Labirinto mental

ALBATROZ

ALBATROZ talvez seja o primeiro filme brasileiro a tratar dos laços entre criatividade, neurociência e surrealismo.

Lembremos da definição de surrealismo por André Breton: “Automatismo psíquico puro, pelo qual se propõe expressar, verbalmente, por escrito, ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Manifestação do pensamento na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética e moral”.

O filme de Daniel Augusto, realizado a partir de roteiro original de Braulio Mantovani (Cidade de Deus, Tropa de Elite), Fernando Garrido e Stephanie Degreas, é uma sucessão veloz de fluxos de pensamento que não permite ao espectador ancorar-se em qualquer patamar de “realidade”. As perguntas sobre a verdade e as referências a clareza e obscuridade, mencionadas aqui e ali, são o filme comentando a si mesmo. Há até uma estação de trem chamada Phineas Gage, alusão a um operário americano que, depois de sobreviver ao atravessamento do crânio por um cano de ferro, mudou o comportamento e tornou-se um case da neurociência.

Se há um centro na trama, este é o fotógrafo Simão (Alexandre Del Nero) e o trauma sofrido durante viagem a Jerusalém, quando fotografou um atentado terrorista. Um livro sobre ele está sendo escrito por uma antiga namorada (Andréa Beltrão), que precisa explicar a presença do cadáver de Simão na sua sala. Este seria o plano, digamos, realista da história. Mas há outros.

Em algum lugar desse labirinto puramente mental, Simão precisa socorrer a atual namorada (Maria Flor), atender a um capricho da amante (Camila Morgado) e prestar-se às experiências de uma neurocientista (Andréia Horta), que lhe oferece a oportunidade de fotografar sonhos.

Entre a ficção científica, o drama psíquico e o experimentalismo audiovisual, ALBATROZ impressiona pela qualidade técnica e pela montagem estilhaçada. O fato de não fazer concessões ao desejo de ancoragem do público é sinal de coragem, mas cobra seu preço. Os surrealistas radicais tinham a vantagem de fazer filmes curtos. Manter esse trem desgovernado na tela durante 97 minutos pode frustrar os menos tolerantes para com a linearidade. Tempos, lugares, causas e efeitos explodem num caleidoscópio de imagens e sons para além de qualquer apreensão racional. São associações livres guiadas por um inconsciente artístico dentro de uma matriz flutuante.

O filme é também rigorosamente desaconselhável para os suscetíveis à estroboscopia, efeito do qual abusa à vontade. ALBATROZ tenta estabelecer uma conexão direta entre o cérebro de Simão e o do espectador. É uma viagem arriscada.

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