que viramos uma página na história. E mesmo esses filmes “pequenos”, “livres” e descompromissados com o Mercado precisam estabelecer certos níveis de diálogo para não caírem no autismo. Estamos de acordo em tudo isso.
Quando resolvi responder ao artigo do Felipe Bragança, foi justamente por incidir sobre o leitor médio da grande imprensa, que vem recebendo uma visão pouco apurada dessa cena cinematográfica. São informações soltas, rasas, que geram mais preconceito que um germe de aceitação. Brados de vitória e manifestações de desprezo pelo passado recente tampouco contribuem para o entendimento da riqueza impura do momento.
Espero em breve rever O Céu sobre os Ombros para rever a impressão bastante ambígua que tive numa primeira visão em Tiradentes.
Um abraço e volte sempre
Carlos
Fábio Andrade: “Não há silêncio”
março 21st, 2011 § Deixe um comentário
Entre os muitos comentários ao meu texto Menos silêncio, por favor, aqui está mais um que justifica um realce especial no blog. É do crítico Fábrio Andrade, da Revista Cinética:
“Carlinhos, antes de mais nada acho bacana te ver entrar nessa discussão. Compartilho essa impressão de que há um certo desespero por afirmação em parte dessa geração, algo até certo ponto natural, bastante rapidamente comprado pela imprensa (a necessidade de gerar pautas é prato cheio pros manifestos, pra exaltação dos coletivos, etc, etc), mas que muitas vezes atrapalha no contato com os filmes, que é o que realmente me interessa.
Só acho complicado quando você diz que há silêncio sobre esses filmes, porque cria a impressão de um consenso que eu nunca vi existir. Porque pra isso é preciso desconsiderar (e digo não como algo inválido, mas como algo que em tese não existe) as coberturas feitas pela Cinética, pela Filmes Polvo e por um cara como o Sérgio Alpendre, por exemplo, de vários festivais onde esses filmes são exibidos. Porque se você for olhar os textos que respondem e questionam esses filmes, verá que há enfrentamentos frontais e diretos, sem que a crítica se furte de aquiescer quando percebe que um caminho interessante surge nos filmes.
A Cinética, que eu conheço melhor por razões óbvias, têm críticas bastante duras aos dois últimos filmes do Felipe Bragança e da Marina Meliande, embora o Felipe já tenha participado da revista. E não é caso isolado: os dois filmes do Gabriel Mascaro, o “Casa de Sandro” do Gustavo Beck, “Estrada para Ythaca” e diversos curtas brasileiros já suscitaram posições bem firmes na revista, basicamente porque acredito que a firmeza é necessária em todo trabalho crítico, com filmes brasileiros ou não. E digo isso com bastante tranquilidade, porque fui eu mesmo quem escreveu essas críticas e não só sei que elas existem e estão disponíveis para serem lidas, como elas geraram respostas e debates entre as partes envolvidas. São críticas, inclusive, que usam abertamente palavras como “arte” e “autoria”, conceitos que estão muito longe de serem abandonados pela crítica em nome de outros conceitos, como você indica.
Acho que textos como o seu dependem mesmo de algumas generalizações pra que a pulsão inicial deles seja transmitida, mas para que a coisa não se perca nos manifestos – dos cineastas e dos críticos – e na simples tomada de posição (algo necessário, mas que eu julgo bastante infrutífero quando não sai de si), é preciso que algumas correções de foco e de argumentação sejam feitas para que a conversa não se esvazie na convivência de monólogos. É preciso, no fim das contas, pensar que o tal “novíssimo cinema” é composto de filmes específicos e que a tal “jovem crítica” traz um conjunto de textos e pensamentos. Sugiro alguns textos pra você ver que o silêncio, se é que já existiu (tenho minhas dúvidas), já foi quebrado há muito tempo:
http://www.revistacinetica.com.br/aberturasemana.htm
http://www.revistacinetica.com.br/aalegria.htm
http://www.revistacinetica.com.br/lugaraosol.htm
http://www.revistacinetica.com.br/brasiliaformosa.htm
http://revistacinetica.com.br/tiradentes11dia9.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes10dia5.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes09curtas.htm
Fábio Andrade
Minha resposta:
Obrigado, Fábio, por fazer essa importante ressalva no âmbito de atuação da Cinética. Tenho acompanhado com grande interesse os seus textos, sempre preocupados em encontrar a medida certa para lidar com as oscilações da produção contemporânea. Mas a minha denúncia do “silêncio” diz respeito não especificamente a este ou àquele veículo de crítica, mas a algo que está além dessa trincheira e se evidencia na imposição de um certo mito do filme barato/coletivo/não-narrativo que precisa ser tratado como instrumento de uma afirmação política em lugar de obra exposta aos riscos de algum nicho de mercado. Falo de uma visão crítica que esteja além dos textos críticos, operando seja no dia-a-dia das relações interpessoais, seja no espectro maior de uma atuação política. Falo de um “silêncio” talvez para aguçar os ouvidos para as vozes dissonantes que já existem.
Cezar Migliorin destaca as redes
março 20th, 2011 § Deixe um comentário
Pelo teor e extensão, destaco abaixo o comentário do cineasta, artista, crítico e professor Cezar Migliorin a respeito do meu artigo Menos silêncio, por favor.
Salve meu amigo,
Visto a carapuça. Tenho apontado para esse cinema como algo importante no Brasil hoje. Me dediquei mais longamente a apenas quatro filmes; Avenida Brasilia Formosa, Pacific, Sábado à Noite e O Céu Sobre os Ombros. Acho os três especialmente tocantes pelas formas que abordam as cidades, a pobreza, as disputas com a cultura de massa e a própria relação do cinema com as formas de vida. Mas, quando trabalhei com cada um desses filmes fiz o esforço de não fazer a passagem entre as obras e um “novo movimento”. Os diálogos dessas obras é complexo. Serras da desordem e Moscou estão próximos, mas também um corte eventualmente ligado ao melodrama, os filme-dispositivo, o documentário moderno e toda crise do lugar do realizador que nunca mais resolveremos – felizmente. Digo isso porque me parece extremamente complicado, diante do que temos visto – com os filmes que citas ou que estão implícitos no texto – que façamos um julgamento desse cinema baseado em uma análise das obras; o que não quer dizer que elas não interessem, pelo contrário.
Temo que tua leitura caia na mesma armadilha da do Felipe. Esses filmes, se desejarmos pensar o conjunto, não podem ser julgados sem que consideremos as redes para as quais eles apontam e mobilizam. Ou seja, metodologicamente meu esforço tem sido partir da obra e dela fazer as conexões necessárias para a reflexão ou partir da rede à qual os filmes fazem parte. Quando parto da obra, percebo que são filmes que fazem parte da história do cinema, com eventuais singularidades, é claro. A indistinção entre documentário e ficção, por exemplo, ganha novos traços. A performatividade, como você chamou atenção em Tiradentes, também, assim como uma relação com história do cinema que, nesses filmes que trabalhei mais a fundo, não é nada ingênua. Mas, quando parto da rede e das condições de possibilidade para que essa eventuais traços estéticos surjam, percebo que estamos diante de algo forte e singular.
Uma singularidade que tem nos forçado a pensar novas estratégia de mercado, novas formas de atuação do estado, novos tipos de licença para proteção da propriedade intelectual, novas formas de relação com a universidade, novas formas de fomento e incentivo ao acesso, etc. Perceba. Se não fossem os filmes, em suas heterogeneidades e qualidades diversas e não consensuais – nós mesmo em Tiradentes discordamos sobre determinados filmes – esse movimento que hoje mobiliza bem mais do que uma patota e festivais que não são tão irrelevantes assim, não estaria acontecendo.
A rede que tenciona a distribuição, as formas de acesso, os festivais, as políticas públicas, a universidade, a crítica e é recheada de inquietações estéticas, é mobilizada por algo que está nos filmes, não é pouca coisa.
Não se trata assim de um movimento, como se houvesse um conjunto relativamente fechado, como nos tantos movimentos que conhecemos na história do cinema, nesses caso, acho que essa noção não faz muito sentido. Trata-se de uma outra lógica, acentrada, dispersa, que hoje está focada em alguns diretores e no ano que vem em outros ou outras cidades. Sim, talvez seja uma geração, uma geração que soube inventar meios de fazer do cinema um modo de vida fora do eixo Rio-São Paulo – mas nele também, como v. chama atenção -, fora das amarras da indústria mas, mas encontrando seus espaços, fazendo uso e inventado redes econômicas, afetivas, criativas e, claro, de legitimação. Diria então: estamos diante de imagens que tem força suficiente para nos revelar a potência e a singularidade dessas redes que incluem os filmes e suas criações. Isso já é, em si, motivo de entusiasmo, mas também é pouco para uma leitura histórica, panorâmica. Nesse sentido, torna-se problemático deslocar para toda uma rede aquilo que se pode encontrar no específico; infantilismo, pretensão, etc.
Há um ponto no teu texto que é um desafio para nós. Quando falas do patrulhamento semântico que nega “arte”, “qualidade” e “autoria”, optando por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. Primeiramente, acho patrulhamento forte, entretanto, duas colocações me parecem fundamentais. O primeiro é referente às obras mesmo. O fato desses outros termos ocuparem a cena, alguns marcadamente pós-estruturalistas, não fala da necessidade de nos relacionarmos com outros campos do pensamento para falarmos dos filmes? É claro que essa utilização pode ser caricata, mas, novamente, faria o esforço de não ver no particular um retrato do todo. O outro ponto é ainda mais problemático. Estamos dispostos a lutar pela noção de qualidade no cinema com a Globo e um certo cinema em que a “qualidade” se auto-justifica? Estamos dispostos a lutar pela noção de autoria? Com que ganho? Novamente, nos filmes que citei acima, tal noção não se faz sem problema. Ainda, quando por todos os lados, a palavra de ordem é crie, eu entendo perfeitamente que falar em arte seja difícil, eu não desisti ainda, mas, sem deixar a polis de lado.
Meu abraço
Cezar Migliorin
Menos silêncio, por favor
março 19th, 2011 § 34 Comentários
(Artigo publicado hoje no caderno Prosa e Verso de O Globo)
Tentei calar-me, mas fui vencido pela necessidade de dizer duas ou três coisas a propósito e a partir do artigo de Felipe Bragança no Prosa e Verso (O Globo) de sábado passado (leia aqui). É um texto articulado e vibrante, que faz um histórico do surgimento de um novo cinema e uma nova crítica no Brasil nos últimos dez anos, concluindo com a proposta de uma agenda de realização que contemple o “erro” e o “prazer do vazio”. Filmes como “monstros maravilhosos”, para resumir.
O artigo pede para ser lido como peça política de um movimento que se auto-intitula de “reinvenção do cinema brasileiro”. Outras peças do gênero têm se posicionado em mostras, revistas eletrônicas e sessões cineclubísticas. Isso configura um movimento de fato, embora nem todos os citados se sintam como parte de um.
Que há muitas novidades por aí, não resta a menor dúvida, mas é necessário não confundir manifestos com panegíricos. Nem toda busca leva a um encontro. Existem buscas que são belas em si, outras que apenas se acomodam no pretexto da busca para não dizer nada. O texto de Felipe, como de praxe nesse microuniverso, é recheado de afirmações mais ou menos peremptórias sobre o cinema supostamente mais adequado a este ou àquele momento. Para elevar os chamados (não por Felipe) novíssimos, é necessário rebaixar os que os antecedem. Assim é que os filmes de Walter Salles aparecem reduzidos a “um cinema-de-arte bem composto” e os de Fernando Meirelles, a “explotation (sic) do imaginário urbano”.
Quando cita O Céu de Suely (do qual foi corroteirista) como um dos marcos de influência dessa nova onda, Felipe parece desconsiderar o caminho aberto por Terra Estrangeira, de Walter Salles, para o florescimento de coisas como o maravilhoso filme de Karim Aïnouz. Prefere citar nomes mais afeitos a um perfume “de invenção” para constituir uma genealogia do seu próprio êxtase.
Esse tipo de ação política tem que ser visto com desconfiança. Que mais não seja, pela distância gigantesca entre a qualidade dos textos e a qualidade de grande parte dos filmes em que eles almejam se concretizar. É preciso desmontar o pacto de silêncio e levantar a redoma das meias-palavras a respeito do que se tem visto nas telas. Este é um texto bem pessoal, mas estou levando em conta também uma percepção do que ouço ao redor, muitas vezes em tom de cochicho para não ferir os amigos e admiradores.
Reconheço uma potência de enunciação e um desejo real de comunicação em certos realizadores e filmes pernambucanos. Os recentes longas da turma da Alumbramento (Ceará) trazem uma simpatia e uma busca estética a suprir parte do enorme vazio que ocupa o seu centro. Alguns mineiros têm seu charme e propõem radicalidades embasadas em talento plástico e escolhas bem definidas. Mas, afora isso, são poucos os filmes aptos a ultrapassar o filó de uma certa patota e a curiosidade prospectiva de alguns festivais internacionais.
Na Mostra de Tiradentes, frequentemente citada como “prova” de sucesso, afora os convidados, ver filmes na tenda é um programa gratuito e atraente para o público que aflui à cidade, sobretudo nos fins de semana. Mas, sem contar as comuns debandadas em meio à projeção, muita gente sai rindo dos filmes e fazendo comentários bem distantes do que os seus diretores gostariam de ouvir. Em muitos casos, eu dou razão a quem abandona a tenda muito antes do filme terminar, avassalados pelo tédio ou a perplexidade.
Por mais que me interesse pelo que vem sendo feito pela geração “novíssima”, não posso compactuar com a rede de proteção estendida sobre ela e por ela mesma. Em boa medida, há uma síndrome de autocontentamento com o filme barato e sem rumo. Uma espécie de masturbação recíproca coletiva acompanha os intercâmbios de talentos entre grupos e estados da federação. Uma permuta de legitimações ocupa o lugar de uma real aproximação crítica dos filmes.
Os rebentos cariocas que conheço são particularmente ineptos – e não é à toa que os filmes mais interessantes a chegarem brevemente aos cinemas sejam de dois cineastas um pouco mais velhos e à margem dessa celebração: Eduardo Nunes com Sudoeste e Eryk Rocha com Transeunte – além de um ligado à órbita da produtora Cavídeo, frequentemente “esquecida” nesse tipo de balanço, que é Gustavo Pizzi com Riscado.
Por sua vez, as realizações dos críticos-cineastas, praticamente sem exceção, têm naufragado num misto de pretensão, infantilismo intelectual, umbiguismo cool e referencialismo blasé. Elas somam a um panorama de cinefilia e filosofia mal digeridas, transformadas em filmes abúlicos.
Há marcas insistentes de um ressentimento com relação a um cinema narrativo e humanista, assim como à crítica que o valoriza ou tolera. Um patrulhamento semântico bombardeia conceitos como “arte”, “qualidade” e “autoria”, trocando-o por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. No entanto, os filmes em si demonstram que uma real inovação não se faz apenas com mudança de vocabulário e elogios em circuito fechado.
Minha experiência pessoal e minhas observações ao redor, entre jovens cinéfilos e cultuados mavericks da invenção, é de que, resguardadas as exceções, as manifestações verbais têm soado mais vistosas e articuladas que as imagens e sons atirados, a custo baixo e em mão única, no retângulo da tela.
Este texto não pretende ser um contramanifesto, muito menos um ataque indiscriminado a certo jovem cinema brasileiro. Quer ser antes uma tentativa de jogar alguma dúvida e relativização num tipo de discurso que aspira à hegemonia.
Livro de garagem
fevereiro 28th, 2011 § 3 Comentários
“Cinema de Garagem” foi o título de uma mostra de filmes organizada por Dellani Lima em Belo Horizonte. Acabou virando título também do livro que ele e Marcelo Ikeda lançaram recentemente, com o subtítulo de “Inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI”.
Para esses observadores, carinhosos mais que críticos, o que define um certo tipo de cinema que pode ser chamado “de garagem”? Isso passaria tanto pelo modelo de produção quanto pelo processo de criação. Muitos desses filmes, mesmo de longa metragem, são feitos sem dinheiro de editais ou de grandes patrocinadores. Respondem a um desejo mais de expressão que de reconhecimento. Em alguns casos, o propósito de viver “no” cinema supera o de viver “do” cinema, refletindo uma linha de continuidade entre o profissional e o vivencial. A assinatura do autor é diluída entre vários signatários, que ora se agrupam em conjuntos (Alumbramento, Teia etc.), ora se permutam em redes através de vários estados.
Se de um lado a postura crítica de Marcelo e Dellani soa cautelosa ao recuar sempre de hierarquias e totalizações, de outro assume preferências de maneira explícita e às vezes retumbante. Como quando Ikeda, ao analisar o documentário de Cao Guimarães e Pablo Lobato, conclui peremptório: “acredito que o cinema deva ser como Acidente”. Ikeda, aliás, insere no livro seu sonoro manifesto por uma crítica que seja não um porto seguro, mas “um barco à deriva”, que prefira a dúvida às certezas de especialistas. No entanto, suas próprias notas críticas sobre filmes alheios estão repletas de afirmacões convictas e adjetivos policromáticos.
Se a contradição pode ser tomada aqui como uma virtude, isso se deve ao caráter “de garagem” do livro em si. Ele foi editado pelos próprios autores, e nesse sentido tem muito a ver com o modelo de cinema que eles procuram iluminar. O livro nasceu do desejo de oferecer, de bate-pronto, um pacote de reações aos filmes, muitas vezes no ato mesmo de sua primeira exibição. Em vez de reflexão distanciada, Cinema de garagem é, em sua maior parte, uma coletânea de textos publicados em catálogos de mostras e blogs frequentados pelos autores, que acompanham a cena desde seu alvorecer. Daí vêm uma certa descontinuidade, algumas repetições e principalmente o sentido de urgência que norteou aqueles artigos.
Vou publicar uma resenha mais completa do livro no número 54 da revista Filme Cultura, a ser lançado em maio. Mas Cinema de Garagem chega bem antes aos leitores do Rio e São Paulo. Será lançado na Mostra do Filme Livre em março, nos dias 13 (Rio) e 24 (SP).
Novíssimos e gregários
janeiro 31st, 2011 § 3 Comentários
Pós-indústria, pós-mercado, estética como política, amizade, política do afeto, cachaça como combustível de criação – palavras e expressões que ficam das conversas e debates da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O chamado Novíssimo Cinema Brasileiro esteve mais uma vez na tela e na boca das pessoas. A seguir, algumas observações a partir dos cinco longas de ficção que vi no Cine-Tenda e dos que constavam da programação e eu já tinha visto antes.
Essas notas não se aplicam à totalidade do cinema ficcional que se faz hoje no Brasil, nem mesmo ao que é feito por jovens. Referem- se antes a uma parcela que chega à Mostra por obra de uma curadoria especialmente interessada na inovação formal e em posturas de criação e produção menos convencionais.
Repartição de autoria e criação coletiva
A maioria dos filmes é feita em grupo, sendo a turma da cearense Alumbramento (Os Monstros) o epíteto dessa forma de invenção e produção. Os gêmeos Luiz e Ricardo Pretti, junto com os primos Guto Parente e Rafael Diógenes, concebem, dirigem e atuam como um quarteto inseparável, procurando expressar algo que soa próprio do seu jeito de ser (juvenil cool, digamos) e do seu desejo um tanto angelical de simplesmente fazer filmes.
Mesmo nos trabalhos assinados por um só diretor, existe (e é ressaltada) a contribuição autoral de membros da equipe. Equipes, aliás, plenamente integradas a grupos como os da Alumbramento, da Cavídeo (Riscado, Enchente, Copa Vidigal) e da Teia (O Céu sobre os Ombros). Nota-se, aliás, um regime de colaboração muito ativo entre realizadores e técnicos de estados diferentes, sobretudo Ceará, Pernambuco, Minas e São Paulo. O diretor de fotografia cearense Ivo Lopes Araújo, talvez a maior referência estética dessa geração, tinha quatro longas (de três estados) na mostra, e rolava uma campanha para homenageá-lo no ano que vem.
O conceito de cinema de autor caiu em desgraça em certa parcela de cineastas e críticos jovens. A ideia é devolver à obra (como se ela existisse “em si”) uma primazia que teria sido usurpada pela figura do autor individual. Não há sinais de humildade nessa atitude, mas talvez um misto de atitude blasé, uma certa utopia essencialista e um bocado de gregarismo também. Até um diretor cheio de si e de citações eruditas, como o ex-crítico Tiago Mata Machado, incorpora no vencedor Os Residentes, seu segundo longa, os influxos de artistas plásticos e gente de teatro, sem falar no casal de protagonistas que são também diretores.
Narratividade tênue e performance
Nos novíssimos filmes de ficção percebe-se o que Cezar Migliorin atribui a uma “crise do roteiro”. Como vários desses longas são feitos à margem dos editais – ou subvertem alguma rigidez do roteiro na montagem, como foi o caso de Transeunte, de Eryk Rocha –, a preocupação com a escritura se dilui em benefício do momento da filmagem. As cenas são então concebidas como algo que fica entre a experiência (vivida) e a experimentaçāo (encenada). O resultado são filmes compostos por uma sucessão de performances. Os Residentes, com seus sketches godard-debordianos sobre guerrilha e poder, é o exemplo mais acabado desse tipo de filme “espatifado contra a parede” (no feliz dizer do crítico Fábio Andrade).
É claro que nem todos são filmes em cacos. Nem todos enfocam situações nas vidas de seus personagens de maneira tão pouco linear quanto O Céu Sobre os Ombros, Avenida Brasília Formosa e Transeunte, este o mais belo que vi em Tiradentes. Mas, ainda quando há cronologia e lógica de causa e efeito, como em Riscado e Os Monstros, a força das unidades e a sua relativa completude se impõem sobre a tênue linha que as une.
Viver no cinema
O espírito colaborativista, a disposição para filmar com pouco dinheiro e a prevalência da estética sobre a produção (ou talvez a transformação da estética em recurso de produção) são traços desse Novíssimo Cinema Brasileiro. Há, pelo menos no discurso de alguns, um saudável desinteresse pelo mainstream e um preocupante descaso pela política institucionalizada, mesmo a política do cinema. A ideia de política é frequentemente empurrada para as bordas – ou como conceito intelectual, ou como articulação de relações no nível do cotidiano.
Esse cinema de ficção essencialista e às vezes bastante autocentrado exprime, no fim das contas, o desejo de um bocado de jovens para quem, mais que viver DO cinema, importa viver NO cinema. Ter “o cinema não como profissão, mas como vocação”, para usar termos de Marcelo Ikeda e Dellani Lima no livro que lançaram em Tiradentes, Cinema de Garagem – Um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI.







