Brasília segundo Cazzola

março 27th, 2012 § 1 Comentário

É Tudo Verdade – Nas sequências iniciais de Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília, vemos latas serem abertas para revelarem filmes em franca decomposição, alguns mesmo virando pasta de celuloide. Ouve-se a voz do técnico Francisco Sérgio Moreira repetindo: “lixo, lixo, lixo…”. Era o estado em que se encontrava a maior parte do acervo do produtor cinematográfico Dino Cazzola, sem contar o que já fora destruído pela censura e a incúria das redes de TV. Cazzola filmou Brasília de sua gestação até meados dos anos 1970. O filme de Andrea Prates e Cleisson Vidal (autores do essencial Missionários, de 2005) procura dar uma ideia e um sentido ao material restante, que não chega a 30% do que teria sido filmado.

O filme se organiza de maneira cronológica, como a recontar a história de Brasília através das cenas rodadas por Cazzola. Trata-se de uma opção problemática, já que o material não permite cobrir o período a não ser por saltos largos e sem muita conexão. Além disso, enquanto na maior parte do tempo as cenas de documentários e reportagens para a TV assumem corretamente o protagonismo como enunciadoras dos relatos, há trechos em que o artista plástico Xico Chaves parece ocupar o papel de narrador, fazendo com que as imagens se submetam a suas memórias, ligadas principalmente à resistência ao regime militar. Nesse desvio de prioridades, o filme corre o risco de se descaracterizar.

Da mesma forma, são discutíveis os recursos de edição para sublinhar o que não necessita mais ser sublinhado, como o golpe de 1964 e a decretação do AI-5. O epidódio da invasão da UnB é ilustrado com matérias de jornais e fotografias, o que reforça a impressão de que o acervo de Dino Cazzola se compunha basicamente de cenas oficiais – ou, como chamaria Paulo Emilio Salles Gomes – rituais do poder. Os registros de episódios desagradáveis para a ditadura, conta-se, teriam sido censurados e inutilizados pela TV Brasília.

O aspecto às vezes propagandístico da produção de Dino Cazzola talvez diga muito sobre seu lugar de imigrante agradecido ao país que o acolheu desde que ele se associou aos pracinhas na Itália durante a II Guerra. Sua história pessoal, se não fosse apenas ventilada, poderia jogar mais luz sobre a natureza dos seus filmes. O resgate está feito, mas ainda carece examinar com maior profundidade aquelas imagens.

Premiados do Recine 2011

novembro 12th, 2011 § 9 Comentários

Não foi um chá-das-cinco a reunião final do júri da mostra competitiva do Recine 2011. Houve muito debate e algumas divergências frontais antes de chegarmos a uma lista de premiados que atendesse às distintas exigências dos componentes (Eduardo Escorel, Lúcia Murat, Mauricio Lissovsky, Vladimir Carvalho e eu). Mas, no fim das contas, essas escolhas espelham bem a diversidade de abordagens, dispositivos narrativos e modos de utilização de materiais de arquivo que encontramos no conjunto dos filmes.

MELHOR LONGA-METRAGEM – No Lixo do Canal 4, de Yanko del Pino

O filme compila de maneira criativa o acervo da TV Iguaçu, do Paraná, nos anos 1970, que por pouco não foi jogado no lixo. Exemplifica como um acervo do gênero pode ser apresentado sem linearidade ou didatismo, mas antes usando o material para compor um ensaio sobre memória e esquecimento, seleção e descarte. O turbilhão de imagens ganha uma leitura metafórica, às vezes irônica, mas sempre inteligente. Um belo roteiro, uma montagem arrojada e uma concepção sonora também interessante formaram um conjunto de qualidades que justificam o prêmio de melhor longa.

MELHOR CURTA-METRAGEM e MELHOR ROTEIRO – Formas do Afeto – Ensaio sobre Mário Pedrosa, de Nina Galanternick

Enfocando Lygia Clark em igual ou maior escala que o próprio Mário Pedrosa, este curta trabalha poeticamente velhos filmes de arte, fotos e cartas. É um filme delicado e incompleto, mas que encantou alguns jurados.

MELHOR DIREÇÃO DE LONGA – Carlos Adriano, por Santos Dumont: Pré-Cineasta?

Pensando a própria condição da “imagem encontrada” (found footage) no cinema, Carlos Adriano reuniu descoberta, reflexão, teoria, prática e tributo pessoal num filme singular, como aliás todos os seus. Leia aqui minha resenha já publicada.

MELHOR DIREÇÃO DE CURTA e MELHOR EDIÇÃO – Beth Formaggini e Joana Collier/Thaís Blank, por Angeli 24 Horas

Um curta que já se impõe nas antologias sobre artes visuais no Brasil. O trabalho do cartunista Angeli é visto pelo prisma pessoal do artista, pelo ângulo da cidade que o inspira e por uma diretora disposta a captar a essência do seu objeto. Leia aqui minha resenha.

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI – La Febbre del Fare (A Febre do Fazer), longa de Michele Melara e Alessandro Rossi 

Este concorrente italiano se destacou pelo apetite de arquivo e a forma como organiza uma história das esquerdas na cidade de Bolonha entre 1945 e 1980. O prêmio vale também como um cumprimento à Cinemateca de Bolonha, uma das mais ativas na preservação e restauração de materiais cinematográficos.

MELHOR PESQUISA – Hollywood no Cerrado, longa de Armando Bulcão e Tania Montoro – pesquisa e roteiro de Paulo Bertram,  Nena Leonardi, Victor Leonardi,  Thereza Negrão,  Márcia Tinholim, Jairo Alves Leite

A história da “vida brasileira” das atrizes americanas Janet Gaynor, Mary Martin e Joan Lowell serve de mote para os diretores examinarem a chegada da modernidade em Goiás, o mito da Terra Prometida nos trópicos e ainda fazerem um divertido paralelo entre o Velho Oeste deles e o nosso Centro-Oeste. Um raro exemplar de doc-comédia, um tanto exagerado no uso de efeitos de edição, mas que apresenta uma pesquisa de fato impressionante.

MELHOR CONCEPÇÃO SONORA – Programa Casé, longa de Estevão Ciavatta

Numa das categorias mais discutidas no júri, o prêmio ficou para o peso do áudio no filme sobre o radialista Ademar Casé. O doc traz boas soluções nesse setor, ainda que o tema as faça parecer meramente funcionais. Aqui está minha resenha.

MELHOR CONTRIBUIÇÃO À LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA – Santoscópio = Dumontagem, curta de Carlos Adriano

Neste curta experimental, Adriano sintetiza os temas do seu longa sobre Santos Dumont usando a manipulação extensiva do pequeno filme de mutoscópio que trouxe à luz. As ideias formais do caleidoscópio, do voo, do giro e do movimento, tematizadas intelectualmente no longa, aqui ressurgem materializadas na edição do fragmento essencial. Um filme inspirador sobre o mergulho nas potencialidades estéticas e semânticas de um material de arquivo.

MENÇÃO HONROSA PELA ORIGINALIDADE – Vó Maria, curta de Tomás von der Osten

Uma única foto e três depoimentos em off tentam recompor a imagem de uma mulher do passado. A simplicidade deste curta é enganosa, pois a composição progressiva da imagem de Vó Maria contrapõe-se a um esmaecimento gradual das reminiscências humanas de três gerações a respeito dela. O efeito é intrigante e revelador quanto aos mecanismos de retenção e exposição da memória.

MELHOR FILME DA OFICINA – Coturnos e Bicicletas, da “Equipe Nelson Pereira dos Santos” (Bárbara Morais, Julia Barreto, Lívia Uchôa, Luisa Pitanga e Rodrigo Dutra)

Entre os 10 curtas produzidos pelos alunos da oficina de Luiz Carlos Lacerda, todos voltados para o lema “Dov’è l’Italia?”, este se destacou pela força do argumento e o empenho da realização. Num paralelo vertiginoso entre o neorrealismo italiano e o cinema brasileiro, a ditadura militar e a Itália de Mussolini, História e atualidade, coturnos e bicicletas se articulam numa pequena trama urbana (ficcional) cheia de ressonâncias bem calibradas. Enquanto comentário sobre o próprio tema do festival (a Itália e o cinema brasileiro), nada pareceu mais adequado e eficaz.

Leia aqui sobre os premiados pelo júri popular

Cinema Paraibano – Memória e PreservAção

janeiro 24th, 2011 § Deixe um comentário

Soube através do indispensável Almanaque da Rosário (e-mails divulgados pela jornalista Maria do Rosário Caetano) que uma parte importante da memória cinematográfica paraibana está prestes a ser resgatada. O projeto, aprovado pela Petrobras, tem o título deste post e está sendo tocado por Fernando Trevas Falcone e Lara Amorim, professores da UFPB. Até meados de 2013, eles vão restaurar e digitalizar o acervo do Nudoc – Núcleo de Documentação Cinematográfica da UFPB.

Em sua maioria nas bitolas de Super 8 e 16mm, o tesouro inclui pepitas de grande valor para completar o mapa da cinematografia da região. Falcone citou algumas:

Gadanho (João de Lima e Pedro Nunes, 1979) mostra os catadores que vivem do lixão de João Pessoa. Quando exibido, provocava forte reações da plateia. A miséria estampada na tela é contudente.

Mestre de Obra (Newton Júnior, 1982) acompanha a vida de um operário. A música é de Chico César.

Celso Pós-Milagre (Vânia Perazzo, 1982). A rotina parisiense de Celso Furtado, o mais renomado dos paraibanos cassados pela ditadura.

Não conheço a Lara, mas admiro muito a inteligência e a capacidade do jornalista Fernando Trevas Falcone. Ainda não li a sua dissertação de mestrado na USP, “A Crítica Cinematográfica na Paraíba e o Cinema Brasileiro – Anos 50 e 60″, mas levo muita fé. Naquele estado e período havia uma forte colaboração entre críticos e cineastas, sendo que a Associação de Críticos local frequentemente aparece como coprodutora de filmes. Linduarte Noronha, diretor de Aruanda, foi um dos que circularam entre os dois ofícios.  

Além da recuperação do acervo, Fernando e Lara pretendem realizar uma mostra e publicar um livro com reflexões sobre a produção e com o resumo dos debates que devem acontecer durante o evento. Querem também criar um site para divulgar os filmes e, se houver possibilidade, disponibilizá-los para os internautas.

Festival do Re

outubro 25th, 2010 § 1 Comentário

Recuperar, Reutilizar, Ressignificar – eis o tripé sobre o qual trabalham os filmes com imagens de arquivo. Eles são a estrela do Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo, que terá sua sessão de abertura hoje (segunda) às 19h30 e vai até sexta-feira no Arquivo Nacional – RJ. Para entrar na competição do Recine, um filme precisa ser composto por no mínimo 30% de cenas garimpadas em acervos audiovisuais, sejam eles públicos ou privados. Com isso, desde 2002 o evento vem procurando estimular a preservação e a reintrodução desses acervos sob diferentes dinâmicas e recriações.

A cada edição, o Recine traz uma mostra temática – a deste ano é Movimentos da Música Popular Brasileira – e uma seção competitiva, além de uma série de debates em torno do tema em foco. Veja a programação completa no site do festival. Todos os anos, o Arquivo Nacional promove também uma oficina prévia para iniciantes, que realizam curtas de 5 minutos incorporando materiais de arquivo. Em 2010, fui eu o orientador da oficina. Dela resultaram 11 curtas, que participam da competição oficial. São eles (sinopses fornecidas pelos diretores):   

Divina, de Ethel Oliveira
Poesia audiovisual para uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, Elizeth Cardoso.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Eldorado: a esperança e o desespero, de Paula Moreira
A lenda de Eldorado atraiu muitos aventureiros para a América do Sul à época da colonização das Américas. No filme, ela serve como um paralelo para retratar a tentativa de se conseguir uma vida melhor no país por meio da migração para florestas ainda pouco exploradas pelo homem.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Ensaio sobre a figueira, de Vitor Damasceno
O corte de uma árvore em um condomínio na cidade do Rio de Janeiro é o estopim para uma breve reflexão.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Felicidade fragmento, de Tiago Machado
O que é felicidade para você? As pessoas conseguem alcançar a felicidade? Fragmentos e depoimentos sobre a eterna procura do homem.
Dia 27, 16h30, no Auditório

Um José, de Denise Munhoz
O filme apresenta imagens da destruição da setecentista Igreja de São Pedro, para a construção da av. Presidente Vargas. José, personagem genérico, é gradativamente identificado como o padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), considerado o primeiro compositor das Américas no seu tempo. Tanto José como a Igreja de São Pedro, local onde foi sepultado, estão hoje no esquecimento.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Mãos e registros, de Bernardo de Paola
Um breve ensaio sobre a manipulação de imagens e sons.
Dia 27, 16h30, no Auditório

Maria Maria, de Renato Vallone
Ensaio sobre infância e memória a partir de uma investigação poética de arquivos pessoais e não pessoais. Um convite à investigação sincera, intimista e alegórica de uma vaidade em nome da invenção individual sobre o tempo e o afeto. É também um recado universal para um futuro particular.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Nem tudo é passageiro, de Anthony Ravoni
Uma viagem de bonde pelas memórias e a história do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
Dia 26, às 16h30, no Auditório

Onde está o ditador?, de Sílvia Rachel
Trata-se de uma pequena brincadeira sobre os muitos tipos de ditadores do nosso pequeno planeta Terra.
Dia 27, 16h30, no Auditório

Trabalho e pão, de Fábio Gama
O que se conhece sobre a Favela da Maré? A partir de projeções de fotografia e filmes dentro da réplica de palafita no Museu da Maré, é mostrada a vida que pulsa cheia de amor, alegria, trabalho e solidariedade na Favela da Maré.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Vila Aliança – Memórias em cinco minutos, de Jeferson Alves
A favela Vila Aliança entra na máquina do tempo para narrar o surgimento do primeiro conjunto habitacional da América Latina, trazendo suas raízes, a solidariedade e a contribuição dos moradores para o avanço da comunidade.
Dia 28, às 16h30, no Auditório

Restaurado ri à toa

outubro 2nd, 2010 § Deixe um comentário

Uma sessão especial da comédia Rico Ri à Toa (1957), filme de estreia de Roberto Farias e recém-saído do forno da restauração, dá início nesta segunda-feira ao programa do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro nesta edição do Festival do Rio. Nos últimos anos, o Odeon tem exibido o resultado desses projetos de recuperação da memória cinematográfica brasileira pelo CPCB, com patrocínio da Petrobras. No ano passado foi A Hora da Estrela, precedido nos anos anteriores por O Homem que Virou Suco, Menino de Engenho, O País de São Saruê e outros clássicos.

Rico Ri à Toa tem Zé Trindade à frente do elenco no papel de um chofer de táxi que recebe herança inesperada de um parente de Portugal e, por conta disso, se mete em inúmeras confusões. Um argumento típico de comédias de equívoco dos anos 50, mas conduzida já com o senso de ritmo e observação social que Farias iria demonstrar nos filmes subsequentes.

A sessão será no Odeon, segunda-feira 4/10, às 19h15.

No dia seguinte, o CPCB promove um painel sobre memória audiovisual e apresenta ao público um número especial dos Cadernos de Pesquisa, publicação editada nos anos 1980. Detalhes sobre a nova edição podem ser vistos aqui.

O programa do painel é o seguinte:

Centro Cultural da Ação e da Cidadania – Rua Barão de Tefé, 75 – Centro
Dia 5/10, terça-feira, de 11 às 13 horas
Abertura com Ilda Santiago
Conferência sobre a restauração de Rico Ri à Toa, com Roberto Farias, João Luiz Vieira, Francisco Moreira (restaurador do filme) e Myrna Brandão (CPCB).    
Homenagem a Alice Gonzaga pelos 80 anos da Cinédia
Apresentação do número especial dos Cadernos de Pesquisa, por Carlos Alberto Mattos e Myrna Brandão, editores.

Santos Dumont: Pré-cineasta?

outubro 1st, 2010 § 1 Comentário

Ver, voar, volver

Carlos Adriano não esconde a origem de seu primeiro longa na sua própria tese de doutorado sobre Santos Dumont e a pré-história do cinema. A relativa coincidência entre o surgimento do mutoscópio (1894), as primeiras experiências de Santos Dumont com balões dirigíveis (1898) e a construção da Torre Eiffel (1889) – em torno da qual SD fez voo célebre em 1901 – levou o cineasta a articular uma série de conexões poético-científicas sobre o desejo de ver e voar.

Um dado vital acabou sendo incorporado pelo filme: a morte do pesquisador e animador cinematográfico Bernardo Vorobow (1946-2009), companheiro e produtor dos filmes de Adriano. As imagens de Bernardo, reiteradas ao longo de todo o filme, sublinham os temas da memória, da desaparição e da reaparição, tão intrínsecos à matéria do cinema. Bernardo, às voltas com uma pequena câmera fotográfica digital no Champs de Mars, cria uma interessante dilatação temporal e tecnológica com as buscas dos pioneiros da imagem em movimento, um século atrás.

Como nunca fizera em seus curtas, Adriano recorre aqui a depoimentos formais para puxar o fio de seu arrazoado. Ismail Xavier, Eduardo Morettin, Henrique Lins de Barros (biógrafo de SD), Ken Jacobs, curadores e historiadores internacionais comentam em paralelo a curiosidade do aviador e a gênese do cinema, bem como o trabalho contemporâneo com materiais de arquivo. O filme de Adriano, aliás, nasceu de um incrível achado arqueológico: centenas de cartões reproduzindo os fotogramas de um filmete da Biograph londrina, rodado para o mutoscópio em 1901. Nele, Santos Dumont aparece mostrando os desenhos e explicando o funcionamento de um balão. Um minuto precioso e desconhecido, que Adriano e Vorobow restauraram e devolveram à forma fílmica. Este é o elemento detonador de toda uma reflexão que nos leva a ver paralelismos formais entre os mecanismos do cinema e da aviação.

Uma inestimável antologia de imagens pioneiras de Marey, Muybridge, Méliès, Dickson, Cohl e outros complementa o prazer intelectual que esse pequeno longa oferece. Arte e pesquisa se unem e se comentam mutuamente num ensaio fertilizado também pelo aspecto afetivo.     

Regard Edgar

agosto 22nd, 2010 § 3 Comentários

Diversão de domingo:

Querem acabar com o Cine Edgard

E pôr um supermercado no seu lugar

Mas enquanto a velha estiver a fiar,

Tem gente boa que não vai deixar.

O Edgard Cine-Teatro é uma instituição em Cataguases. Foi naquela sala da Praça Rui Barbosa que Humberto Mauro e o diretor de fotografia Edgar Brasil viram seus primeiros filmes. Durante o recente Festival Ver e Fazer Filmes, uma turma de artistas-guerreiros criou um curta-manifesto em defesa daquele espaço mítico do cinema mineiro.

Regard Edgar é um delicioso plano-sequência cheio de surpresas e referências ao universo maureano. As participações incluem, na frente ou atrás das câmeras, Maurice Capovilla, Marília Alvim, Ronaldo Werneck, Luiz Carlos Lacerda, Emilio Gallo,  Joel Pizzini e Julio Mauro, entre muitos outros.   

Vejam essa pérola:

Cahiers de pesquisá

março 13th, 2010 § 4 Comentários

Na década de 1980, os pesquisadores do cinema brasileiro viviam uma era bem diferente da atual, quando ainda não existiam e-mails, Google e outras ferramentas que atualmente colocam o mundo ao alcance dos dedos. As pesquisas eram feitas no papel, nas viagens e na consulta empírica aos acervos. Foi quando surgiram os Cadernos de Pesquisa, editados pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), primeiramente com o apoio da Embrafilme. Foram publicados quatro números dos Cadernos, que hoje constituem peças raras em coleções. Eles representaram um momento importante na divulgação da pesquisa cinematográfica brasileira, através da edição de trabalhos que foram fundamentais para o estudo da história do nosso cinema.  

Os tempos mudaram, mas o CPCB continua a agregar pesquisadores das várias regiões do país e a restaurar filmes brasileiros como Menino de Engenho, O País de São Saruê, Aviso aos Navegantes, O Homem que Virou Suco e A Hora da Estrela. Agora, com o patrocinio da Petrobras, o Centro está publicando uma quinta edição (especial) dos Cadernos de Pesquisa. O primeiro lançamento será neste sábado, no campus Gragoatá da UFF, por ocasião do encerramento do IV Congresso do Forcine – Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual.    

Professores de cinema de todo o país vão receber em primeira mão a publicação que reúne 10 artigos assinados por pesquisadores como João Luiz Vieira, Selda Vale da Costa, Solange Stecz e Vladimir Carvalho (veja sumário abaixo). Fui responsável pela edição, juntamente com Myrna Silveira Brandão, presidente do CPCB. Cuidamos para que estivessem representadas as diversas regiões onde existem núcelos do CPCB.

O número especial é dedicado à memória de José Tavares de Barros (1936-2009), um dos fundadores da entidade e idealizador dos Cadernos de Pesquisa. Dele está sendo publicado um texto original de 1978 sobre o filme mineiro Tormenta (1931).

Ah, a montagem fotográfica da capa (acima) é trampo aqui do bonitão.

Fenelon vem aí restaurado

novembro 24th, 2009 § Deixe um comentário

Amanhã (quarta-feira), na Casa de Rui Barbosa (Rio), às 14h30, o pesquisador Carlos Roberto de Souza, da Cinemateca Brasileira, vai apresentar sua tese sobre a preservação de filmes no país. A cinemateca paulista tem sido o principal laboratório dessa atividade, o que não basta para disfarçar a deficiência de uma política pública voltada para a restauração e preservação do cinema brasileiro.

Nesse contexto, o trabalho de formiguinha feito por algumas pequenas instituições e famílias têm feito uma grande diferença. Alice Gonzaga, Patricia Civelli, Myrna Brandão (Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro) e as famílias de Glauber Rocha, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros, estão na linha de frente carioca desse bom combate. Os festivais do Rio e de Brasília puderam apreciar este ano a cópia restaurada pelo CPCB de A Hora da Estrela, de Suzana Amaral.     

Agora chega mais uma notícia auspiciosa, como tantas, patrocinada pelo Programa Petrobrás Cultural. Até dezembro, parte da obra do diretor, produtor, roteirista e técnico de som Moacyr Fenelon terá sua restauração concluída. O projeto do Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), iniciado em 2006, foi realizado por iniciativa de Alice Gonzaga, que recebeu dois prêmios recentemente por seu trabalho de preservação, um da Academia Brasileira de Cinema e outro do FestNatal 2009. São cinco filmes produzidos e dirigidos na fase final da carreira do cineasta (de 1948 a 1951): Obrigado Doutor, Estou Aí?, Poeira de Estrelas, Dominó Negro e A Inconveniência de Ser Esposa. Alguns anos atrás, o CPCB salvou da destruição um clássico do diretor, Tudo Azul. 

Fenelon foi o primeiro grande ativista político da classe cinematográfica, incentivou o cinema independente e inspirou a geração nacionalista dos anos 1950-60. O período final de sua carreira nunca foi avaliado na prática. A reunião desses cinco títulos pretende compreender e divulgar sua atuação como produtor, diretor e seu projeto de um cinema que ampliasse as estratégias de produção ligadas à chanchada. Os filmes recuperados são documentos históricos da era de ouro do filme popular brasileiro. São, também, registros da nossa cultura do pós segunda guerra mundial – momento de profundas mudanças na estrutura social brasileira. As cópias restauradas serão exibidas em um lançamento realizado em parceria com a Petrobrás e em seguida vão circular em festivais e mostras pelo país.

(Parte deste texto foi transcrito do release do IPMCB)

Update: No Festival de Brasília foi anunciado ontem o início da restauração de O Leão de Sete Cabeças, de Glauber Rocha, numa parceria do Governo da Bahia, Associação Baiana de Cinema e Vídeo – ABCV, Tempo Glauber, Cinemateca Brasileira e Estudios Mega.

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