Abbas e Eduardo – jogos de cena

As trajetórias de Abbas Kiarostami e Eduardo Coutinho trilham estradas de certa forma paralelas, mas em sentidos contrários. Kiarostami vem da ficção e, aos poucos, foi desvendando o teor documental da ficção. Coutinho, por sua vez, apesar do início de carreira na ficção, pode-se dizer que vem do documentário, mas explora cada vez mais o caráter ficcional do documentário.

Shirin (2008), de Kiarostami, e Jogo de Cena (2007), de Coutinho, são talvez os pontos em que eles se cruzam no caminho, cada um na sua pista.

A proposta de Shirin parece simples à primeira vista. O filme se compõe exclusivamente de closes de mulheres na plateia de uma sala de cinema. Elas assistem a um filme que supostamente passa na tela à sua frente, mas que não vemos. Apenas ouvimos a faixa sonora e vemos as mudanças de luz das cenas se refletirem no rosto das espectadoras. O filme-dentro-do-filme baseia-se num poema do século XII, que conta a tortuosa história de um triângulo amoroso entre Shirin, rainha da Armênia, Khosrow, rei da Pérsia, e o escultor iraniano Farhad. O áudio indica uma alternância de cenas românticas e dramáticas, intrigas e batalhas. A tudo as mulheres reagem ora com enlevo e sorrisos, ora com sustos, horror e muitas, muitas lágrimas.

A experiência de “ver” um filme através somente dos rostos de espectadores já é por si mesma intrigante. Quantas vezes não somos tentados a checar como nossos companheiros de plateia estão reagindo a determinados momentos de um filme? Em certos casos, essa diversão poderia ser até mais interessante que o próprio filme, não fosse o risco de sermos tomados por malucos ou inconvenientes. Shirin nos oferece a chance de radicalizar essa opção.

Mas o que aqui interessa para o meu argumento se revela apenas no making of do filme. Por ele ficamos sabendo que tudo não passou de um jogo de cena promovido por Kiarostami com 114 famosas atrizes iranianas, mais Juliette Binoche. Quando elas tiveram registradas suas expressões e lágrimas, não tinham filme nenhum diante de si, mas apenas um pequeno cartão que indicava a direção dos olhares e a voz do diretor conduzindo seus gestos e estimulando a lembrança de episódios emocionantes da vida de cada uma. Até o manuseio dos véus de cabeça foi dirigido por Kiarostami.  Os sustos eram provocados por objetos atirados ao chão do pequeno estúdio, onde cada atriz filmou separadamente. A dança de luzes era feita com máscaras à frente de um refletor. Só depois é que foi gravada a dramatização sonora da história de época, sendo cada trecho editado com as expressões mais adequadas das espectadoras.

Kiarostami trabalha, assim, com a abstração e a pura ilusão do aparato cinematográfico. Refaz a célebre experiência de Lev Kulechov, que “contaminava” expressões humanas com elementos filmados à parte e montados em justaposição. De certa forma, dialoga com o filme do Coutinho ao instabilizar a verdade da representação. Mas se Coutinho buscava com Jogo de Cena indiferenciar verdade e encenação, Kiarostami pretende partir da completa encenação para forjar uma impressão de verdade só possível através da sugestão cinematográfica. Um desconstrói, o outro constrói.

Afora isso, os filmes se assemelham no interesse pelo rosto feminino. Em Jogo de Cena, o rosto ativo e emissor de histórias e emoções. Em Shirin, o rosto passivo receptor, mas que se torna ativo ao servir de espelho para nós, espectadores finais. A passividade das personagens de Kiarostami funciona ainda como um comentário à condição da mulher iraniana, tema obsessivo de filmes recentes do diretor. Por isso, depois de uma trama que envolve repressão, renúncia e autossacrifício, o filme-dentro-do-filme direciona uma pergunta às mulheres da plateia: “Suas lágrimas são por Shirin ou pela Shirin que existe dentro de cada uma de vocês?”. Shirin, no fundo, seriam todas as mulheres do Irã.     

3 comentários sobre “Abbas e Eduardo – jogos de cena

  1. Carlos, já na minha resenha mínima escrita durante o festival do Rio sobre “Cópia Fiel”, do Kiarostami, eu mencionei “Jogo de Cena”:
    “(…) Partindo de uma discussão sobre o valor das cópias em relação às obras de arte originais, o filme passa para uma representação do relacionamento entre a personagem de Juliette Binoche e o do barítono inglês (estreando como ator) William Shimell: eles foram casados? São casados? Ou estão fazendo uma “cópia fiel” de uma relação desgastada? A cópia, se cópia for, é fiel ou infiel? Um “psicodrama”? Eles mudaram ou são sempre os mesmos, cópias de si-mesmos que não arredam o pé de onde estão e semrpe estiveram? Além de repetir aspectos frequentes em tantos filmes do cineasta, tal como, dentre outros, a conversação entre os personagens durante um percurso de automóvel, cabe questionar uma certa autocomplacência do diretor e este seu filme: o quanto esta obra é “aberta”? Aberta em excesso? Algo afetada? A indefinição intencional do que se passou – ou não -, está se passando – ou não – entre aquele homem e aquela mulher não acaba sendo uma espécie de “saída fácil”, um truque intelectualizado de abrir tantos caminhos sem assumir nenhum? Uma espécie de “Jogo de Cena” ficcional cujo esteio é a interpretação irretocável de Juliette Binoche, premiada no Festival de Cannes 2010. Sem ela, o que seria do filme? Talvez um quebra-cabeça intelectual realizado com extrema elegância e uma certa frieza sobre os estágios do relacionamento conjugal. (…)”

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