A hora da verdade

abril 10th, 2012 § 1 Comentário

Cena de "El Cultivo de la Flor Invisible"

Esta quinta-feira, 12 de abril, será o Dia da Verdade no Brasil. O Supremo Tribunal Federal julgará a ação da OAB sobre o cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Araguaia. Na mesma ação, decidirá se os crimes de desaparecimentos políticos estão abrigados pela lei de anistia e ficarão impunes. A sociedade civil está mobilizada para pedir aos ministros do STF que não deixem passar a oportunidade histórica de fazer justiça aos mortos pelo regime militar.

Um filme uruguaio que passou em mostra paralela do recente É Tudo Verdade dá um claro exemplo de como isso pode ser feito pelas vias da pressão popular, desde que haja um governo disposto a fazer a coisa certa. No Uruguai, por 30 anos um grupo organizado de familiares de desaparecidos políticos lutou para saber o que foi feito de seus entes queridos. Só no período 2005-2010, quando o socialista Tabaré Vasquez esteve no poder, foi que se conseguiu escavar, literalmente, o passado, localizar e exumar restos mortais enterrados clandestinamente pelas forças de repressão nos anos 1970.

El Cultivo de la Flor Invisible é o título um tanto alegórico do longa-metragem de estreia do jovem mas experiente Juan Alvarez Neme. Ele registrou passeatas, manifestações e o trabalho de arqueólogos na procura de restos em fazendas particulares e numa lagoa nas redondezas de Montevidéu. Sobretudo ouviu as mães de alguns desaparecidos e suas razões para persistir na busca de informações e, quando nada, dos ossos de seus filhos. Ou mesmo recusar-se a isso. Elas desfiam suas lembranças dos filhos, do pouco que sabem sobre as condições em que foram detidos e da imensa dor de, de uma hora para outra, nunca mais ter recebido qualquer notícia deles. São memórias para uso diário, para citar o belo título do doc de Beth Formaggini que tratou de tema semelhante junto ao grupo Tortura Nunca Mais no Brasil.

O doc de Neme é principalmente um filme sobre a vitória da luta e da perseverança. Aquelas senhoras e senhores são vistos em momentos de relativa conquista. Numa cena emocionante, eles se reúnem para assistir na TV a um comunicado decisivo de Tabaré Vásquez no sentido de proceder à localização dos corpos. De alguma forma, é como se víssemos um passo adiante na concretização do que está no filme de Beth e no extraordinário Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán. O diretor/roteirista conta com a inestimável colaboração de mulheres dotadas para o relato verbal e capazes de formar um espectro heterogêneo de motivações e experiências pessoais. Ou seja, embora haja um sentimento de grupo, há também uma riqueza de diferenças na forma como elas se posicionam frente ao passado e ao presente.

Outro aspecto forte do doc, embora tocado apenas superficialmente, é a colaboração entre as ditaduras argentina e uruguaia na prisão e repatriamento de ativistas – o que já vimos mais detalhadamente no brasileiro Condor, de Roberto Mader. Há apenas poucos anos descobriu-se que voos clandestinos transportavam de volta presos políticos uruguaios capturados em Buenos Aires. Eles eram levados para morrer “em casa”.

É curioso que ainda não tenha havido um sucedâneo dessa colaboração entre os governos de esquerda recentes na América do Sul para por fim a esse silêncio. Iniciativas como a de Tabaré Vásquez no Uruguai, o fim da lei da anistia na Argentina e a Comissão da Verdade brasileira poderiam se fortalecer se houvesse simultaneidade e coordenação. Numa escala pequena e simbólica, uma exibição mais ampla de El Cultivo de la Flor Invisible por aqui seria oportuna e benfazeja. O filme vai estrear no Uruguai em muito breve.

O chamado da selva

dezembro 23rd, 2011 § 1 Comentário

Em sua obra-prima, O Chamado da Selva, o escritor Jack London narra as transformações de um cão São Bernardo. Originalmente doméstico e civilizado, Buck é raptado e vendido a aventureiros do ouro no Alasca do século 19. Subjugado, maltratado e exposto a condições extremas de sobrevivência, ele aos poucos vai abandonando os nobres sentimentos. Passa a disputar agressivamente as melhores posições e eliminar concorrentes. Finalmente, faz contato com seus instintos primordiais e se converte numa fera indomável, capaz de estraçalhar animais e homens.

Lembrei-me dessa leitura enquanto assistia a Tudo pelo Poder. No fundo, a história contada aqui por George Clooney, a partir de peça de Beau Willimon, é tão behaviorista quanto a de Jack London e tem muitos pontos de contacto. Substitua-se Buck pelo assessor de imprensa Stephen Meyers (Ryan Gosling) e a selva pela campanha a uma indicação Democrata nas primárias de uma eleição presidencial americana. O que temos é uma parábola sobre a dificuldade em preservar a pureza e o idealismo na luta pelo poder. Atacado por todos os lados, deixando flancos abertos por um misto de ingenuidade e ambição, Stephen é como um cão fiel a seu dono, desde que possa descansar a cabeça sobre seu colo e sentir-se o preferido. Ao perder esse posto, não medirá atitudes para satisfazer o orgulho ferido. O candidato vivido por Clooney, o dono do cão, também terá testados os seus princípios imaculados quando for preciso salvar as aparências e a candidatura.

O título original refere-se, um tanto pomposamente, aos célebres “Idos de Março”, episódio da morte de César por conspiradores no século 44 AC. Talvez a pretensão de Clooney tenha sido maior que o material em suas mãos. Tudo pelo Poder não é muito mais que um bom filme, claramente bem dirigido e roteirizado. O drama político se torna um thriller a meio caminho, valendo-se de bons paralelos entre a “vitrine” da campanha – os discursos, entrevistas e performances públicas do candidato – e os bastidores, onde se arma o jogo dos blefes, chantagens e intimidações. Numa cena excepcional, essas duas linhas vão se encontrar em torno de um simples chamado num celular.

Como se não bastasse o caso Clinton-Lewinski, o democrata Clooney volta a alertar os políticos para o perigo sempre latente das estagiárias sexy. Elas também podem acionar o “chamado da selva”.

Democracia ou escambo?

dezembro 17th, 2011 § 3 Comentários

Diz o senso comum que a democracia representativa é uma merda, mas não existe melhor opção. Pois até o senso comum fica ameaçado por amostras como as contidas no documentário Porta a Porta – A Política em Dois Tempos. Marcelo Brennand acompanhou a campanha para prefeito e vereador em 2008 na cidade pernambucana de Gravatá. Coletou evidências de que o jogo eleitoral, ali como em tantas cidades do interior do Brasil, não passa de um escambo quase primitivo de favores, empregos etc. OK, sabemos disso muito bem, mas nem sempre temos a chance de ver o monstro em ação.

Para começar, numa cidade pequena como aquela, de 80.000 habitantes, sem indústria nem produção rural expressiva, o município é o principal empregador. Ter seu voto ou seu trabalho de cabo eleitoral “reconhecido” pelo candidato vitorioso pode significar um posto de trabalho mais adiante. A própria militância na campanha é um emprego sazonal precioso, com salários que superam a média dos menos favorecidos. Ninguém disfarça – sequer diante das câmeras – que um voto pode ser trocado por uma porta de banheiro ou um exame de vista, ainda que nenhuma das partes venha a cumprir sua palavra – nem o político depois, nem o eleitor na hora da urna.

Por conta de toda essa movimentação, que altera profundamente a rotina do lugar, a cidade se divide como na festa do Boi de Parintins: azuis e vermelhos se enfrentam nas ruas, às vezes fisicamente. O título do filme se refere à prática dos candidatos e militantes de bater a cada porta para pedir “a sua confiança e o seu voto”. Os candidatos são comerciantes, taxistas, lavradores, e suas motivações variam da tradição familiar ao senso de oportunidade. Inaugurar três semáforos ou remodelar um açougue são façanhas que podem assegurar uma reeleição. Quem falar em ideologia corre o risco de ser tomado por grego.

Porta a Porta usa uma narração em primeira pessoa do diretor para se orientar no período da campanha e na volta à cidade um ano depois das eleições. Não há grandes pretensões além de narrar seu case e rascunhar alguns bons personagens. Mas ao flagrar momentos realmente definidores de uma prática política bem distante dos ideais democráticos, o filme diz a que veio.

Quebrando Fernando

junho 18th, 2011 § 3 Comentários

Fernando Henrique Cardoso está fazendo hoje 80 anos. Parabéns, FHC. Como todo ex-estadista digno, ele merece as devidas homenagens. Mas o que está acontecendo vai muito além disso. Fernando Henrique torna-se octagenário a bordo de um lifting, se não facial, pelo menos político.

Várias circunstâncias contribuíram para que FHC restasse como única reserva de liderança nacional para o PSDB, melhor dizendo, para quase todos os que se opõem aos governos Lula-Dilma. Com o fracasso rotundo de Serra (não tanto em termos eleitorais, mas de imagem pública), as dificuldades para fazer de Alckmin ou Aécio nomes de apelo fora de suas regiões e a falta de outros candidatos a isso, ficou para os ombros do Príncipe da Sociologia a responsabilidade de sustentar um lastro de identidade para a oposição. FHC é como um jogador que não participa do jogo, mas é colocado bem à vista na beira do gramado para inspirar quem está dentro do campo.

Um certo sistema da oposição se organizou em torno dele. Participam fundações, banqueiros, colunistas de jornal e gente da área do entretenimento. Merval Pereira o situou ontem na “vanguarda dos movimentos sociais” por defender a descriminalização da maconha e a aproximação da oposição à classe média conectada na internet. O documentário Quebrando o Tabu, produzido por admiradores do “presidente” e dirigido por um jovem cineasta, tem tudo para ser visto como parte dessa empreitada.

Foi muito feliz a coincidência do lançamento do filme com a decisão do STF de resguardar o direito dos que defendem a legalização das drogas. Como um dos argumentistas e estrela principal, Fernando Henrique faz algo análogo a Al Gore com sua pauta ecológica e o sermão fílmico Uma Verdade Inconveniente (reparem que até o título Quebrando o Tabu busca um efeito semelhante). É justo e positivo que ex-presidentes cavem um lugar de afirmação na grande cena política e sigam contribuindo para o bem da Humanidade. Mas a analogia entre esses dois casos só faz evidenciar a imensa distância que os separa.

Quebrando o Tabu simplesmente não consegue fazer de Fernando Henrique um real protagonista. Na maior parte do tempo, quando não está verbalizando clichês sintéticos sobre o fracasso da guerra às drogas (a única afirmação sólida do filme), ele está apenas ouvindo e concordando com seus interlocutores, como um âncora inerte. Como personagem de doc, é canastrão até ao ouvir de cenho franzido. Ou a edição não soube aproveitar seus melhores momentos nas conversas, ou não houve mesmo melhores momentos.

Com poucas exceções, o filme não procura pessoas pelo que elas conhecem sobre o tema, mas pelo “valor” que podem somar ao filme ou associar ao personagem central. FHC é mostrado sempre em paralelo a presidentes e ex-presidentes, celebridades sem muito o que dizer sobre o assunto (como Paulo Coelho e o ator Gael García Bernal) e jovens estudantes ou militantes junto aos quais o sociólogo se contagiaria de juventude e militância. Algumas cenas provocam riso involuntário, como a de FHC subindo o morro para investigar in loco a questão do tráfico ou denunciando quem fala sobre drogas sem “vivência direta” do assunto.

O roteiro é muito ruim, dispersivo e cheio de ênfases erradas. A pauta (sim, porque esse é um filme com uma pauta) resulta confusa entre descriminalização, legalização e liberação das drogas em geral, ou só da maconha, ou não é bem isso… Uma argumentação cheia de dedos, que talvez não faça jus sequer ao que Fernando Henrique de fato esteja representando nessa discussão.

A volta de FHC ao proscênio da atividade política pode até se concretizar, mas não creio que esse filme ajude muito no projeto.

Todas as cores da África do Sul

junho 8th, 2011 § 1 Comentário

Uma simples visita turística ao país de Miriam Makeba é suficiente para se perceber que, à falta de uma segregação institucional, outros modos sutis e disseminados de diferenciação continuam a separar negros e brancos. O único vestígio de discriminação formal é uma brincadeira com os visitantes do Museu do Apartheid, em Johannesburgo, que recebem tickets aleatórios de “White” ou “Black” e a sugestão de entrar pela porta correspondente. Mas se os negros assumiram o poder político na dinâmica da nova democracia multirracial, ainda estão longe de dominar o poder econômico na mesma proporção.

Leia a íntegra do meu artigo sobre os ecos do apartheid no Balaio de Notícias, para o qual escrevi especialmente, a pedido do editor Paulo Lima.

Ícone de uma síntese

abril 4th, 2011 § 1 Comentário

REAGAN
de Eugene Jarecki

Se você acha que Ronald Reagan foi o principal ideólogo do sistema econômico que aprofundou as diferenças sociais e levou os EUA às crises recentes, então espere até conhecer Arthur Laffer, o economista que mais forneceu argumentos à Reaganomics. O almofadinha de Ohio aparece em Reagan explicando mais uma vez a sua “curva de Laffer” e sua exdrúxula teoria de que os ricos não devem pagar altos impostos para que haja cada vez mais ricos e menos pobres. Laffer é um dos muitos entrevistados por Eugene Jarecki (Why We Fight) para compor esse retrato multifacetado do ex-presidente americano.

A produção da HBO Documentaries tem aquele perfil clássico e muito eficiente de cercar o biografado por todos os ângulos através de um roteiro impecável, ritmo sugestivo de cada fase da trajetória e material de arquivo abundante e bem acionado. Reagan surge, portanto, como uma imagem construída desde os tempos de ator em Hollywood, garoto-propaganda da General Electric e patriota liberal cooptado pelos conservadores entrincheirados nas grandes corporações. Uma imagem de liderança a rigor vazia e falseadora, mas comprada com satisfação pelo americano médio assustado com as ideias socialistas. De tudo o que relata, o filme enfatiza sobretudo a profunda identificação entre política, consumo e entretenimento que predomina no imaginário americano. Reagan talvez tenha sido o ícone mais vistoso dessa síntese.

Um dos trunfos narrativos do doc é a diferença entre dois filhos de Reagan: o progressista Ron, que tenta separar as virtudes dos equívocos do pai; e o adotivo Michael, um conservador que gosta de posar diante de fotos de Reagan e festejar o seu legado.

Animação contra o desânimo

abril 4th, 2011 § 1 Comentário

A ONDA VERDE (THE GREEN WAVE)
de Ali Samadi Ahadi

Quando Ahmadinejad e o clero conservador sufocaram com mão de ferro a rebelião dos jovens verdes contra as fraudes das eleições de 2009, a única fonte de informação confiável eram os blogs, as redes sociais e as imagens de vídeo e celulares contrabandeadas através da internet. Na época, antes que as Google Revolutions derrubassem as ditaduras da Tunísia e do Egito, aquele fluxo caseiro não foi suficiente para deter o escândalo eleitoral e o massacre da oposição em Teerã.

É com esse material que The Green Wave constrói um poderoso libelo sobre o sonho interrompido da juventude e dos progressistas iranianos. Relatos de 15 blogs, além de mensagens do Twitter e do Facebook, inspiraram uma narrativa adaptada à animação. O efeito é muito poderoso, ficando a meio caminho entre o documento sonoro e a reencenação visual. Ao contrário do premiado Valsa com Bashir, as cenas animadas não predominam no filme, mas apenas fornecem um pathos dramático ao que é descrito em palavras, combinando-se com materiais filmados na rua e depoimentos de ativistas, jornalistas e reformistas.

Diretor, equipe e entrevistados são iranianos expatriados, sobretudo na Alemanha, onde o filme foi produzido. Todos eles sabem que, depois desse doc, tão cedo não poderão voltar ao Irã. Mas o tom das palavras que ouvimos no filme  não é só de revolta, terror e desânimo com o esmagamento da Onda Verde. Abatida mas persistente, resta uma voz de esperança pela “reconstrução da nossa nação”.

Emocionante como peça histórica, o filme de Ali Samadi Ahadi testemunha também a importância que os blogs e as redes sociais vão assumindo na realização de documentários. Eles “aquecem” os dossiês colocando a experiência humana à frente das visões profissionais do jornalismo. Um dos melhores filmes desse festival.     

O homem diluído na História

abril 4th, 2011 § 1 Comentário

TANCREDO, A TRAVESSIA
de Silvio Tendler

Isso não é uma crítica, mas uma primeira aproximação ao novo longa de Silvio Tendler. Procuro ser cauteloso ao falar de seus filmes porque o Tendler acha que, ao contrário da minha grande admiração pelos clássicos Os Anos JK e Jango, eu agora “persigo” seus trabalhos recentes. O fato é que, a meu ver, Silvio continua a fazer bons documentários, mas bons documentários dos anos 1980. Boas aulas de História, mas não muito mais que aulas de História.

Tancredo, a Travessia é mais um desses tours-de-force de recompilação histórica baseada em vasta coleta de material de arquivo, depoimentos um tanto oficiais e um texto de narração onisciente – tudo organizado segundo uma estrita cronologia linear. O didatismo, apreciado por uns e execrado por outros, cobra um preço alto quando faz todas as particularidades se diluírem em benefício de um relato genérico e excessivamente codificado. Sem contar que o texto da narração não tem a mesma qualidade de sugestão e envolvimento dos filmes sobre JK e Jango.

Durante mais da metade inicial, Tancredo Neves parece confinado ao papel de “figurante com fala” na roda viva da política nacional. Mesmo que tivesse sido assim mesmo, parece-me lícito esperar de uma biografia que vá buscar, em cada momento e contexto, onde o personagem foi protagonista. O doc informa muito pouco sobre sua ascensão na política mineira e a formação de sua personalidade conciliadora e aparentemente bonachona. Somente quando ele é guindado à condição de candidato à presidência, ocupando o centro das atenções do país, é que Tancredo de fato ocupa o centro do filme. Em lugar de procurar o grande no pequeno, Tendler espera o grande ficar grande para organizar nossa atenção em torno dele.

O desejo sempre presente de montar painéis históricos o leva a abrir generosos espaços para eventos grandiosos sem ressaltar na mesma proporção aquilo em que Tancredo contribuiu ou participou. O episódio das Diretas-Já é um exemplo de concessão à emoção política e perda de objetividade – a ponto de incluir um depoimento totalmente descontextualizado de Maitê Proença.

É claro que sempre há boas declarações e boas histórias em torno dos conchavos, das atitudes e das posições de Tancredo. A razão de ele não ter sido cassado por Castelo Branco é uma delas. A eleição no Colégio Eleitoral em 1985, o choque da doença e a morte são os episódios de narrativa mais sólida, embora nada se mencione das teorias conspiratórias que surgiram na época a respeito de um possível atentado político. Mas o que mais senti falta foi de uma interpretação menos superficial do que Tancredo representou para o país, em sua longa carreira de eminência parda e personificação de uma certa mediania bem brasileira.  

Pois é, acabou sendo uma crítica. Mas é sincera e, se reitera alguns pontos de vista, nada tem de “perseguição”.            

O sistema e a bolinha de papel

janeiro 28th, 2011 § 1 Comentário

Neste sábado, de 14h30 às 17h, a 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes vai formar uma mesa para debater as relações entre estética e política no cinema brasileiro contemporâneo. Vou participar junto com os críticos e pesquisadores Cezar Migliorin, Claudia Mesquita e Francis Vogner dos Reis, mediados pelo curador do festival, o crítico Cleber Eduardo. Para o catálogo da mostra, preparei o seguinte texto sobre alguns diálogos entre audiovisual e política nas temporadas 2009 e 2010: 

 

 

 

 

 

 

O sucesso estrondoso leva Tropa de Elite 2 a frequentar quase todas as conversas sobre o cinema brasileiro do momento. Mas daí a apontá-lo como “o” filme político da temporada vai, no mínimo, uma discussão. As inquietações políticas que perpassam o filme de José Padilha são meras repercussões da caixa de ressonância social quando se fala de criminalidade x ordem. O drama do Capitão Nascimento acolhe uma certa percepção da classe média urbana segundo a qual as mazelas são resultado de um emaranhado de razões, resumidas no conceito de “a política”. Ou, conforme o jargão neo-sessentista do filme, “o sistema”.

O diagnóstico de sistema doente, no fundo, aplaca a inquietação, pois exime-se de localizar personagens e pontos de crucialidade. Estabelece-se uma cadeia de conexões que vai do bandidinho ou do policial menor, passando pela mídia, até as esferas maiores de poder – concluindo, é claro, com um sobrevoo acusatório de Brasília. Em troca da discussão, temos a catarse promovida pela constatação de que “está tudo errado”. A política como um todo sai desqualificada.

Tropa 2 teve, no entanto, um valor considerável na arena da política cultural quando aqueceu os números da ocupação do mercado pelo filme nacional. Assim forneceu “dados concretos” para que o cinema brasileiro chegasse fortalecido à aurora de um novo governo e um novo Ministério da Cultura.

Nesse mesmo diapasão, um filme como 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos assume um papel político bem mais importante do que a maioria daqueles que se dispuseram a “falar de política”. Os meninos do Cacá bancaram uma afirmação da voz comunitária não apenas como interferência exótica no fluxo das emissões mainstream, mas como uma emissão em si, capaz de disputar espaço nos cinemas de shopping como nos tabuleiros de DVDs piratas.     

Com o retrovisor ajustado na temporada 2009/2010, reencontramos José Padilha com o documentário Garapa, que eu interpreto como uma tentativa de desmentir o alcance da política social do Governo Lula no Nordeste ou mesmo um contraponto (estético e político) à narrativa edificante de Lula, o Filho do Brasil. Esta polarização, entretanto, não encontra eco no banho-maria dos demais lançamentos.

Como nos últimos anos, predominaram as revisitas ao período ditatorial e a outros momentos da História do país, com mínima repercussão na atualidade. Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler, foi dos poucos a tentar uma articulação entre passado e presente. Mesmo um filme poderoso e raro como Cidadão Boilesen, de Chaim Litevski, tinha sua eficácia circunscrita ao campo do filme histórico. Da mesma forma, o tocante Diário de uma Busca, de Flávia Castro, limitava seu raio de ação ao resgate pessoal e a um lapso temporal demarcado.

A análise do fazer político, incrementada ultimamente pelos filmes de campanha, teve dois títulos circulando em festivais: Os Representantes, de Felipe Lacerda, e Arquitetos do Poder, de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé. Mais no primeiro que no segundo, as ferramentas do cinema documental serviram para nos aproximar de certas práticas político-eleitorais, ainda que sem revelar grandes novidades para quem acompanha o noticiário jornalístico.

A campanha eleitoral de 2010, aliás, foi o terreno por excelência da guerra audiovisual, travada principalmente no circuito televisão-internet. O episódio da bolinha de papel explicitou claramente o combate entre o poder instituído dos grandes canais de TV e a guerrilha cibernética, cada qual defendendo – ou mesmo forjando – suas versões no quadro de uma disputa pela evidência de “verdade”. Não sei se em algum outro momento da História política brasileira o registro da imagem em movimento assumiu tal protagonismo, projetando-se para as esferas da moral, da crônica pitoresca e da influência sobre os destinos da nação.

Pachamama, de Eryk Rocha, Olhos Azuis, de José Joffily, e o doc A Chave da Casa, de Paschoal Samora e Stela Grisotti (sobre imigrantes palestinos no Brasil), se destacaram por implicar em sua temática o lugar político do Brasil no cenário internacional. Destacaram-se sobretudo pela raridade com que o cinema brasileiro se abre para questões de além-fronteira, mesmo agora que o país reivindica um papel mais definidor no cast mundial.

É óbvia também a dimensão política de certas observações de classe, como as levadas a cabo por Sérgio Bianchi (Os Inquilinos), Gabriel Mascaro (Um Lugar ao Sol) e Marcelo Pedroso (Pacific). Ou de uma evocação artístico-histórica como Dzi Croquetes, o mais político da safra recente de docs musicais. Mas não quero aqui somar argumentos ao velho clichê de que “tudo é político”. Reconheço gradações fundamentais entre filmes que apenas tangenciam esse campo ao tratarem de questões antropológicas, existenciais e culturais; os que confrontam diretamente assuntos da política; e ainda aqueles que se propõem a ter, eles próprios, um desempenho político.

Um misto de descrença no papel extracinematográfico do cinema, individualismo blasé e interesse comercial responde talvez pela baixa incidência de filmes com ambições de intervenção política no Brasil de hoje. Mesmo a expressão de inquietações políticas passa por um filtro de espetacularização e “humanização” (Salve Geral é um bom exemplo), quando não esboroa em formatos desprovidos de empatia (o doc Luto como Mãe é um caso).      

Daí a conveniência de citar, como exceção à regra, o doc paulista O Abraço Corporativo. Para denunciar a vulnerabilidade da mídia ao “novidadismo” e à “superfluocracia” (os termos entre aspas são meus), o diretor Ricardo Kauffman, um jornalista de economia, criou um fictício consultor de recursos humanos e uma fictícia Teoria do Abraço Corporativo, e colocou-os na roda dos eventos midiáticos. O filme acompanha o processo em que a lebre é comprada como gato por importantes jornais e canais de TV. Ao constituir-se como peça de intervenção na realidade e expor os resultados, o filme descortina modos e manias de uma imprensa que se arvora em instituição política de primeira grandeza.

É preciso ter ‘Raça’

dezembro 22nd, 2010 § Deixe um comentário

O lançamento de Cinderela, Lobos e um Príncipe Encantado foi dos mais discretos. O documentário sobre as relações entre mulheres brasileiras e homens estrangeiros ficou em cartaz por duas semanas no Ponto Cine e no Cine Santa Teresa. Continuo torcendo para que tenha uma chance também na Zona Sul. Mas Joel Zito Araújo não está parado. Ele vai concluindo mais um opus de outra temática, a sua preferida: o lugar dos negros na sociedade brasileira.

O drama Filhas do Vento e, sobretudo, o doc A Negação do Brasil são capítulos marcantes de uma reflexão sobre os preconceitos e estereótipos que envolvem o papel dos afrodescendentes, seja na vida, seja na representação. Um novo doc, Raça, vai enfrentar o assunto na arena da política. 

Sem entrevistas nem narração, Raça acompanhou três personagens em momentos cruciais de sua luta. O senador Paulo Paim (PT-RS) tentava costurar acordos no Congresso para aprovar seu longamente acalentado Estatuto da Igualdade Racial. O cantor e político Netinho de Paula (atual vereador pelo PCdoB/SP) lançava sua emissora TV da Gente (2005-2007), dedicada a promover a isonomia entre negros e brancos. No interior de Minas Gerais, a ativista Miuda dos Santos liderava manifestações contra a Aracruz Celulose e em defesa das terras quilombolas.

Miuda dos Santos

Com recursos da Petrobras e da Ford Foundation, a co-produção (e co-direção) vem sendo tocada a quatro mãos por Joel e pela documentarista americana Megan Mylan, vencedora do Oscar de curta doc em 2008 por Smile Pinki e de outros grandes prêmios por Lost Boys of Sudan. Joel e Megan se conheceram em 1993 e vinham alimentando o desejo de trabalhar juntos desde que Joel esteve na Universidade do Texas, em 2001. A sinopse do projeto na produtora americana permite deduzir que havia um quarto personagem, um estudante beneficiado por ação afirmativa, que acabou não entrando na versão final, editada pela onipresente Jordana Berg.  

Vale a pena aguardar a chegada desse filme que mostra diferentes facetas do movimento negro, mas sem se curvar aos discursos dominantes. Raça mostra a política sendo exercida nos níveis parlamentar, da comunicação de massa e da experiência empírica ligada à terra e às tradições. São como braços de uma árvore, que nascem de um mesmo tronco, se expandem cada um por si e cujas folhas quase se tocam no alto da copa.

Vale esperar também a maneira como o filme se acerca da intimidade dos personagens, flagrando cenas as mais sugestivas. Poucas vezes chegamos tão perto, por exemplo, dos sussurros com que se costuram os conchavos nos gabinetes e corredores do Senado.

Raça ainda não tem previsão de lançamento, mas deve ser um dos bons de 2011.   

 

Ufa!

novembro 1st, 2010 § 1 Comentário

A Cultura com Dilma

outubro 16th, 2010 § 4 Comentários

Nesta segunda-feira, às 20 horas, no Teatro Oi Casagrande (Leblon, Rio), artistas, intelectuais e jornalistas vão fazer um ato em apoio à candidatura de Dilma Rousseff. Na ocasião, Dilma receberá um manifesto idealizado por Emir Sader, Eric Nepomuceno, Chico Buarque e Leonardo Boff, e assinado por mais de 6.000 pessoas. Entre os signatários há muitos que votaram em diferentes candidatos e partidos no primeiro turno, mas convergiram para Dilma no segundo turno visando garantir avanços alcançados no governo Lula.

A hora é de reunir esforços e evidenciar o vigor dessa opção para fazer frente à “onda marrom” de retrocesso, obscurantismo e baixaria insuflada pela mídia e pela campanha tucana nessas eleições. O manifesto segue abaixo. Se você trabalha com cultura e ainda não o assinou, deixe um comentário curto aqui no blog e compareça ao ato de segunda-feira. É um desses gestos mínimos que justificam nossa cidadania.  

“Nós, que no primeiro turno votamos em distintos candidatos e em diferentes partidos, nos unimos agora para apoiar Dilma Rousseff.

Fazemos isso por sentir que é nosso dever somar forças para garantir os avanços alcançados. Para prosseguirmos juntos na construção de um país capaz de um crescimento econômico que signifique desenvolvimento para todos, que preserve os bens e serviços da natureza, um país socialmente justo, que continue acelerando a inclusão social, que consolide, soberano, sua nova posição no cenário internacional.

Um país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a erradicação da miséria. Um país que preserve sua dignidade reconquistada.

Entendemos que essas são condições essenciais para que seja possível atender às necessidades básicas do povo, fortalecer a cidadania, assegurar a cada brasileiro seus direitos fundamentais.

Entendemos que é essencial seguir reconstruindo o Estado, para garantir o desenvolvimento sustentável, com justiça social e projeção de uma política externa soberana e solidária.

Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi conquistado.

Por tudo isso, declaramos, em conjunto, o apoio a Dilma Rousseff. É hora de unir nossas forças no segundo turno para garantir as conquistas e continuarmos na direção de uma sociedade justa, solidária e soberana”.

A imprensa em seus piores dias

outubro 11th, 2010 § 12 Comentários

Quem me segue no Twitter tem testemunhado minha recente vergonha com o diploma de jornalista. Não pela profissão em si, uma das mais nobres que existem, mas pelo sentido que ela tem adquirido na grande imprensa brasileira. Estou impressionado com a quantidade de jornalistas-carneirinhos que se prestam ao jogo sujo praticado pelos grandes jornais e revistas nessa campanha eleitoral.  

A grande mídia tem sido o braço auxiliar das forças conservadoras, ecoando acriticamente o denuncismo eleitoreiro, as baixarias difamatórias e, mais recentemente, o fundamentalismo religioso que infelizmente virou protagonista da campanha. Essa mídia não só ecoa, como fornece combustível para a caça às bruxas e as insinuações perversas, numa parceria sinistra para a transparência de uma sociedade democrática. 

O Globo, único jornal que (ainda) assino por causa do Segundo Caderno e de alguns suplementos, abre espaços mínimos para o pensamento progressista, mas prontamente o ofusca mediante uma “seleção” de assuntos e espaços destinada exclusivamente a torpedear a candidatura de Dilma Roussef. Nenhuma realização do Governo Lula merece mais que algumas linhas em cantos de página ou perdidas dentro de alguma matéria “questionadora”, ao passo que os elogios ao governo Cabral (justos, não discuto) são uma cantilena praticamente diária. Cito isso apenas para desmentir a tese de que “jornais não são para elogiar, mas para investigar”. No caso da campanha à presidência, até a paginação do jornal reflete a escolha eleitoral dissimulada: artigos sobre Dilma na página par; textos sobre Serra na página ímpar (zona áurea da leitura). Nem caberia enumerar aqui as estratégias de edição que a cada dia procuram reforçar uma imagem negativa para a candidata oficial. 

A Folha de S. Paulo, de passado épico na campanha pelas Diretas Já, hoje é, com raras exceções, um ninho de pós-yuppies tucanos dispostos a tudo para trazer as aves bicudas de volta ao poder. O Estadão, que pelo menos teve a dignidade de explicitar seu apoio a Serra num editorial, mostra-se truculento no combate ao dissenso, como ocorreu no episódio da demissão da colunista Maria Rita Kehl por conta de um artigo em que defendia o Governo Lula. A Veja… bem, há muito não a considero uma revista, mas um panfleto das elites conservadoras. Há outros grandes jornais e revistas no mercado, mas seu papel político é bem menos decisivo que o desses. 

Em tal panorama repulsivo, uma coisa tem me causado um mal-estar quase físico: é a falácia de alguns jornais em se arvorarem porta-vozes da sociedade e canal obrigatório de comunicação entre governantes e governados. Artigos e editoriais revoltados condenam sites, blogs e twitters de políticos e estatais – de Cristina Kirchner e Hugo Chávez à Petrobras – por estabelecerem um contato direto entre governos e sociedade. Qualquer iniciativa nesse sentido é tomada como um ataque ao papel mediador da imprensa. 

Ora, que mediação é essa? A imprensa é espaço e instrumento de poder, além de empreendimento comercial. E isso não é de hoje. Todos sabemos como os grandes jornais pediram e apoiaram o golpe de 1964, sendo que alguns se arrependeram pouco depois ao ver o monstro que tinham ajudado a criar. O sistema Globo, aliás, seguiu apoiando a ditadura até o fim. Com a mais recente “empresificação” dos meios de comunicação, estes se tornaram, ainda mais, veículos de defesa e cabos eleitorais de interesses econômicos. Um desses interesses, senão o principal, é o deles próprios. Jornais precisam conservar seu poder de influência para se manterem comercialmente fortes. Daí as reações inflamadas contra qualquer tentativa de regulação ou de bypass pelas instituições políticas que, através da internet, lhes roubam o papel de “mediador”. 

No mundo inteiro, essa função da imprensa vem sendo relativizada. A cada semana recebo, por exemplo, e-mails assinados por Barack Obama (através do projeto democrata Organizing for America) discutindo suas principais inquietações. Já se foi o tempo em que o cidadão dependia da mídia para ter acesso ao que pensa o seu prefeito ou seu presidente. A internet pulverizou essa mediação, e isso nada tem a ver com autoritarismo, muito pelo contrário. 

É preciso denunciar esse bordão da imprensa como instituição “neutra”, vestal intocável a serviço do bem comum. Não é. Talvez nunca tenha sido. Essa grande imprensa brasileira de hoje não me representa, assim como certamente não representa a grande maioria do povo brasileiro. Mediadores entre governantes e cidadãos são os instrumentos da sociedade civil, a livre veiculação de ideias e opiniões não tuteladas por editores comprometidos. Jornais e TVs são balcões de compra e venda, aí entendido também o comércio político.

À grande mídia brasileira não basta mais retratar o país pior do que é na verdade. Ela agora contribui para torná-lo de fato pior. É por isso que mantenho meu diploma na gaveta, à espera de que o jornalismo deixe de ser uma vitrine para a hipocrisia e o obscurantismo.                  

Culturas de Resistência

outubro 3rd, 2010 § 1 Comentário

A globalização do bem

A paz não se confunde com a resistência, mas é o resultado dela. A partir dessa constatação que serve como epígrafe, o filme da brasileira Iara Lee faz um inventário de formas de resistência à opressão e à deterioração social em países de diversos continentes. Nem todas ligadas estritamente à cultura, como é o caso dos guerrilheiros do Exército de Emancipação da Nigéria, ou dos índios caiapós que agridem um relações públicas da usina de Belo Monte.

Colocando essas cenas na parte inicial do filme, Iara inclui a violência como forma de resistência, mas indica sua superação pelas muitas ações de não-violência que se seguem. É assim que vemos a regeneração de soldados infantis na Libéria, capoeiristas da paz no Líbano, festival internacional de poesia em Medellin, revolução pacífica dos monges da Birmânia, grafiteiros e rappers “verdes” de Teerã, fuzis transformados em guitarras no Rio de Janeiro, e por aí afora.

Composto de módulos curtos, o filme privilegia a visão de painel horizontal, sem se aprofundar em nenhuma dessas manifestações, nem mesmo destacar as diferenças de contexto e atitude de cada uma. O objetivo é enfeixá-las numa ideia geral de cultura de resistência, ou “global public opinion”, poder em ascensão no mundo contemporâneo. Seria a globalização do bem, formada não por corporações, mas por grupos e redes que incorporam a heterogeneidade como traço, não como empecilho. Um filme como esse ajuda a evidenciar similaridades e fortalecer o sentimento coletivo. De resto, o material filmado e coletado por Iara Lee tem ótima qualidade técnica e ganha força no trabalho de edição.  

Uma observação: o filme não inclui o material gravado por Iara no navio de ajuda humanitária atacado por Israel a caminho de Gaza em maio último.

Arquitetos do Poder

outubro 2nd, 2010 § 1 Comentário

Poder e limites da mídia

Concluída um campanha eleitoral encarniçada, é bom ver este doc de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé sobre o poder e os limites da comunicação sobre os resultados de eleições. O filme tenta fazer uma reflexão sobre as relações da imprensa e dos homens de marketing com as candidaturas presidenciais desde a época de Getúlio e até a reeleição de Lula em 2006.

A falta de uma maior pesquisa histórica reduz bastante a objetividade da análise no período mais antigo. Só quando as campanhas se midiatizam e o material de arquivo fica volumoso, sobretudo a partir dos anos 1990, é que Arquitetos do Poder se mostra mais efetivo. De maneira geral, somos reapresentados aos fatos mais conhecidos das campanhas – somente as presidenciais –, sem o conteúdo revelador que se espera de um filme sobre o tema.

Mesmo assim, mais se abrindo para a crônica política que se aprofundando nos misteres do marketing eleitoral, o filme tem a virtude de rever a História por um ângulo específico. Nessas eleições de 2010, a grande mídia brasileira fez sua escolha e a dissimulou às vezes vergonhosamente. Mas, como outras ocasiões já indicaram, a convicção dos (e)leitores pode repor a democracia nos seus eixos.

Lula, o filme, 2º round

setembro 23rd, 2010 § 5 Comentários

Não vou discutir aqui os méritos da escolha de Lula, o Filho do Brasil para disputar uma indicação ao Oscar. Participei no ano passado dessa comissão e sei que os critérios finais não dizem respeito somente à qualidade artística do filme, mas levam em conta, com peso alto, todas as variantes que podem influir na avaliação do filme por espectadores estrangeiros.

Vejo que o anúncio redespertou a fúria dos detratores do filme, especialmente num momento em que as hordas anti-Lula estão alvoroçadas para impedir uma vitória de Dilma Roussef no primeiro turno. Em seu blog, por exemplo, Artur Xexeo achou por bem destacar as restrições de uma resenha publicada hoje no jornal La Nación. O texto dele se refere a uma única resenha, mas o título pode sugerir que toda a crítica argentina “detonou” o filme. A nota diz assim:

Crítica argentina detona ‘Lula, o filho do Brasil’

“A incrível história de vida de Lula da Silva merecia um filme melhor, mais interessante e mais profundo que ‘Lula, el hijo del Brasil’”. Esta é a avaliação da crítica Natalia Trzenko, publicada nesta quinta-feira no jornal argentino “La Nacion”, sobre o filme “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto, que está estreando em Buenos Aires. “Cada episódio da vida do presidente do Brasil é mostrado como se fosse um manual de História escrito por seu biógrafo oficial”, continua a crítica, que deu ao filme a cotação “regular”. O roteiro é considerado “limitado e superficial” pela crítica, que só livrou a cara de Gloria Pires, que, na avaliação do jornal, interpreta “com maestria” o papel de dona Lindu.

Como se vê, os adjetivos e trechos destacados por Xexeo não chegam a justificar o verbo “detonar”. No texto de Natalia Trzenko há elogios também para a performance de Rui Ricardo Díaz e para a cena do comício sem microfone em São Bernardo. Mas os comentários da resenha, no site do La Nación, já incluem o de um brasileiro cheio de vergonha pelo filme e pelo povo que elegeu Lula. O filme de Fábio Barreto virou um catalisador de paixões em torno do seu personagem. Mais de ódio, talvez, que de amor.   

Por um punhado de pesos

julho 25th, 2010 § 2 Comentários

Em ritmo de road-doc, Fernando Solanas percorre províncias longínquas do noroeste argentino para denunciar o neocolonialismo das mineradoras estrangeiras neste Tierra Sublevada: 1. Oro Impuro. O filme, que será reprisado em duas sessões na próxima terça-feira, na mostra do Instituto Moreira Salles (Rio), é apresentado como quinto capítulo de uma grande investigação político-econômica do país, seguindo-se a Memória del Saqueo, La Dignidad de los Nadies, Argentina Latente e La Última Estación.  

Para quem conhece bem a obra documental de Solanas, Oro Impuro não traz grandes novidades além de um ritmo mais fluido e paisagens impressionantes. De resto, é a mesma maneira franca e engajada de lidar com assuntos que dizem respeito a suas posições dentro da agenda política argentina. Solanas assinala focos de corrupção e desmandos governamentais, ao mesmo tempo em que louva a ação dos que resistem nas organizações populares.

Desde que Menem entregou o subsolo argentino às concessões para mineração a céu aberto, o discurso do progresso e do enriquecimento vem servindo para encobrir a exploração multinacional a preços vis e a contaminação do meio-ambiente. Solanas visita localidades abandonadas, amostras de deterioração do sistema ecológico, grupos de professores e pequenos profissionais liberais envolvidos na luta contra o saque e a contaminação. Esmiuça um incrível conluio entre governantes, empresários e até universidades para minimizar os efeitos danosos daquele tipo de mineração em troca de bons punhados de pesos.

Não há espaço para as tais “razões dos dois lados”. Solanas é um documentarista com partido (em ambos os sentidos). Autoritário, corta a palavra do inimigo quando bem entende. Narra a História e a atualidade conforme seu ponto-de-vista, e o faz claramente, dramatizando aqui e ali sua presença como engenheiro de sua própria opinião. A mise-en-scène que às vezes percebemos, especialmente no contato afetuoso com os ativistas ambientais, deixa patente que o diretor está, mais que flagrando coisas, construindo um arrazoado que soe sintético e efetivo. São recursos do doc político, que Solanas maneja com rara sobriedade e grande sinceridade.     

O segundo capítulo de Tierra Sublevada será Oro Negro, sobre a exploração de petróleo.          

Hola, Solanas!

julho 21st, 2010 § 5 Comentários

Fernando Solanas é figura fácil de encontrar no Brasil. Seu amor pelo país consubstanciou-se numa esposa brasileira e num relacionamento muito próximo com diversos realizadores daqui. Mas não é toda hora que ele vem  trazendo seus principais documentários para uma mostra como Solanas: Seis Imagens da Argentina, que começa sexta-feira no Instituto Moreira Salles (Rio). Veja release e programação aqui.

Solanas estará lá no dia da abertura para apresentar seu filme mais recente, Terra Revoltada: 1. Ouro Impuro, e no domingo para fazer o mesmo com o clássico A Hora dos Fornos: 1. Neocolonialismo e Violência. Entre um e outro, fará um debate no sábado com José Carlos Avellar.

Como se vê, Solanas gosta de documentários em série. Memórias do Saque (2004), A Dignidade dos Ninguéns (2005) e Argentina Latente (2006) formavam uma trilogia sobre as crises políticas e econômicas que atingiram o país na década. Seus docs não se querem fechados em si mesmos. Desdobram-se em análises sucessivas, cobrindo aspectos variados de um mesmo fenômeno. Além disso, almejam ser algo mais que filmes. Pretendem mobilizar o público e despertar consciências para o que Solanas considera expropriação das camadas populares e descaminhos na condução do seu país. Talvez hoje não tanto quanto em 1968, quando A Hora dos Fornos chegava a ter cartelas inquirindo diretamente o espectador ou sugerindo interromper a projeção para um debate.

Esse filme de 260 minutos de duração (do qual será exibida apenas a primeira parte, de 85 minutos) fez a cabeça do documentarismo latino-americano dos anos 1970 e exerceu forte influência também no Brasil. Maurice Capovilla, em seus Faróis para o antigo DocBlog, o citou como “o começo e o fim de uma visão crítica da América Latina e por isso mesmo o testamento premonitório de uma geração criadora e revolucionária que perdeu o seu destino”.

O trabalho de Solanas continua sendo referência de doc político sem meias-tintas, baseado com franqueza nas convicções de seu realizador. Solanas é um raro exemplo de homem que faz cinema e política profissional ao mesmo tempo. De ascendência peronista, foi candidato à presidência argentina em 2007 e hoje é deputado pelo Partido Socialista Autêntico, integrante do Movimento Proyecto Sur. A identificação entre cinema e projeto político fica clara no seu penúltimo filme, A Última Estação, em que discute o sucateamento das ferrovias argentinas. O lema “Trem para Todos” é destaque na página oficial do PSA na internet.

A mostra do IMS se concentra nos docs, mas é bom não esquecer que “Pino” Solanas pode ser um ficcionista inspirado, como em Tangos – O Exílio de Gardel, ou pesadão e alegórico, como em Sur, A Viagem e A Nuvem. Se fosse o caso de escolher, eu também ficaria com a não-ficção.              

Simpatia política não garante bons filmes

junho 16th, 2010 § 6 Comentários

Quem me conhece e lê meus textos, sabe que estou acima de suspeitas para falar mal de um filme de esquerda. Por isso me sinto à vontade para rebater algumas opiniões sobre a recepção crítica ao doc Ao Sul da Fronteira, de Oliver Stone. Já li vários textos citando a má vontade da mídia para com o filme. Não nego que a má vontade exista, mas não acho que seja a única responsável pelas resenhas frias ou negativas. Mesmo porque, na maioria dos casos, os críticos de cinema não costumam se pautar exatamente pela linha editorial dos veículos.     

Falando honestamente, o filme decepciona mesmo quem concorda que a mídia conservadora demoniza Fidel, Chávez e Morales. Stone fez, sem dúvida, um filme teoricamente necessário para se contrapor às mentiras da imprensa, mas a debilidade do resultado depõe contra suas ótimas intenções. A pesquisa é incipiente, a narração dos eventos do governo Chávez é confusa, e a improvisação dá o tom onde deveria haver reflexão e aprofundamento.

Stone, definitivamente, não é Michael Moore – embora o cite logo no início do filme. Sua turnê às Américas do Sul e Central parece uma sucessiva adulação de líderes, sem maior atenção à realidade de cada país. A falta de nuances compromete a argumentação. Chávez, por exemplo, jamais é questionado sobre sua sede de permanência no poder, que tanto prejudica a reputação de sua revolução bolivariana. Coube a Nestor Kirchner a única referência a esse aspecto. Kirchner, aliás, é responsável pela mais alarmante revelação: George W. Bush teria dito a ele, em tom raivoso, que a guerra contra o Iraque iria fomentar a economia americana.

Lula, cá entre nós, também dá um show de carisma e segurança em seu encontro com “Oliver”.

Mas nada disso confere ao doc a importância que Stone almejava. E para isso contribui não só a indisposição da mídia ofendida, mas também a carência de valor retórico, histórico e cinematográfico. O filme vive somente da simpatia política, razão da minha cotação mediana na coluna à direita. 

Como radiografias do novo panorama político “ao sul da fronteira”, são muito mais consequentes, matizados e interessantes o brasileiro Pachamama, de Eryk Rocha, e o uruguaio Con los Ojos Bien Abiertos, de Gonzalo Arijón, exibido no É Tudo Verdade do ano passado.   

A verdade e a verdade em ‘Utopia e Barbárie’

abril 24th, 2010 § 1 Comentário

Silvio Tendler e o General Giap, estrategista do exército vietnamita

Aqui e ali, em Utopia e Barbárie, Silvio Tendler fala a verdade. É nos momentos em que insere sua autobiografia no cortejo de eventos e reflexões sobre o beco sem saída das ideias de esquerda desde a II Guerra Mundial até os dias de hoje. Quando coloca a si mesmo como instância enunciadora, com sua carga pessoal de esperanças e decepções, Silvio confere ao filme uma emoção legítima, que nenhuma ordenação de materiais de arquivo, depoimentos e narrações é capaz de substituir.

É claro que Silvio está falando a sua verdade o tempo todo através das cabeças pensantes que ouviu ao longo dos muitos anos de preparação desse doc. É óbvio que, para todos os que sonham com uma sociedade justa, conta muito o que falam Fernando Solanas, Francesco Rossi, Gillo Pontecorvo, Denys Arcand, Eduardo Galeano, Amir Haddad, Jacob Gorender, Dilma Rousseff, Susan Sontag, Marlene França, Marceline Loridan e tantos outros. Mas a verdade que se ouve o tempo todo é uma verdade genérica, conceitual, praticamente indiscutível. Falta a verdade do filme, que comparece (de verdade) nas colocações do diretor em primeira pessoa.

Utopia e Barbárie é movido pelo inconformismo de Silvio Tendler para com os rumos que o pensamento utópico tomou na atualidade. As referências à pulverização das causas entre os jovens de hoje e as cenas de um Vietnã ocidentalizado e privatizado ilustram claramente um desapontamento. Mas esse inconformismo tende a se diluir numa mera cronologia de fatos, numa aula ilustrada de História com viés ideológico definido.

É péssimo procedimento crítico lamentar o que um filme não é. Mas não resisto a imaginar quão mais poderoso seria Utopia e Barbárie se o cineasta tivesse mergulhado sua voz, sua imagem, enfim, sua pessoa no fluxo de anotações e encontros que está nos oferecendo. Do jeito que estão, as anotações soam como afirmações peremptórias e os encontros, como simples depoimentos.

Sylvio Back de volta às armas

março 29th, 2010 § 7 Comentários

Afastado dos documentários desde 1995, quando lançou Yndio do Brasil e Zweig: A Morte em Cena, Sylvio Back está de volta ao cinema do real com O Contestado – Restos Mortais, selecionado para o próximo Festival É Tudo Verdade. Back é um dos grandes do doc brasileiro, e sua proposta de publicar um ensaio sobre o filme no meu blog foi motivo de muita honra. Ele apresenta o texto como “uma espécie de making of jornalístico-opinativo do e sobre o filme”.

Foto: Claro Jansson

 O CONTESTADO, UMA GUERRA INSEPULTA

Sylvio Back*

Por ser um cineasta cuja obra é seduzida pela ânsia de reverter as falácias e o esquecimento da história oficial, a obsessão reside em  responder qual a diferença entre realidade bruta, memória e encenação (territórios minados por onde trafego impunemente), quando convertidos em celulóide e/ou  digital?

Desmobilizando essa ilusória noção, resta a única certeza de que entre elas a ficção tem que fazer sentido! Depois, é sabido, o passado como o presente, não permanece estático, está em permanente movimento e mutação. É “outro” toda vez que retornamos a ele. Foi o que me aconteceu ao revisitar a Guerra do Contestado quarenta anos depois (o filme anterior ,“A Guerra dos Pelados”, uma ficção, foi escrito e rodado entre 1969/1970, estreando no ano seguinte): ambos mudamos a ponto de não nos reconhecermos mais! Isso é o mais fascinante na formatação de uma narrativa moral que mexe com a história sem procurar atropelá-la nem lhe impor viseiras. Nessa hora sempre me ocorre, como se um chamamento à lucidez fora,  frase de um dos personagens de “O mensageiro” (1970), brilhante filme de Joseph Losey: o passado é um país estrangeiro, lá tudo é diferente. Ou seja, é preciso estar sempre com o passaporte em dia!  Continue lendo

A favor

março 19th, 2010 § 3 Comentários

A passeata de 150.000 pessoas sob chuva anteontem no Rio e a divulgação da nova pesquisa do Ibope com popularidade recorde (75%) do presidente Lula são dados que convergem para uma leitura muito nova do momento político carioca e brasileiro.

Passeatas, para minha geração, eram sempre contra quem estava no palácio. Como traduzir agora uma manifestação convocada pelo governo e que consegue apoio ao mesmo tempo popular, das elites (cultural e econômica) e de um grande jornal conservador?

Da mesma forma, os altos índices de aprovação do governo Lula e o crescimento firme da candidatura Dilma expressam um contexto pouco usual: a avaliação positiva provém de um amplo espectro social que vai dos mais pobres à intelligentsia.

Não sou analista político, mas penso como um cidadão interessado na posição do país e na redução das desigualdades. Como tal, festejo esse momento virtuoso que vivemos. Não sinto a menor culpa ou contradição em estar a favor do governo – municipal, estadual e federal. É preciso acabar com aquele raciocínio automático de que si hay gobierno, soy contra. O que está acontecendo em nosso estado e no país é que, pela primeira vez em muito tempo, a maioria das posições dos governantes coincide com boa parte das aspirações dos cidadãos.

Até há pouco tempo a gente pensava que isso jamais poderia acontecer.      

Mandela, Médici, Lula

fevereiro 11th, 2010 § 4 Comentários

Invictus é um filme caretão, de roteiro didático e soluções simplistas. No fim das contas, se resume a mais um elogio americano da vitória e do emocionalismo como panaceia para divisões e conflitos. Mas, enquanto o assistia, vinham-me à cabeça alguns paralelos que divido aqui com vocês.

Freeman e o "capitão" Dammon, Médici e o capitão Carlos Alberto

Primeiro: O engajamento do Mandela com a seleção de rúgbi de 1994 me lembrou muito o do Garrastazu Médici com a seleção brasileira na Copa de 1970. Claro, o contexto e a causa eram radicalmente diferentes. Médici usou o futebol para dissimular o auge da repressão política e da tortura, pretendendo dar um verniz popular ao governo ditatorial. Mandela, ao contrário, investiu no rúgbi para unificar simbolicamente o país, ainda dividido racialmente na aurora do pós-appartheid.

Mas os métodos eram muito similares. Abrangiam o envolvimento direto com os jogadores – Médici chegou a escalar Dario Peito de Aço –, a presença em estádios, visitas à concentração e principalmente o vínculo da seleção à vigente propaganda do Brasil Grande. Como os negros da África do Sul, a esquerda brasileira fingia torcer contra o escrete canarinho para não jogar água na bacia dos militares.

Embora mencionado em vários filmes, esse episódio ainda não mereceu um tratamento à altura no cinema brasileiro.

Segundo: Mandela é uma unanimidade mundial, a gente sabe. Mesmo assim, Invictus é uma peça de canonização do presidente. Não são poucas as sequências que terminam solenemente com uma frase edificante na boca de Morgan Freeman, na medida para ficar soando na consciência do espectador.

Nesse sentido, é muito mais enaltecedor que Lula, o Filho do Brasil. Mas, vindo da África e da lavra de Clint Eastwood, ninguém questiona isso. Mandela também aparece fazendo política miúda através de um meio não convencional como o esporte. Por aqui, acusou-se o filme de Fábio Barreto de despolitizar Lula, talvez por não tê-lo mostrado lendo Marx (que nunca deve ter lido mesmo) ou costurando altas estratégias num período em que isso ainda não existia.

São dois pesos e duas medidas para se apreciar um filme que fala diretamente a nossa realidade e outro que trata de uma realidade distante e romanceada.

Notas sobre o partido da imprensa

fevereiro 8th, 2010 § 3 Comentários

1.

Há quase oito anos acompanho nos jornalões o que chamo de “colunismo do mas”. Desde o início do governo Lula, articulistas como Merval Pereira e Miriam Leitão, de O Globo, militam na inglória tarefa de semear dúvidas sobre a política econômica. A cada iniciativa ou sucesso do governo, eles admitem o óbvio para logo em seguida contrapor um “mas…”. Ora é a crise internacional que vai mostrar suas garras; ora é a insuficiência das medidas para um futuro próximo; ora são indicadores menores que não acompanham o êxito dos maiores.

Os meses passam, a economia se mantém firme, mas o “colunismo do mas” renova sua retórica pateticamente. Novos sucessos têm que ser admitidos, mas…

Nesse domingo, Merval Pereira comentou a indiscutível ascensão da renda da classe média, mas foi pesquisar autores que colocam em dúvida a sustentabilidade desse quadro baseado no aumento do consumo. É sempre assim: o governo Lula é um sucesso, mas o preço do carretel de linha continua subindo e não dá pra garantir que em 2050 o país esteja bem.

OK, ninguém está pedindo um coro de contentes, mas até quando teremos que aguentar o coro dos descontentes batendo latinha enquanto passa a caravana de um Brasil melhor?

2.

Se tenho cá as minhas dúvidas sobre os métodos e a fanfarronice de Hugo Chávez, as dúvidas são maiores ainda sobre a maneira como a grande mídia conservadora brasileira o pinta dia após dia. As reações contra a recente cassação da concessão de uma rede de TV serviram para desenhar o perfil de um país “dividido” – como se a democracia não fosse justamente a arte de administrar divisões.            

O Globo de domingo também trouxe uma matéria com depoimentos de admiradores e desafetos do governo Chávez. Basta comparar os argumentos de cada lado para perceber que há uma cisão entre camadas populares e as classes média e alta. A opção do presidente pela redução de desigualdades está levando a luta de classes à esfera das políticas públicas. Mais uma prova da genialidade política de Lula foi seguir esse caminho sem botar o país na rota da polarização. 

O que mais me espanta nessas notícias de Caracas são as imagens dos estudantes que assumiram a defesa de uma empresa de televisão e protestam contra o governo. Eles podem até ter razão, mas precisavam parecer uma milícia de pitboys parrudos? Ou, pior ainda, como nessa foto de Fernando Vergara/AP, uma coluna perfilada com saudação fascista e máscaras brancas que remetem à Ku Klux Klan?          

3.

A mídia conservadora abraça acriticamente todos os signos e falsos questionamentos que contam a favor de suas escolhas. Sim, porque é ingenuidade ou canalhice achar que os grandes jornais e redes de TV são meros instrumentos da liberdade e da democracia. Eles o são apenas na parte cosmética. No fundo, são empresas que fazem escolhas políticas e se aproximam da condição de um partido informal. Orientações explícitas correm em surdina pelas redações. São todos contra Lula e contra Chávez, embora poucos assumam isso frontalmente como a revista Veja.

O resto é demagogia e manipulação.  

Sarney por ele mesmo

janeiro 12th, 2010 § 2 Comentários

Quando completar 80 anos em abril, José Sarney terá uma comemoração em forma de documentário. Não, não estou falando do projeto de Silvio Tendler, anunciado há poucos dias. José Sarney, Um Nome na História já está pronto desde o ano passado. Foi o último trabalho dirigido por Fernando Barbosa Lima (1933-2008) na sua produtora FBL, concluído já depois de sua morte. Vai circular em DVDs e ser exibido na televisão.

O vídeo, bastante clássico, se organiza em torno de uma entrevista-base de Sarney, coadjuvada por alguns depoimentos de parentes e políticos, além de cenas de arquivo. O programa principal enfoca a infância e adolescência no Maranhão e a trajetória política que o levou, por uma artimanha do acaso, a ocupar a presidência da República de 1985 a 1990.  Continue lendo

Lula, o mito do Brasil

janeiro 2nd, 2010 § 4 Comentários

Lula, o Filho do Brasil entrou ontem em cartaz com três entraves a sua vocação de grande sucesso de bilheteria. O primeiro diz respeito às resistências políticas de quem acusa o filme e seu personagem de oportunismo eleitoreiro. Exagero, uma vez que é cedo demais para surtir efeito em novembro e Lula não concorre a um terceiro mandato. De qualquer forma, é difícil lidar com um filme que narra positivamente a história de um presidente ainda no poder.  

O segundo entrave é o tempo decorrido desde que o filme ganhou seu pique de exposição, há mais de um mês. Festival de Brasília, pré-estreias, exibição para Lula, muitas opiniões na imprensa – e depois disso a sensação de que todo mundo já “viu”, mesmo quem ainda não assistiu.

Essa antecipação, de certa maneira, acabou servindo para cumprir um calendário que agora não poderia ser cumprido, com o diretor Fábio Barreto em coma induzido após o grave acidente que sofreu. O lançamento ocorre, portanto, com alguma reserva, sob o signo da preocupação com a saúde de Fábio. Esse, o terceiro entrave.  Continue lendo

Boilesen, braço civil da ditadura

dezembro 26th, 2009 § 1 Comentário

O ótimo roteiro de Cidadão Boilesen constrói três narrativas paralelas. Uma se refere à história da Operação Bandeirante (Oban), que reuniu empresários e militares na repressão ao ativismo de esquerda nos primeiros anos da ditadura. Outra reconta as circunstâncias do atentado contra Henning Boilesen, dono do grupo Ultra e um dos principais financiadores da caça aos ativistas. Uma terceira narrativa faz o estudo do personagem Boilesen, definido em certo momento como “uma síntese das contradições humanas”, ou algo parecido.

A forma como essa três linhas convergem e se articulam responde pela eficiência do filme, premiado na competição nacional do É Tudo Verdade de 2009.  Continue lendo

Serra e FHC – os filmes

dezembro 6th, 2009 § Deixe um comentário

Semana que vem, finalmente, vou ver Lula, o Filho do Brasil, o primeiro provável blockbuster do ano que vem. Quase tudo o que tenho ouvido soa favorável ao filme, exceto pela choradeira da oposição ao associar o lançamento com o calendário eleitoral. Para equilibrar as coisas nessa área, só se fizessem um filme sobre José Serra ou Fernando Henrique Cardoso.

Mas imaginem o que seria uma cinebiografia desses dois, a não ser como documentário careta. Serra ainda poderia posar de criança pobre da Mooca, filho de um vendedor de frutas, depois ator de peça de Zé Celso, presidente da UNE e um dos fundadores da Ação Popular. O período de exílio no Chile encareceria um pouco a produção, mas depois disso viria uma monótona sucessão de cargos públicos e legislativos, interrompida apenas pela boa passagem pelo Ministério da Saúde e a conquista do governo de São Paulo. Duvido que isso desse para uma boa bilheteria.   Continue lendo

Com fé na América do Sul

setembro 8th, 2009 § 3 Comentários

Gonzalo Arijón

Gonzalo Arijón

Em seu primeiro encontro com Barack Obama, Hugo Chávez o presenteou com um exemplar do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. A cena, agudamente simbólica, conclui o doc Con los Ojos Bien Abiertos, que o uruguaio Gonzalo Arijón (autor do magnífico Stranded) trouxe ao É Tudo Verdade/B. As palavras indignadas e vibrantes de Galeano, bíblia do sentimento anti-imperialista no continente, entravam, enfim, na Casa Branca. “Sejamos otimistas”, diz o diretor-narrador.

Ojos vê com otimismo a ola renovadora que começou com as eleições de Lula, Chávez na Venezuela e Nestor Kirchner na Argentina, e encorpou com Evo Morales na Bolívia, Michelle Bachelet no Chile, Fernando Lugo no Paraguai, Tabaré Vásquez no Uruguai e Rafael Correa no Equador. O filme, porém, se concentra nas experiências brasileira, boliviana, venezuelana e equatoriana. Assume um vago formato de viagem, com Galeano costurando ideias como um xamã (a comparação é do diretor). Arijón se detém em cases de cada país, alternando sua voz de simpatizante com algumas vozes contrastantes colhidas nas ruas e em materiais de arquivo.  Continue lendo

O cinema é verde no Irã

agosto 31st, 2009 § 2 Comentários

Green DaysNa crise que se seguiu à reeleição de Ahmadinejad no Irã, o cineasta mais popular do país, Mohsen Makhmalbaf, tornou-se porta-voz oficial do candidato derrotado, Mir Hossein Moussavi, no exterior. Agora sua filha Hana vai levar ao Festival de Veneza o filme que pode sintetizar a luta dos “verdes” (esta é a cor da campanha de Moussavi).

O docudrama Green Days foi rodado nas ruas de Teerã durante as eleições. Conta a história de Ava, uma moça deprimida pelo passado político recente do Irã. Ela consulta um psicanalista, que lhe sugere lavar escadas e trabalhar numa peça. Mas o espetáculo, que lidava com a realidade social, é proibido. Ava está perto do fundo do poço quando chegam o processo eleitoral e a oportunidade de votar contra o atual presidente. Ava sai para as ruas em busca de novas esperanças. O drama, então, se mescla com o documentário das eleições, à moda – deduzo – do Patriamada de Tizuka Yamasaki.

“Eu não sou uma socióloga, mas meu filme é sociológico. Minha câmera funciona como um espelho para mostrar a sociedade iraniana vivendo uma revolução com todas as suas esperanças e dúvidas”, afirma Hana, 20 anos. A moça é um prodígio de hereditariedade precoce. Aos 9 anos, já era convidada pelo Festival de Locarno com um vídeo sobre sua avó. Aos 14, chegou a Veneza com o doc Joy of Madness, making of de um filme da irmã mais velha, Samira. Com 17 anos, ganhou 22 prêmios internacionais pela ficção Buddha Collapsed out of Shame.

Depois das tumultuadas eleições de junho, Hana teve que deixar o país para escapar da perseguição política. A onda verde de oposição a Ahmadinejad continua forte no meio cinematográfico iraniano. Agora mesmo, 142 cineastas assinaram um apelo de boicote ao festival Cinema Verité, organizado pelo Centro de Cinema Documentário e Experimental do Irã. Com isso, pretendem denunciar as restrições sofridas nos últimos meses para documentar os eventos políticos do país. O apelo termina assim: “Devido ao nosso compromisso e respeito para com a verdade e a realidade, tomamos a decisão de não participar do próximo festival, seja como cineastas, críticos ou espectadores”.

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