Jogo de cena

LEMBRO MAIS DOS CORVOS e o curta TEA FOR TWO estreiam juntos nesta quinta com debate às 20h no Espaço Itaú de Cinema (Rio)

Uma madrugada de insônia, uma mulher e um câmera apontada para ela. Nada mais. E nem precisava, se essa mulher é Julia Katharine, uma transsexual com muita coisa para contar. Em seu apartamento em São Paulo, ela se abre diante de Gustavo Vinagre. Além dela e da equipe mínima, somente o passarinho “Nuvem”, que gosta de se aninhar no pescoço de Julia. Cinéfila apaixonada, em dado momento ela diz que viu, sim, Os Pássaros, de Hitchcock, “mas me LEMBRO MAIS DOS CORVOS”.

Com calma e a intimidade de quem já realizou com ela três curtas, Gustavo procura fazer com que Julia se lembre de alguns “corvos” da sua vida: a relação abusiva com o tio-avô desde menino – que ela lamenta mas não condena –, a tentativa abortada de se prostituir, os tempos sombrios como dekassegui no Japão, a insatisfação com o próprio físico (“eu nunca fiz um corpo”).

Julia exala honestidade em seu monólogo através da noite. O que não significa que tudo o que diz é verdade, a julgar pela contradição explicitada em torno de um quimono. Seu jogo de cena, contudo, não põe em dúvida o essencial: eis uma mulher trans imune ao exotismo. Julia se envergonha sinceramente e parece preocupada com os limites de sua autoexposição. Durante a filmagem, ela estava conversando com um amigo, mas também perante uma câmera que a levava para o mundo. Tinha plena consciência disso, razão pela qual interrompia a cena com frequência para sopesar o que estava dizendo. Mas, ao mesmo tempo, era a atriz realizando um sonho herdado das várias atrizes que admira. “Eu adoro premiações” – é como explica o hábito de passar madrugadas inteiras vendo cerimônias de premiação de cinema no Youtube.

Na última Mostra de Tiradentes, Julia Katharine (o nome é homenagem a Katharine Hepburn) subiu ao palco para receber o Troféu Helena Ignez de destaque feminino. O filme já foi premiado no Cinéma du Réel e no IndieLisboa. Nas sessões do cinema, o longa será seguido do curta TEA FOR TWO, o primeiro dirigido por Julia e citado em LEMBRO MAIS DOS CORVOS (inclusive na “cerimônia do chá” com o diretor).

É uma pena que a diretora não tenha conseguido levar para o curta o tempo cênico e a cativante naturalidade demonstrados diante da câmera de Gustavo. TEA FOR TWO é um flash de triângulo amoroso envolvendo as atrizes Gilda Nomacce e Amanda Lyra, além da própria Julia. Ao contrário de tudo o que sua atuação no longa prometia, o curta naufraga na rigidez e numa dramaturgia canhestra. Lembremos mais dos corvos.

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