Copacabana sem dós de peito

COPA 181 estreia hoje nas plataformas Itunes, Net Now, Google Play, Vivo Play etc

A fama de Copacabana como reduto de solitários ganha mais uma contribuição com COPA 181, longa de estreia de Dannon Lacerda. No coração do filme está um casal  formado pelo empregado de uma pequena loja de materiais de construção e uma aspirante a cantora lírica. A natureza do vínculo entre eles, aparentemente platônico, é uma das interrogações que Lacerda calmamente semeia no espectador.

Cada qual tem o seu lado menos público. O silencioso Taná frequenta uma sauna gay, que dá nome ao filme, único lugar onde sorri abertamente. A perseverante Eros insiste nos ensaios da Habanera, de Bizet, mas não é na ópera que ela recebe aplausos. A melancolia dessas vidas só é quebrada pela alegre camaraderie entre clientes e “servidores” da sauna. Uma sessão de bingo e uma festa de aniversário são exemplos de como aquele oásis de intimidade e sexualidade livre opera na contramão de cotidianos sufocados pela rotina e as convenções sociais.

O contraste entre a sauna COPA 181 e o apartamento de Eros e Taná é evidente. Na primeira há luzes, sexo e humor. No segundo reinam o silêncio e uma ternura tácita a ligar o casal. Assim como o canto lírico e a música de cabaré aparecem como duas sonoridades de um mesmo desejo, também o escapismo da sauna e a introspecção doméstica convergem para a felicidade miúda de Eros e Taná (nenhuma ligação explícita com Tanatos, apesar do que o nome possa sugerir).


Dannon Lacerda enfoca com coragem e sem rodeios um pequeno universo pouco visto no cinema brasileiro, o das saunas gays masculinas. Combina essa coragem com um senso de medida e um olhar afetuoso pouco comuns no trato com esses ambientes e personagens. Na Copa 181 há ainda um contraponto ao par central na figura de uma faxineira travesti – e também cantora – escrava afetiva de um michê casado e machista que a explora e subjuga. A maneira como essas criaturas vão revelando paulatinamente suas camadas é um dos atrativos do filme.

A modéstia da produção é compensada pelo esmerado desempenho dos atores – especialmente Carlos Takeshi,  Simone Mazzer e Silvero Pereira – e pelas ótimas soluções encontradas junto ao diretor de fotografia Tiago Scorza. As cenas da sauna são especialmente felizes como criação de um misto de realidade crua e espaço quase onírico.

A cena urbana de Copacabana aparece como pontuação física e espiritual do microcosmo humano. O fato de Eros e Taná terem seus principais diálogos em exteriores do bairro, e não no interior do apartamento, reforça essa conexão entre gente e lugar.

COPA 181 canta Copacabana sem dós de peito. Cada momento de euforia é sempre seguido de uma bem-vinda retomada do tom menor. Sempre sugerindo mais do que diz explicitamente.

2 comentários sobre “Copacabana sem dós de peito

  1. Obrigado pela excelente crítica, Carlinhos. Nosso cinema precisa de olhares apurados como o seu pois isso incentiva-nos e ajuda-nos a melhorar sempre;

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