Serra e FHC – os filmes

Semana que vem, finalmente, vou ver Lula, o Filho do Brasil, o primeiro provável blockbuster do ano que vem. Quase tudo o que tenho ouvido soa favorável ao filme, exceto pela choradeira da oposição ao associar o lançamento com o calendário eleitoral. Para equilibrar as coisas nessa área, só se fizessem um filme sobre José Serra ou Fernando Henrique Cardoso.

Mas imaginem o que seria uma cinebiografia desses dois, a não ser como documentário careta. Serra ainda poderia posar de criança pobre da Mooca, filho de um vendedor de frutas, depois ator de peça de Zé Celso, presidente da UNE e um dos fundadores da Ação Popular. O período de exílio no Chile encareceria um pouco a produção, mas depois disso viria uma monótona sucessão de cargos públicos e legislativos, interrompida apenas pela boa passagem pelo Ministério da Saúde e a conquista do governo de São Paulo. Duvido que isso desse para uma boa bilheteria.     

A opção com Fernando Henrique seria ainda menos atraente como roteiro de cinema. Descendente de três gerações de generais, FHC passou a primeira parte da carreira no mundo acadêmico e tem como maior trunfo a implantação do Plano Real. Mesmo com os temperos conflituosos do neoliberalismo, das privatizações e das falcatruas da reeleição, não consigo imaginar um filme emocionante a partir de sua história.

No entanto, FHC não tem do que reclamar em matéria de presença nas telas ultimamente. Ele é a estrela do doc Retrato de Grupo, de Henri Gervaiseau, sobre a geração de intelectuais que criou o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Ainda não vi o filme, mas posso imaginar que, naquele contexto, tanto o ex-presidente quanto Serra se saem bem na fita.

Já em dois outros docs, a participação de FHC não é das mais brilhantes. Para dizer a verdade, é lamentável. Em Eliezer Batista, Engenheiro do Brasil, ele afirma ter sido, “em princípio, contrário à privatização da Vale”. Mas não explica por que mudou de ideia e se opôs à esquerda e ao próprio Eliezer, então presidente da empresa. Passa, querendo ou não, a impressão de que foi levado por circunstâncias “maiores” a ir contra sua vontade, aí considerando-se a ambivalência do termo “princípio”.

Em Cidadão Boilesen, Fernando Henrique solta uma pérola ainda mais interessante: “O AI-5 atrapalhou muito o Brasil”. A suavidade do verbo “atrapalhar” deixa transparecer uma certa leniência para com o momento mais negro do regime militar. É quase um equivalente da “ditabranda” com que a Falha de São Paulo selou sua reputação há algum tempo.

Bem, hora dessas falo do filme do Lula.

Update: Ouvi dizer que Fernando Henrique Cardoso pode vir a ser o candidato do PSDB à presidência como terceira via a Serra e Aécio. Isso, sim, seria um filme engraçado. 

Update 2: FHC pode também protagonizar um filme-libelo em prol da descriminalização do consumo de drogas e tornar-se o Al Gore brasileiro. Que tal? 

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