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Poucas coisas são mais desafiadoras no cinema brasileiro do que fazer documentário sobre escola de samba e favela. Muitos formatos já foram utilizados, muitas histórias já se repetiram de filme para filme. O cenário é uma beleza, mas está congestionado de clichês. MEMÓRIA EM VERDE E ROSA não consegue escapar dessa armadilha. Em si, a proposta de centrar o foco na Velha Guarda para relembrar o passado e comentar o presente da Mangueira é digna de atenção. O resultado, porém, não ultrapassa a superfície do esperável.

Veteranos sambistas recordam os velhos tempos da favela e da escola, coadjuvados por arquivos de Cartola, Geraldo Pereira e cenas de “Partido Alto”, de Leon Hirszman, e de um curioso “École de Samba”, doc curto francês de 1963 (disponível aqui). O protagonista, de radiante simpatia, é Tantinho da Mangueira, laboratorista fotográfico e guardião da memória da escola. Na cena de abertura, ele aparece revelando uma fotografia e assim introduzindo o dispositivo do ressurgimento da memória.

O filme de Pedro Von Krüger se ressente de uma narrativa um tanto errática, em que informações históricas (poucas) e lembranças do cotidiano se misturam a considerações genéricas sobre o samba. As falas se dispersam por falta de uma estrutura que as coloque em contexto. As imagens, ilustrativas, incidem nos chavões de crianças brincando, sambistas cantando na rua ou em mesas de bar, gente preparando desfile, etc.

O interesse cresce no último ato, quando as vozes se insurgem contra a invasão da classe média e o embranquecimento e industrialização da escola. Mas o filme, em lugar de esposar essa perspectiva, parece fazer o contrário: embarca no embelezamento da megalomania e conclui com uma deslocada apoteose no Sambódromo. A ausência de um viés crítico e de uma mínima busca de originalidade limita bastante o projeto.