Máquinas do tempo
março 2nd, 2012 § 4 Comentários
Três filmes oscarizados este ano compartilham o diálogo entre os cinemas americano e francês (e as respectivas culturas, de certa maneira) e o interesse pelo retorno no tempo como matéria de suas dramaturgias. O Artista, A Invenção de Hugo Cabret e Meia-noite em Paris propõem viagens ao passado como legítimo escapismo, sem estabelecer conflitos nessa passagem nem propor discussões diretas sobre a atualidade. Gosto do artigo de Leandro Calbente no seu blog, em que ele faz paralelos entre a crise do ator na virada para o cinema silencioso e a resistência atual de muita gente ao novo estado da cultura digital e à consequente revolução no conceito de direitos autorais. Se a lembrança é cabível, é também necessário reconhecer que o filme de Michel Hazanavicius está longe de carregar qualquer intenção nesse sentido.
O Artista é mais um tributo a uma maneira estritamente americana de fazer e pensar o cinema, baseada na sucessão de inovações tecnológicas e na balança do sucesso estelar. Esse elogio a um modelo clássico – que repercute Cantando na Chuva, Nasce uma Estrela e tantas efemérides hollywoodianas – certamente influenciou na paixão dos americanos pelo filme e na consagração da Academia, mesmo que falte o que deveria ser o ingrediente principal num candidato a melhor filme: originalidade. O Artista é um pastiche, extremamente simpático, sem dúvida, e muito bem realizado. Mas só adquire personalidade própria aqui e ali, quando lança mão da metalinguagem para abordar o trauma do som no personagem de Jean Dujardin. A volta ao passado é feita como alguém que veste uma roupa completa de outra época e imita todos os gestos daquele tempo. Em O Artista, o passado é uma imitação.
Já em Hugo, o passado é algo a resgatar, a retirar do esquecimento. Scorsese lida com dois passados distintos: o tempo de Hugo (passado para nós) e o de Méliès (passado para Hugo). Por muitas razões, é o filme mais rico dos três, já que trabalha com a própria ideia do mecanismo, das máquinas do tempo (relógios, cinema), tudo encadeado num trem de referências que nunca sai dos trilhos. O passado é objeto de carinho e reconhecimento, bem de acordo com a reverência de Scorsese às forças vitais do cinema, à recuperação de filmes perdidos e ao que poderíamos chamar de uma cinefilia produtiva, que não se contenta com o consumo e a admiração.
Assim como o filme de Woody Allen, Hugo faz “pontes” entre os tempos históricos da arte, conectando os pioneiros do cinema com os filmes de aventura e as comédias screwball dos anos 1930, o espírito dos livros de Charles Dickens e, entre outras coisas, a era do cinema digital em 3D. Embora inteiramente situado no passado, Hugo é um filme que, ao contrário de O Artista, esbanja contemporaneidade. O uso do 3D é o melhor que já vi até hoje, na medida em que explora suas potencialidades poéticas (as fumaças, a poeira no ar, a radical separação de personagens e objetos do fundo quando isso importa dramaticamente) e tematiza o poder projetivo que está na constituição mesmo do cinema. Nesse aspecto, é magistral a recriação da famosa reação da plateia à chegada do trem dos Lumière, como se ali estivesse contida a antecipação da tridimensionalidade. Não passa despercebida também a discreta conversão para 3D de um velho filme de cavalaria de guerra, num momento em que grandes épicos de Hollywood estão voltando reconfigurados para essa tecnologia.
Mesmo sendo a obra-prima que é, mesmo sendo o filme da vida de Martin Scorsese, a Academia de certa maneira o puniu negando-lhe os prêmios mais destacados no setor de criação. Um raciocínio não pode ser descartado: em O Artista, os americanos se viram homenageados pelos franceses com um filme que eles poderiam (ou gostariam de) ter feito. Hugo, ao contrário, usou os melhores recursos do cinema americano para homenagear o cinema francês, como a reafirmar sua precedência histórica. Mais uma vez, o Oscar premiou o elogio a sua própria indústria. Preferiu o business à arte.
Por fim, Meia-noite em Paris mostra o passado como uma fuga, uma distração e também uma espécie de consolo para um americano entediado. Reforça a ideia de um Woody Allen que se aconchega cada vez mais no afeto do público europeu. Dos três filmes, é o único que enfoca diretamente a atualidade. A mitologia da Paris dos anos 1920 abre uma “porta” mágica na realidade atual, avizinhando-se de um ficção científica poética. Dos três, é também o mais kitsch em sua aproximação embevecida dos mitos da cultura francesa. Ainda assim, talvez seja o mais realista, na medida em que destaca, junto com as seduções da fantasia, também as suas limitações. O destino dos personagens não deixa dúvidas: por mais que a imaginação, o cinema e as outras máquinas de transporte nos abram portas e pontes, estamos irremediavelmente acorrentados ao nosso tempo.
Nosso primeiro Oscar?
fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário
João Luiz Vieira me apresentou a pesquisa de seu ex-aluno Felipe Haurelhuk, cuja monografia de conclusão de curso (TCC) foi sobre a presença do Brasil no Oscar desde 1929. Segundo o professor, Felipe “descobriu dados bastante interessantes, tudo muito bem documentado, incluindo pesquisas na biblioteca da Academy of Motion Pictures, em Los Angeles”. A meu pedido, Felipe escreveu esse artigo sobre as chances de nossa música faturar o primeiro Oscar para o Brasil.
O primeiro Oscar para o nosso cinema
Felipe Haurelhuk
A proximidade do Carnaval e as altas temperaturas do verão abafaram um pouco a repercussão em nosso país da lista de indicados à 84ª cerimônia do Oscar, anunciada no último dia 24 de janeiro. Uma pena, já que a cinematografia brasileira finalmente está prestes a conquistar, depois de mais de oito décadas, seu primeiro “prêmio de mérito da Academia” (nome de batismo dos troféus). Ou melhor dizendo: nossa música popular, em uma irônica indicação que reescreve uma longa história de flerte brasileiro com o prêmio.
Desde o início das cerimônias, em 1929, 13 brasileiros natos ou radicados já tiveram a honra de terem seus nomes indicados pela Academia. E o que muito pouca gente sabe é que o nosso pioneiro não era diretor, roteirista, fotógrafo ou ator. Era músico. Em 1944 o mineiro Ary Barroso, responsável por partituras clássicas da MPB como “Aquarela do Brasil”, foi o primeiro brasileiro a ser reconhecido pela organização. Ele foi o responsável pela melodia da canção “Rio de Janeiro”, composta ao lado do norte-americano Ned Washington para o musical “Brasil – Encontro No Rio” (Brazil. Estados Unidos, 1944). Infelizmente trata-se de um filme de difícil localização, nunca lançado em DVD nem no mercado norte-americano e muito menos em território nacional. Mesmo assim, neste link http://www.youtube.com/watch?v=to4mXckO6d0 é possível conferir a canção, interpretada pelo ator mexicano protagonista, Tito Guizar. De qualquer maneira, Barroso entrou para a história do nosso “cinema” por essa marca. E hoje, 67 anos depois, estamos prestes a conquistar nossa primeira estatueta dourada, mais uma vez, pelo trabalho dos profissionais da música. Carlinhos Brown e Sergio Mendes foram indicados mais uma vez na categoria Melhor Canção, pela melodia de “Rise In Rio”, do longa-metragem animado “Rio” (Rio. Estados Unidos, 2011).
Sem escarcéu midiático ou otimismo infundado, e ao contrário de diversas outras oportunidades relativamente recentes, desta vez as possibilidades de êxito são realmente muito grandes. A junta de músicos da Academia (responsável pelas indicações da categoria) reúne-se na sede da entidade em Los Angeles entre os meses de Dezembro e Janeiro para ouvir as canções e assistir aos filmes elegíveis nessa categoria. Para este ano foram 39 composições que, durante o processo de avaliação, recebem uma nota que varia entre 6 e 10. Apenas trabalhos com conceito igual ou superior a 8,25 são considerados finalistas na categoria, que neste ano resultaram em “Rise In Rio” e “Man Or Muppet”, de “Os Muppets” (The Muppets. Estados Unidos, 2011), cuja melodia e letras são de Bret McKenzie. Ou seja, das quase quatro dezenas de canções elegíveis, apenas essas duas despertaram a atenção dos votantes, que nesta segunda rodada terão apenas tais escolhas para decidirem sobre a vencedora. Uma possibilidade de no mínimo 50%.
Para além da matemática, o histórico de canções premiadas na categoria sempre privilegiou trabalhos derivados de grandes musicais ou longas de animação: “Over The Rainbow” de “O Mágico De Oz” (1939), “Talk To the Animals” de “O Fantástico Doutor Dolittle” (1967), “Fame” de “Fama” (1980), “Circle of Life” de “O Rei Leão” (1994) e “You’ll Be In My Heart” de “Tarzan” (1999) são alguns exemplos disso. Se até aí a corrida parece empatada pelo fato de Os Muppets ser um musical de grande sucesso da Disney, o histórico recente da categoria mostra que o perfil dos vencedores vem se distanciando de composições melosas e piegas, como já foi o mote da categoria em alguns períodos do passado. Entre as vencedoras nos últimos dez anos estão duas canções de hip hop: “Lose Yourself”, de “8 Mile – Rua Das Ilusões” (2002) e “It’s Hard Out Here For A Pimp”, de “Ritmo De Um Sonho” (2005), uma canção “indiana” (“Jai Ho”, de “Quem Quer Ser Um Milionário”, em 2008) e até mesmo uma canção em espanhol: “Al Otro Lado Del Rio”, de “Diários de Motocicleta” (2004). Há uma mudança gradual no perfil das canções, sejam elas premiadas ou somente indicadas. E cá entre nós, a música de “Rio” é tecnicamente superior à dos Muppets. Portanto, o Brasil deverá finalmente colocar as mãos em um Oscar na noite do próximo dia 26 de fevereiro. E ironicamente, assim como há 67 anos, não pelo mérito de nossos cineastas, mas de nossos músicos.
Não posso deixar de citar, por fim, o quanto a figura de Carlinhos Brown é alegórica nessa provável conquista. Ao contrário de nossos representantes cinematográficos outrora indicados (Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno e Fábio Barreto, Fernanda Montenegro, Carlos Saldanha e o próprio Ary Barroso), Brown não tem suas origens fundadas em uma família de posses do Sudeste. Não faz parte da elite branca intelectual brasileira, que elege seus cânones culturais e possui os meios econômicos e políticos para entrar pesado no jogo comercial que também é o cinema. Negro, nascido nas periferias de Salvador, Brown é aquele que levou a influência do som afro baseado na forte percussão aos blocos de Carnaval da Bahia, ainda na década de 1980. É aquele que levou garrafadas por ter tido a ousadia de reproduzir sua música “de baixa qualidade” durante a programação do Rock in Rio 3. E que, ao lado de Sergio Mendes e da compositora norte-americana Siedah Garrett, provavelmente fará o Brasil finalmente receber seu primeiro Oscar pela excelência do trabalho.
Felipe Haurelhuk
A guerra na intimidade
março 4th, 2011 § 3 Comentários
Entre os concorrentes ao Oscar de longa documental este ano, pode-se dizer que Trabalho Interno falava de perto com quem se interessa por economia e política; Lixo Extraordinário tinha apelo para os que colocam o humanismo em primeiro lugar; Exit Through the Gift Shop era o preferido dos conectados com as questões da arte contemporânea; Gasland se dirigia aos preocupados com o meio-ambiente; e Restrepo encantava quem aprecia os documentários, ponto.
O filme vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance de 2010 começa a ser exibido em pré-estreias no Rio e em São Paulo. Abaixo, o que escrevi por ocasião do último Festival do Rio:
Belisque-se de vez em quando durante a projeção de Restrepo. Belisque-se para lembrar que não está vendo um filme de ficção, desses que simulam o fragor dos combates e a tensão dos soldados. Os diretores (e cameramen) Tim Hetherington e Sebastian Junger estiveram “incorporados” (embedded) durante um ano com um jovem pelotão no Vale Korengal, o mais perigoso teatro de operações da guerra do Afeganistão, em 2007-2008. O que eles recolheram é, talvez, o retrato documental mais intimista de uma guerra jamais produzido pelo cinema.
Restrepo mostra de perto a matéria das guerras modernas. Estão lá os combates encarniçados, tiros zunindo rente aos microfones, a câmera dividida entre registrar os tiroteios e proteger-se das balas talibãs. Mas lá está também a rotina não menos desgastante da observação do inimigo, das miúdas investigações ao redor do posto avançado, das tentativas de persuasão, das difíceis relações com os afegãos num contexto de abismo cultural irremediável. As “shuras”, reuniões semanais dos soldados com os anciãos do Korengal, fornecem um insight inestimável desse lado menos espetacular do conflito, mas igualmente decisivo.
Lado a lado com os momentos de descontração e camaradagem dos jovens marines estão cenas de enorme dramaticidade, como o impacto imediato da morte de um sargento sobre o grupo. Ou a revelação do resultado de um bombardeio que deixou civis mortos em suas camas. Curtos depoimentos dos soldados durante e depois da ação comentam o dia-a-dia do pelotão e projetam uma reflexão isenta de proselitismos pacifistas ou discursos prontos sobre o Afeganistão. Restrepo recupera e examina a guerra como pura experiência moral e emocional vivida por garotos que poderiam ser nossos parentes e vizinhos.
P.S. Bom carnaval pra vocês e até depois das cinzas.
A porta giratória
fevereiro 19th, 2011 § Deixe um comentário
Por mais que a crise americana de 2008 nos tenha afetado com a “marolinha”, e por mais que estejamos iniciados em swaps, subprimes, rating agencies, derivatives, Lehman Brothers & Cia., existe algo que nos escapa completamente em Trabalho Interno. É o potencial catártico de ver tantos vilões gaguejarem mais que Colin Firth em O Discurso do Rei. Ou ficarem a nu em seu cinismo diante da câmera e das perguntas incisivas de Charles Ferguson. Para os americanos que conviveram por tanto tempo com aquelas autoridades e megaexecutivos nos telejornais diários, o efeito é especialmente forte – e sem dúvida contribuiu para a estima crítica que leva Inside Job ao favoritismo no Oscar de melhor longa documentário.
As cenas de abertura sugerem o estilo de Oliver Stone: Wall Street goes pop. Mas não vai muito longe a impressão. Logo em seguida somos assoberbados por uma pletora de cabeças falantes, gráficos, fac-símiles de jornais e documentos, créditos de identificação – e ainda as legendas da tradução, muitas vezes impressas em branco sobre fundo branco, ou seja, null. É árdua a tarefa de ver Inside Job. Por vezes você vai sentir saudade dos alívios cômicos e da escala “humana” de Michael Moore. Mas Ferguson não quer entreter nem fazer cinema criativo. Cientista político, matemático e especialista em tecnologia da informação, tendo prestado consultoria à Casa Branca e a empresas como Apple, Xerox e Motorola, sua carreira no cinema começou em 2008 com No End in Sight, doc sobre o envolvimento dos EUA na guerra do Iraque. Seus dois filmes, portanto, são dossiês destinados a “fechar” capítulos da história americana. Por isso são pesados, sóbrios e detalhistas.
Trabalho Interno tem uma pegada didática. Pretende explicar as raízes da crise, lá no governo Reagan, e a rede de interesses que se armou ao longo dos governos Clinton e Bush, unindo o sistema financeiro com as esferas governamentais. A escalada da especulação, a bolha dos empréstimos imobiliários, o jogo das grandes corporações financeiras com o dinheiro dos clientes, o enriquecimento estapafúrdio dos altos executivos, tudo é dissecado em flashes, falas editadas no essencial e pequenos blocos de narração. Mas acompanhar o ritmo das informações e a trama das relações é um desafio para o espectador que desconheça os personagens e o idioma economês. Ferguson não facilita as coisas em prejuízo da fidelidade aos pormenores.
Os personagens são muitos – e muito mais seriam se todos os figurões tivessem concordado em dar entrevista para o filme. A sucessão de cartelas informando quem não topou participar funciona como acusações implícitas: quem se omite tem culpa no cartório. Na virtual impossibilidade de seguir o fluxo de tantas acusações e defesas vacilantes, resta-nos aceitar a argumentação indignada do diretor e sua câmera-dedo apontada para os vilões. No fundo, é mais uma questão de confiar no cineasta que de entender e posicionar-se.
Boa parte dos fatos já haviam sido abordados, com igual apetite e um pouco menos de aridez, em Capitalismo: uma História de Amor, de Michael Moore. Mas há pelo menos dois pontos de vantagem para Ferguson. Um deles é a inclusão da academia na rede de falsificações e consultorias forjadas. Segundo o filme, professores das universidades de Harvard e Columbia contribuíram decisivamente para sustentar as mistificações da bolha e o status quo do neoliberalismo predatório. O outro ponto é a decepção com o governo Obama, que não implementou as reformas prometidas e cedeu cargos públicos às velhas raposas do sistema anterior. A nota de esperança que encerrou vários docs americanos recentes, o de Moore inclusive, é severamente desmentida em Trabalho Interno. Houve mesmo quem interpretasse a narração de Matt Damon (um eleitor Democrata) como um sinal de que Hollywood estaria abandonando Obama.
A boa causa e o caráter direto do filme não lhe garantem, porém, uma qualidade cinematográfica distintiva. A retórica de Ferguson baseia-se em falas, dados e imagens-padrão de reportagens sobre corporações. Planos aéreos de Nova York indicam a amplitude da abordagem, torres simbolizam poder e cobiça, fachadas envidraçadas sugerem impessoalidade. E ainda um elemento dramático que se impõe a cada dez minutos: a porta giratória. Ela representa o movimento contínuo, a roda da fortuna que acolhe como expulsa, o equipamento que engole e expele seres humanos das entranhas do dragão financeiro. Tudo bem. Mas depois da quinta ou sexta porta giratória, você começa a achar que sobra razão mas falta cinema em Inside Job.
A arte, a rua, o lixo, o autor
fevereiro 8th, 2011 § 3 Comentários
Entre os cinco filmes que disputam o Oscar de longa documental no próximo dia 27, um dos favoritos é Exit Through the Gift Shop. O badalado dossiê sobre arte de rua é assinado pelo inglês Banksy, a maior e mais misteriosa celebridade da área. As histórias por trás e as dúvidas em torno da produção são quase tão saborosas quanto o próprio filme.
Enquanto organizava as ideias para escrever um texto sobre o assunto, encontrei esse post de Leandro Calbente, que disseca as questões de uma maneira tão inteligente e completa como eu não seria capaz.
Quero apenas destacar outros dois pontos que merecem nossa reflexão.
Um deles é a dúvida como valor estético na arte contemporânea. Há muito deixamos para trás o socorro das certezas e das formas clássicas e puras. Mas, nunca como antes, vivemos agora senão o império do fake, pelo menos o reino do duvidoso. Exit… nos deixa o tempo todo cara a cara com a desconfiança. Será mesmo aquele homem encapuzado, meio diretor, meio personagem, o Banksy de que tanto se fala? Se é mesmo, o que o teria levado a confiar de tal forma naquele francês com jeito de picareta? Terá Thierry filmado de fato tudo o que vemos da street art em ação na primeira e mais excitante metade do filme? E o que haverá de forjado na segunda metade, quando Thierry supostamente passa de tiete com câmera a estrela emergente da street art?
O que mais perguntamos hoje em dia (ou nem perguntamos mais) é onde está o limite entre obra de arte e mistificação, valor artístico e valor de mercado, imagem real e cena fabricada. Assim como o ramo das artes plásticas, o dos documentários está coalhado de obras que, com maior ou menor grau de explicitação, trabalham nessa fronteira. Kiarostami, Coutinho, as turmas dos mockumentaries e dos mashups – são muitos os praticantes da arte da dúvida, os questionadores da “cópia fiel” ou da aura da obra original. Em tempo de reprodutibilidade vertiginosa e expansão sem limites do espaço artístico, o conceito de grande arte tende a virar, literalmente, peça de museu.
O título do filme, livremente traduzido por “Saída pela Loja de Presentes”, refere-se àquela instância intermediária entre a rua e o museu. Ali onde pastamos na ilusão de ainda reter um pouco da aura do museu enquanto compramos bugigangas, cópias vulgarizadas, alusões de quinto grau. A Monalisa numa caneca. A um passo dali, estamos de volta às ruas, onde uma intervenção de Banksy, de Shepard Fairey ou de Os Gêmeos pode nos reconduzir à experiência da arte, já do outro lado, onde ela supostamente não caberia.
Outro ponto é o paralelo que se pode fazer entre Exit Through the Gift Shop e seu concorrente Lixo Extraordinário, que também disputa o Oscar. Ambos tratam da arte em locais “inadequados”. Ambos mostram personagens que se transformam através desse contato direto com o(s) artista(s). No entanto, poucos filmes poderiam ser tão diferentes. O doc de Banksy trata da arte como algo impuro, sujeito à dúvida e à mistificação. Sai do museu para a rua, passando pela loja de presentes. Lixo Extraordinário, contrariamente, vê a arte como instrumento de elevação. Leva a rua (ou seu paroxismo, o lixão) para o museu. A pulsão política de um é anárquica e transgressora, seja em relação à sociologia urbana, seja em relação às normas do mercado de arte. No outro, a política se faz pelo discurso da inclusão social/cultural, pela transformação do outro, pela validação institucional.
Em Exit…, o autor do filme e artista-tema se esconde no capuz e na voz distorcida, cedendo o lugar do personagem principal ao que seria o autor da maior parte do material. Uma confusão se estabelece em relação à autoria, o que é parte importante dessa paisagem contemporânea. Já em Lixo…, Vik Muniz é o centro absoluto de toda a operação, mostrado com clareza e insistência pelos realizadores. Ao mesmo tempo que afirma repartir a autoria dos quadros com seus personagens, Vik reafirma na verdade sua postura de maestro e mentor.
Nas tensões opostas em vigor nesses dois filmes, temos um belo instantâneo dos docs sobre arte. Um que aposta na dúvida sobre o estatuto da arte, o outro na certeza da arte como coisa nobre.
***
No Cinema Eye Honors, premiação anual de docs nos EUA, Exit Through the Gift Shop ganhou melhor filme e montagem. Leia abaixo um trecho da fala de Banksy, lida na cerimônia pelo produtor do filme:
“Quero agradecer ao Cinema Eye Awards. É ótimo ser reconhecido por pessoas tão obcecadas pelo gênero documentário. Em outras palavras, gente ainda mais retardada socialmente do que eu. Imagino que alguns de vocês estejam começando a achar isso aqui meio suspeito. Como ter certeza de que essa cerimônia é real? Mas eu gostaria de assegurar-lhes categoricamente que essa noite de premiação não está sendo encenada por atores para uma paródia que estou fazendo sobre o circuito dos prêmios. Eu quero dedicar esse prêmio a todos os que já olharam para o estado do mundo e pensaram ‘eu não posso ficar aqui numa boa vendo isso acontecer… eu tenho que botar isso em fitas’.”
Lula, o filme, 2º round
setembro 23rd, 2010 § 5 Comentários
Não vou discutir aqui os méritos da escolha de Lula, o Filho do Brasil para disputar uma indicação ao Oscar. Participei no ano passado dessa comissão e sei que os critérios finais não dizem respeito somente à qualidade artística do filme, mas levam em conta, com peso alto, todas as variantes que podem influir na avaliação do filme por espectadores estrangeiros.
Vejo que o anúncio redespertou a fúria dos detratores do filme, especialmente num momento em que as hordas anti-Lula estão alvoroçadas para impedir uma vitória de Dilma Roussef no primeiro turno. Em seu blog, por exemplo, Artur Xexeo achou por bem destacar as restrições de uma resenha publicada hoje no jornal La Nación. O texto dele se refere a uma única resenha, mas o título pode sugerir que toda a crítica argentina “detonou” o filme. A nota diz assim:
Crítica argentina detona ‘Lula, o filho do Brasil’
“A incrível história de vida de Lula da Silva merecia um filme melhor, mais interessante e mais profundo que ‘Lula, el hijo del Brasil’”. Esta é a avaliação da crítica Natalia Trzenko, publicada nesta quinta-feira no jornal argentino “La Nacion”, sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto, que está estreando em Buenos Aires. “Cada episódio da vida do presidente do Brasil é mostrado como se fosse um manual de História escrito por seu biógrafo oficial”, continua a crítica, que deu ao filme a cotação “regular”. O roteiro é considerado “limitado e superficial” pela crítica, que só livrou a cara de Gloria Pires, que, na avaliação do jornal, interpreta “com maestria” o papel de dona Lindu.
Como se vê, os adjetivos e trechos destacados por Xexeo não chegam a justificar o verbo “detonar”. No texto de Natalia Trzenko há elogios também para a performance de Rui Ricardo Díaz e para a cena do comício sem microfone em São Bernardo. Mas os comentários da resenha, no site do La Nación, já incluem o de um brasileiro cheio de vergonha pelo filme e pelo povo que elegeu Lula. O filme de Fábio Barreto virou um catalisador de paixões em torno do seu personagem. Mais de ódio, talvez, que de amor.
Casi dos hermanos
julho 23rd, 2010 § 1 Comentário
No inicio de abril, ainda sob os eflúvios do Oscar para O Segredo dos Seus Olhos, fui entrevistado pelo crítico e repórter Paulo Henrique Silva, do jornal mineiro Hoje em Dia, a respeito de supostas rivalidades cinematográficas entre Brasil e Argentina. A seguir, transcrevo os trechos com minhas declarações.
Mas é claro que vale a pena acessar a matéria na íntegra. Paulo Henrique ouviu também a crítica Neusa Barbosa e incorporou escritos do cineasta Walter Salles.
O sucesso no maior prêmio da indústria faz da Argentina o Pelé do cinema? Para muitos críticos, ter no Oscar um padrão de qualidade é um equívoco. “Isso acaba desfocando a verdade das coisas. Basta lembrar que, com apenas um filme, ‘Cidade de Deus’, tivemos uma influência muito maior no mercado externo do que todo o cinema argentino em sua história. Fernando Meirelles criou um modelo que foi copiado da África do Sul aos Estados Unidos”, destaca Carlos Alberto Mattos, crítico, pesquisador e autor de vários livros sobre a produção brasileira.
Embora não concorde com a comparação, Mattos salienta que o cinema argentino atual possui características muito peculiares, que explicam boa parte do êxito no estrangeiro. Um deles é o cuidado com o desenvolvimento de uma dramaturgia de gosto internacional. “Eles fazem filmes em que os temas e os personagens estão mais próximos do espectador. Mesmo aqueles que têm uma certa excentricidade, como Pablo Trapero (de ‘Leonera’), revelam uma grande preocupação com a narratividade”.
Para o crítico, a cinematografia de nossos hermanos “junta o desejo de diálogo próximo e concreto com o espectador com o aprofundamento das questões”. Ele define os realizadores daquele país como cultos, mas que têm uma objetividade maior em termos de produção dramatúrgica. “Eles estão menos isolados internacionalmente do que a gente, até por causa do idioma. Quando fazem um filme, estão pensando num grande mercado de língua espanhola”, observa.
(…)
Por que o cinema nacional não segue este mesmo caminho? Mattos registra que os diretores brasileiros têm a tendência de procurar mais a experimentação, buscando uma linguagem distante da TV. “A televisão é muito forte no Brasil, estabelecendo um padrão de dramaturgia muito presente e influente. Por isso, nosso cinema geralmente busca fazer algo mais radical, de pesquisa estética e dramatúrgica”, afirma.
Para ele, o ideal é que a cinematografia brasileira achasse um meio termo. “Há um grupo grande que vai ao extremo na busca da experimentação e outro que faz o produto banalizado e comercial, sem uma identidade forte, como comédias românticas de resultado imediato, que trabalham numa linha auxiliar da produção televisiva. Estes filmes funcionam no país, mas não têm a estatura da universalidade, com temas que atinjam plateias internacionais”.
Isso não quer dizer que o país não conte com cineastas que possam se encaixar neste grupo do “meio termo”. Mattos cita Walter Salles, Murilo Salles, Fernando Meirelles e Anna Muylaert como donos de um tipo de dramaturgia que “conjuga uma eficaz comunicação com o público e a busca de temas inteligentes”.
O problema, segundo o pesquisador, é que eles ainda pertencem a um grupo bem menor do que deveria ser o ideal. “É chato dizer que o argentino é humilde, mas o nosso vizinho consegue deixar de lado a vaidade e que certos valores fiquem em segundo plano na hora de produzir um filme”.
A rainha e os críticos
junho 10th, 2010 § Deixe um comentário
Ver um filme e em seguida participar de um bate-papo com críticos de cinema tem sido programa raro no Rio, fora de mostras e festivais. Tem a Sessão Cinética, mensal, no Instituto Moreira Salles, e a Sessão Filme em Foco, também mensal, parceria da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) com o Cicuito Estação. Hoje (quinta) é dia de mais uma sessão com a ACCRJ, apresentando, como sempre, uma pré-estreia. No Estação Botafogo 1, às 19h30, será exibido A Jovem Rainha Vitória. Na sequência, os críticos Leonardo Luiz Ferreira, Luiz Fernando Gallego e Mario Abbade vão conversar sobre o filme de Jean-Marc Vallée.
Pelos Oscars a que foi indicado (direção de arte e maquiagem) e pelo que ganhou (figurinos), A Jovem Rainha Vitória já deixa claro a que estirpe de filmes se filia. É daqueles espetáculos feitos sobretudo para os olhos. Cenários suntuosos (palácios, castelos e abadias inglesas), cenas aptas a catalisar a abundância visual (banquetes, bailes, igrejas lotadas, revistas de guarda), um trabalho de enquadramento e de foco destinado a sublinhar a opulência da imagem. Difícil saber o que impressionou mais os votantes da Academia – se a qualidade dos figurinos ou a sua quantidade.
Afora isso, é a monarquia transformada em folhetim. The Young Victoria descreve a fibra da jovem princesa ao resistir a sucessivos oportunistas e não abrir mão do direito à coroa britânica em meados do século 19. O romance com o Príncipe Albert (Rupert Friend) também ganha um destaque propício ao consumo, juntamente com a beleza da atriz (indicada ao Globo de Ouro) Emily Blunt, bem distinta das feições bolachudas de Victoria. Há, naturalmente, um vilão de chutar cachorrinho, no caso o detestável Sir John Conroy (Mark Strong) e uma mãe quase macbethiana (Miranda Richardson) que justifica todo o rancor da futura rainha. Enfim, é a Casa de Windsor vista como uma antecipação dos tempos da mulher livre e independente.
Assim como o filme do Lula, o Che retratado em Diários de Motocicleta e a Coco Antes de Chanel, a Rainha Vitória que vemos aqui se resume aos seus anos de formação. O famoso rigor vitoriano, associado a conservadorismo moral, ainda não aparecia no horizonte da esfuziante e jovem monarca.
Os argentinos e nós
março 10th, 2010 § 12 Comentários
Uma das boas notícias da noite do Oscar foi a vitória inesperada de O Segredo dos seus Olhos na categoria de melhor filme em língua estrangeira. Surpresa não pela qualidade do filme, que é inequívoca, mas pelo franco favoritismo de A Fita Branca e O Profeta. Só sei que alguma coisa me alertava para uma possível façanha argentina, pois o coloquei em segundo lugar na bolsa de palpites que faço com amigos.
Nem os críticos argentinos que habitualmente torcem o nariz para os filmes de Juan José Campanella – los anticampanellistas – resistiram ao charme e à verve narrativa de O Segredo. A maneira envolvente como ele coloca vários gêneros para conversar e chega a níveis relativamente profundos nos aspectos humano e político, sem jamais perder o pulso da plateia, é realmente admirável. São duas histórias de amor paralelas, atravessadas por uma suspeita hitchcockiana, pelo humor (às vezes negro) e pela observação política que não emperra o fluxo do argumento central.
Campanella pode não ser o “auteur” que certos críticos exigem, mas deixa suas marcas bem claras. Seja no personagem cômico, sempre presente em seus filmes; seja na engenhosa combinação do doce e do amargo, da nostalgia portenha com a teimosia em busca da felicidade; ou ainda na presença iluminada do sutilíssimo Ricardo Darín, sem o qual não dá para imaginar o que seria do cinema de Campanella. O Segredo é um primor de ritmo e traz uma das cenas mais virtuosísticas do cinema recente, que é o plano-sequência do estádio de futebol, arrebatador como resumo do tema da paixão.
Eu imaginava que a Academia poderia se emocionar com tudo isso – e fazer vista grossa para o que mais me incomoda no filme, que é o bloco final. Ali a narrativa de Campanella fica didática, com aqueles horríveis “ecos” de lembrança, e inverossímil no desfecho do viúvo apaixonado.
De qualquer forma, é muito mais cinema do que tudo o que o Brasil colocou no páreo pelo Oscar este ano. A Folha de São Paulo fez uma matéria sobre isso na semana passada. Minhas declarações ali resumidas requerem um pouco mais de espaço.
De fato, acho que o cinema brasileiro de ficção está num impasse em relação ao mercado internacional. De um lado, temos filmes ambiciosos do ponto de vista autoral, chegados ao experimental, mas capazes de se comunicarem apenas com plateias mínimas, especialmente motivadas. De outro, estão os filmes ultracomerciais, pautados pelo gosto de um público acostumado com a televisão, e que não têm estatura para competir longe do front doméstico.
Não há muito entre esses dois extremos. Poucos são os realizadores que investem no caminho do meio, tentando conciliar invenção e comunicação, cor local e universalidade, ousadia e artesanato. Walter Salles, Fernando Meirelles, Karim Ainöuz, Murilo Salles e Walter Lima Jr. estão entre eles. Já Beto Brant é exemplo de um cineasta que trocou a via da universalidade (culminante em O Invasor) por exercícios mais radicais e de difícil circulação.
Não me venham falar de Tropa de Elite em Berlim. Aquele foi um evento misterioso, inexplicável, que não repercutiu muito além dos limites da própria Berlinale. O Oscar de Campanella, isso sim, tornou ainda mais evidente o fosso entre os cinemas de ficção brasileiro e argentino em matéria de alcance além-fronteiras. Nossa mania de autossuficiência talvez cochiche que não precisamos do mercado estrangeiro. Mas na hora de competir, sempre acabamos nos lamentando ou apontando “culpas”. A verdade é que nosso cinema participa apenas marginalmente da cena internacional. Talvez por uma simples razão: o que não é produzido para ser universal não pode ser vendido depois como tal.
Perdemos geral
março 7th, 2010 § 2 Comentários
Na última quarta-feira, a Folha Ilustrada publicou uma matéria de capa sobre a concorrência pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. O foco do artigo era a distância qualitativa entre os filmes brasileiros que disputaram uma indicação e os cinco afinal indicados. Eu fui um dos entrevistados pela repórter Ana Paula Sousa, devido à minha participação na comissão que escolheu Salve Geral para representar o Brasil. Para quem não leu e tiver interesse, aí vai o texto:
Cinema café com leite
Qualidade dos concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro evidencia o quanto o Brasil, com “Salve Geral”, mais uma vez passou longe de conseguir uma vaga na disputa
ANA PAULA SOUSA
DA REPORTAGEM LOCAL
A língua da festa será o inglês. Mas certos convidados notáveis estarão ali, justamente, porque falam um outro idioma. Nesta edição do Oscar, estão abrigados sob a categoria “filme em língua estrangeira” alguns dos melhores títulos que o mundo viu em 2009. Eles não figuram nas listas organizadas em ordem de cifrões, mas saíram com troféus de festivais como Cannes e Berlim.
Goste-se mais ou menos de cada um deles, é indiscutível a qualidade dos cinco finalistas dessa categoria que, em vários anos, chegou manca à festa. Esta seleção, ao contrário, evidencia a qualidade do cinema feito em diferentes países. E, no caso do Brasil, nos leva a uma constatação: são muitos os quilômetros que separam a produção nacional do Kodak Theatre, em Los Angeles, onde acontecerá, no domingo, o Oscar.
“Há uma grande diferença de estatura entre esses filmes e os nossos”, diz o crítico Carlos Alberto Mattos, integrante da comissão que escolheu “Salve Geral”, de Sérgio Rezende, para tentar uma vaga. Depois de ver “O Profeta” (França), “A Teta Assustada” (Peru), “O Segredo dos Seus Olhos” (Argentina) e “A Fita Branca (Alemanha) – o israelense “Ajami” não chegou ao Brasil – a resposta para a ausência brasileira torna-se, mais do que óbvia, ululante.
“Isso é reflexo do cinema brasileiro que, a não ser por uma ou outra exceção, não tem relevância internacional”, diz Luiz Gonzaga de Luca, também integrante da comissão e diretor do Grupo Severiano Ribeiro. “Alguns cineastas tentam negar a importância do Oscar. Mas, e Berlim, também não importa? Fazemos um cinema para o mercado nacional e ponto.”
Começa aí a diferença entre os filmes que o Brasil embarca em voos internacionais e aqueles que, efetivamente, têm condições de competir. “O Profeta” ganhou nove prêmios César, o mais importante da França; “O Segredo dos Seus Olhos” saiu com troféus do Goya, o prêmio espanhol; “A Fita Branca” venceu Cannes e “A Teta Assustada”, Berlim – para ficar nos eventos mais estrelados.
Apesar de ser uma festa do cinema hollywoodiano, o Oscar recebeu, neste ano, 65 inscrições de outros países. “Uma indicação muda a história de uma produção. Já tínhamos vendido o filme para 20 países, mas agora temos a garantia de que será bem lançado”, diz Mariela Besuievsky, produtora espanhola de “O Segredo de Seus Olhos”.
Cabe lembrar que, pela estreita porta da Academia, tampouco conseguiram passar concorrentes fortes como “Polícia, Adjetivo” (Romênia) e “Mother – a Busca da Verdade” (Coreia do Sul), filmes tornados cult.
Hengameh Panahi, da Celluloid Dreams, que produziu “O Profeta” e outros biscoitos finos do cinema autoral, diz que a seleção reflete, também, a mudança pela qual passa o mercado para os filmes não-hollywoodianos. Ela observa que, para conseguir existir na TV ou no DVD, um filme tem não só de ter passado pelos cinemas como ter causado algum burburinho. “Precisamos de histórias marcantes, bem dirigidas e atuadas. Precisamos de menos e melhores filmes”, diz.
Carlos Gerbase, cineasta brasileiro que estava na comissão, acha, por outro lado, que é da quantidade que esses países tiram suas pérolas.
“As TVs francesas estão cheias de filmes franceses. As salas também. Com quantidade e diversidade, mais uma política que consegue levar os filmes para o público, a qualidade é grande e aí as obras-primas aparecem”, defende.
Para Gonzaga, o problema do Brasil não é a falta de filmes, e sim a crise de identidade. “O Brasil, há 60 anos, vive uma polarização entre arte e indústria. Não temos o meio tom. No fim, vai para o Oscar o filme mais bem finalizado.” Matos, por sua vez, crê que a escolha de “Salve Geral” possa ser um divisor de águas. “As comissões tendem a achar que há temas propícios para serem indicados, que os votantes esperam alguns clichês sobre o Brasil. Talvez eles queiram ser surpreendidos.”
CARLOS ALBERTO MATTOS
crítico de cinema, integrante da comissão que escolheu “Salve Geral”
Cameron is coming
fevereiro 24th, 2010 § 4 Comentários
Dois posts abaixo eu dizia que tinha dois segredos para contar em breve. Um deles já vazou numa revista semanal cujo nome me recuso a repetir. James Cameron, o mago de Titanic e Avatar, vem ao Brasil em fins de março, trazido pela empresa Seminars. Fará duas conferências – uma em Manaus, sobre sustentabilidade, e outra em São Paulo sobre temas ligados a cinema, espetáculo e tecnologia.
É bem provável que chegue por aqui com alguns Oscars na bagagem. Isto é, se a ex-mulher não lhe roubar todos.
“Salve Geral” e o Oscar
setembro 18th, 2009 § 10 Comentários
Cheguei há pouco da reunião da comissão que indicou Salve Geral como candidato brasileiro a uma indicação da Academia para o Oscar de melhor filme em língua estrangeira.
Por norma, não podemos relatar o processo de escolha. Mas, como foi divulgado que o resultado não foi por unanimidade, mas por votação, posso dizer que três filmes ficaram na reta final das discussões. O filme de Sérgio Rezende acabou escolhido por diversas razões. A principal delas foi a maturidade do diretor no trato com um tema áspero, que se reflete no nível técnico, artístico e de produção. Não é um filme perfeito, mas tem competitividade para disputar uma indicação.
O fato de que vários filmes com temática semelhante concorreram no passado recente nessa categoria e fracassaram – Cidade de Deus, Carandiru, Última Parada 174 – foi obviamente levantado pela comissão. Mas isso não representou um empecilho diante das qualidades de Salve Geral. O filme é comunicativo para um público amplo e articula com felicidade o drama pessoal de uma mater dolorosa com o panorama de insegurança e descontrole vivido pela cidade de São Paulo no episódio do PCC.
Há quem diga que Salve Geral é a resposta carioca a Cidade de Deus, um filme paulista focado no Rio de Janeiro. Se Sérgio Rezende obtiver metade da repercussão obtida por Fernando Meirelles, já será uma vitória e tanto para o Brasil. O Oscar, isso nenhuma comissão é capaz de prever. Vamos cruzar os dedos.






