Como fui parar na ilha do vômito e do desespero

Vocês já conhecem Gurcius Gewdner? Eu só conhecia de nome até o dia em que ele me mandou uma mensagem pedindo que visse seu novo longa, PAZÚCUS, A ILHA DO DESARREGO. E apontava uma razão para meu possível interesse: o protagonista se chama Carlos.

Depois de certa idade, tenho procurado não perder tempo com certos gêneros de filme. Horror trash é um deles. Mas a gentileza do Gurcius, sua já grande reputação no underground contemporâneo e o tal Carlos me renderam. Tomei um comprimido contra enjoo e me lancei à aventura.

Não me arrependi.

Carlos é atormentado por uma espécie de prisão de ventre psicanalítica. Ouve vozes vindas do seu estômago e tenta desesperadamente evacuar. (Uma nota: preciso não estragar as surpresas porque o filme ainda vai fazer o circuito de festivais e tentar um lançamento em cinemas). (Outra nota: pessoas suscetíveis à escatologia devem parar a leitura aqui).

Em seus estertores, Carlos cambaleia pelas ruas de Florianópolis vomitando em texturas e cores variadas, tentando evitar que o organismo se inverta e o pior aconteça pela sua boca. Para agravar as coisas, seu psicanalista o odeia e sai também pela cidade armado com um machado (de papel) para matá-lo. O problema é que o doutor Roberto vê Carlos em quase tudo o que aparece na sua frente.

Gurcius e sua produtora Bulhorgia fazem música e cinema há 20 anos no Sul. Entre suas admirações e influências alinham-se Roger Corman, Mojica, Zulawski, Lucio Fulci, Ivan Cardoso, Ken Russell, Petter Baierstof, John Waters, o Cinema Marginal brasileiro e… Os Trapalhões. Com destaque para Carlos Reichenbach, regiamente homenageado com o nome do protagonista de PAZÚCUS. Esse filme teve participação de Cavi Borges na produção e créditos animados a cargo do não menos irreverente Christian Caselli. Tem sido divulgado e exibido no exterior com o título de Pazucus: The Island of Vomit and Despair. Que eu saiba, é o segundo longa do diretor, precedido pela famosa animação Mamilos em Chamas, estrelada por dois coelhos mortos. O currículo do rapaz é repleto de curtas, um dos quais foi excretado do material de PAZÚCUS e lançado antes. Chamava-se Bom Dia, Carlos e apresentava nosso simpático personagem.

Tanto Carlos quanto o psicanalista são vividos pelo incrível e extraordinário Marcel Mars, um dos integrantes da trupe nada profissional, mas muito talentosa de Gurcius. Muitos deles assinam suas participações com nomes improváveis como Garganta Silva, Amexa, Eloah Haole, Hardgar Garcia e o próprio Gurcius Gewdner (na certidão, Gustavo Gewehr). Alguns passam o filme inteiro com o rosto coberto por máscaras grosseiras e gosmentas. São as fezes de Carlos que conversam à espera do momento mágico em que enfim sairão por um buraco para o mundo exterior, para a dimensão do futuro. Na verdade, um plano metafísico parece estar em ação. Os monstros fecais estão fadados a inundar Floripa a partir do mar e, quem sabe, levar o universo ao apocalipse.

Dito assim, pode parecer pura escatologia juvenil. E é, mas não só. Gurcius sabe retirar um humor físico quase sempre eficaz de toda aquela porqueira. Se abstrairmos a natureza do que vemos, dá pra encontrar até certa beleza psicodélica. Sem falar no evidente gume crítico que fustiga os clichês do cinema de horror, do consumo, do bom gosto e do espírito “manezinho” da ilha catarinense. São muitas as ironias com o bucolismo, a fauna silvestre, a piedade ecológica, os apelos de vida saudável, a juventude festeira de Floripa. Um casal apaixonado (Gurcius Gewdner e Priscilla Menezes) entrega-se aos prazeres do acampamento e acaba descobrindo as maldições da floresta, os perigos do mar, a culpa ambientalista e o horror diante de “um pobre!!!”.

O humor gewdneriano funciona a partir da hipérbole. Por isso é necessário entrar numa espécie de código, assim como fazemos para aceitar que os cantores de ópera falem cantando ou que as heroínas de melodrama antigo chorem em cântaros. Só que em PAZÚCUS até as lágrimas são de matéria fecal. Os vômitos cortam os ares como chafarizes pollockianos. As falas são todas em gritos guturais ou falsetes falsificados. Os objetos de cena são fake, a edição é anárquica. O uso de milhões de músicas não poderia ser mais pândego.

O bacana é que de dentro de todo esse caos desponta uma estranha unidade. Da ojeriza ao perfeccionismo narrativo, cenográfico e dos efeitos especiais nasce uma genuína alegria no fazer cinematográfico. Da meleira absoluta e radical irrompe uma limpeza de propósitos, um compromisso com o fundo do poço.

Eu não me chamaria Carlos se não terminasse com esta nota final: a onda de merda e vômito que ameaça se abater sobre Pazúcus pode bem simbolizar o brasil de hoje, já inundado talvez no pior esterco político de sua história. Uma boa razão para o filme do Gurcius entrar em cartaz o quanto antes.

Abaixo, um trailer inspirado em Um Longo Fim de Semana (Long Weekend), filme australiano de Colin Eggleston que é intensamente parodiado em PAZÚCUS.

4 comentários sobre “Como fui parar na ilha do vômito e do desespero

  1. Apesar do ótimo texto simpático ao filme, a descrição escatológica fará com que entre na minha lista dos títulos que eu não posso deixar de perder.

  2. Carlinhos, genial. Detesto horror, mas vivi enorme prazer cômico vendo o trailer (que boa ideia anexar o teaser dos filmes às criticas) e prazer estético lendo o texto e sua infinita capacidade de ver além das imagens e os significados descritivos. Abraços,

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