A escola no meio da vida

DIÁRIOS DE CLASSE

O documentário baiano DIÁRIOS DE CLASSE deixa entrever por que os bolsonaristas querem tanto intervir na educação. O filme estreou quinta-feira em 20 salas de 19 cidades do país pelo Projeta às 7, parceria da distribuidora Elo Company com a Cinemark. No Rio, no Shopping Downtown e em São Paulo nos shoppings Eldorado e Metrô Santa Cruz. De segunda a sexta-feira às 19h, até o dia 20/3. 

A escola, quando toma partido do aluno, é bem mais que uma escola. Em DIÁRIOS DE CLASSE vemos alguns exemplos disso em três instituições de Salvador. Num presídio feminino, as aulas de alfabetização são também – ou pelo menos procuram ser – um lugar de ressocialização. Numa escola para mulheres adultas, procura-se conscientizar as alunas quanto a preconceitos ligados a gênero e raça, assim como à condição das trabalhadoras humildes. Num abrigo para adolescentes, a educação pode ser um oásis de aceitação das diferenças.

Na direção, Maria Carolina da Silva e Igor Souza registram suas cenas como podem – às vezes com som deficiente e estruturação frágil, mas com atenção sempre afiada para situações definidoras. Daí emergem, aos poucos, três personagens principais. A personagem dramática é a presidiária Vânia, que teve um filho desaparecido e depois foi presa sob acusação de tráfico. A empregada doméstica Maria José, com sua verve de militante sindical, é a personagem afirmativa do filme. Por sua vez, Tifany, adolescente em descoberta da transexualidade, é a personagem performática que atua na contracorrente não só do padrão binário, mas também – e curiosamente – do próprio bom senso que o filme procura veicular.

Não há mensagens prontas, mas discussões e um radar aberto para contradições. De um lado, as ações de professoras e debatedoras na formação de uma mentalidade crítica. A palestra de uma ativista americana no presídio a respeito das heranças da escravidão é coisa que, atualmente, talvez só se veja mesmo na combativa Bahia. De outro lado, as pressões de uma consciência conservadora atávica e alimentada pelos evangélicos de Bíblia no sovaco.

DIÁRIOS DE CLASSE é filme vocacionado para suscitar debates sobre acesso à educação e à cidadania. Chega em boa hora, quando as recentes Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação, facultam que até 80% dos cursos sejam feitos à distância. Como na ditadura do século passado, o objetivo claro é desfazer a oportunidade de encontros como os que se veem nesse filme e desmobilizar o pensamento crítico nas escolas.

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