O vestido sem gente dentro

Melhor seria chamar TRAMA FANTASMA de “Costura Fantasma”, já que a relação entre o estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e a ex-garçonete Alma (Vicky Krieps), tomada como sua musa e amante, se dá por linhas bastante misteriosas, quase invisíveis para o espectador. Como em todos os seus filmes, Paul Thomas Anderson cria um código próprio para a conduta dos seus personagens, sem relação obrigatória com a psicologia ou o naturalismo. Às vezes dá certo, outras não.

Reynolds, com toda a carga de masculinidade sugerida pelo sobrenome Woodcock, é um homem mimado ao extremo por si mesmo e pelos outros, presa de um vínculo fetichista com a mãe morta e com a irmã dominadora (Lesley Manville) que gerencia sua maison. Não é apenas por ser um costureiro que ele, na primeira noite com a nova namorada, a veste em vez de despi-la. O caráter platônico daquele amor tem um quê de rigor mortis.

Alma, por sua vez, é justamente a alma disponível que transita entre a admiração, a submissão e a auto-imposição. Sua perseverança em cavar um lugar de legitimidade na vida do costureiro a leva a limites opostos na ética da convivência amorosa. O melodrama se pauta numa batalha de vontades – algo repetitiva, diga-se – entre diversas formas de arrogância.

À medida que avança a trama, as coisas se põem cada vez mais estranhas, pontuadas por referências muito britânicas à alta costura e à gastronomia. O relacionamento tóxico entre os protagonistas caminha para uma síndrome doentia que parece contaminar o próprio filme, que vai ficando mais e mais enfraquecido. Uma Inglaterra pós-II Guerra, mas ainda de espírito vitoriano em sua elite, aparece de maneira sufocante na casa-atelier, em cujos interiores se passa quase toda a ação. A trilha sonora de Jonny Greenwood, ora glamurosa, ora sinistra, não deixa espaço para o espectador ouvir a “música” que poderia emanar da simples dramaturgia.

Apesar de toda a elegância e magnetismo na direção e na fotografia de P.T.Anderson, assim como na atuação minuciosa de Day-Lewis (supostamente sua última), o filme me trouxe uma certa decepção pela futilidade e o sabor ultrapassado do enredo. Como um vestido suntuoso e pesado, mas ao qual falta a luz de alguém para vesti-lo e levá-lo para conhecer o mundo.

3 comentários sobre “O vestido sem gente dentro

  1. Primeira vez eu discordo totalmente de sua análise; acho que P.T. A. aponta N nuances dos relacionamentos humanos – que não possuem uma lógica clara ou aparente… Não achei o filme frio nem fraco… fiquei siderada, assim como minha amiga…

    • Esse filme dividiu bastante as opiniões. Pelo visto, ficamos de lados diferentes. Que pena. Antes isso do que a unanimidade irrefletida, não é mesmo? Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s