França agridoce

NORMANDIA NUA, resenhado por Paulo Lima

O filme NORMANDIA NUA, comédia dramática do diretor Philippe le Guay, que estreia no Brasil, utiliza a França profunda como motivo para discutir, ao que parece, velhas questões nacionais.

No longa-metragem, os agricultores da pequena Mêle sur Sarthe estão em pé de guerra contra o governo e seus impostos.

De imediato, pensamos nos protestos que têm sacudido aquele país, organizados pelos “coletes amarelos”, cuja origem traduz a insatisfação dessa França interiorana.

Mas o filme de le Guay, com a estrutura de uma crônica de costumes, aponta em outras direções.

Em meio às manifestações dos agricultores, surge na cidade um fotógrafo americano famoso que propõe usar um cenário da paisagem rural de Mêle sur Sarthe para executar uma foto em que os próprios habitantes do lugarejo devem posar como modelos. O detalhe: inteiramente nus.

Ainda que extremamente ousada para os padrões morais da cidadezinha, a proposta desperta o interesse do prefeito, que vê nela uma oportunidade de chamar a atenção para os problemas que atravessam.

Os preparativos para a foto e a resistência que ela enfrenta irão determinar o eixo narrativo do filme.

Na verdade, a ideia da nudez funciona como metáfora para tentar despir a visão idílica e pura da vida campesina, apontando seus valores arraigados e suas contradições. Neste sentido, le Guay chega mesmo a incluir um personagem que decide abandonar a vida em Paris para usufruir dos benefícios da paz do campo. Porém, é acometido por toda a sorte de sintomas físicos, em sinal de sua não adaptação.

Nas arestas oferecidas pelo filme, a mais curiosa é a presença do fotógrafo americano, que acaba por criar um clima de rejeição por parte de alguns moradores que se opõem à foto. Trata-se de uma alusão clara à velha rivalidade entre franceses e americanos, temporariamente apaziguada na época da Segunda Guerra, cujo final é apressado exatamente na Normandia, com o Dia D, aludido em breves cenas da película.

E assim, entre dores e risadas, le Guay expõe sua visão um tanto mais ácida da “França doce”, como a exaltou Charles Trenet em sua famosa canção.

PS.: Assisti ao filme no Cine Belas Artes (SP), cujo funcionamento está ameaçado por corte no patrocínio. A ironia, considerando a história do filme, não poderia ser mais direta.

Paulo Lima

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s