A voz humana

Pierre Perrault começou a fazer documentários no rádio, nos anos 1950. Colhia as falas de trabalhadores e gente comum para seu programa na Radio-Canada. Deixou-se seduzir especialmente pelas histórias dos pescadores, marinheiros e caçadores que viviam às margens do rio St. Laurent. Alguns desses personagens seriam levados ao cinema quando surgiram as câmeras leves e o som direto, no início dos anos 60. Pour la Suite du Monde (Para que o Mundo Prossiga), realizado por Perrault e Michel Brault em 1962, ia se tornar um clássico, o primeiro longa do cinema direto. Ele é um dos carros-chefe da Mostra Pierre Perrault, que chega ao Rio nesta sexta, 18, no Instituto Moreira Salles.

Com 31 documentários do diretor, produzidos entre 1958 e 1994, e mais três filmes sobre ele, a mostra vai percorrer seis capitais brasileiras apresentando o conjunto de um trabalho pouco conhecido por aqui. Perrault esteve no Rio, na Mostra do Filme Etnográfico, em 1996, quando se encontrou com Jean Rouch (na foto acima, PP, JR e Patrícia Monte-Mór). Mas quantos de nós já viram sua famosa trilogia sobre os habitantes da Île-aux-Coudres ou os filmes que ajudaram a construir uma ideia de cinema tipicamente quebequense?

Por se basearem fortemente na fala e nas tradições populares, os filmes de Pierre Perrault inspiraram um certo nacionalismo no Québec, espremido num país majoritariamente anglófono. Mas seu enfoque vai além do registro preservacionista e tangencia uma poética do real. Em Pour la Suite du Monde, por exemplo, a fascinação dos pescadores pelos marsouins (belugas, ou pequenas baleias brancas) é tão importante quanto o projeto de capturá-las. A pesca da beluga torna-se mais uma tradição a ser conservada no vilarejo muito católico, assim como as festas da Micarena (Meia-Quaresma) ou a devoção às “almas do purgatório”.

Por pouco essa opra-prima não existiria dessa forma. Perrault queria representar os habitantes da Île-aux-Coudres com atores profissionais. Foi o cineasta Fernand Dansereau quem apresentou Perrault a Michel Brault, levando o projeto para a seara então nascente do documentário de observação.

Na história do cinema documental, Pour la Suite du Monde representa uma revolução na ideia de reencenação. Se Robert Flaherty, em Nanook, o Esquimó e O Homem de Aran, dissimulou o fato de que estava encenando velhas práticas de pesca já em desuso, no filme de Perrault essa retomada é o próprio assunto do filme. Os ilhéus discutem como farão para reavivar um método abandonado havia quase 50 anos. Explicitamente, é o filme que os leva a se lançar mais uma vez à captura da beluga por meio de um cercado de varas no meio das águas. A câmera de Michel Brault (o cinegrafista de Crônica de um Verão) acompanha todo o processo de convencer os mais velhos, montar o aparato e mobilizar a vila para o grande momento. E por fim transportar uma beluga viva até um aquário em Nova York. Não há, portanto, encenação, mas uma ação deliberada de voltar-se para o passado a fim de manter viva uma tradição.

O prazer de ver o filme se espalha pela visão idílica da “Ilha das Avelaneiras”, a graça peculiar dos personagens e seu dialeto, a sensibilidade da câmera em seguir os passos e gestos das pessoas, a sutil passagem do encenado para o espontaneamente vivido.                        

Já no filme seguinte, La Règne du Jour (O Reino do Dia), Perrault adota um procedimento mais, digamos, rouchiano. Sete anos depois do filme anterior, ele volta à Île-aux-Coudres e convida o velho Alexis Tremblay, sua mulher e o filho para uma viagem à Bretanha (França), a terra de seus antepassados. O filme foi montado com as filmagens da visita, que durou um mês, e os comentários do trio de volta ao Québec. O que eles fazem é cotejar os modos de vida rural dos dois países, em busca de continuidades e contrastes entre a mãe-França e o “filho abandonado”, o Canadá francófono. O tema do filme é a busca de uma matriz étnica, assim como a ilustração de uma dialética entre tradição e modernidade.

La Règne du Jour testemunha uma evolução do cinema de Perrault na direção de um estilo mais solto e uma montagem mais liberta do tempo real, inspirados talvez na descontração dos personagens em suas raríssimas férias turísticas. A família Tremblay, com suas discussões ásperas entre pai e filho e o carinho rústico entre os velhos cônjuges, forma um conjunto de personagens inesquecíveis que atravessam esses dois filmes.

Desconheço o restante da obra de Pierre Perrault e como ele levou adiante o pioneirismo dos canadenses no cinema direto. Sei, porém, que se manteve fiel ao procedimento de propor uma atividade ou uma viagem a seus personagens para assim revelá-los em plena ação.

Cerca de 20 filmes dele podem ser vistos na íntegra no site do Office National du Film du Canada, mas com a desvantagem de estarem quase todos sem legendas – e não adianta muito saber francês para decifrar o québécois predominante. Daí a importância dessa mostra subtitulada em português no Instituto Moreira Salles. Nos dias 24 a 26, no mesmo local, um colóquio sobre a obra de Perrault reunirá 18 estudiosos do documentário, incluindo Michel Marie, Phillipe Dubois, Marc-Henri Piault, Silvio Da-Rin e Fernão Ramos.

Confira aqui a programação e outras informações sobre o evento.

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