O bar das paixões brutas e ternas

INFERNINHO – Festival de Brasília

Era uma vez Deusimar, que tinha o sonho de ir para bem longe, algum lugar exótico do outro lado do mundo. Mas ela nunca conseguiu sair do bar “Inferninho”, herança de família. No palquinho se apresenta uma cantora desafinada, acompanhada por um clone do pianista Liberace. Nas mesas amontoam-se super-heróis, Marilyns, Mickey. Um dia, entra ali Jarbas, marinheiro misterioso, e a paixão é tão imediata quanto recíproca. Em outro dia, adentra o bar um representante do governo querendo comprar o imóvel para dar lugar a um grande empreendimento. A história de Deusimar dá nova pirueta, que não será a última.

INFERNINHO não é nenhum Paraíso Perdido, mas também tem um charme especial. Deusimar é travesti, interpretada de maneira intensa pelo ator Yuri Yamamoto. Toda a atmosfera do bar transpira os primeiros Fassbinder, somados a um pouco de Querelle. O filme só sai dali para as viagens imaginárias da proprietária, filmadas em cromaquis toscos e comoventes. A estética de papel crepom combina bem com a proposta de uma fábula romântica e ao mesmo tempo patética.

O filme assume com gosto a precariedade de produção e a transforma numa qualidade. Os climas contrastantes, as luzes artificiosas, a trilha sonora bizarra, as alusões paródicas, tudo conflui para uma celebração simpática – e não derrisória – do kitsch. Mas, longe de ficar só nisso, o roteiro lida bem com as paixões brutas dos personagens e compõe um quadro de ternura em torno da melancólica Deusimar. O ator Rafael Martins, no papel do barman Coelho, tem um monólogo de grande pungência, ele que escreveu o roteiro junto com os diretores Guto Parente e Pedro Diógenes.

Esta é mais uma pequena pérola do novo cinema cearense que emergiu há cerca de oito anos. Filmado num atelier de arte em sítio do município de Cascavel, INFERNINHO resulta da parceria entre a produtora Alumbramento e o Grupo Bagaceira de Teatro. Apesar de algumas perdas de ritmo e toques ocasionais de amadorismo nas atuações, chega como um conto divertido e tocante sobre as peripécias do amor e o adeus à caretice.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s