A Ucrânia é aqui

O paranaense Guto Pasko, descendente de imigrantes ucranianos, tem sido uma versão contemporânea do clássico cronista de aldeia, aquele narrador dedicado a contar a história e o cotidiano do lugar onde vive. Ele não mora mais em Prudentópolis, onde nasceu, mas mantém com a cidade um vínculo profundo que já lhe inspirou três longas-metragens.

O primeiro, de 2007, foi Made in Ucrania, em que tratava das várias levas da imigração ucraniana para o Brasil e da preservação de traços culturais na terra adotada (leia texto mais abaixo sobre esse filme). Depois veio Iván (2012), focado na família de um personagem do filme anterior, o artesão Iván Bojko, de biografia altamente dramática (leia aqui).

No recente festival Olhar de Cinema, em Curitiba, Guto estreou ENTRE NÓS, O ESTRANHO, tomo final de uma trilogia. Gravado em Prudentópolis em 2015, esse documentário troca a abordagem interativa dos outros filmes por uma mirada mais observacional. Desde as primeiras tomadas, cheias de um sentimento local que Humberto Mauro imprimia muito bem nos seus filmes sobre Minas, Guto nos sintoniza com aquele enclave ucraniano no sul brasileiro. O trabalho na lavoura, as atividades domésticas, a preparação de iguarias típicas, o armazém, a escola, a estação de rádio, as cerimônias religiosas, as festas folclóricas povoadas por dançarinos cossacos – tudo nos leva a uma imersão etnográfica sem intermediários. De vinheta em vinheta, vamos compreendendo um pouco do espírito do lugar.

O que primeiro impressiona é a beleza. Como já havia demonstrado nos dois outros filmes, o diretor tem uma sensibilidade especial para capturar a estética da arquitetura, da decoração e dos hábitos da colônia, inserindo-os no quadro maior da paisagem natural.

Talvez por ter as filmagens concentradas na época da Páscoa, o doc acaba sugerindo ser a igreja católica que rege a vida e a morte na colônia. Três igrejas, pelo menos: a brasileira, a ucraniana e a polonesa. Não estranha mesmo que a influência da religião seja tão grande entre imigrantes daquela origem. É sintomático, portanto, que a atmosfera seja dominada por um ar de conservadorismo, ferido somente nas sequências finais, quando a Festa da Soja dá lugar ao surgimento de jovens em atitudes mais provocantes. A Prudentópolis “pagã” poderia ser um mote para Guto avançar rumo a uma tetralogia.

Seu foco, porém, é discutir como os costumes ucranianos se impuseram na região, mesmo sobre os não imigrantes, na medida em que se lutava para preservá-los e assegurar o uso da língua de origem. Vários depoimentos em off dão conta dessa dinâmica, com leves insinuações de um conflito social perceptível somente para quem mora lá. Guto explica o título do filme: “Para os ucranianos, os não ucranianos são os ‘estranhos’ e, para o resto da comunidade, os ucranianos sempre foram o ‘estranho’ entre eles, que chegaram e enfiaram goela abaixo suas tradições e costumes. Mas nos últimos tempos, principalmente para a maioria dos jovens da comunidade ucraniana, o ‘estranho’ são os próprios ucranianos e suas tradições”.

Texto de 2007 sobre Made in Ucrania, publicado no antigo DocBlog

Guto Pasko transpira Ucrânia e se emociona ao falar do filme. “É um ajuste de contas com meu passado e um pedido de desculpas à minha família por velhos problemas de relacionamento”, explica. E acrescenta: “Mas a história do povo ucraniano é também uma boa história para contar”. O filme, portanto, é um painel bastante abrangente, em que se alternam historiadores, descendentes inseridos na vida pública e simples famílias camponesas que ainda se expressam numa mescla do ucraniano com o português. A edição costura seus depoimentos de maneira a formar uma narrativa coesa e clara de fatos históricos e episódios da vida privada. O Brasil tem cerca de 400 mil “ucranianos”, sendo cerca de 80% no Paraná.

Como tantos descendentes, Guto só falava o ucraniano até os oito anos de idade. Seus pais tinham um sonho: que ele fosse padre. Mas Guto não estava disposto a pagar promessa alheia. Entrou num cinema pela primeira vez aos 15 anos e hoje, aos 31, tem uma produtora e agência de atores, e preside a Associação de Vídeo e Cinema do Paraná. Vive em Curitiba e frequenta com moderação a casa da família numa colônia ucraniana em Prudentópolis. Embora apareçam o sítio e seus familiares, Made in Ucrania não é um doc de cunho pessoal. O projeto é assumidamente didático e horizontal, cobrindo História, política, cultura, religião e costumes. Aqui e ali, o roteiro abre espaço para um evento mais, digamos, cinematográfico: Guto leva uma senhora paranaense para conhecer uma prima e uma tia que nunca saíram da Ucrânia. Os encontros produzem momentos de legítima emoção e algumas surpresas. E ainda concretizam a ponte que o filme constrói todo o tempo através da edição e das referências das pessoas à pátria original. De alguma maneira, a Ucrânia real de hoje ainda é – e ao mesmo tempo não é mais – a Ucrânia mítica da memória dos que partiram há muitas décadas.

Este é o terceiro filme de Guto Pasko, que se diz um “aprendiz de cinema e de política”. Sua estreia na direção se deu com o longa de ficção Sociedade, que ele classifica como “minha experiência lynchiana”. Foi feito com equipamento emprestado e passou num circuito alternativo, apenas em municípios paranaenses. Em seguida, com Maria Fernanda Cordeiro, co-dirigiu o DOC-TV Antonina, Morretes e Paranaguá Unidas pela História, sobre as rivalidades entre as três cidades.

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