Escritores em apuros

DUAS IRMÃS, UMA PAIXÃO é tanto sobre amor quanto sobre economia. As duas coisas eram inextricáveis na elite da virada do século XVIII para o XIX, quando se passa a ação do filme. O fogoso mas frágil poeta Friedrich Schiller é objeto da paixão das irmãs Charlotte e Caroline von Lengefeld, que fazem um acordo para compartilhá-lo. Esse arranjo fraterno será posto à prova com o tempo, envolvendo sacrifícios, desconfianças e rompimentos. Com as relações amorosas submetidas ao jugo da sobrevivência material em tempos de Revolução Francesa, a vida dos enamorados agonizava no calvário dos negócios. Esse pano de fundo é o menos desinteressante num filme que deixa à vista as deficiências de uma minissérie condensada – e ainda assim interminável. Dados como a evolução da tipografia e do mercado editorial não encontram lugar orgânico na narrativa. Além disso, falta carisma e sobra convencionalismo no estilo do diretor Domink Graf, afeito à linguagem da televisão e que abusa de zooms e sobreposições enjoativas. A intenção de reproduzir uma atmosfera ligada ao Romantismo se reflete num tom untuoso, pontilhado de cartas, candelabros e imagens suavizadas. Se esse foi o filme indicado pela Alemanha para concorrer ao Oscar, então convém nos preocuparmos com o estado do cinema alemão.


Quando Paul Haggis ganhou o Oscar com “Crash”, eu apreciei o filme e muita gente boa detestou. Agora, com TERCEIRA PESSOA, preciso reconhecer que Haggis fez um crash – um desastre. Experimentando de novo a fórmula do multiplot, ele intercala três histórias sobre encontros e separações amorosas, cada uma contendo também um caso de pais culpados em relação ao destino dos filhos. No curso dos acontecimentos, falsas contiguidades, paralelos estranhos e alguns “túneis” narrativos entre Nova York, Paris e Roma indicam que há algo mais que simples realidade em tudo o que se vê. Até aí, tudo bem. O que compromete seriamente o filme é a qualidade do que se conta. Os três plots são insuportáveis por razões distintas: as fantasias do escritor (Liam Neeson) com sua amante são aborrecidas e vazias; as tentativas de Mila Kunis de recuperar o direito de ver seu filho patinam no melodrama vulgar; e a insistência de Adrien Brody em ajudar uma cigana romena a recuperar sua filha das mãos de supostos traficantes chega às raias do ridículo. Nada ganha consistência ou plausibilidade, seja como trama literária ou cinematográfica. Até as locações são canastronas, para não falarmos das poses e caretas do elenco. Meu diagnóstico: Paul Haggis se colocou na pele de um mau escritor e mostrou ser hoje um péssimo cineasta.


Bem superior ao brucorático “Para Sempre Alice” e mais próximo do excruciante “Amour”, IRIS, de Richard Eyre (2001, lançado aqui em DVD), aborda a vida da escritora e filósofa irlandesa Iris Murdoch em dois períodos: a juventude, quando começou o romance com o crítico literário John Bayley, e os anos finais, quando passou a sofrer de Alzheimer. Em comum com a personagem ficcional de Julianne Moore há o trabalho com o intelecto e a linguagem, o que supostamente afetaria o enfermo em maior profundidade (ou pelo menos simbolicamente). Mas IRIS é sobretudo um filme sobre o casal. A doença da mulher, após mais de 40 anos de vida em comum, chega para John como a confirmação de uma suspeita: a de que ele jamais participou plenamente do mundo de Iris. Moderna, brilhante e cultora da liberdade no amor (foi rumorosa amante de Elias Canetti), ela divergia do temperamento retraído e dependente de John. Ainda assim, se amaram e foram cúmplices todo o tempo. Não é lá muito criativa a forma como o roteiro faz paralelos forçados entre os episódios dos anos 1950 e 1990, nem tampouco a narrativa um tanto televisiva. Mas isso é imensamente compensado pela sensibilidade da direção e o trabalho do elenco, numa escalação mais que perfeita. Kate Winslet e Judi Dench, ambas magníficas, parecem exatamente as duas idades de uma mesma mulher. O mesmo se pode dizer de Hugh Bonneville e Jim Broadbent (Oscar de ator coadjuvante) no papel de John – aliás, o personagem mais importante a meu ver. Não é uma biografia da escritora, mas flashes da biografia de um casal, com os efeitos trazidos primeiro pelas diferenças, depois pela doença. Um filme sugestivo e comovente. Agradeço a Theresa Jessouroun e Alessandra Sholnick pela recomendação e o DVD.


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