Paraíso à moda austríaca

Paraíso: Amor

O diretor austríaco Ulrich Seidl jamais seria chamado para dirigir Mary Poppins.  Não só porque uma produção Disney não caberia no estilo austero dos seus planos fixos e atuações hipernaturalistas, mas sobretudo porque sua visão de mundo é tudo menos cor-de-rosa. Depois de realizar diversos documentários (um deles sobre pessoas que têm relações amorosas com animais), consagrar-se com o acachapante Dias de Cão e exceder-se no exploratório Import/Export, ele carimbou definitivamente sua marca com a trilogia Paradies (Paraíso).

O projeto foi concebido inicialmente como um único longa-metragem, mas no processo de produção se repartiu em três. Cada um se refere a uma das três virtudes teologais: fé, esperança e amor (ou caridade). As histórias são protagonizadas por pessoas de uma mesma família. Em Paraiso: Amor, a gordinha Teresa (Margarete Tiesel) deixa a filha de 13 anos na casa de sua irmã e parte em férias para fazer turismo sexual no Quênia. Em Paraíso: Fé, a irmã de Teresa, que agora sabemos chamar-se Anna Maria (Maria Hofstätter), emprega suas férias numa cruzada missionária para tentar converter desconhecidos ao Catolicismo. Em Paraíso: Esperança, Anna Maria deixa a sobrinha, que agora sabemos chamar-se Melanie (Melanie Lenz), numa clínica de emagrecimento, uma espécie de spa militaresco para adolescentes.

O amor, na verdade, é a busca fundamental para essas três mulheres solitárias. Teresa anima-se com a perspectiva de conseguir um amante negro no Quênia. Entrega-se aos rituais de sedução recíproca que alimentam o turismo sexual, mas o caminho para o sucesso é penoso. Ela não quer a brutalidade ingênua dos amantes africanos. Tenta ensinar-lhes uma medida de ternura. Acaba por cair no jogo da exploração (também recíproca), em que os europeus entram com o dinheiro e os africanos com a disposição de extorquir o quanto possível. A idealização do amor romântico e exótico se desfaz como ondas na areia da praia do mercado.

Paraíso: Fé

Já Anna Maria, em Fé, acredita (não muito piamente) que tem um caso de amor com Jesus Cristo. O fervor a leva a flagelar-se diante do mesmo crucifixo que usa para acariciar e masturbar-se na cama. Ela costuma bater na porta de desconhecidos com uma imagem de Nossa Senhora Peregrina e acolher em sua própria casa reuniões de uma liga empenhada em restabelecer o Catolicismo na Áustria (o contingente de católicos tem caído nas últimas décadas, embora a religião ainda seja dominante). O idílio de Anna Maria com Cristo é perturbado pela volta repentina  do ex-marido, um imigrante muçulmano agora em cadeira de rodas. A guerra conjugal vai assumir ares de guerra religiosa, uma espécie de via sacra de um casamento.

Melanie, a protagonista de Esperança, está menos interessada em perder peso do que em conquistar o afeto do médico da clínica, um homem de meia-idade que a envolve com brincadeiras fetichistas mas evita uma aproximação real. Melanie partilha o dia-a-dia da instituição, especialmente as farrinhas, assaltos à cozinha e papos típicos de meninas, enquanto tenta ingenuamente concretizar seu primeiro amor. Mesmo nesse filme, o menos impiedoso dos três, estão presentes a amargura e a ameaça do trauma sexual, ingredientes permanentes do cinema de Ulrich Seidl.

Paraíso: Esperança

Seidl é um crítico feroz das veleidades da burguesia austríaca e das relações de exploração e subjugação entre ricos e pobres. O campo onde essa crítica se dá são os corpos dos seus personagens. Há uma crueza nada espetacular na maneira como ele mostra obesos, deficientes físicos, mas também os corpos esbeltos dos africanos. O corpo é o território da submissão, da vergonha, do sacrifício, da culpa, da busca pelo prazer e pelo dinheiro. A ordem e a transgressão empreendem uma batalha em torno desses corpos , que podem ser casos clínicos e focos de transtornos mentais.

A austeridade dos quadros sempre fixos se combina com o detalhismo minucioso das atuações naturalistas e as narrativas episódicas, em que as cenas – assim como os filmes no todo – se interrompem a meio-caminho, espicaçando a curiosidade do espectador e criando uma fascinante atração pelo que vem adiante. Esses recursos, ao mesmo tempo que magnetizam nossa atenção, geram um distanciamento que está na base do olhar crítico do diretor. Compreendemos o que se passa com os personagens, mas nunca nos identificamos com eles nem somos levados a “embarcar” em suas trips.

E aqui uma observação impertinente: para mim, isso é narrar processos sociais criticamente, e não a orgia alvoroçada de Scorsese em O Lobo de Wall Street. Ali, os excessos da linguagem aderem aos excessos do tema e tornam imperceptíveis as nuanças entre deslumbramento e discernimento. Resta o moralismo como juízo final. Nos filmes de Seidl, estamos aptos a perceber os mecanismos de cada fenômeno e construir nossos próprios juízos.

       

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