Banco Central – a verdade ainda pode vir à tela

Chega aos cinemas amanhã (sexta) um novo candidato a blockbuster brasileiro. Assalto a Banco Central usa elenco multiestelar, trilha sonora excessiva e boa fotografia para macaquear os thrillers de assalto americanos diluídos no refrigerante da comédia. O filme de Marcos Paulo se passa em dois tempos narrados alternadamente. De um lado, a arregimentação da quadrilha, o surgimento de conflitos internos, a escavação do túnel e a realização do maior roubo (e não assalto) bancário da história do país. De outro, a investigação posterior, a cargo de um delegado e sua assistente lésbica, culminando com a captura de parte do bando.

Uma combinação de fatos apurados e lances inventados ou deduzidos tenta extrair os aspectos, digamos, hollywoodianos da trama que abalou o notíciário policial em agosto de 2005. Do roubo se descobriu quase tudo, mas os detalhes reais da investigação permanecem desconhecidos da maioria dos mortais. Uma mulher, no entanto, presenciou grande parte da “Operação Toupeira”, conduzida pelo delegado Antonio Celso dos Santos. E ela tinha uma câmera.

Policial olha o túnel usado para o roubo. Foto (AE) divulgada à época

Logo em seguida ao crime, a repórter e documentarista Luciana Burlamaqui foi convidada para dirigir um documentário sobre as investigações. Durante dois anos, ela acompanhou a dupla formada por Antonio Celso e outro agente federal, gravando com exclusividade – e em regime top secret – o trabalho dos policiais em 40 viagens por 10 estados brasileiros. Essa história ainda está por ser mostrada.

Luciana até hoje negocia com duas produtoras a forma de finalização do material. Ela quer montar um seriado de TV com o título provisório de Diário de uma Investigação – Os bastidores do maior roubo a banco da história do Brasil. Luciana prefere não se estender sobre os pormenores de um assunto que se tornou delicado para muita gente. Mas não esconde suas intenções:

– Todo o meu interesse nessa história é pelo fato de poder contar como é possível combater o crime no Brasil sem violência e sim com inteligência. Fui testemunha do método investigativo adotado pelo delegado e chefe da investigação Antonio Celso dos Santos, e por isso  decidi apostar nessa história e me entregar fortemente ao projeto, pois achava que ali havia algo importante para se mostrar com mais profundidade.

Luciana escreveu um diário simultaneamente às filmagens. Quer publicar esses textos combinados com suas reflexões sobre a violência no Brasil nos últimos 20 anos. Desde a década de 1990 ela se especializou na cobertura desse tema. Aos 20 anos, já atuava como repórter investigativa para o livro Rota 66, de Caco Barcellos. No ano passado, lançou o excepcional documentário Entre a Luz e a Sombra, sobre a convivência de uma atriz e ativista com dois artistas presidiários ao longo de sete anos. Ao documentar a investigação do roubo ao BC, Luciana diz ter adotado o mesmo tipo de movimento dramático que aproxima a narrativa da ficção. Garante, porém, que nada foi dramatizado:

– Tudo é absolutamente real, gravado em tempo real. Segui diariamente uma dupla de policiais e registrei tudo o que encontravam pela frente, sem previsão do que ia acontecer. Foi um trabalho fascinante o de conhecer o submundo da criminalidade brasileira pelo ponto de vista de uma investigação policial, já que sempre documentei mais o lado dos acusados – e ter certeza de que é possível combater o crime sem violência. Esta é uma história muito importante para o Brasil conhecer.

Esperamos que sim, Luciana. O documentário brasileiro não pode ficar sem esse capítulo.

>>> Leia entrevista de Luciana Burlamaqui à Folha de S. Paulo após a publicação deste post.

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