Será possível gostar dessa mulher?

PODERIA ME PERDOAR?

Falsificadores e ladrões de documentos e de obras de arte costumam ser retratados no cinema, senão com a mesma simpatia dos grandes artistas, pelo menos com uma boa dose de condescendência. Basta lembrar de Verdades e Mentiras, de Orson Welles, ou do recente documentário brasileiro Cartas para um Ladrão de Livros, cujo personagem está sendo levado de novo ao cinema com atores. A escritora Leone Carol “Lee” Israel (1939-2014), em cuja autobiografia se baseou PODERIA ME PERDOAR?, a princípio, parece fugir a essa regra.

Na pele da excelente atriz Melissa McCarthy, Lee Israel é apresentada como uma mulher intratável, rejeitada até pelo seu gato de estimação. Alcoólatra, pouco higiênica, inconveniente e despeitada em relação a escritores de sucesso, ela está em séria crise financeira quando descobre a possibilidade de falsificar cartas de grandes escritores e vendê-las no mercado de relíquias literárias. Entre o êxito e o medo de ser descoberta, Lee vai tornando seu esquema cada vez mais ousado e perigoso.

Como todos os que perseveram na fraude e conseguem transformá-la em obras de arte, Lee Israel acaba plantando no espectador uma semente de estima. As cartas que ela forja em nome de Dorothy Parker ou Noel Coward nascem de uma pesquisa amorosa. E, afinal, ela é somente uma biógrafa provavelmente medíocre, homossexual solitária, cuja vida de uns tempos para cá deixou de lhe sorrir. Certo consolo lhe aparece nas figuras de uma livreira carinhosa e de um traficante, igualmente gay e pobretão, que rapidamente se torna seu melhor (porque único) amigo. E vice-versa.

Melissa transmite uma adequada combinação de mau caráter e vulnerabilidade, o bastante para manter a personagem à margem tanto das normas éticas, quanto do esnobismo dos círculos literários. Em relação a esses últimos, pode-se dizer que Lee era “uma autêntica”. A falsificação não deixa de ser uma contestação das regras e dos fetiches do meio artístico. Richard E. Grant, por sua vez, esbanja afetação competente no papel de Jack Hock, o nem sempre fiel escudeiro de Lee.

A direção da ex-atriz Marielle Heller não tem brilho especial, mas é feliz ao colocar suas fichas no pequeno elenco. Daí que as divertidas interações entre Lee e Jack, ou a terna relação de Lee com a livreira Anna (Dolly Wells), se sobreponham ao interesse da história principal. Ainda assim, à maneira de sua protagonista, PODERIA ME PERDOAR? resiste como um filme perfeitamente amável.

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