Um épico do compartilhamento

abril 21st, 2012 § Deixe um comentário

No dia 24 de julho de 2010, eu vi uma sessão de curtas no Anima Mundi e recebi em casa a minha amiga Marília Martins, que acabava de voltar de uma temporada em Nova York. Muita coisa aconteceu pelo mundo naquele sábado. Um menino ganhou trocados nas ruas de Lima, um rapaz americano pegou o telefone e contou à avó que era gay, uma mulher chorou sozinha na cama em algum ponto da Europa, um fotógrafo saiu mostrando que Cabul não era só guerra, muita gente se feriu num acidente de multidão em Duisburg, um homem desmaiou enquanto filmava o parto do seu filho no Brasil… Flashes desse dia, um dia como outro qualquer, compõem o primeiro doc colaborativo a circular internacionalmente em salas de cinema.

O projeto A Vida em um Dia é a ponta mais visível de um novo iceberg na linguagem dos documentários: sai o filme de autor, entra o filme de curador. No Brasil não tem sido diferente. Eduardo Coutinho fez a “curadoria” de programas de TV em Um Dia na Vida. Já em Pacific, Marcelo Pedroso trabalhou exclusivamente com vídeos de turistas em cruzeiros a Fernando de Noronha. Diante da massa de produção individual e caseira que surge a cada dia na era digital, cabe a curadores buscar e organizar sentidos, com vistas a criar novas obras a partir do já criado. De certa forma, somos todos curadores quando precisamos administrar, selecionar, favoritar e arquivar o que nos atrai e interessa. Mas Kevin MacDonald (One Day in September, Touching the Void, O Último Rei da Escócia) foi proativo na sua ideia: através do Youtube, convocou a todos que quisessem filmar aquele 24 de julho em suas vidas e suas cidades, e postar o resultado no megasite. Resultaram 88.000 inscrições de 192 países, gerando 4.500 horas de vídeo. Com isso MacDonald montou os 93 minutos de Life in a Day.

De alguma forma, o longa evoca o modelo das sinfonias documentais que marcaram a década de 1920, mostrando em fragmentos o decorrer de um dia na vida de cidades como Berlim, Moscou, Paris e São Paulo. Em A Vida em um Dia, o início na madrugada e o percurso aproximado da jornada sugerem uma sinfonia mundial. Dentro desse circuito macro, MacDonald criou circuitos menores, unificados por temas (trabalho, romance, nascimentos, alimentação, violência e dor etc), certos padrões de movimento (caminhadas, atletismo) e perguntas específicas (o que você carrega no bolso ou na bolsa? O que você mais ama? O que você mais teme?).

Esse carrossel de cenas públicas e privadas – muitas corriqueiras, algumas legitimamente dramáticas, outras bastante divertidas – formam uma espécie de elogio do banal. Ou melhor, mostram que o banal pode assumir um valor poético ou singular quando oferecido ao olhar que não sabe o que esperar do próximo minuto. Além disso, há uma profunda singeleza nesse oferecimento de si e do seu entorno pelo simples prazer de compartilhar. A Vida em um Dia talvez seja o primeiro épico cinematográfico da idade do compartilhamento.

E você, é capaz de lembrar e compartilhar algo que fez em 24/7/2010?

Cinefilia online

abril 16th, 2012 § Deixe um comentário

Artigo escrito em 2010 para a revista Filme Cultura nº 53, de janeiro de 2011 (alguns números devem, portanto, estar defasados)

Você baixa seus e-mails pela manhã e recebe a mensagem de um amigo avisando que um filme raro dos anos 1970 acaba de ser disponibilizado num site de cinema online. Então você não resiste, pega um café e se refestela no sofá para assistir no seu notebook. Em seguida, visita o fórum do site para checar o que está sendo discutido sobre o filme. Navega depois para outros fóruns semelhantes, “conversa” com outros apreciadores do filme, sendo um de Manágua e um de Singapura. Deixa um comentário rápido no Facebook, recomenda o link do filme no Twitter e escreve um post para o seu blog. Por fim, visita o IMDb para verificar o que seus críticos favoritos escreveram sobre aquela obra-prima.

Mesmo sem entrar numa sala de cinema, sem conversar no barzinho, sem folhear qualquer publicação impressa nem gastar um tostão, você terá percorrido um circuito completo de autêntica cinefilia. O notebook, é claro, não se compara à tela grande, assim como a comunicação virtual não se equipara ao contato pessoal. Os nostálgicos dirão mesmo que o jornal eletrônico não tem as virtudes táteis e até olfativas da revista impressa. Já os contemporâneos argumentarão que nenhum cinema estaria exibindo “aquele” filme. E, afinal, de que outra forma você trocaria ideias com os tais cinéfilos de Manágua e Singapura?

Discussões à parte, o fato é que uma nova cinefilia se impõe para fazer face a uma nova forma de consumo do produto audiovisual. E por que não dizer, a um novo cinema. Um cinema descentrado, individualizado e não simultâneo, mas ampliado pela rede globalizada que já engendrou uma espécie de “novo coletivo”.  Continue lendo

Facebook contra Bonequinho

abril 11th, 2012 § 12 Comentários

A lista de "amigos" na bilheteria do Espaço SESC Rio

Um novo capítulo nas relações entre crítica, exibição cinematográfica e redes sociais pode estar sendo escrito agora mesmo aqui no Rio. Estreou na última sexta-feira o filme chileno A Vida dos Peixes, de Matías Bize. A crítica Susana Schild atribuiu-lhe um Bonequinho dormindo em O Globo e um texto inspirado em que tirava sarro com as deficiências do longa. Inconformado com o que considerava uma apreciação injusta, Marcelo França Mendes, diretor do Grupo Estação, que distribui e exibe o filme, lançou uma “promoção” no Facebook, convidando seus 705 amigos a verem o filme de graça. Só pedia aos que gostassem que recomendassem a seus amigos. No dia seguinte, mesmo dizendo correr o risco de ser “internado” pelos seus sócios, ampliou a oferta, a pedidos. Os amigos dos amigos poderiam pagar meia entrada.

A tentativa de “salvar” um lançamento através da rede social parece cabível numa cidade dominada por um único jornal. É claro que existem filmes impermeáveis à opinião crítica, seja ela qual for. Mas a grande maioria, como A Vida dos Peixes, depende muito dessa valoração para ter uma carreira razoável. Em casos como esse, o Bonequinho de O Globo pode ser um ícone cruel. Mais do que estrelinhas, carinhas sorrindo ou chorando, dedos para cima ou para baixo (ou mesmo “ourinhos”, como neste blog), o boneco induz o leitor a supor uma determinada atitude diante do filme. Sair do cinema, dormir ou aplaudir são gestos peremptórios, que não admitem gradação. Em épocas como agora, quando estão em cartaz vários filmes com boneco aplaudindo de pé, o público acaba concentrando nesses sua preferência, e quase nada sobra para os demais.

Minha amiga Susana Schild cumpriu seu papel dignamente. Do que ela escreveu, nada pode ser frontalmente contestado. Mesmo assim, é preciso admitir que se pode estabelecer outra relação com o filme. Se o início parece de fato aborrecido e desinteressante, quem se dispuser a entrar no jogo de Matías Bize pode até se emocionar com a meia-hora final. Um dos aspectos em que discordo ligeiramente de Susana é quanto à inexpressividade do ator Santiago Cabrera. O rapaz não é mesmo nenhum Ryan Gosling, mas acho que sua apatia tem uma função: além de expressar um traço coerente do personagem, reforça o fato de ele ser um mero dispositivo de narrativa. O que Andrés mais (e melhor) faz é ouvir. Assim, atua como avatar do espectador para receber os dados da trama. Nesta, nem tudo faz muito sentido, como o tal trauma no seu passado. Mas os ecos da relação com Beatriz e o suspense em torno do encontro alimentaram meu interesse em boa parte do tempo.

A direção de Bize é eficaz, com excelente aproveitamento de espaços exíguos (como em Na Cama) e um ótimo trabalho com o elenco. Branca Lewin, em seu monólogo central, é capaz de siderar o espectador que a ele (a ela) se entregar.

Enfim, não saí aplaudindo nem tive sono enquanto via A Vida dos Peixes. A diversidade de opiniões é um bem precioso. Uma crítica assinada é a opinião de uma pessoa (credenciada, às vezes, mas ainda assim um indivíduo). Sei, por exemplo, que esse filme escapou por pouco de receber uma cotação ainda pior de outro crítico de O Globo. O que importa discutir não é esta ou aquela opinião, mas a hegemonia do Bonequinho, no nível em que se dá hoje. Isso, sim, é uma distorção do papel da crítica.

Quanto ao Facebook do Marcelo, foi um recurso elegante e inventivo. Gerou comentários engraçados, como o de Zé José (Eduardo Souza Lima): “Maravilha! De graça, até filme chileno”. Se der certo e a coisa pegar, quem sabe as próximas promoções vão incluir o pão de queijo.

Abacateiro digital

dezembro 26th, 2011 § 2 Comentários

Gil e Bodanzky na tela do Skype

Transformar boas palestras em bons documentários não é tarefa fácil. A CPFL, companhia de energia sediada em Campinas e uma das patrocinadoras do É Tudo Verdade, está convidando cineastas para criar em cima dos registros de eventos patrocinados por ela. Jorge Bodanzky acaba de finalizar dois trabalhos nessa série chamada Discussões e Reflexões.

Sociologia da Crise discute os efeitos da crise financeira de 2008. Aqui, a dinâmica construída pelo roteiro não consegue eliminar uma certa aridez nem organizar as ideias de modo mais produtivo. Em compensação, Transanarquia dá uma boa impressão do que esse modelo de construção pode render.

Transanarquia é um doc de 50 minutos feito a partir de um simpósio de cibercultura realizado em Santos, em 2009. Bodanzky volta a alguns dos participantes para atualizar questões e perguntar para onde anda a internet. Mas, bem de acordo com a proposta geral, ele volta pelo Skype, em entrevistas à distância, notebook a notebook. É claro que nada muda em profundidade nessa abordagem virtualizada, mas pelo menos a superfície do filme se imanta das potencialidades do que seria hoje uma estética digital.

A imagem lowtech e a sincronia desarrumada do Skype conferem uma urgência e uma atualidade especiais às falas de Gilberto Gil e José Arbex Jr. Como sempre nesses casos, Gil é uma estrela cintilante. No simpósio, cantou baladas e raps com o tema da tecnologia e contagiou a todos com suas análises de uma certa vocação da cultura para o consumo coletivo e seu ciberotimismo em vista de um novo “comunismo sem estado” propiciado pela cultura digital. “É muito John Lennon o que vem por aí”, imaginou, com um riso cheio de fé. Na outra ponta do espectro, um outro “Gil”, o economista e sociólogo Gilson Schwartz, relativiza bastante esse entusiasmo, apontando a perda de substância e o advento de uma “iconomia”, variação da economia que se baseia em ícones das relações virtuais.

O debate é interessantíssimo e ainda não perdeu a oportunidade desde a época em que o Wikileaks dominava o noticiário. Mas a CPFL não deve demorar a fazer circular esses filmes, sob pena de suas discussões serem rapidamente superadas pelo trem-bala dessa nova cultura. Seja como for, um doc como Transanarquia resistirá pela simples cota de inteligência nele contida. Inteligência no seu melhor estado, que é a verve. O filme termina deliciosamente quando Pierre Lévy conclui sua palestra anunciatória e Gil pega o microfone para perguntar, todo candura: “Mas Pierre, e se não for assim, como será?”

Não ouvimos a resposta de Pierre, mas eu bem que gostaria de ouvir a de Gil à mesma pergunta, caso Bodanzky a tivesse feito no seu Skype.

Animação contra o desânimo

abril 4th, 2011 § 1 Comentário

A ONDA VERDE (THE GREEN WAVE)
de Ali Samadi Ahadi

Quando Ahmadinejad e o clero conservador sufocaram com mão de ferro a rebelião dos jovens verdes contra as fraudes das eleições de 2009, a única fonte de informação confiável eram os blogs, as redes sociais e as imagens de vídeo e celulares contrabandeadas através da internet. Na época, antes que as Google Revolutions derrubassem as ditaduras da Tunísia e do Egito, aquele fluxo caseiro não foi suficiente para deter o escândalo eleitoral e o massacre da oposição em Teerã.

É com esse material que The Green Wave constrói um poderoso libelo sobre o sonho interrompido da juventude e dos progressistas iranianos. Relatos de 15 blogs, além de mensagens do Twitter e do Facebook, inspiraram uma narrativa adaptada à animação. O efeito é muito poderoso, ficando a meio caminho entre o documento sonoro e a reencenação visual. Ao contrário do premiado Valsa com Bashir, as cenas animadas não predominam no filme, mas apenas fornecem um pathos dramático ao que é descrito em palavras, combinando-se com materiais filmados na rua e depoimentos de ativistas, jornalistas e reformistas.

Diretor, equipe e entrevistados são iranianos expatriados, sobretudo na Alemanha, onde o filme foi produzido. Todos eles sabem que, depois desse doc, tão cedo não poderão voltar ao Irã. Mas o tom das palavras que ouvimos no filme  não é só de revolta, terror e desânimo com o esmagamento da Onda Verde. Abatida mas persistente, resta uma voz de esperança pela “reconstrução da nossa nação”.

Emocionante como peça histórica, o filme de Ali Samadi Ahadi testemunha também a importância que os blogs e as redes sociais vão assumindo na realização de documentários. Eles “aquecem” os dossiês colocando a experiência humana à frente das visões profissionais do jornalismo. Um dos melhores filmes desse festival.     

Cezar Migliorin destaca as redes

março 20th, 2011 § Deixe um comentário

Pelo teor e extensão, destaco abaixo o comentário do cineasta, artista, crítico e professor Cezar Migliorin a respeito do meu artigo Menos silêncio, por favor

Salve meu amigo,

Visto a carapuça. Tenho apontado para esse cinema como algo importante no Brasil hoje. Me dediquei mais longamente a apenas quatro filmes; Avenida Brasilia Formosa, Pacific, Sábado à Noite e O Céu Sobre os Ombros. Acho os três especialmente tocantes pelas formas que abordam as cidades, a pobreza, as disputas com a cultura de massa e a própria relação do cinema com as formas de vida. Mas, quando trabalhei com cada um desses filmes fiz o esforço de não fazer a passagem entre as obras e um “novo movimento”. Os diálogos dessas obras é complexo. Serras da desordem e Moscou estão próximos, mas também um corte eventualmente ligado ao melodrama, os filme-dispositivo, o documentário moderno e toda crise do lugar do realizador que nunca mais resolveremos – felizmente. Digo isso porque me parece extremamente complicado, diante do que temos visto – com os filmes que citas ou que estão implícitos no texto – que façamos um julgamento desse cinema baseado em uma análise das obras; o que não quer dizer que elas não interessem, pelo contrário.

Temo que tua leitura caia na mesma armadilha da do Felipe. Esses filmes, se desejarmos pensar o conjunto, não podem ser julgados sem que consideremos as redes para as quais eles apontam e mobilizam. Ou seja, metodologicamente meu esforço tem sido partir da obra e dela fazer as conexões necessárias para a reflexão ou partir da rede à qual os filmes fazem parte. Quando parto da obra, percebo que são filmes que fazem parte da história do cinema, com eventuais singularidades, é claro. A indistinção entre documentário e ficção, por exemplo, ganha novos traços. A performatividade, como você chamou atenção em Tiradentes, também, assim como uma relação com história do cinema que, nesses filmes que trabalhei mais a fundo, não é nada ingênua. Mas, quando parto da rede e das condições de possibilidade para que essa eventuais traços estéticos surjam, percebo que estamos diante de algo forte e singular.

Uma singularidade que tem nos forçado a pensar novas estratégia de mercado, novas formas de atuação do estado, novos tipos de licença para proteção da propriedade intelectual, novas formas de relação com a universidade, novas formas de fomento e incentivo ao acesso, etc. Perceba. Se não fossem os filmes, em suas heterogeneidades e qualidades diversas e não consensuais – nós mesmo em Tiradentes discordamos sobre determinados filmes – esse movimento que hoje mobiliza bem mais do que uma patota e festivais que não são tão irrelevantes assim, não estaria acontecendo.

A rede que tenciona a distribuição, as formas de acesso, os festivais, as políticas públicas, a universidade, a crítica e é recheada de inquietações estéticas, é mobilizada por algo que está nos filmes, não é pouca coisa.

Não se trata assim de um movimento, como se houvesse um conjunto relativamente fechado, como nos tantos movimentos que conhecemos na história do cinema, nesses caso, acho que essa noção não faz muito sentido. Trata-se de uma outra lógica, acentrada, dispersa, que hoje está focada em alguns diretores e no ano que vem em outros ou outras cidades. Sim, talvez seja uma geração, uma geração que soube inventar meios de fazer do cinema um modo de vida fora do eixo Rio-São Paulo – mas nele também, como v. chama atenção -, fora das amarras da indústria mas, mas encontrando seus espaços, fazendo uso e inventado redes econômicas, afetivas, criativas e, claro, de legitimação. Diria então: estamos diante de imagens que tem força suficiente para nos revelar a potência e a singularidade dessas redes que incluem os filmes e suas criações. Isso já é, em si, motivo de entusiasmo, mas também é pouco para uma leitura histórica, panorâmica. Nesse sentido, torna-se problemático deslocar para toda uma rede aquilo que se pode encontrar no específico; infantilismo, pretensão, etc.

Há um ponto no teu texto que é um desafio para nós. Quando falas do patrulhamento semântico que nega “arte”, “qualidade” e “autoria”, optando por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. Primeiramente, acho patrulhamento forte, entretanto, duas colocações me parecem fundamentais. O primeiro é referente às obras mesmo. O fato desses outros termos ocuparem a cena, alguns marcadamente pós-estruturalistas, não fala da necessidade de nos relacionarmos com outros campos do pensamento para falarmos dos filmes? É claro que essa utilização pode ser caricata, mas, novamente, faria o esforço de não ver no particular um retrato do todo. O outro ponto é ainda mais problemático. Estamos dispostos a lutar pela noção de qualidade no cinema com a Globo e um certo cinema em que a “qualidade” se auto-justifica? Estamos dispostos a lutar pela noção de autoria? Com que ganho? Novamente, nos filmes que citei acima, tal noção não se faz sem problema. Ainda, quando por todos os lados, a palavra de ordem é crie, eu entendo perfeitamente que falar em arte seja difícil, eu não desisti ainda, mas, sem deixar a polis de lado.

Meu abraço
Cezar Migliorin

Documentários em ‘portugueses’

outubro 20th, 2010 § 2 Comentários

Depois de emplacar como usina de bons documentários no Brasil, o programa DOCTV espalhou-se pela América Latina e agora chega à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Nesta sexta às 22h estreia na TV Brasil (sempre com reprise no sábado às 24h na TV Cultura) a série DOCTV CPLP. São nove docs realizados em quatro continentes e com exibição assegurada nas TVs públicas dos nove países participantes. Visualize um PDF com a grade de exibição no Brasil.

Uma Lulik, de Victor de Souza, foi o primeiro filme produzido e dirigido por um timorense desde a libertação do Timor Leste. Mais que viabilizar a realização de docs, o programa multilateral vem fomentando a criação de estruturas para produção audiovisual. Em Cabo Verde, Timor Leste e São Tomé e Príncipe, onde não havia sequer entidades do setor, o DOCTV propiciou a criação de institutos que agora se dedicarão a estimular a produção local. 

O DOCTV CPLP custou 900 mil euros, repartidos igualmente entre Brasil e Portugal. Os países africanos (Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) e asiáticos (Timor Leste e Macau) foram apenas beneficiários dessa ação que visa alavancar a CPLP através do audiovisual e promover a isonomia entre as diversas regiões.

O filme brasileiro, exibido na noite de lançamento, terça passada, é Exterior, de Matias Mariani e Maíra Bühler, co-autores do premiado Elevado 3.5. Traça um perfil superficial de alguns estrangeiros recolhidos em um presídio brasileiro. Alguns deles têm certo carisma e as imagens são expressivas, mas o doc peca pela ausência de um foco mais afinado. A singularidade dos personagens, duplamente isolados por se encontrarem privados da liberdade e num país que não é o deles, passa ao largo do interesse dos diretores. Não fosse por uma única fala, nem saberíamos que o presídio fica no Brasil. Os relatos de memórias de infância, circunstâncias de seus delitos e condições de suas celas não se sustentam à falta do principal: o que são esses homens tão longe de suas raízes e como vivem sua extrema solidão? Assim sendo, cabe perguntar por que eles e não quaisquer outros presidiários. Uma ironia a mais: já que todos os personagens se expressam em línguas estrangeiras, a única relação do filme com a CPLP são… as legendas.

Mais bem sucedido foi Laura, de Felipe Barbosa, que representou o Brasil na segunda série do DOCTV Latinoamérica (ex-Iberoamerica). Esta já se encontra no ar desde agosto, toda quinta-feira às 23h na TV Brasil. Os 14 países latino-americanos participantes dividiram equitativamente os custos e benefícios do programa.     

Nossa Vida Exposta

setembro 25th, 2010 § 1 Comentário

Origens do contemporâneo

O máximo de exposição pode se equivaler ao máximo de repressão – eis o que demonstra esse ótimo doc de Ondi Timoner. Ex-funcionária da pioneira webTV Pseudo.com, ela herdou a tarefa de montar o filme a partir das 5 mil horas filmadas em torno do arauto da internet Josh Harris ao longo de duas décadas. O que resultou é um mergulho sem precedentes na lógica que comandou os primeiros anos de vida virtual, antecipando dramaticamente a realidade atual da autoexposição e das redes sociais.

Entre seus pares, Harris teve o diferencial de fazer isso como uma proposta radical de comportamento. Para o projeto Quiet: We Live in Public (1999), ele reuniu mais de 100 voluntários para viver num bunker subterrâneo sob vigilância constante (mesmo!) de dezenas de webcams, em regime de total conectividade. A todos era concedida liberdade total e, ao mesmo tempo, um tratamento de Guantánamo. Mais tarde, Harris repetiu a experiência com ele mesmo e sua namorada, dividindo com o público cada segundo da convivência do casal durante meses. Que todas essas empreitadas tenham terminado mal não chega a afetar sua importância visionária. O teor de disponibilidade, vigilância e mesmo sadomasoquismo da autoexposição servem como reflexo antecipado – e aumentado – do que vivemos hoje cotidianamente.

We Live in Public nos familiariza um pouco com “internet enterpreneurs”, “surveillance artists”, “interrogation artists” e toda uma fauna de “dot.com boys” que passou do anonimato ao estrelato e de volta à obscuridade em poucos anos. Josh Harris é um deles, talvez o mais performático, a ponto de ter sido chamado de “Warhol da webTV”. Ele é o eixo central de um roteiro primoroso, tão coeso que cada depoimento ou cena de arquivo parece ter nascido já dentro do filme. O gigantesco e energético trabalho de edição não deixa fios perdidos e mantém o sabor de entretenimento. Ao fim da projeção, é como se saíssemos de uma montanha russa, mas com um gap de informação preenchido sobre as origens da contemporaneidade.

Site do filme 

Conectividade ou morte

dezembro 29th, 2009 § Deixe um comentário

Consciência ecológica, crítica à ganância geoeconômica, mensagem de respeito ao diferente – todas essas ideias edificantes circulam velozes pelas veias de Avatar. A floresta, ora jardim das delícias, ora inferno dantesco, é o palco para uma atualização de dois gêneros: o filme de alienígena e o filme de índio. Obedecendo à lógica instalada nos anos 1960, os “estranhos” é que são os heróis, enquanto o papel de vilão cabe à ideologia belicista dos terráqueos e brancos. 

Mas o que ancora toda a lógica politicamente correta do filme é algo bem mais contemporâneo. É o elogio da conectividade. O maior tesouro da civilização Na’vi é sua compreensão panteísta do universo, de que tudo está ou pode estar conectado. As árvores se comunicam, assim como homens e animais uns com os outros, corpos e espíritos. Conectar é “ver por dentro”, compartilhar energias e conhecimento.

Por isso os terráqueos beligerantes soam tão rudes e cínicos. Mais que tudo, eles são a retaguarda da desconexão. No seu egoísmo devastador, não têm noção da importância de compartilhar. Para eles, o mundo é pura matéria-prima para ser explodida e transformada segundo seus interesses. Para aqueles senhores da guerra, nada se conecta com nada, a não ser com um fim de conquista através dos avatares.    

O filme de James Cameron coloca vários temas clássicos para convergir num grande tema que interessa à mentalidade e à indústria tecnológica de hoje: um mundo que precisa da conectividade para ver as coisas por dentro e, quem sabe, se salvar de um horizonte de autodestruição. Conecte-se, ou será desconectado para sempre.              

Costurando os Pontos

novembro 28th, 2009 § 1 Comentário

Cena do programa Ponto Brasil - Cidades

Hoje (sábado), às 23h45, a TV Brasil vai transmitir o segundo programa da faixa Ponto Brasil, uma experiência interessante em matéria de produção coletiva para a TV. Os pequenos ensaios, ficções e documentários que compõem cada um dos 14 programas temáticos foram produzidos em regime colaborativo por cerca de 100 Pontos de Cultura e coletivos audiovisuais em 15 estados.

Durante 18 semanas de gravação este ano, aproximadamente 400 participantes realizaram 130 vídeos. Desde os primeiros argumentos até a edição, cada vídeo é assinado por uma coleção de grupos, que se reuniu sob a orquestração da equipe fixa do Ponto Brasil, dirigida por Leandro Saraiva. Quem quiser verificar como funciona esse método de criação de conteúdo online pode acessar o site do Ponto Brasil.

Na prática, é a pequena revolução operada pelos Pontos de Cultura que chega à TV. Com qualidade audiovisual razoavelmente sofisticada, os programas tratam de cidadania, identidade, relacionamentos, cotidiano etc. No primeiro, que pode ser visto aqui, o tema foi a cidade. O resultado me pareceu irregular, variando entre a ingênua caminhada de uma cozinheira do interior por Belo Horizonte, uma deplorável ficção sobre solidão em Londrina, uma energética argumentação sobre quilombos urbanos em São Paulo e dois caprichados ensaios poéticos sobre fluxos da cidade em Goiânia e monumentos paulistas. Em alguns momentos da edição, ronda o risco da semelhança com a estética da propaganda oficial.

Mas é preciso ver um pouco mais para formar uma apreciação. O tema do programa de hoje é “Ossos e Ofícios”. Vale a pena conferir, nem que seja pela imprevisibilidade do que virá e pela aragem fresca que vem dessa maneira de reunir impulsos criativos dos quatro cantos do Brasil.           

Vai um stop motion?

novembro 15th, 2009 § Deixe um comentário

Diversão de domingo:

O Youtube, Vimeo e sites afins não se limitam a trazer o mundo em movimento para o nosso nariz e levar nosso mundo para o nariz dos outros. Eles permitem também a qualquer um se converter em curador e programador dentro do grande fluxo da rede. Você pode criar canais pessoais, dentro do próprio site, para sugerir o que outras pessoas  devem ver. Ou então fazer suas curadorias no seu próprio site ou blog.

Uma excelente “mostra” virtual eu conheci recentemente através do indispensável Twitter da @mariliamartins, correspondente de O Globo em NY. O designer canadense Mike Smith selecionou no Vimeo 50 curtas incríveis que usam a técnica do stop motion, envolvendo desenho, grafite, animação 3D e gente de carne e osso.

Clique aqui para chegar lá. Vale por um pequeno Anima Mundi.

Tuitando pertinho

agosto 13th, 2009 § Deixe um comentário

Agora você pode acompanhar meu Twitter também aqui no blog. Veja na coluna da direita, logo abaixo dos filmes em cartaz. Minhas cinco mensagens (ou tweets) mais recentes estão ali.

Se você também tuíta, então siga-me: @carmattos

50 seguidores!

agosto 6th, 2009 § 1 Comentário

Atingi a vertiginosa marca de 50 seguidores no Twitter. Agora só faltam os seguintes números para alcançar:

Paulo Coelho: 81.383

Marcelo Tas: 222.915

The White House: 876.111

Ashton Kutsher: 3.075.496

Também pudera: eles não devem eliminar os spammers, aqueles malucos que começam a seguir qualquer um na esperança de serem seguidos em contrapartida automática e assim inflarem seu número de followers. Tanto que algumas celebridades estão dando um unfollow geral para recomeçar do zero, sem o spam. Paulo Coelho foi um que não suportava mais receber milhares de mensagens sem nexo e resolveu dar uma zerada.  

De minha parte, tenho eliminado seguidores suspeitos – geralmente empresas comerciais ou garotas de programa. Meu Twitter, portanto, é bem limpinho. Estou muito satisfeito com esses 50 amigos que recebem meus recados regularmente.    

Twitteratura: muitas ideias em poucas palavras

julho 29th, 2009 § Deixe um comentário

Em entrevista a André Miranda, há poucos dias, José Saramago disse que o Twitter é um passo a mais na descida do homem até o grunhido. Na certa, o autor de Ensaio Sobre a Cegueira não estava se referindo apenas ao mar de banalidades e recadinhos espertos dessa rede social. Estava duvidando do seu potencial literário. Mas já tem um bocado de gente praticando um subgênero chamado twitterature, que busca tirar partido da circulação-relâmpago e do limite de 140 caracteres dos tweets (agora o verbo “to tweet” faz parte da gramática oficial dos EUA).  

Muitos projetos literários estão sendo desenvolvidos diretamente no Twitter. Há mesmo quem redija pequenas histórias a partir de palavras-chave que estão circulando na rede. Dois estudantes da Universidade de Chicago começaram a postar no Twitter trechos selecionados de obras de Dante, Stendhal, Shakespeare, Joyce etc, e já preparam um livro com esse material. No Brasil, C.S.Soares é tido como o autor da primeira twitterização de um romance,  o sd8. Continue lendo

Xô, microvida e metavida

julho 23rd, 2009 § 7 Comentários

Cotidiano tecnologizado, acesso imediato à informação, explosão das redes sociais… E a gente não consegue mais sair da frente do computador (ou desligar o celular). O grande desafio que se apresenta é: como selecionar?

Desde que entrei no Twitter, senti a necessidade ainda maior de não sucumbir à avalanche da hipercomunicação. Para isso, vou consolidando aos poucos uma decisão: fugir da microvida e da metavida.

A microvida é aquela dos eventos banais do dia-a-dia. Por exemplo, não sigo quem usa o Twitter principalmente para dizer que acordou mal-humorado ou que acabou de comprar um melancia deliciosa na feira. Por mais amigo que seja, e mesmo que esteja me seguindo, não sigo. Ninguém precisa saber essas coisas. Se da minha microvida até eu mesmo procuro escapar, imagina da microvida dos outros.

Já a metavida é aquele tempo enorme que, cada vez mais, dedicamos à própria tecnologia como um fim em si. Fico besta de ver a quantidade de mensagens que rolam no Twitter sobre as maravilhas do próprio Twitter, de como ele vai melhorar sua vida e mantê-lo em contato com o mundo inteiro de uma vez só. Acho que o Twitter é o principal assunto do Twitter, o que não me interessa nem um pouco.

Se bobearmos, o espaço dedicado à metavida vai crescer tanto a ponto de a confundirmos com nossa vida de verdade. A internet é um canal, não o destino. Digo isso a mim mesmo. E ponho aqui no blog.

Agora vou correr pra botar no Twitter…          

P.S. E ainda tem a pseudovida. Artur Xexéo caiu no conto do Twitter falso, esculachando Narcisa Tamborindeguy mediante a tuitagem de um impostor que se inscreveu em seu nome. Eu mesmo já topei com Twitters suspeitos, quando não visivelmente apócrifos, como vários criados em nome do Presidente Lula só para achincalhá-lo. 

Onde estou?

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